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Desumidificador

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Todos somos X

Recentemente, o debate público em Portugal tem sido marcado pela crescente preponderância das redes sociais sobre a imprensa e os restantes meios clássicos de comunicação. O jornalismo até pode lançar a notícia ou a declaração na origem de uma polémica, mas a partir daí limita-se a seguir o que acontece no Twitter, no Facebook e noutros fóruns cibernéticos e a difundir aquilo que as “celebridades” dizem sobre o assunto do momento. E, de facto, muitas vezes o assunto só dura um momento.

 

O processo costuma iniciar-se quando, dentro ou fora da Internet (acaba por dar no mesmo), alguém com relativa visibilidade pública diz ou partilha X. Ao fim de poucas horas, X está reproduzido por todo o lado e formaram-se grupos vastos a favor ou contra X. Todos se sentem obrigados a opinar imediatamente sobre X, sob pena de passarem por ignorantes ou direitistas/esquerdistas, conforme o caso. Há quem se indigne por tanta gente falar de X e não de Y. Entretanto, X é associado a valores elevados como a liberdade, a igualdade e a fraternidade e convertido num símbolo dos tempos que correm. O ruído gerado faz os comentadores dos media tradicionais pronunciarem-se acerca de X e os políticos digladiarem-se em torno do escândalo que X representa. Tudo isto parece durar imenso tempo, mas na verdade prolonga-se por apenas dois ou três dias. Findo esse período, ou alguém revela que X afinal era V e ninguém o tinha percebido ou então X simplesmente desaparece nas brumas da memória para dar lugar a um novo debate cheio de paixão, agora sobre Z, e depois o alfabeto volta ao início para nos proporcionar novas polémicas.

 

Porque se repete este ciclo? Desde logo, o ritmo da actualidade é frenético, com a sucessão permanente de eventos a dificultar reflexões mais pausadas e a contribuir para o rápido esquecimento do passado recente. Por outro lado, atraídos pelo cheiro a sangue, muitos jornalistas preocupam-se mais em difundir e ampliar as polémicas do que em esclarecer aquilo que está em causa. Existe também o puro prazer lúdico de discutir (mesmo sobre assuntos insignificantes), cujo estímulo favorece o choque de posições opostas. Nada disto seria particularmente novo ou grave se o nível do debate não estivesse a degradar-se cada vez mais. No cenário actual de bipolarização da política portuguesa, qualquer episódio serve de pretexto para demonstrar o carácter totalitário da esquerda ou a alarvidade preconceituosa da direita, numa tendência para o exagero e a dramatização em que os ataques pessoais elevam-se acima das meras diferenças de perspectiva. A rapidez e interactividade do debate contribuem para a profusão de afirmações precipitadas e originam um certo efeito de manada, através da busca da aprovação dos “amigos” e seguidores e da hostilização de quem está fora do grupo. De certa forma, o pensamento político da actriz Maria Vieira, agora editado por Zita Seabra no livro Maria no País do Facebook, resume o tom maioritário nas redes sociais: muita indignação, pouco conteúdo.

 

No meio do labirinto de documentos históricos que o mundo virtual produz, os historiadores do futuro sentirão dificuldades de orientação, mas poderão talvez observar as inúmeras polémicas públicas do início do século XXI com maior distanciamento, concentrando-se nas dinâmicas de produção de opinião que elas revelam e tentando compreender essa época estranha em que, à semelhança de Ricardo Araújo Pereira, nunca deixávamos que o essencial nos distraísse do acessório.

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