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Desumidificador

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O padre Gonçalo

Membro do Opus Dei, o padre Gonçalo Portocarrero de Almada é um colaborador habitual da imprensa, tendo publicado crónicas em jornais como o i, o Público e o Observador. Uma “selecção de textos sobre a Igreja e o mundo” escritos para este último deu origem a Observador Romano, volume agora editado pela Alêtheia. A mensagem da contracapa, parte essencial de qualquer livro (sobre este e outros temas, veja-se Mamas & Badanas, de João Pedro George), salienta que Almada é “um dos seus (do Observador) cronistas mais lido e partilhado”, ao ponto de “alguma vez, foram mais de mil os comentários” a um escrito do sacerdote, esclarecendo assim que, para Zita Seabra, a revisão de texto é um conceito ultrapassado. Destaca-se também a “indefectível fidelidade à Igreja e ao Papa” do autor, um aspecto aparentemente óbvio num padre católico, mas relevante no contexto actual. Na verdade, mesmo que Almada quisesse revoltar-se contra o Papa Francisco, não conseguiria, dado que “Não se pode ser bom católico sem ser fiel ao Santo Padre” (p. 114).

 

A divisão temática das crónicas de Gonçalo Portocarrero de Almada apresentada em Observador Romano mostra-se supérflua, devido à habitual combinação nos textos do clérigo de reacções à actualidade com a reafirmação da ortodoxia católica. Embora negue a existência de uma “Igreja progressista” oposta a “uma outra Igreja, supostamente conservadora” (p. 184), o padre Gonçalo elege como adversários, além da Maçonaria e do comunismo (“Um católico maçon é como um cristão comunista: uma contradição e um escândalo!”, p. 185), seguidores de Jesus como os “católicos líricos”, “alguns pastores”, os “defensores da espontaneidade pastoral sobre o direito” (p. 33) ou Frei Bento Domingues, a quem critica pela sua rejeição das orientações episcopais relativas à sexualidade dos recasados. É frequente na prosa de Almada a oposição entre a excepção e a regra, geralmente no sentido de afirmar que a primeira não anula a segunda. Se alguns crentes se afastam das regras de vida fixadas pela Igreja, o problema não está nestas, mas naqueles, cuja exclusão dos sacramentos se justifica, pois “é óbvio que não pode ser desresponsabilizado quem padece as consequências dos seus próprios actos” (p. 240).

 

 

Quando rejeita o desejo das pessoas de “uma religião à sua medida” (p. 239) e lembra a necessidade de coerência na fé abraçada, o padre Gonçalo aproxima-se do pensamento de outro sacerdote cristão, o pastor protestante Tiago Cavaco. Numa obra sobre Lutero, Cuidado com o Alemão, Cavaco condena a religiosidade actual (resumida na expressão “Deus na Barriga”), por si associada ao relativismo, à negação do conceito de pecado e à valorização constante dos sentimentos e da auto-estima. Em resumo, quer Almada quer Cavaco dizem aos seus rebanhos: “O caminho da salvação é este. Se quiserem vir por aqui, óptimo. Se não quiserem, estão lixados”. No caso do sacerdote obediente a Roma, a intransigência manifesta-se de igual forma no combate ao laicismo, “herança do terror revolucionário francês” (p. 196), e na rejeição de medidas políticas como a legalização do aborto, do casamento homossexual e da mudança de sexo. Almada utiliza um tom cáustico e quase agressivo, desmentindo a sua “imensa alegria de viver” mencionada na contracapa ao multiplicar as reacções de indignação e dar “indícios de uma mentalidade perigosamente autoritária e de uma exagerada suscetibilidade em relação a qualquer discurso que não exalte o seu estilo de vida” (p. 176). Ninguém pede a Gonçalo Portocarrero de Almada que abandone as suas crenças, mas o clérigo assemelha-se a um porteiro severo com a função de barrar a entrada na igreja a quem não for suficientemente puro.

 

O aspecto inquietante de Observador Romano está no facto de transmitir a ideia de uma Igreja Católica dominada pelo medo do presente, que a leva a erguer uma muralha para se proteger do mundo exterior. Com o seu discurso amigável e a sua capacidade de ceder no acessório sem pôr em causa o essencial, o Papa Francisco veio abrir as portas da muralha, causando o pânico de quem teme a entrada dos bárbaros enquanto fomentava a esperança dos leigos numa Igreja mais apta a perdoar que a condenar. Padre Gonçalo, não sou ninguém para falar destes assuntos, mas, de pecador para pecador, digo-lhe que a Igreja foi feita para os homens (e as mulheres) e não os homens para a Igreja.

 

P.S. Quando a secretária de Estado da Modernização Administrativa, Graça Fonseca, assumiu a sua homossexualidade, Gonçalo Portocarrero de Almada negou qualquer “coragem” ao acto (faria o mesmo aquando do coming out de Adolfo Mesquita Nunes) e pediu mais “decoro”, pois “não é suposto que um membro do governo faça confidências públicas sobre a sua orientação sexual, seja ela qual for” (p. 91). Imagino a fúria sentida por Almada sempre que a ex-ministra Assunção Cristas proclama aos quatro ventos a sua heterossexualidade e fala sem pudor acerca do marido e dos filhos.

