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Desumidificador

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Memórias de Assunção

O novo livro de Assunção Cristas, Confiança (Matéria-Prima), levanta-me uma série de dúvidas, aqui listadas por ordem aleatória:

 

1. Porque é que a capa do livro é tão parecida com a de Becoming, de Michelle Obama? Porque é que Michelle segura a cabeça com a mão direita e Assunção com a mão esquerda? Porque é que o nome de Cristas foi colocado ao nível dos seus seios? E porque é que Confiança tem esse título, nunca explicado ao longo do texto?

 

2. Se Assunção tivesse seguido o conselho da sua professora de Educação Visual e estudado Artes no secundário, teria sido desenhadora e ilustrado álbuns de BD?

 

3. Que sentido faz que a primeira parte do livro tenha 184 páginas e a segunda apenas 33?

 

4. A ideia de Assunção Cristas de que uma das singularidades das “lideranças femininas” está num “perfil geralmente mais cooperativo e colaborativo e menos bélico” (pp. 59-60), logo mais produtivo que o dos homens, não constitui uma espécie de machismo ao contrário?

 

5. O eleitor que optar pelo CDS estará a votar não só na Assunção, mas também no Tiago, na Maria do Mar, no Zé Maria, no Vicente e na Luzinha?

 

6. Viver numa família grande que está sempre junta não acabará por se tornar opressivo para a individualidade dos seus membros?

 

7. Uma tão vasta exposição da vida privada será realmente uma estratégia política pertinente ou apenas uma cedência à lógica das redes sociais?

 

 

 

 

8. O uso permanente de episódios do quotidiano pessoal para confirmar e reforçar ideias sobre temas políticos não fará Cristas cair no mesmo registo daqueles comentadores que estão sempre a fazer generalizações abusivas a partir do princípio “se isto é assim no meu bairro, é assim no mundo inteiro”?

 

9. Não é um pouco exagerado que Assunção recorra aos exemplos de Jesus Cristo e da Virgem Maria para justificar a decisão de entrar para a política? Depois de Cristas hesitar tanto e consultar muitas pessoas antes de aderir ao CDS, não foi bizarro tomar em poucos minutos as decisões de aceitar ser ministra da Agricultura e de candidatar-se à liderança do partido?

 

10. Terá sido a preferência de Assunção Cristas por almoços longos e com muita conversa, baseada numa valorização das “qualidades humanas” em detrimento da “eficácia cega” (p. 73), a fazer Henrique Raposo deixar de admitir votar no CDS?

 

11. A ideia da generalização dos anos sabáticos, baseada na convicção de Cristas de que “seria muito bom se todas as pessoas pudessem parar pelo menos uma vez, idealmente duas, ao longo da sua vida laboral” (p. 101), não será louvável mas completamente irrealista?

 

12. Quais são as “marcas de fação” (p. 246) que Cristas gostaria de ver retiradas da Constituição para facilitar a governação da direita?

 

13. Que opinião terá a oposição interna a Assunção Cristas sobre o livro de uma líder considerada demasiado saída da casca pelos ultraconservadores da TEM?

 

14. Quantas pessoas vão comprar Confiança e decidir o seu voto a partir da leitura do livro? Se, como é previsível, forem poucas, de que terá servido o esforço da autora e da editora?

O estranho mundo de Cavaco: Parte II

1. Actualmente, sempre que Aníbal Cavaco Silva quebra o silêncio (?) a que se remeteu depois de sair da Presidência da República em 2016, verifica-se um abismo entre o efeito pretendido pelo algarvio e a reacção de desprezo ou indiferença com que o país lhe responde. Uma situação deste tipo verificou-se a propósito das memórias presidenciais de Cavaco, apresentadas nos dois volumes de Quinta-Feira e Outros Dias (Porto Editora). Se em 2017 o primeiro tomo da obra autobiográfica gerou ainda uma certa curiosidade nos meios políticos e mediáticos, o lançamento em Outubro de 2018 do segundo volume, com o subtítulo Da Coligação à “Geringonça” (DCAG), produziu apenas, ao longo de dois ou três dias, algumas entediadas referências jornalísticas e declarações nas quais vários comentadores, mesmo os ligados ao PSD, deixaram claro que tinham coisas mais interessantes para fazer do que ler os desabafos do ex-Presidente. O próprio partido que Cavaco chefiou durante 10 anos parece dominado pelo embaraço na hora de referir o nome do seu antigo líder. Como é que um vencedor de cinco eleições acaba numa tão profunda solidão política?

 

2. Tal como o primeiro volume desta fase da memorialística cavaquista, DCAG foca sobretudo os contactos entre o protagonista do livro e os primeiros-ministros com quem se reunia semanalmente. Recorde-se que a relação entre Cavaco Silva e José Sócrates fora semelhante à de um psiquiatra com um paciente que se revelara incurável. Já com Pedro Passos Coelho, Cavaco assumiu o papel de professor, como aliás reconhece. Porém, as aulas de quinta-feira não pareceram decorrer na universidade, mas sim na escola primária. O prof. Cavaco ficou a princípio agradado com a aplicação e boa educação do jovem Pedro, tão diferente do seu colega Paulo, um cábula incorrigível. Mesmo assim, o mestre teve frequentemente de assinalar com cruzes erros nos testes feitos por Passos, um aluno teimoso sem vontade de fazer os trabalhos de casa e estudar os princípios rudimentares da economia. No que respeita a António Costa, as conversas em 2015-2016 entre o novo primeiro-ministro e o Presidente foram poucas, mas suficientes para deixar claro que teria sido difícil uma longa convivência entre o optimismo irritante de Costa e o semblante grave de Cavaco.

 

3. A trama de DCAG desmente a narrativa de sucesso do período da troika apresentada hoje pelos sectores próximos do passismo, ao relatar numerosos episódios em que tudo esteve à beira de desmoronar, entre os confrontos PSD-CDS e a tentação de desistir que atingiu por várias vezes o primeiro-ministro. Cavaco Silva garante ter apelado a uma maior resistência do Governo às vontades dos técnicos chegados à Portela, apesar de saber que se comentava nos círculos governamentais que o PR não seria tão valentão se tivesse de sair de Belém e sentir o cheiro dos troikanos. O pico da tensão verificou-se na crise política de Julho de 2013, mês durante o qual Cavaco procurou impor o seu velho projecto de um acordo a médio prazo entre PS, PSD e CDS. Nesse sentido, DCAG revela-se a história de um fracasso, já que o consenso tantas vezes pedido por Cavaco acabou por se verificar com intervenientes diferentes dos previstos no guião presidencial. Outro traço permanente ao longo de DCAG é a verdadeira obsessão de Cavaco com o discurso dos jornalistas e comentadores, os mesmos que dissera ignorar no volume inicial de Quinta-Feira e Outros Dias. Apesar de excepções honrosas como Marques Mendes e José Gomes Ferreira, a comunicação social portuguesa caracteriza-se, na opinião do antigo governante, pela parcialidade a favor da esquerda e pela incapacidade de compreender o “superior interesse nacional” perseguido por Aníbal 24 horas por dia.

