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Desumidificador

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Paz, pão, povo e liberdade

Em Nascido para Mandar (Gradiva, 2004), José de Pina considera o PSD “um partido camaleónico” e afirma que “a única ideologia que une este partido é a de que Camarate foi crime” (p. 25). De facto, desde a criação do PPD, renomeado PSD em 1976, o partido de Francisco Sá Carneiro, um político com “filhos” espirituais tão numerosos quanto diversos, foi ideologicamente plural e albergou gente muito diferente. Os fundadores, entre eles Marcelo Rebelo de Sousa, tinham pertencido à “ala liberal” e ao grupo do Expresso, mas o aparelho do PPD integrou, sobretudo nos distritos mais rurais, personalidades das elites locais que se tinham mantido sempre fiéis ao Estado Novo. Embora os primeiros anos dos “laranjas” tenham sido marcados por dissidências e vários conflitos pessoais e ideológicos, o PSD veio a definir-se como um partido catch-all, pragmático, inter-classista e capaz de preencher um vasto espaço entre os extremos de esquerda e direita. Um certo “revisionismo” actual atribui ao PSD o papel histórico de reduto de todos os portugueses que não dependiam do Estado. Trata-se de um anacronismo, já que o partido do símbolo fálico não alcançaria tantas vitórias eleitorais sem o apoio de muitos funcionários públicos (por exemplo, os trabalhadores das autarquias ou do Governo Regional da Madeira). Durante o cavaquismo, O Independente distinguiu-se à direita por recusar a “união nacional” de ideologia vaga e fluida em que se transformara um PSD onde até Pacheco Pereira podia entrar. Quando uns afirmam que o PSD sempre foi de centro e outros que sempre foi de direita, ambos têm razão, pois essa ambiguidade constituiu o segredo do sucesso social-democrata (ou “social-democrata”?). A liderança de Pedro Passos Coelho e a tendência internacional de polarização ideológica e radicalização da direita, com evidentes repercussões em Portugal, vieram agitar a habitual placidez doutrinária do partido. Quando este ainda se encontrava no Governo, o “velho” PSD de Rui Rio e Manuela Ferreira Leite, crítico das políticas de austeridade, foi considerado ultrapassado pelos “novos” liberais, apostados em realizar mudanças profundas no país. A vitória de Rio há um ano proclamou o regresso do centrismo e da moderação, sem conseguir pacificar o saco de gatos.

 

 

Independentemente dos erros de Rui Rio, existe na base do conflito interno do PSD uma verdadeira componente ideológica. A bipolarização desenvolvida durante a crise de 2008 ainda não se dissipou, fazendo a direcção de Rio e o seu único apoiante entre os comentadores, Pedro Marques Lopes, assumirem a aparência de uma espécie bizarra ao ficarem a meio caminho entre a esquerda e a direita e receberem ataques vindos dos dois lados, no chamado “efeito Freitas”. Actualmente, para saber se alguém pertence ao centro-direita (CD) ou à direita a sério (DS), basta perguntar-lhe se está preocupado com a ascensão do fascismo. Um indivíduo do CD confessará estar muito preocupado, enquanto um da DS dirá que o fascismo é uma invenção da esquerda politicamente correcta. Na verdade, todo o ambiente dos media e das redes sociais propicia a radicalização, e aqui surge o segundo problema de Rio: o estilo. Com a sua falta de paciência para lidar com jornalistas, nos antípodas do contínuo reality-show de Marcelo, Rio favoreceu a hostilidade de uma comunicação social permeável à influência da DS. Ao mesmo tempo, o ex-autarca procurou distinguir-se pela ponderação e razoabilidade das suas intervenções, sendo habitual ouvi-lo referir determinadas práticas políticas cheias de ruído e acrescentar em seguida a frase “Isso é uma coisa que eu não faço”. Num tempo em que todos apreciam o drama, a tragédia, o horror, este tipo de atitude não entusiasma ninguém. Muitos “laranjas” gostariam que o seu líder fosse menos frígido e, à imagem da oferecida da Assunção, fizesse tudo. Em resumo, Rio está à margem da “onda conservadora/liberal” em curso no mundo e que Zita Seabra tanto aprecia. A nova batalha pela liderança do PSD ganha o dramatismo de uma luta entre o CD e a DS pela alma do partido.

 

Há muito esperado, o grito do Ipiranga de Luís Montenegro surpreendeu pelo momento escolhido. Aparentemente, ninguém na DS coloca a hipótese dos baixos resultados do PSD nas sondagens terem algo a ver com a incessante agitação vivida no partido e a falta de credibilidade ligada à desunião das suas principais figuras. A poucos meses das europeias e a três trimestres das legislativas, Montenegro deita gasolina na fogueira, ao invés de esperar calado e tranquilo que Rio se estampe, ganhando então quatro anos para “construir uma alternativa” (em português, para esperar que António Costa caia de podre). Parece um enorme erro táctico só explicável pelo pânico de quem não estava a pensar num PSD longe do poder quando preencheu a ficha de adesão. Mesmo que tudo corra bem ao portista e Montenegro se sente na cadeira que outrora pertenceu a esse político anti-sistema chamado Santana Lopes, nada garante que os eleitores afastados do PSD regressem de um momento para o outro. Talvez Luís tenha um plano infalível que ainda não percebemos, ou então o partido cujo hino Paulo de Carvalho compôs arrisca-se a viver tempos ainda mais duros. Por culpa própria, diga-se.

 

P.S. Luís Montenegro também enfrenta dois problemas. O primeiro é ter o mesmo nome da personagem principal do romance Montenegro, de André Ventura (facto verídico). O segundo é parecer saído da linha de montagem de uma fábrica de Luíses Montenegros todos iguais.

Não sejas Nobre Guedes

 

Algumas coisas que não fazem nascer Bolsonaros, mas dão-lhes uma ajuda:

 

Negar o perigo: Pegando numa frase do cinema, o maior truque de O Diabo foi convencer o mundo de que não existia. Muito do que vivemos hoje era impensável em 2008, data do início de uma crise económica mundial que Augusto Santos Silva então previu que teria um efeito demolidor para o neoliberalismo semelhante ao da queda do Muro de Berlim para o comunismo. Em vez disso, verificou-se uma cada vez mais profunda viragem à direita, durante a qual sociais-democratas e liberais foram varridos. Fazer previsões políticas definitivas e assentes na crença de que nada de fundamental vai mudar revela-se muito arriscado, ainda para mais no actual cenário. No caso português, o sucesso da extrema-direita (ED) é improvável, mas não impossível, pelo que a prevenção aconselha a não reduzir os fascistas locais a meia dúzia de excêntricos sem qualquer representatividade nem confiar que as instituições vão travar pessoas cujos níveis morais e intelectuais são exactamente aquilo que parecem.

