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Desumidificador

Desumidificador

Os novos rostos do ano

Sempre que um ano se aproxima do fim, é interessante verificar quais são as celebridades agora debaixo dos holofotes que, na altura da anterior passagem de ano, ainda eram quase desconhecidas. No restrito universo das pessoas nomeadas com frequência nos media, registam-se periodicamente, além das saídas de cena motivadas pelo último acorde (até sempre, Zé Mário), as entradas de novas personalidades resgatadas do anonimato por determinados acontecimentos. A nível mundial, 2019 tem sido marcado pela ascensão de figuras tão diversas como Juan Guaidó, Greta Thunberg ou Santiago Abascal, mas é difícil rastrear ao pormenor todos aqueles que se destacam por um motivo ou outro no conjunto dos países. Já em Portugal, onde a actualidade nacional faz lembrar uma telenovela na qual as personagens são quase sempre as mesmas, os recém-chegados ao palco mediático são geralmente poucos em cada ano, deixando de lado aqueles que se destacam mais pelas funções que assumem que pela sua actividade, como acontece nos casos de novos ministros ou futebolistas contratados pelos três “grandes”. Assim, no período decorrido desde Janeiro último, pudemos observar a subida no elevador da Glória dos portugueses que se seguem:

 

Bruno Lage: Após o despedimento de Rui Vitória do comando técnico do Benfica, o seu substituto Bruno Lage foi apresentado como uma solução provisória, mas os primeiros jogos da equipa sob a nova liderança chamaram a atenção e garantiram a estabilidade a Lage, que, para espanto geral, transformou o SLB num rolo compressor que subjugou o FC Porto de Sérgio Conceição e venceu a Liga, contrariando a tradição de inutilidade das chicotadas psicológicas. Para lá do sucesso desportivo, Lage adoptou um discurso sereno oposto ao habitual histerismo do futebol luso e atreveu-se a descrever a modalidade como um simples jogo, irrelevante perante as questões sociais e políticas actuais. Os resultados pouco brilhantes do Benfica nas competições europeias e o menor fulgor exibicional revelado pela equipa da “alma vermelha” no início de 2019/20 turvaram um pouco a imagem do técnico na Luz, embora permaneça ainda tudo em aberto para Lage.

 

Carlos Guimarães Pinto: Apesar de João Cotrim de Figueiredo ser o primeiro deputado eleito pela Iniciativa Liberal e o provável terceiro presidente do partido nos dois anos de história deste, o espinhense Carlos Guimarães Pinto foi o líder e a figura mais destacada da IL durante a campanha para as legislativas, quando expôs as suas ideias em entrevistas (incluindo uma importante aparição no programa de Ricardo Araújo Pereira) e artigos de opinião em vários jornais. Co-autor dos irreverentes cartazes da IL, Carlos uniformizou o discurso e o estilo de comunicação dos liberais num tom mais vistoso e aguerrido que o do período fundador, atingindo o feito de conduzir a S. Bento um novo partido com escasso apoio mediático e composto sobretudo por jovens. Para o bem e para o mal, a Iniciativa deve muito daquilo que é a Guimarães Pinto, cuja surpreendente demissão criou um certo vazio no partido durante a fase de definição da estratégia a seguir na arena parlamentar.

 

Carolina Loureiro: Esta escultural actriz de 27 anos, formada na academia dos Morangos com Açúcar e com um currículo até aqui limitado a pequenos papéis em novelas e à apresentação do programa Fama Show, irrompeu ao conquistar o lugar de protagonista em Nazaré, um folhetim da SIC cujas elevadas audiências beneficiam do tufão Cristina e dos danos por ele causados em Queluz. Na qualidade de estrela de uma novela na qual surge frequentemente em roupa interior, Loureiro ascendeu de um dia para o outro no star system português, ocupando as capas das revistas cor-de-rosa e do Correio da Manhã através da inevitável exposição da vida amorosa da actriz. O papel que desempenha em Nazaré não exige a Carolina os dotes artísticos de uma Meryl Streep, mas a jovem parece ter um vasto futuro à sua frente.

 

 

Joacine Katar Moreira: A simpatia gerada por Rui Tavares não impediu que o Livre sofresse nas eleições europeias uma nova derrota que colocou o partido numa situação difícil. Perante o desafio fulcral das legislativas, o Livre escolheu como cabeça de lista por Lisboa a historiadora Joacine Katar Moreira, na qual se personalizou uma campanha centrada na sua condição de mulher negra, oriunda de um sector da população geralmente afastado dos cargos políticos. Outro traço distintivo de Moreira, a gaguez que dificulta as suas intervenções públicas, depressa também se tornou notado. A partir da votação em que os eleitores de Lisboa (em particular os de Arroios) confiaram a Joacine um mandato para os representar, a nova deputada atraiu todos os olhares e a curiosidade deu lugar às críticas, inicialmente provindas da extrema-direita irada com a intrusa, mas que alastraram a comentadores receosos do estilo pessoal e do discurso “identitário” de JKM. Mesmo dentro do Livre, parece existir quem pense que isto já é Joacine a mais. Subsiste ainda a incógnita quanto ao efeito de todo o ruído nas possibilidades de crescimento do mais pequeno partido da esquerda parlamentar.

 

Miguel Pinto Luz: Desde 2017 que o nome do vice-presidente da Câmara de Cascais circulava como possível candidato à liderança do PSD, mas só neste Outono Pinto Luz desembainhou a espada e avançou contra Rui Rio e Luís Montenegro, com o apoio de alguns “notáveis” e distritais laranjas. No entanto, com uma experiência governativa fora de Cascais limitada à passagem como secretário de Estado pelo efémero segundo Governo da PAF, Miguel é um perfeito desconhecido para a esmagadora maioria dos portugueses. Talvez por isso mesmo, o autarca apresentou um extenso relato da sua vida dedicada ao PSD, a Deus e à família, sem produzir até agora nenhuma afirmação ideologicamente clarificadora. O caso de Pinto Luz convida a imaginar que manobras nos subterrâneos da política e do jornalismo serão necessárias para alguém se tornar candidatável a um cargo como o de presidente do PSD.

