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Desumidificador

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Um Trump em cada esquina

A manutenção pelo PSD do apoio à candidatura de André Ventura à presidência da Câmara de Loures justifica-se a curto prazo. Afinal, para lá dos possíveis ganhos eleitorais que o discurso e a notoriedade televisiva de Ventura podem fornecer ao partido “laranja” num concelho onde não costuma ter grande implantação, seria muito difícil para Pedro Passos Coelho abandonar um candidato que o presidente do PSD garantia há uma semana ser o tipo mais fixe do mundo, já depois do benfiquista ter feito várias declarações esquisitas. A longo prazo, porém, Passos cometeu um erro gravíssimo. O seu aval a Ventura marcou o início definitivo da normalização política da parvoíce.

 

Como é sabido, o debate político português radicalizou-se na última década, seguindo uma tendência de erosão do centro e da social-democracia comum a todo o “Ocidente”. Para lá dos efeitos dramáticos da crise económica e da raiva causada pelas medidas de austeridade, a lógica das redes sociais, com a sua tendência para a compartimentação, a menor formalidade da linguagem e a possibilidade de insultar livremente sem as consequências esperadas na vida real, favoreceu o crescimento da intolerância. Os apelos inflamados da esquerda à revolta contra o governo da PAF e, a partir de Outubro de 2015, a frustração da direita com a sua expulsão de um poder a que considerava ter direito contribuíram para agravar a crispação. O jornalismo também não está isento de responsabilidades, ao entregar-se de corpo e alma ao culto do confronto e da polémica, dedicando permanente atenção aos temas que “incendeiam” as redes sociais. Se qualquer post de Maria Vieira se transforma actualmente em notícia, isso traduz uma valorização implícita do insulto e da gritaria (a mensagem é “Queres ser conhecido? Começa por ofender alguém”).

 

Um aspecto particular do caso português tem sido a estabilidade do mapa partidário e o controlo do essencial da actividade política pelos mesmos partidos que estiveram presentes na Assembleia Constituinte (a UDP, representada em 1975 pelo deputado Américo Duarte, foi uma das forças na origem do Bloco de Esquerda), mas existiu sempre na sociedade lusa um populismo larvar, mais espontâneo que organizado. A única instituição a traduzi-lo fielmente não era um partido, mas sim um jornal, o Correio da Manhã, alargado à televisão através da CMTV. E foi precisamente a partir daí que André Ventura, formado na escola de civismo e imparcialidade dos debates futebolísticos, entrou nas nossas vidas para espalhar o amor. As suas declarações contra os ciganos, prestimosamente recolhidas pelo isento e apolítico jornalista do i Sebastião Bugalho, não foram um mero desabafo lançado num momento de pouca lucidez. Pelo contrário: ainda antes de Bugalho ligar o gravador, Ventura estaria provavelmente certo não só de que continuaria a receber o apoio do PSD, como de que seria convertido num herói, por razões que nada têm a ver com a situação social na periferia de Lisboa.

 

 

Embora Paulo Portas tenha sempre oscilado, desde os tempos de O Independente, entre a personagem de estadista ponderado dos salões e a de populista irresponsável das feiras, houve nos últimos anos algo que se perdeu na direita portuguesa, cujo fervor revolucionário esbateu os limites morais e verbais. Figuras da “velha” direita críticas de Passos Coelho, como Bagão Félix e Manuela Ferreira Leite, foram descritas como privilegiados agarrados às suas reformas milionárias. O colunista Alberto Gonçalves, agora nos tops de vendas com o livro A Ameaça Vermelha, trata os seus adversários como um bando de débeis mentais e ridicularizou o sofrimento de Isabel Moreira. Foi ostracizado? Não, continuou a ser o guru de O Insurgente. Um amigo de Gonçalves, Vítor Cunha, dissertou sobre a sexualidade de Mariana Mortágua e fez a linguagem típica dos comentários anónimos subir ao topo da página do blogue Blasfémias. Cronistas do Observador como Rui Ramos, Helena Matos ou José Manuel Fernandes competem para ver quem utiliza a fraseologia mais violenta contra Costa e Marcelo. Da mesma forma, as tiradas de André Ventura, tal como a homofobia de Gentil Martins, fizeram regressar a velha técnica de desculpabilização do “é tudo igual”, num discurso deste género: “Sim, o tipo do nosso lado foi infeliz, mas o BE e o PCP disseram isto e aquilo. Eu não concordo com o que ele disse, mas outros disseram o mesmo antes e não houve este escarcéu todo. Quer dizer, temos de ser tolerantes. Não somos fanáticos nem alucinados como os comunistas.” Casos isolados? Talvez, mas a direita parece estar a tornar-se cada vez menos Sá Carneiro e mais Galvão de Melo. Já ninguém é malcriado, quando muito “polémico”. Vomitar preconceitos é ser “politicamente incorrecto”.

 

Muitos justificam a multiplicação de afirmações públicas contra as minorias ou proferidas em linguagem rude com a revolta provocada pela imposição opressiva do “politicamente correcto”, limitativa da liberdade de expressão. De facto, existem em países como a Inglaterra ou os Estados Unidos alguns exageros ligados ao esforço absurdo de policiar o humor e a linguagem de modo a evitar a todo o custo ofender quem quer que seja. Mas em Portugal, ao longo de apenas quatro décadas de democracia, quando é que se foi longe demais? Quando o cartoonista António desenhou um preservativo no nariz de João Paulo II? Quando o casamento gay foi legalizado? Quando as telenovelas passaram a ter personagens homossexuais? Quando os Gato Fedorento fizeram sketches com a figura de Jesus e não foram banidos da televisão? Quando Ricardo Quaresma começou a jogar na selecção nacional? Quando Alberto João Jardim saiu do poder? O país tornou-se mais tolerante, não mais repressivo.

 

Numa crónica em que rejeita o “politicamente correcto” mas condena a homofobia, Henrique Raposo pergunta-se se afirmações como as de Gentil Martins representam, afinal, uma tentativa de regresso a um "passado pré-moderno" de intolerância. De facto, é isso que se passa, na medida em que se revela difícil estabelecer uma posição de equilíbrio. Uma situação em que se possa criticar as restrições ao acesso à educação na comunidade cigana sem concluir que todos os ciganos são parasitas e criminosos. Em que se possa contestar a inferiorização das mulheres entre os muçulmanos sem querer varrer os mouros da Europa. Em que se possa usar a palavra “mariconço” numa rábula mas não se diga que os homossexuais são doentes mentais. Em que se exprimam opiniões políticas divergentes mas não se grite que quem não concorda connosco é idiota, fanático ou corrupto. Em que não exista censura mas quem faça declarações racistas não seja considerado um resistente à “ditadura do politicamente correcto”. Até lá, contudo, Donald Trump está mais perto de nós do que se possa imaginar e muitos Trumpzinhos, incentivados pelo líder do PSD, sonham já com as luzes da ribalta.