 

 

Acreditar que os “bons” ganham sempre: No debate sobre o tempo de antena que deve ou não ser concedido à ED, os defensores da tolerância possuem vários argumentos válidos, embora discutíveis, como a questão da liberdade de expressão (reconhecida pela democracia mesmo aos seus inimigos) ou o risco dos radicais se vitimizarem por não conseguirem entrar no espaço mediático. Existe também a ideia de que, perante os microfones, o discurso das criaturas da ED denuncia por si próprio o irrealismo, a ignorância e a agressividade desse sector político, reduzindo muito a sua capacidade de atrair o eleitorado. O debate televisivo da campanha para as presidenciais francesas de 2017, no qual Macron venceu Le Pen, é apontado como um exemplo da autodescredibilização fascista. Contudo, podemos igualmente recordar os debates entre Donald Trump e Hillary Clinton, que fizeram muita gente pensar, com um sorriso tranquilo: “Ninguém no seu perfeito juízo votaria neste tipo”. A verdade é que nunca sabemos como o público vai reagir e, mesmo que a maioria dos espectadores sinta repulsa pelos políticos de ED, haverá sempre quem se identifique com a verborreia destes e conclua que, se os media lhes dão espaço, é porque a sua mensagem é legítima e aceitável. Ao contrário do que Fernando Esteves acredita, um reality-show sobre a vida de Mário Machado teria efeitos perigosos.

 

 

Olhar para o lado errado: A importância das redes sociais nas vitórias de vários candidatos da ED faz muitos preverem que um eventual Bolsonaro português surgirá necessariamente na Internet, à margem da velha comunicação social. O anúncio da primeira manifestação dos “coletes amarelos” lusos, organizada no espaço virtual, fez muitos jornalistas moverem-se num ansioso “é agora, é agora”. Na verdade, a comunicação política em Portugal ainda assenta muito na televisão e, em menor escala, na imprensa. Afinal, Marcelo Rebelo de Sousa foi beatificado em vida sem nunca ter aberto uma conta no Facebook ou postado as suas selfies no Instagram. O uso das redes sociais pelos partidos portugueses revela-se ainda incipiente e os sites nacionais especializados na mentira estão longe da produção maciça de conteúdos atingida pelas campanhas de Trump e Bolsonaro. O próprio André Ventura nasceu na CMTV, servindo-se da sua página no Facebook apenas para anotar as referências ao Chega feitas nos media tradicionais e apresentá-las como provas da fama e importância do benfiquista. O efeito das redes tem sido apenas o de permitir a pequenos grupos políticos julgarem-se de enorme dimensão, antes de se desiludirem ao constatar a sua irrelevância fora dos ecrãs. Entretanto, a pouco e pouco, o discurso fascista espalha-se pelo mainstream mediático, essencial para a ED ganhar uma aparência de normalidade e respeitabilidade.

 

 

 

Adorar a culpa: Perante a sucessão de países onde a ED avança para o poder, multiplicam-se as tentativas de explicação do fenómeno, através do estudo das circunstâncias de cada caso particular e da busca de um padrão comum. A partir deste esforço natural de análise, muitos comentadores dão o salto para um tom de culpabilização que depressa se transforma em desculpabilização. Assim, a indignação das populações é sempre legítima, pois alguém tem a culpa do descontentamento. Não o próprio comentador ou o seu grupo político, obviamente, mas sim as “elites”, os “políticos”, o “sistema”, o “politicamente correcto” e a esquerda no seu conjunto. Todos eles ignoraram os sentimentos das massas e continuaram a deixar entrar estrangeiros, fazer leis de protecção das minorias, restringir o acesso a armas ou manter as garantias legais que só protegem os criminosos. As imperfeições da democracia (se houver uma democracia perfeita algures no mundo, avisem-me onde é para eu lá ir) tornariam não só compreensível, como até inevitável que o povo começasse a encontrar virtudes no fascismo. A ED seria, afinal, uma entidade passiva que se limitaria a apanhar o poder atirado para a rua e os excessos dos novos governantes não passariam de respostas aos erros dos seus predecessores. Muitas pessoas da direita convencional estão hoje a aprender a deixarem de se preocupar e amarem o facho. Isso é o mais preocupante de tudo.

 

 

Ser Nobre Guedes: O risco de uma aliança tácita ou explícita entre os liberais e a ED, semelhante à ocorrida no Brasil, deve-se, além da aversão comum à esquerda, ao apego da maior parte da direita a um capitalismo pouco ou nada regulado. Num contexto cultural fortemente individualista, onde o marxismo sente grandes dificuldades para atrair apoiantes, as direitas propõem políticas “amigas do investimento” que se traduzem em privatizações, redução dos impostos sobre as empresas, hostilidade ao sindicalismo e aos direitos laborais ou fim de restrições à actividade económica motivadas pelo combate às alterações climáticas. O Governo Bolsonaro, liderado por um “liberal convicto” (na expressão de uma peça noticiosa da RTP), pode levar o Brasil a ser em breve apontado por muitos como um caso de sucesso do liberalismo económico e da ruptura com o socialismo. Se houver crescimento e maiores lucros para os grandes empresários, que interessa tudo o resto? Com esse objectivo comum e apoiadas num Estado agora focado no trabalho de manter a “ordem”, as direitas podem esquecer as suas divergências e procurar alcançar a verdadeira liberdade no quadro de uma nação da qual a esquerda foi excluída. Este cenário ainda não se verifica em Portugal, onde não devemos cair na paranóia de ver fascistas em todo o lado. Às vezes, porém, parece estar a surgir um grande, grande amor dentro do heterogéneo universo à direita de Rui Rio.

O Ano do Bruno

É um pouco estranho observar os balanços de 2018 feitos por sites, jornais, rádios e televisões e verificar o escasso relevo atribuído ao ataque à Academia de Alcochete e ao conjunto dos eventos ligados ao Sporting durante o ano agora a terminar. Afinal, durante praticamente todo o Ano do Bruno, entre a assembleia-geral do SCP que aprovou as modificações feitas pelo então presidente aos estatutos do clube e a assembleia-geral do SCP que confirmou a suspensão dos direitos de sócio do ex-presidente, os portugueses viram, ouviram, cheiraram, beberam e urinaram Bruno de Carvalho. Mesmo depois da destituição, qualquer aparição pública do filho de Rui de Carvalho despertava a atenção obediente dos media, agora iludidos ao ponto de acharem que tudo não passou de futebol, um tema a respeito do qual a memória é ainda mais curta que no resto da actualidade. Na verdade, o estertor do brunismo indicou ou serviu de exemplo de fenómenos a decorrer no país que transmitem uma imagem pouco tranquilizadora da situação de Portugal.

