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Desumidificador

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Um "Diabo" dos bons velhos tempos

O semanário de direita O Diabo, herdeiro da personalidade marcante da sua fundadora Vera Lagoa (para quando uma biografia da autora de “Revolucionários que Eu Conheci”?), passou durante cerca de um ano, sob a direcção do militante do CDS Miguel Mattos Chaves, por alterações não tanto no conteúdo político, mas sobretudo ao nível do tom e da linguagem. As manchetes exaltadas e bombásticas sofreram uma atenuação, a primeira página tornou-se mais sóbria e o vocabulário quase parecia o de um jornal normal. Contudo, Mattos Chaves foi recentemente substituído na direcção pela desconhecida Cecília Alexandre. Embora a nova directora não assine qualquer editorial, o número de 20 de Junho de O Diabo assinala o fim do tempo da moderação.

 

Os meios disponíveis e a capacidade de reacção de O Diabo revelam-se no facto de, três dias após a deflagração do incêndio de Pedrógão Grande, este apenas ser referido em três parágrafos na página 10 e na citação de um texto de Rui Ramos no Observador. Para lá disso, mencionam-se os “camaradões do PC e os camaraduchos do Bloco” (p. 24) e a “antiga Província Ultramarina” de Moçambique (p. 9), enquanto um artigo sobre impostos inclui o título “António Costa: Senhor feudal?” (p. 12). No obituário, ficamos a saber que Helmut Kohl “não era considerado especialmente brilhante” e Alípio de Freitas não passava de um “antigo sacerdote transmontano “despadrado”” e “militante de agrupamentos extremistas” (p. 10).

 

O aspecto mais interessante da última edição do periódico quadragenário reside numa entrevista a Assunção Cristas, destacada na capa com a frase (sem aspas no original) “Lisboa precisa de uma Presidente, porque o que tem é um corta-fitas”. Esclareça-se que O Diabo raramente publica entrevistas, e ainda mais raramente entrevistas a líderes partidários. Acompanhadas por fotografias da afixação no Campo Pequeno do primeiro cartaz da candidata, as 20 perguntas colocadas à líder centrista dividem-se nas secções “A Política” e “A Vida”. Ao dirigir-se a Cristas, a jornalista Eva Cabral utiliza expressões como “As ruas de Lisboa estão um caos”, “a política anti-carros (mais parece um ódio anti-carros) de Fernando Medina” ou “Esta “renaturalização” ridícula da cidade”. A parte da “Vida” inclui perguntas dificilmente imagináveis caso o género da entrevistada fosse outro (“Tem alguém que a ajuda a escolher roupa ou lhe dá dicas em matéria de cabeleireiro?”, “O facto de o seu marido ser do PSD consolida uma permanente coligação em casa?”), aproveitando Assunção para falar dos seus filhos, da interrompida carreira académica, das férias familiares no Algarve ou das graças a Deus que Cristas dá diariamente “por ser muito feliz”. Esta entrevista representa um início de credibilização de O Diabo, que dificilmente entrevistará outros líderes partidários (excepto talvez José Pinto Coelho, do PNR), ou traduz apenas a necessidade de Assunção Cristas de aproveitar todas as oportunidades para aparecer, mesmo em publicações de alcance reduzido?