 

Pedro Pardal Henriques: Entre Abril e Agosto, o vice-presidente e assessor jurídico do sindicato dos motoristas ligados ao transporte de matérias perigosas tornou-se o símbolo do novo sindicalismo, um fenómeno que espalhou a confusão quer na esquerda quer na direita. Anunciando em inúmeras declarações formas de luta mais radicais e imprevisíveis que as tradicionais e envolvendo-se numa feroz guerra de palavras com o representante da associação patronal, o advogado concentrou as atenções da comunicação social de uma forma inédita e recebeu acusações de oportunismo e interesses políticos inconfessados. No entanto, a greve dos camionistas ocorrida no Verão não teve consequências de maior nas legislativas, às quais Pardal Henriques se candidatou sem sucesso pelo PDR. Pouco depois da votação, patrões e sindicatos da camionagem chegaram a acordo, agora no meio da indiferença geral.

 

 

Desumidificar por aí

Ficamos a perceber que a blogosfera portuguesa já conheceu melhores dias quando 80% dos utilizadores do Sapo que responderam a um inquérito recente afirmam nunca ler blogues. Tempos diferentes viviam-se nos anos gloriosos de 2003-2004, marcados pelo fascínio de muitos cibernautas com a súbita democratização da opinião publicada e a revelação nos blogues de novos comentadores políticos que chegariam pouco depois aos media tradicionais. Nessa altura, fui convidado para escrever sobre cinema no Pipoca Rasca, rapidamente interligado com outros blogues dedicados ao mesmo tema, cuja rede fornecia opinião e informação alternativas às da então abundante imprensa cinéfila. Sem perceber grande coisa do assunto, critiquei filmes durante cinco anos até me cansar. Enquanto a troika voava para a Portela, lancei sozinho o blogue Tralha Útil, sem tema específico mas onde escrevia sobretudo transcrições de notícias de jornais antigos que descobria durante as minhas pesquisas e achava curiosas por uma razão ou outra. Em 2013, compreendi que aquilo já não fazia sentido e afastei-me da blogosfera, recebendo apenas vagas informações segundo as quais os blogues políticos estavam a perder qualidade e a ser dominados pelos partidos, enquanto proliferavam diários virtuais sobre lifestyle (seja lá o que isso for) repletos de publicidade. Entretanto, as redes sociais, em particular o Twitter e o Facebook, dominavam o mundo e, com um alcance e uma interactividade muito superiores aos dos blogues, pareciam condená-los à irrelevância.

Todavia, foi através das redes sociais que voltei à blogosfera. Ao ver toda a gente a dar palpites sobre a actualidade no Facebook, resolvi também lançar algumas bocas, mas depressa percebi que o café gigante de Mark Zuckerberg não foi feito para difundir opiniões que não caibam num único parágrafo. Só nos velhos blogues é possível encontrar o ritmo e o espaço necessários a análises menos instantâneas e mais desenvolvidas. Sem vontade de regressar ao Blogger, encontrei mesmo à frente do nariz a plataforma do Sapo Blogs e, na tarde do dia 1 de Fevereiro de 2017, criei um site cujo nome, por razões óbvias, só poderia ser Desumidificador. Como orgulhoso odivelense que sou, coloquei no cabeçalho uma fotografia do Jardim da Música. Restava apenas saber o que fazer com uma tribuna sobre tudo e sobre nada.

 

 

Os textos que fui produzindo, geralmente escritos já depois da meia-noite e publicados na manhã seguinte, acabaram por se dividir, de uma forma geral, em quatro grupos, entre críticas a livros que li, opiniões sobre a política nacional, crónicas centradas numa determinada figura pública e descrições do meu acanhado universo pessoal, para além de ocasionais digressões em torno do cinema, do futebol ou da televisão. Quando acabo um post, nunca sei qual será o tema do próximo texto. De resto, apesar da pressão que todos sentimos para comentar tudo, muitas vezes não tenho opinião sobre as últimas notícias ou, depois de ler ou ouvir o que os comentadores a sério disseram, sinto não ter nada a acrescentar. Longe de aspirar à originalidade, procuro abordar os temas a partir de um facto ou uma perspectiva até aí subvalorizados. Quanto ao estilo, a ironia costuma ser mais eficaz que doses industriais de indignação, o produto mais vendido do nosso tempo, para atingir um alvo. Apesar de ser de esquerda (ou talvez por isso mesmo), passei os últimos dois anos a falar da direita, um sector político a viver uma fase tão interessante quanto inquietante.

Porque escrevi mais de 200 posts, crónicas ou o que queiram chamar-lhes? Por causa da eterna paixão pela leitura e pela escrita, mas também porque cada publicação é uma espécie de mensagem na garrafa à espera de ser descoberta por alguém num lugar longínquo. Canções dos Police à parte, os comentários que recebi foram muito encorajadores. Agradeço à equipa do Sapo Blogs pelos destaques concedidos a textos meus, bem como a quem nomeou o Desumidificador para os Sapos do Ano 2019. As reacções de discordância acesa têm sido menos numerosas, mas ser apelidado de “comuna beócio” também aquece o coração. Quanto ao futuro, nem sempre é fácil prosseguir num ambiente tão húmido, mas isto não acaba assim.

 

P.S. A imagem é da autoria deste fotógrafo.

Duas lojas vizinhas

Eu vi este povo a lutar…

 

Iniciativa Liberal (IL): Para o socialismo acabar.

Chega (CH): Para os pedófilos castrar.

 

O país ideal é aquele em que…

 

IL: Ninguém é piegas.

CH: Pedro Dias nunca mais copula.

 

A decadência de Portugal começou…

 

IL: Há 20 anos, quando o crescimento económico estagnou.

CH: Há 45 anos, quando José Cid lançou o single “A Rosa que Te Dei”.

 

Solução para tudo:

 

IL: Descida de impostos.

CH: Justiça mais dura.

 

A retórica usada tem de ser…

 

IL: Revolucionária, para agradar aos jovens.

CH: Reaccionária, para agradar aos velhos.

 

Atitude para chamar a atenção dos media:

 

IL: Irreverência.

CH: Vitimização.

 

O partido tende a atrair pessoas que trabalham em…

 

IL: Empresas e universidades.

CH: Esquadras.

 

 

Crítico de cinema/televisão:

 

IL: Eduardo Cintra Torres.

CH: Eurico de Barros.

 

Jornal com uma visão do mundo idêntica:

 

IL: Observador.

CH: Correio da Manhã.

 

Partido irmão espanhol:

 

IL: Ciudadanos.

CH: Vox.

 

Costumam ir à missa?

 

IL: Nem por isso…

CH: Claro, Deus está do nosso lado.

 

Herói contra-revolucionário de 1975 preferido:

 

IL: Jaime Neves.

CH: Cónego Melo.

 

Zonas de conforto:

 

IL: Freguesias de Lisboa e Porto com eleitores mais ricos e escolarizados.

