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Desumidificador

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"Utopia"

Para lá dos numerosos cartoons e pranchas publicados na imprensa portuguesa e estrangeira entre 1974 e 1976, o 25 de Abril e o período revolucionário a que deu início foram frequentemente contados na BD. No livro Imagens de uma Revolução: O 25 de Abril e a Banda Desenhada (Levoir/A Seita, 2022), João Miguel Lameiras, João Paulo Paiva Boléo e João Ramalho-Santos enumeram alguns trabalhos nessa área, como os álbuns O País dos Cágados, de Artur Correia e António Gomes de Almeida, Operação Óscar, de José Ruy, Salgueiro Maia, O Rosto da Liberdade, de António Martins, ou A 25, Sempre a Abril!, de Geral e Derradé. Em 1999, o 25.º aniversário da democracia levou ao aparecimento de conjuntos de histórias curtas, divulgadas no Público, no Diário de Notícias e na primeira edição de O 25 de Abril e a BD, onde autores de várias gerações apresentavam perspetivas diversas do golpe do MFA, já com o distanciamento e, por vezes, o ceticismo e desencanto produzidos pela passagem dos anos. O atual movimento editorial estimulado pelo cinquentenário da queda da ditadura inclui também uma nova proposta de difusão em BD da memória da Revolução. A novela gráfica Utopia (Bertrand, 2024), nascida da colaboração da historiadora e comentadora Raquel Varela (aqui a estrear-se como argumentista) e do sociólogo e desenhador brasileiro Robson Vilalba, apresenta em cerca de 170 páginas uma visão com uma forte carga política e emocional do final do Estado Novo e do processo revolucionário, enquadrada por uma introdução e um posfácio que sublinham a mensagem do livro: “sim, há alternativa” à competição e ao capitalismo.

Assumindo-se como “uma obra de ficção” (p. 7), mas inspirada em testemunhos reais de pessoas que viveram o período em causa, Utopia segue o percurso de José, um rapaz dos subúrbios a norte de Lisboa que se politiza, de forma autodidata e através do contacto com outros jovens, durante o consulado de Marcelo Caetano e, após a festa dos cravos, participa como ativista e soldado da Polícia Militar na mobilização revolucionária promovida pela extrema-esquerda em 1974-1975. Os eventos são retratados por Robson Vilalba num traço que, apesar do seu aspeto de esboço, se revela eficaz ao surgir aliado a uma utilização primorosa do preto e branco, particularmente expressiva em desenhos de página inteira dedicados a fenómenos como nuvens de tempestade (p. 42) e uma explosão (p. 62) ou a momentos como o cerco à Assembleia Constituinte (p. 155). A opção dos autores de evitar utilizar balões ou estabelecer diálogos, combinando as imagens, várias delas baseadas em fotografias, com a narração do protagonista, funciona bem ao ponto das raras exceções (nas páginas 63 e 139, por exemplo) destoarem do conjunto sem necessidade aparente.

 

Utopia

 

Tal como qualquer memória do pós-25 de Abril, este romance gráfico apresenta uma narrativa parcial e incompleta, pelo que valoriza determinados eventos e ignora outros em função do olhar pessoal e ideológico de quem conta a história. A versão dos acontecimentos dos anos 70 aqui reproduzida é necessariamente idêntica à interpretação proposta por Raquel Varela nas suas obras historiográficas, com o formato da BD a reforçar a componente subjetiva. No entanto, talvez a pensar no público do Brasil, onde Utopia também já se encontra à venda, o discurso exagera por vezes na pedagogia. Explicar que a UDP se tratava de “uma ala maoista, muito ligada ao poder popular” (p. 141), ou que o MRPP era “um partido maoista implantado nos meios operários e estudantis” (p. 143) torna a narração demasiado artificial e palavrosa sem esclarecer muito. Na verdade, a parte ficcional da obra mostra-se bastante frágil. Gostaríamos de mais informação acerca da irmã mais nova de José, mencionada na página 21 mas que nunca vemos, ou de Ana, a namorada e “primeira mulher” do narrador que tão depressa surge (pp. 81-85) como desaparece sem deixar rasto até ao fim do livro. A sensação óbvia é a de que José não possui vida própria e o jovem de Camarate serve apenas de pretexto para evocar o tempo em que “O medo mudou de lado”. A parte mais interessante da novela, referente aos meses de serviço militar da personagem na PM, termina com uma análise do 25 de Novembro ilustrada por um jogo metafórico de xadrez (pp. 164-166). Trata-se de uma solução válida, mas porque José se encontrava de licença no dia em que se verificou um dramaticamente interessante tiroteio no quartel da PM do qual resultaram três mortos? Sobre as experiências do protagonista posteriores a 1975, não ficamos a saber nada. Para quê, se o “sonho lindo” já terminara?

Num estilo visual e narrativo inédito em obras de BD sobre o 25 de Abril, Utopia vem contribuir para a transmissão de imagens do quotidiano e da iconografia da Revolução, em especial junto de públicos menos aliciados pela leitura de memórias ou investigações académicas. O trabalho de Raquel Varela e Robson Vilalba provocará reações diferentes entre quem veja em “Não fazíamos nada do que nos mandavam” (p. 154) um sinal do caos e aqueles que encontrem nessa frase um vislumbre do paraíso. Lamenta-se apenas que a política e a historiografia não sejam acompanhadas nesta novela gráfica por uma capacidade de imaginação através da qual se aproximem leitores e personagens. Mais uma vez, o raquelismo-varelismo enquadra todos os acontecimentos do passado e do presente em planos tão amplos que os indivíduos se tornam invisíveis a olho nu.

História local do desporto

A publicação de sínteses da história do futebol e de outras modalidades em Portugal, tal como o início de trabalhos científicos sobre os principais clubes do país, em particular os chamados “três grandes”, criou bases para a abordagem do fenómeno desportivo numa escala micro. A área de estudos que designamos por “história local do desporto” refere-se à investigação acerca da evolução da atividade desportiva num território de dimensões reduzidas, que pode corresponder a uma região, um município, uma freguesia ou mesmo um bairro de cidades como Lisboa, Porto ou Setúbal. Seja através do estudo de caso de uma coletividade ou da criação de narrativas centradas na prática de várias modalidades na área geográfica predefinida, este tipo de análise possui múltiplas vantagens, contribuindo para um melhor conhecimento das diferentes povoações e o enquadramento de situações particulares em tendências nacionais e internacionais.

