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Desumidificador

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Unidos como os dedos do pé

Uma palavra imediatamente associada ao futebol português actual é “conflito”. Claques, blogues, dirigentes, televisões, todos incentivam o choque entre adeptos de diferentes clubes e apelam à luta “em defesa” das cores de cada emblema contra inimigos reais ou imaginários, num crescendo de conflitualidade que, infelizmente, já teve consequências fatais. Todavia, para lá das divisões, o desporto-rei tem constituído, a vários níveis, um factor de união entre os portugueses ao longo de mais de um século de história.

 

O futebol, a mais inter-classista e inter-geracional das formas de entretenimento, tem aproximado grupos sociais aparentemente longínquos. É certo que, no início do século XX, existiam nítidas diferenças entre a maioria dos sócios, atletas e adeptos de colectividades como o Benfica, baseado na iniciativa de casapianos e outros homens oriundos de sectores desfavorecidos (o “povo” de Lisboa), e os membros da elite reunidos no Sporting e dedicados ao ideal do sportman amador e ecléctico. Mais a Norte, José Monteiro da Costa e outros fundadores do FCP, ligados à média burguesia, passaram a contar logo em 1907 com a colaboração de desportistas mais velhos, pertencentes à colónia luso-britânica envolvida no comércio do vinho do Porto. Essa marca genética dos três “grandes” diluiu-se progressivamente, contudo, à medida que, nas décadas de 10 e 20, o futebol se popularizava e os jornais deixavam de publicar os nomes das figuras do high-life presentes nos desafios. As identidades de classe foram subalternizadas pela ligação afectiva dos adeptos a clubes abertos a ricos e pobres, patrões e empregados.

 

Claro que as associações desportivas não constituíam um mundo à parte, tendo-se acentuado durante a ditadura o fosso social entre os dirigentes, próximos do poder político e económico local ou nacional, e os jogadores, frequentemente nascidos em famílias carenciadas e dotados de escassa formação escolar. No entanto, a democracia interna dos clubes, os avanços do pós-25 de Abril quanto aos direitos laborais dos futebolistas e os apelos contínuos à união dos sócios com vista ao apoio às equipas e à oposição aos adversários contribuíram para afastar a luta de classes do futebol. De facto, um homem da burguesia portuense como Pinto da Costa tornou-se um ídolo nos bairros mais pobres da Invicta. Aliás, o próprio Jorge Nuno justifica a sua manutenção na presidência do FC Porto com o prazer que sente em dar motivos de alegria, através das vitórias do clube, a pessoas sem outras razões para sorrir. Noutras paragens, Bruno de Carvalho faz apelos populistas à luta contra a elite do “croquete” que dominaria o SCP antes da sua chegada ao poder.

 

Para lá do inter-classismo presente no sentimento clubista, o futebol fornece ainda o exemplo da união nacional criada em torno da selecção. Não me parece exagerado afirmar que, num país no qual, tradicionalmente, os horizontes e o sentimento de pertença de cada cidadão não iam além da sua aldeia ou vila, a escola, a televisão e o futebol foram no último meio século os três meios principais de construção da Nação lusa. A escola massificada difundiu o conceito de “Portugal”, tal como a noção elementar da História e do espaço geográfico do país, enquanto a televisão contribuiu para uniformizar a maneira de falar e vestir e as mentalidades dos habitantes das diferentes regiões. Por seu turno, o desporto-rei conferiu, bem mais que a política, um conteúdo emocional ao discurso patriótico e popularizou os símbolos nacionais (o hino e a bandeira da República) a uma escala surpreendente. Na actualidade, os jogos do misto masculino da FPF são praticamente os únicos programas televisivos que quase todos os espectadores vêem ao mesmo tempo e o ambiente gerado em torno das fases finais do Europeu e do Mundial cria uma atmosfera de mobilização colectiva difícil de igualar. Numa época de crise, nenhum outro acontecimento despertou tamanho entusiasmo e exclamações sobre o “orgulho de ser português” quanto a vitória da equipa das quinas na final do Euro 2016 e ninguém assumiu tanto o estatuto de “herói nacional” como Cristiano Ronaldo.

 

Se o futebol cria por demasiadas vezes um “eles”, alvo de ódio incondicional, a verdade é que o “nós” futebolístico gera laços de solidariedade raros numa sociedade atomizada. De certo modo, todos os adeptos se sentem como António Lobo Antunes na guerra em Angola: não faz sentido disparar sobre alguém que torce pela mesma equipa que nós.