A tempestade perfeita

Visionar peças televisivas acerca da actividade política quotidiana de Rui Rio e Assunção Cristas assemelha-se a brincar com o “jogo dos contrários” que ofereceram ao meu sobrinho nos anos. De um lado (à esquerda?), surge um homem profundamente desconfortável com a existência dos jornalistas e a necessidade de fazer e dizer coisas para alimentá-los. Do outro lado (à direita?), vemos uma mulher envolvida numa relação amorosa com os media só superada em ardor e intensidade pela do Presidente da República. Enquanto Rio não poupa nas críticas aos títulos e notícias dos jornais, tal como aos políticos/comentadores que o arrasam, Cristas dispõe de uma página inteira reservada para si no Correio da Manhã. As atitudes opostas dos líderes de PSD e CDS para com a comunicação social têm inevitáveis consequências políticas.

 

Bastou ler as crónicas de Rui Ramos, ideólogo do Observador, publicadas logo a seguir à eleição de Rui Rio para perceber que a expressão “má imprensa” era insuficiente. O novo presidente do PSD seria feito em picadinho. Para além do escrutínio a pente fino do passado do líder social-democrata e dos seus próximos, o jornalismo luso impulsionou com notável zelo a dinâmica de derrota de Rio. Mesmo que não existissem influências partidárias nas redacções, estas não deixariam de ver no portuense um adversário. Afinal, as chefias dos media nacionais são muito sensíveis (para dizer o mínimo) à crítica e qualquer reparo às opções editoriais merece uma resposta assente em três pontos: classificação da crítica como uma ofensiva contra a liberdade de imprensa, justificação das piores acções com os motivos mais nobres e ataque pessoal aos críticos. Neste cenário, o choque entre o meio mediático e alguém capaz da afronta de não dizer nada durante um mês era inevitável. O problema para Rio é que, sem uma presença digna de registo na Internet, não possui qualquer via de comunicação alternativa aos media tradicionais. Num cargo executivo como o de presidente da Câmara do Porto, Rui podia apresentar “obra feita” aos eleitores no fim de cada mandato, mas, na função de líder da oposição, se não aparecer todos os dias nos ecrãs, simplesmente não existe. A falta de sintonia com o tempo mediático, dominado na perfeição por Marcelo e cada vez melhor por Cristas, reduz muito as hipóteses do ex-autarca de impor a sua marca no mercado.

 

 

Obviamente, Rui Rio não é apenas uma pobre vítima indefesa da SIC e do PPC/PSD, destacando-se pela sua notável capacidade de tornar as coisas ainda piores. O político nortenho parece ter subestimado os adversários e sobrestimado a sua pessoa, ao iniciar a sua liderança com uma atitude do tipo “daqui a uma semana tenho-os a todos na minha mão”. Não teve, e com o passar do tempo vieram ao de cima a falta de paciência para opiniões alternativas e o impulso de transformar a determinação em birra já revelados por Rio na Invicta. Além dos factores pessoais, o problema de Rui têm um âmbito (como ele diria) estrutural. Um posicionamento de centro-direita semelhante ao de Pedro Marques Lopes, o único comentador político simpático para Rio, arrisca-se a não agradar a ninguém num quadro de bipolarização. Para a esquerda, o líder “laranja” enverga as vestes de brasa tentadora capaz de desviar António Costa da fidelidade conjugal devida aos seus parceiros. Por seu turno, a direita esbraceja ao ver Rio desrespeitar o mandamento sagrado do liberalismo (“Se uma coisa dá dinheiro, não pode ser má”) e faltar às sessões de culto a Joana Marques Vidal. Considerando Rio e Costa excrementos idênticos da besta vermelha, os criadores de novos partidos fomentam uma fragmentação possivelmente suicida da direita, enquanto os fracos resultados nas sondagens multiplicam a impaciência da oposição interna no PSD.

 

A única vantagem de Rui Rio está no timing, dado que, apesar do anúncio precoce de Pedro Duarte, a perspectiva de uma derrota do PSD nas legislativas de 2019, cujo efeito “queimaria” um eventual novo líder, dissuade motins no navio laranja. Rio ganha assim algum tempo para inverter a situação a seu favor. A habitual distância entre a opinião pública e a opinião publicada tornaria admissível imaginar uma reviravolta. No entanto, tudo o que Rio afirmou depois de regressar das férias, incluindo o tempo perdido na resposta aos apelos a “tréguas” feitos por Marques Mendes de espada na mão, fez a tensão atingir níveis insustentáveis. Sabendo-se que Rio não tem vontade nenhuma de se demitir, o conflito dentro do PSD pode escalar a curto prazo. Para quem está de fora, sobretudo para Costa e Cristas, assistir a este animado espectáculo é divertidíssimo, mas que consequência terá o enfraquecimento do PSD na evolução de um regime do qual constituiu um dos pilares?

 

P.S. Entretanto, quem quiser saber o que anda a Aliança a fazer deve consultar a página Portugueses com Pedro Santana Lopes. Este espaço virtual responde àqueles que acusaram o novo partido “personalista” de ser demasiado centrado na figura do seu fundador, dizendo-lhes: “Têm razão”.

