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Telenovelando

As telenovelas portuguesas têm assumido um papel de intervenção social, ajudando a sensibilizar os espectadores através de atitudes como a introdução de personagens LGBT (algumas das quais casaram no ecrã, a partir de 2010) e a condenação da violência doméstica. No entanto, raramente adoptam posições políticas (num sentido estrito), até porque a escolha de uma dada tendência partidária poderia ofender e afastar parte do público abrangente que assiste aos folhetins televisivos. As convenções da telenovela, de resto, são intrinsecamente conservadoras, apesar da sociedade desigual mostrada nos episódios: nas novelas, os pobres não querem unir-se e vencer os ricos, querem ser como eles. Os casamentos entre personagens de origens e recursos diferentes simbolizam a paz social e a conciliação de classes.

 

Recentemente, no entanto, as novelas da TVI revelaram alguma politização, ainda que de forma indirecta e resultante do ambiente geral de crise. O colapso do BES ocorreu quando O Beijo do Escorpião estava no ar e influenciou nitidamente o final da novela, através dos problemas do banco fictício dirigido pela personagem de Nicolau Breyner. A sequela de Jardins Proibidos abriu com a participação de Diogo Amaral e Vera Kolodzig numa manifestação contra a troika. O folhetim Santa Bárbara, baseado num original mexicano, referiu de forma elogiosa o pensamento económico de Keynes e valorizou a acção dos sindicatos e do movimento operário, a partir da luta de um grupo de mineiros explorados por uma cacique local, a vilã interpretada por São José Correia. Filmada e exibida em Angola, A Única Mulher apresentou como naturais o poder da elite do MPLA, representada pelo milionário e “herói” de guerra Norberto Venâncio (Ângelo Torres), e a pobreza existente em Luanda, cujas imagens aéreas mostravam frequentemente a estátua de Agostinho Neto.

 

Ouro Verde, actualmente no ar, tem ido um pouco mais longe. A história gira em torno de um banco centenário, o BBFF, presidido pelo malévolo Miguel Ferreira da Fonseca (Luís Esparteiro). Várias personagens mencionam o risco de derrocada iminente vivido pelo banco, afectado pelas práticas ilícitas do seu presidente, e citam exemplos de instituições financeiras reais caídas em desgraça, como o BPN, o BPP e o BES. Numa cena do episódio 40 da novela, difundido em 27 de Fevereiro, dois inspectores da Polícia Judiciária conversam sobre o poder dos banqueiros portugueses e a forma como estes influenciaram primeiros-ministros. A certa altura, o polícia bom (Vítor d’Andrade) diz ao polícia mau (José Wallenstein): “Tu sabes que eu sou de esquerda, mas o Passos foi o primeiro a não atender o telefone a estes gajos”. Eu vejo as novelas da TVI há muitos anos (confesso, é um guilty pleasure) e nunca ouvi uma referência tão clara a um político no activo. Será que Ouro Verde expressa o ideário dos liberais, opositores, pelo menos no discurso, da promiscuidade entre o poder político e o poder económico? Poderíamos igualmente referir o facto de um dos vilões, também ligado ao BBFF, se chamar Otelo, mas isso deve constituir apenas um sinal de que o stock de nomes de personagens está a esgotar-se na TVI.