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Desumidificador

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Um crítico frustrado

Uma das áreas onde a democratização da opinião, trazida pela Internet, se fez sentir foi o cinema, tendo muitos espectadores passado a comentar publicamente os filmes a que assistiam. Em Portugal, o aparecimento online de novos críticos iniciou-se em fóruns de discussão como os dos sites 7.ª Arte e Cinema 2000. Foi precisamente em 2000 que, embora eu fosse adolescente e não conhecesse praticamente nada de cinema além dos hilariantes desenhos animados do realizador Tex Avery, comecei a escrever breves comentários àquilo que via nas salas ou em VHS (mais tarde DVD). Salvo erro, o primeiro filme que critiquei foi “Gladiador”, de Ridley Scott (é bom, mas não deveriam ter usado personagens reais numa história totalmente ficcional). A leitura dos textos de outros cibernautas permitia-me apreender o vocabulário da crítica cinematográfica e disfarçar como podia a minha ignorância.

 

Nos idos de 2001, quando o webmaster do site Filmes Desancados, preenchido por críticas irreverentes e descontraídas (às vezes até demais) a longas-metragens, alargou a equipa para fora do seu núcleo de amigos, acabei por ocupar uma vaga e tornar-me o crítico “Pedrocas”. Foi uma experiência divertida, mas a página veio a desaparecer em resultado do desinteresse da maioria dos autores. Assim, a vida cinéfila foi seguindo o seu caminho, até que em 2003 os blogues sobre cinema (a “cineblogosfera”) emergiram como um sector em plena expansão. Outro frequentador dos fóruns, o argumentista Fernando Dordio, convidou-me então para escrever no blogue Pipoca Rasca, no qual eu colaboraria até 2008. Nesses anos, a interactividade e a busca do debate estimularam a aproximação entre bloggers espalhados pelo país, alguns dos quais produziam críticas e textos noticiosos de grande qualidade. O semi-anónimo JB Martins, ainda hoje responsável pelo Cineblog e co-autor da webcomic “A Garagem de Kubrick”, e o jornalista Miguel Lourenço Pereira (actualmente radicado em Madrid e entregue a uma paixão ainda maior, o futebol) foram os principais dinamizadores da Academia de Blogs de Cinema (ABCine), com várias dezenas de membros e dotada de um fórum próprio. A votação sobre os melhores filmes de 2004 foi a iniciativa mais visível da ABCine, infelizmente sem continuidade. Numa fase posterior, vários bloggers uniram-se para criar a revista online de cinema Take, fonte de conteúdos por vezes superiores aos das publicações especializadas então existentes nas bancas.

 

Os meus anos como crítico de cinema revelaram-se interessantes, mas a verdade é que não tinha grandes qualidades para a função. A nível geográfico, consumia praticamente apenas a produção cinematográfica oriunda dos EUA e, em menor dimensão, de Portugal. Alguns géneros, em particular o terror, o musical e a ficção científica, estavam longe de me serem familiares. Da mesma forma, tinha dificuldade em analisar a qualidade de aspectos dos filmes como a fotografia e o trabalho dos actores (à excepção de Charlie Sheen e Jennifer Lopez, toda a gente me parecia pelo menos razoável). Geralmente, não conseguia escrever mais de quatro breves parágrafos sobre um filme (ou uma “fita”, ou uma “película”, ou uma “longa-metragem”), seguidos da escolha da melhor e pior cena e da classificação da obra numa escala 1-10. Com o passar do tempo, percebi que gostava mais de classificar e escrever sobre os filmes do que propriamente de vê-los, e o facto de (por razões que não vêm agora ao caso) ter passado a ir menos vezes ao cinema na actual década contribuiu para o meu distanciamento do universo cinéfilo. Só ocasionalmente, noutras incursões mais generalistas pela blogosfera, voltei a comentar fitas.

 

A parte boa desta história é que o estímulo da redacção do Pipoca Rasca me levou a conhecer realizadores como Leone, Kubrick, Eastwood, Hitchcock, Almodóvar ou Soderbergh, tal como a gozar filmes deliciosamente maus, ao nível 3/10 de um “Date Movie” ou um “Desaparecido em Combate 3”. Aprendi, no entanto, que, para uma crítica negativa ser eficaz, não basta escrever que determinado filme é uma bosta, sendo necessário manejar de forma criativa a ironia e o humor para desmascarar a falta de qualidade do objecto artístico. Blogues como o Cinema Xunga e o Royale With Cheese constituem referências na área do desanque com estilo.

 

 

O desaparecimento das edições portuguesas das principais revistas de cinema (Empire, Premiere, Total Film), além da vida curta de projectos mais modestos como Cinemania e Primeiras Imagens, criou um vazio na imprensa nacional. A crítica continua a ser feita sobretudo por figuras do “meu tempo”, entre o snobismo de Vasco Câmara e Luís Miguel Oliveira e a simpatia indulgente de Rui Pedro Tendinha. Excepto aquando de estreias vistosas como as dos novos episódios das séries 007, Star Wars ou 50 Sombras de Grey, o cinema ocupa pouco espaço nos jornais lusos, enquanto os canais televisivos generalistas, ultrapassados pelo cabo e pelos videoclubes das distribuidoras, investem na 7.ª Arte apenas durante o Natal e a Páscoa. Quanto à bibliografia cinéfila, para lá do valor informativo dos três volumes do “Dicionário do Cinema Português” de Jorge Leitão Ramos, escasseiam livros que não constituam estudos académicos, chegando ao grande público através de um tom ligeiro mas rigoroso. A esse nível, pouco existe além de títulos como os anuários de Pedro Garcia Rosado (“Vídeo 89-93”) e Miguel Lourenço Pereira (“Cine Guia 2007”), o “Guia Terapêutico de Cinema” de Pedro Marta Santos ou “100 Filmes que Podem Mudar a sua Vida”, de Rui Pedro Tendinha. Entretanto, os blogues dedicados ao cinema sofrem os efeitos erosivos das redes sociais, cujas limitações de caracteres dificultam críticas fundamentadas aos (muitos) filmes estreados todas as semanas. Não desanimemos, porém. O mercado do cinema em Portugal parece estar a recuperar da crise e, enquanto houver espectadores lúcidos e curiosos, a escrita sobre as imagens em movimento pode manter-se dinâmica, com ou sem o meu contributo.