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Um portista em Odivelas

A escolha: A primeira recordação ligada ao futebol que tenho é a de brincar com um objecto azul (devia ser um artigo publicitário do Totobola, já que tinha os símbolos 1X2) onde o emblema do Futebol Clube do Porto surgia ao centro. Na altura, nem sabia bem o que aquilo era, mas vi na televisão a final da Taça de Portugal de 1990/91, na qual o FCP triunfou por 3-1 sobre o Beira-Mar, após prolongamento, e um dia disse: “eu sou do Porto”. Sem influência familiar no sentido de nenhum clube e indiferente à distância geográfica que separava Odivelas do Estádio das Antas, tomei a opção como natural. Na temporada de 1992/93, o meu quotidiano sofreu uma mudança brusca. Comecei a ler os jornais desportivos e a revista Dragões, fiz os meus pais comprarem a Fotobiografia do FC Porto escrita por Rui Guedes, passei a chorar baba e ranho quando perdíamos (agora eu fazia parte de um “nós”). Nos “dragões” treinados por Carlos Alberto Silva brilhava, entre outros, um ídolo fascinante: Vítor Baía, o guarda-redes quase imbatível cujos três anos de ausência criariam um vazio na baliza portista só preenchido com o regresso do agora número 99 para novas vitórias.

 

O penta: Em 1994, quando mudei de escola e entrei no 2.º ciclo, passei a ter menos tempo livre para seguir o futebol, mas mantive-me atento aos feitos do FC Porto. Nos arredores de Lisboa, a um autocarro de distância da Luz e de Alvalade, um adepto portista não seria já tão raro como nos anos 70, mas a escassez de apoiantes do emblema da Invicta notava-se quando o clube assegurava um novo título de campeão e um silêncio ensurdecedor enchia as ruas de Odivelas. Esta situação era frequente numa década de 90 dominada pelos homens de azul e branco, cujas consistência e regularidade admiráveis permaneciam independentemente do treinador e contrastavam com o caos organizativo de Benfica e Sporting. Quando ingressei no ensino secundário, o FCP era o primeiro pentacampeão do futebol português. Durante o quinquénio ímpar, eu só lamentava que o clube de Viena e Tóquio (finais ocorridas quando eu era novo demais para compreender) nunca chegasse longe nas competições europeias.

 

As finais: O ciclo ininterrupto de vitórias domésticas do Porto chegou ao fim quando os meus colegas sportinguistas foram campeões pela primeira (e quase única) vez nas suas vidas, mas os “dragões” mostravam um nível razoável que, com a vinda de Octávio Machado no início de 2001/02, se converteu em desnorte total. Até que José Mourinho entrou em cena e o sonho passou a confundir-se com a realidade. A final da Taça UEFA em Sevilha arrasou-me os nervos e acabei por mudar de canal no prolongamento, verificando a medo o resultado de vez em quando. Numa dessas espreitadelas, vi os futebolistas vindos da foz do Douro deitados a celebrar o golo de Derlei e imediatamente gritei-lhes para se levantarem, porque o desafio ainda não tinha terminado. Um ano depois, Gelsenkirchen foi bem mais tranquila, sem sobressaltos de maior e com o quarto de hora final vivido já em festa. Se eu não tivesse tanto medo de chamar a atenção, teria levado o cachecol do FCP para a faculdade no dia seguinte (hoje arrependo-me de não o ter feito). Quanto ao jogo da Taça Intercontinental, não me lembro de grande coisa, excepto do cansaço e do alívio final permitido pelo penálti de Pedro Emanuel. Já em 2011, ninguém acreditava que uma das melhores equipas da história do clube portuense pudesse ser travada pelo Braga em Dublin, onde o golo de Falcao constituiu um dos poucos momentos dignos de realce de uma partida nada espectacular, mas foi suficiente para elevar André Villas-Boas aos píncaros de onde desceria mais tarde. Assim, vi o FC Porto ganhar quatro troféus internacionais em menos de uma década, enquanto o pessoal de Lisboa continua à espera há mais de 50 anos.