CH: Subúrbios de Lisboa e concelhos do Alentejo com mais ciganos.

 

Celebridade feminina que mais os irrita:

 

IL: Greta Thunberg.

CH: Carolina Deslandes.

Perguntas sem resposta

1. Irá o Reino Unido realmente sair da União Europeia a 31 de Janeiro de 2050?

2. As irmãs Mortágua seriam tão odiadas se fossem os irmãos Mortágua?

3. Raquel Varela alguma vez sente culpa?

4. Quem paga a sobrevivência de O Diabo?

5. Porque é que o jornal i não acaba definitivamente em vez de ir ficando cada vez pior?

6. Luís Marques Mendes virá algum dia a crescer (não, não me refiro à altura dele)?

7. Como será o discurso de André Ventura na próxima sessão parlamentar comemorativa do 25 de Abril?

8. Se o Sporting tivesse vencido o campeonato de 2015/16, seria Bruno de Carvalho ainda presidente do clube?

9. Não será má ideia alterar os programas escolares para difundir uma dada versão da História, seja ela qual for?

10. Porque temos sempre de “compreender” as pessoas que votam na extrema-direita, enquanto já se sabe de antemão que o eleitorado da extrema-esquerda é um misto de parasitas e burgueses entediados?

11. Alguma vez um comentador que fale da necessidade de mais políticos oriundos da “sociedade civil” admitirá não estar propriamente a pensar em actrizes e operários metalúrgicos?

12. O que aconteceu ao jornalista de extrema-direita António Ribeiro Ferreira?

13. Como será que o Expresso conhece tudo o que Marcelo Rebelo de Sousa quer, teme, prevê, acredita e outros verbos usados pelo jornal na primeira página?

14. Porque não é criticado o facto de nenhuma mulher alguma vez ter sido presidente do Benfica, do FC Porto ou do Sporting?

15. O comunismo voltará como o fascismo voltou?

16. Por que motivo dão as pessoas mais atenção a Greta Thunberg que a um experiente e conceituado especialista em alterações climáticas (e atum) como Zé Diogo Quintela?

17. Onde arranjam os leitores da Visão e da Sábado dinheiro para passarem tanto tempo a viajar e a comer fora?

18. O que aconteceu no dia em que Eduardo Cintra Torres decidiu odiar Nuno Artur Silva para o resto da vida?

19. Acreditará José Gomes Ferreira que é o Tom Cruise?

20. De que modo Miguel Pinto Luz se tornou candidatável à liderança do PSD?

 

 

As herdades

A Herdade, de Tiago Guedes

 

No papel da sua vida, Albano Jerónimo encarna em A Herdade João Fernandes, o senhor feudal de uma grande propriedade a sul do Tejo cuja gestão lhe interessa mais do que o convívio com o resto da elite do Estado Novo, à qual está ligado familiarmente por via da sua mulher Leonor (Sandra Faleiro). Impetuoso e distante, João vai enfrentar o marcelismo e a Revolução até conhecer a ruína progressiva do seu mundo, dominado por um silêncio que se torna mais avassalador à medida que a solidão do dono da herdade se acentua.

Integrado num já vasto conjunto de filmes que constroem ficção a partir do potencial do século XX português, A Herdade remete para uma época e uma região específicas, mas, paradoxalmente, pode ser visto e compreendido em qualquer parte do mundo. Para isso contribui a beleza visual da obra, garantida pela qualidade da montagem e pela forma exímia como Tiago Guedes domina a luz, o espaço, os cenários naturais ou o tempo, numa longa-metragem de mais de duas horas e meia que nunca se arrasta. Para lá da memória colectiva nacional, o argumento de Guedes e Rui Cardoso Martins foca temas universais como o poder, a família e as dificuldades de comunicação, pecando apenas por alguma previsibilidade na evolução da história durante a segunda parte.

O filme evita os clichés onde seria tão fácil cair e desenvolve as personagens através de um registo de contenção baseado naquilo que fica por dizer (talvez o casal Fernandes beba e fume tanto precisamente para manter as bocas ocupadas) e na tensão guardada em segredo até um dia explodir e fazer vítimas. O desempenho sem falhas do elenco, dominado por um Albano Jerónimo que disputará o prémio Sophia com Sérgio Praia, garante o êxito de um filme sensível, realista, ambicioso, profundo sem ser aborrecido e que eleva o cinema português a um patamar raramente alcançado, onde só filmes como Alice, de Marco Martins, se equivalem na força e durabilidade ao trabalho de Tiago Guedes.

 

Um filme para… Perceber como se faz um bom drama.

Nota: 8/10.

 

 

 

Rambo: A Última Batalha, de Adrian Grunberg

 

Apesar das histórias disparatadas, das personagens de cartão e da violência desmesurada, os cinco filmes da série Rambo são um guilty pleasure para muitos cinéfilos atraídos pelo carisma de Sylvester Stallone na pele de uma das duas únicas personagens (a outra é Rocky) que consegue realmente interpretar. Stallone é também co-argumentista de Rambo: A Última Batalha (Last Blood no original), uma obra que mostra o guerreiro solitário no seu quotidiano na velha quinta dos Rambo no Arizona, aonde voltara após uma longa peregrinação no final do quarto capítulo. O veterano do Vietname enfrenta os seus traumas na companhia de uma família adoptiva cuja tranquilidade se esfuma devido à acção criminosa de um bando mexicano de traficantes de seres humanos.

Naquele que é, salvo erro, o filme da saga em que Stallone fala durante mais tempo, vemos um John frágil, amargurado, envelhecido (embora plastificado, de acordo com a arrojada teoria de Ricardo Araújo Pereira) e até derrotado, num raro aprofundamento do lado emocional da personagem, favorecido pela realização eficaz de Grunberg. Claro que, mais cedo ou mais tarde, acaba por chegar a parte que o público veio ver e não será um grande SPOILER revelar que no final o herói massacra os bad hombres, numa já mítica sequência onde cada morte é mais cruel que a anterior. O politicamente correcto vê-se atingido pelas flechas de Rambo, de forma brutal mas também honesta e genuína num tempo de cinema padronizado.

Depois de ter sido o herói por excelência da era Reagan, Rambo torna-se aqui, talvez inevitavelmente, um símbolo do espírito dos anos Trump. Poderíamos justificar com as necessidades do argumento o facto dos vilões serem mexicanos e do país vizinho dos EUA ser apresentado como um sítio pobre e violento, mas a mensagem de Last Blood deixa claro que o tempo de ir para terras distantes combater os inimigos da liberdade já passou. Agora, os americanos devem ficar em casa e reprimir as ameaças que entram pela fronteira sul, limitada por frágeis vedações facilmente derrubadas pela carrinha de Rambo e (ainda) não por um muro inexpugnável. Como Stallone afirma quase textualmente, o mundo lá fora é perigoso e está cheio de gente má que deve sempre ser tratada com desconfiança.