 

Relativamente ao futebol, durante o Ano do Bruno quase podíamos ouvir os jogadores dentro das quatro linhas a perguntar “Alguém se importa de nos dar um pouco de atenção?” De facto, a maior parte do debate e do noticiário desportivos girou em torno de casos de polícia envolvendo os três “grandes” e, com muito menor destaque, clubes como o Moreirense. Mesmo a acusação feita nos EUA a Cristiano Ronaldo, apesar de dizer respeito à vida privada deste, não deixou de afectar a imagem do futebol português ao questionar a conduta do seu nome cimeiro. De resto, viveu-se o banal e saudável ambiente de tensão estimulado por directores de comunicação, suspeitas quanto à arbitragem, insinuações de match-fixing, programas de televisão onde quase se chega a vias de facto, páginas de desinformação na Internet ou actos de violência das claques, esses simpáticos grupos de rapazes indispensáveis ao normal funcionamento do país. A paixão lusa pelo futebol nunca pareceu sustentar tantos parasitas. No entanto, como nenhum agente futebolístico relevante é condenado nos tribunais, pelo menos enquanto se mantiver em funções, tudo está bem quando acaba bem e o circo (romano) pode continuar à vontade.

 

 

Na comunicação social, a cobertura em directo das 359 conferências de imprensa de Bruno foi o menos importante, dado que o princípio “Futebol nunca é demais” constitui há muito tempo uma das duas máximas orientadoras dos directores de informação dos canais televisivos (a outra é “Os portugueses adoram telejornais com hora e meia de duração”). O Ano do Bruno marcou o triunfo definitivo da CMTV e a contaminação dos restantes meios informativos pelo estilo do grupo Cofina, entre a obsessão pelo “directo”, a indiferença pelo rigor factual, a proliferação de comentadores a opinar sobre o nada ou o desprezo pelo ridículo conceito de privacidade. A própria RTP divulgou gravações áudio do interrogatório judicial ao antigo dirigente do SCP, com a autorização do Ministério Público. Saber porque é que o MP a concedeu é algo que ultrapassa a compreensão dos meros mortais. Entretanto, abundam na imprensa os casos de manipulação política e os espaços publicitários não identificados como tal (por exemplo, os anúncios da marca Marcelo publicados semanalmente no Expresso). Estas práticas originam uma desconfiança generalizada do público, ofuscam o bom jornalismo ainda resistente e criam um risco para a democracia, pois não existe nenhuma alternativa credível aos media tradicionais.

 

Como muitas pessoas notaram, a forma como Bruno de Carvalho exerceu a liderança do Sporting desde 2013, e em particular no seu alucinante último semestre no poder, assemelhou-se ao comportamento de um líder político de extrema-direita, incluindo o apelo ao ódio e (alegadamente) à violência. O avanço internacional do fascismo gerou ao longo do Ano do Bruno, sobretudo a partir das eleições brasileiras, uma preocupação manifestada em duas questões frequentes no comentarismo português. Por um lado, a tentativa de explicar o fenómeno, através da qual se apontam inúmeras hipóteses mais ou menos verosímeis, seguidas da sentença “é assim que nascem os Bolsonaros”. Por outro, a interrogação sobre a viabilidade de um eventual sucesso do “populismo” por cá. Uma série de factores apontam esse cenário como uma improbabilidade aparentemente confirmada pelo bluff dos nossos “coletes amarelos”. Todavia, se recordarmos o discurso de Bruno e a normalização do seu estilo pessoal operada durante anos pelas pessoas mais insuspeitas de radicalismo, tal como o número de sportinguistas que seguiram o líder supremo quase até ao fim, até ao fim e mesmo depois do fim, ficamos com um mau pressentimento. De repente, o Brasil parece estar mais perto.

 

Embora Bruno de Carvalho tenha sido destituído do cargo e acusado judicialmente, a sua história ainda inacabada pode ajudar-nos a compreender melhor o Portugal do século XXI. O futebol nunca constitui um mundo à parte, revelando-se um espelho da sociedade onde se desenvolve, tanto nos melhores como nos piores aspectos desta. É chato, mas temos de nos habituar.

 

P.S. Se tivermos em conta apenas o que aconteceu nos relvados, obviamente que a figura desportiva de 2018 é Sérgio Conceição. Mesmo os homens portistas mais heterossexuais não deixam de dizer “eu amo-te, Sérgio”.

 

Café Ventura

Era uma vez um rapaz, filho de pais remediados, que cresceu num lugar de Portugal onde a maioria dos habitantes vivia modestamente e trabalhava nas mesmas actividades geração após geração. Católico devoto, o jovem entrou para um seminário disposto a tornar-se padre, mas abandonou esse objectivo por não conseguir resistir aos encantos femininos. Após sair do seminário, inscreveu-se na universidade, onde se dedicou a fundo aos estudos e manteve-se afastado da boémia estudantil. Licenciou-se em Direito com a classificação impressionante de 19 valores e rapidamente passou de aluno a professor universitário, completando a formação com um doutoramento. Já na casa dos trinta, começou a ganhar fama ao falar em público sobre a actualidade, publicar artigos de opinião na imprensa e dar entrevistas a jornalistas simpáticos. Chegado à política no campo da direita, entrou em conflito com os sectores mais moderados, por ele acusados de excessiva proximidade à esquerda. Eleito para um cargo público, do qual se demitiu ao fim de pouco tempo, criticou o parlamentarismo e defendeu um Estado forte na repressão do crime. Identificou-se com o verdadeiro sentimento da Nação, em contraste com os políticos tradicionais, ligados a interesses pessoais e de grupo. Muitos chamaram-lhe fascista, epíteto que rejeitou como incompatível com os seus princípios cristãos. Temendo ser alvo de violência, evitou ao máximo o contacto com as massas enquanto iniciava o caminho para o poder.

 

Falamos, obviamente, de André Ventura, a partir da narrativa da sua vida feita pelo líder do Chega numa entrevista ao Sol de 15 de Dezembro, onde Ventura descreve longamente os defeitos dos ciganos (de todos eles, dentro e fora de Portugal), embora negue estar “obcecado” pela etnia e aponte que “isto fala-se em surdina nos cafés, mas quando se diz isto em público parece que vem aí uma extrema-direita que é um terror”. De facto, pessoas como Ventura dão-se bem no ambiente dos cafés, inclusive nesse café gigante chamado Facebook. Nos cafés, onde costuma existir uma televisão sintonizada na CMTV ou um exemplar do Correio da Manhã para consulta dos clientes, é possível ter conversas calmas e interessantes, mas elas são abafadas pelo ruído contínuo do grupo que faz mais barulho. O debate em altos berros centra-se muitas vezes no futebol, não tanto no jogo em si mas sobretudo nos casos de arbitragem e nas acusações de corrupção. A discussão atravessa também a política, a sociedade e muitas outras áreas, através das sentenças definitivas de comentadores especializados em assuntos que não dominam por aí além e que simplificam qualquer tema até este caber numa só frase. Entre um e outro copo, difundem-se boatos, agressividade e facciosismo. Antes, os disparates proferidos à mesa do café não ultrapassavam as paredes do estabelecimento, mas hoje o ruído atinge dimensões globais, atraindo políticos para quem o café constitui a verdadeira democracia e não é preciso sair do café para compreender o mundo.

