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Desumidificador

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"Sinal de Vida"

(ALERTA: Este texto contém spoilers)

 

Na transição do milénio, Margarida Rebelo Pinto agitou as livrarias ao tornar-se a escritora portuguesa de maior sucesso comercial, fruto do êxito de romances como Sei Lá e Não Há Coincidências. Protagonista da chamada “literatura light”, Rebelo Pinto perderia destaque a partir de 2003, após a publicação do primeiro romance de Miguel Sousa Tavares, Equador, um fenómeno de popularidade cujas vendas atingiram níveis hoje impensáveis. A contracção do mercado livreiro português associada à crise económica arrefeceu a euforia dos editores, mas não anulou o percurso ascendente seguido desde meados da década passada por outro autor ligado aos media, o jornalista José Rodrigues dos Santos (JRS). Além de ser o principal rosto do Telejornal da RTP1 no último quarto de século, Rodrigues dos Santos publicou até ao momento 18 romances, editados em Portugal pela Gradiva e traduzidos em vários países. Enquanto crescem as dúvidas e os boatos acerca do segredo que permite a um escritor não profissional redigir livros com centenas de páginas ao ritmo a que JRS os lança (em Setembro e Outubro deste ano, “Zé” publicou, respectivamente, O Reino do Meio e Sinal de Vida), o autor passou a constituir uma verdadeira marca, classificada como “Escritor de Confiança” num inquérito das Selecções do Reader’s Digest. Os produtos de Santos dividem-se habitualmente em romances históricos e thrillers centrados na vida de Tomás Noronha, o personagem cujas aventuras traçam um retrato do trabalho dos historiadores tão fiel como a reprodução do quotidiano habitual de um arqueólogo feita por Steven Spielberg nos filmes do Indiana Jones.

 

Sempre que folheava um livro de JRS, encontrava algo que me dissuadia de o comprar, fosse a capa, o tema, o preço, o título, a estrutura ou o tamanho, mas desta vez arrisquei ler Sinal de Vida, a narrativa onde Tomás Noronha participa no primeiro contacto estabelecido no espaço entre a humanidade e uma civilização extraterrestre. Em torno do evento, surgem questões científicas e filosóficas como a necessidade de saber se o Universo evolui por acaso ou de acordo com uma determinada ordem programada e, caso exista essa intencionalidade, se há um Deus a controlá-la. O objectivo de Rodrigues dos Santos reside em combinar a divulgação da informação obtida pela ciência com o entretenimento, permitindo ao leitor aprender e divertir-se ao mesmo tempo. De facto, para lá da pertinência dos elementos fornecidos, Sinal de Vida consegue entreter através da habilidade com que JRS maneja o suspense e a surpresa, em particular no último terço do livro, quando Noronha e os restantes astronautas já se encontram fora da Terra. O estilo encontra-se subordinado à história, numa prosa composta sobretudo por diálogos, acompanhados apenas pelas descrições indispensáveis. Cada uma das mais de 600 páginas do livro grita: “Adaptem-me ao cinema!”, apesar de parecer difícil replicar no grande ecrã o truque de encerrar todos os 110 capítulos com uma frase bombástica, de maneira a atiçar o interesse de quem lê.

 

 

O problema está no facto do modelo adoptado por José Rodrigues dos Santos nas suas ficções obrigar à inclusão da informação verídica em falas intermináveis repletas de dados e referências científicas, numa oralidade no mínimo forçada. O enredo e os personagens parecem meros pretextos para debitar factos, até porque as criaturas saídas da imaginação de JRS são insuficientemente desenvolvidas. Para quem chega agora ao universo de Tomás Noronha, como eu, torna-se difícil perceber porque é que aquele tipo é o herói, pelo menos até o criptanalista salvar o mundo no final. Quanto às restantes figuras, demonstram uma falta de consistência agravada pela dificuldade do escritor em exprimir sentimentos. Por exemplo, depois da astronauta húngara Bozóki Emese (o nome foi escolhido num concurso promovido pela editora de JRS na Hungria) dizer “Estou a morrer, Tomás” (p. 328), os dois envolvem-se numa discussão científica sobre as características biológicas da vida que se prolonga por 56 páginas. Como afirma Bruno Vieira Amaral numa crítica a outro romance de “Zé”, publicada na Ler de Janeiro de 2013, “Em nenhum momento Rodrigues dos Santos consegue libertar os seus personagens e deixar que se aproximem dos leitores”. Por sorte, não existe em Sinal de Vida nenhuma das cenas de sexo entre Noronha e as suas girls pelas quais a escrita de JRS se tornou tristemente célebre.

 

Nem toda a produção literária necessita de ser profunda ou aspirar à perenidade. Para quem procura apenas uma história simples e aventurosa, Sinal de Vida revela-se satisfatório, embora exija alguma paciência do leitor até os personagens passarem das palavras à acção. No entanto, se vários autores são acusados de umbiguismo e de adoptarem uma atitude césar-monteirista para com o público, José Rodrigues dos Santos parece demasiado preocupado com o que os consumidores vão pensar e assemelha-se mais a um empresário que a um artista. A falta de um toque pessoal e de maior investimento no lado estético da obra contribui para a permanente impressão de superficialidade. A prosa de JRS alimenta mas não é saborosa, à semelhança dos hambúrgueres consumidos em Houston pelos astronautas do livro.

 

P.S. A revista Time Out goza fielmente com José Rodrigues dos Santos sempre que um livro deste chega às lojas, apresentando aqui uma compilação de críticas negativas (e divertidas) às obras do escritor.

 

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