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"Portugal - Os Anos do Fim"

A escrita do primeiro livro de Jaime Nogueira Pinto, “Portugal – Os Anos do Fim”, decorreu durante o ano de 1975, quando o portuense e a sua mulher, Maria José Nogueira Pinto, viviam no exílio, com passagens por África do Sul, Brasil e Espanha. A obra, dividida em dois volumes (“A Revolução que Veio de Dentro” e “De Goa ao Largo do Carmo”), seria publicada em 1976 pela editora ligada ao quinzenário de extrema-direita Jornal Português de Economia & Finanças. Regressado a Portugal em 1978, Jaime prosseguiu uma carreira plurifacetada no sector privado, na universidade e na comunicação social, especializando-se em Ciência Política. “Portugal – Os Anos do Fim” foi relançado num só volume pela Difel em 1995, numa versão revista e acompanhada por um prefácio no qual Nogueira Pinto fez o balanço das duas primeiras décadas de democracia. Mais recentemente, no quadragésimo aniversário do 25 de Abril, a D. Quixote recuperou o ensaio, agora com texto igual ao de 1976, à excepção do novo prefácio do autor.

 

Ao escrever em 2014, Jaime Nogueira Pinto confessa-se mais céptico e menos arrebatado que aos 30 anos, quando produziu “Os Anos do Fim”, apesar de manter os mesmos “valores políticos” nacionalistas (fascistas, se quiserem) da década de 70. O politólogo recorda que o ensaio reeditado nasceu da mágoa pessoal sentida com o fim do Império e na sequência da frase “Portugal acabou”, proferida por Jaime em 25 de Abril de 1974. O Portugal amado pelo então director da revista Política era “um país importante, com territórios, bandeiras, soldados e navios em três continentes e três oceanos”, talvez duro para alguns portugueses, “sobretudo para os mais pobres e menos instruídos”, mas “singular, especial” na Europa pós-descolonização (p. 20). Esta citação é reproduzida na contracapa do livro, juntamente com uma fotografia na qual o jovem Jaime não parece pobre nem pouco instruído. Perante o rápido colapso do Estado Novo e da nação pluricontinental, Nogueira Pinto procurou compreender a origem da ruptura, encontrando-a nos seis anos de governo de Marcelo Caetano e na forma como este, através de um discurso ambíguo e da tentativa de aplicar um modelo federalista nas colónias, teria abalado e degradado os princípios do regime deixados por Salazar. Nogueira Pinto desenvolve a sua tese numa escrita de grande qualidade, marca de um polemista exímio e um arguto analista político.

 

A obra assume frequentemente um tom autobiográfico, através da narração de episódios vividos pelo autor na qualidade de um dos jovens “nacionalistas revolucionários”, estudados por Riccardo Marchi em “Império, Nação, Revolução” (Texto, 2009) e cujos núcleos de Lisboa e Coimbra defendiam um colonialismo integracionista, propunham medidas para reduzir a desigualdade social e defrontavam a presença crescente da esquerda nos meios culturais e no ensino superior. “Portugal – Os Anos do Fim” descreve em pormenor os grupos e tensões existentes dentro do marcelismo e a estratégia seguida por Caetano ao assumir uma posição centrista entre a ânsia de mudança da “ala liberal” e a resistência dos salazaristas e radicais de direita. No entanto, tudo parece resumir-se às intrigas de um grupo restrito de políticos e militares, na ausência de uma contextualização económica e social do período abordado. Pouco visíveis no livro, os portugueses anónimos assistiriam em silêncio, até porque, sem sondagens nem eleições livres que lhe permitissem avaliar a opinião pública, Nogueira Pinto sobrestimava muito a base de apoio ao regime e à guerra travada em África. Quanto à repressão, o único problema residiria no facto de, a partir de 1968, não ser tão dura como deveria. Apesar de se queixar dos cortes censórios sofridos pela Política, o director desta não considera a censura má em si mesma.

 

 

Na perspectiva de Nogueira Pinto, tudo acabou porque ninguém levou nada a sério. Para lá do gosto pela aventura e pelo risco, “que sempre nobilita mesmo as piores causas” (p. 413), e de uma visão bélica e romântica da política, Jaime revela um desprezo profundo pelos burgueses “liberais” (semelhante ao que outros sentiriam mais tarde pela “esquerda caviar”) desejosos da aproximação lusa à Europa. O nacionalista não tolera políticos de “sim, mas…”, incoerentes, temerosos, oportunistas, interesseiros ou defensores de consensos e compromissos. Para Nogueira Pinto, a dedicação a uma ideologia teria de ser total e sem cedências, princípio que explica uma “simpatia mal disfarçada” (p. 23) dos activistas de extrema-direita pelos adversários comunistas e a oposição, na mente do autor, entre o respeito implícito por Álvaro Cunhal e o desdém por Mário Soares.

 

Retrato tanto de uma época como do homem que o escreveu, “Portugal – Os Anos do Fim” não constitui um trabalho historiográfico (embora Jaime Nogueira Pinto aponte alguns temas que gostaria de ver estudados pelos historiadores futuros), mas antes um ajuste de contas com aqueles que, no entender dos sectores mais à direita, tinham permitido o desaparecimento de um sistema pelo qual valia a pena lutar. Para o leitor nascido já em democracia, o livro assemelha-se a uma visão do mundo às avessas. Contudo, além do seu valor como fonte, permite compreender que aquilo que hoje parece óbvio e evidente não era assim tão claro para alguns portugueses em 1974. A outro nível, torna-se observável que, na política, os puros e idealistas podem ser bem mais perigosos que os pragmáticos e contraditórios.