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Desumidificador

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O entusiasmo louco das europeias

Os riscos: Apesar do seu estatuto de prováveis vencedores das europeias, Pedro Marques e António Costa serão os políticos mais nervosos no dia 26 de Maio. Uma vitória expressiva que sirva de embalo para as legislativas e liberte Costa do fantasma do “poucochinho” pode ser posta em causa, não tanto pelo PSD, mas sobretudo pelo desinteresse geral do eleitorado. Desinteresse que alastrou ao aparelho do PS, levando vários dirigentes socialistas a gritarem nas entrelinhas “eh pá, mexam-se” durante as últimas semanas. Importa também ao partido governamental combater a ideia de que, como as europeias não são “a sério”, o eleitor pode escolher qualquer candidato de aparência engraçada. Por tudo isto e também devido à falta de desembaraço de Marques, Costa tomou a opção arriscada de assumir um protagonismo especial na campanha socialista e tentar puxá-la para cima (um eventual fracasso será ligado ao primeiro-ministro). Quanto aos restantes partidos, apenas sofrerão danos se as suas votações forem muito inferiores ao normal, o que as sondagens não parecem indicar. No caso da (ou do?) Aliança, que anunciou a fasquia de dois eurodeputados, ficar à porta do Parlamento Europeu frustraria bastante as expectativas do partido e reforçaria a impressão generalizada de que o grito de revolta de Santana conduziu a um flop.

 

 

O tom: Praticamente desde a primeira escolha dos representantes portugueses no Parlamento Europeu, em 1987, ouvem-se queixas relativas à abstenção elevada e ao escasso debate acerca de questões comunitárias verificado em campanhas dominadas por temas nacionais. Na verdade, quer eleitores quer políticos e jornalistas demonstram escassa vontade de acompanhar o estado da construção europeia, um processo demasiado complexo e distante para o gosto geral. Mesmo assim, há que perguntar se isto tinha de ser tão pobrezinho. A campanha limita-se a uma tão intensa quanto vazia troca de mimos entre Paulo Rangel e Pedro Marques, embebida no confronto de memórias dos anos entre 2008 e 2015. Apenas merece alguma atenção o distanciamento retórico entre a autoproclamada “moderação” do PSD e a deriva do CDS, receoso de perder votos para os novos partidos de direita e envolvido numa radicalização interpretada com todo o à-vontade por Nuno Melo, o homem que nunca saiu do PREC. De resto, a rotina quotidiana da caça ao voto tem sido oca e previsível, com raras excepções como a de Rui Tavares, um dos poucos candidatos a apresentar propostas e explicar o que pode fazer em Bruxelas no quadro de uma visão da política à escala continental. Será, no entanto, uma grande surpresa se o historiador for eleito.

 

 

As feiras: Bombos, canetas, slogans, folhetos, bandeiras, peixeiras, senhores de idade, “jotinhas”, piadinhas, beijinhos, apertos de mão, câmaras, microfones, reacções às reacções, diálogos com turistas a leste daquilo tudo. Almoços-comícios, jantares-comícios, piqueniques-comícios, qualquer coisa com comida-comícios. Discursos inflamados reduzidos pelas televisões a excertos de 30 segundos. Dias e dias, quilómetros e quilómetros, visitas a empresas e visitas a empresas. As técnicas tradicionais de campanha eleitoral já morreram há muito, mas os partidos ainda não conseguiram imaginar uma alternativa.

 

 

Os tempos de antena: Exibidos simultaneamente em todos os canais generalistas, os espaços de direito de antena concedem ao seu reduzido grupo de fãs a diversão de ver os filmes promocionais dos pequenos partidos, preenchidos por meia dúzia de pessoas a ler monocordicamente um teleponto. No caso do PURP, vemos uma senhora a usar as velhas folhas de papel, desperdiçando alguns segundos do anúncio a mudar de página. Os tempos de antena dos “grandes” não apresentam uma maior criatividade. O PS ficciona histórias de sucesso no país da Web Summit, aparentemente escritas por Carlos César e que deveriam transmitir alegria e confiança, mas surgem num ambiente mais soturno que o de muitos filmes de terror. Por seu turno, a CDU recorre ao mesmo estilo de comunicação que utiliza desde o Paleolítico Superior e o BE, embora conte com a vantagem da narração de António Capelo, não dispensa os tiques de linguagem inclusivos (“a todos e a todas”, “muitas e muitos”). Nada de apelativo ou interessante surge nas produções audiovisuais dos restantes partidos, à excepção da animação criada pela Iniciativa Liberal. Concorde-se ou não com a perspectiva da IL, esta dispõe da única campanha partidária dotada de imaginação e sentido de humor, elementos raríssimos na actual propaganda política lusa.

 

 

O melhor discurso da campanha: O de Bruno Lage, obviamente.

 

Pedaços dos anos 90

Algumas frases da música, da televisão e da publicidade que ouvi na infância e recordarei para sempre, mas que os meus sobrinhos nunca irão compreender:

 

“O algodão não engana”

“Assim vão as glórias do mundo”

“Até que idade é que pensas divertir-te?”

“Branco mais branco não há”

“Cabecinha pensadora…”

“Comigo ripa na rapaqueca”

“O drama, a tragédia, o horror”

“E dura, e dura, e dura…”

“É o bicho, é o bicho, vou te devorar, crocodilo eu sou”

“É fácil, é barato, dá milhões”

“É pudim Danone, não pares, não pares”

“Faltou-te um bocadinho assim”

“Haja sempre esta sede de vencer por Portugal”

“Isto é para os apanhados!”

“O juiz decidiu, está decidido”

“Lá fora tá-se pior. Tá-se, tá-se…”

“O leão mostra a sua raça”

“Leite (não) é juventude”

“Mais cedo ou mais tarde, o seu diário”

“Marco Bellini é que sabe”

“Mimi, apita aí”

“Na casa do tio Carlos há festa todo o dia”

“Nada se compara ao prazer de escolher”

“OK, meu!” “Meu?!” “Meu… mestre”

“Ó mãe, aquele môce bateu-me”

“Pegue no auscultador, Ideia Casa AO SEU DISPOR”

“Ponha, ponha, ponha, ponhaaaa…”

“O primo Silvestre tem cara de extraterrestre”

“Rodas tu, rodo eu, roda o mundo pelas estradas do céu”

“Servir bem, bem servir, dá saúde e faz sorrir”

“Sobral de Monte Agraço já tem um parque infantil”

“Somos a águia que no céu vai voar”

“Tou xim?”

