Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Desumidificador

Desumidificador

Ser católico

Os meus avós eram católicos fervorosos, embora seja questionável se no meio e na época em que eles viviam alguém poderia pensar em ser outra coisa. Obviamente, transmitiram a sua crença aos filhos e, pouco depois de eu nascer, os meus pais levaram-me à velha igreja matriz de Odivelas para receber o baptismo e começar a assistir à missa ainda antes de perceber o que lá era dito. Frequentei a catequese durante nove anos, sob a orientação de uma jovem catequista que depois se converteu ao comunismo. Se alguém disser de repente “creio em um só Deus”, consigo prosseguir a oração graças à minha mãe, que escreveu o Credo em folhas que li sucessivamente até decorar o texto elaborado no século IV. Nos anos 90, a Igreja Católica já enfrentava organizações concorrentes, as quais, pelo que então ouvia, consistiam sobretudo em grupos de pessoas meio esquisitas (as Testemunhas de Jeová) ou ingénuos burlados por “pastores” com sotaque brasileiro. Nada de comparável, portanto, à placidez das missas celebradas na matriz ou na igreja do Mosteiro, onde a música oscilava entre cânticos sonolentos entoados por velhos e os acordes de guitarra dos coros de jovens. Depois do crisma, tive de responder à pergunta “que farei com esta cruz?” Entre familiares que “adormeceram na esperança da ressurreição”, outros que se viram livres da formação cristã recebida e passaram a zombar da Igreja e ainda outros para quem a religião foi sempre um fenómeno remoto, optei por manter o terço no meu quarto, mas sem um envolvimento para lá de uma missa de vez em quando. Já tinha compreendido que o baptismo, ao invés de facilitar, torna mais exigentes as nossas vidas e ser cristão a sério inclui a obrigação de (usando uma expressão horrenda) sair da nossa zona de conforto. Sem uma fé suficientemente resistente para um esforço desses, achei que não valia a pena fingir ser aquilo que não era, até porque seria impossível enganar um Deus que me conhecia tão bem. A minha dúvida sempre foi sobre a forma como a crença de que Jesus ressuscitou se traduz no nosso quotidiano depois da missa acabar.

 

O que significa ser católico em Portugal hoje em dia? À primeira vista, continuamos a gozar o conforto de ser uma vasta maioria herdeira de uma cultura milenar, mas, analisando os pormenores para lá da multidão que enchia o Santuário de Fátima (o catolicismo português por vezes parece resumir-se ao culto mariano) antes da pandemia, percebe-se que os católicos deixaram de jogar sempre em casa. Não é caso para achar, como Henrique Raposo, que um dia nos vão prender e atirar aos leões (ou seja, obrigar-nos a enfrentar sozinhos uma turba da Juve Leo) se nos ouvirem rezar um Pai-Nosso, mas o ambiente social e cultural laicizou-se bastante nas últimas décadas. No discurso mediático, o Natal e a Páscoa foram descristianizados, comercializados e transformados em festas da comida desprovidas de conteúdo espiritual. Ao perder o ascendente político que parecia eterno, inclusive durante os primeiros anos de democracia, a Igreja assistiu impotente à legalização do aborto, do casamento homossexual e, em breve, da eutanásia. O clero acompanha e regista cada vez menos o nascimento, casamento e morte dos portugueses, enquanto os fiéis envelhecem e os novos sacerdotes escasseiam. A presença de referências ao Cristianismo na produção cultural (música, televisão, literatura, etc.) tornou-se residual. O discurso de vitória de 2016 que Fernando Santos encerrou com aquele “seja tudo para glória do Seu nome” causou estranheza pela raridade de uma manifestação sincera de fé no espaço público. A pouco e pouco, os católicos estão a transformar-se nas pessoas meio esquisitas, olhadas não propriamente com hostilidade, mas com uma certa estranheza. Assustados, alguns clérigos e leigos sentem que os bárbaros estão a chegar à cidade e refugiam-se atrás das muralhas, maldizendo o “politicamente correcto”.

 

 

E, no entanto, nada disto é necessariamente mau. Sobretudo desde que há oito anos o Papa Francisco pegou no balde e na esfregona para iniciar a necessária limpeza da casa de Deus, sabemos que a Igreja não precisa de se fechar em si própria, mas de contactar com o mundo real e mostrar a face do perdão e da tolerância. Sem o amparo do poder nem a capacidade de impor a sua visão do mundo à sociedade, o catolicismo tem de apostar no exemplo e na persuasão, não deixando de olhar para si mesmo e enfrentar aquilo que antes era varrido para baixo do tapete. Apesar de não serem uma solução mágica, o fim do celibato dos padres e a ordenação de mulheres poderiam reforçar a atractividade da carreira religiosa. Convencer as pessoas a serem católicas actuando num mercado livre, e já não numa situação de monopólio, será certamente mais difícil, mas também mais estimulante. A grande força da religião cristã reside na ideia de que as portas da Igreja estão sempre abertas para receber qualquer pessoa que se arrependa dos seus pecados e deseje encontrar a paz. Valorizar devidamente esta característica do nosso produto é o melhor truque publicitário.

Como ser um herói

Forme uma opinião: Antes de começar, é necessário um estudo cuidadoso que analise quem já está no terreno e as tendências em ascensão e declínio. Muita gente pensa erradamente que para alcançar o heroísmo basta pegar no discurso dos políticos que estão no poder e dizer o contrário. Isso é fundamental, mas deve ter cuidado para não integrar uma minoria muito minoritária. Ninguém lhe vai dar atenção se parecer um excêntrico que gosta de coisas que mais ninguém conhece. Por esse motivo, há que identificar desde logo um nicho de mercado cujas necessidades de opinião você possa satisfazer. Inicialmente, será você a adaptar-se às ideias deles, mas em breve o nicho começará a dançar a música que você toca.