 

 

 

Política na televisão

Os meios de divulgação da propaganda política têm evoluído ao longo dos anos. Por exemplo, os cartazes e autocolantes outrora afixados nos prédios foram substituídos por outdoors posicionados nas rotundas e cruzamentos, mas mesmo estes, apesar do empenho dos partidos de esquerda em preservar essa velha tradição, já se tornaram dispensáveis e sem quaisquer efeitos práticos. Na área dos media, embora a imprensa sirva para marcar a agenda política e transmitir recados no interior dos partidos, a perda de leitores reduziu muito a influência dos jornais. O futuro da comunicação política passa pela Internet, afirma toda a gente. Em Portugal, no entanto, os partidos estão longe de dispor de máquinas de criação e difusão de conteúdos semelhantes às da extrema-direita americana ou brasileira. A chacota em torno das fotografias publicadas por António Costa no Twitter e a crise na Iniciativa Liberal, causada pela origem da página de Facebook do novo partido, são casos reveladores da falta de à-vontade dos políticos lusos nas redes sociais. Estas funcionam sobretudo como material combustível onde alastram os “incêndios” ateados pelas notícias dos media tradicionais. Dentro destes, continua a ser na televisão que praticamente tudo se decide.

 

Um passo importante do cursus honorum de qualquer político português com ambições é a fase em que se torna comentador de um canal televisivo. Ao sentar-se num estúdio com um pivô e representantes de outros partidos, o político/comentador (P/C) dá a conhecer o seu rosto e voz aos eleitores e diferencia-se dos seus correligionários desprovidos de espaço mediático e, portanto, irrelevantes. Na televisão, o P/C vê a sua palavra ganhar um alcance e uma repercussão superiores àqueles que teria no Parlamento e goza de uma tribuna para defender o líder do seu partido, obtendo a gratidão deste, ou atacá-lo e lançar-se assim como futuro candidato à liderança. As audiências dos debates são menos importantes que o “nome” construído pelo homem público (ou, mais raramente, pela mulher pública) através da aparição no pequeno ecrã. O melhor é que, depois de atingir uma posição de destaque, o P/C não tem de deixar a televisão, já que pode perfeitamente fazer e comentar política ao mesmo tempo (veja-se o caso de Pedro Santana Lopes, líder da Aliança e comentador da SIC Notícias). Caso tenha chegado ao topo no seu partido e depois sido obrigado a sair, o P/C integra, se for hábil, a restrita elite dos “senadores”. Um P/C desta craveira tem direito a um programa de televisão só para si, com um jornalista a dar-lhe as deixas e outros jornalistas a assistirem ao programa para logo em seguida citarem na imprensa as palavras sábias do P/C. O trajecto perfeito de um P/C começa numa coluna de opinião num jornal e acaba na Presidência da República.

 

Para quem já atingiu uma posição cimeira como um cargo de poder ou uma liderança partidária, a caça ao voto é feita sobretudo nos telejornais. Nesta fase, importa aparecer. Aparecer muito, incessantemente, a propósito de tudo. Um dia sem microfones à sua frente é um dia em que o político de topo (PT) não existe. Se estiver na oposição, o PT pode dizer aos jornalistas que, apesar do Governo, está um dia lindo. Se estiver no Governo, o PT destacará o aumento do número de dias lindos verificado durante a sua gestão. Quando surge um tema comentável da actualidade, o PT tem de reagir imediatamente, mesmo sem saber bem do que se trata, sob pena de um PT rival se antecipar. Contudo, as palavras não bastam, são até a parte menos relevante. O fundamental é que o PT saia do gabinete para, acompanhado das câmaras, dirigir-se a um local onde estejam pessoas e com elas criar uma cena televisiva na qual seja o protagonista. O PT deve ouvir os populares e tocar neles, sorrir muito (ou chorar, quando for adequado), posar para fotografias, comer e beber tudo o que lhe ofereçam, dizer frases jocosas cujo duplo sentido remeta para a situação política e apostar no insólito, através de actividades como nadar, cantar, dançar, andar de bicicleta, limpar o chão, etc. Se o PT conseguir ainda falar sobre futebol, alcança a perfeição. Tudo isto, juntamente com as declarações sobre o tema do dia, faz nascer as peças televisivas através das quais a imagem do PT é construída junto da população, tornando-o uma marca capaz de dominar o mercado eleitoral.

 

 

E aqui chegamos às férias de Rui Rio. O presidente do PSD tem sido, de forma assumida, a excepção à regra, na medida em que, após chegar à liderança “laranja” sem uma passagem prévia pelo comentariado televisivo, entrou em confronto directo com os P/Cs do seu partido. As críticas de Rio à comunicação social, da qual os outros PTs procuram tornar-se amigos inseparáveis, e a notória falta de talento e vontade do ex-autarca para filmar cenas destinadas às novelas das oito, criam uma sensação de estranheza no ambiente mediático nacional. O facto de, durante Agosto, Rio ter estado mesmo de férias, sem produzir quaisquer declarações, motivou reacções de genuína estupefacção, enquanto a frenética Assunção Cristas dá generosa e infatigavelmente bons “bonecos” às televisões. Rui Rio faz política como se estivesse em 1988, ignorando o exemplo de Marcelo Rebelo de Sousa, o rei dos P/Cs e PTs do século XXI. Seja o estilo de Rio bom ou mau, não será fácil sobreviver politicamente quando se ganha fama de alienado.