“A tradição já não é o que era”

“Tudo começou há muito tempo atrás, na ilha do Sol”

“Um abraço neste ponto de encontro”

“Vá para fora cá dentro”

“Vamos mostrar ao mundo a força do dragão”

“Vamos nessa, Vanessa”

“Vida sem droga, sida estou fora”

 

 

 

Sebastião era perfeito

No início de 2017, hesitei na decisão de criar um blogue. Acreditava que, para escrever sobre a actualidade, um colunista teria de possuir níveis razoáveis de experiência, conhecimento e, se possível, sentido de humor. Até que li as crónicas de Sebastião Bugalho no jornal i e verifiquei que, afinal, qualquer um consegue ser comentador. É justo reconhecer que Bugalho mostra uma fluidez assinalável na sua expressão oral e escrita, mas o conteúdo das intervenções do “prodígio” de apenas 23 anos não vai muito além do habitual “Passos bom, Costa mau, Rio péssimo”.

 

Agora que Sebastião Reis Bugalho foi escolhido por Assunção Cristas para integrar em sexto lugar a lista do CDS pelo círculo de Lisboa nas próximas legislativas (o jovem pode chegar a S. Bento, se o CDS tiver um bom resultado na capital ou se ocorrerem renúncias entre o segundo e quinto lugares), convém rever o que ele andou para aqui chegar. Na verdade, não andou muito. Quando 2016 começou, Sebastião Bugalho, filho de um casal de jornalistas, era apenas um estudante de Ciência Política no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica, fábrica de “IEPianos” geralmente alinhados à direita. Nesse ano, Bugalho começou a assinar uma coluna semanal de opinião política no i, até que ao fim de alguns meses a direcção comum ao diário e ao seu irmão Sol convidou Sebastião para, além das crónicas, iniciar a escrita de artigos jornalísticos. Por coincidência, a primeira entrevista do novo repórter foi feita ao líder da JP, Francisco Rodrigues dos Santos (“Chicão”), actualmente também candidato a deputado pelo CDS. Pouco tempo depois, Bugalho era o responsável pela redacção de grande parte da secção de Política do i e impunha um estilo de escrita próprio do qual faziam parte títulos de notícias supostamente espirituosos. Autor de textos centrados sobretudo nos bastidores de PSD e CDS, Bugalho conseguiu vários furos para o i e o Sol. A título de exemplo, mencionemos a entrevista onde André Ventura, então candidato a autarca de Loures, divulgou pela primeira vez a sua opinião sobre os ciganos ou, já em 2018, a reportagem na qual Bugalho detectou irregularidades no currículo de Feliciano Barreiras Duarte. Algumas mentes paranóicas lembraram-se de sugerir que este último artigo nascera de uma dica dos adversários internos de Rui Rio. No entanto, Sebastião depressa expôs a verdade nua e crua, revelando que, ao examinar o currículo do novo secretário-geral do PSD, estranhara a referência à passagem deste pela universidade de Berkeley como visiting scholar, uma vez que Barreiras Duarte era conhecido nas hostes “laranjas” pelo seu péssimo inglês.

 

Para lá da investigação jornalística, Sebastião Bugalho começou a participar como analista político em noticiários da TVI24. A situação resultou de um convite do director de informação da estação de Queluz, Sérgio Figueiredo, que, segundo o próprio explicou, é amigo dos pais de Bugalho e, ao conviver com Sebastião, ficou imediatamente fascinado pelo discurso e pela inteligência do jovem promissor. No Verão de 2018, enquanto a maioria dos programas de debate político encerrava para férias, a TVI24 lançou Novos Fora Nada, um espaço onde Bugalho discutia semanalmente um determinado tema da actualidade com António Rolo Duarte, num diálogo na redacção da TVI a que se juntava um convidado surpresa. Entretanto, Sebastião anunciara nas redes sociais o seu repentino abandono não só do i e do Sol, mas também da profissão de jornalista. Bugalho não ficou, contudo, longe da imprensa, passando a integrar a equipa de colunistas permanentes do Observador, numa mudança que representou um ganho significativo de visibilidade e reconhecimento simbólico para o ex-jornalista, cuja outra actividade profissional consiste num trabalho de consultoria para a Câmara de Cascais (presidida por Carlos Carreiras, também colunista do i). Depois do surgimento em 2017 do Sebastião Bugalho jornalista e de 2018 ter sido o ano de consagração do Sebastião Bugalho comentador, 2019 parece revelar a ascensão fulgurante do Bugalho político.

 

 

Tudo tem acontecido depressa na vida deste homem, dotado de uma precocidade que o levou a passar para o lado dos entrevistados. Em Outubro de 2017, Sebastião Bugalho conversou em directo na rádio com Ana Galvão e Joana Marques, então ao serviço da Antena 3. A entrevista decorreu ainda sob o choque dos incêndios desse mês, com Bugalho a elogiar a resposta política dada por Marcelo Rebelo de Sousa (o mesmo Marcelo que Bugalho insultaria meses depois no Twitter) à tragédia. À excepção dos ataques dirigidos à esquerda, torna-se difícil identificar no diálogo com Galvão e Marques uma reacção espontânea reveladora do verdadeiro Sebastião, dado que este transborda de pretensiosismo e de uma preocupação obsessiva em dizer as frases certas para agradar às pessoas certas. Já em Setembro de 2018, após o fim de Novos Fora Nada, Bugalho concedeu uma entrevista ao Jornal Económico na qual falou do seu gosto pela “porrada” no debate político, considerou que “se fosse de esquerda seria uma popstar” e mostrou-se aberto a convites para colaborar com um dos partidos da direita, ainda sem referir o CDS.

 

O aspecto interessante do percurso de Sebastião Bugalho reside no facto de provar que os liberais estão certos. Existem realmente inúmeras oportunidades para pessoas dinâmicas, sem padrinhos nem ligações familiares, que se apresentem ao mundo dotadas apenas de ideias originais e independentes do sistema. Os jovens portugueses do século XXI já não querem a segurança paralisante de um trabalho estável, optando deliberadamente pela aventura da precariedade, que lhes permite mudar de profissão sempre que desejarem. A comunicação social não precisa de gente que gasta anos a fazer especializações inúteis nas universidades dominadas pela esquerda, mas sim de repórteres ousados dispostos a romper com a suposta “neutralidade” do jornalismo e sem receio de dar voz a quem resiste ao politicamente correcto. A renovação da política será feita por pessoas assim, com uma carreira de sucesso feita no sector privado, em contacto com o país real e longe dos gabinetes partidários.

 

Para além de ser um exemplo vivo do sucesso do capitalismo, Bugalho possui ainda o vocabulário adequado à verdadeira direita, uma direita orgulhosa de si própria que corra de vez com a esquerda e combata o populismo ao satisfazer as justas reivindicações deste. Ainda por cima, a juventude de Sebastião garante-lhe uma longa carreira. A partir daqui, gerações de portugueses crescerão acompanhados pela voz, pelo olhar e pelos casacos do ex-jornalista, até que um dia todos seremos Sebastião Bugalho.