 

Escolha um inimigo: Não há filme de super-heróis sem vilões, de preferência daqueles que podem voltar numa futura sequela. Por isso, tem de definir desde logo uma ou várias entidades a cujo combate dedicará o resto da sua vida. Não, “esquerda” e “direita” são termos demasiado vagos e antiquados. Existe um vasto leque de opções de onde pode escolher: a bolha, a casta, as elites, o sistema, os políticos, os poderosos, os intelectuais, os parasitas, a oligarquia, os bem pensantes, os indignados do costume, o marxismo cultural, o politicamente correcto… Se puder, crie a sua própria categoria e use-a vezes sem conta. Deixe sempre claro que o seu inimigo é poderosíssimo e controla todo o país (a começar pelos media), submetendo a população a um pensamento único contra o qual apenas você e um pequeno grupo de resistentes erguem a chama da revolta. Escusado será dizer que nunca deve incomodar alguém que tenha realmente poder para fazer uns telefonemas e arruinar a sua vida. Uma coisa é parecer corajoso, outra é ser louco.

 

Encontre o estilo certo: Os super-heróis distinguem-se do resto da população por disporem de capacidades especiais e enfrentarem os bandidos que as pessoas comuns não podem ou não querem combater. Precisa de exibir frequentemente os seus poderes, dando a entender que é mais corajoso, inteligente e engraçado que os outros comentadores e diz “as verdades” ocultadas por estes. Mostre absoluta convicção em tudo o que afirma e evite ao máximo palavras como “mas”, “talvez” e “não sei”. Confie no seu instinto e não procure factos para justificar as suas opiniões. Utilize uma linguagem simples, reduza o vocabulário e não refira filmes, livros, canções ou outros produtos culturais se estes não forem mesmo muito conhecidos (nenhum leitor ou espectador gosta de sentir-se ignorante). A pouco e pouco, baixe o nível e seja rasteiro e desagradável com os seus adversários. Se eles protestarem, não tenha piedade e lance-lhes a mais horrenda acusação que se pode fazer a alguém no século XXI. Sim, acuse-os de serem movidos por uma ideologia, enquanto você se limita a constatar objectivamente a realidade única e incontestável.

 

 

Crie uma claque: Os heróis sazonais, como os polícias, os bombeiros ou os profissionais de saúde, são esquecidos logo que a criminalidade baixa, o Verão acaba ou uma epidemia é controlada. Não pode permitir que isso lhe aconteça. Para tal, necessita de um grupo organizado de adeptos (GOA) que lhe garanta apoio permanente. As redes sociais constituem um terreno ideal para fazer crescer a falange que vai ouvi-lo, partilhá-lo, visualizá-lo, fazer like em si, enfim, mantê-lo vivo na selva da opinião publicada. Identifique os temas preferidos do seu GOA e dedique-lhes atenção exclusiva. Diga mal dos portugueses, acusando-os de não pensarem como você e os seus adeptos e, portanto, serem passivos e ignorantes. Assim, vai elevar a auto-estima dos filiados no seu GOA, que se sentirão uma excepção no meio da carneirada e agradecer-lhe-ão o elogio através da fidelidade. De vez em quando, conte episódios da sua vida (“Oh GOA, o que eu passei para cá chegar”) para reforçar a identificação dos leitores consigo. A dada altura, terá também alguns detractores que irão ao seu poiso virtual de propósito para insultá-lo e provocá-lo. Isso será um óptimo sinal, confirmando o crescimento da sua notoriedade e permitindo-lhe observar os membros do seu GOA (que queridos) a desancar os intrusos.

 

Queixe-se de censura: Mesmo quando você já aparecer ao mesmo tempo na rádio, na imprensa, na televisão e nas redes sociais, insinue que alguém o quer calar por não gostar daquilo que diz. Ponha a correr o boato de que o local onde opina recebeu pressões “vindas de cima” para despedi-lo e substituí-lo por um lacaio do poder. Quando for criticado por adversários e eles cometerem o erro crasso de lamentar que alguém como você tenha uma tribuna pública, explore isso ao máximo, gritando que os seus oponentes acabam de assumir que querem a Inquisição, a guilhotina, o Gulag, o regresso da PIDE e da censura (após dezenas de comparações com o Estado Novo, até parecerá que você esteve preso no Tarrafal). Com tanto ruído e indignação, eles vão pensar duas vezes antes de voltarem a abrir a boca, enquanto você, que está obviamente do lado da tolerância, goza de plena liberdade para lhes dirigir os mais pesados insultos. A verdade, a justiça e o modo de vida português venceram.

 

Poder, sim ou não?: Estar sempre na oposição tem as suas vantagens. Desde logo, não existe o risco das suas propostas serem levadas à prática e revelarem-se um desastre. Se as coisas correm mal, a culpa nunca é sua, enquanto se correm bem pode dizer que foi uma tremenda sorte e mudar de assunto. No entanto, às vezes a sua minoria transforma-se em maioria e você é obrigado a defender quem está no poleiro. Contudo, na prática pouca coisa muda. Afinal, as pessoas que você atacava continuam a existir e mantêm o seu controlo total sobre os bancos, os jornais, as igrejas, as pastelarias e os ranchos folclóricos. Portanto, a culpa continua a ser dessas forças de bloqueio que impedem os governantes de trabalhar. Cada problema que surge é uma oportunidade de vitimização. Quando houver manifestações contra a sua tribo, você terá o prazer de ficar em casa a criticar e ridicularizar quem estiver na rua e receberá o aplauso da minoria silenciosa. Não há como perder.

 

Há muito, muito tempo, os comentadores eram poucos e limitavam-se a trocar opiniões de forma mais ou menos civilizada. Hoje em dia, qualquer pessoa, por mais frases absurdas que diga (ou precisamente por causa delas), pode ter imensos seguidores e ser venerado por estes como um herói da vida real. Aproveite enquanto dura, pois há cada vez mais gente a seguir este roteiro e o heroísmo começa a banalizar-se. Lembre-se de uma frase do filme The Incredibles: “Quando todos forem super-heróis, ninguém será”.

Inquérito de Inverno

Qual é o teu maior talento? Memorizar informação inútil.

Quem escolheu Monty Python e o Cálice Sagrado como filme da sua vida naquele programa da RTP2? Ana Bola.

Pois… Qual é o teu melhor defeito? Falta de jeito para mentir.

E a pior qualidade? Disponibilidade para fazer cedências.

Se precisasses de usar um pseudónimo, qual escolherias? Mário Rodrigues.

Qual é a personagem de ficção mais parecida contigo? O Pato Donald.

A tua viagem de sonho? Voltar ao Porto.