 

 

4. Após as eleições legislativas de 2015, muitos ficaram com a ideia, sabe-se lá porquê, de que o então Presidente da República foi apanhado de surpresa pelos acontecimentos e reagiu com hostilidade à formação de uma coligação de esquerda. Três anos depois, Cavaco Silva deixou claro que a sua fúria e perplexidade ultrapassaram tudo o que foi imaginado. Aníbal retardou propositadamente a indigitação de António Costa como primeiro-ministro, de modo a que “os Portugueses se apercebessem” da gravidade da situação vivida nesse Outono e de que o chefe de Estado tomava “as precauções possíveis para evitar que acontecesse um desastre” (p. 411). Forçado a ceder pelas circunstâncias, Cavaco faz agora uma avaliação do Governo de Costa idêntica à do Observador. Está no seu direito, mas de um estadista cujos mandatos foram marcados por uma “absoluta imparcialidade no tratamento das várias forças políticas” (p. 509) esperava-se algo mais que a acusação dirigida ao PCP de pretender apenas satisfazer os sindicatos ou a descrição de um Bloco “deliciado com o usufruto do naco de poder que lhe cabia” (p. 434).

 

5. Ao contrário do seu antecessor e do seu sucessor em Belém, Cavaco Silva manteve-se sempre distante dos Xutos & Pontapés e assumiu apenas o seu gosto pelo fado. De resto, Cavaco salienta em DCAG as homenagens que prestou a esse género musical e aos seus intérpretes, deixando de lado a homenagem que não prestou a Carlos do Carmo quando este ganhou o Grammy. Quanto a outros estilos de música portuguesa, se partirmos do princípio de que os concertos nos jardins do Palácio de Belém passavam pelo crivo do PR, Cavaco gosta de ouvir artistas como os Deolinda, José Cid, Luísa Sobral ou Paulo de Carvalho (p. 479).

 

6. Da Coligação à “Geringonça” pode ajudar-nos a responder à questão inicial sobre a actual solidão cavaquista. Relativamente aos partidos à esquerda do PS, a distância é óbvia: Aníbal deixa bem claro que os apoiantes de BE e PCP estão do lado errado da linha que separa as pessoas sensatas dos malucos. Dentro dos socialistas, a já escassa simpatia pelo patriarca da família Cavaco desapareceu de vez após a derrota de Seguro. A direita pode ter encontrado no “seu” Presidente, em certas ocasiões, um aliado contra o inimigo comum, mas a proximidade é apenas aparente. O centro-direita considera o estilo cavaquista demasiado sectário e fechado, enquanto os liberais nunca poderão ver em Cavaco Silva um dos seus, devido à falta de ódio pelo Estado e à excessiva preocupação com aquilo que as pessoas vão pensar reveladas em DCAG pelo autor. Afastado o país político, restariam os cidadãos comuns para acarinhar o homem do povo vindo de Boliqueime. No entanto, os dois volumes de Quinta-Feira e Outros Dias, apesar de pródigos em referências a deslocações de Cavaco a IPSS e empresas, mostram que, na relação entre o país e o então Presidente, era sempre o primeiro a ter de visitar o segundo. O país que conseguia entrar em Belém, contudo, limitava-se quase sempre às delegações da UGT e das confederações patronais ou a economistas com opiniões idênticas às do anfitrião. Entretanto, a memória colectiva preserva ainda inúmeros episódios embaraçosos para Cavaco por este ignorados no texto, entre eles as declarações sobre a exiguidade da sua reforma que deram início a um efeito “bola de neve” através do qual tudo o que o PR dizia só agravava a sua impopularidade. A pouco e pouco, o círculo à volta de Aníbal foi ficando cada vez mais restrito e limitado a figuras como o seu antigo consultor António Araújo, autor de um posfácio onde, apesar de continuar a trabalhar para a Presidência da República, Araújo deixa insinuações no ar com os seus elogios ao acerto das “intervenções públicas ponderadas ao milímetro no tempo e no modo, e também no verbo” (p. 519) do predecessor de Marcelo Rebelo de Sousa.

 

7. O objectivo natural das memórias de Cavaco Silva é fixar a imagem do autor que este gostaria de ver passar para a História. Trata-se, no entanto, de uma pretensão ingénua, tão notória é a diferença entre o personagem quase perfeito de Quinta-Feira e Outros Dias (Cavaco admite apenas que por vezes não terá “sido porventura suficientemente claro” ao explicar as suas decisões) e a realidade já conhecida. O trabalho de um eventual biógrafo de Aníbal Cavaco Silva parece ter de consistir, para lá do levantamento das fontes, na descoberta daquilo que nelas não é dito, uma tarefa destinada a um jornalista habituado a entrevistar fontes anónimas ou pouco dispostas a falar. Joaquim Vieira seria a opção ideal para investigar o passado de Cavaco Silva, mas existe um problema: Vieira segue a norma de biografar apenas homens com sucesso entre as mulheres (Cunhal, Soares, Balsemão, Saramago) e a entediante monogamia de Cavaco não permite antever dados de interesse nessa área.

 

 

O discurso

 

1. “Quando eu digo à Carolina, ao Tomás, ao Gui ou à Rita – os meus quatro filhos (…)”

 

Nas crónicas, no Governo Sombra ou nos livros infantis de que é co-autor, João Miguel Tavares (JMT) expõe muitas vezes a sua vida pessoal, recorrendo a episódios da história da família Tavares, e o discurso do 10 de Junho em Portalegre não poderia ser excepção. A revelação do quotidiano doméstico do analista contribui para aproximá-lo do leitor, disposto a rever-se em pequenas peripécias semelhantes às suas. Neste caso, a trajectória pessoal de JMT permite-lhe afirmar-se como um rapaz do Interior “sem qualquer ligação à capital e às suas elites”, mas que não deixou esse facto impedi-lo de chegar “até aqui”. As repetidas alusões a percursos individuais acabam, contudo, por deixar sérias dúvidas quanto à relevância deles para o tema tratado e à possibilidade de generalizar a partir de casos específicos. Tavares refere “histórias de vida impressionantes” de “gente banal envolvida em feitos extraordinários” para mostrar como todos os portugueses constroem um país melhor. No entanto, se formos por aí, as personagens do livro Os Cinco Pilares da PIDE (aquele cuja introdução João Miguel resumiu na expressão “patati patatá”), de Irene Flunser Pimentel, foram tão comuns e tipicamente portuguesas como os ascendentes do casal Tavares, sem que isso as impedisse de matar e torturar concidadãos. Para cada bom exemplo, há um mau exemplo que relativiza qualquer caso particular.

 

 

2. “Os portugueses lutaram pela liberdade em 1974. Lutaram pela democracia em 1975. Lutaram pela integração na Comunidade Europeia nos anos 80. Lutaram pela entrada na moeda única durante a década de 90. Não é fácil saber por que é que estamos a lutar hoje em dia.”

 

Na verdade, falar em “portugueses” unidos pelo mesmo objectivo em 1974, 1975 e 1985 revela-se abusivo, na medida em que os desenlaces desses momentos históricos implicaram sempre a existência de derrotados, fossem eles os indivíduos com posições de poder no Estado Novo, os defensores da “democracia popular” ou os eurocépticos de esquerda e direita. Quanto aos anos 90, eu ainda me lembro deles e não me recordo de uma mobilização colectiva da população para o desígnio de entrar no euro, até porque ninguém consultou os portugueses a esse respeito. Para lá da causa de Timor, essa sim com grande impacto na opinião pública, a última década do século passado ficou marcada pela tendência crescente de despolitização dos eleitores. Os lamentos pela elevada abstenção ouvidos após as europeias de 2019 foram idênticos aos de 1999. Neste último ano, a falta de interesse dos cidadãos pelos partidos era parcialmente influenciada pela atitude dos média, que então apresentavam a política ou como algo demasiado complexo e entediante para os jovens perceberem ou como uma sucessão de jogos palacianos urdidos e depois comentados pelo professor Marcelo, mas havia um lado bom na acalmia do entusiasmo pós-revolucionário pela política. O crescimento económico, o balanço positivo do primeiro quarto de século de democracia e a impressão de ascensão social obtida por famílias da classe média como os Tavares esvaziaram as tensões sociais e banalizaram o quotidiano partidário. O século XXI e, em particular, a crise económica iniciada em 2008 revelaram a fragilidade de tudo e repolitizaram a sociedade. O discurso de JMT levanta também dúvidas quanto à natureza dos temas mobilizadores e do “alguma coisa em que acreditar” pedidos pelo alentejano aos políticos. Apesar de João Miguel enunciar objectivos como a promoção da mobilidade social e o combate à corrupção, não existe uma solução única para cada um desses temas, geralmente analisados de forma oposta pela direita e pela esquerda, com terapias diferentes conforme os diagnósticos de cada uma. E isso é bom e salutar numa democracia.