 

 

 

Paz, pão, povo e liberdade

Em Nascido para Mandar (Gradiva, 2004), José de Pina considera o PSD “um partido camaleónico” e afirma que “a única ideologia que une este partido é a de que Camarate foi crime” (p. 25). De facto, desde a criação do PPD, renomeado PSD em 1976, o partido de Francisco Sá Carneiro, um político com “filhos” espirituais tão numerosos quanto diversos, foi ideologicamente plural e albergou gente muito diferente. Os fundadores, entre eles Marcelo Rebelo de Sousa, tinham pertencido à “ala liberal” e ao grupo do Expresso, mas o aparelho do PPD integrou, sobretudo nos distritos mais rurais, personalidades das elites locais que se tinham mantido sempre fiéis ao Estado Novo. Embora os primeiros anos dos “laranjas” tenham sido marcados por dissidências e vários conflitos pessoais e ideológicos, o PSD veio a definir-se como um partido catch-all, pragmático, inter-classista e capaz de preencher um vasto espaço entre os extremos de esquerda e direita. Um certo “revisionismo” actual atribui ao PSD o papel histórico de reduto de todos os portugueses que não dependiam do Estado. Trata-se de um anacronismo, já que o partido do símbolo fálico não alcançaria tantas vitórias eleitorais sem o apoio de muitos funcionários públicos (por exemplo, os trabalhadores das autarquias ou do Governo Regional da Madeira). Durante o cavaquismo, O Independente distinguiu-se à direita por recusar a “união nacional” de ideologia vaga e fluida em que se transformara um PSD onde até Pacheco Pereira podia entrar. Quando uns afirmam que o PSD sempre foi de centro e outros que sempre foi de direita, ambos têm razão, pois essa ambiguidade constituiu o segredo do sucesso social-democrata (ou “social-democrata”?). A liderança de Pedro Passos Coelho e a tendência internacional de polarização ideológica e radicalização da direita, com evidentes repercussões em Portugal, vieram agitar a habitual placidez doutrinária do partido. Quando este ainda se encontrava no Governo, o “velho” PSD de Rui Rio e Manuela Ferreira Leite, crítico das políticas de austeridade, foi considerado ultrapassado pelos “novos” liberais, apostados em realizar mudanças profundas no país. A vitória de Rio há um ano proclamou o regresso do centrismo e da moderação, sem conseguir pacificar o saco de gatos.

 

 

Independentemente dos erros de Rui Rio, existe na base do conflito interno do PSD uma verdadeira componente ideológica. A bipolarização desenvolvida durante a crise de 2008 ainda não se dissipou, fazendo a direcção de Rio e o seu único apoiante entre os comentadores, Pedro Marques Lopes, assumirem a aparência de uma espécie bizarra ao ficarem a meio caminho entre a esquerda e a direita e receberem ataques vindos dos dois lados, no chamado “efeito Freitas”. Actualmente, para saber se alguém pertence ao centro-direita (CD) ou à direita a sério (DS), basta perguntar-lhe se está preocupado com a ascensão do fascismo. Um indivíduo do CD confessará estar muito preocupado, enquanto um da DS dirá que o fascismo é uma invenção da esquerda politicamente correcta. Na verdade, todo o ambiente dos media e das redes sociais propicia a radicalização, e aqui surge o segundo problema de Rio: o estilo. Com a sua falta de paciência para lidar com jornalistas, nos antípodas do contínuo reality-show de Marcelo, Rio favoreceu a hostilidade de uma comunicação social permeável à influência da DS. Ao mesmo tempo, o ex-autarca procurou distinguir-se pela ponderação e razoabilidade das suas intervenções, sendo habitual ouvi-lo referir determinadas práticas políticas cheias de ruído e acrescentar em seguida a frase “Isso é uma coisa que eu não faço”. Num tempo em que todos apreciam o drama, a tragédia, o horror, este tipo de atitude não entusiasma ninguém. Muitos “laranjas” gostariam que o seu líder fosse menos frígido e, à imagem da oferecida da Assunção, fizesse tudo. Em resumo, Rio está à margem da “onda conservadora/liberal” em curso no mundo e que Zita Seabra tanto aprecia. A nova batalha pela liderança do PSD ganha o dramatismo de uma luta entre o CD e a DS pela alma do partido.

 

Há muito esperado, o grito do Ipiranga de Luís Montenegro surpreendeu pelo momento escolhido. Aparentemente, ninguém na DS coloca a hipótese dos baixos resultados do PSD nas sondagens terem algo a ver com a incessante agitação vivida no partido e a falta de credibilidade ligada à desunião das suas principais figuras. A poucos meses das europeias e a três trimestres das legislativas, Montenegro deita gasolina na fogueira, ao invés de esperar calado e tranquilo que Rio se estampe, ganhando então quatro anos para “construir uma alternativa” (em português, para esperar que António Costa caia de podre). Parece um enorme erro táctico só explicável pelo pânico de quem não estava a pensar num PSD longe do poder quando preencheu a ficha de adesão. Mesmo que tudo corra bem ao portista e Montenegro se sente na cadeira que outrora pertenceu a esse político anti-sistema chamado Santana Lopes, nada garante que os eleitores afastados do PSD regressem de um momento para o outro. Talvez Luís tenha um plano infalível que ainda não percebemos, ou então o partido cujo hino Paulo de Carvalho compôs arrisca-se a viver tempos ainda mais duros. Por culpa própria, diga-se.

 

P.S. Luís Montenegro também enfrenta dois problemas. O primeiro é ter o mesmo nome da personagem principal do romance Montenegro, de André Ventura (facto verídico). O segundo é parecer saído da linha de montagem de uma fábrica de Luíses Montenegros todos iguais.

Não sejas Nobre Guedes

 

Algumas coisas que não fazem nascer Bolsonaros, mas dão-lhes uma ajuda:

 

Negar o perigo: Pegando numa frase do cinema, o maior truque de O Diabo foi convencer o mundo de que não existia. Muito do que vivemos hoje era impensável em 2008, data do início de uma crise económica mundial que Augusto Santos Silva então previu que teria um efeito demolidor para o neoliberalismo semelhante ao da queda do Muro de Berlim para o comunismo. Em vez disso, verificou-se uma cada vez mais profunda viragem à direita, durante a qual sociais-democratas e liberais foram varridos. Fazer previsões políticas definitivas e assentes na crença de que nada de fundamental vai mudar revela-se muito arriscado, ainda para mais no actual cenário. No caso português, o sucesso da extrema-direita (ED) é improvável, mas não impossível, pelo que a prevenção aconselha a não reduzir os fascistas locais a meia dúzia de excêntricos sem qualquer representatividade nem confiar que as instituições vão travar pessoas cujos níveis morais e intelectuais são exactamente aquilo que parecem.