Explicação mais disparatada para os votos no Ventura? O politicamente correcto.

Momento mais embaraçoso do António Costa? A comissão de honra do Vieira.

O que existe hoje em muito maior número que antigamente? Heróis da liberdade de expressão.

Se tivesses um gato, que nome lhe darias? Se fosse um macho, Robson. Se fosse uma fêmea, Dinamene.

O que gastaste demasiado tempo a fazer? Ver telenovelas.

O que gastaste tempo a menos a fazer? Escrever.

Expressão mais abominável do politiquês? “É preciso ter em conta a percepção instalada”.

O que deveríamos fazer com a percepção? Despejar dejectos sólidos sobre ela.

Porque são necessários historiadores no século XXI? Hoje em dia parece que tudo começou ontem e vai acabar amanhã.

As pessoas mudam com o passar do tempo? Nem por isso, por volta dos 6 anos o essencial da personalidade já está definido.

Uma coisa antiga que hoje parece melhor do que realmente era? Os clubes de vídeo.

O melhor título que já apareceu na CMTV? “Mulher de Macaco ataca de novo”.

Tema da actualidade sobre o qual não sabes nada? TAP.

Parte preferida da missa? “Fazei isto em memória de Mim”.

O que pode mudar tudo de repente? Um sorriso.

A comida de que nunca te fartas? O frango assado da loja do meu pai.

Gostavas de viver no campo? Não, penso que não faz sentido para quem não mexe na terra.

O melhor aspecto de viver na cidade? Anonimato.

Um familiar que gostarias de ter conhecido? O meu avô Zé.

Coisa mais assustadora que viste na televisão? O prof. João Paulo Oliveira e Costa a garantir que o processo E-Toupeira era uma conspiração das elites de Lisboa e Porto contra o Benfica.

 

 

Não se ama alguém que não ouve a mesma canção? Porque não?

“Ter uma irmã, uma companhia”? “Alguém como eu e tão diferente”.

Um medo? Entrar no filme errado.

Pessoa de direita intelectualmente brilhante? Paulo Portas.

Pessoa de esquerda intelectualmente medíocre? Alfredo Barroso.

Tens alguma coisa pequena que deveria ser maior? O currículo.

Tens alguma coisa grande que deveria ser mais pequena? A barriga.

Do que gostas mais nos teus sobrinhos? Cada vez que os encontro, é como se fosse a primeira vez.

Erro de ortografia mais irritante? “Despois”.

O futuro será melhor? Não vale a pena tentar prevê-lo.

Melhor canção sobre o canibalismo?Pela Fome Comidos”, de Fausto.

Acordo Ortográfico: contra ou a favor? Desde que me deixem escrever da única maneira que conheço…

Material da escola que ainda hoje te causa arrepios? Colchões verdes.

Sequela que ainda está por fazer? O volume 3 do C.A.O.S.

Um tema de estudo fascinante? O poder.

Algo de indispensável, mas sem exageros? O silêncio.

Um twist bem construído? Os Suspeitos do Costume.

Um bom programa de rádio sobre História? E o Resto É História.

Um mau programa de rádio sobre História? Histórias da História.

A grande virtude do PCP? Faz política e não tem vergonha disso.

O grande erro da Iniciativa Liberal? Demasiado enfoque na economia.

Quando fala um português… Diz logo que os portugueses são isto ou aquilo.

Frase que estás sempre a dizer? “Deve haver um meio-termo”.

Uma dúvida por esclarecer? Como é que os Soldados da Fortuna disparam centenas de balas e nunca matam ninguém?

 

Ainda há tempo?

Já resumi aqui os primeiros 41 anos de história do CDS. Depois disso, Paulo Portas concentrou-se em tornar-se rico e fazer política na TVI, deixando o caminho livre para a sua discípula Assunção Cristas (“Boss AC”), escolhida como solução de consenso dentro do partido. Cristas criou progressivamente uma marca própria, ao apostar na omnipresença mediática, e procurou combater a imagem de satélite do PSD que se colara ao CDS, distanciando-se dos “laranjas” à medida que Passos Coelho se desgastava. O vice-presidente centrista, Adolfo Mesquita Nunes, começou a destacar-se pela sua inteligência, moderação e habilidade política. Nas autárquicas de 2017, Cristas surpreendeu ao alcançar o segundo lugar em Lisboa, embora o resultado nacional do CDS tenha sido exíguo. As hostes da bola ao centro viveram um período de ilusório entusiasmo, semelhante ao que a extrema-esquerda conhecera em 1976 ao ver Otelo Saraiva de Carvalho penetrar no eleitorado do PCP e alcançar o segundo lugar nas presidenciais. A viragem ao centro do PSD de Rui Rio desviaria teoricamente muitos eleitores para a verdadeira direita, que a “futura primeira-ministra” Assunção tentou encarnar em ruidosos despiques nos debates quinzenais com António Costa. Com o passar do tempo, as sondagens desmentiram essa esperança. Mesquita Nunes abandonou a direcção do CDS para administrar a Galp e o seu partido entrou num desnorte cada vez maior. O estilo da direita miguelista de Nuno Melo levou a um mau resultado nas europeias, pelo que Assunção Cristas tentou corrigir o rumo e marcelizar a sua imagem, com uma aproximação ao cidadão comum baseada mais na emoção que na ideologia, visível na exibição da família de “Boss AC” nas redes sociais e no inesquecível livro Confiança. No entanto, nada resultou e, durante a campanha para as legislativas, enquanto Rio desabrochava, Cristas mergulhava cada dia mais no desespero. Votos na urna, CDS com apenas cinco deputados, Assunção demissionária, Chega e Iniciativa Liberal a ocuparem terras no antigo latifúndio azulado.