A imprensa regional constitui uma fonte decisiva neste âmbito de pesquisa, ao revelar factos associados à criação e expansão de clubes e competições locais, bem como ao registar a perspetiva das comunidades acerca da atividade desportiva. A informação obtida nos jornais locais deve ser combinada com os dados disponíveis na imprensa nacional desportiva e generalista. A crescente bibliografia de história local, embora geralmente parca em referências ao desporto, permite descrever o contexto no qual este se implantou e identificar personalidades com ligações ao movimento associativo da área em questão. No que respeita aos arquivos, verificam-se situações diferenciadas. Os arquivos municipais conservam documentação útil para conhecer as relações entre clubes e autarquias e o papel destas, sobretudo depois do 25 de Abril, no apoio à democratização da prática desportiva e na construção de equipamentos a ela destinados. A inventariação dos arquivos de instituições particulares, nomeadamente coletividades, e a divulgação das condições para a sua consulta permanecem incompletas em muitos concelhos. Os fundos ligados a órgãos estatais de âmbito distrital, em especial os governos civis, ou nacional, como o arquivo do Ministério da Administração Interna, apresentam material rico em informação sobre os clubes desportivos e os seus contactos com o poder local e central. Recentemente, as redes sociais tornaram-se fontes valiosas devido à partilha de fotografias e outros documentos referentes ao desporto, mas também por meio do diálogo estabelecido entre indivíduos com experiências comuns como dirigentes, praticantes ou espetadores.

 

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(Fonte da imagem: Grupo Desportivo dos Bons Dias)

 

O conjunto de nomes, eventos, estatísticas e outros dados reunidos através do cruzamento das fontes atrás mencionadas e de iniciativas complementares, como entrevistas ou recolhas de artefactos de natureza desportiva, abre numerosas possibilidades. A rede associativa e a prática formal ou informal do desporto traduzem dinâmicas sociais, económicas e demográficas dos territórios onde se desenvolvem, pelo que o seu estudo facilitará a análise das transformações ocorridas no tempo e espaço abordados. Da mesma forma, os dirigentes das coletividades encontravam-se frequentemente ligados a outras entidades locais, como partidos, autarquias ou instituições de solidariedade, estabelecendo uma rede de contactos que a identificação e estudo biográfico (ainda que sucinto) dessas personalidades contribuiria para esclarecer. Mesmo num território restrito, a atividade desportiva não se encontra isolada do ambiente político e ideológico do período em que se realiza e interage com ele. O envolvimento de coletividades em ações de apoio ou oposição ao Estado Novo e a expansão do associativismo desportivo no contexto revolucionário do pós-25 de Abril são dois exemplos desta relação que apenas o estudo de casos particulares permitirá compreender em profundidade. Além desta ligação a fenómenos mais vastos, o desporto é em si mesmo um relevante objeto de estudo e a recuperação da memória de clubes, atletas ou competições poderá revalorizar pessoas e acontecimentos importantes na construção de identidades locais.

Tal como a história local no seu conjunto, o estudo do desporto numa dimensão municipal ou regional enfrenta limitações ao nível das entidades financiadoras ou dos públicos eventualmente interessados no produto final da investigação. As restrições das fontes implicam numerosas lacunas, sobretudo no que respeita a períodos mais recuados ou a práticas informais das quais escasseiam os registos. No entanto, a história local do desporto surge-nos como um tema ainda muito inexplorado e cujo desenvolvimento apresenta potencial para fornecer novas pistas acerca da maneira como o associativismo se espalhou por grande parte do território português, estimulando sentimentos de pertença e rivalidade nas comunidades ou esbarrando em condições adversas ao incremento da prática desportiva. Para lá da glória dos atletas de alta competição, há uma história do “desporto popular” por contar.

Ir ao fundo da rua

A pessoa mais apta a falar sobre a história da comunicação social na área do atual concelho de Odivelas é sem dúvida o jornalista Henrique Ribeiro. Desde os tempos do Jornal da Pontinha, criado em 1978, que Ribeiro se dedica, por vezes praticamente sozinho, a noticiar os eventos ocorridos nos arredores de Lisboa, tendo passado por periódicos como Gira Loures, Vento Novo, Nova Odivelas ou Odivelas Notícias antes de fundar o jornal digital Diário de Odivelas. O mais recente projeto do jornalista pontinhense tem sido afetado, no entanto, por sucessivos ataques informáticos que dificultam a manutenção do site, tal como pela escassez de meios e publicidade, limitativa da abrangência do noticiário. Apesar da carolice de Ribeiro, a subsistência do Diário de Odivelas, com poucos seguidores nas redes sociais, parece estar permanentemente em causa.

Na verdade, o desenvolvimento da imprensa no território odivelense nunca foi fácil. As notícias de localidades como Caneças, Odivelas e Póvoa de Santo Adrião foram habitualmente divulgadas ao longo do século XX por jornais sediados em Loures e por alguns correspondentes de periódicos lisboetas, entre eles O Século, Os Sports e Diário de Notícias. Já depois do 25 de Abril e do forte crescimento urbano verificado na zona saloia a partir da década de 50, surgiram experiências como o Jornal da Pontinha e o Jornal de Odivelas (onde escreveu o jovem Hernâni Carvalho), sem continuidade para além do início da década de 80, na qual surgiriam Acção, O Exemplar, Sexta à Tarde, Varandim e outros títulos de curta duração. Nesse período, o dinamismo encontrava-se sobretudo na rádio, através do trabalho das emissoras piratas Cruzeiro, Imprevisto e Nova Antena, a última das quais daria o salto para a legalidade, tornando-se um marco dos media locais até ao final da primeira década do século XXI.

