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Desumidificador

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Quem és tu, miúda?

(Ponto prévio: Joana Amaral Dias tem um corpo de espanto. Não é uma opinião, é um facto. Nenhum homem heterossexual consegue falar dela sem pensar nisso, e ela sabe-o. Esclarecido este aspecto, sigamos em frente.)

 

A psicóloga Joana Amaral Dias causou sensação ao aparecer na bancada parlamentar do Bloco de Esquerda na legislatura decorrida entre 2002 e 2005, quer por factores atrás referidos quer pela força e combatividade do seu discurso. Apesar de ter estado apenas alguns meses no Parlamento, o nome de Joana ficou ligado à juventude e renovação associadas ao Bloco nos primeiros anos de vida do partido fundado por Francisco Louçã, Miguel Portas, Luís Fazenda e Fernando Rosas. Nas presidenciais de 2006, contudo, Amaral Dias desempenhou a função de mandatária para a juventude do candidato do PS, Mário Soares, adversário do coordenador do BE, Francisco Louçã, também ele candidato a Belém. Embora tenha permanecido como militante bloquista, Joana nunca mais foi vista da mesma maneira pelos dirigentes do BE, com os quais registou vários conflitos até desfiliar-se do partido em 2014, quando a frente de extrema-esquerda, abalada por numerosas saídas, parecia estar à beira da dissolução.

 

 

Pouco depois, ao discursar num evento do PS, a psicóloga alimentou a especulação em torno do seu futuro político, mas Joana Amaral Dias e outro dissidente do BE, o jornalista Nuno Ramos de Almeida, criaram um novo movimento, o Juntos Podemos, do qual sairiam para concorrer às legislativas de 2015 integrados na coligação Agir!, formada com o Movimento Alternativa Socialista (MAS) e o Partido Trabalhista Português (PTP) e que se destacou por iniciativas mediáticas como a colocação da faixa “Vendido” na Assembleia da República ou a aparição de Joana sem roupas na revista Cristina. Amaral Dias seria o rosto principal do movimento, mas a gravidez levou-a a ceder a Ramos de Almeida o estatuto de cabeça de lista por Lisboa. O certo é que o Agir! ficou muito longe de eleger um deputado e não desenvolveu actividade visível após as legislativas.

 

Entretanto, Amaral Dias desenvolveu uma vasta actividade no comentário, quer na Internet (partilhou o blogue Bichos Carpinteiros com o prof. José Medeiros Ferreira) quer nos media tradicionais, abordando não só política mas também cinema e futebol, área em que veste de azul e branco. Mais recentemente, Joana participou no programa 5 para a Meia-Noite (RTP1), como representante da esquerda na rubrica “Deus a Dias”, composta por um debate de cinco minutos com Rodrigo Moita de Deus. A psicóloga saiu vitoriosa no voto do público em mais de metade das discussões, durante as quais falava tanto e num tom tão indignado que parecia submeter o pobre Rodrigo a bullying. Há algumas semanas, porém, Joana mudou-se para a CMTV (uma “boa casa”, nas suas palavras), canal no qual possui um espaço semanal próprio e surge com frequência no programa Rua Segura, onde comenta os crimes que vão acontecendo neste nosso Portugal. Recorde-se que vários candidatos às próximas autárquicas, em particular Rui Moreira, Fernando Medina, Assunção Cristas e André Ventura, oferecem o seu humilde contributo ao projecto jornalístico (?) do grupo Cofina.

 

O último número de O Diabo destaca na capa as candidatas do “Centro-Direita” à presidência da Câmara Municipal de Lisboa, Assunção Cristas, Teresa Leal Coelho e… Joana Amaral Dias. De facto, Joana encabeça a lista camarária do Nós, Cidadãos, um partido que apareceu nos boletins de voto pela primeira vez em 2015 e é presidido pelo filósofo monárquico Mendo Castro Henriques. Destacada por O Diabo pela sua “irreverência na intervenção”, a “activista política”, como se define, aproveita uma breve entrevista ao semanário para criticar Medina e apresentar algumas propostas, além de lamentar o Bloco de Esquerda “adestrado” que constitui uma das peças da Geringonça. Noutro artigo, o jornal inclui Amaral Dias na lista dos candidatos lisboetas do centro e da direita, ao lado de Cristas, Leal Coelho e José Pinto Coelho (o líder do PNR), opositores dos potenciais autarcas da esquerda, como João Ferreira, da “CDU-comunistas”, e Inês Real, do “PAN-animais” (sic). Na mesma edição, O Diabo dedica um artigo de página inteira ao encontro de nazis, digo, nacionalistas de Itália, Espanha e Portugal realizado em 1 de Julho no hotel Íbis do Saldanha. Assinado por dois dos participantes no evento, o texto refere ainda o concerto em Almada no qual “centenas” de jovens assistiram emocionados à reunião da banda Lusitanoi, um sucesso da música de intervenção de extrema-direita durante os anos 90.

 

É impressão minha ou tudo isto é um pouco estranho? Tão exigente a nível moral com os responsáveis políticos, Joana Amaral Dias não encontra nada de questionável em órgãos de comunicação social como O Diabo e o Correio da Manhã? Uma mulher assumidamente de esquerda não hesita em candidatar-se por uma força partidária na área do centro-direita? Ouvimos Amaral Dias criticar tudo e todos durante anos, mas o que faria ela exactamente na presidência da CML ou em qualquer outro cargo executivo? Será que o verdadeiro talento de Joana Amaral Dias é gerir a marca Joana Amaral Dias? Quem és tu, Joana, e o que te faz correr?