Depois de um período de receio generalizado em ocupar aquele que passara a ser um dos piores empregos do mundo (presidente do CDS), acabaram por surgir seis candidatos, que se reduziriam a apenas dois durante o congresso de Janeiro de 2020. De um lado, um ex-presidente do Belenenses, João Almeida, aceitava sem grande convicção a tarefa de representar o legado da direcção de Assunção Cristas. Do outro, o antigo dirigente do Sporting Francisco Rodrigues dos Santos, conhecido nos bastidores da política por “Chicão”. Nos três anos anteriores, Francisco destacara-se como líder da Juventude Popular e, em Janeiro de 2018, fora considerado pela revista Forbes um dos jovens mais influentes e promissores da Europa. Rodrigues dos Santos ficara conhecido por recrutar novos apoiantes do CDS em regiões improváveis como o Alentejo, mas também pelo tom dos posts que escrevia no Facebook, bem mais radicais que a linha pragmática de Cristas. Os trabalhos do congresso de Aveiro revelaram uma situação semelhante à de 1992: depois de um péssimo resultado eleitoral, os militantes de base do CDS rompiam com os barões, considerados responsáveis pela derrocada, e entregavam a um jovem de discurso inflamado a tarefa de refundar o partido. O próprio Rodrigues dos Santos dava força à analogia ao apadrinhar o regresso de Manuel Monteiro ao seu antigo lar. Os comentadores políticos ficaram na expectativa quanto ao futuro do Centro Democrático Social, que enfrentava com uma direcção renovada a ameaça dos novos partidos.

Depois do congresso, passou-se um ano e, no meio da pandemia, “Chicão” transformou-se em Chicão. Ninguém consegue designar o líder do CDS de outra maneira. A humilhação a que o chef Ljubomir Stanisic, um modelo do Homem Novo que a direita portuguesa sonha criar, submeteu o “querido” presidente centrista nada teve de surpreendente. O momento em que Chicão apresentou uma queixa na ERC contra a empresa autora de uma sondagem que atribuiu ao CDS apenas 0,3% de intenções de voto (antes do partido subir este mês para uns estonteantes 0,8%) resumiu na perfeição o ridículo e a irrelevância em que a instituição fundada por Freitas do Amaral e Amaro da Costa caiu enquanto o Chega ascendia à glória. A estratégia delineada por Chicão para enfrentar André Ventura foi classificá-lo como um populista extremista que tem razão em tudo o que diz e promover uma radicalização do CDS que o transformou num “Chega para betos”, nas palavras de Henrique Raposo. Chicão proclama sem dúvidas que é impossível fazer acordos com o Chega, esse partido tão moderado a quem os democratas-cristãos vão ligar no dia seguinte às próximas eleições. Entretanto, o presidente centrista abriu múltiplos conflitos com o grupo parlamentar escolhido pela sua predecessora e transformou fracassos em êxitos retumbantes. As redes sociais do partido e do seu líder, apontadas como uma prioridade no discurso de vitória de Chicão em Aveiro, revelam uma pobreza franciscana.

 

 

Em abono da verdade, o trabalho de Chicão nunca seria fácil numa época em que o CDS parece ter perdido a sua função histórica. Entre 1975 e 2019, o Centro Democrático Social foi o partido mais à direita representado no Parlamento. Ao votar contra a Constituição de 1976, integrara no sistema os sectores avessos a qualquer tipo de socialismo, enquanto Freitas e Amaro impunham à extrema-direita a renúncia à violência anticomunista e a aceitação das regras democráticas. O CDS tornou-se uma federação de várias direitas que conviviam sob o domínio de um líder unificador, apresentando uma imagem de modernidade sem nunca ter a coragem de deitar fora as velharias com valor sentimental guardadas no sótão do Caldas. O partido era sobretudo o abrigo do velho Portugal conservador, ligado ao patronato agrícola e industrial, preocupado com as tradições e orientado por um catolicismo oficioso. Com Paulo Portas, foi aquilo que estivesse na moda em cada momento, como quando o actual combatente dos “populismos de esquerda e direita” experimentou o discurso anti-imigração e denunciou o “subsídio à preguiça” chamado RSI. Na actualidade, o que resta é apenas o CDS-PT (Partido da Tourada). Com a crescente laicização da sociedade, o conservadorismo nos costumes dá poucos votos, como o próprio André Ventura reconhece ao não insistir muito nesses temas. O cliché do partido dos ricos aproxima-se da realidade à medida que a já reduzida presença do CDS nos subúrbios se torna microscópica e o chicanismo não apresenta um discurso minimamente atractivo para a classe média baixa. Os liberais possuem agora um partido onde não têm de conviver com a malta de Deus, da Pátria e da Família. Os fascistas já não precisam de fingir que são democratas. Neste cenário, para que serve e quem representa o CDS?

O alarme parece ter finalmente soado no aparelho centrista e Adolfo Mesquita Nunes voltou do exílio para desafiar Chicão a enfrentá-lo num torneio. Não será fácil obrigar o jovem rei a sair do castelo, guardado por uma peonagem rude que gosta de dar um toque pessoal e rasteiro a todas as lutas. Contudo, no momento em que uma enorme Acácia se prepara para devorar a cenoura da direita, Adolfo é a única pessoa capaz de evitar que aquela loja de Arroios que compra “cds antigos” (sic) faça negócio. O problema é que, se Chicão tornou o CDS redundante em relação ao Chega, Adolfo teria dificuldade em distinguí-lo da Iniciativa Liberal. Basta lembrar a amizade de Mesquita Nunes com Carlos Guimarães Pinto, também fundador do Instituto Mais Liberdade, para perceber como seria confuso se IL e CDS pescassem nas mesmas águas. O produto CDS já está impregnado do fedor do fracasso (o melhor repelente para jornalistas) e a aposta numa nova campanha publicitária poderá não bastar para torná-lo competitivo. Será que é tarde demais para o Centro? Bem, se a solução encontrada for Nuno Melo, posso indicar já o endereço da loja.

Amem-me muito

O nome Marcelo Nuno Duarte Rebelo de Sousa substitui de forma eficaz qualquer tempo de antena. Afinal, a popularidade de Marcelo supera a de qualquer outro político português e, admitamos, é difícil não gostar de alguém que se leva tão pouco a sério e notoriamente se diverte à brava no exercício da chefia do Estado. Ideologicamente, Marcelo apenas repele os extremos. Pessoalmente, o Presidente sabe sempre dizer a palavra certa ao público certo. Fisicamente, o tronco nu de Marcelo Nuno dessacraliza o poder e faz o cidadão sentir-se mais próximo de quem o lidera. Mediaticamente, o antigo jornalista não faz política na televisão, mas sim televisão na política (há muito que tento sem sucesso fazer esta frase pegar). Politicamente, Rebelo de Sousa apresenta-se como aquele que tudo controla e tudo influi. Não há como fugir do olhar penetrante desta estátua colocada no centro do Largo da República, até porque, invulgarmente, a estátua fala e mexe-se imenso.  

