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"São Jorge"

Em “São Jorge”, Nuno Lopes e Marco Martins reencontram-se 12 anos depois de “Alice”, um dos melhores filmes concebidos em Portugal. A curiosidade do espectador é também atraída pela abordagem realista dos “anos da troika”, uma perspectiva rara num cinema português que, excepto durante a Revolução, raramente politizou os seus conteúdos. A esse nível, Marco Martins evita cair no registo panfletário ou apelar à lágrima fácil. Visualmente, “São Jorge” possui momentos de grande beleza, onde Martins utiliza a escuridão (poucas cenas decorrem de dia) com a mesma eficácia opressiva de “Alice”. A combinação de som e imagem apresentada destaca uma das facetas da pobreza urbana: pessoas e barulho a mais em espaço a menos.

 

A longa-metragem assenta na interpretação de Nuno Lopes, a representar com todo o corpo em mais um trabalho notável que ainda agora começou a ser premiado. No entanto, o destaque atribuído a Jorge/Nuno e o facto de vermos tudo a partir dos seus olhos (ou das suas costas) acabam por se tornar excessivos. Pouco sabemos quanto às motivações das personagens que rodeiam o protagonista e a câmara centrada neste prejudica por vezes a fluidez da narrativa.

 

Embora “São Jorge” nem sempre dê golpes certeiros (a obra acabou por ter menos boxe que o previsto por Lopes e Martins no início do projecto), constitui um retrato sensível e expressivo de uma época. Na verdade, os habitantes deste filme não são especialmente bons ou maus. Todos fazem o que são obrigados a fazer num país submerso em dívida.