 

 

Além de básico, o discurso de André Ventura revela-se bastante fácil de lançar em Portugal, onde é diariamente reproduzido nos cafés da rua ou da Internet. Os ciganos não são boa rês, os muçulmanos constituem uma ameaça, os deputados são uns parasitas, os políticos só querem é poleiro, a justiça precisa de ser mais dura, os presos deveriam trabalhar em vez de passarem férias à nossa custa, os homossexuais não têm direito a casar? Muita gente diz “Ai, não pares, André, não pares”, até porque esta visão do mundo fornece uma reconfortante superioridade moral e não exige qualquer esforço de aperfeiçoamento a quem está do lado dos “bons”. Afinal, o cliente tem sempre razão, desde que pague (em votos) ao dono do café com o sapo de loiça na montra. Às vezes torna-se duvidoso se Ventura acredita mesmo em tudo o que diz ou simplesmente observou as tendências do mercado e verificou haver uma moda revivalista seguida por uma clientela em expansão que o convenceu a montar o seu negócio, estimulado pelo sucesso de uma marca nova surgida do outro lado da fronteira. Embora disponha de pouco tempo até às legislativas, Ventura pode reunir em Lisboa votos suficientes para ser eleito deputado e transformar definitivamente o Parlamento num café, do qual ele será o frequentador mais barulhento.

 

P.S. Desde Fevereiro deste ano que o jornalista António Ribeiro Ferreira, inimigo feroz dos “lacaios do politicamente correcto”, não assina nenhum artigo no i ou no Sol. No entanto, o nome de Ribeiro Ferreira mantém-se na ficha técnica como chefe da redacção comum aos dois jornais. Isto não faz sentido num ano marcado pela tensão crescente na Europa, pelo triunfo da família Bolsonaro no Brasil e pela efervescência na direita portuguesa, quando Ferreira deveria estar mais motivado que nunca para derramar o seu fel no teclado. De resto, o i e o Sol talvez tenham encontrado aquilo que o director, Mário Ramires, define como “investidores que ousem desafiar os poderes instalados”, já que ambos os periódicos redobram a simpatia para com a extrema-direita. Será que António Ribeiro Ferreira sofre de um problema de saúde ou prefere por algum motivo manter-se nos bastidores?

Um passeio pela direita

1. Faz todo o sentido que a Aliança utilize um discurso anti-sistema, ainda para mais quando o novo partido tem um líder jovem, sem experiência governativa e desprovido de ligações às elites políticas e mediáticas, o Pedro Santana Lopes (acho que o nome é este, mas não me lembro bem da cara dele).

 

2. A dinâmica de derrota em torno de Rui Rio parece imparável, numa altura em que a apreciação dos media (em particular da SIC) sobre o líder social-democrata se torna cada vez mais negativa. A guerra interna do PSD, convertido num saco de gatos, favorece a queda das três setas nas sondagens e a atitude de vitimização da direcção presidida por Rio. Além da hostilidade mediática, há que reconhecer a falta de capacidade mobilizadora do boavisteiro, cujo discurso parece já estar focado em convencer os militantes “laranjas” a não o afastarem depois das previsíveis derrotas de 2019. Ser líder do PSD quando o partido está na oposição é sempre complicado, mas poucos anteviram em Janeiro que o ano correria tão mal a Rui Rio. A resiliência deste poderá motivar um novo fôlego do PSD antes das legislativas, relativamente às quais as expectativas sociais-democratas são tão baixas que até um resultado desfavorável, mas não humilhante, poderá parecer bom. No entanto, disse-se exactamente o mesmo sobre Passos Coelho antes das autárquicas de 2017 e isso não evitou o desastre.

 

3. Durante o debate na especialidade do Orçamento do Estado, Assunção Cristas voltou a apresentar a sua candidatura a primeira-ministra, fazendo Mariana Mortágua rir às gargalhadas. É compreensível que Assunção queira distanciar-se do PSD e atrair pessoas próximas do CDS que duvidam da capacidade do partido da bola ao centro de alcançar o primeiro lugar. No entanto, a menos de um ano das legislativas, quando as sondagens atribuem ao CDS apenas cerca de 7% das intenções de voto, o truque publicitário lançado por Cristas no congresso centrista está a cobri-la de ridículo. A ex-ministra poderia recorrer a uma fórmula mais vaga, à imagem do PCP quando afirma estar preparado para assumir quaisquer responsabilidades que os portugueses lhe entendam atribuir, mas Cristas opta por personalizar a coisa e descrever as atitudes que tomará na qualidade de primeira-ministra. Num dos seus discursos, Marcelo Rebelo de Sousa já disse a Assunção Cristas para parar com isto, mas sem sucesso. Embora legítima, a ambição política torna-se contraproducente ao transmitir uma imagem de irrealismo e megalomania. 

 

4. O empenho da Iniciativa Liberal em assinalar os aniversários do 25 de Novembro e da morte de Francisco Sá Carneiro ganha relevância numa época em que a política se resume ao presente e costuma desvalorizar a memória. A IL tinha já rompido com a tradicional ausência da direita na manifestação comemorativa do 25 de Abril, encarando a Revolução como um ponto de partida para a conquista de mais “liberdade” no futuro. Recordar os eventos da década de 70 contribui para atenuar a habitual dificuldade dos liberais, ciosos da sua originalidade no quadro político português, em encontrar precedentes e referências históricas dos quais sejam herdeiros. Todavia, a construção de uma memória partidária acaba necessariamente por simplificar em demasia os acontecimentos passados. No caso do 25 de Novembro, existiram dentro dos campos em confronto nesse dia grupos com agendas e objectivos distintos, sem uma coordenação unificadora. Mais do que uma vitória dos bons sobre os maus, verificou-se um acordo de finalização do PREC negociado por Álvaro Cunhal e Melo Antunes, rosto principal do Grupo dos Nove, cuja tolerância sobrepôs-se ao anticomunismo de Jaime Neves e dos sectores da direita que pretendiam ilegalizar o PCP. Quanto a Sá Carneiro, o próprio fundador do Partido Social-Democrata negou ser um liberal, apesar dos seus choques com os sectores mais à esquerda dentro do PSD. Sá Carneiro opunha-se ao modelo económico expresso na Constituição de 1976, mas, assim como o seu parceiro de coligação Freitas do Amaral evoluiu até ser hoje visto pela direita como um traidor socialista, quem sabe o que o advogado portuense pensaria no contexto do século XXI?

