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Sérgio, volta para casa

Nos meses de Setembro e Outubro de 2015, o programa dos Gato Fedorento Isso É Tudo Muito Bonito, Mas, então inserido no telejornal da TVI, apresentou uma série de entrevistas de Ricardo Araújo Pereira a vários políticos, convidados a propósito das legislativas iminentes. O modelo da rubrica seguiu o formato de experiências televisivas anteriores de Pereira, permitindo aos inquiridos estarem preparados para as perguntas provocatórias. O resultado foi, excepção feita à argúcia de Mariana Mortágua e ao sorriso malandro de Marcelo Rebelo de Sousa, uma sucessão monótona de diálogos que mais pareciam monólogos, aproveitados pelos candidatos para repetirem o seu discurso habitual, num registo identificado por Pereira como “tempo de antena”. Um dia, no entanto, o convidado de Isso É Tudo Muito Bonito, Mas foi Sérgio Sousa Pinto, envolvido em funções directivas no PS após apoiar a candidatura vitoriosa de António Costa à liderança do partido, e então os espectadores da TVI, habituados a políticos de plástico, viram algo de inédito: uma pessoa de carne e osso a falar de política. Sérgio Sousa Pinto (SSP) recordou os seus tempos difíceis mas estimulantes como secretário-geral da JS e, num tom espontâneo, criticou o discurso anti-partidos e demarcou-se por esse motivo do candidato presidencial António Sampaio da Nóvoa (viria a apoiar Maria de Belém). A convicção e franqueza de Sousa Pinto trouxeram à lembrança o período entre 1996 e 1998, quando as iniciativas parlamentares da JS (contrárias às posições do então primeiro-ministro António Guterres) a favor da legalização do aborto e das uniões de facto homossexuais faziam jovens como eu acreditar que a política podia valer a pena.

 

Depois da entrevista de RAP a SSP, os portugueses foram às urnas, o PS ficou em segundo lugar e a Geringonça nasceu. Por discordar da solução de governo encontrada, Sérgio Sousa Pinto saiu da direcção socialista e criticou António Costa. Apesar da sua atitude de ruptura o ter afastado do centro da acção política, Sousa Pinto regressa por vezes à ribalta, como aconteceu recentemente, através de uma entrevista à Visão de 24 de Agosto e, uma semana depois, da intervenção do deputado socialista na Universidade de Verão da JSD. Quer num jardim de Lisboa quer em Castelo de Vide, SSP proferiu mensagens semelhantes. Por um lado, deixou claro que se sente bem mais próximo do PSD que do BE e do PCP, situação que o leva a rejeitar o projecto de uma frente de esquerda e uma “concepção maniqueísta da política” na qual a direita é o monstro a derrotar. Por outro, fez a apologia dos partidos políticos e da democracia representativa, apresentando o Parlamento como o espelho da sociedade (para desgosto desta), considerando que iniciativas como eleições primárias tendem a enfraquecer a imagem dos partidos e discordando da criação de círculos uninominais.

 

 

Estas tomadas de posição são mais corajosas do que parecem. Afinal, tanto no PS como no PSD, os períodos no poder estimulam uma tendência habitual dos militantes para alinhar com o líder e evitar fazer ondas, enquanto as vozes dissidentes (como António Capucho, Pacheco Pereira ou Manuela Ferreira Leite entre 2011 e 2015) são alvo de manifestações de ódio por parte de figuras de segunda linha preocupadas em agradar ao chefe. Quanto ao elogio de SSP ao sistema representativo, torna-se exótico numa época em que o acto de filiação num partido é encarado por quase todos os portugueses como a entrada num mundo sujo, corrupto e alheio ao resto da sociedade. Por isso mesmo, quando, apesar da conversa sobre “coragem política”, muitos políticos esperam por ver uma passadeira vermelha à sua frente para se candidatarem a um cargo ou, nas suas afirmações públicas, recorrem à técnica cavaquista de atirar a pedra e esconder a mão, alguém como SSP faz a diferença.

 

O problema é que a perspectiva de Sousa Pinto adequa-se mais aos primeiros anos de democracia que à situação actual. As condições da crise e a erosão do centro não só fizeram desaparecer o PS “moderado” que, pelos vistos, os comentadores de direita adoravam, mas também empurraram o PSD para a direita, onde se encontram agora os verdadeiros radicais e revolucionários. Para estes, os socialistas só podem ser idiotas úteis ou a encarnação do Mal. No Outono de 2015, Francisco Assis propôs assumir o primeiro papel, enquanto António Costa aceitou o preço de ser descrito pela direita como o novo Lenine. Nas circunstâncias presentes, uma aliança PS-PSD deixaria livre para BE e PCP todo o campo do descontentamento contra o sistema e a União Europeia, favorecendo assim o crescimento dos partidos mais à esquerda e a consequente “pasokização” do PS. Com o impacto da austerade, bloquistas e comunistas viram-se pressionados pelas respectivas bases a aceitar um programa mínimo que garantisse a “reposição de rendimentos” e acabasse com a sensação de bloqueio vivida há dois anos. Em resumo, os astros alinharam-se para criar um cenário exactamente oposto ao de 1975. Outra coisa que mudou desde o PREC foi a relação entre os cidadãos e a política. A pouco e pouco, os partidos do regime democrático perderam capacidade atractiva e de mobilização. O número de militantes é insignificante e a maioria da população contacta com a actividade partidária apenas durante as campanhas eleitorais, e mesmo aí de forma superficial. A visão populista (com factos reais a fornecerem-lhe argumentos) dos partidos como antros de medíocres e oportunistas instalou-se e a austeridade reforçou as acusações de divórcio entre os políticos e os restantes cidadãos. Neste contexto, medidas como a realização de primárias abertas a simpatizantes poderão contribuir para renovar as organizações partidárias e melhorar a percepção pública destas.

 

SSP referiu-se ao politicamente correcto, na brincadeira, como “o PC” e denunciou os efeitos nocivos daquele na linguagem e no pensamento. É certo que figuras como Inês Pedrosa, Isabel Moreira e Fernanda Câncio adoptam por vezes a postura arrogante de quem se julga no “lado certo da História” e parecem ter a ilusão de erradicar o conflito e a desigualdade através da modificação da linguagem. No entanto, o discurso de ataque ao politicamente correcto tornou-se uma imagem de marca da extrema-direita e mesmo da direita liberal, que, no meio de um silêncio quase total sobre Donald Trump (o homem “politicamente incorrecto” por excelência), falam de uma nova tirania imposta pela correcção política. Isto faz tanto sentido como preocuparmo-nos com quem aponta para o céu e não com o cometa a vir na nossa direcção. Pessoalmente, acredito que o politicamente correcto é uma questão que as elites adoram discutir mas não provoca em mais de 90% dos cidadãos uma reacção que vá além de “hã?”

 

Sérgio Sousa Pinto continua a ser um dos melhores políticos de que o PS dispõe, apesar das suas divergências com a linha actual do partido. Se Francisco Assis, tal como Pedro Passos Coelho, apostou num colapso rápido da Geringonça, estratégia que fez Assis provavelmente perder de vez as suas hipóteses de aceder à liderança “rosa”, Sousa Pinto ainda pode retomar o rumo ascendente que a sua actividade nos anos 90 prenunciava. A participação de Sousa Pinto na Universidade de Verão “laranja” será facilmente esquecida, caso SSP não siga o exemplo de Jaime Gama e não entre para os círculos do Observador e da fundação do Pingo Doce. Gama foi à Universidade de Verão e nunca mais de lá saiu.