O rasto de sangue deixado no mundo por John Rambo chega ao fim num episódio que encerra a série com dignidade e um mínimo (sem exageros, claro) de profundidade, permitindo também avaliar o herói como um espelho do lado sombrio da América, mais afeito à guerra que à paz.

 

Um filme para… Dizer adeus a uma personagem marcante do cinema.

Nota: 6/10.

 

 

 

E no entanto, isto move-se

1. A abstenção atingiu nestas eleições valores preocupantes que nos obrigam a uma reflexão profunda. Pronto, já disse a frase indispensável. Agora posso esquecer isso durante quatro anos e analisar as opções das pessoas que se deram ao trabalho hercúleo de ir votar.

 

2. A popularidade da Geringonça ditou os resultados finais das legislativas, até porque o PS nunca explicou de forma convincente em que medida uma maioria absoluta seria melhor que a manutenção da coligação de esquerda, a solução predilecta de muitos eleitores socialistas. António Costa terá de continuar a governar apoiado em concessões a outros partidos, num cenário internacional que, depois de uma campanha em que tudo era possível, ficámos a saber estar prenhe de ameaças. Não será fácil, mas a pressão das bases leva as direcções de PS, BE e PCP a evitarem a todo o custo serem consideradas responsáveis por uma eventual ruptura. Como escreveu José Pacheco Pereira em 2015, o casamento pode ser difícil, mas o divórcio seria muito pior.

 

 

3. O PSD tremeu mas não caiu no Norte, em parte do Centro e na Madeira, regiões onde venceu o PS por curta margem ou ficou pouco atrás dos socialistas. No resto do país, porém, a influência social-democrata é cada vez menor, particularmente no distrito de Lisboa, acentuando-se a tendência para uma ruralização do voto “laranja”. Em resposta a isto, Rui Rio mostrou-se demasiado satisfeito com o segundo lugar e adoptou um discurso mesquinho, típico de quem faz uma lista das pessoas que o chateiam para um dia vir ajustar contas. As sondagens do início de Setembro, que pareciam ser a condenação de Rio, converteram-se na sua salvação, já que o portuense baseia-se numa votação superior às fracas expectativas para não sair sem luta da liderança. Acontecerão em breve eleições directas no PSD e Rio, novamente desafiado, poderá sair vencedor. Resta saber se conseguirá inverter a progressiva perda de fôlego do partido de Cavaco Silva.

 

 

4. No final dos anos 80, o desaparecimento de um PCP forte e a efemeridade do furacão PRD permitiram a PS e PSD dominar em conjunto mais de dois terços do eleitorado. Nas legislativas de 1991, a soma dos votos de PSD e PS atingiu uns impressionantes 79,73% do total, descendo mais tarde para 77,88% (1995) e 76,38% (1999). Na primeira eleição parlamentar deste século, em 2002, os membros do Bloco Central somavam ainda cerca de 78%, mas cairiam para 73,79% (2005) e, há dez anos, com 65,67% dos votos, não atingiram os dois terços, sendo prejudicados pelo crescimento de BE e CDS e pela estabilidade da CDU. 2011 mostrou uma ligeira recuperação de PS e PSD, escolhidos por 66,71% dos votantes, antes de se verificar em 2015 a formação da PAF, cuja percentagem, adicionada à obtida pelo PS, somaria 69,17%. Finalmente, em 6 de Outubro de 2019, a votação conjunta de PS e PSD não foi além de 64,55%, o valor mais baixo desde 1985. Tudo isto revela que, apesar do enraizamento popular que socialistas e sociais-democratas mantêm, o predomínio dos dois maiores partidos da democracia é cada vez menor. Nas áreas mais urbanizadas, os eleitores demonstram um interesse crescente por novos projectos políticos e alternativas ao “centrão”, para lá do aumento dos votos brancos e nulos. A resistência dos partidos tradicionais em Portugal, apontada como uma excepção no contexto europeu, tem sido sobrestimada.

 

5. O declínio do PCP nos últimos quatro anos não se deve ao alegado descontentamento dos eleitores comunistas com a participação na Geringonça, mas sim a factores estruturais ligados ao envelhecimento do universo do partido, incapaz de se adaptar às mudanças no trabalho e na sociedade e cuja linguagem antiquada e repetitiva prejudica a atracção de novos (e jovens) eleitores. A influência comunista no sindicalismo começa também a ser posta em causa. A simpatia e genuinidade de Jerónimo de Sousa, um português comum que pode dizer que comeu “o pão que o diabo amassou” sem ser desmentido, elevaram e estabilizaram a votação na CDU até se tornarem insuficientes. Se o PCP funcionasse como os outros partidos, Jerónimo apresentaria a sua demissão, mas só deverá ser substituído no congresso de 2020. Dito isto, a morte do partido pró-soviético (no centenário da Revolução Russa, mostrou continuar a sê-lo) de Portugal já foi muitas vezes anunciada e sucessivamente adiada, pelo que conclusões definitivas são de evitar.

 

6. O período de Assunção Cristas na liderança do CDS pode ser dividido em fases distintas. Entre 2016 e 2017, Cristas soube afirmar a sua marca num partido muito marcado pelo perfil do seu antecessor e conduzir a hoste democrata-cristã a um resultado histórico na autarquia de Lisboa, embora irrelevante no resto do país. Depois desse feito, contudo, a “futura primeira-ministra” pareceu ser tomada por um certo deslumbramento, a partir do cálculo político errado (também feito por Santana Lopes, com os resultados que se viram) de que a viragem ao centro do PSD e a aproximação de Rui Rio ao PS levariam numerosos votantes “laranjas” a mudarem-se para a verdadeira direita, tornando o CDS a “primeira escolha”. O ano de 2019, coincidindo com a saída de Adolfo Mesquita Nunes da vice-presidência do CDS, tem sido desastroso para o partido, onde foi visível por muitas vezes um desnorte total. Depois do mau resultado das europeias, influenciado pela “crise dos professores” e pelo comportamento de Nuno Melo (um representante fiel daquela direita que ainda não digeriu bem a derrota de 1834), Cristas assumiu uma pose mais contida e o Verão decorreu sem grandes abalos, apesar dos sinais preocupantes de radicalização revelados pela polémica das casas de banho. A abundância de sondagens negativas instalou no discurso do CDS um tom permanente de desespero, a que se juntaram uma campanha publicitária que não fez sentido e a opção de Assunção Cristas por baixar demasiado o nível nos confrontos com António Costa. O programa liberal/conservador apresentado no Caldas não satisfez uma faixa de eleitores que encontrou na IL um projecto mais coerente. De regresso aos números do cavaquismo, o CDS enfrenta um futuro indecifrável e indica que os partidos nascidos em 1974 podem não ser eternos.