 

 

5. Enquanto a maioria dos comentadores políticos nacionais mantém os mesmos tiques e manias década após década, Henrique Raposo manifestou uma nítida evolução no seu pensamento ao longo de cerca de dez anos de crónicas escritas para o Expresso e para o site da Rádio Renascença. O Raposo liberal e iconoclasta de 2008, empenhado em romper com o establishment de “Lisboa”, foi dando lugar a um cronista em trânsito lento mas seguro para o conservadorismo. Tudo o que Henrique Raposo escreveu a partir de 2015, incluindo o livro Alentejo Prometido, pode ser resumido em três palavras: Deus, Pátria, Família. O esforço de Raposo consiste precisamente em retirar a esses três conceitos a carga negativa que lhes foi dada pela ligação ao Estado Novo e integrá-los no pensamento de uma direita moderada, oposta quer ao “politicamente correcto” da esquerda quer ao ímpeto revolucionário da extrema-direita em ascensão. Nos seus artigos recentes, centrados sobretudo nos debates em curso nos EUA trumpistas, na França de Macron (visto por Henrique como o novo modelo do político de centro-direita) e no Reino Unido a caminho do Brexit, Raposo propõe a construção de uma pátria cosmopolita, mas orgulhosa da sua História e das suas raízes cristãs. A ideia de uma comunidade nacional aberta à integração de todos os indivíduos dispostos a aceitar as regras definidas, além de empenhada no combate à pobreza e à exclusão, permitiria ultrapassar a lógica agressiva daqueles que, à esquerda e à direita, acentuam as divisões por etnia, género, religião ou orientação sexual. Henrique critica ainda uma direita (liberal?) que reduz tudo ao “Excel” e à liberdade económica, ignorando a necessidade de uma regulação moral do capitalismo dos gigantes tecnológicos. Claro que Henrique Raposo mantém o estilo provocador e as características que lhe têm valido tanta simpatia no ciberespaço, mas a sua distanciação dos episódios do dia-a-dia lusitano e a formulação clara de um “novo” espírito conservador (numa linguagem mais arejada que a de João César das Neves) atribuem ao colunista um estatuto singular no pensamento actual da direita portuguesa.

Livros efémeros e outras notas

1. Apesar de toda a pressão para ler os clássicos e gostar dos grandes autores, continuam a fascinar-me os livros efémeros. Livros enquadrados nesta categoria costumam ser expostos em destaque nas lojas, alcançar os tops de vendas e obter uma ou outra referência na imprensa. No entanto, menos de um ano após o seu lançamento, já ninguém se lembra deles. Obras de auto-ajuda, biografias e autobiografias de celebridades no activo, livros baseados em textos de blogues ou páginas do Facebook e a maioria dos volumes sobre política ou futebol publicados em Portugal constituem exemplos de livros efémeros. Habitualmente surgidos para responder a temas da actualidade e/ou fornecer um veículo promocional aos autores, estes trabalhos depressa ficam datados, mas tornam-se documentos preciosos sobre um determinado período e resumos das ideias mais em voga no tempo em que nasceram. Apesar da existência de livros efémeros estar longe de ser nova, as variações no mercado e as necessidades financeiras urgentes das editoras contribuem para a recente proliferação deste tipo de obras nas livrarias.

 

 

2. Entrevistado pela revista da Bertrand, Somos Livros, o escritor Richard Zimler atribui a ascensão da extrema-direita à “ignorância em relação à própria história”, visível no voto dos americanos pouco instruídos em Donald Trump e no suposto desejo de Jair Bolsonaro de manter no Brasil “milhões de pessoas ignorantes, que votem num fascista”. Na verdade, as sondagens para a segunda volta das presidenciais brasileiras indicavam que Fernando Haddad apenas obtinha a maioria das intenções de voto entre os eleitores mais pobres e menos escolarizados, enquanto Bolsonaro dominava facilmente as preferências das elites e da classe média, dotadas de melhor educação. Além do acesso à informação, muitos outros factores, mais emocionais que racionais, influenciam as opções políticas, pelo que acreditar que uma boa educação das “grandes massas ignorantes” a que Zimler alude fá-las-á votar da maneira correcta revela-se ilusório. A um nível mais geral, duvido muito que a leitura de livros possa tornar o leitor uma pessoa melhor. Claro que os livros facilitam a transmissão do saber, mas não ensinam necessariamente a maneira de lidar com ele. Acima de tudo, as obras literárias constituem uma forma de passar o tempo nem mais nem menos válida que a música, o cinema, a televisão ou qualquer outra. Quando se pergunta a um leitor porque lê, a resposta mais directa e sincera continua a ser “porque gosto”. Tudo o resto é acessório.

 

3. Primeiro a televisão, depois os videojogos, agora a Internet. Ao longo das últimas décadas, houve sempre uma qualquer distracção a afastar os jovens do contacto com os livros. Da mesma forma, também existiram sempre vozes a lamentar a ignorância e a iliteracia dos portugueses mais novos, em óbvio contraste com os hábitos das gerações anteriores. Não há comentador que não tenha passado a adolescência a ler incessantemente, a discutir Dante e Shakespeare com os amigos e a escrever poemas num excelente português. É preciso relativizar todas estas queixas. Afinal, os compradores e consumidores de livros foram sempre uma minoria num país onde os analfabetos representavam ainda 40% da população maior de 7 anos em 1950, mas registaram-se desde então enormes avanços, estimulados pelo ensino, pela rede de bibliotecas públicas e pela crescente vulgarização da leitura no quotidiano. Actualmente, pessoas habituadas desde cedo ao imediatismo das redes sociais podem ter dificuldade em suportar a lentidão e a concentração necessárias à fruição dos livros. No entanto, estes últimos sobreviverão, como sobreviveram sempre, mesmo que tenham de se adaptar.

 

4. Uma biblioteca pessoal é um retrato do seu dono, podendo uma observação atenta detectar os gostos, manias, opiniões e até episódios da vida de quem reuniu um dado conjunto de livros. O número de obras, as línguas em que estão escritas, a sua disposição na estante, os autores mais frequentes, os temas e géneros predominantes ou ocasionais, a idade, o tamanho, o grau de conservação dos livros… Tudo pode ser útil para analisar, mesmo antes de uma pesquisa por datas, autógrafos, anotações, dedicatórias, trechos sublinhados e outras marcas escritas do bibliófilo. Terão os livros sido tijolos de um muro construído para separar o leitor do resto do mundo (sim, gosto dos Pink Floyd) ou revelam uma sucessão de viagens, contactos e experiências novas? Abundam no acervo os best-sellers ou textos obscuros lidos por minorias? Obras antigas compradas em alfarrabistas ou livros ainda a cheirarem a novos? Colecções completas ou volumes desgarrados? Além de revelarem pistas sobre o percurso dos seus criadores, as bibliotecas contribuem para preservar a memória individual e colectiva e transmiti-la às gerações futuras. Como pode alguém dispensar os livros em papel?

 

 

Alguém protesta? Sou contra!

Na série de livros As 10 Questões…, publicada pela D. Quixote, João César das Neves resume a situação económica portuguesa em obras destinadas ao grande público. Iniciada em 2011 com As 10 Questões da Crise, a colecção prosseguiu através de As 10 Questões da Recuperação (2013) e As 10 Questões do Colapso (2016). Neste último livro, César das Neves apontou como provável a curto prazo um cenário de colapso financeiro que obrigaria o país a pedir novamente ajuda externa, formulando a chamada “teoria do Diabo”. O fracasso da previsão expôs César ao escárnio da esquerda, mas, no seu novo trabalho, As 10 Questões do Interlúdio, o professor da Universidade Católica responsabiliza os seus “avisos e sinais de alarme” de 2016 pelo facto de se ter conseguido “adiar a catástrofe” (p. 10). O académico designa por “interlúdio” o período actual, situado entre a crise de 2008 e uma futura recessão e no qual a aparência de normalidade esconde que “nada voltará ao que era” (p. 12). No conjunto da obra, César das Neves procura arrefecer o optimismo do Governo de António Costa e realçar os perigos ainda a pairar sobre a economia nacional e mundial.