É claro que Marcelo Rebelo de Sousa trabalha imenso para obter tanta admiração. Sobretudo, operando a máquina secreta que lhe permite detectar a qualquer hora aquilo que a maioria dos portugueses está a pensar. E se a maioria gosta de uma coisa, o Presidente tem de gostar também. É preciso seguir a moda, sob pena de cair no abismo horroroso da impopularidade. Claro que Marcelo sabe que há um tempo para tudo. Por exemplo, nos anos 90 ficava bem a um político católico condenar programas de televisão com sketches sobre Jesus Cristo, mas no século XXI já ninguém quer saber disso. O Presidente dispõe ainda de um quadro de cliques que identifica as notícias alvo de maior atenção, de modo a que Marcelo possa imediatamente mergulhar nelas como no mar de Cascais. Não há desastre, vedeta desportiva nem sem-abrigo supostamente herói que escapem ao radar de Belém. O supremo magistrado tem que entrar no filme, de preferência no timing certo. Às vezes (familygate, assassinato no SEF, encerramento das escolas, etc.), Marcelo distrai-se por um segundo e apanha o comboio já em movimento, mas quer logo ser o maquinista. Afinal, o público tem sempre razão e convém lisonjeá-lo de vez em quando. O estilo de Marcelo não se assemelha à berraria da “política CMTV” agora em expansão, aproximando-se mais da velha RTP de Júlio Isidro: programas ligeiros para toda a família, nem demasiado complexos nem demasiado estúpidos, com um apresentador afável que surge no ecrã como o tio de todos nós. Quem seria capaz de odiar isto?

 

Este comportamento marcado pelo desejo de agradar a todos nada tem de novo, pois Marcelo foi sempre assim, desde os tempos do PREC em que se afirmava um marxista não leninista. Nem sequer se trata de oportunismo, mas de uma maneira de estar na vida. O antigo (e actual) director do Expresso gosta de ser amado e só dá tanto afecto porque possui uma capacidade única de recebê-lo. Quem mais teria espaço no disco para tanto carinho recolhido ao longo de inúmeras sessões de autógrafos e milhares de milhões de selfies? Na verdade, Marcelo Rebelo de Sousa não nasceu para ser Francisco Martins Rodrigues, quer no sentido de propor rupturas violentas, quer no de defender ideias só aceites por uma pequena minoria, quer ainda naquele de andar pelas ruas de Lisboa sem nunca ser reconhecido.

Pelo seu perfil, idade e currículo, Marcelo Rebelo de Sousa é um dos últimos políticos da era da televisão generalista na área da direita. A geração dos blogues, que começou a ganhar destaque partidário na primeira década deste século, encontrou em Pedro Passos Coelho o político popular por ser impopular (“que se lixem as eleições”), autor de medidas de que muitos portugueses não gostavam por, coitados, serem um bocado burros, mas que um dia viriam a compreender. Mais recentemente, a geração das redes sociais, ligada ao Chega e à Iniciativa Liberal, descartou de vez a ideia de agradar a todo o eleitorado e construiu-se na base da avaliação da parte esquerda do espectro político como uma erva daninha que seria necessário arrancar. Claro que André Ventura, filho de Passos Coelho e Rui Ramos, ultrapassou todos os limites de forma propositada, renegando o espírito natalício marcelista para atrair todos aqueles que só querem ver o mundo arder. Este fim da lógica catch-all pode comprometer a prazo a capacidade da direita de descobrir novos Presidentes da República, uma vez que é difícil imaginar políticos como Passos e Paulo Portas a alcançarem mais de 50% numa eleição.

 

Fechistas e abristas

Ao longo de um ano de Covid-19, o debate nos media e nas redes sociais tem sido marcado pelo confronto entre duas tendências que agrupam números significativos de portugueses (não se incluem aqui os negacionistas). De um lado, está o partido Fechem Tudo, com os seus membros, os fechistas, defensores de fortes restrições à actividade quotidiana que facilitem o combate ao vírus. Do outro, os abristas, ligados ao partido Abram Tudo e favoráveis a um número reduzido de limitações aos comportamentos individuais. A relação de forças entre os dois partidos é influenciada, tal como tudo o resto, pelos números da pandemia. Quando a situação da Covid-19 se agrava, verifica-se uma hegemonia cultural do fechismo, mas qualquer descida da incidência da doença estimula o pensamento abrista. De facto, algumas pessoas oscilam entre um lado e outro de acordo com a conjuntura, até porque o AT e o FT são partidos heterogéneos que recrutam membros quer à esquerda quer à direita. Apesar das variações momentâneas, os discursos de ambas as facções possuem tiques relativamente estáveis.

Para os fechistas, o país é uma criança rebelde da qual eles são as mães. Quando sai à rua ou mesmo quando se limita a olhar pela janela, o fechista anota mentalmente todos os indivíduos que prevaricam e observa onde (não) está a polícia, cujos cassetetes deveriam estar a bater com força nas carnes dos criminosos desmascarados. A vigilância permanente e a troca de informações mantidas pela comunidade fechista permite-lhe criar uma base de dados com os nomes e moradas de todos os inimigos da saúde. Os fechistas gozam de uma vasta superioridade moral decorrente da preocupação e responsabilidade que exibem. Por isso mesmo, estão investidos da missão de vituperar os irresponsáveis que não levam a doença a sério e atacar os políticos que facilitam, não mostram pulso firme e ainda reclamam privilégios. Pessimista antropológico por excelência, o fechista tem como frase preferida “eu avisei” e como segunda frase preferida “depois não te queixes quando estiveres num caixão”. O cúmulo da ira ocorre quando um fechista fascista vê um grupo de comunistas, reunido num espaço aberto ou fechado. Nessas ocasiões, uma imparável torrente de ódio sai da boca ou do teclado do FF, ganhando uma força destruidora superior à da lava do Vesúvio.

