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Desumidificador

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Um lapso sem importância

Se o presidente do PSD não tivesse sete vidas, ontem tinha sido o dia do suicídio político de Pedro Passos Coelho (PPC). Se uma gaffe assim ocorresse numa sitcom, todos achariam o argumento demasiado disparatado. Se não fosse o talento nato de PPC para fazer figura de parvo, a Geringonça poderia ter problemas. Vejamos alguns dos tiros no pé dados por Passos com as suas declarações sobre supostos suicídios ocorridos entre pessoas afectadas pelos incêndios de Pedrógão Grande.

 

a) Nos primeiros dias após a tragédia, o discurso da direcção do PSD foi contido, respeitando o luto nacional, e os pedidos posteriores de esclarecimento das circunstâncias do incêndio surgiram como iniciativas lógicas e sem exageros verbais. É certo que, nas suas colunas do Observador, os principais doutrinadores do passismo aproveitaram o desastre para atacar António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa (este último foi visado com um ódio particularmente intenso, saído das tripas), mas as cúpulas sociais-democratas pareciam revelar moderação. Até ao momento em que PPC associou os casos de suicídio de que tinha conhecimento ao escasso apoio psicológico fornecido pelo Estado aos sobreviventes do fogo. Desde logo, ficou a impressão de que há algo de muito rasteiro num líder partidário que se serve politicamente da morte de pessoas (ou de uma “pessoa”, já que Passos, depois de utilizar o plural, admitiu apenas ter certezas quanto a um caso concreto), ao acusar o Governo de as ter deixado morrer por negligência, estabelecendo uma relação de causalidade no mínimo precipitada em situações de suicídio. Tratar-se-ia, acima de tudo, de uma falta de respeito pelas vítimas.

 

b) Pouco depois, noutro ponto do país, António Costa recusava comentar as declarações de PPC, embora alertasse para a necessidade de prudência e os riscos da precipitação, já demonstrados no caso da queda fictícia do Canadair. Entretanto, o presidente da Câmara de Pedrógão Grande e a Autoridade de Saúde da Região Centro negavam qualquer caso recente de suicídio na área devastada pelo incêndio. Costa apareceu em cena como um político responsável e ponderado, enquanto Passos tornava-se um transmissor de boatos e fake news, uma espécie de Trumpzinho nacional.

 

c) A meio da tarde, o desmentido final de João Marques, provedor da Santa Casa da Misericórdia de Pedrógão (e candidato do PSD à liderança da autarquia local), além de deitar para o lixo a declaração feita tão convictamente por PPC de manhã, agravou a perplexidade. Alguém com responsabilidades no apoio à população divulga boatos e informações por confirmar, desculpando-se depois como se tivesse cometido um lapso sem importância? E é uma figura assim que o PSD quer ver na presidência da autarquia pedroguense? Nesta altura, os munícipes de um concelho que perdeu tantos habitantes pensam em tudo menos nas próximas autárquicas, mas a escolha de quem irá liderar Pedrógão Grande no momento mais difícil da sua história e pressionar o poder central para cumprir as promessas de ajuda possui particular relevância.

 

d) O caso dos falsos suicídios, do qual PPC pediu desculpas de forma atabalhoada, lembrando as dúvidas surgidas logo de manhã (que não o impediram de falar demais), ofuscou o evento partidário onde Passos terminou a jornada, o lançamento da candidatura de Fernando Seara à Câmara de Odivelas. Não foi propriamente um bom arranque para a campanha de Seara, contaminada pela gaffe do líder “laranja”. Embora poucos acreditem que a Quinta da Memória mude de mãos em Outubro, o PSD poderia aproveitar as lacunas do actual autarca socialista, Hugo Martins, o homem menos carismático do mundo.

 

e) Os indícios de falhas do aparelho estatal na resposta à catástrofe de Pedrógão criaram uma situação arriscada para o Governo, cujas opções de política florestal sofreram críticas de BE e PCP. Depois de muito tempo em que tudo parecia correr bem no país, Costa enfrenta um desafio politicamente complicado, que ficou menos complicado depois de PPC mostrar porque é que o PSD tem por lema “Levar Portugal a Sério”. Muitos eleitores devem pensar que, se isto é a alternativa, será melhor continuar com a Geringonça, enquanto esta agradece a Passos o seu papel de aliado imprescindível da coligação de esquerda.

 

 

Já se verificaram outros episódios nos quais o líder da oposição ficou associado a uma imagem de inépcia, atrapalhação e choque com a realidade (a profecia do Diabo que não veio, o lançamento do livro de José António Saraiva, etc.), mas a sensibilidade da questão levantada pode impedir que tudo desapareça como palavras escritas na areia. Isto acontece quando o PSD vive uma fase agitada, com Nuno Morais Sarmento já a posicionar-se para um ataque iminente à liderança, justificando a sua iniciativa com os maus resultados do partido nas sondagens. Nos últimos meses, vários artigos de opinião na imprensa exprimiram a recusa por parte dos “ultras” de mudanças no sentido de um recentramento do PSD. Afinal, tal como o Barnabé, Passos é diferente dos outros. Os políticos e comentadores liberais associam a eventual deposição do barítono a uma chegada do ceptro laranja às mãos da horrenda hoste cavaquista ou de qualquer outra facção interna ansiosa por inverter o rumo “reformador” seguido pelo partido de Sá Carneiro nos últimos sete anos. A falta de perspectivas de sucesso eleitoral a curto prazo contribui, no entanto, para a multiplicação no interior do PSD de assobios, lenços brancos e exigências de chicotada psicológica. O resultado das autárquicas, dependente de muitos factores, pode não ser tão decisivo quanto alguns acreditam, mas dias como o de ontem ajudam a escurecer o futuro político de Pedro Passos Coelho.