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Desumidificador

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PPC/PSD

Se as qualidades encontradas pelos comentadores de direita em Pedro Passos Coelho sempre me pareceram imaginárias, os insultos dirigidos ao antigo primeiro-ministro nas redes sociais também soavam excessivos. No fundo, e contrariando o título da biografia escrita por Felícia Cabrita, Passos Coelho aparentava ser um homem perfeitamente banal, nem bom nem mau, nem muito estúpido nem muito inteligente. É necessário reconhecer que, após escolher um rumo, o político social-democrata (?) se mantém sempre fiel à mesma estratégia, seja por teimosia ou convicção. Os principais trunfos de Passos continuam a ser, no entanto, a sua capacidade de sobrevivência política e o seu conhecimento profundo dos meandros do PSD, suficientes para se manter à tona de água mesmo nas situações mais adversas.

 

Foram dois livros a pôr em xeque a minha benevolência para com o homem de Massamá. Felizmente para a PAF, quase ninguém leu “Somos o que Escolhemos Ser”, a biografia de Passos Coelho escrita por Sofia Aureliano em 2015. Trata-se da versão século XXI de “O Conde de Abranhos”, onde são apresentados como notáveis feitos perfeitamente inócuos e a ideia transmitida ao leitor é sempre a oposta daquela que se pretende. A obra acaba por ser bastante apolítica e concentra-se em destacar as qualidades de bom pai e bom marido do biografado. Como PS, BE e PCP compreenderam, alguém capaz de aprovar e mandar para a gráfica uma parvoíce daquelas não podia continuar a ser primeiro-ministro de Portugal. Já com Passos de regresso à oposição, José António Saraiva convidou o barítono para apresentar o livro de mexericos “Eu e os Políticos”. Ao aceitar a proposta, Pedro colocou-se numa situação embaraçosa perfeitamente escusada e, para sair dela, teve que fazer uma figura de parvo homérica. Se levarmos a sério o que o líder “laranja” afirmou em público nesses dias, ficamos estupefactos por alguém assim ter chegado ao comando do Governo. Na verdade, a parte complicada esteve no caminho de Passos para a chefia do PSD. A partir daí, foi só uma questão de tempo.

 

Magoado pela forma como deixou de ser primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho teve ainda que padecer a ascensão de Marcelo Rebelo de Sousa à Presidência da República. A partir daí, Coelho entrou numa espiral de erros de avaliação e iniciativas desastradas. Nunca tive oportunidade de conhecer o líder da oposição (PPC deixou um apartamento em Odivelas ao fim de poucos meses, alegadamente devido à excessiva distância do centro de Lisboa), mas posso imaginar que a falha de Passos Coelho foi confiar nas pessoas erradas, ou seja, em João César das Neves, pai da “teoria do Diabo”, e nos colunistas do Sol e do Observador. Caso as previsões desses comentadores se tivessem concretizado, neste momento Passos já seria novamente chefe do Governo, depois de ouvir um choroso pedido de desculpas do país. Enquanto António Costa e Marcelo prosperavam, o discurso passista continuou a dirigir-se apenas aos “ultras” e a pegar em temas que estes consideravam dignos de um levantamento nacional mas pouco ou nada diziam ao resto do eleitorado. A passagem do tempo e a descoberta do lixo que o executivo PSD/CDS varreu para baixo do tapete (banca, offshores, etc.) também não ajudaram à recuperação “laranja” nas sondagens.

 

Após completar sete anos na presidência do Partido Social-Democrata, Passos Coelho enfrenta uma fase complexa. A falta de alternativas credíveis, a memória da vitória que não o foi, eventuais arrufos na Geringonça e a habilidade e descaramento de Passos podem garantir-lhe mais algum tempo no lugar. Todavia, o longo suspense em torno da escolha do candidato à Câmara de Lisboa fez desembainhar punhais que, caso Teresa Leal Coelho obtenha um resultado humilhante, podem cravar-se no líder do partido. Ainda é cedo para dizer qual será o futuro do político oriundo da JSD. No entanto, para muitos, a marca de Pedro Passos Coelho na História portuguesa ficará resumida naquele dia de 2012 em que, no intervalo de um jogo da selecção, anunciou a subida da TSU para os trabalhadores e depois foi assistir a um concerto do seu amigo Paulo de Carvalho.