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Desumidificador

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Tão maus que são bons

Acho que vários comentadores políticos da imprensa portuguesa mantêm colunas de opinião durante anos a fio não porque tenham muitos admiradores, mas porque os leitores se sentem pessoas melhores ao verificarem que há gente com ideias mais absurdas e personalidades mais repulsivas que as deles. O efeito de contraste e humor involuntário dos cronistas é comercialmente interessante para os media, justificando assim a permanência de colunistas insólitos nas edições em papel e nos sites jornalísticos. Eis quatro exemplos de figuras que se adequam a este modelo:

 

João César das Neves

Periódico: Diário de Notícias

Profissão: Economista

Cognome: O Reaccionário

Independentemente da fé religiosa e do conhecimento económico do “Abominável César das Neves”, podemos classificar o autor da coluna “Não Há Almoços Grátis” como um homem profundamente desconfortável com o tempo em que vive. Na verdade, o desejo do professor da Católica não é voltar a 1973, mas sim a 1788, antes da Revolução Francesa estragar o mundo perfeito. Célebre por negar quaisquer direitos aos homossexuais (excepto talvez o de deixarem de o ser), César das Neves foi talvez o escriba que melhor definiu a visão moralista da crise e da austeridade. Depois de terem gasto dinheiro à maluca a comprar frigoríficos ou a ir a pastelarias e restaurantes (exemplos de despesismo apontados pelo colunista), os portugueses teriam que sofrer as consequências. A poupança e um estilo de vida espartano conduziriam os cidadãos ao caminho da virtude e ao perdão de Deus.

 

 

António Ribeiro Ferreira

Periódico: i

Profissão: Jornalista

Cognome: O Fascista

 

 

 Com uma longa carreira na imprensa, António Ribeiro Ferreira assumiu funções directivas em vários jornais e opinou no Diário de Notícias e no Correio da Manhã antes de chegar ao i. Os seus textos podem resumir-se numa palavra: ódio. Todos os que não compartilhem a visão do mundo deste autor (e são muitos, já que ele considera nunca ter existido uma verdadeira direita na democracia portuguesa) são alvo de ataques ferozes e expressões repetidas até à exaustão como “lacaios do politicamente correcto”. A vitória de Donald Trump no “glorioso 8 de Novembro” foi o acontecimento pelo qual Ribeiro Ferreira esperou a vida toda, e o chefe de redacção do i não se cansará de defender o presidente americano das “mentiras” espalhadas por todos os outros jornalistas. O curioso é que, ao longo dos anos, os artigos de opinião de Ferreira sempre foram de uma violência a roçar a loucura, mas os seus colegas parecem achá-lo perfeitamente normal.

 

Sofia Vala Rocha

Periódico: Sol

Profissão: Jurista

Cognome: A Tonta

 

 

Além de garantir a Manuela Moura Guedes o prémio de Mulher Mais Irritante de Portugal, o programa da RTP Barca do Inferno revelou ao país Sofia Vala Rocha, membro do PSD-Lisboa e torneira de lugares-comuns. Não gosto de avaliar a inteligência das pessoas, mas parece haver sempre um patamar no qual Sofia bate. A jurista acaba cada texto a festejar o golaço que marcou, sem perceber que a bola passou muito por cima da baliza. A crónica do papel higiénico (que, segundo Vala Rocha, passou a rarear nas casas de banho dos centros comerciais devido à reposição de rendimentos decretada por António Costa) deveria ter feito soar os alarmes no Sol, mas, no semanário do arquitecto Saraiva, a noção do ridículo é algo que já desapareceu há muito.

 

Alberto Gonçalves

Periódicos: Sábado e Observador

Profissão: Sociólogo

Cognome: O Arrogante

 

 

Se António Ribeiro Ferreira se resume ao ódio, Alberto Gonçalves resume-se ao desprezo. Qualquer afirmação ou iniciativa, sobretudo se oriunda de alguém de esquerda, constitui para Gonçalves um sinal claro de atraso mental. Tudo o que alguma vez foi dito, Gonçalves já sabia. Ninguém vê as coisas como elas são, excepto Gonçalves. Alberto é genial, todos os outros são cretinos. Eu sei, parece que estou a falar de Vasco Pulido Valente (amigo de Gonçalves, com quem partilha, nas palavras do historiador, a “falta de paciência para aturar idiotas”), mas Vasco é culto, inteligente e bom escritor, enquanto Alberto Gonçalves é apenas parvo.