 

 

 

3. “No século XVI, Luís de Camões já cantava os seus amores por uma escrava de pele negra (…). Para desarrumar os estereótipos, talvez precisemos de um pouco menos de Lusíadas e de um pouco mais de lírica camoniana.”

 

Ao contrário do que por vezes se diz, Os Lusíadas é um poema recheado de crítica social, onde Camões glorifica o passado lusitano, mas também deixa claro que o apogeu de Portugal já foi substituído por uma “austera, apagada e vil tristeza”. No livro publicado em 1572, o poeta faz duras acusações aos grupos sociais que hoje designaríamos por “elites” e denuncia os servidores da Coroa apenas desejosos de “poder com torpes exercícios/Usar mais largamente de seus vícios”. JMT poderia ter utilizado citações camonianas deste teor para mostrar que algumas coisas nunca mudam. Por outro lado, a referência às “Endechas a Bárbara escrava” enquadra-se na crítica de Tavares à suposta auto-flagelação ocorrida no âmbito do debate acerca dos Descobrimentos e do passado colonial. Mais uma vez, o caso particular de um poeta apaixonado por uma escrava não diz muito sobre o carácter mais ou menos pacífico das relações entre os portugueses e as populações extra-europeias.

 

 

4. “Achamos que temos de ser pessimistas para sermos lúcidos. Que temos de ser desesperançados para sermos realistas. Que temos de ser eternamente desconfiados para não sermos comidos por parvos.”

 

Com um optimismo antropológico raro na direita, João Miguel Tavares acredita na evolução favorável das mentalidades e na capacidade de mudar o país, rompendo com o “discurso fatalista de um Portugal que é assim, porque nunca foi de outra maneira”. Incluída num discurso que concentra muito do universo pessoal de JMT, esta atitude positiva seria teoricamente louvável. No entanto, a produção intelectual de Tavares na rádio, imprensa e televisão tem deixado uma sensação inquietante, provocada pela notória ingenuidade do portalegrense. Por exemplo, aquando do anúncio da resolução do BES em 2014, João Miguel louvou um modelo em que “o zé-povinho fica de fora”, sem necessidade de injecções de capital público no Novo Banco. Aos colunistas que então duvidaram desse cenário, JMT respondeu acusando-os de terem a mania de dizer mal de tudo. Ao longo dos anos seguintes, o “filho de dois funcionários públicos” revelou uma tendência curiosa para ver o Diabo onde ele não estava e desvalorizar as ameaças apontadas pelos outros comentadores. A maior ingenuidade de Tavares está, porém, na dificuldade em compreender que a dureza do seu vocabulário acerca dos políticos e da falta de empenho destes na luta contra o “problema real, grave, disseminado” da corrupção pode deixar a porta aberta para gente perigosa entrar.

 

 

5. “Não podemos nem devemos esquecer ou minimizar insatisfações, cansaços, indignações, impaciências, corrupções, falências da Justiça, exigências constantes de maior seriedade ou ética na vida pública.”

 

Esta frase não foi dita por João Miguel Tavares, mas sim pelo comentador-mor da República, Marcelo Rebelo de Sousa, que assim descreveu de forma exacta o conteúdo das intervenções públicas semanais de JMT. O adjectivo “constantes” remete, aliás, para o cansaço de alguns ouvintes e telespectadores com tantas referências do alentejano a José Sócrates. A escolha de Tavares como organizador das comemorações do Dia de Portugal foi justificada por Marcelo precisamente com a declaração atrás citada. A surpreendente opção presidencial terá tido em conta a vontade de atrair atenções para o 10 de Junho através da presença de uma celebridade televisiva, em contraste com as figuras respeitáveis mas de escassa notoriedade ligadas às cerimónias anteriores. Todavia, existe uma teoria (que por certo JMT consideraria fruto de uma mente eternamente desconfiada) segundo a qual, ao fornecer um palco a João Miguel, o Presidente daria uma piscadela de olho à direita revolucionária na qual o portalegrense se insere, dotada de grande visibilidade mediática. Trata-se de um dos poucos sectores do eleitorado dispostos a não votar em Marcelo nas eleições de 2021, devido a uma alegada simpatia excessiva do Presidente para com a Geringonça e António Costa. Os membros da direita mesmo direita poderiam escolher outro candidato ou, mais provavelmente, ficar em casa. Nesse sentido, a legitimação do discurso dessa área política através da escolha de um dos seus principais representantes para falar no 10 de Junho contribuiria para apaziguar os anti-marcelistas e convencê-los a evitarem a abstenção. Entretanto, o discurso de João Miguel Tavares teve um forte impacto nas redes sociais, através de sucessivas partilhas e abundantes elogios em páginas como a da Iniciativa Liberal. Actualmente, num contexto de crise do PSD, fracasso do CDS e escassa relevância dos novos partidos de direita, o país do Observador fala muito da necessidade de projectos alternativos, centrados em pessoas novas na política e com discursos de ruptura. No fundo, um arraial right pride conduzido por alguém mais inteligente que André Ventura. De momento, João Miguel Tavares está ocupado, mas em 2026, quando a Carolina, o Tomás, o Gui e a Rita já estiverem crescidos, quem sabe se o exemplo de Sampaio da Nóvoa não dá origem ao movimento TAP (Tavares à Presidência)?

 

O intelectual revolucionário

Numa entrevista concedida a Carlos Vaz Marques e publicada na Ler de Janeiro de 2010, Rui Ramos recordou a sua adolescência passada no distrito de Setúbal, uma “zona profundamente de esquerda, onde o ar cheirava a esquerda, a comida sabia a esquerda e em casa tinha pais de esquerda”, enquanto na escola o jovem Rui era doutrinado no esquerdismo pelos programas do ensino do pós-25 de Abril. À semelhança de algumas pessoas educadas em ambientes muito religiosos que se tornam ateias para toda a vida, Rui Ramos teve “uma enorme reacção àquilo que nos tentaram impingir”. Nos anos seguintes, Rui tornou-se historiador, apresentou novas interpretações da História Contemporânea portuguesa, lançou-se na escrita de crónicas sobre política e foi um dos fundadores e administradores do Observador, onde os artigos de opinião de Ramos enunciam frequentemente temas e expressões depois replicados por outros colunistas. Na actualidade, Rui Ramos é, juntamente com Raquel Varela, o mais destacado “intelectual público” português oriundo da historiografia.

 

Os compradores da revista comemorativa do quinto aniversário do Observador estão a receber como brinde livros publicados pelo projecto editorial Cinco Um Zero (ligado ao jornal e coordenado por João Miguel Tavares), podendo optar entre compilações de crónicas de José Manuel Fernandes e Rui Ramos. No caso deste, o volume A Conspiração Oligárquica reúne textos do historiador publicados na Internet entre 2014 e 2019 com um fio condutor a uni-los: a denúncia por Ramos, numa escrita clara, sucinta e mordaz, dos esquemas da “oligarquia” lusitana e da forma como a elite política utiliza o Estado para controlar a sociedade. Apesar do brilho estilístico, a leitura de A Conspiração Oligárquica desperta algumas dúvidas a seguir enunciadas.

