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Desumidificador

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O vidente de Carnaxide

Depois do INE desautorizar publicamente Luís Marques Mendes e divulgar uma taxa de desemprego mais baixa que o valor anunciado pelo comentador há uma semana, colocavam-se duas hipóteses quanto àquilo que Marques Mendes faria na edição seguinte do seu programa na SIC: ignorar por completo a reprimenda ou dizer uma treta qualquer para ilibar-se. Escolheu a segunda opção, com menos de meio minuto dedicado ao tema, já no fecho da rubrica. Assunto encerrado, adeus e até para a semana. Não foi a primeira vez, nem será a última.

 

No seu espaço televisivo dominical, Marques Mendes tenta fazer o mesmo que Marcelo Rebelo de Sousa fez, mas com muito menos talento. O programa do conselheiro de Estado é sobretudo um jogo do faz de conta. Clara de Sousa ou outro apresentador fingem que estão a fazer uma entrevista e, em parceria com Mendes, dão a entender que o ex-presidente do PSD sabe mais do que os outros analistas (não sabe), consegue prever o futuro (não consegue), domina profundamente os temas que aborda (não domina), é isento e independente (não é), teve um percurso imaculado na política antes de se tornar comentador (não teve) e formula opiniões originais e ousadas (não formula). A ficção continua logo a seguir, quando os jornais, prosseguindo o hábito do tempo de Marcelo, resumem as palavras de Mendes ou reproduzem as supostas notícias dadas em primeira mão pelo advogado. Luís ganha assim um destaque único entre os comentadores televisivos, parecendo ser influente e até temido pelos políticos. Ninguém acredita mesmo nisto tudo, claro, mas a aparência conta mais do que a opinião.

 

 

Quando se aventura por temas como o futebol ou a actualidade internacional, Marques Mendes cai numa banalidade atroz. A área fulcral da sua análise é a política, ou melhor, a politiquice nacional. A propósito desta, faz o discurso redondinho de alguém que está bem dentro do sistema e tem o cuidado de morder um pouco aqui, elogiar um pouco ali, sem nunca pôr nada verdadeiramente em causa ou apresentar uma proposta que corra o risco de ser concretizada. O mundo do conselheiro parece limitar-se a meia dúzia de restaurantes e escritórios de advogados de Lisboa. Para lá de todos os assuntos que servem apenas para encher tempo de ecrã, Marques Mendes apresenta a sua única especialidade ao criticar domingo após domingo a liderança de Pedro Passos Coelho. O ataque de Mendes ao seu sucessor é feito não em termos de conteúdo ou ideologia, mas na perspectiva do militante “laranja” que vê o partido descer nas sondagens e avisa que isso terá consequências a curto prazo, ou seja, a caça ao Coelho está aberta. Outra função do analista é servir de porta-voz oficioso de Marcelo, descrito por Mendes como um homem perfeito a todos os níveis, mas que por vezes pode, hipoteticamente, sentir-se incomodado com atitudes do Governo e querer mandar recados.

 

Se nem a esquerda nem a maior parte da direita sentem verdadeiro apreço por Luís Marques Mendes (designado pelo crítico Eduardo Cintra Torres como “corneta de Belém”) e, ao contrário do que reza o mito mendista, as audiências do show de LMM não são particularmente altas, porque se mantém o causídico na ribalta mediática? O humor involuntário é sempre delicioso e certas pessoas sentem em cada fim-de-semana a curiosidade de saber o que vai inventar o baixinho desta vez. Mais importante do que isso, o espaço de Marques Mendes possui um papel tranquilizador semelhante ao de O Preço Certo e das telenovelas. Ao verem algo sempre igual e previsível, os espectadores asseguram-se de que, numa época de tanta incerteza, a normalidade prevalece. Se um dia, por absurdo, Marques Mendes disser “Julgo que o Presidente da República foi menos feliz nas suas declarações”, é sinal de que chegou a hora de entrar em pânico. O caos vai dominar a Terra.

 

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