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O regresso de Santana

Ser presidente do PSD, ou melhor, do PPD/PSD, foi sempre o desejo de Pedro Santana Lopes (PSL). Já quando era criança, Pedro pensava: “Quem me dera que Portugal fosse uma democracia, para haver um partido chamado PPD/PSD e eu poder liderá-lo”. Quando, depois de três tentativas falhadas, Santana Lopes conseguiu em 2004 alcançar a cadeira de sonho, cedida por Durão Barroso, os rápidos e agitados sete meses durante os quais permaneceu na chefia “laranja” souberam-lhe a muito pouco. Uma derrota para Manuela Ferreira Leite nas eleições partidárias e o segundo lugar (a escassa distância de António Costa, para o qual já então se desviavam os votos dos eleitores do PCP) na corrida de 2009 à autarquia da capital pareciam ter frustrado definitivamente a ambição de Santana, remetido à provedoria da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, mas nos últimos dias o ex-secretário de Estado da Cultura revelou acreditar que nunca é tarde demais para se voltar ao sítio onde se foi feliz. A recusa de PSL em encabeçar a lista do seu partido à Câmara de Lisboa talvez tenha sido guiada pela intuição de um resultado como o que aconteceu em 1 de Outubro e da consequente vacatura no lugar máximo do Partido Social-Democrata. Neste momento, segundo um artigo que escreveu para o Correio da Manhã, essa trombeta da verdade, Santana elabora o programa político associado à sua sexta candidatura (as anteriores surgiram em 1995, 1996, 2000, 2004 e 2008) a presidente do PSD. Afinal, um homem não pode viver sem o seu sonho.

 

Como se explica que Santana Lopes, aos 61 anos e depois de ter sido tudo na política portuguesa excepto Presidente da República, pretenda ser a via para a renovação de um PSD debilitado? Para quem leu no início de 2005 O Fenómeno, o álbum no qual os cartoonistas Cid e António compilaram trabalhos dos dois sobre o então primeiro-ministro, tal situação parecia impensável, sobretudo porque quer os cartoons quer as citações que os acompanham, muitas delas provenientes de figuras da área do PSD, mostram um Santana desprezado, satirizado e menorizado como nenhum outro político do seu tempo. No entanto, várias coisas aconteceram durante os anos em que PSL deu um passo atrás e se limitou a ponderar se voltava a andar em frente. Desde logo, a passagem do tempo obscureceu as polémicas nas quais o eterno enfant terrible se viu envolvido. A acusação de populismo tantas vezes feita a Santana no início deste século perdeu razão de ser devido à face repulsiva de Donald Trump e outras figuras a quem esse conceito é agora aplicado. O próprio PSL, nas suas entrevistas e comentários televisivos, tem procurado mostrar uma imagem diferente, a de um homem mais maduro, reflexivo e ponderado, nada disposto a repetir as façanhas e peripécias de quando era um quarentão inexperiente. Lopes manteve-se afastado da primeira linha enquanto o PSD aplicava uma dolorosa política de austeridade e, sem a condenar explicitamente, fala na necessidade de um “balanço” interno da última passagem social-democrata pelo poder. As escassas e pouco entusiasmantes personagens de relevo surgidas no PSD nesta década permitem a Santana preservar o seu espaço. Em resumo, tudo o que se seguiu à breve passagem de Pedro Santana Lopes pelo Palácio de S. Bento faz o sportinguista parecer inofensivo e até simpático, apto a voltar ao mercado para aproveitar a onda nostálgica.

 

 

Assim sendo, os candidatos já conhecidos às próximas directas do PSD são Rui Rio, Santana Lopes e… mais quem? Com as recusas de Paulo Rangel e Luís Montenegro, presumíveis herdeiros do legado de Passos Coelho, onde está o candidato do Observador? Após tanto receio quanto ao que aconteceria ao PSD depois de Passos sair da liderança, os liberais vão ficar impávidos perante o iminente regresso do partido ao passado tenebroso dos “barões” e “históricos”? Será que Santana ofereceu um doce qualquer a Rangel e Montenegro? Ou todos acreditam que o próximo presidente do PSD, seja quem for, será rapidamente “queimado” por António Costa nas legislativas de 2019 e preferem esperar até lá? O disponível André Ventura pode arriscar uma candidatura destinada ao fracasso mas útil para o promover? Enfim, vão ser dois meses interessantes.