 

 

Acreditar que os “bons” ganham sempre: No debate sobre o tempo de antena que deve ou não ser concedido à ED, os defensores da tolerância possuem vários argumentos válidos, embora discutíveis, como a questão da liberdade de expressão (reconhecida pela democracia mesmo aos seus inimigos) ou o risco dos radicais se vitimizarem por não conseguirem entrar no espaço mediático. Existe também a ideia de que, perante os microfones, o discurso das criaturas da ED denuncia por si próprio o irrealismo, a ignorância e a agressividade desse sector político, reduzindo muito a sua capacidade de atrair o eleitorado. O debate televisivo da campanha para as presidenciais francesas de 2017, no qual Macron venceu Le Pen, é apontado como um exemplo da autodescredibilização fascista. Contudo, podemos igualmente recordar os debates entre Donald Trump e Hillary Clinton, que fizeram muita gente pensar, com um sorriso tranquilo: “Ninguém no seu perfeito juízo votaria neste tipo”. A verdade é que nunca sabemos como o público vai reagir e, mesmo que a maioria dos espectadores sinta repulsa pelos políticos de ED, haverá sempre quem se identifique com a verborreia destes e conclua que, se os media lhes dão espaço, é porque a sua mensagem é legítima e aceitável. Ao contrário do que Fernando Esteves acredita, um reality-show sobre a vida de Mário Machado teria efeitos perigosos.

 

 

Olhar para o lado errado: A importância das redes sociais nas vitórias de vários candidatos da ED faz muitos preverem que um eventual Bolsonaro português surgirá necessariamente na Internet, à margem da velha comunicação social. O anúncio da primeira manifestação dos “coletes amarelos” lusos, organizada no espaço virtual, fez muitos jornalistas moverem-se num ansioso “é agora, é agora”. Na verdade, a comunicação política em Portugal ainda assenta muito na televisão e, em menor escala, na imprensa. Afinal, Marcelo Rebelo de Sousa foi beatificado em vida sem nunca ter aberto uma conta no Facebook ou postado as suas selfies no Instagram. O uso das redes sociais pelos partidos portugueses revela-se ainda incipiente e os sites nacionais especializados na mentira estão longe da produção maciça de conteúdos atingida pelas campanhas de Trump e Bolsonaro. O próprio André Ventura nasceu na CMTV, servindo-se da sua página no Facebook apenas para anotar as referências ao Chega feitas nos media tradicionais e apresentá-las como provas da fama e importância do benfiquista. O efeito das redes tem sido apenas o de permitir a pequenos grupos políticos julgarem-se de enorme dimensão, antes de se desiludirem ao constatar a sua irrelevância fora dos ecrãs. Entretanto, a pouco e pouco, o discurso fascista espalha-se pelo mainstream mediático, essencial para a ED ganhar uma aparência de normalidade e respeitabilidade.

 

 

 

Adorar a culpa: Perante a sucessão de países onde a ED avança para o poder, multiplicam-se as tentativas de explicação do fenómeno, através do estudo das circunstâncias de cada caso particular e da busca de um padrão comum. A partir deste esforço natural de análise, muitos comentadores dão o salto para um tom de culpabilização que depressa se transforma em desculpabilização. Assim, a indignação das populações é sempre legítima, pois alguém tem a culpa do descontentamento. Não o próprio comentador ou o seu grupo político, obviamente, mas sim as “elites”, os “políticos”, o “sistema”, o “politicamente correcto” e a esquerda no seu conjunto. Todos eles ignoraram os sentimentos das massas e continuaram a deixar entrar estrangeiros, fazer leis de protecção das minorias, restringir o acesso a armas ou manter as garantias legais que só protegem os criminosos. As imperfeições da democracia (se houver uma democracia perfeita algures no mundo, avisem-me onde é para eu lá ir) tornariam não só compreensível, como até inevitável que o povo começasse a encontrar virtudes no fascismo. A ED seria, afinal, uma entidade passiva que se limitaria a apanhar o poder atirado para a rua e os excessos dos novos governantes não passariam de respostas aos erros dos seus predecessores. Muitas pessoas da direita convencional estão hoje a aprender a deixarem de se preocupar e amarem o facho. Isso é o mais preocupante de tudo.

 

 

Ser Nobre Guedes: O risco de uma aliança tácita ou explícita entre os liberais e a ED, semelhante à ocorrida no Brasil, deve-se, além da aversão comum à esquerda, ao apego da maior parte da direita a um capitalismo pouco ou nada regulado. Num contexto cultural fortemente individualista, onde o marxismo sente grandes dificuldades para atrair apoiantes, as direitas propõem políticas “amigas do investimento” que se traduzem em privatizações, redução dos impostos sobre as empresas, hostilidade ao sindicalismo e aos direitos laborais ou fim de restrições à actividade económica motivadas pelo combate às alterações climáticas. O Governo Bolsonaro, liderado por um “liberal convicto” (na expressão de uma peça noticiosa da RTP), pode levar o Brasil a ser em breve apontado por muitos como um caso de sucesso do liberalismo económico e da ruptura com o socialismo. Se houver crescimento e maiores lucros para os grandes empresários, que interessa tudo o resto? Com esse objectivo comum e apoiadas num Estado agora focado no trabalho de manter a “ordem”, as direitas podem esquecer as suas divergências e procurar alcançar a verdadeira liberdade no quadro de uma nação da qual a esquerda foi excluída. Este cenário ainda não se verifica em Portugal, onde não devemos cair na paranóia de ver fascistas em todo o lado. Às vezes, porém, parece estar a surgir um grande, grande amor dentro do heterogéneo universo à direita de Rui Rio.

O Ano do Bruno

É um pouco estranho observar os balanços de 2018 feitos por sites, jornais, rádios e televisões e verificar o escasso relevo atribuído ao ataque à Academia de Alcochete e ao conjunto dos eventos ligados ao Sporting durante o ano agora a terminar. Afinal, durante praticamente todo o Ano do Bruno, entre a assembleia-geral do SCP que aprovou as modificações feitas pelo então presidente aos estatutos do clube e a assembleia-geral do SCP que confirmou a suspensão dos direitos de sócio do ex-presidente, os portugueses viram, ouviram, cheiraram, beberam e urinaram Bruno de Carvalho. Mesmo depois da destituição, qualquer aparição pública do filho de Rui de Carvalho despertava a atenção obediente dos media, agora iludidos ao ponto de acharem que tudo não passou de futebol, um tema a respeito do qual a memória é ainda mais curta que no resto da actualidade. Na verdade, o estertor do brunismo indicou ou serviu de exemplo de fenómenos a decorrer no país que transmitem uma imagem pouco tranquilizadora da situação de Portugal.

