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O tio Julião

Apesar de ter memórias ténues do “Clube Amigos Disney”, não assisti à fase áurea da carreira televisiva de Júlio Isidro. Depois de uma efémera passagem pela TVI, Isidro voltou à RTP e ficou associado, para os mais jovens, a programas nostálgicos com convidados idosos a falar do passado (Júlio viria a ser remetido para a RTP Memória) e a derivações do formato de “O Passeio dos Alegres” que preenchiam as tardes de domingo de forma antiquada e soporífera. É certo que estive desatento, não tendo visto “A Outra Face da Lua”, considerado por Isidro um dos seus melhores projectos. No entanto, tornou-se óbvio, à entrada do século XXI, que Júlio Isidro estava a ser esquecido no meio do bulício do star system português e a ficar “emprateleirado” numa televisão diferente daquela onde triunfara. Recentemente, porém, à medida que o narigudo completava 70 anos de vida e mais de 50 de carreira, Júlio foi redescoberto, escreveu as suas memórias e tornou-se uma das figuras a atingir o Panteão ainda vivas. As comemorações do 60.º aniversário da RTP têm homenageado o mais antigo apresentador da estação pública como uma das personalidades de maior destaque na história desta.

 

Aparentemente surpreendente, o comeback de Júlio Isidro acaba por ser compreensível devido à oposição entre as características do apresentador e a actual conjuntura televisiva do país. Ao longo de décadas, Isidro criou do nada ou deu um toque pessoal a numerosos programas, ao invés de se limitar a protagonizar formatos importados após terem sucesso no estrangeiro. Numa época em que a televisão se esforça por mostrar que afinal o poço é ainda mais fundo do que se pensava, Isidro é a encarnação do bom senso e do bom gosto. Ligado ao boom do rock luso, o homem de “Febre de Sábado de Manhã” nada tem a ver com a música pimba comum nos fins-de-semana televisivos. Arquivo vivo do audiovisual português, Júlio difere do “presente eterno” dominante. Acima de tudo, em contraste com a tendência para a superficialidade, Isidro revela uma lucidez e uma inteligência impressionantes na forma como vê o mundo e a caixa que o mudou. Num depoimento transmitido no aniversário da RTP, Júlio Isidro considerou que a função da televisão não é dar o que o público quer, mas sim aquilo que “o público merece”. Nivelar por cima e não por baixo: não será esta a melhor definição de serviço público?