 

 

Por seu turno, o abrismo considera-se a doutrina da coragem, aquela qualidade que os medricas aterrorizados pela propaganda fechista não possuem. O partido abrista tem uma acentuada consciência de classe, mostrando-se ao lado da plebe que sai de casa para trabalhar e desprezando os burgueses privilegiados que ficam deitados no sofá a ver a Netflix. Nos períodos em que dispõe de menos camaradas, o militante abrista reforça a consciência da sua superioridade intelectual perante os “carneiros” incapazes de desobedecerem à lógica dominante. Os abristas seleccionam cuidadosamente os especialistas que confirmam a sua crença, acusando todos os outros de estarem ao serviço do Estado ou de interesses obscuros, e lamentam frequentemente os mortos não-Covid, que estariam vivos se não fosse essa maldita obsessão com a doença da moda. Implacáveis com a DGS e o Governo, que não confiam nos portugueses e estão sempre a dar ordens absurdas e contraditórias, os abristas alertam permanentemente para a necessidade de mais debate. Afinal, as pessoas hoje em dia não são ignorantes e até consultam a Internet, pelo que, se 0,1% da população manifesta dúvidas sobre as medidas contra a pandemia, os restantes 99,9% devem esperar pacientemente até que uma discussão longa, franca e aberta revele quem tem razão ou abra pistas para um novo debate.

 

 

O fechismo e o abrismo estão ligados a duas ameaças vindas de trás que ganharam maior expressão com a pandemia, da qual pode resultar um Estado mais opressivo e controlador em nome do bem comum, mas também um individualismo exagerado que, em associação com a “morte da competência” e os especialistas em tudo brotados do solo do Google, criaria uma sociedade ingovernável. Deve haver um meio-termo, e para alcançá-lo é necessária mais humildade. Afinal, encontrar uma fórmula que combine os interesses da saúde e da economia é dificílimo e implica múltiplos erros e cedências. Quando se vai atrás de algo que não controlamos, neste caso o coronavírus, a única maneira de ser sempre coerente é ser um fanático. Podemos formar as nossas opiniões, mas, numa matéria em que os próprios especialistas divergem entre si, não faz sentido que os leigos apresentem soluções definitivas que as autoridades só não seguiriam por idiotice. Também é necessária alguma tolerância quanto às diferentes reacções e comportamentos individuais perante a ameaça da Covid-19. Entre o pânico descontrolado e a irresponsabilidade total, existem muitas variantes que podem coexistir sem discussões estéreis.

 

O que foi não volta a ser

50 coisas que vou ter dificuldade em explicar aos meus sobrinhos como eram (e eles não vão conseguir imaginar):

 

Cassetes VHS

Autocarros laranjas

Cartas escritas à mão

Delfins cheios de sucesso

Televisão com apenas dois canais

Telemóveis sem ligação à Internet

Mundo sem ligação à Internet

Enciclopédias em CD-ROM

Walkman

Pedro Santana Lopes

1 conto = 1000 escudos

DN Jovem

Olhares de inveja dirigidos a pessoas que contavam as suas férias passadas no estrangeiro

Críticos de livros, cinema, teatro, televisão, etc.

Jogos de futebol comentados por Gabriel Alves

Centro Democrático Social

A editora Dinossauro, de Francisco Martins Rodrigues

Aparecimento dos Gato Fedorento

Escritoras discípulas de Margarida Rebelo Pinto

Quiosques que vendiam jornais em papel

Programas de televisão sem “Cristina” no nome

Apoiantes de Cavaco Silva

Pessoas que iam a concertos para ouvir a música e não para filmá-los

Comícios políticos só com discursos e sem comida

Folhetos da CGTP

Uso da palavra “malta” no sentido de “jovens”

Gravações de almoços de Natal feitas em cassetes áudio

 

 

Mobilização nacional por Timor

Os Simpsons jovens e provocadores

CDs que vendiam dezenas de milhares de cópias

Fascistas escondidos nos partidos tradicionais

Livros em fascículos vendidos como brinde de um jornal

Opiniões estúpidas que não saíam do café ou do autocarro

Postais enviados durante as férias

Carlos Cruz pré-Casa Pia

Bispos indignados com programas de humor

Filmes que chegavam a Portugal meses depois da estreia nos EUA

Impossibilidade de fazer a emissão televisiva voltar para trás

Solitário do Windows e jogo da cobra

Slogans publicitários que toda a gente conhecia

Tardes de domingo com programas de Júlio Isidro

Chamadas intermináveis feitas em telefones fixos

Rádio Nova Antena

Homens que acabavam frases com a palavra “pá”

Autocolantes nos vidros traseiros dos automóveis

As dezenas de páginas dos “Classificados” do Correio da Manhã

Ideia de que a vida privada não deveria ser pública

Escolas sem uma única criança chamada Martim, Matilde ou Santiago

Fãs que escreviam a artistas através de cartas enviadas para agências

Blogues citados na imprensa

Tudo é disperso, nada é inteiro

(Para Márcio Candoso)

 

O ano político de 2020 assinalou o fim definitivo do tempo de Cavaco Silva, não apenas pelo facto de já ninguém, excepto algumas criaturas geradas no laboratório do professor, ligar àquilo que este diz e escreve, mas também pelo desaparecimento do cenário que acompanhou a história do cavaquismo. Longe vão os anos em que o então primeiro-ministro Cavaco governava como um déspota algarvio apoiado nas suas maiorias absolutas, tal como aqueles durante os quais o Presidente Aníbal apelava sem cessar a acordos de médio prazo entre o PS e o PSD, com o CDS a servir de assessor e os partidos mais à esquerda presos para lá do muro. Vivemos agora na época da fragmentação. Cada lugar na Assembleia da República pode ser decisivo.

