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Desumidificador

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Onde está a geração de 80?

Para lá dos políticos/comentadores e da gente que veio de longe, de muito longe (Nuno Rogeiro, Pacheco Pereira, Miguel Sousa Tavares, Vasco Pulido Valente, etc.), o panorama do comentarismo político em Portugal é dominado pela chamada “Geração de 70”, título da página semanal no Diário de Notícias que Pedro Lomba, Pedro Mexia e João Miguel Tavares partilhavam em 2004. Foi nessa altura que os espaços de opinião da imprensa lusa conheceram uma fase de renovação, através do aparecimento de vários colunistas nascidos na década de 70 do século passado e que tinham, portanto, 30 ou menos anos.

 

A emergência de novas (e jovens) figuras dedicadas ao comentário da política nacional esteve ligada ao boom dos blogues e ao desenvolvimento da Internet como espaço de debate alternativo aos fóruns clássicos dos media e meio de democratização da opinião publicada. Agora, qualquer pessoa podia ter uma coluna de opinião, além de comunicar com os potenciais leitores sem intermediários e aceder, por via informática, a uma interactividade e uma rapidez de difusão dos textos bastante superiores às dos jornais em papel. Os jovens com formação superior tornaram-se naturalmente hegemónicos na blogosfera e, no Verão de 2003, o sucesso de vários blogues chamou a atenção dos media tradicionais. Foi então que surgiu na Visão uma fotografia duns tipos que ninguém conhecia de lado nenhum e escreviam num blogue com um nome bizarro, Gato Fedorento. Os posts de Ricardo Araújo Pereira possuíam já o humor e a acutilância que, a partir do ano seguinte, ocupariam uma das páginas finais da revista semanal. Algumas editoras também detectaram o impacto do novo fenómeno e publicaram antologias de textos dos sites mais populares.

 

Os blogues de esquerda e direita, animados pela separação de águas e radicalização de posições vividas com a invasão do Iraque, procuravam trazer maior profundidade e conteúdo ideológico ao debate político, indo além dos jogos de estratégia do Prof. Marcelo. À esquerda, o blogue colectivo Barnabé revelou os irreverentes Rui Tavares e Daniel Oliveira, enquanto entre os conservadores, além de Pedro Mexia e dos seus amigos, assumiu destaque O Acidental, coordenado por Paulo Pinto Mascarenhas (jornalista e assessor de Paulo Portas) e onde emergiram à luz do dia nomes como Henrique Raposo, Pedro Marques Lopes, Rodrigo Moita de Deus, Inês Teotónio Pereira, João Marques de Almeida ou Bernardo Pires de Lima. Todos estes autores depressa chegariam à imprensa, em particular, no caso dos “acidentais”, à revista Atlântico (2005-2008), tribuna da “nova direita”.

 

Esta lufada de ar fresco sentida há mais de 10 anos foi, no entanto, a última vaga rejuvenescedora do comentarismo. Os filhos dos blogues juntaram-se às criaturas dos partidos, à elite jornalística e aos escribas veteranos para criar um grupo restrito e raramente alterado na sua composição, cujos direitos adquiridos impedem a ascensão de novos talentos. Os espaços de debate parecem vedados a pessoas nascidas depois do dia em que José Cid ganhou o Festival da Canção com “Um Grande, Grande Amor”. Haverá falta de vagas? Não me parece, já que a crise adubou o comentário político, desportivo e económico, uma forma barata de encher papel na imprensa e tempo de emissão nos canais de notícias.

 

As razões para o fraco recurso à formação encontram-se, desde logo, do lado da procura: em Portugal, existem poucos jovens e, desses, aqueles que lêem jornais ou vêem telejornais são cada vez menos. O idoso é agora a presa preferida da comunicação social e esta produz conteúdos elaborados a pensar em quem recebe pensões de reforma. Criar novos órgãos de imprensa abertos à participação juvenil tornou-se materialmente impossível. Os blogues políticos partidarizaram-se em excesso e perderam muita visibilidade devido ao triunfo das redes sociais. As características destas, como o incentivo à utilização de poucas palavras, a tendência para criar grupos estanques e a abundância de gritos e insultos, dificultam a escrita de análises claras e desenvolvidas da actualidade. De qualquer forma, os campos tradicionais de recrutamento de comentadores continuam a ser a política e o jornalismo e, enquanto naquela são necessários (a não ser em casos excepcionais como os de Mariana Mortágua e Adolfo Mesquita Nunes) muitos anos de esforço discreto até se chegar à primeira fila da bancada, na comunicação social existe um fosso crescente entre os novos jornalistas, afectados pela precariedade, e os detentores de cargos de chefia, cujos privilégios incluem o domínio dos espaços de opinião. Curiosamente, os únicos comentadores jovens (ao que parece) a atingirem a fama nos últimos anos são os administradores anónimos de Os Truques da Imprensa Portuguesa.

 

A escassez de caras novas, representantes da faixa etária entre os 18 e os 35 anos, nos painéis de comentadores contribui para tornar o debate mediático mais pobre e alheado da realidade. Por isso, senhores do i, do Público, do Expresso ou do Diário de Notícias, deixem por favor os vossos contactos na caixa de comentários que logo que puder respondo às vossas ofertas. Obrigado.