 

As primeiras três “questões do interlúdio” retratam o ambiente internacional, com João César das Neves a recorrer a uma perspectiva global para mostrar que se vive um período de prosperidade, marcado nas últimas décadas por avanços significativos na redução da pobreza e na melhoria do acesso à saúde e educação. Além de contestar a ideia de decadência, César rejeita a “arrogância intelectual” daqueles que falam de mudanças radicais em curso e tentam prever o futuro. Na verdade, muitas das inovações do presente seriam meros aperfeiçoamentos de invenções passadas. Por exemplo, “o impacto real da web é muito inferior ao que a televisão, o telefone ou o automóvel tiveram nos hábitos sociais do seu tempo” (p. 29). Trata-se, na minha opinião, de um enorme erro de análise, mas a afirmação integra-se no esforço de César em mostrar que nada há de novo debaixo do Sol. O economista católico não ignora, contudo, as perturbações criadas pelo progresso da globalização e o “perigo civilizacional” resultante do descontentamento, traduzido na chegada ao poder de Donald Trump e de uma vaga de populistas na qual César inclui nomes tão díspares como Putin, Erdogan, Salvini e Catarina Martins. A principal ameaça representada por Trump está no regresso do proteccionismo e na ruptura dos acordos comerciais (pouco receoso das alterações climáticas, César das Neves não menciona a saída americana do Acordo de Paris) ligados ao capitalismo liberal. Contra o extremismo e a polarização, César propõe “o regresso à solidariedade” defendido pelo Papa Francisco.

 

 

Em contraste com a agitação lá fora, Portugal “parece ter entrado num período mágico” (p. 73) durante o qual conquistas enumeradas por César das Neves, como o Europeu, a Eurovisão ou os cargos internacionais de António Guterres e Mário Centeno, reforçaram as boas vibrações. Na economia, César admite que a Geringonça, mais moderada do que ele previra (“Em Portugal os extremistas ladram mas não mordem”, p. 223), alcançou resultados positivos no crescimento económico, na redução do défice e da dívida pública, na queda do desemprego e na recuperação do investimento, mas considera que tudo ficou aquém do desejável, representando “Um alívio, não uma cura” (p. 86), até porque as necessárias reformas na estrutura do Estado pararam. O professor da Católica associa o crescimento da economia portuguesa ao legado de Passos Coelho e à conjuntura externa favorável, além de atribuir o sucesso orçamental de Centeno ao efeito das cativações e do aumento dos impostos indirectos. Talvez por considerá-la demasiado absurda, César nunca chega a desmentir a tese governamental da existência de uma relação entre a “reposição de rendimentos” e as melhorias económicas e financeiras. Indiferente a detalhes supérfluos, o autor justifica a sua oposição ao aumento do salário mínimo destacando o efeito negativo deste na criação de emprego, sem explicar porque é que tal não aconteceu nos últimos três anos.

 

Após apresentar as estatísticas económicas, João César das Neves costuma dar grandes saltos em frente para tecer considerações morais e políticas. O que mais incomoda César na época actual é ver os cidadãos a criticarem “as regras e as instituições básicas do sistema” (p. 53), ao invés de compreenderem que “tudo o que temos e somos devemo-lo à sociedade como ela é” (p. 71). As greves e manifestações são, no caso português, a marca dos “subversivos, resmungões e contestatários” da esquerda (pp. 142-143), agora calados por estarem no poder. Na verdade, não passam de “privilegiados” insaciáveis, apesar de possuírem mais direitos que os restantes trabalhadores. César não tem nada contra os ricos ou contra os pobres, mas as classes médias, superiores em número e beneficiárias da “linha política do interlúdio” (p. 189), mantêm despesas insustentáveis para o país, numa atitude irresponsável estimulada pelos políticos nos quais votam. A ausência de autocrítica, visível na atribuição ao euro e à UE das culpas da crise, contribui para “o excesso de gastos, a falta de poupança e a escassez de capital” (p. 225), fraquezas que tornam Portugal vulnerável a um qualquer abalo externo, do qual resultará o fim do interlúdio.

 

Os livros de João César das Neves possuem informação útil e apresentam de forma sucinta e acessível a leigos os principais traços da nossa economia. No entanto, mais do que apenas um economista, César das Neves é uma das principais referências do pensamento conservador luso, dotado de uma narrativa sobre o país que deseja o regresso dos portugueses a uma certa pureza original, perdida algures durante as quatro décadas após o 25 de Abril. Embora César recuse aproximações à extrema-direita trumpista, nada tem para oferecer ao povo além de dever e resignação. Entretanto, o catedrático aguarda pelo início da próxima crise económica, altura em que poderá soltar um triunfante “Eu bem avisei”.

 

P.S. Algumas frases de As 10 Questões do Interlúdio enfermam de falta de rigor, como se verifica no anacronismo de situar a “fundação” da democracia portuguesa em 1820 (pp. 126-127), uma vez que o conceito de democracia era diferente do actual durante o século XIX, quando o liberalismo impunha limites à soberania popular e “democracia” era sinónimo de “república”. De igual forma, afirmar que “Nos tempos áureos do império, Portugal foi o povo (sic) mais rico do mundo” (p. 232) é um lugar-comum sem nenhum facto a apoiá-lo.

 

Num filme sempre igual

O economista e professor universitário Nuno Garoupa, ex-presidente da Fundação Francisco Manuel dos Santos, constitui uma figura singular no conjunto da direita portuguesa. De acordo com a introdução do seu novo livro, A Direita Portuguesa: Da Frustração à Decomposição (Ego, 2018), Garoupa, membro da geração das personagens da série televisiva 1986, foi atraído para a política pela campanha de Freitas do Amaral, vindo a tornar-se militante do CDS. No entanto, sairia do partido em 2004, desiludido com a liderança de Paulo Portas e a incapacidade reformista dos governos PSD/CDS presididos por Durão Barroso e Santana Lopes. A partir daí, observou de forma independente, mas não imparcial, a evolução da política portuguesa, numa perspectiva transposta para artigos de opinião publicados na imprensa e na blogosfera e agora reunidos em dois livros de crónicas. O primeiro destes a vir a público centra-se na actividade de PSD e CDS no Governo e na oposição entre 2004 e 2018, embora os textos compilados incluam referências a outros temas, a que se somam por vezes comentários actuais de Garoupa sobre o sucesso ou falhanço das previsões feitas no passado pelo académico.