Como é sabido, a soma das votações obtidas nas legislativas por PS e PSD desceu progressivamente entre os quase 80% dos anos 90 e os apenas 64,55% (o valor mais baixo desde 1985) das eleições de 6 de Outubro de 2019. A lenta erosão dos partidos do Bloco Central é explicável pelos muitos anos, governos, casos e processos, mas também podemos apontar a PS e PSD o erro de terem tomado a sua posição como garantida e falhado na atracção de novos públicos, enquanto o crescimento da abstenção afastou das urnas parte do eleitorado que costumava flutuar entre a rosa e a laranja. Actualmente, os socialistas não conseguem ultrapassar os 40% e o PSD enfrenta problemas estruturais que estão a transformá-lo num partido mais rural que urbano e mais do Norte que do resto do país. Os estudos académicos revelam, entretanto, que os eleitores portugueses são cada vez mais infiéis. Os casos de pessoas que votam sempre no mesmo partido têm vindo a rarear e, apesar do ruído feito nas redes sociais pelas franjas mais politizadas, o voto é crescentemente decidido em função das personalidades dos candidatos e do contexto em que decorre cada acto eleitoral, com a ideologia a ficar em segundo plano. Pelo meio, o êxito da Geringonça sabotou o “voto útil” e desmentiu a necessidade de maiorias absolutas para assegurar a estabilidade política. Neste momento, pela primeira vez desde a sua criação em 1976, ambas as Regiões Autónomas são geridas por governos sem maioria absoluta. No caso dos Açores, foi necessária uma aliança entre cinco partidos para permitir um executivo adaptado à inédita fragmentação da Assembleia Regional, num prenúncio do futuro.

Os “pequenos” partidos deveriam ser os principais beneficiários da transferência de votos outrora integrados nas vastas bases de apoio de PS e PSD, mas nenhum deles parece sentir-se confortável com o espaço de que dispõe no Parlamento. O Bloco de Esquerda bateu no tecto dos 10% e procura uma reorientação estratégica que o devolva à expansão, enquanto o PCP vive um longo declínio que o fragiliza, embora não ao ponto de o fazer desaparecer, como pode acontecer a um CDS sem rumo e desprovido da sua missão histórica. Depois das alegrias de 2019, o PAN enfrentou dissidências e novos limites à sua progressão, com a Covid-19 a retirar espaço político ao ambientalismo. Por seu turno, o Livre, agora sem representação parlamentar, tornou-se a Aliança da esquerda, ou seja, totalmente impotente e irrelevante. A Iniciativa Liberal está ainda a fazer o seu lento caminho no sentido da consolidação e o Chega, depois de uma invulgar subida vertiginosa nas intenções de voto, estabilizou no seu nicho. As sondagens revelam o agravamento da tendência de fragmentação da Assembleia da República, já que nem PS nem PSD registam subidas significativas e, entre o terceiro (Bloco/Chega) e o oitavo classificado (CDS ou IL) de cada inquérito, a diferença não costuma ultrapassar os 4%. O Parlamento torna-se assim uma soma de minifúndios pouco produtivos e limitados pelas fraquezas dos proprietários das diferentes parcelas.

 

 

Esta situação não seria necessariamente má, uma vez que traduz melhor a pluralidade social e ideológica do país, obriga o Governo a negociações permanentes que evitam derivas autoritárias e confere ao Parlamento uma importância no sistema que pode fornecer aos deputados uma revalorização do seu estatuto superior à trazida pela eventual criação de círculos uninominais. No entanto, já existem sinais de malefícios a curto prazo. Ao dirigirem-se a sectores cada vez mais restritos do eleitorado, os partidos tendem a radicalizar o discurso para mobilizar os seus poucos seguidores inabaláveis, levando a uma maior crispação. A retórica centra-se ainda mais naquelas frases bombásticas que dão bons vídeos para o You Tube mas não resolvem quaisquer problemas concretos. As forças com menos cadeiras, ao aperceberem-se do poder de bloqueio que o novo cenário lhes fornece, tornam-se mais exigentes perante os pedidos de apoio dos “grandes” e reclamam contrapartidas cada vez maiores. Os deputados focam-se apenas em causas muito específicas e, para satisfazê-las, os ministros recorrem à limianização, numa distribuição de cedências que permita a aprovação do Orçamento de Estado. Maiorias bizarras e voláteis criam obstáculos à acção governativa e impõem despesas inesperadas. O dono da coelha Acácia sabe que lhe basta meter o seu pauzinho para fazer a engrenagem parar e fica sentado à espera das oferendas dos outros líderes da direita. Em resumo, tudo se torna mais precário, instável e imprevisível, num equilíbrio sempre à beira da ruptura, e se esta acontecer as eleições seguintes criarão um quadro ainda mais confuso. É neste terreno de jogo que a política portuguesa se moverá nos próximos anos, com o Presidente da República, único elemento de consenso e apoiado numa votação esmagadora, a sofrer a tentação de intervir mais para acalmar a turbulência.

Há que dizer que a fragmentação está actualmente longe de ser um fenómeno exclusivo da política. Os produtos comerciais visam públicos cada vez mais específicos e, no cinema, na música ou na televisão, abundam projectos com amplo sucesso dos quais a maioria da população nunca ouviu sequer falar. A pandemia assumiu-se como a grande fragmentadora, ao fechar cada um de nós na sua casa, distinguir concelhos por níveis de risco e produzir efeitos económicos e sociais heterogéneos que agravam as desigualdades. Nunca estivemos tão divididos e repartidos por fatias. Curiosamente, a excepção é o futebol, no qual os jogos da selecção nacional são vistos em directo por todo o país e os três maiores clubes nunca perdem adeptos para as colectividades mais pequenas.

 

P.S. Ao fazer uma referência ao episódio do queijo Limiano, ocorrido em 2000, reparei que poucos portugueses nascidos depois de 1995 saberão do que estou a falar. É o mesmo que mencionar a UEDS e a ASDI numa conversa com a minha geração. Estamos a ficar velhos…

Os debates decisivos

Numa altura em que se aproximam os debates da campanha para as eleições presidenciais (bocejo), é inevitável imaginar outros confrontos verbais, nunca realizados até agora, que poderiam proporcionar momentos de verdadeira discussão acerca de temas relevantes. Nesse sentido, lanço algumas ideias para arrojados duelos a organizar no espaço público. Quanto a convencer as personalidades referidas a participar e arranjar-lhes tempo de antena na rádio, na televisão ou na Internet, isso já não é comigo.