António

Só nos cruzámos quando me autografaste a Exortação aos Crocodilos mas ao fim de todos estes anos é como se fosses um amigo, começaste por escrever romances autobiográficos onde os piores palavrões

— Quando é que eu me fodi?

conviviam com referências eruditas, aprendeste depois a criar personagens detrás das quais te podias esconder, nunca quiseste contar histórias, divertir os leitores ou passar uma mensagem, querias apenas e só mostrar a vida tal como ela é e de facto revelaste quão carentes e patéticos somos, todos cheios de medo da morte e da solidão, captaste uma maneira de ser portuguesa que os tradutores devem ter dificuldade em transmitir, ofereceste nos teus livros espelhos para nos mirarmos, fascinavam-te os pássaros, os subúrbios, os bibelôs incrivelmente feios, as pessoas chamadas Edgar ou Iolanda, os travestis do Conde Redondo, os pequenos nadas do quotidiano, o som de certas palavras, abóbora derivado madame falanges têmporas janelico sinalefas, trouxeste Nelas, Benfica e o Miguel Bombarda para o papel, nunca desenhaste um filho que tratasse os pais por tu, foste melancólico e satírico, misturaste o passado, o presente e o futuro até o tempo se tornar irrelevante, sofrias ao escrever e passavas esse sofrimento para nós, eu acabava cada romance exausto

— Nunca mais

e no ano seguinte lá estava outra vez contigo, mas na verdade nunca me separava da tua melhor personagem, aquela que criavas nas crónicas e entrevistas, ias além dos clichés e mostravas-te contraditório, reservado mas sempre a contar histórias da tua família, preso ao trabalho mas sem nunca te arrependeres, macambúzio mas de repente um sorriso de menino maroto, solitário mas ligado aos amigos, alheado do noticiário mas mordaz com os políticos, brutal na crítica como o Eduardo Madeira te apanhou

— Uma merda

mas sincero e terno no elogio, evitavas falar da guerra mas às vezes Angola vinha-te com toda a força ao corpo, muitos anos depois escreveste um livro para matar o

— Sinto nos vossos semblantes a alegria de irem servir a Pátria

embirraste com o Saramago sem perceberes que os dois se completavam, não te deram o Nobel mas também não saberias onde gastar o dinheiro, viste partir tantos dos teus, sobreviveste ao cancro porque precisavas de escrever mais dois ou três romances, depois mais dois ou três, mais outros dois ou três porque não consegues estar vivo sem escrever, sempre achaste que eras o maior escritor português

— Ninguém escreve como eu

enquanto nós percebíamos que

(raios te partam, António)

és mesmo.

 

 

 

 

 

Notas sobre a Aliança

1. Na nomenclatura partidária, o termo “Aliança” implica, tal como “Bloco” ou “Frente”, a união de facções distintas numa só organização. Deste modo, o partido de Santana Lopes parece nascer já dividido.

 

2. Sempre que Santana Lopes usou uma aliança no dedo, a coisa não durou muito. Por outro lado, será que a Aliança vai estar na mão de um partido maior com o qual se coligará?

 

3. O uso por partidos de nomes com apenas uma palavra, dispensando assim qualquer sigla, tornou-se comum noutros países europeus (Syriza, Podemos, Ciudadanos). Em Portugal, o exemplo anterior foi o do Livre, o que constitui um mau prenúncio para a Aliança. Se o partido de Rui Tavares ainda não encontrou o seu espaço político dentro da esquerda, a Aliança corre o risco de não saber onde se encaixar no campo da direita.

 

4. A expressão “Aliança” faz lembrar imediatamente a Aliança Democrática formada em 1979, reforçando o estatuto de Pedro Santana Lopes como autoproclamado filho político de Francisco Sá Carneiro. Além da AD, é possível recordar a Aliança Rebelde, inimiga do Império nos filmes de Star Wars, ou os próprios Aliados, a coligação militar internacional vitoriosa nas duas guerras mundiais. Pode vir daí a intenção santanista de contestar a ortodoxia europeia imposta pela Alemanha.

 

5. Pelo que a imprensa publicou, os princípios enunciados pela Aliança são ambíguos, como se o partido quisesse uma coisa e o seu contrário. Relativamente à ideia de criar um Senado, só seria viável se Santana Lopes pagasse as togas dos senadores, já que a maioria do eleitorado gostaria de reduzir o número de cargos políticos, não de aumentá-lo.

 

 

6. Durante os anos da troika, as movimentações partidárias ocorreram na esquerda, onde apareceram o Livre, o MAS, os dissidentes do BE como Ana Drago e Daniel Oliveira que depois se aliaram ao Livre na plataforma Tempo de Avançar, Joana Amaral Dias (rosto da coligação Agir, antes de se tornar uma freelancer da política) ou ainda Raquel Varela e outros trotskistas ligados à revista Rubra. No entanto, as legislativas de 2015 trouxeram o reforço dos partidos tradicionais, PS, PCP e BE, juntos pela primeira vez numa maioria governamental, e revelaram a insignificância numérica das novas forças e tendências. Agora que a agitação se verifica na direita, o destino eleitoral será o mesmo?