 

1. A conversa de André Ventura sobre os políticos do sistema que vivem há 40 anos à custa do povo não será uma versão mais “popular” e aparvalhada das afirmações de Rui Ramos? Diga-se que, no prefácio do livro, Ramos recusa ver em “meia dúzia de populistas de televisão” (p. 10) uma alternativa ao regime vigente.

 

2. Na entrevista de 2010 à Ler, Rui Ramos explica a aparente contradição entre ser liberal e funcionário público, na qualidade de investigador do ICS, com o inevitável recurso ao financiamento do Estado para fazer História num país como Portugal. Todavia, outras contradições ligadas ao historiador permanecem. Durante toda a sua carreira, Rui Ramos investigou as elites políticas e intelectuais portuguesas, sem nunca parecer incomodado com o papel delas, excepto talvez no que respeita ao período da I República. Nesse sentido, o discurso anti-elitista assumido por Rui nas suas crónicas políticas tem uma aparência bizarra, além da ideia do Observador (financiado por accionistas de elevados recursos) ser o representante do povo contra as elites não convencer ninguém. Também não se compreende como é que Pedro Passos Coelho, quase sem actividade profissional fora da política ao longo de décadas, não pertence à oligarquia, definida por Ramos de forma bastante vaga. Por vezes, “oligarquia” parece ser a definição do cronista para “pessoas que aparecem na televisão e de que eu não gosto”.

 

3. Defensor de uma mudança de regime que mantenha a democracia mas renove profundamente o leque partidário, Rui Ramos acredita que “mudar o sistema político teria de consistir em mudá-los a eles” (p. 38), ou seja, aos partidos em actividade desde 1974. Não é claro, porém, onde seria recrutado na “sociedade civil” o pessoal político da IV República. Ao longo dos últimos anos, o leitor das crónicas de Ramos ficou a saber que os políticos se servem do poder apenas para seu benefício pessoal, que o Estado Social, essa fábrica de vassalos, só oprime os cidadãos e atrapalha a livre iniciativa, que as medidas governativas visam apenas criar clientelas partidárias e satisfazer interesses corporativos, que os impostos são um saque brutal, que a comunicação social está feita com quem manda, que os funcionários públicos e beneficiários de subsídios são parasitas que nunca arranjariam emprego no sector privado, que os compromissos entre partidos estão ligados à repartição por estes do bolo do Orçamento, em resumo, que a melhor coisa que o Estado pode fazer por nós é desaparecer. Depois de ler isto tudo, quem não se sente estimulado a ir para a política?

 

 

4. Numa das crónicas, o autor de A Conspiração Oligárquica condena uma “visão demoníaca” acerca dos adversários políticos que os considere o “mal absoluto”. Essa perspectiva leva à “redução da discussão pública à propaganda e à contra-informação”, num ambiente em que não é permitido aos líderes partidários “dizer nada que não seja abençoar os seus ou demonizar o inimigo”, sob pena de serem acusados de “trair a causa” (pp. 67-68). Obviamente que Rui Ramos se refere à atitude da esquerda. De quem mais poderia estar a falar?

 

5. Rui Ramos é um revolucionário. De facto, se alguém quiser imitar a escrita de Ramos, basta pegar em qualquer texto publicado num jornal de extrema-esquerda dos anos 70 e substituir “burguesia” por “oligarquia”, “capital” por “Estado” e “Mário Soares” por “Rui Rio”. As semelhanças são notáveis, até porque o historiador não dispensa os tiques dos antigos intelectuais “progressistas”. Ah, o prazer da generalização abusiva, a saudável visão confrontacional da política, a doce ideia de que quem não é por nós está contra nós (“o “centro” quer dizer o Estado e as suas clientelas”, p. 151), a divertida superioridade moral, o sonho poético de destruir tudo o que existe para construir um futuro luminoso, o sensato desprezo pelo povo que não se comporta como o revolucionário quer… Seja qual for a orientação, o radicalismo dá tanto sabor à vida.

 

6. O biógrafo de D. Carlos não alinha nos “gritos histéricos contra Trump e Bolsonaro” (p. 175) e vê na suposta ameaça fascista apenas um fantasma criado pela esquerda para atacar a direita e considerá-la ilegítima. Qualquer líder político não socialista seria, assim, silenciado por gritos de “fascista” e “Bolsonaro”. Claro que Rui Ramos não é um fascista. Aliás, o historiador critica o Estado Novo por ter acreditado que “Portugal podia ser um mundo à parte” (p. 158) do resto da Europa. No entanto, à medida que os anos passam e os textos de Ramos se tornam cada vez mais azedos, percebemos que Rui não acharia mal se a democracia hoje dominada pela “oligarquia” se fascizasse só um bocadinho. Para aí uns 10%.

 

7. Ao criticar o aproveitamento político da vitória portuguesa no Euro 2016, Rui Ramos aponta a contradição presente no facto dos políticos que receberam em festa a selecção integrarem “a mesma oligarquia que durante anos subsidiou uma razoável quantidade de artigos, livros e congressos a castigar o modo perverso como a ditadura salazarista explorava o futebol” (p. 63). Será que o Dr. Ramos poderia indicar dois ou três exemplos dessa abundante produção científica financiada pelo Estado? Pelo que sei, antes de 2008 não existia praticamente nada na historiografia portuguesa acerca do futebol durante o Estado Novo e, a partir desse ano, os autores que se dedicaram ao tema desmentiram a teoria dos “três efes”. Talvez os oligarcas costumem esconder o trabalho historiográfico pago pela FCT em arquivos secretos aos quais apenas Rui Ramos consegue aceder.

Reunião da direcção do Chega

Tendências do mercado

 

“Como os muçulmanos daqui são poucos e não assustam o suficiente (embora aproveitar o terrorismo nunca seja demais), vamos buscar os ciganos, de que toda a gente diz mal e não têm ninguém a representá-los no espaço público. Justiça mais dura é fundamental e não se pode deixar de aludir muitas vezes à inutilidade dos políticos e ao “sistema” corrupto que tem medo de nós. O mais importante, contudo, é opor o nosso trabalho duro ao parasitismo dos outros, de quem nós somos “escravos”.”

“Quais outros?”

“Ah, isso deixamos à imaginação de cada otário, digo, eleitor. Há sempre alguém a sentir-se lixado por alguém. Até é bom sermos muito vagos, para não termos de responder a perguntas difíceis. Nós só marcamos os pontos no papel. O público é que os une.”

 

 

Incoerências

 

“Ó André, temos aqui um problema.”

“Qual?”

“Lembras-te daquela conversa sobre a moralização da classe política e como tu eras mais honesto que a gente do sistema?”

“Vagamente. Porquê?”

“Bem… Usámos assinaturas da bófia para atingir o número exigido pelo Tribunal Constitucional. Depois descobriu-se que isso era ilegal, mas tu, apesar de seres professor universitário de Direito, não sabias. Conseguimos contornar isso e legalizar o partido, mas o TC chibou-se e contou que temos apoiantes de 8 anos e alguns que já passaram os 100 e morreram. Entretanto, houve aquela confusão de quereres que a nossa coligação também se chamasse Chega. Não aceitaram e apresentámos uma proposta totalmente diferente, Europa Chega. Também não aceitaram e, depois de teres dito que sem o Chega no nome já não te candidatavas, fizemos aquele brainstorming que durou três horas e lembrámo-nos do Basta. O TC lá aceitou e candidataste-te sem problema nenhum. Depois faltaste ao debate dos pequenos partidos na RTP para ires falar do Benfica na CMTV. Pelo meio houve ainda outras chatices, mas foram tantas que já nem me lembro. Ah, e sabes aquelas centenas de milhares de euros que recebemos para os cartazes? Ninguém acredita que vieram de um crowdfunding dos nossos militantes.”

