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Desumidificador

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The end is (not) near

Os resultados das eleições legislativas no Reino Unido não corresponderam às previsões feitas por muitos (incluindo a primeira-ministra Theresa May) há poucos meses, ou mesmo semanas. Quando o Partido Trabalhista de Jeremy Corbyn apresentou o seu programa eleitoral, cujas medidas apontavam como objectivo declarado o regresso à época pré-Thatcher, o iminente suicídio do Labour e a remoção instantânea do seu líder extravagantemente marxista pareceram óbvios. No entanto, contados os votos, dir-se-ia que quem ganhou perdeu e quem perdeu ganhou. Além do seu contexto específico, o escrutínio britânico possuiu a relevância de testar o caminho de declínio do centro-esquerda europeu, abalado na actual década por sucessivos desaires. A “pasokização”, um novo conceito político criado a partir da derrocada do partido socialista grego, afectou as forças sociais-democratas em países como França (onde a primeira volta das legislativas confirmou a erosão eleitoral do PSF), Espanha e Holanda, num quadro de recuo da esquerda moderada em que o Governo português parece um autêntico oásis.

 

Nos círculos do debate político lusitano, a interpretação deste fenómeno tem assumido formas opostas. Para os comentadores de esquerda, a crise da social-democracia resulta da viragem desta ao centro, que aproximou os socialistas (envolvidos, por convicção ou imposição europeia, em medidas de austeridade e redução do Estado Social) da direita ao ponto dos eleitorados preferirem o original à cópia. Os colunistas mais conservadores, pelo contrário, apontam causas diversas para o declínio do adversário. Em primeiro lugar, o facto da crise ter extinto o dinheiro necessário para pagar o socialismo. Nas condições da globalização, já não existiriam meios para os sociais-democratas contentarem as suas bases tradicionais de apoio através de subsídios ou regalias laborais. Por outro lado, a esquerda teria adoptado um discurso dúbio e auto-culpabilizador perante o terrorismo, sem responder ao medo do Islão sentido pelas populações europeias e tolerando a radicalização das comunidades muçulmanas. A recusa socialista em admitir os danos económicos causados por políticas assentes na dívida e nas obras públicas estaria a contribuir para a descredibilização dos projectos keynesianos. Só alguns socialistas “realistas”, como Manuel Valls e Francisco Assis, admitiriam a inevitabilidade de reformas liberais no sentido de emagrecer o Estado e viabilizar o crescimento económico.

 

As derrotas em catadupa dos partidos de centro-esquerda levaram algumas vozes a proclamarem a irrelevância destes na cena política europeia, dominada agora pela luta entre o centro-direita europeísta e cosmopolita, personificado em Angela Merkel, e a extrema-direita xenófoba e proteccionista. O esmagamento do Labour seria o ponto final num esquerdismo cada vez mais fanático e irrealista, dominado por radicais sem ligações à maioria do eleitorado. No entanto, o resultado obtido por Corbyn e o entusiasmo despertado pelo político idoso entre os jovens britânicos dão a entender que sublinhar a parte da “esquerda” em detrimento da palavra “centro” pode ser a via para a salvação do socialismo democrático europeu. Aguardam-se os próximos capítulos.