 

Irene Flunser Pimentel Vs. José Rodrigues dos Santos: Se Pimentel não conhece os romances de Rodrigues dos Santos, também não há indícios de que este tenha lido as investigações historiográficas da autora de A História da PIDE. Assim, os dois partiriam do mesmo ponto para uma discussão sobre o Holocausto, com Irene a sintetizar a cronologia do genocídio, enquanto Zé apresentaria as novas informações por ele descobertas e que mais nenhum português conhece. Ambos passariam rapidamente a abordar o conjunto da história do século XX, usada como pano de fundo em várias ficções do jornalista. Se houvesse tempo, seria bom que Irene comentasse as definições da literatura e dos seus objectivos feitas por Zé nas entrevistas em que nenhum dos colegas deste verdadeiramente o questiona. No final do debate, mesmo que Pimentel denunciasse Rodrigues dos Santos como um charlatão, o criador das aventuras de Tomás de Noronha (esse sim, um historiador a sério sem as manias da elite) sairia do ar com um sorriso e uma piscadela de olho. Afinal, teria ganho mais publicidade aos seus livros e a ocasião de aparecer como uma vítima incompreendida.

 

Raquel Varela Vs. Henrique Raposo: A princípio, teríamos um clássico debate esquerda-direita, com Raposo a proclamar-se um homem de Deus, da Pátria e da Família, enquanto Varela exaltaria as classes, o trabalho, a Revolução. Com o correr do tempo, os debatentes aperceber-se-iam, surpreendidos, dos traços que possuem em comum. A repulsa instintiva por ecologistas, animalistas e esquerdistas “identitários”. O orgulho na coragem e independência que ambos mostram durante a pandemia enquanto os burgueses cobardes entram em pânico e aceitam todas as restrições. O desprezo pelas elites urbanas que não enfiam as mãos na terra. A noção de serem heróis da classe trabalhadora sempre à espera do reconhecimento desta. Se estivéssemos em condições normais, Raquel e Henrique dariam um forte abraço depois de tirarem os microfones.

 

 

 

Octávio Ribeiro Vs. Pedro Marques Lopes: O comentador portista é talvez a pessoa ideal para confrontar o poderoso director do Correio da Manhã e da CMTV, encarnação do estilo tablóide. Marques Lopes está fora do jornalismo, mas também perto dele, mantendo a crença na importância de media rigorosos para a qualidade da democracia, além de recordar como poucos os sucessivos atropelos à ética cometidos pelo canal e jornal de Ribeiro. Um diálogo entre os dois permitiria saber se as chefias do grupo Cofina imaginam guiar-se por uma dada filosofia ou têm plena consciência de serem mercenários capazes de tudo por dinheiro. Mais cedo ou mais tarde, chegaria o momento em que Octávio diria “Tudo isso é muito lindo, mas eu dou, perdão, nós damos ao público aquilo que ele quer”. Da resposta de Pedro dependeria o resultado da batalha pela alma da imprensa portuguesa.

 

Rui Tavares Vs. Padre Gonçalo Portocarrero de Almada: É sempre interessante ver um debate entre um sacerdote católico e um ateu interessado pela religião que analisa várias questões da Igreja a partir de fora. As diferenças entre Tavares e Almada vão, porém, muito além disso. O historiador possui influências libertárias, na origem de uma atitude de tolerância para com culturas diferentes e de não interferência do Estado nos comportamentos individuais. O partido que Rui fundou chama-se, precisamente, Livre e rege-se por uma descentralização do poder que confere aos militantes autonomia face à direcção (talvez até demais). Já o padre Gonçalo é conhecido como o porteiro da discoteca de Deus, mostrando-se um vigilante inflexível desprovido de piedade para com desvios das normas às quais o crente tem de obedecer sem protestar, além de ser um crítico mordaz do laicismo radical que intelectuais como Rui Tavares supostamente divulgam. Juntar na mesma sala dois homens com maneiras tão opostas de estar na vida só pode gerar uma estimulante controvérsia.

 

Direita dos salões Vs. Direita das tascas: Neste caso, a identidade das figuras convidadas poderia variar, assistindo-se ao confronto de duplas como Adolfo Mesquita Nunes e Chicão, Miguel Poiares Maduro e Miguel Pinto Luz ou Pedro Mexia e Rui Ramos. O importante seria esclarecer as razões da divisão entre as duas direitas, que ainda há pouco tempo pareciam unidas numa mesma luta. No entanto, observa-se agora uma perplexidade da “direita democrática” com a deriva no sentido do “extremismo” de uma vasta falange de políticos e colunistas descontentes com a ingenuidade dos “fofinhos” da “direita de que a esquerda gosta”. Seria útil comparar a linguagem utilizada por uns e outros, através do contraste entre os esforços de uma ala por manter a polidez e a subtileza típicas do gentleman conservador, enquanto a outra procura a todo o custo ser “popular” e falar da maneira de que os “portugueses comuns” gostam. Não haveria propriamente um vencedor, mas uma apresentação de caminhos diferentes para o futuro do “espaço não socialista”.

Livros de 2020

Aníbal Cavaco Silva, Uma Experiência de Social-Democracia Moderna (Porto Editora)

“Ai, Claudia Schiffer, quem me dera a mim rolar contigo num palheiro”.

 

Carlos Guimarães Pinto, A Força das Ideias: Histórias de uma Eleição (Alêtheia)

A doce infância da Iniciativa Liberal.

 

Douglas Murray, A Insanidade das Massas (Desassossego)

Aguentem aí os cavalos.

 

Eduardo Madeira, O Infame Dicionário Cómico de Língua Portuguesa (Contraponto)

Tão efémero, tão intemporal.

 

Fernando Dordio, Pedro Cruz e Mário Freitas, Mindex (Kingpin Books)

Quem controla a memória, controla o mundo.

 

Luís Louro, O Corvo: Inconsciência Tranquila (Ala dos Livros)

Cor e desenho espectaculares, mas falta alguma coisa.

 

Mário de Carvalho, Epítome de Pecados e Tentações (Porto Editora)

Mulheres no comando.

 

Raquel Sem Interesse, Vida de Adulta (Suma de Letras)

Um humor tão específico que se torna universal.

 

 

Riad Sattouf, O Árabe do Futuro 4 (Teorema)

Como entrar na adolescência numa família em desagregação.

 

Riccardo Marchi, A Nova Direita Anti-Sistema: O Caso do Chega (Almedina)

A biografia autorizada de um partido da velha direita.

 

Rui Cardoso Martins, Última Hora (Tinta-da-China)

Nunca se viu comédia tão triste.

 

Susana Romana, Macaquinhos no Sótão (Oficina do Livro)

Eu também gosto de comer, mas não assim tanto.