 

7. O PSD dividido em dois, já com três pré-candidatos (Pedro Duarte, Luís Montenegro e Miguel Pinto Luz) à sucessão do ainda líder Rui Rio. O CDS de Assunção Cristas a querer reforçar a sua identidade própria e distanciar-se o mais possível dos “laranjas”. Pedro Santana Lopes a formar uma Aliança comandada por si. A Iniciativa Liberal a surgir para romper com os “Donos Disto Tudo” e o movimento Democracia 21 a preparar a sua legalização como partido. A tendência para a fragmentação é cada vez maior na direita portuguesa, mas, no passado, foi quando esta se uniu, em projectos como a AD, o PSD hegemónico do cavaquismo ou a PAF, que alcançou a vitória nas urnas. O cenário de divisão em múltiplos partidos entre os quais não se encontram diferenças de maior, cada um deles a considerar-se a “verdadeira” direita e a acusar os líderes dos outros partidos de se terem rendido ao adversário esquerdista, assemelha-se ao panorama da extrema-esquerda durante a década de 70. Aliás, o paralelo é tão óbvio que surpreende que os liberais não se apercebam dele.

 

8. Algumas sondagens vindas a público atribuíram ao partido de Santana Lopes, então ainda sem nome, intenções de voto na ordem dos 4-5%. Mesmo no pior dos cenários, Santana conseguiria ser eleito deputado. Todavia, como Rui Tavares e Marinho e Pinto podem explicar, as sondagens são uma coisa e a realidade é outra. Entretanto, Miguel Sousa Tavares comparou a Aliança à candidatura de Mário Soares às presidenciais de 2006, no sentido de constituir um desastre anunciado que só o protagonista não consegue prever. Veremos o que acontecerá daqui a um ano. Certo é que Santana Lopes dispõe pelo menos do nome, dos contactos e da experiência, enquanto a IL e a D21 partem do zero.

 

9. As novidades à direita levantam a hipótese do mapa partidário português não ser tão imutável como parecia, além de contrariarem o descrédito sofrido actualmente pelo próprio conceito de partido político. Tanta movimentação não seria, no entanto, possível sem a Internet e a utilização das redes sociais como veículo de propaganda e instrumento de mobilização de apoiantes. Santana Lopes já admitiu, de resto, que a Aliança servir-se-á das plataformas digitais para ultrapassar a ausência de militantes em número suficiente para preencher uma estrutura partidária clássica de concelhias e distritais. Resta saber se a presença no ciberespaço será suficiente para atrair o eleitorado sem recorrer a outros meios de campanha, nomeadamente a televisão.

 

10. Há duas semanas, escrevi que o problema de Pedro Santana Lopes era a sua forma egocêntrica e personalizada de fazer política. Em declarações ao Expresso, Santana afirmou que podem acusá-lo de tudo, menos de não saber como se faz política. Será que Lopes encontrou o meu post no Google? Impossível confirmá-lo, mas, pelo sim pelo não, fica aqui uma mensagem: boa sorte, Pedro!

 

 

 

 

 

 

O dilema dos antifascistas

Depois da festa no Panteão Nacional, verificou-se mais uma manifestação da dificuldade da cultura irlandesa em compreender os costumes portugueses quando Paddy Cosgrave convidou Marine Le Pen para discursar na próxima Web Summit e, depois de uma vaga de críticas nas redes sociais, acabou por desconvidá-la. Além da rejeição pela esquerda da presença da política de extrema-direita francesa no evento, ouviu-se, previsivelmente, um coro de vozes rejeitando a rejeição, apontada como um sinal de intolerância. Tratar-se-ia também de uma atitude hipócrita, já que a extrema-esquerda possui plena liberdade de expressão, apesar do seu discurso semelhante ao dos fascistas. De facto, como ignorar os apelos ao ódio, ao racismo, à violência e ao autoritarismo feitos todas as semanas na comunicação social pelo conselheiro de Estado Francisco Louçã? Argumentos mais sérios podem, no entanto, ser mencionados a propósito da questão de permitir ou não o acesso da extrema-direita ao espaço público.

 

A superioridade moral da democracia passa pela liberdade que concede a todos os cidadãos, mesmo aos seus adversários, de gozar dos direitos garantidos pela lei. Este princípio terá estado na origem da benevolência da democracia portuguesa para com os antigos apoiantes da ditadura derrubada em 25 de Abril de 1974. Depois do PREC, aspectos do sistema de justiça política como os saneamentos, a prisão dos “pides” ou o exílio de políticos e empresários ligados ao Estado Novo foram sendo esvaziados, à medida que os “excessos” revolucionários eram corrigidos pelos militares vencedores do 25 de Novembro. Fascistas e antifascistas podiam cruzar-se na rua sem incidentes, enquanto surgiam nas bancas jornais descontentes com o novo regime (A Rua, O Diabo, etc.), aberto à participação política de ex-ministros do anterior sistema. Embora haja quem chame impunidade a tanta brandura, o certo é que terminaram as perseguições por motivos políticos em Portugal. Na actualidade, a extrema-direita lusa manifesta-se contra qualquer tentativa de boicote e ataca o “politicamente correcto”, justificando-se precisamente com os princípios democráticos. Deste modo, impor o silêncio aos fascistas dá-lhes a oportunidade de assumirem o papel de vítimas e chamarem intolerantes aos democratas, através de um ruído que lhes concede a publicidade desejada acima de tudo.