 

7. O crescimento do PAN deve-se acima de tudo à habilidade política de André Silva, que soube aproveitar muito bem o escasso espaço de que dispôs ao longo da legislatura agora finda para fazer os holofotes incidirem sobre o seu partido. No dia em que Manuel Alegre escreveu que 229 deputados pareciam ter medo de um único parlamentar, a batalha do PAN estava ganha. O intenso escrutínio mediático a que o partido foi sujeito durante a campanha, com as suas propostas mais ridículas a serem expostas à luz do dia, pode ter impedido o PAN de ir além de um nicho de eleitorado, mas conferiu aos animalistas uma visibilidade que nunca mais perderão, até porque o contexto mundial de crescente preocupação com as alterações climáticas beneficia-os.

 

8. A Iniciativa Liberal provou que, apesar de em Portugal ainda quase tudo se jogar na televisão, uma campanha baseada em cartazes e na utilização das redes sociais pode ter sucesso e chamar a atenção dos media tradicionais sem necessidade de recorrer à lamúria santanista. A irreverência e contundência da IL, expressas na sua “oposição ideológica ao socialismo”, têm feito recordar os primeiros anos do Bloco de Esquerda, podendo surgir outra semelhança quando, à imagem do que sucedeu há vinte anos com os bloquistas, parte da comunicação social revelar um carinho muito especial pela organização de Carlos Guimarães Pinto.

 

9. Visto com benevolência por toda a gente (excepto os fascistas), o Livre tem sido uma espécie de Belenenses ou Académica da esquerda, ou seja, a segunda preferência de muitas pessoas que, na hora da decisão, acabam sempre por apoiar um dos “grandes”. Desta vez, porém, nas eleições do tudo ou nada para o partido de Rui Tavares, a base de apoio predominantemente lisboeta do Livre chegou para atingir o “sem-precedente”. O desafio do Livre será conseguir assumir o seu papel de aliado natural do PS sem ser engolido pelos socialistas. Pelo seu percurso de vida, Joacine Katar Moreira apresenta-se como a representante de grupos populacionais cujas experiências e preocupações raramente são ouvidas pelas elites políticas. Dito de outra forma, se vivêssemos num país ideal, a descrição da historiadora como mulher, negra e imigrante seria supérflua, mas não o é. Quanto à gaguez de Joacine, as pessoas mais apressadas terão de ser pacientes, porque ela não vai ficar calada.

 

10. A entrada do Chega na Assembleia da República é a segunda morte do professor Freitas do Amaral. De facto, a actividade de Freitas no período entre 1974 e 1976 permitiu esvaziar a extrema-direita portuguesa e levou a maior parte desta a entrar nos partidos do sistema (PSD e CDS), sem abalar o consenso sobre o regime político. No entanto, a última década assistiu a uma vaga internacional de retorno do fascismo (sim, eu sei que se trata de uma simplificação, mas também não podemos cair no extremo de dizer que ninguém é fascista) e Portugal, apesar das cada vez mais distantes memórias da ditadura e da Revolução, não poderia ficar de fora. André Ventura viu a sua oportunidade e, em pouco tempo, conseguiu aproveitá-la. O que poderá o político apoiado pelo grupo Cofina acrescentar no Parlamento? Barulho.

 

 

Em resumo, tem sido isto

Imagens do meu passado que vêm à memória por ordem desordenada:

 

A minha sobrinha a tentar compreender o mundo louco a que veio parar. O livro da 4.ª classe de Tomás de Barros. O cão, o nosso grande inimigo. A resistência heróica antes da rendição incondicional. A prof. Bonifácio a repor os níveis de nicotina. As torres já derrubadas quando cheguei. Os passeios nocturnos sempre iguais pelas ruas de Alvor. Aquela vez em que cantei para combater um silêncio insuportável. As bolachas comidas no carro enquanto o Benfica jogava para a Liga Europa. A Mônica, o Cebolinha, o Cascão e a Magali. O beijo no cabelo. Soltar gases na casa de banho da Biblioteca Nacional. A vigília por Timor que serviu para acalmar a minha consciência. As minhas avós a ouvirem o terço na Rádio Renascença. O folheto dos Jeovás com um Jesus armado. Os meus pais a discutirem a melhor via para o socialismo. Eu a ser o único a não sorrir na fotografia. O sol, o frio, a chuva, o vento. Os movimentos sexy no autocarro. O nosso colega que se passou dos carretos na aula de História Moderna e que nunca mais vimos. A comunicação que só a Irene, a Inácia e a Raquel ouviram. O meu amigo a tornar-se insuportável quando teve a depressão. O suor dos exames do 12.º ano. O espantalho que me assustou. A minha irmã com um sorriso “from here to here”. Os Pink Floyd a tocar no Live 8. Os longos minutos sem clientes na loja. A falta de pessoal no SNS. As voltas na Boavista em dia de Benfica-Sporting. Os vómitos no hotel. Arrastar-me da escola até casa com o pé esquerdo torcido. O Estádio do Dragão visto de fora. A prima adolescente com mamas grandes. O meu cunhado com uma ideia disparatada que deu um grande livro. O dia de S. Valentim em que levei um tabefe. Os circuitos do turismo otário. Ler Os Maias em 10 dias. Acabar a tese na noite em que o Trump ganhou as eleições. O poema do meu avô que estupidamente não copiei. O prof. Manuel Sérgio, errático mas fascinante. Terminar a corrida com a parca alegria de não ficar em último. A Lina a ver-se livre da capa ainda antes de ouvir a nota nas provas de doutoramento. O sussurro de despedida. As mulheres sempre no poder. A mágoa de perder dezenas de borrachas durante as aulas. Ir aos Açores para ler revistas de BD dos anos 60 e 70. A Avenida de Berna a abarrotar de gente. O alívio de uma brisa durante a procissão. Duas sandes de pasta de frango com alface e tomate. A aula que dei sobre a Revolução Russa. Centenas de maçãs comidas no recreio. A Mafalda lida durante os furos. Anos e anos com medo da praxe, e afinal. Ajudar a descarregar garrafões de vinho. O tédio nos casamentos. Os colchões verdes no ginásio improvisado. O trânsito caótico de Benfica. A viagem com os futebolistas Hilário e Vicente. O fogo suficientemente longe da minha casa para ser apenas um espectáculo. O tipo que me roubou a máquina fotográfica. A inauguração da Biblioteca Municipal. O esparguete à bolonhesa na Expo 98. A quietude dos caniços dos Pombais. Eça de Queiroz no Big Brother. A Té a imitar a fala dos bebés. O gira-discos vindo de África que não me lembro de alguma vez ter sido usado. O papel demasiado pequeno para os meus rabiscos. O leite frio que detestei. Encontrar o Bibi no Diário da República. O chão da Hemeroteca a ranger. O toque no quartel da GNR. O recorde de frio batido na aldeia. A porta que ou estava aberta ou estava fechada. O sumo em copos de plástico. A espanhola desconhecida. Super-heroínas na televisão. A antiga sala de cinema do Bairro Alto. A minha tia a trocar-me o nome. As inúmeras sedes do PSD na Madeira. O concerto dos Onda Choc. O terreno pelado do Campo Diogo José Gomes. O meu sobrinho a querer ouvir o Zé Mário Branco.