 

Relativamente ao futebol, durante o Ano do Bruno quase podíamos ouvir os jogadores dentro das quatro linhas a perguntar “Alguém se importa de nos dar um pouco de atenção?” De facto, a maior parte do debate e do noticiário desportivos girou em torno de casos de polícia envolvendo os três “grandes” e, com muito menor destaque, clubes como o Moreirense. Mesmo a acusação feita nos EUA a Cristiano Ronaldo, apesar de dizer respeito à vida privada deste, não deixou de afectar a imagem do futebol português ao questionar a conduta do seu nome cimeiro. De resto, viveu-se o banal e saudável ambiente de tensão estimulado por directores de comunicação, suspeitas quanto à arbitragem, insinuações de match-fixing, programas de televisão onde quase se chega a vias de facto, páginas de desinformação na Internet ou actos de violência das claques, esses simpáticos grupos de rapazes indispensáveis ao normal funcionamento do país. A paixão lusa pelo futebol nunca pareceu sustentar tantos parasitas. No entanto, como nenhum agente futebolístico relevante é condenado nos tribunais, pelo menos enquanto se mantiver em funções, tudo está bem quando acaba bem e o circo (romano) pode continuar à vontade.

 

 

Na comunicação social, a cobertura em directo das 359 conferências de imprensa de Bruno foi o menos importante, dado que o princípio “Futebol nunca é demais” constitui há muito tempo uma das duas máximas orientadoras dos directores de informação dos canais televisivos (a outra é “Os portugueses adoram telejornais com hora e meia de duração”). O Ano do Bruno marcou o triunfo definitivo da CMTV e a contaminação dos restantes meios informativos pelo estilo do grupo Cofina, entre a obsessão pelo “directo”, a indiferença pelo rigor factual, a proliferação de comentadores a opinar sobre o nada ou o desprezo pelo ridículo conceito de privacidade. A própria RTP divulgou gravações áudio do interrogatório judicial ao antigo dirigente do SCP, com a autorização do Ministério Público. Saber porque é que o MP a concedeu é algo que ultrapassa a compreensão dos meros mortais. Entretanto, abundam na imprensa os casos de manipulação política e os espaços publicitários não identificados como tal (por exemplo, os anúncios da marca Marcelo publicados semanalmente no Expresso). Estas práticas originam uma desconfiança generalizada do público, ofuscam o bom jornalismo ainda resistente e criam um risco para a democracia, pois não existe nenhuma alternativa credível aos media tradicionais.

 

Como muitas pessoas notaram, a forma como Bruno de Carvalho exerceu a liderança do Sporting desde 2013, e em particular no seu alucinante último semestre no poder, assemelhou-se ao comportamento de um líder político de extrema-direita, incluindo o apelo ao ódio e (alegadamente) à violência. O avanço internacional do fascismo gerou ao longo do Ano do Bruno, sobretudo a partir das eleições brasileiras, uma preocupação manifestada em duas questões frequentes no comentarismo português. Por um lado, a tentativa de explicar o fenómeno, através da qual se apontam inúmeras hipóteses mais ou menos verosímeis, seguidas da sentença “é assim que nascem os Bolsonaros”. Por outro, a interrogação sobre a viabilidade de um eventual sucesso do “populismo” por cá. Uma série de factores apontam esse cenário como uma improbabilidade aparentemente confirmada pelo bluff dos nossos “coletes amarelos”. Todavia, se recordarmos o discurso de Bruno e a normalização do seu estilo pessoal operada durante anos pelas pessoas mais insuspeitas de radicalismo, tal como o número de sportinguistas que seguiram o líder supremo quase até ao fim, até ao fim e mesmo depois do fim, ficamos com um mau pressentimento. De repente, o Brasil parece estar mais perto.

 

Embora Bruno de Carvalho tenha sido destituído do cargo e acusado judicialmente, a sua história ainda inacabada pode ajudar-nos a compreender melhor o Portugal do século XXI. O futebol nunca constitui um mundo à parte, revelando-se um espelho da sociedade onde se desenvolve, tanto nos melhores como nos piores aspectos desta. É chato, mas temos de nos habituar.

 

P.S. Se tivermos em conta apenas o que aconteceu nos relvados, obviamente que a figura desportiva de 2018 é Sérgio Conceição. Mesmo os homens portistas mais heterossexuais não deixam de dizer “eu amo-te, Sérgio”.

 

Café Ventura

Era uma vez um rapaz, filho de pais remediados, que cresceu num lugar de Portugal onde a maioria dos habitantes vivia modestamente e trabalhava nas mesmas actividades geração após geração. Católico devoto, o jovem entrou para um seminário disposto a tornar-se padre, mas abandonou esse objectivo por não conseguir resistir aos encantos femininos. Após sair do seminário, inscreveu-se na universidade, onde se dedicou a fundo aos estudos e manteve-se afastado da boémia estudantil. Licenciou-se em Direito com a classificação impressionante de 19 valores e rapidamente passou de aluno a professor universitário, completando a formação com um doutoramento. Já na casa dos trinta, começou a ganhar fama ao falar em público sobre a actualidade, publicar artigos de opinião na imprensa e dar entrevistas a jornalistas simpáticos. Chegado à política no campo da direita, entrou em conflito com os sectores mais moderados, por ele acusados de excessiva proximidade à esquerda. Eleito para um cargo público, do qual se demitiu ao fim de pouco tempo, criticou o parlamentarismo e defendeu um Estado forte na repressão do crime. Identificou-se com o verdadeiro sentimento da Nação, em contraste com os políticos tradicionais, ligados a interesses pessoais e de grupo. Muitos chamaram-lhe fascista, epíteto que rejeitou como incompatível com os seus princípios cristãos. Temendo ser alvo de violência, evitou ao máximo o contacto com as massas enquanto iniciava o caminho para o poder.

 

Falamos, obviamente, de André Ventura, a partir da narrativa da sua vida feita pelo líder do Chega numa entrevista ao Sol de 15 de Dezembro, onde Ventura descreve longamente os defeitos dos ciganos (de todos eles, dentro e fora de Portugal), embora negue estar “obcecado” pela etnia e aponte que “isto fala-se em surdina nos cafés, mas quando se diz isto em público parece que vem aí uma extrema-direita que é um terror”. De facto, pessoas como Ventura dão-se bem no ambiente dos cafés, inclusive nesse café gigante chamado Facebook. Nos cafés, onde costuma existir uma televisão sintonizada na CMTV ou um exemplar do Correio da Manhã para consulta dos clientes, é possível ter conversas calmas e interessantes, mas elas são abafadas pelo ruído contínuo do grupo que faz mais barulho. O debate em altos berros centra-se muitas vezes no futebol, não tanto no jogo em si mas sobretudo nos casos de arbitragem e nas acusações de corrupção. A discussão atravessa também a política, a sociedade e muitas outras áreas, através das sentenças definitivas de comentadores especializados em assuntos que não dominam por aí além e que simplificam qualquer tema até este caber numa só frase. Entre um e outro copo, difundem-se boatos, agressividade e facciosismo. Antes, os disparates proferidos à mesa do café não ultrapassavam as paredes do estabelecimento, mas hoje o ruído atinge dimensões globais, atraindo políticos para quem o café constitui a verdadeira democracia e não é preciso sair do café para compreender o mundo.