A criação do município de Odivelas em 1998 estimulou um novo fôlego da imprensa local, quer através de títulos ligados às autarquias quer pelo lançamento do semanário Nova Odivelas, a que se juntaria em 2003 um novo Jornal de Odivelas. Tratava-se de jornais gratuitos e financiados apenas pela publicidade, mas dotados de uma qualidade assinalável, sobretudo na fase em que Nova Odivelas esteve sob a direção de Henrique Ribeiro, o qual apostou igualmente no online (parte da produção jornalística dessa época encontra-se disponível no Arquivo.pt). Os periódicos tornaram-se o terreno privilegiado para o debate entre as concelhias dos vários partidos políticos e o acompanhamento da atividade desportiva local. Ambos os jornais desapareceriam nos anos 10, quando, apesar do regresso da Rádio Cruzeiro pela via das emissões online, os media odivelenses sofreram uma nítida regressão. O empresário Francisco Godinho criou então o semanário gratuito Odivelas Notícias, distribuído nas entradas dos prédios ou em estabelecimentos comerciais. O entusiasmo do público nunca abundou perante um jornal onde praticamente tudo era publicidade, não só nos anúncios e artigos de divulgação mas também nos comunicados enviados por clubes, partidos ou autarquias e reproduzidos sem enquadramento. O espaço de opinião era relativamente interessante, apesar das crónicas desportivas de Vítor Cacito incluírem referências à política sem uma necessária clarificação acerca das funções de dirigente distrital do Chega desempenhadas pelo autor. A morte súbita de Francisco Godinho em agosto de 2022 ditou o fim do Odivelas Notícias e gerou um vazio que Ribeiro tenta preencher com o Diário de Odivelas, sem grande sucesso.

 

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Porque é que um município habitado por cerca de 148 mil pessoas não dispõe de um jornal ou uma rádio local com audiências relevantes? Poder-se-ia apontar causas tradicionais como a fraqueza da sociedade civil odivelense ou a carência de sentimentos bairristas, mas a vastidão do movimento associativo, prejudicado pela sua fragmentação, cria algumas dúvidas. Nem sequer é certo que os munícipes não se interessem por notícias locais. Recorde-se que parte do sucesso do Correio da Manhã, o único diário nacional com vendas significativas em banca, deve-se à sua rede de correspondentes espalhada por todo o país, que lhe fornece um noticiário menos centrado em Lisboa ou Porto que o dos jornais concorrentes. Aparentemente, as pessoas gostam de ler as notícias da sua terra, mesmo que se trate de crimes (vários casos mediáticos ocorreram em Odivelas nos últimos anos, surgindo nas páginas do CM). Na verdade, o problema de Odivelas enquadra-se na crise geral do jornalismo e num ciclo vicioso em que a falta de capital das empresas de media, a braços com a falta de receitas, leva a investimentos diminutos em meios e mão-de-obra. Daí resultam produtos jornalísticos de baixa qualidade que afastam os leitores e desse modo afastam também os anunciantes, o que encurta ainda mais as receitas, e assim sucessivamente. A debilidade da comunicação social odivelense tem efeitos negativos, com a política local a ganhar visibilidade apenas em vésperas de eleições autárquicas e o conhecimento da maioria da população acerca da atividade (ou falta dela) da Câmara e das juntas de freguesia a manter-se reduzido. O que aparece nas redes sociais são sobretudo boatos, propaganda, maledicência fácil e discursos partidários sem confirmação ou desmentido. Não há jornais porque não há público ou não há público porque não há jornais? Gostaria de ter uma solução para o problema, mas não a conheço. Entretanto, o que estará a acontecer no concelho de Odivelas neste momento?

A crónica das crónicas

O cronista necessita de escrever mais um texto, tentando manter a cadência semanal sugerida pela psicóloga. Ele diverte-se por uns minutos a imaginar o que seria um partido populista de esquerda presidido pela liberal que se julga marxista. O paralelismo com os populistas de direita é óbvio mas injusto; o escriba desiste do plano. Pensa em escrever uma carta aberta ao antigo conterrâneo e acha a ideia absurda; mais um papel amarrotado ruma ao cesto imaginário. O cronista procura gerar prosas que demonstrem a superioridade da social-democracia, do catolicismo e do FC Porto; nem uma palavra lhe sai. Ele tem saudades do Douro, mas agora não é o momento de falar disso. No silêncio noturno, a folha de papel digital mantém-se virgem. Começa a ouvir aquele barulho irritante do frigorífico e levanta-se para lhe dar uma palmada.

O cronista recorda agora o orgulho pueril que sentia quando as suas composições eram escolhidas pela professora para saírem no jornal da escola, como aquela a favor da causa timorense. Durante a adolescência, interessado sobretudo na ficção, pouco ligava a textos escritos para a imprensa. As exceções, reunidas em livros, eram as crónicas de António Lobo Antunes e Miguel Esteves Cardoso, arte pura e inimitável. Lembra-se de ler em 2003 dúzias de artigos de opinião nos jornais a favor e contra a invasão do Iraque. Por essa altura, surgiram os blogues, movidos pelo entusiasmo cândido de jornalistas que não imaginavam que a Internet destruiria a imprensa como a conheciam e de cronistas que ainda não se levavam demasiado a sério nem tentavam salvar o mundo com cada texto. A blogosfera servia como academia para formação e scouting de novos colunistas da imprensa tradicional, dando espaço a nomes como Pedro Mexia, Rui Tavares, Daniel Oliveira ou Pedro Marques Lopes. Ele não tinha arcaboiço para os blogues políticos, mas o argumentista (que, afinal, conhecera a economista através de um artigo de opinião) deixou-o brincar aos críticos de cinema. Eram textos curtos e dominados pela dificuldade em encontrar sinónimos de “filme” além de “fita”, “película” ou “longa-metragem”. Pouca gente lia as suas críticas, embora o cronista tenha apreciado a interatividade e a ligação aos outros blogues cinéfilos integrados na ABCine, uma breve iniciativa do jornalista do Porto. Os anos dourados da blogosfera passaram rapidamente, enquanto ele via mais uns filmes e acabava por cansar-se. Tentaria um projeto mais generalista, acabando por limitar-se a transcrever pequenas notícias de jornais antigos que julgava curiosas por um motivo ou outro. Deixou-se disso e ficou à espera que José Cid gravasse finalmente o álbum Vozes do Além.