 

 

Como consegui fazer tão pouca coisa em 34 anos? Bem, não foi fácil, mas tenho um talento especial.

Os novos

Nas próximas eleições legislativas, encaradas por quase toda a gente como mera rotina, uma das poucas incógnitas reside na expressão dos votos nos novos partidos de direita, que obtiveram em conjunto nas europeias pouco mais de 4%. A possibilidade de Chega, Aliança e Iniciativa Liberal elegerem representantes na Assembleia da República é deixada em aberto pelas sondagens, embora estas sejam sempre duvidosas no que respeita aos partidos com menos votos. Tendo em conta a dificuldade histórica de afirmação à direita de projectos partidários alternativos a PSD e CDS, a entrada em S. Bento de personalidades ligadas a outras formações representaria uma originalidade encarada com interesse por vários sectores dessa área política, há muito desiludidos com Rui Rio e Assunção Cristas. No entanto, mantém-se incerta a capacidade de atracção de eleitorado pelos novos actores políticos, aqui analisados de forma breve.

 

Aliança: No início do ano, durante um debate na SIC entre José Gomes Ferreira e António Costa, o primeiro inquiriu o segundo sobre a possibilidade do PS estabelecer um acordo parlamentar com o partido de Pedro Santana Lopes caso os socialistas ficassem a escassa distância da maioria absoluta. Não me lembro do que Costa respondeu, mas fiquei logo com a sensação de que, na altura das eleições, um cenário desse tipo pareceria demencial. Foi a única vez que acertei numa previsão. De facto, não era bem isto que Santana Lopes esperava há um ano, quando avançou para a criação do seu há muito anunciado novo partido. As europeias correram mal, os resultados nas sondagens não descolam e, depois da cobertura exaustiva do primeiro congresso da Aliança, a comunicação social desinteressou-se do organismo, causando a birra santanista. Caso regresse ao Parlamento, Santana poderá apresentar o facto como uma vitória, mas dificilmente conseguirá subir em sufrágios futuros. O problema do partido está desde o início na contradição de se apresentar como uma força de mudança e anti-sistema liderada pelo político mais “do sistema” existente em Portugal (à excepção de Marques Mendes, claro). PSL tem demasiado passado e o estilo que já funcionava mal em 2004 não funciona de todo em 2019. Ideologicamente, a Aliança diz ser um pouco liberal, um pouco conservadora e um pouco eurocéptica, sempre sem exageros, pelo que se mantém ambígua e indefinida, uma espécie de PSD sem açúcar. Mais uma vez, Santana Lopes não desiste e recorda que é um “lutador”. O ex-primeiro-ministro até pode ganhar o combate, mas o problema é que já não há ninguém na plateia a assistir.

 

 

Chega: Para as pessoas menos atentas ao noticiário político, como Assunção Cristas, esclarece-se aqui que a coligação Basta acabou depois das europeias, quando Gonçalo da Câmara Pereira (PPM) e Sofia Afonso Ferreira (Democracia 21) se cansaram de ser figurantes no filme escrito, produzido, realizado e protagonizado por André Ventura, que agora se apresenta simplesmente como líder do Chega, partido que inclui nas suas listas alguns membros do PPV. Apesar do resultado de Maio ter ficado muito aquém das proclamações megalómanas de Ventura, é bom notar que os 1,5% do Basta constituíram um valor superior à tradição da extrema-direita lusa (até aqui representada apenas pelo PNR) e apoiado num número interessante de votos obtidos nos subúrbios de Lisboa. Caso estes se mantenham em 6 de Outubro, André poderá concretizar o seu sonho de discutir aos berros no Parlamento com as deputadas do Bloco de Esquerda. O Chega tem contra si o problema da total falta de consistência e credibilidade do pensamento venturista. No entanto, o partido dirige-se a um nicho de eleitorado outrora escondido no PSD e no CDS e que foi treinado durante muitos anos pelo grupo Cofina para assumir determinados comportamentos, entre eles a obsessão pelo crime, a degradação das boas maneiras e do vocabulário, o gosto pelo espectáculo inconsequente, a simplificação abusiva de todas as questões e o sentimento de tédio relativamente à política tradicional, cheia de coisas aborrecidas como negociar acordos, estudar problemas ou ouvir opiniões diferentes. Sempre acompanhado por jornalistas da CMTV e do i/Sol, André Ventura conta com o apoio da “bosta da bófia”, o termo técnico para designar a facção mais radical da PSP e da GNR, agrupada no Movimento Zero. Até às eleições, os cheguistas irão continuar a analisar diariamente a actualidade e seleccionar temas (ideologia de género, subvenções vitalícias, assassinatos cometidos por “monstros”, etc.) que permitam ao partido vociferar indignação sem conteúdo.