 

O primeiro capítulo da obra, designado por Nuno Garoupa como “A Frustração”, recupera dois ensaios antigos do autor sobre as “reformas estruturais” e a Constituição de 1976, mas centra-se sobretudo na colaboração regular de Garoupa com o Jornal de Negócios, iniciada em 2008 e durante a qual o economista abordou o descrédito dos governos de José Sócrates, acompanhado pela dificuldade da direita em construir um programa alternativo. A vinda da troika e a queda de Sócrates deram início à fase da “Desilusão” em 2011, quando Garoupa viu na crise económica a legitimação necessária às profundas mudanças de que Portugal carecia e considerou haver em Pedro Passos Coelho a vontade de as concretizar. No entanto, o executivo de Passos e Portas revelar-se-ia uma oportunidade perdida, devido à “completa ausência de um programa reformista, sério, consistente e coerente” (p. 12). Após uma pausa em 2013, Nuno voltou a escrever na imprensa sobre política nacional em vésperas das eleições legislativas de 2015, ponto de partida da “Decomposição” ainda em curso. Garoupa denunciou a negação do verdadeiro significado do resultado da PAF, marcado por uma forte perda de eleitorado, e os clamorosos erros estratégicos do PSD passista, sempre em crescendo até à derrota das autárquicas de 2017, a que se seguiram Rui Rio e a fragmentação da direita.

 

 

Um traço comum a toda a cronística de Nuno Garoupa é o profundo cansaço do autor com as rotinas da política portuguesa, um filme sempre com os mesmos actores, os mesmos diálogos e os mesmos efeitos nada especiais. Nuno gostaria de assistir a uma renovação partidária semelhante aos fenómenos ocorridos noutros países europeus, mas por cá mantém-se “tudo na mesma”, sem ameaças aos interesses da “elite dominante” dos principais partidos (p. 140), num país com uma sociedade civil débil e preso ao “Estado-paternalista” (p. 24). A ideia de uma “crise da direita” é também mencionada há vários anos por Garoupa, segundo o qual as culpas devem ser atribuídas em primeiro lugar à própria direita, desprovida de um programa e uma liderança credíveis. O actual prognóstico do comentador sobre a sua área política é francamente pessimista, destacando o risco de “spdização” do PSD (ou seja, a incapacidade dos “laranjas” de ultrapassarem uma faixa entre 20% e 30% do eleitorado) e a improbabilidade do CDS de Cristas alcançar grandes voos. Os novos partidos em formação poderiam ir de encontro às preocupações de Garoupa, mas, embora o artigo mais recente incluído em A Direita Portuguesa date de Abril de 2018, o autor manifesta descrença nas hipóteses de sucesso de um “partido personalista”, centrado na figura do seu líder, como a Aliança viria a ser. A Iniciativa Liberal e a “nova direita” (?) personificada por André Ventura também não parecem a Garoupa projectos capazes de atrair eleitores e contrariar o crescimento da abstenção.

 

Numa prosa bastante clara e escorreita, Nuno Garoupa traça um diagnóstico preciso da situação da direita e dos problemas actuais da democracia lusa, onde muitos cidadãos não se sentem representados pelos partidos do sistema. As críticas do economista contribuem para desfazer várias ilusões dos opositores da Geringonça, que ganhariam se ouvissem os alertas de Garoupa. Mas… o que estou eu a dizer? Nada disso! Rui Rio, claro que o seu estilo de fazer política vai trazer imensos votos. Pedro Santana Lopes, o senhor não só voltará ao Governo como pode pensar em mudar-se outra vez para S. Bento. Assunção Cristas, continue a fazer estrilho no Parlamento e verá o CDS subir cada vez mais nas sondagens. Sofia Afonso Ferreira, força aí na pá. A direita terá um futuro radioso e António Costa não sabe com quem se meteu.

 

"Fahrenheit 11/9"

O realizador Michael Moore alcançou a fama nos EUA com o filme Roger & Me (1989), mas só se tornou conhecido em Portugal a partir de 2003, quando Moore aproveitou a atribuição do Óscar de Melhor Documentário a Bowling for Columbine para fazer um discurso inflamado contra George W. Bush e a invasão do Iraque. No ano seguinte, o cineasta tentou sem sucesso evitar a reeleição de Bush através de Fahrenheit 9/11, documentário que gerou uma acesa discussão na nossa blogosfera, onde a esquerda considerou o filme digno da Palma de Ouro que recebera e a direita resumiu a obra a um monte de mentiras e manipulações. Durante os anos Obama, contudo, os ecos do activismo de Moore começaram a esbater-se, apesar do realizador ter vindo a Portugal filmar parte de E Agora, Invadimos o Quê? 14 anos depois da mediática polémica em torno de Fahrenheit 9/11, a nova longa-metragem de Michael Moore estreou num único cinema de Lisboa e praticamente sem referências fora das páginas de crítica cinematográfica. Na verdade, no meio de tantos conteúdos audiovisuais hoje disponíveis em todo o lado, um filme destes não chama a atenção de quase ninguém.

 

O cinema de Michael Moore é marcado pelo humor certeiro e pelo talento do americano obeso para expor as realidades mais inacreditáveis, mas também pelo egocentrismo de Moore e pela exploração do sofrimento alheio a que por vezes recorre. Um pouco disto tudo pode ser encontrado em Fahrenheit 11/9, que, tal como o seu antecessor de 2004, começa por imaginar que tudo não passou afinal de um pesadelo, antes de enfrentar a dura realidade, vivida agora sob a administração de Donald Trump. Desta vez, contudo, Moore não se limita a desancar o presidente dos EUA e procura lançar um olhar mais abrangente sobre a paisagem política americana. A profusão de acontecimentos referidos torna Fahrenheit 11/9 algo ineficaz na ligação entre os seus capítulos, com a história da contaminação da água de Flint, a terra natal do realizador, a parecer um filme dentro do filme. No entanto, a ideia de apresentar a devastada cidade do Michigan como um microcosmos dos Estados Unidos actuais revela-se compensadora.

 

 

Uma das lições deste documentário é a de que vivemos na era da polarização. Quando Moore entrevista eleitores democratas que se sentem traídos pela elite moderada do partido, percebe-se que a conversa sobre as eleições que se ganham ao centro e a classe média receosa do radicalismo já não faz grande sentido. De resto, surgem no filme várias das novas congressistas recentemente eleitas nas intercalares, mais próximas do anticapitalismo de Moore que da linha tradicional do Partido Democrata. Fica também claro como o discurso de Trump vai pouco a pouco transformando o impensável na nova normalidade. Há sempre quem diga que os Trumps e os Bolsonaros acabarão por ser controlados pelas instituições e pela necessidade de compromissos, mas antecipar o pior cenário e alertar para a fragilidade da democracia constitui a atitude mais prudente, antes que um dia destes mil Alcochetes aconteçam.

 

A gravidade da situação americana contribui para que Fahrenheit 11/9 seja menos chocarreiro que o habitual na filmografia de Moore e dominado por um apelo urgente à destruição do sistema viciado no qual Trump cresceu e venceu. A esperança do cineasta está nos jovens e em todos os resistentes que confrontam os políticos, fazem greves e manifestações e participam na democracia (ou seja, aquelas pessoas que Raquel Varela adora e João César das Neves odeia). Além de descrever uma época conturbada, Fahrenheit 11/9 reflecte sobre os erros da esquerda e o regresso às origens de que esta precisa para fazer os cidadãos recuperarem a fé na soberania do povo. Sem essa fé, o tempo dos presidentes vitalícios estará para ficar.

