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O realizador do primeiro debate televisivo entre Rui Rio e Pedro Santana Lopes, transmitido pela RTP em 4 de Janeiro, prestou especial atenção aos movimentos feitos por Santana enquanto Rio falava. Em contraste com a pose hirta de Rui na condição de ouvinte, Pedro mexia em papéis, punha e tirava os óculos, virava-se para acompanhar a contabilidade do tempo gasto pelos dois candidatos ou olhava para o tecto e a mesa, aparentando indiferença pelas palavras do seu oponente, à excepção da parte do debate relativa à discussão do passado de cada um dos candidatos à liderança do PSD. De facto, tanto Rio como Santana têm muito passado e, embora a experiência possa ser uma mais-valia política, neste caso nenhum dos dois parece ser o candidato indicado para quem quer mudança. Não existem grandes diferenças ideológicas e programáticas entre os ex-autarcas, ambos crentes na possibilidade da descida do IRC fazer o crescimento económico português disparar para os 20% anuais.

 

Apesar do desinteresse quase geral pela campanha interna do PSD, muito se tem discutido acerca da identidade e do futuro do partido fundado por Sá Carneiro, Pinto Balsemão (apoiante de Rio) e Magalhães Mota. Se alguns analistas vêem nestas directas a oportunidade do PSD virar ao centro e recuperar os ideais sociais-democratas da década de 70, outros apelam a que a organização “laranja” se assuma como aquilo que o eleitorado sempre viu nela, ou seja, um grande partido de direita. O certo é que todos têm razão. O “partido mais português de Portugal”, que Santana Lopes destacou não pertencer a nenhum movimento político internacional (Sá Carneiro tentou entrar na Internacional Socialista, mas Mário Soares pressionou os seus amigos europeus de modo a evitar a aceitação do PPD), pautou-se sempre pela indefinição ideológica. O principal pensador da direita liberal, Rui Ramos, dá a entender que o PPD surgiu do nada, sem ligações ao Estado Novo, mas, se isso é verdade no que respeita à elite dirigente, o aparelho local do partido foi frequentemente construído a partir da influência de antigos apoiantes da ditadura como Alberto João Jardim ou o meu familiar José Simões de Abreu (presidente da Câmara de Figueiró dos Vinhos antes e depois do 25 de Abril). Pessoas de origens sociais e políticas bastante diferentes filiaram-se no PPD/PSD, cujos primeiros anos foram marcados por cisões e fortes disputas internas. Com a estabilização da democracia e o longo período do PSD no poder, sob a AD, o Bloco Central e o cavaquismo, acentuou-se o carácter pragmático e tecnocrático da instituição, apoiada num conjunto amplo de autarquias, no domínio da Madeira e do Interior Norte e Centro e na adesão habitual quer do eleitorado centrista flutuante entre as cores rosa e laranja quer da direita pouco atraída pelo CDS. As rivalidades visíveis nos vários congressos em que Santana Lopes tentou tornar-se califa no lugar do califa, antes de o conseguir em 2004, giravam em torno de personalidades e não de ideias.

 

 

Quando a alternância de ciclos políticos (a ideia de que, nas últimas duas décadas, o PSD só chegou ao poder para reparar os danos causados pelo PS é demasiado simplista) conduziu Pedro Passos Coelho à chefia do Governo, o cenário começou a alterar-se. Por um misto de convicção e efeito da conjuntura, o PSD tornou-se o partido da austeridade, com uma prática governativa cada vez mais distinta da proclamada “social-democracia, sempre!” O “velho PSD”, actualmente ligado a Rui Rio, distanciou-se da viragem liberal imprimida por Passos, cujos oito anos de liderança deixaram marcas no antigo PPD. Palavras de ordem como “Menos Estado, melhor Estado” ou “Libertar a sociedade civil” foram utilizadas pelos comentadores da área “laranja”, enquanto o núcleo dirigente do passismo transmitiu sobretudo a mensagem “Ou nós ou o caos”. Alterar a linha económica austeritária significaria, devido à própria lógica da realidade das coisas, lançar o país numa situação ainda pior. Este discurso garantiu o primeiro lugar da PAF nas legislativas de 2015, mas as mudanças também ocorridas na esquerda deram uma reviravolta inesperada ao filme. Quando a Geringonça repôs os feriados de 5 de Outubro e 1 de Dezembro, sem que Portugal acabasse imediatamente, iniciou-se o fim da inevitabilidade e do próprio Passos Coelho. As últimas autárquicas marcaram o colapso da narrativa seguida pelo PSD durante quase uma década, embora Passos ainda acredite que a História lhe dará razão e o fará voltar à ribalta. Até lá, o PSD precisa de um novo discurso, sem que Rio nem Santana se mostrem aptos a formulá-lo.

 

No entanto, podemos estar certos de que o PSD não vai acabar nem ficar fora do Governo durante décadas. Por se tratar de um partido nascido “das entranhas do povo português”? Não, porque o mapa partidário do actual regime é bastante estável, particularmente à direita, onde foi sempre muito difícil criar e desenvolver partidos alternativos a PSD e CDS. Como a esquerda não ficará para sempre no poder, alguém vai estar lá para recolher o fruto na hora certa, e certamente será o PSD. A questão é: qual PSD? Já há muito se tornou óbvio que a via para mudar a direita em Portugal não passa por formar um novo partido, mas sim por controlar a máquina “laranja”. Essa foi, de resto, a estratégia seguida pelos liberais do grupo da Atlântico e do Observador, para quem Passos Coelho se revelou o homem providencial e insubstituível. O episódio de André Ventura, apesar da reduzida capacidade política deste, mostrou que o PSD também pode ser dominado por um “populismo de protesto” (na expressão do historiador Riccardo Marchi) a tender para a extrema-direita. Talvez seja improvável, mas está longe de ser impossível e, perante um cenário desse tipo, Rui Rio e Pedro Santana Lopes tornar-se-iam memórias felizes do tempo da moderação e do bom senso.