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Desumidificador

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Só eu sei porque não fico em casa

O benfiquista António Lobo Antunes costuma dizer que “a adesão a um partido é exactamente a mesma coisa que a adesão a um clube: é afectiva e irracional”. De facto, ninguém se senta a ler os programas de todos os partidos políticos e depois escolhe aquele com que concorda mais (se alguma vez isso aconteceu, foi em 1974, quando tudo era novo). O apoio a um partido possui igualmente o sentido de inclusão num colectivo e da consequente rejeição dos outros grupos. No entanto, a política não é igual ao futebol. Trata-se (ou deveria tratar-se) de uma escolha racional entre diferentes opções a partir de questões concretas e factos objectivos. O que se verifica, porém, é que cada tendência escolhe os factos que prefere e ignora os restantes. Além disso, somos capazes, no âmbito do pensamento “nacionalista” descrito num ensaio de George Orwell, de acreditar nas maiores baboseiras para sentirmos estar certos.

 

No final do século passado, quando comecei a ler a “Visão” e o “Público” (o diário era então muito melhor que o “jornal do Dedé” publicado actualmente) e a adquirir umas noções básicas de como funcionava a política portuguesa, não tinha nenhuma referência ideológica para me orientar. Os meus pais, oriundos de uma região (o norte do distrito de Leiria) onde as pessoas à esquerda do PSD são uma espécie exótica, nunca diziam em quem votavam. De resto, não conhecia ninguém que falasse disso, enquanto os media ajudavam a estabelecer nos jovens a certeza de que a política é uma seca. Acabei por me tornar simpatizante do PS, de certa forma graças a António Guterres, então primeiro-ministro. Hoje é difícil de acreditar, mas 25 anos depois do 25 de Abril Portugal era uma história de sucesso. Parecia estar a tornar-se um país “europeu”: uma sociedade de classes médias, sem grandes tensões nem conflitos e onde o Estado apoiava quem ficava para trás. Como era isso mesmo que eu queria, aderi à “Razão e Coração”. Se tivesse nascido mais cedo ou mais tarde, teria talvez seguido outro caminho. As alternativas ao PS não eram, diga-se, grande coisa. À esquerda, o PCP pertencia a um mundo já desaparecido e o BE ainda estava a nascer, enquanto a direita oferecia generosamente ao país políticos como Paulo Portas, Durão Barroso ou Santana Lopes.

 

Seja à esquerda ou à direita, o importante é tomar posição, mas nunca deixar de ler ou ouvir o que o outro lado diz, até porque isso ajuda a reforçar as nossas próprias convicções. O aspecto mais empobrecedor da política actual é a tendência crescente para ver o pessoal na trincheira oposta como um bando de idiotas, corruptos ou fanáticos, situação que leva a conversas de surdos (feitas, naturalmente, aos gritos) e ao sucesso de políticos para quem tudo se pode resumir num “tweet”.