 

 

A história: Após a licenciatura e o mestrado, tive de tratar o FC Porto de forma neutra, como objecto de estudo, durante a elaboração de livros sobre a história do futebol em Portugal. Tentei ser imparcial e objectivo, além de aproveitar para conhecer melhor duas fases particularmente interessantes do passado portista. Em primeiro lugar, as origens do clube, ainda mal conhecidas, marcadas pela polémica 1893/1906 e descritas por uma versão oficial que levanta muitas dúvidas. Por sua vez, os anos entre 1976 e 1980, nos quais Pedroto e Pinto da Costa empreenderam uma ruptura e puseram fim ao jejum de títulos, são cruciais para entender tudo o que aconteceu depois no futebol nacional. Entretanto, por ironia do destino, vi o meu nome na ficha técnica do Museu Cosme Damião, de forma imerecida, já que tudo o que fiz durante o “estágio voluntário” no Benfica foi fotografar jornais e revistas antigos. Como profissional, posso trabalhar para qualquer clube, mas admito ter sido bizarro entrar no Estádio da Luz enquanto desejava o insucesso desportivo do SLB.

 

O Papa: Jorge Nuno de Lima Pinto da Costa já era presidente do FC Porto quando nasci e continua ainda hoje na cadeira do poder. Para os adeptos portistas, é difícil distinguir Jorge Nuno da instituição que lidera. O número único no mundo de taças que acumulou e, sobretudo, a consciência de que antes dele o FCP não passava de um clube regional sem acesso à glória envolvem-no numa espécie de gratidão eterna. Os títulos falam por si (revelando o êxito de uma vida dedicada a conquistar, manter e alargar o poder), mas não dizem tudo, por mais que tentemos não ver o lado escuro do homem da Livraria Lello e do Calor da Noite. O poder absoluto corrompe absolutamente e o culto da personalidade origina a crença na infalibilidade e a convicção de ser insubstituível. Os erros cometidos pela administração da SAD portista nos últimos anos foram demasiados para tentar justificar tudo o que aconteceu com mails.

 

O molusco: Sim, Henrique, reconheço que o Benfica alcançou o tetracampeonato porque foi melhor que o FCP e o SCP durante quatro anos. No entanto, desde que um ser misterioso enviou para a caixa de correio electrónico de Francisco J. Marques o conteúdo de mails trocados entre Pedro Guerra e outras figuras do Benfica e membros dos órgãos dirigentes do futebol português, os “azuis e brancos” envolveram-se num discurso violento contra o “polvo” através do qual o SLB tudo controlaria. É natural que o FC Porto proteste quando se vê prejudicado pela arbitragem e que a justiça investigue as alegadas irregularidades, mas o tom de defesa do bem e da moral adoptado por Marques e Pinto da Costa soaria menos forçado se não nos lembrássemos do que acontecia na primeira década deste século. Os políticos (excepto Rui Rio) beijavam a mão do presidente do FCP, como hoje beijam a orelha do líder benfiquista. O Apito Dourado não foi uma alucinação colectiva e só não teve efeitos mais graves para o Porto porque Carolina Salgado era Carolina Salgado. Perante as escutas e as notícias, dividíamos as reacções entre o embaraço e a negação enérgica, exactamente como fazem os adeptos “encarnados” hoje em dia. Há 10 anos, o clima de tensão e suspeição tornava o futebol luso irrespirável, no que era apenas uma ligeira amostra do ambiente actual. No fundo, tudo se limita a uma disputa pelo poder na qual quem estava em cima passou para baixo e vice-versa. Nada de novo debaixo do Sol. Mais do que a uma cruzada idealista, o FCP, ou quem fala por ele, procede a uma confissão de derrota.

 

O Sérgio: Numa fase em que, depois de enormes investimentos sem resultados, o FCP não tem dinheiro para gastar em contratações, o recurso à prata da casa surpreendeu ao revelar-se uma opção acertada. O mérito pertence todo a Sérgio Conceição, o psicólogo que melhorou o estado de um paciente cujo quadro clínico era marcado há quatro anos por sintomas como ansiedade, depressão, insegurança e perda de auto-estima. O pendor ofensivo do jogo “azul e branco” cria riscos na retaguarda, mas torna-se uma delícia após a exasperante dificuldade em marcar de temporadas anteriores. Não há razão para euforias, pois ainda não ganhámos nada, mas, já a meio da época, o FC Porto lidera a liga portuguesa, permanece em todas as competições e recuperou a confiança de que andava tão carente. É no campo que tudo se decide, mas, se esta história acabar bem, voltarei a celebrar. Mesmo sem sair de Odivelas, será como se estivesse nos Aliados com a minha gente.