 

 

Um filme para… Pensarmos em como raio é que podemos sair disto.

Nota: 7/10.

 

P.S. Eram dispensáveis as insinuações de Moore acerca da suposta relação incestuosa entre Donald Trump e a sua filha Ivanka. Por outro lado, as imagens dos dois juntos são bastante creepy. Enfim, adiante…

 

Povo, povo, eu te pertenço

Durante o PREC, tudo parecia simples. De um lado estava a “classe trabalhadora”, do outro a burguesia, os capitalistas, os latifundiários, os monopolistas, “enfim, os parasitas”, no resumo de José Jorge Letria. Representados nos cartoons dos jornais de esquerda como um grupo de gordos (ainda não existiam gorduras baratas no mercado) de cartola, charuto, fato e gravata, os banqueiros e empresários saíam do país ou originavam apelos à união dos trabalhadores, através da qual, segundo Fausto, “espalhamos a morte entre esta cambada". No entanto, percebeu-se que havia vários povos dentro do povo quando manifestações de sinal contrário se referiram a si próprias através do slogan “Se isto não é o povo, onde está o povo?” Nas décadas posteriores à Revolução, a luta de classes acalmou, fruto da estabilização política, da maior mobilidade social trazida pelo impacto da adesão à CEE e da redução da mão-de-obra nas actividades económicas mencionadas na “música de intervenção” (pesca, indústria, agricultura) em simultâneo com o crescimento do Estado e dos serviços, entre outros factores propícios à expansão da classe média, enquanto as relações laborais passaram a orientar-se pelo princípio da concertação social. Nas telenovelas, os pobres não queriam derrotar os ricos, queriam ser iguais a eles. Nem o abalo da crise económica forneceu particular sucesso ao discurso classista de esquerda, com BE e PCP a serem mais prolixos no ataque às “imposições da União Europeia” que na crítica ao sistema capitalista.

 

Actualmente, o anti-elitismo constitui uma marca do discurso da direita, pródiga em referências à “oligarquia”, às “elites bem-pensantes” ou aos “Donos Disto Tudo”, cujo domínio estaria a provocar o descontentamento da maioria do eleitorado e explicaria a emergência dos fenómenos populistas. As eleições no Brasil foram consideradas por analistas como Rui Ramos, João Miguel Tavares e Manuela Moura Guedes a prova de que os eleitores já não obedecem às ideias políticas das elites e aos princípios julgados indiscutíveis por estas. Confrontados no seu quotidiano com problemas a que o establishment não consegue dar uma resposta capaz, os populares europeus e americanos estariam a optar por soluções de ruptura, numa situação a que Portugal poderá não escapar caso o regime da Constituição de 1976 mantenha o seu bloqueio e a falta de reformas. Existe, no entanto, uma incógnita: quem faz parte das elites? Os comentadores referem-se a elas num tom de “vocês sabem do que eu estou a falar”, mas são parcos em exemplos de personalidades e grupos sociais colocados em posições de topo. A “oligarquia” que Rui Ramos tanto despreza aparentemente não integra os accionistas do Observador, mas apenas uma vaga faixa de dependentes do Estado situada algures entre Rui Rio e Mário Nogueira. Poder-se-ia pensar que os anti-elitistas se referem aos políticos tradicionais, ocupantes frequentes dos cargos públicos, mas, nesse caso, porque é que Cavaco Silva e Passos Coelho, com décadas das suas vidas dedicadas à política, não fazem parte do “sistema” decadente?

 

Numa posição surpreendentemente idealista, a direita considera a produção cultural mais influente que o poder económico e emite abundantes queixas relativas ao domínio dos media, das artes e da educação pela esquerda, que se serviria dessas posições para moldar ao seu gosto o pensamento das massas. O efeito hipnótico estará, no entanto, a desvanecer-se, servindo o exemplo brasileiro para João Miguel Tavares avisar as “elites artísticas, intelectuais e jornalísticas” (nas quais Tavares se auto-inclui) de que o “povo” já não segue as suas orientações e, embora acompanhe o trabalho de figuras da cultura de esquerda, não vota em quem elas indicam. Na verdade, existem motivos para questionar se isso alguma vez aconteceu. No caso português, os numerosos artistas e intelectuais ligados ao PCP e à extrema-esquerda no final dos anos 70 não impediram as vitórias eleitorais da AD. Quanto aos comentadores políticos, mesmo quando estes eram poucos (antes da “explosão” trazida neste século pelos canais de notícias), não haveria muita gente a orientar o seu voto por aquilo que Vasco Pulido Valente ou Miguel Sousa Tavares escreviam na imprensa. Já no presente, o artista engagé constitui uma espécie rara, quando se espera das celebridades que tenham muitos sentimentos e falem constantemente da sua vida privada, não da situação política.

 

 

As críticas dirigidas às “elites” visam não tanto aquilo que fazem, mas sobretudo aquilo que dizem e o facto das suas opiniões não acompanharem o suposto sentimento do cidadão comum. Assim, enquanto as “elites” vivem protegidas numa bolha, o “povo” sabe o que custa a vida. Ao passo que as “elites” iludidas julgam que podemos ser todos amigos, o “povo” identifica os riscos trazidos pelo fluxo de imigrantes e refugiados. As “elites” adoram falar dos direitos das minorias, o “povo” tem coisas mais importantes em que pensar. Os ateus pedantes das “elites” desprezam a religião cristã, cujos princípios são preservados pelo “povo”. Os sindicalistas ligados às “elites” fazem greves e manifestações, apesar do “povo” só querer trabalhar e criar empresas. A hipocrisia do “politicamente correcto” das “elites” contrasta com a rudeza sincera do “povo”. De uma maneira geral, as “elites” desejam mais Estado, mais impostos, mais regras, menos polícias, mais “cultura” que ninguém vê, mais homossexualidade e mais RTP2, enquanto o “povo” exige menos subsídios, mais armas, mais anos de cadeia, mais futebol, menos Islão e mais CMTV. As “elites” são Isabel Moreira. O “povo” é André Ventura. No meio de tudo isto, não sei quem é mais insultado, as elites ou o povo (agora sem aspas).

 

Num mundo em que um milionário nova-iorquino se apresenta como a voz dos pobres e excluídos e um ex-militar apoiado pelos grandes empresários anuncia ir libertar o povo brasileiro da elite corrupta, o anti-elitismo tornou-se uma arma das verdadeiras elites e uma forma de silenciar quem resista à tendência crescente para agravar a violência das práticas e dos discursos. A distinção povo/elites revela-se ainda insuficiente para compreender o fenómeno político. Numa sociedade individualista, onde as redes sociais reforçam a atomização e o isolamento, factores como a classe social ou o nível de escolaridade dos eleitores terão a mesma influência de outrora nas escolhas destes? Apenas estudos académicos poderão responder a esta dúvida.