 

 

Além de básico, o discurso de André Ventura revela-se bastante fácil de lançar em Portugal, onde é diariamente reproduzido nos cafés da rua ou da Internet. Os ciganos não são boa rês, os muçulmanos constituem uma ameaça, os deputados são uns parasitas, os políticos só querem é poleiro, a justiça precisa de ser mais dura, os presos deveriam trabalhar em vez de passarem férias à nossa custa, os homossexuais não têm direito a casar? Muita gente diz “Ai, não pares, André, não pares”, até porque esta visão do mundo fornece uma reconfortante superioridade moral e não exige qualquer esforço de aperfeiçoamento a quem está do lado dos “bons”. Afinal, o cliente tem sempre razão, desde que pague (em votos) ao dono do café com o sapo de loiça na montra. Às vezes torna-se duvidoso se Ventura acredita mesmo em tudo o que diz ou simplesmente observou as tendências do mercado e verificou haver uma moda revivalista seguida por uma clientela em expansão que o convenceu a montar o seu negócio, estimulado pelo sucesso de uma marca nova surgida do outro lado da fronteira. Embora disponha de pouco tempo até às legislativas, Ventura pode reunir em Lisboa votos suficientes para ser eleito deputado e transformar definitivamente o Parlamento num café, do qual ele será o frequentador mais barulhento.

 

P.S. Desde Fevereiro deste ano que o jornalista António Ribeiro Ferreira, inimigo feroz dos “lacaios do politicamente correcto”, não assina nenhum artigo no i ou no Sol. No entanto, o nome de Ribeiro Ferreira mantém-se na ficha técnica como chefe da redacção comum aos dois jornais. Isto não faz sentido num ano marcado pela tensão crescente na Europa, pelo triunfo da família Bolsonaro no Brasil e pela efervescência na direita portuguesa, quando Ferreira deveria estar mais motivado que nunca para derramar o seu fel no teclado. De resto, o i e o Sol talvez tenham encontrado aquilo que o director, Mário Ramires, define como “investidores que ousem desafiar os poderes instalados”, já que ambos os periódicos redobram a simpatia para com a extrema-direita. Será que António Ribeiro Ferreira sofre de um problema de saúde ou prefere por algum motivo manter-se nos bastidores?

Um passeio pela direita

1. Faz todo o sentido que a Aliança utilize um discurso anti-sistema, ainda para mais quando o novo partido tem um líder jovem, sem experiência governativa e desprovido de ligações às elites políticas e mediáticas, o Pedro Santana Lopes (acho que o nome é este, mas não me lembro bem da cara dele).

 

2. A dinâmica de derrota em torno de Rui Rio parece imparável, numa altura em que a apreciação dos media (em particular da SIC) sobre o líder social-democrata se torna cada vez mais negativa. A guerra interna do PSD, convertido num saco de gatos, favorece a queda das três setas nas sondagens e a atitude de vitimização da direcção presidida por Rio. Além da hostilidade mediática, há que reconhecer a falta de capacidade mobilizadora do boavisteiro, cujo discurso parece já estar focado em convencer os militantes “laranjas” a não o afastarem depois das previsíveis derrotas de 2019. Ser líder do PSD quando o partido está na oposição é sempre complicado, mas poucos anteviram em Janeiro que o ano correria tão mal a Rui Rio. A resiliência deste poderá motivar um novo fôlego do PSD antes das legislativas, relativamente às quais as expectativas sociais-democratas são tão baixas que até um resultado desfavorável, mas não humilhante, poderá parecer bom. No entanto, disse-se exactamente o mesmo sobre Passos Coelho antes das autárquicas de 2017 e isso não evitou o desastre.

 

3. Durante o debate na especialidade do Orçamento do Estado, Assunção Cristas voltou a apresentar a sua candidatura a primeira-ministra, fazendo Mariana Mortágua rir às gargalhadas. É compreensível que Assunção queira distanciar-se do PSD e atrair pessoas próximas do CDS que duvidam da capacidade do partido da bola ao centro de alcançar o primeiro lugar. No entanto, a menos de um ano das legislativas, quando as sondagens atribuem ao CDS apenas cerca de 7% das intenções de voto, o truque publicitário lançado por Cristas no congresso centrista está a cobri-la de ridículo. A ex-ministra poderia recorrer a uma fórmula mais vaga, à imagem do PCP quando afirma estar preparado para assumir quaisquer responsabilidades que os portugueses lhe entendam atribuir, mas Cristas opta por personalizar a coisa e descrever as atitudes que tomará na qualidade de primeira-ministra. Num dos seus discursos, Marcelo Rebelo de Sousa já disse a Assunção Cristas para parar com isto, mas sem sucesso. Embora legítima, a ambição política torna-se contraproducente ao transmitir uma imagem de irrealismo e megalomania. 

 

4. O empenho da Iniciativa Liberal em assinalar os aniversários do 25 de Novembro e da morte de Francisco Sá Carneiro ganha relevância numa época em que a política se resume ao presente e costuma desvalorizar a memória. A IL tinha já rompido com a tradicional ausência da direita na manifestação comemorativa do 25 de Abril, encarando a Revolução como um ponto de partida para a conquista de mais “liberdade” no futuro. Recordar os eventos da década de 70 contribui para atenuar a habitual dificuldade dos liberais, ciosos da sua originalidade no quadro político português, em encontrar precedentes e referências históricas dos quais sejam herdeiros. Todavia, a construção de uma memória partidária acaba necessariamente por simplificar em demasia os acontecimentos passados. No caso do 25 de Novembro, existiram dentro dos campos em confronto nesse dia grupos com agendas e objectivos distintos, sem uma coordenação unificadora. Mais do que uma vitória dos bons sobre os maus, verificou-se um acordo de finalização do PREC negociado por Álvaro Cunhal e Melo Antunes, rosto principal do Grupo dos Nove, cuja tolerância sobrepôs-se ao anticomunismo de Jaime Neves e dos sectores da direita que pretendiam ilegalizar o PCP. Quanto a Sá Carneiro, o próprio fundador do Partido Social-Democrata negou ser um liberal, apesar dos seus choques com os sectores mais à esquerda dentro do PSD. Sá Carneiro opunha-se ao modelo económico expresso na Constituição de 1976, mas, assim como o seu parceiro de coligação Freitas do Amaral evoluiu até ser hoje visto pela direita como um traidor socialista, quem sabe o que o advogado portuense pensaria no contexto do século XXI?

