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Desumidificador

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Risota

As afirmações de Ricardo Araújo Pereira sobre o humor em “A Doença, o Sofrimento e a Morte Entram num Bar” e nas entrevistas que concedeu fazem lembrar o lema não escrito do Estado Novo (identificado pelo prof. Fernando Rosas em “Salazar e o Poder”): “Com a autoridade não se brinca”. Esse princípio implicava, além da obediência cega, a proibição de brincar literalmente com as autoridades públicas. Após conhecer o apogeu durante a I República, o desenho humorístico foi sufocado pelo regime salazarista, enquanto o teatro de revista, então imensamente popular, procurou fintar como pôde a vigilância da censura. Também do lado da Oposição, o humor raramente foi utilizado no combate político, embora existam alguns panfletos clandestinos, como os escritos por Henrique Galvão na prisão, que satirizam as personalidades da ditadura.

 

Curiosamente, Salazar manifestava tolerância para com as numerosas anedotas em circulação (algumas delas chegadas aos nossos dias) acerca do Presidente do Conselho. A bonomia explica-se pelo facto dessas piadas caricaturarem apenas a sovinice do antigo seminarista, o que vinha de encontro a várias características do ditador difundidas na propaganda estadonovista: a nível político, a preocupação com o equilíbrio orçamental; a nível privado, a incorruptibilidade e o desapego dos bens materiais. As “anedotas do Salazar”, ao invés de ridicularizarem o alvo, acabavam indirectamente por enaltecer o seu estilo de vida, semelhante ao da maioria dos portugueses, e obscurecer a faceta repressiva do sistema. RAP acertou ao escrever que o humor é contraditório como o caraças.