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Desumidificador

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Uma campanha (pouco) alegre

Pelo que sei, a campanha eleitoral no concelho de Odivelas apenas teve cobertura televisiva em duas peças da RTP e do Canal Q, nas quais só foram referidos os candidatos do PS, Hugo Martins, e da coligação PSD/CDS, Fernando Seara, para indignação dos restantes partidos. António Costa veio à cidade da marmelada em 26 de Setembro, mas pouco mais fez além de tomar um café junto à estação de metro de Odivelas e apanhar com os candidatos locais do PS o comboio para o Rato, recordando a célebre corrida entre um burro e um Ferrari na Calçada de Carriche que Costa promoveu em 1993, quando se candidatou à presidência do concelho de Loures (onde Odivelas ainda se incluía). Para além disso, o município odivelense raramente é mencionado nas contas feitas aos possíveis resultados das autárquicas de 1 de Outubro.

 

Os outdoors espalhados pelo PS nas rotundas do concelho que governa há quase duas décadas começaram por destacar vários dos feitos obtidos pela gestão socialista nesse período, para numa segunda fase mostrarem Hugo Martins no meio de supostos odivelenses anónimos e finalmente apresentarem o rosto do autarca à direita de algumas das suas promessas eleitorais, como a utilização de 10 milhões de euros na construção e reabilitação de escolas. Por sua vez, Fernando Seara, que tem apostado sobretudo no contacto directo com os munícipes nas ruas, recorreu desde Junho ao mesmo cartaz, até lançar há poucos dias um novo outdoor garantindo mais apoio às famílias caso Seara domine a Quinta da Memória. A CDU e o Bloco de Esquerda, apoiados, respectivamente, nos slogans “Levamos Odivelas a Sério” e “Mais Bloco, Melhor Odivelas”, não foram além da exibição dos rostos dos principais candidatos à Câmara e à Assembleia Municipal. A cabeça de lista do PDR, Cristina Barradas, faz o apelo “Acorda Odivelas!”, enquanto Ana Fernandes, do PAN, surge em painéis colocados em postes que se distinguem dos restantes por se situarem a uma altura destinada a facilitar a sua leitura pelo peão e não pelo automobilista. Os velhos cartazes de colar nas paredes são utilizados apenas pela CDU, pelo PTP (os trabalhistas afixam uma folha A4 com uma imagem de golfinhos em fundo) e pelo MRPP, em busca de um “mandato popular” e de uma “ruptura com o passado!” Além destes materiais, abundam em cada uma das quatro freguesias do concelho cartazes com o candidato de cada força partidária à respectiva junta ao lado do potencial novo presidente da Câmara.

 

 

O PS parece ser o partido dotado de mais recursos, suficientes para oferecer brindes e encher as caixas de correio com brochuras dedicadas ao balanço (positivo) do mandato iniciado em 2013 e à lista dos compromissos para os próximos quatro anos. Os restantes concorrentes também distribuem panfletos com o resumo dos programas eleitorais e os nomes e fotografias dos membros das listas apresentadas aos três órgãos em disputa. De acordo com os folhetos, os programas do PS e da CDU acabam por não ser muito diferentes, enquanto Fernando Seara (defensor de uma “aliança entre avós e netos”) enuncia os problemas que vai resolver, sem explicar como, e o Bloco concentra-se num número reduzido de objectivos ligados a áreas como a habitação e a defesa dos serviços públicos. Curiosamente, o MRPP aponta uma necessidade não referida por nenhuma outra força, a remoção dos caniçais que proliferam junto de várias áreas urbanas do concelho. A grande questão urbanística para o futuro parece ser o destino a dar aos terrenos e edifícios do extinto Instituto de Odivelas após a sua entrega à Câmara, falando-se da criação de um grande espaço verde e de serviços que a CDU detalha e o PS prefere só concretizar depois de um “debate público” sobre o tema.

 

Julgo que a relação entre os odivelenses e a campanha eleitoral tem sido semelhante à mencionada no romance Quando o Diabo Reza, de Mário de Carvalho: as pessoas ouvem ao longe a campanha, sabem que ela existe, mas não sentem que tenha algo a ver com as suas vidas. Na falta de sondagens, torna-se difícil prever os resultados de 1 de Outubro, mas os objectivos dos diferentes partidos são simples de identificar. Os socialistas pretendem manter a maioria absoluta na Câmara e o domínio das juntas de freguesia que controlam, em especial a da sede de concelho. Ao apostar numa figura de visibilidade nacional como Fernando Seara, o PSD sobe a fasquia para o primeiro lugar (em 2013, os “laranjas” ficaram em terceiro). Teoricamente, a CDU também quer tornar Painho Ferreira presidente da CMO, mas sente-se que Loures é bem mais importante para os comunistas que Odivelas, enquanto o BE assume a meta da eleição de um vereador e os restantes partidos apenas provam que existem. O desfecho será conhecido no domingo à noite. Quanto a mim, apesar de saber pouco acerca de Hugo Martins, voltarei a confiar no PS.

 

P.S. A CDU mostra na sua propaganda como “votar bem”, explicando que o eleitor convencido pelo projecto comunista deve desenhar a cruz ao lado dos símbolos da foice e martelo e do girassol. Isto significa que, ao fim de quatro décadas de democracia, ainda há gente a votar no MRPP por engano.