 

 

5. Enquanto a maioria dos comentadores políticos nacionais mantém os mesmos tiques e manias década após década, Henrique Raposo manifestou uma nítida evolução no seu pensamento ao longo de cerca de dez anos de crónicas escritas para o Expresso e para o site da Rádio Renascença. O Raposo liberal e iconoclasta de 2008, empenhado em romper com o establishment de “Lisboa”, foi dando lugar a um cronista em trânsito lento mas seguro para o conservadorismo. Tudo o que Henrique Raposo escreveu a partir de 2015, incluindo o livro Alentejo Prometido, pode ser resumido em três palavras: Deus, Pátria, Família. O esforço de Raposo consiste precisamente em retirar a esses três conceitos a carga negativa que lhes foi dada pela ligação ao Estado Novo e integrá-los no pensamento de uma direita moderada, oposta quer ao “politicamente correcto” da esquerda quer ao ímpeto revolucionário da extrema-direita em ascensão. Nos seus artigos recentes, centrados sobretudo nos debates em curso nos EUA trumpistas, na França de Macron (visto por Henrique como o novo modelo do político de centro-direita) e no Reino Unido a caminho do Brexit, Raposo propõe a construção de uma pátria cosmopolita, mas orgulhosa da sua História e das suas raízes cristãs. A ideia de uma comunidade nacional aberta à integração de todos os indivíduos dispostos a aceitar as regras definidas, além de empenhada no combate à pobreza e à exclusão, permitiria ultrapassar a lógica agressiva daqueles que, à esquerda e à direita, acentuam as divisões por etnia, género, religião ou orientação sexual. Henrique critica ainda uma direita (liberal?) que reduz tudo ao “Excel” e à liberdade económica, ignorando a necessidade de uma regulação moral do capitalismo dos gigantes tecnológicos. Claro que Henrique Raposo mantém o estilo provocador e as características que lhe têm valido tanta simpatia no ciberespaço, mas a sua distanciação dos episódios do dia-a-dia lusitano e a formulação clara de um “novo” espírito conservador (numa linguagem mais arejada que a de João César das Neves) atribuem ao colunista um estatuto singular no pensamento actual da direita portuguesa.

Livros efémeros e outras notas

1. Apesar de toda a pressão para ler os clássicos e gostar dos grandes autores, continuam a fascinar-me os livros efémeros. Livros enquadrados nesta categoria costumam ser expostos em destaque nas lojas, alcançar os tops de vendas e obter uma ou outra referência na imprensa. No entanto, menos de um ano após o seu lançamento, já ninguém se lembra deles. Obras de auto-ajuda, biografias e autobiografias de celebridades no activo, livros baseados em textos de blogues ou páginas do Facebook e a maioria dos volumes sobre política ou futebol publicados em Portugal constituem exemplos de livros efémeros. Habitualmente surgidos para responder a temas da actualidade e/ou fornecer um veículo promocional aos autores, estes trabalhos depressa ficam datados, mas tornam-se documentos preciosos sobre um determinado período e resumos das ideias mais em voga no tempo em que nasceram. Apesar da existência de livros efémeros estar longe de ser nova, as variações no mercado e as necessidades financeiras urgentes das editoras contribuem para a recente proliferação deste tipo de obras nas livrarias.

 

 

2. Entrevistado pela revista da Bertrand, Somos Livros, o escritor Richard Zimler atribui a ascensão da extrema-direita à “ignorância em relação à própria história”, visível no voto dos americanos pouco instruídos em Donald Trump e no suposto desejo de Jair Bolsonaro de manter no Brasil “milhões de pessoas ignorantes, que votem num fascista”. Na verdade, as sondagens para a segunda volta das presidenciais brasileiras indicavam que Fernando Haddad apenas obtinha a maioria das intenções de voto entre os eleitores mais pobres e menos escolarizados, enquanto Bolsonaro dominava facilmente as preferências das elites e da classe média, dotadas de melhor educação. Além do acesso à informação, muitos outros factores, mais emocionais que racionais, influenciam as opções políticas, pelo que acreditar que uma boa educação das “grandes massas ignorantes” a que Zimler alude fá-las-á votar da maneira correcta revela-se ilusório. A um nível mais geral, duvido muito que a leitura de livros possa tornar o leitor uma pessoa melhor. Claro que os livros facilitam a transmissão do saber, mas não ensinam necessariamente a maneira de lidar com ele. Acima de tudo, as obras literárias constituem uma forma de passar o tempo nem mais nem menos válida que a música, o cinema, a televisão ou qualquer outra. Quando se pergunta a um leitor porque lê, a resposta mais directa e sincera continua a ser “porque gosto”. Tudo o resto é acessório.

 

3. Primeiro a televisão, depois os videojogos, agora a Internet. Ao longo das últimas décadas, houve sempre uma qualquer distracção a afastar os jovens do contacto com os livros. Da mesma forma, também existiram sempre vozes a lamentar a ignorância e a iliteracia dos portugueses mais novos, em óbvio contraste com os hábitos das gerações anteriores. Não há comentador que não tenha passado a adolescência a ler incessantemente, a discutir Dante e Shakespeare com os amigos e a escrever poemas num excelente português. É preciso relativizar todas estas queixas. Afinal, os compradores e consumidores de livros foram sempre uma minoria num país onde os analfabetos representavam ainda 40% da população maior de 7 anos em 1950, mas registaram-se desde então enormes avanços, estimulados pelo ensino, pela rede de bibliotecas públicas e pela crescente vulgarização da leitura no quotidiano. Actualmente, pessoas habituadas desde cedo ao imediatismo das redes sociais podem ter dificuldade em suportar a lentidão e a concentração necessárias à fruição dos livros. No entanto, estes últimos sobreviverão, como sobreviveram sempre, mesmo que tenham de se adaptar.

 

4. Uma biblioteca pessoal é um retrato do seu dono, podendo uma observação atenta detectar os gostos, manias, opiniões e até episódios da vida de quem reuniu um dado conjunto de livros. O número de obras, as línguas em que estão escritas, a sua disposição na estante, os autores mais frequentes, os temas e géneros predominantes ou ocasionais, a idade, o tamanho, o grau de conservação dos livros… Tudo pode ser útil para analisar, mesmo antes de uma pesquisa por datas, autógrafos, anotações, dedicatórias, trechos sublinhados e outras marcas escritas do bibliófilo. Terão os livros sido tijolos de um muro construído para separar o leitor do resto do mundo (sim, gosto dos Pink Floyd) ou revelam uma sucessão de viagens, contactos e experiências novas? Abundam no acervo os best-sellers ou textos obscuros lidos por minorias? Obras antigas compradas em alfarrabistas ou livros ainda a cheirarem a novos? Colecções completas ou volumes desgarrados? Além de revelarem pistas sobre o percurso dos seus criadores, as bibliotecas contribuem para preservar a memória individual e colectiva e transmiti-la às gerações futuras. Como pode alguém dispensar os livros em papel?