 

 

Por outro lado, as palavras têm consequências. Alguns defensores da liberdade irrestrita de expressão acreditam que, se as pessoas com ideias extremistas puderem divulgá-las, geram repulsa, caem no ridículo e acabam por descredibilizar-se a si próprias. Trata-se de um exercício arriscado. Durante a campanha para as presidenciais americanas de 2016, os canais televisivos dos EUA deixaram Donald Trump gozar de um vasto tempo de antena, quer devido ao potencial humorístico das gaffes de Trump quer por acreditarem que ninguém no seu perfeito juízo votaria num homem que afirmava aquelas coisas. Já em Portugal, muitos elogiaram a “frontalidade” de Bruno de Carvalho e desvalorizaram o seu estilo agressivo, (supostamente) natural no futebol português, até que um dia a violência passou de verbal a física. À medida que se alarga o âmbito daquilo que é aceitável dizer em público, cresce também, a pouco e pouco, o alcance daquilo que se torna aceitável fazer. Um ambiente político e mediático onde podemos dizer tudo o que nos apetece coloca a democracia, paradoxalmente, em perigo.

 

Depois da polémica criada em 2017 pela não realização da conferência de Jaime Nogueira Pinto na FCSH-UNL e tendo em conta tudo o que Nogueira Pinto e a Nova Portugalidade lucraram com o banzé, acho que a abordagem de situações semelhantes deve ser algo cínica. A melhor pergunta a fazer perante uma eventual proibição será: “quem ganha com isto?” No caso do desconvite a Marine Le Pen, não se verificarão consequências de maior, pelo menos enquanto Le Pen se mantiver fora do Eliseu. Outras acções de boicote podem, contudo, tornar-se uma faca de dois gumes. Dar espaço público aos fascistas? Sim, mas com muitos limites.

O futuro dos partidos de direita

PSD-RR

 

Prós: Os acordos com o PS e a gestão criteriosa das declarações públicas garantiram a Rui Rio uma aparência de credibilidade maior do que poderia supor-se, na medida em que o contributo para reduzir a crispação do quotidiano político, tal como uma certa relutância do portuense em seguir a espuma mediática, impressionam favoravelmente os eleitores mais moderados. A resistência do PSD-RR aos ataques contínuos do seu principal rival, o PPC/PSD, pode reforçar a aura de determinação de Rio e dar-lhe margem de manobra para melhorar a sua posição antes das legislativas.

Contras: A bipolarização acentuada durante os anos da crise ainda não se dissipou. Um novo Bloco Central teria uma base social de apoio reduzida e prejudicaria quer o PS quer o PSD-RR, num cenário em que o espaço político do centro-direita é cada vez mais apertado. Entretanto, a displicência com que Rio vem tratando caso após caso leva quem o ouve a ponderar se a determinação do inimigo de Pinto da Costa não será afinal uma arrogância desmedida.

 

PPC/PSD

 

Prós: Os guardiães do legado de Passos Coelho influenciam grande parte da comunicação social e permanecem em maioria na bancada parlamentar escolhida pelo mentor, além de contarem com Miguel Relvas e outros animais que proliferam no habitat dos bastidores da política. Os fracos resultados do PSD-RR nas sondagens criam uma impaciência favorável aos interesses do PPC/PSD.

Contras: A ideia de que muitos militantes do PPC/PSD se movem mais para salvarem as suas peles políticas do que propriamente por ideologia e pelo “interesse nacional” revela-se difícil de apagar. Por outro lado, o fracasso da “teoria do Diabo” deixou os antigos passistas sem um discurso credível e instalou um ambiente de refluxo no qual só resta uma nostalgia amarga dos tempos revolucionários.

 

PSL

 

Prós: Pedro Santana Lopes. Quando Santana fala, os jornalistas aparecem, atraídos pelo espectáculo, o que garante visibilidade ao novo partido. Os eleitores do antigo PSD descontentes podem votar no PSL como forma de protesto, até porque Santana ainda beneficia dos efeitos positivos dos anos passados fora da ribalta, durante os quais evitou ser associado às medidas mais impopulares da PAF.

Contras: Pedro Santana Lopes. Acredito que Santana Lopes tenha imensas ideias para defender “os princípios, os valores e tradições da identidade Portuguesa”, como escreveu na sua carta de despedida, mas ninguém repara nelas porque, se espremermos o discurso de Santana, ficamos apenas com as palavras “eu, eu, eu, eu, eu”. Tudo é tão egocêntrico e personalizado na forma como o ex-autarca faz política que, independentemente da orientação a seguir, o PSL será apenas “o partido do Santana”. Além disso, se é certo que o país político parece já não se recordar de nenhum acontecimento anterior a 2008, os adversários de Santana podem ir ao arquivo recuperar sons e imagens do período em que o líder do PSL chefiou o Governo. E isso seria muito mau para Lopes.

 

 

CDS

 

Prós: Assunção Cristas tem gerido de forma astuciosa o partido da bola ao centro, impondo a sua marca na agenda mediática e aproveitando os debates parlamentares para seduzir quem gosta de ver alguém a malhar com força em António Costa. Por seu turno, Adolfo Mesquita Nunes revela inteligência (parecendo que não, isso dá jeito) naquilo que diz e escreve e representa a imagem de uma direita aberta e dinâmica, sem os tabus do passado. Manter Nuno Melo em Bruxelas, bem longe daqui, será fundamental para evitar embaraços ao partido.