Ao longo dos anos 10, o cronista que nada escrevia reparava que os textos opinativos se tornavam uma forma barata dos diários encherem papel, ao abrirem as suas páginas a colunistas que eram remunerados apenas com publicidade aos seus nomes. Os jornais online, sem limitações de espaço, mostravam-se disponíveis para colaborações de todos os prosadores que respeitassem a sua orientação política. A crónica banalizou-se e os seus autores passaram a falar cada um para seu lado, sem ninguém com quem dialogar no meio de tanta oferta. Era nas redes sociais, onde todos podiam ser cronistas, que a discussão se reacendia. A historiadora dos resistentes, por exemplo, atingia nas redes muito mais pessoas do que aquelas que a leriam numa coluna fixa num jornal como o Público, antigo fórum da nata da opinião. As editoras também passaram a publicar cada vez menos compilações de crónicas, apesar de exceções como os livros de Ricardo Araújo Pereira, sustentáculo da Tinta da China.

 

O Segundo Coração

 

Entediado após a conclusão da tese e desejoso de se juntar às discussões de café, o cronista começou a mandar umas bocas, para cedo concluir que o Facebook não servia os seus propósitos. Numa tarde em que ouviu a Banda do Casaco e se sentiu estranhamente dinâmico, ele criou um blogue apesar desses espaços terem há muito passado de moda. Sem uma orientação clara, tentou pegar em temas e perspetivas ignorados pelos opinadores profissionais. O cronista recorda agora o orgulho pueril que sentia quando os seus posts eram escolhidos pela plataforma anfitriã do blogue para receberem destaque, como aquele sobre um romance de José Rodrigues dos Santos. O autor do blogue pensou em imprimir cartões publicitários com o seu nome em cima do título “Escritor de não-ficção”, até concluir que ninguém contrataria os seus serviços. Incrivelmente, um dia recebeu uma proposta da agente do sobrinho do general, interessado na sua escrita, para biografá-lo. Aceitou, mas claro que o tempo e a pandemia impediram a concretização do sonho. Prosseguiu as crónicas entre longas pausas nas quais duvidava que alguma vez regressasse ao ativo, mas, pelo sim pelo não, recusava fechar a loja.

Num breve regresso do entusiasmo, o cronista pegou novamente na pena virtual e tentou comercializar melhor o seu produto. Não seria fácil, ainda para mais depois da Meta limitar a visibilidade de posts com links. Ainda assim, ali está ele em frente ao computador, a hesitar enquanto ouve a ruminação do frigorífico. Porque não abandona o bloguismo e persiste em juntar palavras efémeras sem recompensa? Lembra-se então da conversa que teve com o engenheiro e de como desenhar uma máquina era semelhante a escrever um texto. No seu caso, eram as frases que iam surgindo a pouco e pouco na cabeça, formando-se separadamente até ele estabelecer as ligações, descobrir outras peças vindas do fundo do armazém e juntar tudo no mesmo aparelho. Um escritor a sério, Bruno Vieira Amaral, falou do “sonho que somos” mesmo que nunca o concretizemos. Assim, se o bloguista sonha ser cronista e escritor de não-ficção, então é precisamente isso que ele é. Que remédio terá senão prosseguir na criação de prosas em breve reduzidas a fragmentos esquecidos do passado? Ele acredita, de alguma maneira, que só assim poderá regressar às águas do Douro.

O que raio se passou aqui?

1. O resultado das penúltimas eleições legislativas era, na verdade, previsível aquando do chumbo do Orçamento de Estado para 2022, antes das sondagens espalharem a confusão. Insatisfeito e surpreendido com a opção do PCP e do Bloco, o eleitorado de esquerda concentrou-se no PS, ao mesmo tempo que a direita se fragmentava, levando aos resultados conhecidos. Da mesma forma, os votos de 10 de março de 2024 foram em grande parte construídos em novembro de 2023, como as sondagens surgidas ainda nesse mês indicaram ao apontarem uma estagnação de PS e PSD e um crescimento súbito do Chega para pelo menos 15%. Nas últimas semanas de campanha, a comunicação social ficou obcecada com os indecisos e as pessoas que podiam mudar de opinião em resultado desta ou daquela frase dos líderes partidários, quando o essencial já estava definido depois do terceiro Governo Costa cair por causa de um escândalo de corrupção. É certo que a Operação Influencer pariu um Mickey a quem a Minnie nascida do desembarque do MP na Madeira viria fazer companhia, mas a impressão criada pelo 7 de Novembro era já indelével. E quando alguns comentadores falaram da desastrosa campanha de André Ventura e do resultado abaixo das expetativas deste que o Chega teria, um mau pressentimento generalizou-se.

 

2. A partir das autárquicas de 2017, começou a notar-se um declínio estrutural do PSD que ia além dos efeitos do estilo deste ou daquele líder. A perda de autarquias, a ruralização do eleitorado laranja ou a dificuldade em penetrar a sul do Mondego, acompanhadas pelo surgimento de novos partidos à direita, indiciavam que a futura desgraça do PS não implicaria o sucesso automático do PSD, como Rui Rio ainda acreditava no início de 2020. O partido não conseguia expandir-se significativamente nos grandes centros urbanos, numa tendência disfarçada pelo caso particular do triunfo de Carlos Moedas em Lisboa. Esses bloqueios conduziram à vitória pírrica da AD, cujo resultado correspondeu, basicamente, à soma das percentagens obtidas por PSD e CDS há dois anos. É natural assumir que o PSD não voltará a ultrapassar um terço dos votos durante muito tempo. No entanto, o PS também apresenta sintomas de enfraquecimento, que uma maioria absoluta ligada ao contexto específico do final da pandemia apenas adiou. O envelhecimento dos eleitores e militantes socialistas (em 2020, mais de metade dos filiados no PS superava os 50 anos de idade), associado à conotação do partido com o suculento mas limitado nicho eleitoral dos pensionistas, dificulta a renovação. No fundo, trata-se do mercado a funcionar: PS e PSD são marcas antigas, com imagens desgastadas e consumidores que se resumem praticamente apenas a uma clientela fidelizada nos tempos de lucros que os fabricantes de ambos os produtos julgavam ser eternos. Fazer um rebranding aos dois principais partidos nacionais não será fácil.

