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Desumidificador

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Teoria da oposição

As dúvidas surgidas acerca da contabilização das vítimas mortais do incêndio de Pedrógão Grande conduziram, de forma mais ou menos explícita, a uma acusação gravíssima: o Governo estaria a ocultar informação de modo a enganar a opinião pública. Caso tal fosse provado, aconteceria um autêntico terramoto político. No entanto, pensando bem, uma hipótese desse género aponta para uma intriga como a que se segue. No final do passado dia 18 de Junho, António Costa pega no telemóvel. Liga para um número e diz: “A partir desta hora, não morre mais ninguém”. A seguir, desliga o telefone, vira-se para Constança Urbano de Sousa e afirma sorridente: “64 mortos é muito pouco. Se souberem que foram mais, toda a gente vai passar a votar no PSD.” Constança solta uma gargalhada maléfica. Nas horas seguintes, a conspiração une o Governo, os bombeiros, a Protecção Civil, o Ministério Público, a Polícia Judiciária, a GNR, o Exército, o Instituto de Medicina Legal, as autarquias dos concelhos afectados pelo fogo e os canais de televisão, enquanto os familiares das vítimas desconhecidas são hipnotizados para não as reclamarem. Todos pensam que os esqueletos ficarão para sempre no armário. Ao fim de cinco semanas, contudo, a empresária Isabel Monteiro, sem experiência prévia neste tipo de catástrofes, reúne a informação autêntica sobre a tragédia e, apoiada pelo imparcial diário i, enfrenta o boicote estatal, denunciando a verdade que todos querem calar. Aparentemente, para o PSD e o CDS este é um cenário plausível, levando-os a exigir a divulgação imediata de uma lista de vítimas de que há uma semana nem sequer se lembravam. Se o Presidente da República não fala a não ser para recordar que já não vivemos em ditadura, obviamente também está metido no esquema.

 

Caso imaginemos uma teoria da conspiração alternativa, a intenção do Expresso e do i nunca foi propriamente rever o número oficial de mortos causados pelo incêndio, mas apenas difundir boatos e lançar a dúvida. O diário aconselhado pelo arquitecto Saraiva já tinha mencionado os rumores que corriam em Pedrógão Grande sobre cadáveres não contabilizados, mas contrapunha-os aos números oficiais, antes da lista de Monteiro estimular o i a lançar a manchete bombástica. A ideia de que o Governo esconde qualquer coisa pode ser mais resistente que qualquer versão oficial e permanecer de forma subtil durante muito tempo. O ónus da prova inverte-se e o primeiro-ministro passa a ter que garantir a inexistência da “lista secreta” e de influências governamentais na justiça. De resto, estimulados por tudo o que aconteceu nos últimos anos (incluindo a tragédia de Pedrógão), confiamos cada vez menos no Estado e nos políticos, num clima de descrença que nos torna susceptíveis a teorias da conspiração. Nas entrevistas que concedeu, Isabel Monteiro referiu pormenores habituais neste tipo de teorias, como alegadas incongruências nas conclusões estatais e muitas pessoas “fortemente pressionadas” pelo poder local (?) para negarem as suas declarações anteriores sobre o número de corpos vistos. As redes sociais permitem que, apesar dos desmentidos oficiais, a “verdade escondida” seja partilhada durante anos e reapareça a qualquer altura.

 

Ao longo dos quase dois anos de vigência da Geringonça, o debate político tem sido frequentemente conduzido em função de notícias falsas, previsões erradas ou informações recolhidas pelos serviços secretos do humorista amador Marques Mendes. Uma vez lançado o “facto” embaraçoso para o Governo, verificam-se dois ou três dias de algazarra e indignação, até que a informação inicial é desmentida e tudo se esvai como se nada tivesse acontecido, até à próxima polémica. Esta situação revela, em primeiro lugar, o crescente descrédito da comunicação social, de rigor e imparcialidade duvidosos. Do outro lado, temos aquilo a que o comentador Pedro Adão e Silva chamou PTEC (“processo de trumpização em curso”) e, numa referência à mesma época histórica, poderíamos designar por “gonçalvismo”, ou seja, o sistema de Alberto Gonçalves. Quer no Parlamento quer nos media, a direita tem seguido uma tendência de radicalização e ataque sectário em todas as frentes. Vozes mais ponderadas, como as de Adolfo Mesquita Nunes ou Francisco Mendes da Silva, têm sido submergidas por um conjunto de “liberais” ansiosos por desaires e tragédias que possam imputar ao imoral Costa e ao traidor Marcelo. A avaliar pelo perfil do novo líder parlamentar do PSD, Hugo Soares, e pelo “ultimato” por este anunciado (se o Governo não divulgasse a lista de vítimas em 24 horas, os “laranjas”… ficariam muito tristes), o futuro do partido passa pela estratégia de Rui Ramos, digo, de Pedro Passos Coelho, num caminho seguro, coerente e inabalável para o desastre total.

 

 

Além de considerarem Passos Coelho um novo Churchill (sem o brandy nem os charutos), os comentadores de direita execram dedicadamente António Costa desde o crime imperdoável do Outono de 2015. O líder socialista é descrito como um maquiavélico génio do mal, uma espécie de Lex Luthor sem nenhum super-herói para o combater. O problema é que tanto exagero contribui para a queda do projecto liberal nas sondagens. Sem os conhecer pessoalmente, acho que Passos é apenas um homem banal, enquanto Costa também não dispõe de assombrosas qualidades ou defeitos horripilantes. No entanto, António parece saber minimamente o que está a fazer, enquanto Pedro anda ao sabor do vento e dispara sem cessar contra os próprios pés.

 

P.S. Rui Ramos é um historiador que admiro há muitos anos e um analista político de qualidade, mas ultimamente parece apostado em ser a Raquel Varela da direita. De facto, com o menor protagonismo do prof. Fernando Rosas e o desgaste provocado em José Pacheco Pereira por décadas de exposição, Ramos e Varela são neste momento os “intelectuais públicos” de maior visibilidade na área historiográfica.

 

P.P.S. A capa do i de hoje, preenchida na íntegra pelas declarações de Marcelo, é de uma hipocrisia tremenda.