“E daí?”

“Isso afecta a tua imagem. Há quem refira esses factos para dizer que és aldrabão, incoerente e incompetente.”

“Deixa lá, pelo menos falam de nós e posso dizer que são tudo manobras do sistema para nos tramar.”

“É como disse o Trump. Até podias matar alguém em plena Avenida da Liberdade que nada te acontecia.”

“Quando se faz tudo como se não fosse grave, deixa de ser grave.”

 

 

A grande coligação

 

“Que aliados arranjaste?”

“O PPM, o PPA/DCC…”

“Não é VPV/CCB?”

“Não, espera, é PPR/CFC… Sei lá, meia dúzia de beatos. E também há a gaja boa, a Sofia Afonso Ferreira.”

“Para que é que foste buscar essa malta?”

“Uma coligação com quatro partidos ou quase partidos dá a impressão de ter imensa gente, mesmo que caibam todos num restaurante. Também ajuda a normalizar o Chega ao mostrar que há muitos tipos a quererem ser nossos amigos. Mas, acima de tudo, quanto mais pessoas eu liderar, mais adoro isto. Sinto-me tão importante.”

“Eles aceitaram coligar-se connosco em cinco minutos, não foi?”

“Houve uns betos do PPM que refilaram, mas o fadista pô-los na ordem.”

“Porque é que aceitaram tão depressa?”

“Sozinhos, eles nunca elegeriam ninguém para cargo nenhum. Então, meteram-se atrás do gajo que aparece na televisão. É uma oportunidade única. Além disso, prometi ao Câmara Pereira que o deixava ficar com o lugar lá na Europa depois de eu ser eleito e renunciar no dia seguinte. Até meti duas parentes dele na lista.”

“Nós não somos contra o nepotismo?”

“Só contra o nepotismo de esquerda, como é óbvio.”

 

 

 

Estratégia de campanha

 

“Quantos tempos de antena fazemos?”

“Só um, comigo a dizer o paleio do costume. Ninguém liga a isso. O importante é aquilo que pomos nos cartazes e no Facebook. Que discurso é que vamos usar?”

“Eu pensei numa campanha centrada em três palavras: “maralha”, “escandaleira” e “bandalheira”. Acham suficientemente popular?”

“Parece-me bem. Mas não seríamos ainda menos elitistas se usássemos “chulos”, “paneleiros” e “mamar à grande”?”

“Isto não é o PNR, André. Somos respeitáveis.”

“Ah. Claro. Ó Nuno, como vai o nosso programa?

“Sabes, eu tinha pensado em enumerar umas medidas sobre redução de impostos e criação de emprego. Mas depois lembrei-me de qual é a nossa base de apoio e escrevi apenas “Polícias bons, bandidos maus.””

“Perfeito!”

 

 

Expectativas

 

“Exagero e vitimização. Como é que estamos?”

“Deixa ver a lista. Boicote da comunicação social, check. Comentadores do sistema a borrarem-se de medo, check. Toda a gente que nos critica está feita com o Sócrates, o Salgado e o Berardo, check. Somos uma onda que ninguém pode parar, check. Vamos abalar tudo e criar a IV República, check. Os parasitas que vivem à custa do povo há 40 anos vão ter de fugir do país, check. Há alguma coisa que queiras acrescentar?”

“Que tal dizer que andam a ameaçar matar-me?”

“Faz lembrar aquilo do Fernando Nobre: “Ou me dão um tiro na cabeça ou vou para Belém”. Pode resultar.”

“Mas olha lá, e se não acontecer nada disso?”

“Desculpa?”

“E se ninguém votar em nós e não fores nem para o Parlamento Europeu nem para a Assembleia da República?”

“Nesse caso, posso esticar isto mais um pouco e candidatar-me às presidenciais de 2021. Digo umas coisas sobre o Marcelo e tenho mais dez minutos de fama.”

“Mas afinal isto do Chega é só para ganhares protagonismo e uns trocos?”

“E se for? Vocês criam uma oposição interna e afastam-me da liderança do partido?”

(Dois segundos de silêncio, após os quais todos desatam a rir às gargalhadas.)

“Isto do fascismo tem imensa piada.”

“O que a gente se diverte…”

 

Aviso: Para evitar ameaças de processos judiciais, esclarecemos que o texto precedente é inteiramente ficcional. Estamos certos de que a realidade é bem mais estúpida.

O entusiasmo louco das europeias

Os riscos: Apesar do seu estatuto de prováveis vencedores das europeias, Pedro Marques e António Costa serão os políticos mais nervosos no dia 26 de Maio. Uma vitória expressiva que sirva de embalo para as legislativas e liberte Costa do fantasma do “poucochinho” pode ser posta em causa, não tanto pelo PSD, mas sobretudo pelo desinteresse geral do eleitorado. Desinteresse que alastrou ao aparelho do PS, levando vários dirigentes socialistas a gritarem nas entrelinhas “eh pá, mexam-se” durante as últimas semanas. Importa também ao partido governamental combater a ideia de que, como as europeias não são “a sério”, o eleitor pode escolher qualquer candidato de aparência engraçada. Por tudo isto e também devido à falta de desembaraço de Marques, Costa tomou a opção arriscada de assumir um protagonismo especial na campanha socialista e tentar puxá-la para cima (um eventual fracasso será ligado ao primeiro-ministro). Quanto aos restantes partidos, apenas sofrerão danos se as suas votações forem muito inferiores ao normal, o que as sondagens não parecem indicar. No caso da (ou do?) Aliança, que anunciou a fasquia de dois eurodeputados, ficar à porta do Parlamento Europeu frustraria bastante as expectativas do partido e reforçaria a impressão generalizada de que o grito de revolta de Santana conduziu a um flop.

 

 

O tom: Praticamente desde a primeira escolha dos representantes portugueses no Parlamento Europeu, em 1987, ouvem-se queixas relativas à abstenção elevada e ao escasso debate acerca de questões comunitárias verificado em campanhas dominadas por temas nacionais. Na verdade, quer eleitores quer políticos e jornalistas demonstram escassa vontade de acompanhar o estado da construção europeia, um processo demasiado complexo e distante para o gosto geral. Mesmo assim, há que perguntar se isto tinha de ser tão pobrezinho. A campanha limita-se a uma tão intensa quanto vazia troca de mimos entre Paulo Rangel e Pedro Marques, embebida no confronto de memórias dos anos entre 2008 e 2015. Apenas merece alguma atenção o distanciamento retórico entre a autoproclamada “moderação” do PSD e a deriva do CDS, receoso de perder votos para os novos partidos de direita e envolvido numa radicalização interpretada com todo o à-vontade por Nuno Melo, o homem que nunca saiu do PREC. De resto, a rotina quotidiana da caça ao voto tem sido oca e previsível, com raras excepções como a de Rui Tavares, um dos poucos candidatos a apresentar propostas e explicar o que pode fazer em Bruxelas no quadro de uma visão da política à escala continental. Será, no entanto, uma grande surpresa se o historiador for eleito.