 

 

Alguém protesta? Sou contra!

Na série de livros As 10 Questões…, publicada pela D. Quixote, João César das Neves resume a situação económica portuguesa em obras destinadas ao grande público. Iniciada em 2011 com As 10 Questões da Crise, a colecção prosseguiu através de As 10 Questões da Recuperação (2013) e As 10 Questões do Colapso (2016). Neste último livro, César das Neves apontou como provável a curto prazo um cenário de colapso financeiro que obrigaria o país a pedir novamente ajuda externa, formulando a chamada “teoria do Diabo”. O fracasso da previsão expôs César ao escárnio da esquerda, mas, no seu novo trabalho, As 10 Questões do Interlúdio, o professor da Universidade Católica responsabiliza os seus “avisos e sinais de alarme” de 2016 pelo facto de se ter conseguido “adiar a catástrofe” (p. 10). O académico designa por “interlúdio” o período actual, situado entre a crise de 2008 e uma futura recessão e no qual a aparência de normalidade esconde que “nada voltará ao que era” (p. 12). No conjunto da obra, César das Neves procura arrefecer o optimismo do Governo de António Costa e realçar os perigos ainda a pairar sobre a economia nacional e mundial.

 

As primeiras três “questões do interlúdio” retratam o ambiente internacional, com João César das Neves a recorrer a uma perspectiva global para mostrar que se vive um período de prosperidade, marcado nas últimas décadas por avanços significativos na redução da pobreza e na melhoria do acesso à saúde e educação. Além de contestar a ideia de decadência, César rejeita a “arrogância intelectual” daqueles que falam de mudanças radicais em curso e tentam prever o futuro. Na verdade, muitas das inovações do presente seriam meros aperfeiçoamentos de invenções passadas. Por exemplo, “o impacto real da web é muito inferior ao que a televisão, o telefone ou o automóvel tiveram nos hábitos sociais do seu tempo” (p. 29). Trata-se, na minha opinião, de um enorme erro de análise, mas a afirmação integra-se no esforço de César em mostrar que nada há de novo debaixo do Sol. O economista católico não ignora, contudo, as perturbações criadas pelo progresso da globalização e o “perigo civilizacional” resultante do descontentamento, traduzido na chegada ao poder de Donald Trump e de uma vaga de populistas na qual César inclui nomes tão díspares como Putin, Erdogan, Salvini e Catarina Martins. A principal ameaça representada por Trump está no regresso do proteccionismo e na ruptura dos acordos comerciais (pouco receoso das alterações climáticas, César das Neves não menciona a saída americana do Acordo de Paris) ligados ao capitalismo liberal. Contra o extremismo e a polarização, César propõe “o regresso à solidariedade” defendido pelo Papa Francisco.

 

 

Em contraste com a agitação lá fora, Portugal “parece ter entrado num período mágico” (p. 73) durante o qual conquistas enumeradas por César das Neves, como o Europeu, a Eurovisão ou os cargos internacionais de António Guterres e Mário Centeno, reforçaram as boas vibrações. Na economia, César admite que a Geringonça, mais moderada do que ele previra (“Em Portugal os extremistas ladram mas não mordem”, p. 223), alcançou resultados positivos no crescimento económico, na redução do défice e da dívida pública, na queda do desemprego e na recuperação do investimento, mas considera que tudo ficou aquém do desejável, representando “Um alívio, não uma cura” (p. 86), até porque as necessárias reformas na estrutura do Estado pararam. O professor da Católica associa o crescimento da economia portuguesa ao legado de Passos Coelho e à conjuntura externa favorável, além de atribuir o sucesso orçamental de Centeno ao efeito das cativações e do aumento dos impostos indirectos. Talvez por considerá-la demasiado absurda, César nunca chega a desmentir a tese governamental da existência de uma relação entre a “reposição de rendimentos” e as melhorias económicas e financeiras. Indiferente a detalhes supérfluos, o autor justifica a sua oposição ao aumento do salário mínimo destacando o efeito negativo deste na criação de emprego, sem explicar porque é que tal não aconteceu nos últimos três anos.

 

Após apresentar as estatísticas económicas, João César das Neves costuma dar grandes saltos em frente para tecer considerações morais e políticas. O que mais incomoda César na época actual é ver os cidadãos a criticarem “as regras e as instituições básicas do sistema” (p. 53), ao invés de compreenderem que “tudo o que temos e somos devemo-lo à sociedade como ela é” (p. 71). As greves e manifestações são, no caso português, a marca dos “subversivos, resmungões e contestatários” da esquerda (pp. 142-143), agora calados por estarem no poder. Na verdade, não passam de “privilegiados” insaciáveis, apesar de possuírem mais direitos que os restantes trabalhadores. César não tem nada contra os ricos ou contra os pobres, mas as classes médias, superiores em número e beneficiárias da “linha política do interlúdio” (p. 189), mantêm despesas insustentáveis para o país, numa atitude irresponsável estimulada pelos políticos nos quais votam. A ausência de autocrítica, visível na atribuição ao euro e à UE das culpas da crise, contribui para “o excesso de gastos, a falta de poupança e a escassez de capital” (p. 225), fraquezas que tornam Portugal vulnerável a um qualquer abalo externo, do qual resultará o fim do interlúdio.

 

Os livros de João César das Neves possuem informação útil e apresentam de forma sucinta e acessível a leigos os principais traços da nossa economia. No entanto, mais do que apenas um economista, César das Neves é uma das principais referências do pensamento conservador luso, dotado de uma narrativa sobre o país que deseja o regresso dos portugueses a uma certa pureza original, perdida algures durante as quatro décadas após o 25 de Abril. Embora César recuse aproximações à extrema-direita trumpista, nada tem para oferecer ao povo além de dever e resignação. Entretanto, o catedrático aguarda pelo início da próxima crise económica, altura em que poderá soltar um triunfante “Eu bem avisei”.

 

P.S. Algumas frases de As 10 Questões do Interlúdio enfermam de falta de rigor, como se verifica no anacronismo de situar a “fundação” da democracia portuguesa em 1820 (pp. 126-127), uma vez que o conceito de democracia era diferente do actual durante o século XIX, quando o liberalismo impunha limites à soberania popular e “democracia” era sinónimo de “república”. De igual forma, afirmar que “Nos tempos áureos do império, Portugal foi o povo (sic) mais rico do mundo” (p. 232) é um lugar-comum sem nenhum facto a apoiá-lo.