 

3. Enquanto AD e PS empataram (ou algo do género) entre si e o Chega explodiu, nenhum dos restantes partidos sofreu uma derrota esmagadora. A IL e o BE também registaram empates, mantendo os mesmos números de deputados, ao passo que o Livre cresceu para aquele que poderá ser o seu espaço natural. O PCP prosseguiu o caminho heroico para a irrelevância, embora existisse o receio de um resultado ainda pior, e o PAN, sem conseguir subir, evitou uma saída de S. Bento da qual resultaria o fim do partido. Por seu turno, o CDS arrendou a custo acessível um quartinho no palacete do PSD. A tendência para a fragmentação, só aparentemente interrompida em 2022, reforçou-se para compor uma Assembleia da República heterogénea. A questão é saber até que ponto esse novo Parlamento não será o espelho perfeito da fragmentação e compartimentação da sociedade que representa, dividida em nichos com interesses e linguagens próprios. Os resultados das legislativas ainda serão esmiuçados em pormenor, mas as sondagens pré-eleitorais já indicavam clivagens nítidas entre sexos, regiões, classes ou grupos etários. As idosas de esquerda, assustadas com um país que julgam ter enlouquecido, pouco têm de comum com os rapazes educados para exterminar o “socialismo”. Nenhum dos grupos possui uma força esmagadora nem é suficientemente fraco para ser varrido do mapa. Depois da recomposição, virá uma cristalização das divisões?

 

Do novo aeroporto à remuneração da polícia, os dossiês mais difíceis para os primeiros 100 dias de Governo

 

4. Quando Donald Trump foi eleito presidente dos EUA, em 2016, Miguel Vale de Almeida afastou culpas da esquerda ao escrever no Facebook que “não fomos longe demais porra nenhuma”. No mesmo tom agastado, podemos dizer agora que não precisamos de compreender porra nenhuma. Desde logo, porque é que só se fala em “compreender” quem vota na extrema-direita, enquanto a opção pelos restantes setores políticos surge como natural e sem necessidade de explicação? E, nesta altura do campeonato, o que é afinal o “voto de protesto”? “Vou votar no Ventura para mostrar àquela malta que estou muito chateado. Felizmente, ele não vai ganhar, Deus me livre.” Se houver um em cem portugueses a pensar assim, já é muito. Claro que não há em Portugal mais de um milhão de racistas, mas pelos vistos essas pessoas não se importam muito de apoiar um partido que recorre a um discurso xenófobo. Nem existe um milhão de saudosistas do Estado Novo, embora muita gente queira agora uma “verdadeira democracia” e o fim da “ditadura de esquerda”. O melhor que podemos fazer é tratar os eleitores do Chega como adultos responsáveis e não como crianças (“diz ao senhor doutor onde é que te dói”).

 

5. Os resultados no concelho de Odivelas não foram muito diferentes dos totais nacionais, com o PS a vencer com cerca de 30,6%, a AD a ficar-se pelos 22,8% e o Chega nos 20,1%. Verifica-se, no entanto, que há áreas do município, como Famões ou a Ramada, onde o Chega tem mais implantação que noutras. Já na minha aldeia natal de Arroios, uma terra Livre (o partido de Rui Tavares ficou em terceiro lugar na freguesia, atrás de AD e PS), o Chega não atingiu os 9%, o que é curioso. Num lugar tão multicultural, não deveria haver choques violentos mas inevitáveis entre as diferentes religiões e comunidades? Os arroienses de bem não podem deixar de se sentir ofendidos por tantas lojas pertencentes a invasores asiáticos.

 

As prensas, os martelos, as bigornas

Um artigo jornalístico refere que Paulo Raimundo está à vontade a fazer campanha na rua, junto das “pessoas comuns”. O crítico de televisão Eduardo Cintra Torres acha que Isto É Gozar com Quem Trabalha tornou-se menos engraçado desde que Ricardo Araújo Pereira começou a “achincalhar pessoas comuns” e não apenas os políticos. De facto, as “pessoas comuns” que vivem em Portugal dominam o discurso político e mediático há vários anos. Partidos, jornalistas, comentadores, todos partem em demanda dos portugueses comuns, certos de que ao descobri-los encontrarão a verdade pura e redentora. Numa época em que a palavra “povo” vai caindo em desuso e as classes sociais possuem fronteiras e designações pouco nítidas, a “pessoa comum” tornou-se o novo motor da História. Mas, afinal, o que carateriza um português comum (PC)?

Os especialistas têm definido os PC sobretudo através da exclusão de quem não pertence a esse conjunto. Por exemplo, nem sempre são claras as atividades profissionais que os PC desempenham, mas é um facto consensual que nenhum deles faz comentário político na televisão ou na imprensa. Também existem diferentes descrições do tipo de habitação em que um PC mora, sendo apenas certo que não vivem na “bolha”. Os moradores desta, os bolhões, distinguem-se por falarem de assuntos supérfluos que em nada interessam aos PC. O típico bolhão passa horas a discutir, geralmente com um microfone à frente, situações teóricas sem qualquer ligação à realidade. Já os PC não precisam de discutir a realidade porque vivem nela e portanto conhecem-na perfeitamente. O bolhão é um privilegiado com rendimentos oriundos de fonte incerta, embora certamente retirados de forma ilegítima aos PC. O PC é sempre vítima de uma injustiça e nunca recebe a recompensa (não se trata apenas de dinheiro, mas sobretudo de atenção) que merece. É fácil encontrar um bolhão porque quase todos eles têm casa na zona do Príncipe Real, em Lisboa, e raramente saem de lá. Quanto aos PC, podem ser detetados, como se viu, quando percorrem ruas a pé, mas há outros espaços, como mercados, estádios ou transportes públicos, onde eles costumam abundar. O PC detesta coisas complicadas e, na televisão, gosta de ver futebol, novelas e reality-shows. Por natureza, o PC possui fraca instrução, um vocabulário reduzido e até um certo desprezo pelos livros, mas o que não tem em cultura sobra-lhe em autenticidade. O sovaco do PC tresanda a suor porque, seja lá o que for que ele faça, só ele sabe, ele luta, ele vive, ele sofre, ele sente. Só encostando o nariz ao sovaco do PC é que o bolhão sentirá o verdadeiro odor de Portugal vindo das entranhas da pátria.