 

 

As feiras: Bombos, canetas, slogans, folhetos, bandeiras, peixeiras, senhores de idade, “jotinhas”, piadinhas, beijinhos, apertos de mão, câmaras, microfones, reacções às reacções, diálogos com turistas a leste daquilo tudo. Almoços-comícios, jantares-comícios, piqueniques-comícios, qualquer coisa com comida-comícios. Discursos inflamados reduzidos pelas televisões a excertos de 30 segundos. Dias e dias, quilómetros e quilómetros, visitas a empresas e visitas a empresas. As técnicas tradicionais de campanha eleitoral já morreram há muito, mas os partidos ainda não conseguiram imaginar uma alternativa.

 

 

Os tempos de antena: Exibidos simultaneamente em todos os canais generalistas, os espaços de direito de antena concedem ao seu reduzido grupo de fãs a diversão de ver os filmes promocionais dos pequenos partidos, preenchidos por meia dúzia de pessoas a ler monocordicamente um teleponto. No caso do PURP, vemos uma senhora a usar as velhas folhas de papel, desperdiçando alguns segundos do anúncio a mudar de página. Os tempos de antena dos “grandes” não apresentam uma maior criatividade. O PS ficciona histórias de sucesso no país da Web Summit, aparentemente escritas por Carlos César e que deveriam transmitir alegria e confiança, mas surgem num ambiente mais soturno que o de muitos filmes de terror. Por seu turno, a CDU recorre ao mesmo estilo de comunicação que utiliza desde o Paleolítico Superior e o BE, embora conte com a vantagem da narração de António Capelo, não dispensa os tiques de linguagem inclusivos (“a todos e a todas”, “muitas e muitos”). Nada de apelativo ou interessante surge nas produções audiovisuais dos restantes partidos, à excepção da animação criada pela Iniciativa Liberal. Concorde-se ou não com a perspectiva da IL, esta dispõe da única campanha partidária dotada de imaginação e sentido de humor, elementos raríssimos na actual propaganda política lusa.

 

 

O melhor discurso da campanha: O de Bruno Lage, obviamente.

 

Pedaços dos anos 90

Algumas frases da música, da televisão e da publicidade que ouvi na infância e recordarei para sempre, mas que os meus sobrinhos nunca irão compreender:

 

“O algodão não engana”

“Assim vão as glórias do mundo”

“Até que idade é que pensas divertir-te?”

“Branco mais branco não há”

“Cabecinha pensadora…”

“Comigo ripa na rapaqueca”

“O drama, a tragédia, o horror”

“E dura, e dura, e dura…”

“É o bicho, é o bicho, vou te devorar, crocodilo eu sou”

“É fácil, é barato, dá milhões”

“É pudim Danone, não pares, não pares”

“Faltou-te um bocadinho assim”

“Haja sempre esta sede de vencer por Portugal”

“Isto é para os apanhados!”

“O juiz decidiu, está decidido”

“Lá fora tá-se pior. Tá-se, tá-se…”

“O leão mostra a sua raça”

“Leite (não) é juventude”

“Mais cedo ou mais tarde, o seu diário”

“Marco Bellini é que sabe”

“Mimi, apita aí”

“Na casa do tio Carlos há festa todo o dia”

“Nada se compara ao prazer de escolher”

“OK, meu!” “Meu?!” “Meu… mestre”

“Ó mãe, aquele môce bateu-me”

“Pegue no auscultador, Ideia Casa AO SEU DISPOR”

“Ponha, ponha, ponha, ponhaaaa…”

“O primo Silvestre tem cara de extraterrestre”

“Rodas tu, rodo eu, roda o mundo pelas estradas do céu”

“Servir bem, bem servir, dá saúde e faz sorrir”

“Sobral de Monte Agraço já tem um parque infantil”

“Somos a águia que no céu vai voar”

“Tou xim?”

“A tradição já não é o que era”

“Tudo começou há muito tempo atrás, na ilha do Sol”

“Um abraço neste ponto de encontro”

“Vá para fora cá dentro”

“Vamos mostrar ao mundo a força do dragão”

“Vamos nessa, Vanessa”

“Vida sem droga, sida estou fora”

 

 

 

Sebastião era perfeito

No início de 2017, hesitei na decisão de criar um blogue. Acreditava que, para escrever sobre a actualidade, um colunista teria de possuir níveis razoáveis de experiência, conhecimento e, se possível, sentido de humor. Até que li as crónicas de Sebastião Bugalho no jornal i e verifiquei que, afinal, qualquer um consegue ser comentador. É justo reconhecer que Bugalho mostra uma fluidez assinalável na sua expressão oral e escrita, mas o conteúdo das intervenções do “prodígio” de apenas 23 anos não vai muito além do habitual “Passos bom, Costa mau, Rio péssimo”.

 

Agora que Sebastião Reis Bugalho foi escolhido por Assunção Cristas para integrar em sexto lugar a lista do CDS pelo círculo de Lisboa nas próximas legislativas (o jovem pode chegar a S. Bento, se o CDS tiver um bom resultado na capital ou se ocorrerem renúncias entre o segundo e quinto lugares), convém rever o que ele andou para aqui chegar. Na verdade, não andou muito. Quando 2016 começou, Sebastião Bugalho, filho de um casal de jornalistas, era apenas um estudante de Ciência Política no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica, fábrica de “IEPianos” geralmente alinhados à direita. Nesse ano, Bugalho começou a assinar uma coluna semanal de opinião política no i, até que ao fim de alguns meses a direcção comum ao diário e ao seu irmão Sol convidou Sebastião para, além das crónicas, iniciar a escrita de artigos jornalísticos. Por coincidência, a primeira entrevista do novo repórter foi feita ao líder da JP, Francisco Rodrigues dos Santos (“Chicão”), actualmente também candidato a deputado pelo CDS. Pouco tempo depois, Bugalho era o responsável pela redacção de grande parte da secção de Política do i e impunha um estilo de escrita próprio do qual faziam parte títulos de notícias supostamente espirituosos. Autor de textos centrados sobretudo nos bastidores de PSD e CDS, Bugalho conseguiu vários furos para o i e o Sol. A título de exemplo, mencionemos a entrevista onde André Ventura, então candidato a autarca de Loures, divulgou pela primeira vez a sua opinião sobre os ciganos ou, já em 2018, a reportagem na qual Bugalho detectou irregularidades no currículo de Feliciano Barreiras Duarte. Algumas mentes paranóicas lembraram-se de sugerir que este último artigo nascera de uma dica dos adversários internos de Rui Rio. No entanto, Sebastião depressa expôs a verdade nua e crua, revelando que, ao examinar o currículo do novo secretário-geral do PSD, estranhara a referência à passagem deste pela universidade de Berkeley como visiting scholar, uma vez que Barreiras Duarte era conhecido nas hostes “laranjas” pelo seu péssimo inglês.

 

Para lá da investigação jornalística, Sebastião Bugalho começou a participar como analista político em noticiários da TVI24. A situação resultou de um convite do director de informação da estação de Queluz, Sérgio Figueiredo, que, segundo o próprio explicou, é amigo dos pais de Bugalho e, ao conviver com Sebastião, ficou imediatamente fascinado pelo discurso e pela inteligência do jovem promissor. No Verão de 2018, enquanto a maioria dos programas de debate político encerrava para férias, a TVI24 lançou Novos Fora Nada, um espaço onde Bugalho discutia semanalmente um determinado tema da actualidade com António Rolo Duarte, num diálogo na redacção da TVI a que se juntava um convidado surpresa. Entretanto, Sebastião anunciara nas redes sociais o seu repentino abandono não só do i e do Sol, mas também da profissão de jornalista. Bugalho não ficou, contudo, longe da imprensa, passando a integrar a equipa de colunistas permanentes do Observador, numa mudança que representou um ganho significativo de visibilidade e reconhecimento simbólico para o ex-jornalista, cuja outra actividade profissional consiste num trabalho de consultoria para a Câmara de Cascais (presidida por Carlos Carreiras, também colunista do i). Depois do surgimento em 2017 do Sebastião Bugalho jornalista e de 2018 ter sido o ano de consagração do Sebastião Bugalho comentador, 2019 parece revelar a ascensão fulgurante do Bugalho político.