 

 

Iniciativa Liberal: A imagem actual da IL foi definida pelo seu segundo presidente, Carlos Guimarães Pinto, um dos autores dos cartazes irreverentes do partido que fazem lembrar os primeiros anos do Bloco de Esquerda, quer na originalidade quer na alegre inconsciência de quem se mantém ainda longe do poder. Mais do que a renovação do liberalismo português, a Iniciativa Liberal expressa a radicalização da direita ocorrida na última década e simbolizada por Zita Seabra, madrinha de uma tendência política amplamente representada na imprensa, nas redes sociais e na blogosfera, mas cuja base de apoio se revela exígua. De resto, transparece por vezes do discurso da IL a sensação de isolamento de quem se sente uma ilha no mar socialista e procura atrair os portugueses “talentosos” impedidos de se afirmar por cá devido aos impostos cobrados às empresas, deixando de lado a maioria menos talentosa da população. Sem o habitual choradinho dos partidos pequenos acerca da falta de carinho mediático, a Iniciativa começa a chamar a atenção através da sua propaganda, mas é ainda cedo para avaliar o potencial de expansão dos liberais, naturalmente reforçado em caso de entrada na arena parlamentar.

 

 

As sondagens

Tornou-se comum desvalorizar a capacidade das sondagens de antecipar resultados eleitorais depois de várias surpresas ocorridas pelo mundo fora, como os triunfos do Brexit e de Donald Trump em 2016. No caso português, importa ter em conta a experiência dos últimos cinco anos, de acordo com a qual os estudos de opinião costumam acertar no vencedor das eleições e na distância deste para o segundo classificado, ao mesmo tempo que se revelam mais falíveis a partir do terceiro lugar. Durante a campanha para as últimas eleições europeias, as sondagens detectaram a inversão de tendência a favor do PS, mas tiveram problemas ao antever a ordem pela qual BE, CDU e CDS se posicionariam na classificação final. A avaliação dos pequenos partidos é ainda mais incerta, com o PAN a costumar driblar as estimativas das intenções de voto. Apesar destas fragilidades, os partidos que negam ardentemente a relevância das sondagens são aqueles que as levam mais a sério.

Ao longo do mês de Julho, as pesquisas coordenadas por empresas de sondagens e, no caso dos estudos divulgados na SIC e no Expresso, por investigadores do ICS e ISCTE, apresentaram várias diferenças numéricas, mas permitiram identificar tendências comuns. Assim, as pesquisas indicam a vitória do PS (a uma distância incerta da maioria absoluta), o pior resultado de sempre do PSD, o sólido terceiro lugar do BE, a estagnação ou decrescimento do eleitorado da CDU, a subida fulgurante do PAN e a derrocada do CDS, claramente ultrapassado pelos animalistas nos círculos de Lisboa e Porto. A semelhança entre estas estimativas e os resultados das ainda recentes europeias reforça a verosimilhança daquelas.

Como sempre acontece, além de descreverem a realidade, as sondagens influenciam-na. No último mês, o encurtamento da distância entre o PS e a maioria absoluta, julgada inalcançável ainda há pouco tempo, originou diversas reacções nos partidos, entre o entusiasmo cauteloso dos socialistas, receosos de que o mais pequeno erro seja fatal, a denúncia por BE e PCP dos malefícios das maiorias monopartidárias e o verdadeiro pânico à solta na direita. Vários tipos de eleitores estarão a decidir o seu sentido de voto a partir dos cenários descritos pelos estudos de opinião, que motivam alguns simpatizantes da Geringonça a votar nos partidos mais à esquerda para tentar evitar a hegemonia do PS, mas também fazem direitistas de coração pensar em votar no partido de António Costa com o objectivo de afastar bloquistas e comunistas da esfera do poder. O dilema de José Manuel Fernandes, aflito para descobrir quais serão o pior e o menos mau dos cenários pós-eleitorais, representa a angústia do seu sector político perante um contexto em que Costa parece ganhar sempre, seja qual for o resultado de 6 de Outubro.

 

 

As sondagens fazem várias vozes da direita soltar o mesmo grito de frustração que se ouvia há quatro anos do lado da esquerda: “mas este pessoal é burro, ou quê?”. Apesar de todos os casos e problemas que afectam o Governo, as intenções de voto nos socialistas mantêm-se elevadas, enquanto os partidos de direita parecem ter lepra. Na verdade, os estudos mostram também um número elevado e crescente de eleitores brancos/nulos, abstencionistas ou incapazes de se identificarem com qualquer partido. Em 2018, Assunção Cristas e Pedro Santana Lopes calcularam que a viragem ao centro do PSD conduzida por Rui Rio iria empurrar muitos eleitores para os braços da “verdadeira” direita. Contudo, a escolha de parte significativa da base de apoio da PAF (já de si inferior ao conjunto dos votantes em PSD e CDS nas legislativas de 2011), desiludida com as novas lideranças partidárias, terá sido a indiferença e a desmobilização. O crescimento da abstenção e do voto em nenhum partido possui, no entanto, efeitos mais vastos. A pouco e pouco, as eleições passam a contar apenas com a participação dos portugueses mais interessados na política e com uma identidade ideológica definida, enquanto o célebre “eleitorado do centro”, na verdade despolitizado e orientado na votação por factores conjunturais, deixa de flutuar e pousa num sítio tranquilo onde os políticos não o incomodem. As sondagens indicam, de resto, que à excepção do PS, do BE e, obviamente, do PAN, os partidos portugueses sentem grande dificuldade em conquistar novos eleitores e ficam limitados a um punhado de seguidores incondicionais. A desconfiança para com a política atinge tais proporções que, paradoxalmente, dificulta o aparecimento em Portugal do tal líder populista cujo possível sucesso é referido por tantos comentadores (alguns deles num tom de “porque é que ele demora tanto?”). Entretanto, a abstenção e o fenómeno PAN contribuem para uma maior fragmentação das escolhas dos eleitores, com as sondagens a atribuírem a PS e PSD uma invulgar percentagem conjunta de cerca de 60%. Em Lisboa, de acordo com um estudo surgido na TSF e no Jornal de Notícias, o PS alcança 35% das intenções de voto, enquanto o PSD não chega aos 10% e o restante divide-se em partes similares por todos os outros partidos.

A praticamente dois meses das eleições legislativas, as sondagens criam a tentação de começar a desenhar o quadro político do Outono. Os valores actuais dos inquéritos não devem ficar longe do resultado eleitoral, embora o CDS possa ainda recuperar e fugir do Uber, enquanto o PSD parece estar condenado a um desastre propício ao florescimento dos sectores mais radicais do partido. Porém, ao fim de quase dois anos de previsões acerca dos resultados das legislativas de 2019 e do Governo que sairá delas, e enquanto os líderes partidários não correm para as feiras de canetas em punho, o melhor é pensar “Depois logo se vê”. Como se diz na rádio, boas férias se for caso disso.

