Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Desumidificador

Desumidificador

Os meninos de Odivelas

Apesar de ter um passado que remonta à Idade Média, Odivelas parece ter nascido ontem. Essa dualidade manifesta-se na própria configuração da cidade, onde uma pequena zona antiga, desenvolvida em torno dos monumentos cuja história aprendi na escola primária (o Cruzeiro ou Memorial, a igreja seiscentista, o Mosteiro de S. Dinis e S. Bernardo), é rodeada por sucessivas fileiras de prédios construídos a partir dos anos 60 do século XX.

 

O mosteiro cisterciense fundado pelo rei D. Dinis, que nele se encontra sepultado, deu origem a uma aldeia pouco povoada e ligada a escassas referências no âmbito da história portuguesa. Ocasionalmente, verificaram-se em Odivelas episódios como a morte da rainha D. Filipa de Lencastre (1415), o roubo na igreja matriz que provocou em 1671 um escândalo nacional e levou à execução do ladrão, António Ferreira, num auto de fé reproduzido na “banda desenhada” dos azulejos do monumento ao Senhor Roubado, ou os amores de D. João V com a Madre Paula, tema da nova série histórica da RTP1. De resto, Odivelas era apenas um lugarejo sem nada de especial além do mosteiro, convertido em 1899 no colégio interno dedicado até há poucos anos à instrução das filhas de militares. Tudo mudou em meados do século passado, quando os fenómenos do êxodo rural e da suburbanização atraíram ao povoado dezenas de milhares de pessoas, por vezes alojadas em condições precárias, denunciadas pelas cheias de 1967. Elevada a vila (1964) e cidade (1990), Odivelas tornou-se rapidamente um dos maiores dormitórios de Lisboa, sem transportes, espaços verdes ou equipamentos sociais adequados ao crescimento físico e populacional. A luta para fazer a Carris ultrapassar as fronteiras da capital e alargar o percurso do autocarro 36 foi um dos episódios mais marcantes do PREC odivelense, enquanto bairros clandestinos surgiam como aldeias ao lado da nova cidade.

 

A gestão comunista da Câmara de Loures inaugurou em Odivelas obras como as piscinas municipais, o Centro Cultural da Malaposta ou, já em 1997, a Biblioteca D. Dinis, mas um movimento defensor da secessão viria a obter em Novembro de 1998 a aprovação parlamentar da criação de um concelho sediado na terra da marmelada. De facto, além do concelho de Loures ser então demasiado populoso para permitir uma administração eficaz, as freguesias do novo município (Odivelas, Ramada, Famões, Caneças, Pontinha, Olival Basto e Póvoa de Santo Adrião) eram centros urbanos surgidos quase do nada e dominados pelo sector terciário, sem a tradição agrícola e operária do berço de Jerónimo de Sousa. A Câmara Municipal odivelense foi gerida até hoje por autarcas socialistas, enquanto nas eleições nacionais Odivelas seguiu as oscilações habituais entre PS e PSD. A expansão urbanística prosseguiu no século XXI, ao ponto de ser hoje difícil imaginar por onde Odivelas pode crescer mais. Áreas de lazer como o Jardim da Música (visível na fotografia do cabeçalho deste blogue) ou o Parque do Rio da Costa melhoraram a aparência da cidade, cujas acessibilidades mudaram em 2004 com a chegada do Metro. Na actualidade, Odivelas está longe, ao nível de escolas, transportes, alojamento, espaços verdes ou equipamentos culturais e desportivos, de ser um dos piores subúrbios lisboetas. Falta apenas o centro de saúde prometido há muitos anos.

 

 

A CMO tem procurado criar uma identidade local, explorando marcas como D. Dinis, a marmelada criada pelas freiras do antigo mosteiro ou o quartel da Pontinha no qual funcionou o Posto de Comando do MFA, mas, num concelho cujos habitantes vieram maioritariamente de outros pontos do país e do mundo (uma mesquita ergue-se hoje perto da velha igreja), poucos se sentem odivelenses. O associativismo ressente-se dessa falta de sentimento bairrista, presente no caso do Odivelas FC, um clube participante nos antigos campeonatos nacionais da II Divisão B e III Divisão e incapaz de reunir, a poucos quilómetros da Luz e de Alvalade, uma massa adepta capaz de evitar a decadência do emblema, actualmente em hibernação. O escasso sentimento comunitário, natural tendo em conta as características da cidade, contribui para a indiferença pela história e património locais.

 

Ao tornar-se recentemente o concelho do país com maior taxa de natalidade, fruto das políticas natalistas da CMO e sobretudo da combinação de bons acessos e casas baratas, num contexto de encarecimento da habitação em Lisboa, Odivelas parece ter um vasto futuro perante si. Quem sabe se os miúdos educados no jovem concelho não virão a criar uma ligação afectiva a esta terra onde as janelas de estilo gótico convivem com os prédios novos das Colinas do Cruzeiro?