Contras: O resultado obtido nas autárquicas de Lisboa pareceu conduzir a direcção centrista a um deslumbramento exagerado, cujas metas irrealistas podem tornar-se contraproducentes. Na verdade, o CDS ainda não se libertou da imagem de satélite do PSD, nociva à sua pretensão de apresentar-se como primeira escolha. Entretanto, permanecem guardados no sótão do Caldas uns Isaías Afonsos com cheiro a mofo.

 

IL

 

Prós: Estar fora do Parlamento e ter nomes desconhecidos na direcção tem um lado positivo para a Iniciativa Liberal, ao fornecer-lhe à-vontade para fazer um discurso anti-sistema e atacar os partidos mais antigos, que designa como “Donos Disto Tudo”. A ausência de ligações à política de austeridade facilita também as queixas da IL sobre o vampirismo do Estado. Os adeptos do liberalismo podem apreciar um partido que assume sem rodeios essa identidade ideológica.

Contras: Criar um novo partido não é fácil em Portugal, não só devido aos obstáculos legais e à escassez de financiamento, mas sobretudo por causa da tendência mediática para dar tempo de antena apenas a quem já está há muito no terreno de jogo. São necessários contactos e figuras com alguma notoriedade para ganhar simpatias nas redacções. A IL tem utilizado as redes sociais e recorrido a vários dirigentes do partido com acesso a certa imprensa (Sábado, Observador, etc.) para apresentar o organismo, mas, se não chegarem à televisão, será difícil para os liberais informar os portugueses dos objectivos da nova força política. É certo que o PAN elegeu um deputado quando ninguém o levava a sério, mas a formação de André Silva dirige-se a um nicho muito específico do eleitorado. Por último, a sigla da Iniciativa Liberal faz lembrar o pai de Kim Jong-un.

 

 

 

A minha vida em 30 livros

Uma biblioteca particular conta, pelo menos em parte, a história da vida do seu dono. No meu caso, consigo associar vários livros às memórias da época em que os li (numas férias de Verão, por exemplo) ou a acontecimentos ocorridos durante a leitura. Segue-se uma lista de obras desse género, onde são referidos os respectivos títulos e autores, por ordem cronológica dos anos em que com eles contactei. Neste contexto, é irrelevante se gostei ou não dos livros em causa, escolhidos sobretudo pela facilidade em localizá-los na minha “carreira” de leitor e relacioná-los com eventos pessoais ou colectivos.

 

Os Lusíadas, de Luís de Camões (1995)

A Lua de Joana, de Maria Teresa Maia Gonzalez (1997)

A Preto e Branco, de Plantu (1997)

Para Averiguar do Seu Grau de Pureza, de Jacinto Lucas Pires (1998)

Memorial do Convento, de José Saramago (1999)

Os Maias, de Eça de Queiroz (1999)

Gabriela, Cravo e Canela, de Jorge Amado (1999)

Eurico o Presbítero, de Alexandre Herculano (2000)

 

 

Domingo de Ramos, de Clara Pinto Correia (2001)

Que Farei Quando Tudo Arde?, de António Lobo Antunes (2002)

Era Uma Vez Um Rapaz, de Nick Hornby (2002)

Brancos Estúpidos, de Michael Moore (2003)

Augusto, de Allan Massie (2003)

Um Rumo para a Educação, de Vitorino Magalhães Godinho (2004)

Nascido Para Mandar, de José de Pina (2004)

Largos Dias Têm 100 Anos, de Jorge Nuno Pinto da Costa (2004)

Barnabé, de Rui Tavares, Daniel Oliveira e outros (2005)

Maio e a Crise da Civilização Burguesa, de António José Saraiva (2006)

Educação e Sociedade no Portugal de Salazar, de Maria Filomena Mónica (2006)

Foi Assim, de Zita Seabra (2007)

 

 

Outra Opinião. Ensaios de História, de Rui Ramos (2008)

O Fim do PREC, de Augusto Cid (2010)

Triângulo, de Pedro Garcia Rosado (2012)

Secreções, Excreções e Desatinos, de Rubem Fonseca (2013)

História do Povo na Revolução Portuguesa, de Raquel Varela (2014)

Suaves Portugueses, de Pedro Marques Lopes (2014)

Somos o que Escolhemos Ser, de Sofia Aureliano (2015)

O Samurai Negro, de João Paulo Oliveira e Costa (2016)

A Ameaça Vermelha, de Alberto Gonçalves (2017)

O Bebé que… Fez uma Birra, de Rui Zink e Manuel João Ramos (2018)

 

 

 

 

Há quatro anos

“Jerónimo de Sousa: Voto no PS pode ameaçar a democracia”

Diário de Notícias, 28-04-2014

 

“Banca não recorrerá a ajuda pública”

Diário de Notícias, 02-05-2014

 

“Governo quis subir mais o IVA mas troika não deixou”

Diário de Notícias, 04-05-2014

 

“Assis encosta discurso do PS à esquerda”

Diário de Notícias, 04-05-2014

 

“Dirigente PSD (Fernando Costa) quer Sócrates em tribunal”

Diário de Notícias, 09-05-2014

 

“BES terá agravado prejuízos”

Diário de Notícias, 09-05-2014 (título de uma breve com nove linhas)

 

 

“Hillary: Vai haver ou não mais um Clinton na Casa Branca?”