 

FERNANDO TORDO / ARY DOS SANTOS : ALEGRIA NA LUTA (7")

 

Não sei como dizer isto, mas as “pessoas comuns” são iguais aos outros seres humanos. Os PC também vivem em bolhas e a maior parte deles conhece o país tão bem como Clara Ferreira Alves, uma pessoa sem nada de comum que acha que o “povinho” (sinónimo de “pessoas comuns”) não lê nada, quando nunca tantos portugueses leram livros. Muitos PC detestam os outros PC. Ser um PC não significa ser uma pessoa interessante, como o próprio Paulo Raimundo demonstra, e, na verdade, os PC não querem ser representados por políticos iguais a eles, mas sim por quem pareça ser uma versão mais firme e corajosa dos PC. Antigamente, um candidato que conversasse com um PC durante a campanha dizia-lhe (ou deveria dizer-lhe): “Desculpe, mas a sua opinião é estúpida e você não sabe do que está a falar”. Até que um dia surgiram criaturas a lisonjear os PC: “Claro, tem toda a razão, afinal o senhor é um português comum. Os políticos que dizem que está errado são uns bolhões do caraças. Vote em mim para darmos cabo deles”. Trata-se, obviamente, de mera bajulação lançada por quem gosta tanto de PC como os machistas gostam de mulheres. Depois de darem ao bajulador aquilo que ele quer, os PC devem permanecer quietinhos e obedientes enquanto ele faz as coisas mais repugnantes justificando-se com o bem deles.

Há cinco décadas, as “pessoas comuns” eram o “povo”, os “trabalhadores” ou a “classe operária”. Constituíam uma muralha de aço que, quando estava unida, jamais era vencida e todos queriam estar sempre, sempre, ao lado delas. Também existiam hipocrisia e bajulação nessa época, mas pelo menos o discurso oficial não olhava o “povo” de cima para baixo, através da perspetiva de indivíduos incomuns que vendem produtos de baixa qualidade porque supostamente é esse o desejo do público. Em vez de mero consumidor, o “povo” era um sujeito ativo que à força do seu braço transformava as fábricas e as terras que eram suas. Na verdade, a mensagem mobilizadora de um político da atualidade deveria ser: “Hoje somos portugueses comuns, mas nada nos impede de melhorarmos e um dia sermos portugueses extraordinários”.

 

 

O interruptor-mor

1. João Adelino Faria era um rapaz encantador, mas viveu eventos traumáticos na sua infância. Houve um dia em que ouviu alguém falar sem parar durante mais de 90 segundos, outra ocasião em que uma pessoa se queixou do calor que estava em vez de, como João Adelino queria, discutir quais foram os Papas mais influentes do século XI, e ainda outro episódio em que um adulto deu a entender que preferia continuar a falar ao invés de ouvir a voz melodiosa do jovem João. Profundamente marcado por estes eventos, o pérfido Faria abraçou o sonho do jornalismo e a nobre missão de ouvir as pessoas. Mas só um bocadinho, para depois poder interrompê-las.

 

2. Cedo o repulsivo João Adelino Faria se afastou da religião, por sentir que ela não lhe dava as respostas que procurava.

Pai Nosso que estais no Céu…

Mas, senhor padre, quando Deus não está no Céu, onde é que está?

Santificado seja o Vosso nome...

Sim, mas o que as pessoas querem saber é se o senhor padre gosta mais de cortar as unhas das mãos ou dos pés.

Venha a nós o Vosso Reino…

Pois, mas concorda com o provérbio “Água mole em pedra dura tanto bate até que fura”?

Seja feita a Vossa vontade...

Certo, mas não acha que arroz de pato é melhor que bacalhau com grão?

Senhor, dai-me paciência...

 

3. Se João Adelino Faria fosse uma mulher, nunca seria mãe, porque interromperia a gravidez.

 

4. Certo dia, o perverso João Adelino Faria teve uma entrevista de emprego com o diretor de informação da RTP.

Sabe, João, as entrevistas e os programas de debate estão a ficar muito palavrosos. Essa escumalha dos convidados pensa que temos todo o tempo do mundo para ouvi-los. Precisamos de os meter na ordem…

Mas pretende exatamente o quê?

Já lá chego. Queremos um jornalista que…

Espere. Que soluções há para esse problema?

Vou-lhe dizer agora, andamos à procura de…

Ainda não respondeu à minha pergunta.

Está contratado.

 

5. Quando o vil e despótico João Adelino Faria modera um debate entre dois candidatos, os comentadores são unânimes na escolha do vencedor: João Adelino Faria, a pessoa que falou durante mais tempo no debate.

 

João Adelino Faria - RTP | LinkedIn

(Fonte da imagem: João Adelino Faria)

 

6. É doloroso assistir quando uma vítima ingénua cai na teia do demoníaco João Adelino Faria.

Boa noite. O seu partido ainda não apresentou nenhuma proposta para aumentar a produção de azeitonas britadas. Como justifica isto?

Boa noite. Em primeiro lugar, as azeitonas são atualmente…

Portanto, não tem ideias para aumentar a produção.

Um momento. A azeitona britada sofreu uma desvalorização…

E por isso acha que a solução é abandonar essas azeitonas?

Pode dar-me só um minuto para explicar?

Quem faz as perguntas aqui sou eu.

Eu suplico-lhe…

O nosso tempo acabou. Obrigado por ter vindo à RTP.

 

7. Ver um episódio de O Outro Lado que não é moderado por João Adelino Faria (esse verme rastejante) faz-nos compreender que poderíamos viver num mundo melhor e harmonioso, onde todos se exprimissem livremente. Mas depois aparecem os Putins, os Trumps, os Farias e outros que só se sentem bem a oprimir as outras pessoas.

 

8. Claro que o ambiente em que João Adelino Faria vive contribui para estimular a personalidade repugnante desse homem horroroso. Se João fosse incumbido de moderar o Eixo do Mal e tentasse interromper Clara Ferreira Alves, levaria um tabefe. Se insistisse, levaria dois.

