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"Quando Portugal Ardeu"

O novo livro do jornalista da Visão Miguel Carvalho, “Quando Portugal Ardeu” (Oficina do Livro), constitui uma vasta investigação acerca da violência política no período entre 1974 e 1976, focando em especial as acções da extrema-direita contra alvos de esquerda, como os ataques a sedes do PCP no “Verão Quente” ou a rede bombista cujos numerosos atentados, promovidos por organizações como o ELP, o MDLP e a FLAMA (o grupo separatista madeirense dinamizado por Alberto João Jardim antes de chegar ao poder) e executados por Ramiro Moreira e outros operacionais, provocaram vários mortos e avultados estragos em edifícios e veículos.

 

Na primeira frase da obra, Carvalho esclarece que “Este livro é jornalismo, não é História” (p. 13). De facto, além do seu estilo nitidamente jornalístico, com frases curtas e centradas em informações concretas, “Quando Portugal Ardeu” assemelha-se a uma compilação de reportagens em torno do mesmo tema, repartida por 18 capítulos independentes uns dos outros, o que origina frequentes repetições e uma estrutura algo confusa. No entanto, o valor do livro para os investigadores do período revolucionário é inestimável, quer pela pesquisa sobre um assunto ainda pouco estudado quer pelas fontes inéditas apresentadas, como as entrevistas feitas por Carvalho ou os relatos escritos por dois observadores estrangeiros do PREC, o diplomata americano Vernon Penner e o norueguês Einar Braathen. Carvalho recolhe sobretudo declarações actuais de pessoas ligadas às vítimas (entre elas Manuel Varges, amigo do padre Max e primeiro presidente da Câmara de Odivelas) ou à investigação e julgamento da rede bombista, mas também ouve António Silva Santos, um antigo dirigente do CDS que recorda a sua participação em actividades terroristas no pós-25 de Abril, tal como outros intervenientes em actos violentos hoje quase desconhecidos. Vários documentos oriundos dos processos judiciais relativos ao bombismo contribuem igualmente para esclarecer os acontecimentos, embora muito do material à guarda do Arquivo Geral do Exército ainda permaneça vedado à consulta.

 

Na introdução do livro e nas entrevistas de promoção deste, o autor destacou o seu empenho em lutar contra o “esquecimento” e o branqueamento do passado, promovidos neste caso pelos vencedores do 25 de Novembro e por sectores da direita cuja autodescrição como um conjunto de lutadores imaculados e vítimas da tirania comunista de 1974/75 difere da realidade. De acordo com a investigação de Carvalho, os movimentos anticomunistas beneficiavam de uma vasta rede de cumplicidades na qual estavam envolvidos o PS, a Igreja Católica (D. António Ferreira Gomes, o bispo do Porto recentemente condecorado, foi o único prelado nortenho a distanciar-se da violência contra-revolucionária) e oficiais do Grupo dos Nove, além do eventual e ainda nebuloso apoio concedido pelos EUA através do embaixador Frank Carlucci. O jornalista vai, porém, mais longe, ao acompanhar as reconstituições dos atentados por descrições do ambiente social e político da época. Assim, descobrimos um país de padres reaccionários, criminosos gabarolas, populações ignorantes e manipuladas, patrões beneméritos e exploradores, juízes, polícias e militares protectores dos mandantes do terrorismo, bombistas tão sinceramente broncos que nem despertam ódio e histórias insólitas apenas possíveis na vida real. O mais preocupante para o leitor é pensar em quanto deste Portugal pré-“europeu” ainda hoje persiste, entre os esqueletos escondidos nos armários.

 

 

Enquanto conta uma história de terrorismo, Miguel Carvalho traça um retrato pouco agradável de Portugal. Parafraseando o que Vasco Pulido Valente escreveu sobre outro livro, poderíamos dizer: “Céptico, penetrante, minucioso, “Quando Portugal Ardeu” diz mais sobre o país pobre e patético que somos do que toda a “análise política” por aí à venda”.