Diário de Notícias, 11-05-2014

 

“Cameron promete demitir-se se não houver referendo sobre UE”

Diário de Notícias, 12-05-2014

 

“Mesmo sem a ajuda de crowdfunding, filme de Nuno Markl (Por Ela) vai ser rodado”

Público, 13-05-2014

 

“Portas chama pai da troika a Sócrates, que responde: “A mentira atraiçoa o mentiroso””

Público, 18-05-2014

Azul e branco é o coração

A humorista Joana Marques, que poderia ser uma das mulheres referidas por Marco Paulo no tema “Eu Tenho Dois Amores” (“Mas a outra, tão morena/É tal qual o homem quer/Mesmo sendo mais pequena/Ela é muito mais mulher”), tem comentado assiduamente o futebol, em iniciativas como o livro Viver Com Um Adepto: Manual de sobrevivência (2009), produzido em co-autoria com Susana Romana e Ricardo Galvão. Numa nova obra, O Meu Coração Só Tem Uma Cor, ilustrada por Pedro Vieira, Joana reúne 92 crónicas (uma para cada minuto de jogo) sobre o universo do Futebol Clube do Porto, o emblema amado pela argumentista lisboeta, herdeira da orientação clubística do pai, o historiador João Pedro Marques. O livro é prefaciado por Jorge Nuno Pinto da Costa, fã da escrita de Joana Marques, “uma espécie de Rui Barros” do humor português (p. 13).

 

Nos 92 textos, legíveis por ordem aleatória, Joana Marques viaja, servindo-se de uma escrita cuidada e um humor irresistível, pela história do FC Porto, embora, ao contrário do que uma das badanas promete, não descreva a fundação do clube, para lá de se mostrar mais à vontade no relato dos episódios dos quais possui memórias, ocorridos a partir da década de 90 do século passado. Além das finais europeias e de outros desafios célebres do FCP, são evocados Pinto da Costa, os treinadores mais marcantes dos “dragões” e alguns dos muitos futebolistas que brilharam com a camisola azul e branca, sem ignorar outros jogadores menos felizes cuja memória perdura apenas nas piadas dos adeptos. Joana atinge Benfica e Sporting com numerosas farpas irónicas, relativas sobretudo à protecção dos árbitros ao SLB e à escassez de títulos do futebol leonino. Mais que um ataque, trata-se de um precioso incentivo ao sentido de humor dos apreciadores de futebol, numa altura em que o desporto-rei serve tantas vezes de mero pretexto para fomentar o ódio.

 

 

Num livro feito de emoções e não do registo seco de factos, Marques transmite como poucas aquilo que significa ser adepto de um clube. Trata-se de uma experiência na qual convivem um lado profundamente pessoal e outro marcado pela dissolução no colectivo, além de constituir um “passaporte para regressarmos à infância” (p. 11). Ser outra vez uma criança permite sentir alegrias puras e imensas aquando das vitórias do nosso clube, mas também causa amuos e birras ruidosas quando os resultados não são os desejados. Ir ao estádio é uma experiência semelhante a “participar num ritual litúrgico” (p. 98) e estabelecer ligações com desconhecidos convertidos à mesma fé. Durante os jogos, no entanto, tornam-se frequentes o sofrimento e os pensamentos agressivos que “muita gente tem, mas ninguém quer admitir” (p. 37). Os golos dos “nossos” jogadores, homens quase divinizados pela multidão, acabam por fazer esquecer tudo e estimulam a continuação de uma paixão quotidiana, orgulhosamente parcial e irracional. Os melhores testemunhos escritos por adeptos expressam esse turbilhão de sentimentos que Marques apresenta com um sorriso nos lábios.

 

O Meu Coração Só Tem Uma Cor, um livro essencial na biblioteca de qualquer portista que se preze (apesar de lhe faltar a credibilidade científica da tese do mestre Macaco), representa um contra-ataque de Joana Marques após a jogada ofensiva de outro autor das Produções Fictícias, o benfiquista Ricardo Araújo Pereira, cujas crónicas futebolísticas foram compiladas em A Chama Imensa (2010). Falta ainda nas livrarias um olhar satírico proveniente da hoste do leão, onde humoristas como Eduardo Madeira ou Zé Diogo Quintela poderiam dar um contributo a esse nível. Entretanto, a nação portista espera que os próximos anos do clube forneçam a Marques, entre craques, troféus e matanças do polvo, abundante material inspirador de um futuro trabalho do mesmo género.

 

P.S. A dada altura, Joana Marques apercebe-se de que apenas sabe de cor “o nome de um presidente do meu clube”, Pinto da Costa, cujo palmarés riquíssimo tornou os seus antecessores “quase irrelevantes”, embora Marques imagine que os adeptos de outros clubes recordem os respectivos presidentes associados a “momentos de glória” (pp. 211-212). Na verdade, muitos benfiquistas não saberão identificar Maurício Vieira de Brito e Fezas Vital, líderes dos “encarnados” durante a conquista das duas Taças dos Campeões Europeus. Durante muito tempo, os jogadores e treinadores dos “grandes” recebiam quase toda a atenção do público, enquanto os presidentes cumpriam geralmente apenas um ou dois mandatos de forma discreta. Nos anos 80, Pinto da Costa e outros dirigentes instauraram o modelo do presidente protagonista, alvo de intensa cobertura mediática, uma tendência que seria levada ao nível do grotesco por Bruno de Carvalho.