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O PREC 1 e o PREC 2

A formação da “geringonça” e a governação de António Costa fizeram muitos escribas recordar o Processo Revolucionário em Curso (PREC), quer pela efeméride das quatro décadas passadas desde esse período quer pela aliança aparentemente contra-natura do PS com partidos que combateu nos primeiros anos de democracia. No entanto, faz mais sentido estabelecer uma analogia entre 1974-1975 e outro “processo revolucionário”, o de 2011-2015, devido ao surpreendente paralelismo entre as duas tentativas políticas de transformar radicalmente o país. Claro que as diferenças são inúmeras, mas a dinâmica dos processos revela-se bastante semelhante. No texto seguinte (que não deve ser levado muito a sério), apresentamos uma narrativa comum aos dois PRECs, separando por barras os conteúdos opostos do PREC 1/PREC 2.

 

O campo revolucionário

 

Numa fase histórica bastante singular, ganhou protagonismo em Portugal um sector político defensor de mudanças profundas e desdenhoso dos moderados que se contentavam com tímidas reformas. Tratava-se de um conjunto heterogéneo, onde se destacava um partido dominante, o PCP/PSD, liderado por um homem popular entre as mulheres, Álvaro Cunhal/Pedro Passos Coelho, que se tornou o rosto principal do projecto de ruptura. Verificavam-se por vezes confrontos acesos entre as restantes formações da mesma área política e o partido hegemónico, mas todos partilhavam um objectivo, uma ideologia e um vocabulário comuns. Alguns políticos oriundos do campo revolucionário que atacavam o líder deste, como Arnaldo Matos/Manuela Ferreira Leite, eram considerados traidores e provocadores ao serviço do adversário.

 

A esquerda/direita radical enalteceu um grupo profissional específico, os proletários/empresários, elogiados e destacados ao ponto de deixarem na sombra o resto da população. Curiosamente, os dirigentes revolucionários, políticos profissionais há muitos anos, não constituíam exemplos do modelo ideal proposto. Em contraste com os grupos louvados, outros sectores, nomeadamente os capitalistas/funcionários públicos, eram considerados parasitas e acusados de sugar a riqueza nacional e contribuir com os seus privilégios injustificados para a manutenção do atraso e da pobreza. O discurso de ruptura dirigiu-se em particular aos jovens, incentivando-os a destruir o sistema caduco construído pelos mais velhos e benéfico apenas para estes. A luta contra o imobilismo e a promiscuidade entre política e negócios era o mote da actividade revolucionária, beneficiária de um forte apoio entre os intelectuais/economistas, os quais dispunham de grande espaço mediático e influência na opinião pública. José Gomes Ferreira foi um dos autores mais empenhados na defesa do ideal transformador, cujos adeptos retiravam a sua certeza da crença de que o modelo por eles proposto não era uma simples opção, mas sim o resultado obrigatório da realidade das coisas e do sentido da História.

 

Mais do que mudar o país, os grupos radicais pretendiam mudar os portugueses, cujas características não lhes agradavam. A maioria da população parecia-lhes demasiado apegada a hábitos antigos, como ir à missa/receber subsídios, e preocupada apenas com os seus interesses particulares. Os cidadãos deveriam assumir uma postura mais activa e criativa, em vez de se limitarem a queixar-se, e unir-se-iam em grandes esforços colectivos visando o sucesso nacional e nos quais os inevitáveis sacrifícios seriam recompensados por um futuro radioso. Um dos objectivos finais da Revolução seria a criação de um Homem Novo, apto a viver na sociedade transformada. Os revolucionários estimularam a luta das massas/dos indivíduos contra o sistema opressor, mas, após chegarem ao poder, passaram a apelar à paz social e à contenção das reivindicações, em nome da “batalha da produção”/do “ajustamento”.

 

 

O radicalismo no poder

 

O irrealismo e a imprudência de Spínola/Sócrates contribuíram para o controlo do Governo pelos radicais e o início de um processo revolucionário, simbolizado pela guinada do país à esquerda/direita verificada após o 11 de Março/o memorando da troika. A nova política económica assentou num vasto programa de nacionalizações/privatizações e no aumento/corte brusco das despesas do Estado, enquanto a distribuição do rendimento nacional foi alterada a favor do trabalho/capital. As medidas tomadas e a crise económica mundial agravaram a recessão e conduziram a uma subida acentuada do desemprego. Um grande número de técnicos qualificados abandonou o país, enquanto numerosas empresas enfrentavam sérias dificuldades ou fechavam as portas. O movimento revolucionário não obtinha o desenvolvimento que prometera. No entanto, o executivo liderado por um elemento do PCP/PSD manteve-se em funções, graças à tolerância e solidariedade do Presidente da República (curiosamente, o mesmo que sancionaria mais tarde o final da Revolução).