 

 

Tudo tem acontecido depressa na vida deste homem, dotado de uma precocidade que o levou a passar para o lado dos entrevistados. Em Outubro de 2017, Sebastião Bugalho conversou em directo na rádio com Ana Galvão e Joana Marques, então ao serviço da Antena 3. A entrevista decorreu ainda sob o choque dos incêndios desse mês, com Bugalho a elogiar a resposta política dada por Marcelo Rebelo de Sousa (o mesmo Marcelo que Bugalho insultaria meses depois no Twitter) à tragédia. À excepção dos ataques dirigidos à esquerda, torna-se difícil identificar no diálogo com Galvão e Marques uma reacção espontânea reveladora do verdadeiro Sebastião, dado que este transborda de pretensiosismo e de uma preocupação obsessiva em dizer as frases certas para agradar às pessoas certas. Já em Setembro de 2018, após o fim de Novos Fora Nada, Bugalho concedeu uma entrevista ao Jornal Económico na qual falou do seu gosto pela “porrada” no debate político, considerou que “se fosse de esquerda seria uma popstar” e mostrou-se aberto a convites para colaborar com um dos partidos da direita, ainda sem referir o CDS.

 

O aspecto interessante do percurso de Sebastião Bugalho reside no facto de provar que os liberais estão certos. Existem realmente inúmeras oportunidades para pessoas dinâmicas, sem padrinhos nem ligações familiares, que se apresentem ao mundo dotadas apenas de ideias originais e independentes do sistema. Os jovens portugueses do século XXI já não querem a segurança paralisante de um trabalho estável, optando deliberadamente pela aventura da precariedade, que lhes permite mudar de profissão sempre que desejarem. A comunicação social não precisa de gente que gasta anos a fazer especializações inúteis nas universidades dominadas pela esquerda, mas sim de repórteres ousados dispostos a romper com a suposta “neutralidade” do jornalismo e sem receio de dar voz a quem resiste ao politicamente correcto. A renovação da política será feita por pessoas assim, com uma carreira de sucesso feita no sector privado, em contacto com o país real e longe dos gabinetes partidários.

 

Para além de ser um exemplo vivo do sucesso do capitalismo, Bugalho possui ainda o vocabulário adequado à verdadeira direita, uma direita orgulhosa de si própria que corra de vez com a esquerda e combata o populismo ao satisfazer as justas reivindicações deste. Ainda por cima, a juventude de Sebastião garante-lhe uma longa carreira. A partir daqui, gerações de portugueses crescerão acompanhados pela voz, pelo olhar e pelos casacos do ex-jornalista, até que um dia todos seremos Sebastião Bugalho.

 

 

 

Paz, pão, povo e liberdade

Em Nascido para Mandar (Gradiva, 2004), José de Pina considera o PSD “um partido camaleónico” e afirma que “a única ideologia que une este partido é a de que Camarate foi crime” (p. 25). De facto, desde a criação do PPD, renomeado PSD em 1976, o partido de Francisco Sá Carneiro, um político com “filhos” espirituais tão numerosos quanto diversos, foi ideologicamente plural e albergou gente muito diferente. Os fundadores, entre eles Marcelo Rebelo de Sousa, tinham pertencido à “ala liberal” e ao grupo do Expresso, mas o aparelho do PPD integrou, sobretudo nos distritos mais rurais, personalidades das elites locais que se tinham mantido sempre fiéis ao Estado Novo. Embora os primeiros anos dos “laranjas” tenham sido marcados por dissidências e vários conflitos pessoais e ideológicos, o PSD veio a definir-se como um partido catch-all, pragmático, inter-classista e capaz de preencher um vasto espaço entre os extremos de esquerda e direita. Um certo “revisionismo” actual atribui ao PSD o papel histórico de reduto de todos os portugueses que não dependiam do Estado. Trata-se de um anacronismo, já que o partido do símbolo fálico não alcançaria tantas vitórias eleitorais sem o apoio de muitos funcionários públicos (por exemplo, os trabalhadores das autarquias ou do Governo Regional da Madeira). Durante o cavaquismo, O Independente distinguiu-se à direita por recusar a “união nacional” de ideologia vaga e fluida em que se transformara um PSD onde até Pacheco Pereira podia entrar. Quando uns afirmam que o PSD sempre foi de centro e outros que sempre foi de direita, ambos têm razão, pois essa ambiguidade constituiu o segredo do sucesso social-democrata (ou “social-democrata”?). A liderança de Pedro Passos Coelho e a tendência internacional de polarização ideológica e radicalização da direita, com evidentes repercussões em Portugal, vieram agitar a habitual placidez doutrinária do partido. Quando este ainda se encontrava no Governo, o “velho” PSD de Rui Rio e Manuela Ferreira Leite, crítico das políticas de austeridade, foi considerado ultrapassado pelos “novos” liberais, apostados em realizar mudanças profundas no país. A vitória de Rio há um ano proclamou o regresso do centrismo e da moderação, sem conseguir pacificar o saco de gatos.

 

 

Independentemente dos erros de Rui Rio, existe na base do conflito interno do PSD uma verdadeira componente ideológica. A bipolarização desenvolvida durante a crise de 2008 ainda não se dissipou, fazendo a direcção de Rio e o seu único apoiante entre os comentadores, Pedro Marques Lopes, assumirem a aparência de uma espécie bizarra ao ficarem a meio caminho entre a esquerda e a direita e receberem ataques vindos dos dois lados, no chamado “efeito Freitas”. Actualmente, para saber se alguém pertence ao centro-direita (CD) ou à direita a sério (DS), basta perguntar-lhe se está preocupado com a ascensão do fascismo. Um indivíduo do CD confessará estar muito preocupado, enquanto um da DS dirá que o fascismo é uma invenção da esquerda politicamente correcta. Na verdade, todo o ambiente dos media e das redes sociais propicia a radicalização, e aqui surge o segundo problema de Rio: o estilo. Com a sua falta de paciência para lidar com jornalistas, nos antípodas do contínuo reality-show de Marcelo, Rio favoreceu a hostilidade de uma comunicação social permeável à influência da DS. Ao mesmo tempo, o ex-autarca procurou distinguir-se pela ponderação e razoabilidade das suas intervenções, sendo habitual ouvi-lo referir determinadas práticas políticas cheias de ruído e acrescentar em seguida a frase “Isso é uma coisa que eu não faço”. Num tempo em que todos apreciam o drama, a tragédia, o horror, este tipo de atitude não entusiasma ninguém. Muitos “laranjas” gostariam que o seu líder fosse menos frígido e, à imagem da oferecida da Assunção, fizesse tudo. Em resumo, Rio está à margem da “onda conservadora/liberal” em curso no mundo e que Zita Seabra tanto aprecia. A nova batalha pela liderança do PSD ganha o dramatismo de uma luta entre o CD e a DS pela alma do partido.

