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"Os Homens da Segurança"

Criada e realizada por Nicolau Breyner e produzida por Tozé Martinho, a série televisiva Os Homens da Segurança (ou apenas Homens da Segurança, o título que aparece no genérico inicial) foi exibida originalmente pela RTP entre Julho e Outubro de 1988 e recentemente reposta na RTP Memória. Além de conceberem o projecto, Nico e Tozé protagonizaram-no, nos papéis de dois seguranças privados a trabalhar num hotel de luxo da península de Tróia. Seguindo um modelo habitual nos anos 80, trata-se de uma dupla imbatível formada por homens com personalidades opostas. Assim, enquanto Carlos Jorge (Breyner) tem um feitio difícil, bebe e fuma imenso e anda sempre de boné dos Yankees e óculos escuros, Filipe Sarmento (Martinho) é simpático, playboy e de boas famílias, à imagem de O Santo e James Bond, as personagens de Roger Moore às quais é comparado pelo inspector da Polícia Judiciária (Morais e Castro) do qual os Homens da Segurança recebem antipatia e, ocasionalmente, colaboração.

 

Em cada um dos 13 episódios escritos por Manuel Arouca, chegam à unidade hoteleira personagens interessadas em mais do que turismo e que os Homens da Segurança têm de travar. Durante o trabalho, os dois cruzam-se com elementos do pessoal do hotel, entre eles o director (Baptista Fernandes), o snobe e cómico subdirector (Henrique Santana), a menina do rent-a-car com quem Filipe se envolve (Manuela Marle), a recepcionista (Cristina Homem de Mello), o barman engatatão (Carlos Areia) e a telefonista que se dedica ao jornalismo nas horas vagas (Noémia Costa). O casting do elenco adicional fez passar por Tróia quer actores consagrados (Rogério Paulo, Henrique Santos, Ruy de Carvalho) quer pessoas sem experiência na representação, como Felipa Garnel, o futebolista (hoje treinador) Luís Norton de Matos ou os filhos de Tozé Martinho. A série terminou em aberto, talvez na expectativa da RTP encomendar à produtora Atlântida uma segunda temporada, o que não aconteceu.

 

 

A ideia dos autores parece ter sido fazer uma série policial à portuguesa, temperada com um pouco de humor e romance. Todavia, há corridas de caracóis mais excitantes que Os Homens da Segurança. É útil recordar que em 1988 vivia-se ainda o período de monopólio da RTP e não existia o risco do espectador mudar de canal. Isso permitia que cenas resolvidas actualmente em menos de um minuto se prolongassem por 5 ou 10 minutos, num ritmo muito lento aos olhos de hoje, inclusive numa sequência de suspense na qual Nicolau Breyner persegue António Feio e que se arrasta até quase perder o interesse. Apesar de Nico e Tozé enfrentarem ameaças como roubo, tráfico ou crime informático, existe na série uma ingenuidade desconcertante. Mesmo quando os seguranças matam um bandido, logo a seguir estão a rir do caso. Quanto às cenas românticas, dominadas pela relação entre as personagens de Martinho e Marle (que se tratam sempre por você), são tão insípidas como as das telenovelas feitas em Portugal na mesma altura. Tozé Martinho desempenha em Os Homens da Segurança o mesmo papel de sempre, o de Tozé Martinho, enquanto os outros actores constroem os seus bonecos com relativa eficácia. A excepção é Nicolau Breyner, que procura, como actor e realizador, elevar a série acima da mediania, dando corpo a uma verdadeira personagem e imprimindo maior dinâmica às cenas de exteriores, num trabalho que nos recorda uma vez mais a grande figura do audiovisual desaparecida no ano passado.

 

Minimamente competente, apesar de ter envelhecido mal, Os Homens da Segurança transporta-nos ao período da infância da ficção televisiva portuguesa, quando as boas intenções nem sempre eram acompanhadas pela imaginação ou pelos meios técnicos. Basta pensar na série Polícias, escrita oito anos mais tarde por Francisco Moita Flores, para reparar na importante evolução vivida na RTP entre as décadas de 80 e 90, quando a concorrência entre canais reforçou os orçamentos e obrigou a estação pública a sair da poltrona.