 

Acerca do contexto internacional, os sectores radicais disseram aos portugueses que estes eram independentes/estavam totalmente reféns do estrangeiro. No discurso comunista/liberal, vários países, como o Chile/a Grécia, serviam de exemplos daquilo em que Portugal não podia tornar-se, enquanto, entre as opções económico-sociais disponíveis na Europa, os sistemas albanês e soviético/irlandês e alemão tornavam-se modelos a copiar acriticamente. Inspirados pelo recuo global do liberalismo/da social-democracia, os revolucionários lusos sentiam-se apoiados por um poder externo, mostrando tamanha submissão a Moscovo/Berlim que eram acusados de colaboracionistas, apesar do seu discurso patriótico.

 

Com vista a doutrinar o povo de acordo com a ideologia oficial, os detentores do poder tornaram-se predominantes nos media, cujos jornalistas se viram pressionados pela ameaça de saneamento/despedimento. Inundadas por conteúdos parciais e técnicas de manipulação, a rádio, a imprensa e a televisão entraram numa espiral de descrédito e viram o público afastar-se. A educação, apesar da desconfiança da Revolução quanto aos professores, alguns dos quais tinham estado ligados ao antigo regime, foi outro meio de difusão do marxismo/empreendedorismo entre os jovens. A revisão dos programas e métodos de avaliação tornaria a escola, preferencialmente pública/privada, um espaço de formação dos novos portugueses. No entanto, viveu-se uma fase agitada nos estabelecimentos de ensino, onde muitas aulas não se realizavam devido à falta de autoridade/professores colocados.

 

Perante as dificuldades em converter toda a população ao seu ideário e os obstáculos levantados pela Constituição em elaboração/vigor, os esquerdistas/liberais apelaram sobretudo ao medo, transmitindo a ideia de que, se a política então em curso fosse abandonada, os responsáveis pela decadência passada voltariam a destruir o país e a ditadura/troika regressaria, ainda mais violenta. Com o passar do tempo e a resistência às manifestações de larga dimensão, os revolucionários acreditaram na vitória final a curto prazo. No Outono de 1975/2015, jogou-se o desenlace do processo e acontecimentos como o cerco à Constituinte/a vitória da PAF pareciam indicar o sucesso dos radicais, que surgiram triunfantes na televisão. De repente, contudo, Duran Clemente/Nuno Melo desapareceu do ecrã.

 

 Derrota e refluxo

 

Há muito que o PCP/PSD desejava neutralizar o PS através de um acordo que colocaria os socialistas numa posição subalterna e tornaria a Revolução irreversível. Um sector do PS estava, de facto, disponível para ceder, à semelhança do que já acontecera noutros países europeus, mas, após uma dura luta interna, o líder socialista compreendeu que, sem meios para extinguir sozinho o processo revolucionário, necessitava de se aliar a outros partidos com o mesmo objectivo. As divergências dos socialistas com o PPD e o CDS/o PCP e o BE eram muitas e levariam a conflitos futuros, mas os três partidos, seguindo a opinião maioritária nos seus eleitorados e os esforços unitários de Mário Soares, valorizavam mais as semelhanças entre si e sentiam que, se não se unissem para travar os revolucionários, dificilmente sobreviveriam. E assim, em Novembro de 1975/2015, o “arco da governação”/a “geringonça”, aproveitando o facto de controlar a maioria das unidades militares/dos lugares no Parlamento, derrotou e afastou do poder a esquerda/direita.

 

A tendência para a radicalização conheceu uma inversão súbita, acentuada após a eleição de um novo Presidente da República, célebre pela sua expressão facial permanentemente séria/sorridente e empenhado em reduzir a crispação política através de um discurso de união. O novo Governo, chefiado pelo secretário-geral do PS, começou progressivamente (embora não tão depressa como alguns pediam) a reverter as medidas tomadas durante o PREC. Cansada por um longo período de tensão social e mobilização permanente, a maioria da população apreciou a tranquilidade vivida na fase pós-revolucionária. Os defensores da Revolução denunciavam num tom indignado o avanço dos fascistas/comunistas, mas, apesar de manterem o domínio de jornais como O Diário e Diário de Lisboa/i e Observador, o seu discurso parecia cada vez mais exagerado e serôdio.

 

Entre activistas como José Manuel Fernandes, a sensação de que a revolução ficou inacabada, devido ao desperdício de uma oportunidade única, e a revolta com a forma como a burguesia/oligarquia conseguiu anular as conquistas alcançadas cresceram à medida que a “normalização” avançava e a sua ideologia perdia adeptos. Mais tarde, alguns autores de esquerda/direita apontaram o que consideravam ser a causa do fracasso: o PCP/PSD nunca fora um partido verdadeiramente revolucionário e contentara-se com um capitalismo/socialismo regulado. No entanto, para os revolucionários, a derrota sofrida não significava o fim da História. Embora longínquos, o desaparecimento do Estado e o fim da exploração do homem pelo homem/pela feminista aconteceriam um dia.