 

Há muito esperado, o grito do Ipiranga de Luís Montenegro surpreendeu pelo momento escolhido. Aparentemente, ninguém na DS coloca a hipótese dos baixos resultados do PSD nas sondagens terem algo a ver com a incessante agitação vivida no partido e a falta de credibilidade ligada à desunião das suas principais figuras. A poucos meses das europeias e a três trimestres das legislativas, Montenegro deita gasolina na fogueira, ao invés de esperar calado e tranquilo que Rio se estampe, ganhando então quatro anos para “construir uma alternativa” (em português, para esperar que António Costa caia de podre). Parece um enorme erro táctico só explicável pelo pânico de quem não estava a pensar num PSD longe do poder quando preencheu a ficha de adesão. Mesmo que tudo corra bem ao portista e Montenegro se sente na cadeira que outrora pertenceu a esse político anti-sistema chamado Santana Lopes, nada garante que os eleitores afastados do PSD regressem de um momento para o outro. Talvez Luís tenha um plano infalível que ainda não percebemos, ou então o partido cujo hino Paulo de Carvalho compôs arrisca-se a viver tempos ainda mais duros. Por culpa própria, diga-se.

 

P.S. Luís Montenegro também enfrenta dois problemas. O primeiro é ter o mesmo nome da personagem principal do romance Montenegro, de André Ventura (facto verídico). O segundo é parecer saído da linha de montagem de uma fábrica de Luíses Montenegros todos iguais.

Não sejas Nobre Guedes

 

Algumas coisas que não fazem nascer Bolsonaros, mas dão-lhes uma ajuda:

 

Negar o perigo: Pegando numa frase do cinema, o maior truque de O Diabo foi convencer o mundo de que não existia. Muito do que vivemos hoje era impensável em 2008, data do início de uma crise económica mundial que Augusto Santos Silva então previu que teria um efeito demolidor para o neoliberalismo semelhante ao da queda do Muro de Berlim para o comunismo. Em vez disso, verificou-se uma cada vez mais profunda viragem à direita, durante a qual sociais-democratas e liberais foram varridos. Fazer previsões políticas definitivas e assentes na crença de que nada de fundamental vai mudar revela-se muito arriscado, ainda para mais no actual cenário. No caso português, o sucesso da extrema-direita (ED) é improvável, mas não impossível, pelo que a prevenção aconselha a não reduzir os fascistas locais a meia dúzia de excêntricos sem qualquer representatividade nem confiar que as instituições vão travar pessoas cujos níveis morais e intelectuais são exactamente aquilo que parecem.

 

 

Acreditar que os “bons” ganham sempre: No debate sobre o tempo de antena que deve ou não ser concedido à ED, os defensores da tolerância possuem vários argumentos válidos, embora discutíveis, como a questão da liberdade de expressão (reconhecida pela democracia mesmo aos seus inimigos) ou o risco dos radicais se vitimizarem por não conseguirem entrar no espaço mediático. Existe também a ideia de que, perante os microfones, o discurso das criaturas da ED denuncia por si próprio o irrealismo, a ignorância e a agressividade desse sector político, reduzindo muito a sua capacidade de atrair o eleitorado. O debate televisivo da campanha para as presidenciais francesas de 2017, no qual Macron venceu Le Pen, é apontado como um exemplo da autodescredibilização fascista. Contudo, podemos igualmente recordar os debates entre Donald Trump e Hillary Clinton, que fizeram muita gente pensar, com um sorriso tranquilo: “Ninguém no seu perfeito juízo votaria neste tipo”. A verdade é que nunca sabemos como o público vai reagir e, mesmo que a maioria dos espectadores sinta repulsa pelos políticos de ED, haverá sempre quem se identifique com a verborreia destes e conclua que, se os media lhes dão espaço, é porque a sua mensagem é legítima e aceitável. Ao contrário do que Fernando Esteves acredita, um reality-show sobre a vida de Mário Machado teria efeitos perigosos.

 

 

Olhar para o lado errado: A importância das redes sociais nas vitórias de vários candidatos da ED faz muitos preverem que um eventual Bolsonaro português surgirá necessariamente na Internet, à margem da velha comunicação social. O anúncio da primeira manifestação dos “coletes amarelos” lusos, organizada no espaço virtual, fez muitos jornalistas moverem-se num ansioso “é agora, é agora”. Na verdade, a comunicação política em Portugal ainda assenta muito na televisão e, em menor escala, na imprensa. Afinal, Marcelo Rebelo de Sousa foi beatificado em vida sem nunca ter aberto uma conta no Facebook ou postado as suas selfies no Instagram. O uso das redes sociais pelos partidos portugueses revela-se ainda incipiente e os sites nacionais especializados na mentira estão longe da produção maciça de conteúdos atingida pelas campanhas de Trump e Bolsonaro. O próprio André Ventura nasceu na CMTV, servindo-se da sua página no Facebook apenas para anotar as referências ao Chega feitas nos media tradicionais e apresentá-las como provas da fama e importância do benfiquista. O efeito das redes tem sido apenas o de permitir a pequenos grupos políticos julgarem-se de enorme dimensão, antes de se desiludirem ao constatar a sua irrelevância fora dos ecrãs. Entretanto, a pouco e pouco, o discurso fascista espalha-se pelo mainstream mediático, essencial para a ED ganhar uma aparência de normalidade e respeitabilidade.

 

 

 

Adorar a culpa: Perante a sucessão de países onde a ED avança para o poder, multiplicam-se as tentativas de explicação do fenómeno, através do estudo das circunstâncias de cada caso particular e da busca de um padrão comum. A partir deste esforço natural de análise, muitos comentadores dão o salto para um tom de culpabilização que depressa se transforma em desculpabilização. Assim, a indignação das populações é sempre legítima, pois alguém tem a culpa do descontentamento. Não o próprio comentador ou o seu grupo político, obviamente, mas sim as “elites”, os “políticos”, o “sistema”, o “politicamente correcto” e a esquerda no seu conjunto. Todos eles ignoraram os sentimentos das massas e continuaram a deixar entrar estrangeiros, fazer leis de protecção das minorias, restringir o acesso a armas ou manter as garantias legais que só protegem os criminosos. As imperfeições da democracia (se houver uma democracia perfeita algures no mundo, avisem-me onde é para eu lá ir) tornariam não só compreensível, como até inevitável que o povo começasse a encontrar virtudes no fascismo. A ED seria, afinal, uma entidade passiva que se limitaria a apanhar o poder atirado para a rua e os excessos dos novos governantes não passariam de respostas aos erros dos seus predecessores. Muitas pessoas da direita convencional estão hoje a aprender a deixarem de se preocupar e amarem o facho. Isso é o mais preocupante de tudo.

 

 

Ser Nobre Guedes: O risco de uma aliança tácita ou explícita entre os liberais e a ED, semelhante à ocorrida no Brasil, deve-se, além da aversão comum à esquerda, ao apego da maior parte da direita a um capitalismo pouco ou nada regulado. Num contexto cultural fortemente individualista, onde o marxismo sente grandes dificuldades para atrair apoiantes, as direitas propõem políticas “amigas do investimento” que se traduzem em privatizações, redução dos impostos sobre as empresas, hostilidade ao sindicalismo e aos direitos laborais ou fim de restrições à actividade económica motivadas pelo combate às alterações climáticas. O Governo Bolsonaro, liderado por um “liberal convicto” (na expressão de uma peça noticiosa da RTP), pode levar o Brasil a ser em breve apontado por muitos como um caso de sucesso do liberalismo económico e da ruptura com o socialismo. Se houver crescimento e maiores lucros para os grandes empresários, que interessa tudo o resto? Com esse objectivo comum e apoiadas num Estado agora focado no trabalho de manter a “ordem”, as direitas podem esquecer as suas divergências e procurar alcançar a verdadeira liberdade no quadro de uma nação da qual a esquerda foi excluída. Este cenário ainda não se verifica em Portugal, onde não devemos cair na paranóia de ver fascistas em todo o lado. Às vezes, porém, parece estar a surgir um grande, grande amor dentro do heterogéneo universo à direita de Rui Rio.