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Os Truques contra o "truquismo"

O director-adjunto do Público, Diogo Queiroz de Andrade, divulgou no Facebook a identidade e o currículo político de um dos administradores da página Os Truques da Imprensa Portuguesa (TIP). Fê-lo no tom de quem descobriu a identidade secreta do Batman e veio dizer algo como: “eu sempre soube que era o Bruce… perdão, que era uma conspiração socialista para difamar os bons jornalistas”. A atitude da comunicação social, sobretudo dos jornalistas em funções de chefia, para com o espaço virtual de análise da produção mediática tem constituído um sintoma da crise do jornalismo nacional. Teoricamente, a reacção de um responsável jornalístico perante as críticas dos TIP deveria ser:

 

“Fico contente por termos leitores atentos e exigentes. Vou dizer ao pessoal para ter mais cuidado e evitar títulos enganadores. Não podemos desiludir o público”.

 

Na vida real, contudo, directores e chefes de redacção gritam:

 

“Mas estes c… de m… querem f… a nossa vida, c…?!”

 

As identidades dos membros da equipa dos TIP nunca foram propriamente um segredo de Estado, tendo os autores da página concedido entrevistas, além de ponderarem, por vezes, deixar o anonimato. No entanto, essa hipótese foi, segundo os próprios, afastada devido ao receio de pressões e represálias, que, mesmo sem assinarem os textos, administradores e editores não deixaram de receber. Os Truques constituem, de resto, um fenómeno bastante interessante. A página começou no final de 2015 como um hobby de cidadãos descontentes com as técnicas de manipulação política utilizadas pela comunicação social, mas rapidamente encontrou um vasto público igualmente revoltado com a degradação dos media. Enquanto o número de seguidores subia até aos actuais 150 mil, vários jornalistas (acompanhados por políticos e comentadores de direita), frequentemente obrigados pelos comentários dos TIP a alterar ou retirar conteúdos pouco rigorosos, começaram a manifestar, em surdina ou em público, o seu incómodo. O grupo de chatos só poderia tratar-se de uma equipa de propaganda do Governo, estreitamente ligada à direcção do PS. Até mesmo Pacheco Pereira, num artigo do Expresso (escrito de forma correcta, mas que permitiu a Ricardo Costa lançar no Twitter insinuações acerca dos anónimos entrevistados pelo semanário) sobre os TIP, considerou que os posts do grupo revelavam informação de origem governamental. Ao que parece, a desilusão dos jornalistas ao descobrirem quem escrevia os TIP não podia ser maior. Era mesmo só meia dúzia de miúdos desconhecidos, sem ligações partidárias e que se baseavam na colaboração dos seguidores da página? “Porra, já não há conspirações de jeito neste país. Precisamos de um Sebastião Pereira.”

 

 

Tudo isto revela uma chocante falta de disponibilidade dos media portugueses para o escrutínio. Obcecados por tudo o que “incendeia” as redes sociais, sejam os comentários de Maria Vieira ou as fotografias colocadas pelos famosos, os repórteres ignoram, curiosamente, as críticas ao seu trabalho surgidas na Internet. Figuras da direcção de informação da SIC, como Ricardo Costa, Bernardo Ferrão e José Gomes Ferreira, consideram-se estrelas da televisão sem justificações a dar a ninguém. A TVI revelou a mesma arrogância aquando da cobertura dos incêndios de Pedrógão Grande, enquanto o Correio da Manhã, como se sabe, está acima do bem e do mal. A recusa em assumir e corrigir erros ou perspectivas distorcidas atravessa o panorama mediático. Atacar quem grita que o rei vai nu parece aos órgãos noticiosos uma atitude mais lógica que ir vestir umas cuecas. Há uma coisa que os jornalistas têm de perceber: não há informação sem consumidores de informação (leitores, ouvintes, telespectadores), e nem todos eles são otários dispostos a engolir qualquer coisa sem pensar e ter dúvidas. Um truque hoje, um clickbait amanhã, e chegamos a uma situação em que já ninguém confia no jornalismo português e por isso as receitas deste caem ainda mais. Ficamos todos a perder, incluindo os bons profissionais que ainda trabalham nas redacções e não seguem o “truquismo” das chefias.

 

Os autores de Os Truques da Imprensa Portuguesa não são heróis nem santos. Apenas procuram levar a sério um jornalismo que, como escreveu a antiga jornalista Ana Margarida de Carvalho, não quer ser levado a sério. Uma vez denunciadas as suas identidades, vão provavelmente ser associados pelos jornais à Operação Marquês, aos e-mails do Benfica ou ao roubo de Tancos. No entanto, podem sempre dizer: “Não somos 2, somos 150 mil”.

 

 

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