 

P.S. Porquê ilustrar um texto sobre sondagens com uma imagem de Lena d'Água no videoclip de "Dou-te um Doce"? Bem, estamos no Verão, não é?

O facho é o sistema

Zurzida em numerosas tribunas devido ao seu último artigo de opinião, vindo a lume no Público de 6 de Julho, a professora Maria de Fátima Bonifácio (MFB) encontrou um ambiente fraterno em O Diabo, o semanário fundado por Vera Lagoa e tradicional porta-voz da extrema-direita lusa. No número de 12 de Julho de O Diabo, o histórico antifascista Henrique Neto assina a crónica “A censura em marcha”, onde manifesta a sua concordância com o texto de MFB, à excepção das “sempre perigosas” generalizações por esta feitas, e condena as respostas ao artigo da historiadora divulgadas no Público, diário ao qual, segundo Neto, “as ideias e os ódios de estimação do Bloco de Esquerda” já parecem ter chegado. Outro colunista de O Diabo, Manuel Silveira da Cunha, também rejeita as “generalizações abusivas” de Bonifácio, cujo erro foi não ter apresentado as estatísticas comprovativas da abundância de indivíduos “iletrados”, “parasitas”, “traficantes”, “violentos” e “maus vizinhos” dentro da comunidade cigana (números que Cunha também não partilha com os leitores). Já na edição de 19 de Julho, para além das cartas de dois leitores de O Diabo que defendem Bonifácio e atacam os críticos da académica, a polémica é referida nos artigos do jovem nacionalista Manuel Rezende, para quem as considerações de MFB são “um manifesto de senso comum” atacado pelos “fanáticos da liberdade e da tolerância”, e do professor Isaías Afonso (membro do Conselho Nacional do CDS), furioso com a forma “infame” como os “nauseabundos” comentadores do programa da SIC Notícias O Eixo do Mal enxovalharam Bonifácio e esperançoso de que “Talvez um dia estes abutres da Democracia de Opereta sejam abatidos e lançados na cloaca a que pertencem” (sic).

Apesar de toda a discussão originada pela crónica de MFB, a antiga professora da FCSH-UNL mantém-se em total silêncio, sem defesas nem actos de contrição. No entanto, sabe-se agora que o dia 30 de Julho ficará marcado pelo lançamento de Fora da Circunstância, o novo livro de Maria de Fátima Bonifácio, editado pela Dom Quixote e que reúne 32 crónicas escritas pela autora entre 1990 e a actualidade. Se MFB tivesse criticado as quotas raciais sem mencionar as características inatas por ela observadas nos povos alheios à “Cristandade”, quantas pessoas reparariam na nova obra de Bonifácio? Provavelmente, muito poucas. Contudo, depois do nome de MFB ter chegado nas últimas três semanas a muita gente que nunca leu os livros da historiadora sobre a época de Saldanha e Costa Cabral, tudo é diferente, até porque a Dom Quixote não resistiu a escrever na capa de Fora da Circunstância o adjectivo mágico “polémicos”, que tudo atrai e tudo desculpa. Os críticos de MFB foram, afinal, participantes involuntários num golpe publicitário bem urdido. Poder-se-ia objectar que o estatuto de heroína obtido por Fátima junto de algumas pessoas não compensa a etiqueta de racista que MFB terá de usar até ao fim da vida. Quem conhece a prof. Bonifácio, porém, sabe que ela nunca teve propriamente a popularidade de Marcelo Rebelo de Sousa, pelo que as perdas não serão muitas.

 

 

Esta polémica estival permite identificar um determinado padrão de reacções já verificado noutros momentos dos últimos dois anos, a propósito de eventos como a conferência que Jaime Nogueira Pinto não realizou na FCSH-UNL, a entrevista ao i através da qual André Ventura entrou na política, o convite para discursar na Web Summit feito e depois retirado a Marine Le Pen ou a ida de Mário Machado ao programa de Manuel Luís Goucha. Tudo começa quando um facho (ou facha) fala ou é convidado para falar num espaço físico ou mediático onde o discurso de extrema-direita raramente é ouvido, atingindo assim um público vasto, cujos membros reagem maioritariamente com surpresa, repulsa instintiva e, por fim, indignação expressa nas redes sociais. As “redes sociais” aqui referidas não incluem necessariamente o cidadão comum que publica sobretudo fotos tiradas na praia ou no restaurante e rodeadas de hashtags, mas sim as páginas de políticos, jornalistas, comentadores, historiadores e outros indivíduos capazes de aceder aos media tradicionais, nos quais a ira contra o facho se converte em tema noticioso. O pessoal mais exaltado pede, habitualmente sem consequências, a acção das autoridades para punir o facho e quem lhe deu um palco.

Surge então a grande onda de indignação contra a indignação. Alguns liberais bem intencionados vêm defender que a tentativa de censurar o facho está errada, pois só ouvindo o facho poderemos desmontar os seus argumentos e mostrar que as suas ideias ofensivas não dispõem de uma base social de apoio. Contudo, já se ouve, bem mais alto, o vozear daqueles para quem o facho (que, no essencial, está cheio de razão, apenas não usa as palavras certas) se torna um pretexto para atacar o ímpeto censório do “politicamente correcto” e o objectivo deste de dividir e oprimir a sociedade. No Observador, Alberto Gonçalves denuncia que, ao contrário do facho, a esquerda é perigosa, ama a tirania e despreza a liberdade, enquanto os outros colunistas escrevem o mesmo num estilo menos arrogante. Entretanto, os amigos do facho glorificam-no e aproveitam para insultar e ameaçar aqueles que não gostam do facho. No meio de tudo isto, o que faz o facho? Sorri, pois o seu nome e as suas palavras estão em toda a parte, como pretendia. O ruído amaina ao fim de alguns dias, mas já ninguém conseguirá tirar o facho da arena política.

Este jogo perverso no qual a extrema-direita beneficia inesperadamente do combate que lhe é movido deixa claro que os fascistas não são vítimas do sistema, eles fazem parte do sistema, seja através de intelectuais prestigiadas como a prof. Bonifácio ou de estrelas da televisão como André Ventura. Recorrendo às designações utilizadas por Jaime Nogueira Pinto no livro Bárbaros e Iluminados (3.ª edição, 2019), há muito que os bárbaros transpuseram as muralhas, entraram nos palácios dos iluminados (N.º 10, Casa Branca, etc.), sujaram os sofás, puseram os pés em cima das mesas e mandaram calar os politicamente correctos que criticaram a imundície. A grande questão é saber como fazê-los sair e arrumar a casa depois da barafunda.