 

9. A RTP 3 implementa medidas de segurança rigorosas no estúdio de O Outro Lado para evitar que Ana Drago, Paulo Pedroso ou João Taborda da Gama cometam uma loucura ao serem interrompidos por João Adelino Faria pela 243.ª vez. Assim, os três comentadores são revistados minuciosamente e passam por um detetor de metais antes de se sentarem à mesa com o monstro. Mesmo assim, os três sonham com o dia da vingança e tentam dissimular armas para surpreender a criatura hedionda, sem sucesso até agora. A vigilância e apreensão de armamento na RTP têm permitido ao Estado português acumular um vasto arsenal de adagas, punhais, espadas, bazucas, granadas, canivetes, cimitarras, revólveres, espingardas, metralhadoras, lança-chamas e muito mais material bélico, que é enviado em segredo pelo Governo para a Ucrânia e aí utilizado contra as tropas russas. Deve-se, portanto, a João Adelino Faria a condecoração recentemente atribuída por Zelensky a João Gomes Cravinho.

 

10. Na verdade, a morte não seria suficiente para travar João Adelino Faria, que certamente apareceria como fantasma para interromper o sono de todos os portugueses.

Sondemos no mundo

1. As sondagens marcavam o ritmo das campanhas eleitorais antes dessa função ser transferida para as polícias e o Ministério Público. São os inquéritos de opinião que criam expetativas, revelam o que está na moda e o que já não se usa e orientam a produção de “cenários” relativos ao período pós-eleitoral. De uma maneira geral, a comunicação social gosta de quem está a subir (atualmente, o Chega) e despreza quem está a descer. Um bom exemplo foi o de Assunção Cristas: basta comparar as peças televisivas sobre as campanhas da então líder do CDS para as autárquicas de 2017 e as legislativas de 2019 para identificar tons completamente diferentes no discurso jornalístico. Da mesma forma, as intenções de voto orientam os discursos partidários e avivam ou enfraquecem oposições internas e externas. Podem ainda, sobretudo quando os estudos proliferam em vésperas de eleições, contribuir com a sua torrente de detalhes para espalhar a confusão e obscurecer as tendências mais óbvias. Por mais que os políticos afirmem que “as sondagens valem o que valem” ou, nos casos dos candidatos com piores números, que o importante é a “sondagem das urnas”, são na verdade os mais obcecados por amostras, margens de erro, taxas de rejeição, trabalhos de campo ou distribuições de indecisos.

 

2. Qualquer notícia sobre uma sondagem destaca que as entrevistas foram realizadas ainda antes do caso B, mas já depois do caso A, no pressuposto de que, se as pessoas inquiridas soubessem então do caso B, teriam respondido de maneira muito diferente. Fica subentendido que os eleitores são considerados crianças birrentas que num dia adoram um determinado prato e no dia seguinte recusam comê-lo. É comum, no entanto, que as tendências das sondagens se mantenham bastante estáveis durante algum tempo, sobretudo quando as próximas eleições estão ainda distantes. Por exemplo, a hipótese de um cenário de 2015 ao contrário, com o PS em primeiro lugar enquanto uma maioria de direita domina o Parlamento, já é apontada pelos inquéritos de opinião há pelo menos ano e meio, tal como a descida de divisão do PCP, remetido para níveis de apoio popular idênticos aos de PAN, Livre e CDS (antes deste ser absorvido pela AD). Quando existem mudanças bruscas nos scores dos partidos, isso é em si mesmo uma notícia, como aconteceu com os saltos dados pelo Chega no final de 2019, logo que André Ventura surgiu na Assembleia da República, ou na transição de 2023 para 2024, após o 7 de Novembro. As surpresas eleitorais são construídas geralmente a pouco e pouco, através do combate ideológico nas arenas da opinião pública, e não em reação espontânea a um dado acontecimento.

 

3. Quando se pergunta numa sondagem se Fulano deve demitir-se em resultado do caso C, a maioria dos inquiridos vai sempre responder que sim. É daquelas perguntas que trazem dentro delas a resposta; se não existissem razões para a demissão de Fulano, ninguém a imaginaria, certo? De resto, as sondagens com perguntas sobre questões políticas concretas tendem a indicar que as pessoas gostam sobretudo de ver em simultâneo sol na eira e chuva no nabal.

 

4. Existe sempre, sobretudo dentro das fações com percentagens mais baixas nos estudos, quem afirme alto e bom som que as sondagens são pura ficção. Os valores relativos às supostas preferências do eleitorado seriam inventados para favorecer determinados setores políticos, associando-os a uma dinâmica de vitória e distorcendo a perceção dos cidadãos. Quando os votos são contados e o escrutínio não coincide com as previsões feitas a partir dos inquéritos das semanas anteriores à votação, o vencedor proclama o seu triunfo sobre as sondagens e as empresas que as realizam são acusadas de incompetência ou interferência deliberada no ato eleitoral. O mais correto será, porém, afastar o conspirativismo e admitir as limitações dos estudos de opinião, a começar pelo facto de muitos dos indivíduos contactados, por telefone ou presencialmente, pelos técnicos recusarem responder a quaisquer perguntas. As sondagens tornam-se mais falíveis em sufrágios com universos eleitorais reduzidos (regionais, autárquicas), onde qualquer pequena variação de última hora pode alterar o resultado final. Pelo que os sondadores afirmam, os inquéritos sobre preferências partidárias são cada vez menos previsões e mais “fotografias” de um determinado instante, de tal forma é dinâmica e mutável a realidade política. Verificam-se ainda particularidades no trabalho de cada empresa ou instituição que ausculta o sentir do povo, como a tendência das sondagens publicadas pelo grupo do Correio da Manhã para indicar uma maior fragmentação das intenções de voto ou a dificuldade de ICS e ISCTE em encontrar o eleitorado da Iniciativa Liberal (não há aqui nenhuma insinuação, até porque o fenómeno regista-se nos estudos divulgados na SIC e no Expresso desde o início do partido de Rui Rocha). Apesar destes obstáculos, os inquéritos de opinião são ainda o melhor e mais fiável instrumento disponível para analisar a evolução do pensamento dos portugueses.

