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Os amigos do PCP

Os Kim, os Assad, os Castro, Putin, Kadhafi, Milosevic, Chávez/Maduro, José Eduardo dos Santos… a lista de ditadores ou aspirantes a tal que contam ou contaram com manifestações de apoio, simpatia e tolerância do PCP é vasta, mesmo sem recuarmos ao período anterior a 1989. A pontaria do partido ao escolher os seus “amigos”, vários dos quais enviam representantes aos congressos do PCP ou à Festa do Avante, tem sido exímia. Poder-se-ia também referir a China, mas o regime do PCC goza da tolerância de todos os sectores políticos, embora por motivos diferentes.

 

Sobrevivente da Guerra Fria, o pensamento dos comunistas portugueses em matéria de política internacional segue um mecanismo automático e irreflectido: se os americanos não gostam de alguém, esse alguém só pode ser um tipo porreiro. Na Soeiro Pereira Gomes, os piores assassinos têm sido convertidos em resistentes ao imperialismo, essa entidade ominosa e omnipresente por trás de todas as conspirações contra os líderes progressistas. Esta mundivisão é tão maniqueísta como confortável, já que fornece uma explicação simples e comum a todos os acontecimentos mundiais e esclarece de forma infalível quem são os bons e os maus da fita. No fundo, o partido de Jerónimo de Sousa encontra ingenuamente uma moral e um sentido num mundo que já os perdeu há muito.

 

Para lá da hostilidade em relação aos EUA e à União Europeia, outro factor que contribui para o sorriso mostrado pelo PCP aos regimes mais insólitos é o peso de uma história quase centenária. Ao contrário do Bloco de Esquerda, mais jovem e ligeiro (além de herdeiro da esquerda que condenou a repressão da Primavera de Praga em 1968), o PCP vê-se preso às posições assumidas ao longo de um passado que não pode renegar, uma vez que a propaganda comunista apresenta a história do partido como uma linha contínua e marcada por princípios inalteráveis, pelo menos desde a reorganização de 1940-41. Mantendo a flexibilidade táctica, o PCP evita rupturas demasiado visíveis ao nível programático. Uma tomada de posição que possa dar a entender que Álvaro Cunhal alguma vez se enganou está fora de questão para os seus sucessores. Além disso, para o bem e para o mal, os comunistas levam muito a sério a actividade política que desenvolvem (seria difícil que um hipotético ex-ministro comunista confessasse ter aprovado uma lei importante na praia e sem sequer ler o que assinou), numa atitude impeditiva do à-vontade na cambalhota e do prazer na incoerência demonstrados por outros partidos. Assim, o PCP continua a elogiar e proteger o MPLA, cuja ascensão ao poder apoiou em 1975, apesar do partido da família dos Santos ser hoje tão marxista como os seus amigos do CDS. Da mesma forma, a tendência do PCP para gostar da Rússia e das posições de força desta contra os países da NATO é incontrolável, por menos comunista que seja o actual czar.

 

Na verdade, a benevolência concedida pelo PCP aos ditadores sírio (recorde-se que a URSS era aliada da Síria de Hafez al-Assad), russo e norte-coreano é indiferente para estes e já não faz sentido acusar os comunistas lusos de protegerem os interesses de uma potência estrangeira. O carácter inofensivo dos textos publicados na secção internacional do Avante não invalida, porém, as situações humilhantes que envolvem frequentemente o único partido português a enviar condolências aos norte-coreanos pela morte de Kim Jong-il.