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"Voz da Graça"

Um parente afastado meu, Aníbal Henriques Coelho (1913-2002), nasceu no lugar de Nodeirinho, na freguesia de Pedrógão Grande, e, como era habitual entre os rapazes oriundos de famílias pobres do campo e desejosos de prosseguir os estudos para além da escolaridade obrigatória, tornou-se seminarista, primeiro na Figueira da Foz e, numa fase mais avançada da aprendizagem, no seminário de Coimbra, onde se formou em Teologia. Padre desde 1938, Aníbal Henriques Coelho foi pároco da Graça, uma das três freguesias do concelho de Pedrógão Grande, entre 1943 e 1985, ano em que se retirou por motivo de doença e voltou a residir na sua aldeia natal. Durante a década de 50, o padre Aníbal estreou-se como jornalista ao escrever a secção “Notícias da Graça” do quinzenário A Regeneração, publicado no município vizinho de Figueiró dos Vinhos. Já em 1961, fundou e assumiu a direcção do mensário Voz da Graça, um boletim paroquial semelhante aos dinamizados por outros sacerdotes.

 

Geralmente com números de quatro páginas, Voz da Graça era redigido na íntegra por Aníbal Henriques Coelho (exceptuando os textos transcritos de outros jornais) e continha, além de artigos sobre religião, nos quais Aníbal atacava confissões não católicas como os protestantes e, depois do 25 de Abril, as Testemunhas de Jeová, a secção “Volta ao Mundo”, composta por breves notas do pároco sobre notícias locais, nacionais e internacionais. O periódico descrevia a actividade da paróquia, marcada por eventos como missas, funerais, baptizados, casamentos ou a festa anual de Nossa Senhora da Graça, financiada por donativos recolhidos pelos mordomos da festividade entre os fiéis. Após pagarem a sua assinatura anual, sem valor fixo (os donativos variavam habitualmente, nos anos 60, entre os 5 ou 10 escudos de muitos paroquianos e os 100$00 dos contribuintes mais abonados), os leitores de Voz da Graça viam os seus nomes publicados no jornal, que registava também os aniversários dos assinantes e listava os chefes de família (homens e algumas mulheres viúvas, como a minha avó Isaura) pagantes da côngrua. Várias anedotas e adivinhas completavam o material fornecido pelo padre Aníbal ao seu rebanho.

 

O público-alvo do mensário era relativamente amplo, já que muitos gracianos recebiam-no pelo correio em África, onde combatiam na Guerra Colonial ou tinham fixado residência, sobretudo no território de Moçambique. Durante o marcelismo, Voz da Graça atingia uma tiragem de 2400 exemplares. As receitas crescentes permitiram a Aníbal Henriques Coelho introduzir no jornal mudanças como a inclusão de fotografias, melhor qualidade gráfica e maior número de páginas. A descolonização fez o projecto voltar a dimensões mais reduzidas e contribuiu para as críticas aos acontecimentos da Revolução escritas por Henriques Coelho, cujo discurso ferozmente anticomunista tinha larga aceitação nos concelhos do norte do distrito de Leiria, onde o PPD/PSD e, mais tarde, a AD obtiveram maiorias esmagadoras nas primeiras eleições democráticas. Posteriormente, Aníbal mostrou-se indignado com a despenalização do aborto em certas situações ocorrida em 1984 e viu com agrado a ascensão política de Cavaco Silva, a quem chamou “Homem de Ferro”.

 

Após deixar a paróquia da Graça, Aníbal Henriques Coelho não abandonou o jornal. Este ganhou um âmbito mais alargado, ao apresentar noticiário de todo o município de Pedrógão Grande (Coelho testou num número o novo título Voz do Concelho, sem seguimento) e passar a contar com vários colaboradores, num formato maior. Muitos assinantes continuaram a apoiar Voz da Graça nesta nova fase, prosseguida pelo padre Aníbal mesmo quando deixou de poder andar. Pouco depois de completar 40 anos como director de Voz da Graça, Aníbal Henriques Coelho faleceu e o mensário não sobreviveu ao seu criador. Os exemplares do periódico, disponíveis na Biblioteca Nacional, constituem uma fonte histórica de grande interesse, quer para quem procure informação sobre as famílias rurais cujas vidas eram noticiadas pelo sacerdote quer para estudiosos atraídos por temas como a história local de Pedrógão Grande e Figueiró dos Vinhos ou a forma como a imprensa regional ligada à Igreja Católica acompanhou o período posterior ao 25 de Abril.