 

5. As sondagens permitem ainda dividir os inquiridos em determinadas categorias e relacionar as suas caraterísticas com as orientações políticas manifestadas, de modo a avaliar até que ponto estas são influenciadas por fatores como género, rendimentos, origem geográfica, habilitações académicas, etc. Alguns estudos são bastante ricos em pormenores, tornando admissível a possibilidade de sabermos qual é o partido preferido dos bissexuais sportinguistas com colesterol alto. Existe, contudo, um elemento particularmente valorizado neste momento entre os indivíduos cujas opiniões são registadas nos trabalhos de campo: a idade. Essa variável parece até influenciar outros dados abordados, entre eles as qualificações e a prática religiosa. Num breve resumo, os jovens (no mundo das sondagens, as pessoas entre os 18 e os 35 anos) apoiam em grande número a direita, em particular o Chega e a Iniciativa Liberal, enquanto os partidos de esquerda, sobretudo o PS, recolhem mais votos entre os eleitores maiores de 65 anos. Trata-se de um cisma geracional aparentemente mais vincado que em eleições anteriores e a partir do qual muito se poderia especular acerca da história recente e dos fenómenos socioculturais atuais. De momento, serve apenas para salientar o valor das sondagens no aprofundamento do estudo do fenómeno político e na sinalização aos partidos dos nichos de mercado onde, numa época de fragmentação da sociedade em bolhas quase estanques, necessitam de investir em força.

 

Foto: António Cotrim/Lusa

(Fotografia de António Cotrim/Lusa)

Crónica de el-rei D. Jorge

Quando D. Jorge era apenas um fidalgo da corte do rei D. Américo, o Reino Azul atravessava uma época difícil. Anos e anos de sucessivas derrotas contra os reinos vizinhos do Leão e da Águia tinham limitado o território azul a pouco mais do que o velho burgo na foz do rio dourado. Mal se afastavam da cidade, os guerreiros azuis sentiam-se invadidos pelo medo e entravam já vencidos nos campos de batalha. Enquanto subia na hierarquia dos cargos palatinos, D. Jorge estabeleceu uma aliança com outro nobre do reino, D. José Maria, convencendo D. Américo a escolher este último como condestável. D. Jorge e D. José melhoraram o planeamento das batalhas e motivaram os combatentes com um discurso belicoso que promoveu o ódio contra os inimigos que viviam a sul e há muito oprimiam os nortenhos. Após duros recontros com as tropas do Reino da Águia, a hoste azul saiu vitoriosa pela primeira vez em muito tempo. No entanto, ao regressarem à corte instalada no Palácio das Antas, D. Jorge e D. José não receberam as mercês esperadas de D. Américo, por eles considerado um rei frouxo que estabelecia acordos com os rivais através de cedências humilhantes. Na tentativa de mudar o estado de coisas, os dois fidalgos avançaram com parte das tropas para tomar o palácio, mas a revolta foi sufocada. Contudo, durante o seu breve desterro, D. Jorge esperou pacientemente, até porque sabia que o poder de D. Américo estava minado. Seria só uma questão de tempo até o monarca abdicar e, quando o trono ficasse vago, D. Jorge estaria pronto para avançar. Apesar de cultivar sempre boas relações com os bispos, D. Jorge preferiu ser ele próprio a colocar na sua cabeça a coroa de rei azul. Logo a seguir, apontou com a espada para o topo do brasão abençoado do reino e proclamou que a partir de agora o território seria conhecido por Reino do Dragão.

Regularizadas as finanças da Coroa, D. Jorge definiu o objetivo ambicioso de, além de retomar os ataques a sul, derrotar as tropas dos reinos mais ricos e poderosos da Europa. Todos lhe disseram que era impossível, mas D. Jorge não desanimou, nem após o fracasso numa primeira batalha, até porque, pelo sim pelo não, ordenou a um mago que fizesse feitiços propícios aos futuros êxitos do Dragão. E algum tempo depois, numa surpreendente reviravolta na Batalha do Prater, uma contra-ofensiva vitoriosa trouxe a glória aos homens azuis. Quando os guerreiros, trazendo consigo despojos nunca vistos, foram recebidos no velho burgo por uma multidão em delírio, D. Jorge começou um discurso em que afirmava que, com aquele triunfo, a sua missão estava cumprida e talvez ele devesse renunciar à coroa e retirar-se para o seu paço nos arrabaldes. De imediato, tal como D. Jorge previra, o povo aclamou-o e suplicou-lhe que permanecesse no trono até morrer. Não seria a última vez que o rei usaria aquele discurso.

Além de possuir uma sede insaciável de conquistas, D. Jorge nascera para o combate. Só se sentia realmente vivo ao contemplar as fileiras dos exércitos inimigos, dar a ordem de ataque e ouvir o retinir de lanças, espadas, escudos e armaduras. Todos os que o conheceram recordariam o deleite com que banhava a lâmina fina da ironia no sangue dos vencidos. E muitos foram eles, à medida que os sucessos e a expansão do Reino do Dragão traziam novos súbditos a D. Jorge e enriqueciam a sua Coroa. Rodeando-se dos homens mais competentes em todas as áreas, o monarca sabia que o inimigo de hoje é o aliado de amanhã e vice-versa. Mesmo dentro do Palácio das Antas, depois substituído pelo mais moderno Palácio do Dragão, D. Jorge travou as ambições de possíveis rivais ao dar a entender que poderia nomeá-los seus herdeiros e depois, à medida que os anos passavam, ser sempre o seu próprio sucessor. Enquanto o reino prosperava, os súbditos louvavam sem cessar o soberano, que alimentava discretamente aquilo a que em épocas posteriores se chamaria “culto da personalidade”. Nobres, clérigos, burgueses, mesteirais, almocreves, camponeses, pescadores, todos faziam fila para beijar a mão de D. Jorge, um rei protetor das artes que apreciava poetas, trovadores e a boba Joana. Os outros monarcas acusavam o senhor do Reino do Dragão de triunfar recorrendo a grossas peitas e truques sujos, mas não podiam impedir que os seus próprios súbditos sonhassem em ter alguém assim como rei.

Na verdade, D. Jorge sentia-se acima das leis de Deus e dos homens. Para permanecer no poder, reuniu forças como um grupo de mercenários, composto por rufias que livrou da prisão e a quem responsabilizou quer pela sua defesa pessoal quer por expedições de saque em território inimigo, controlando-os de perto para não terem ideias perigosas. A corte do Palácio do Dragão tornou-se cada vez mais numerosa, incluindo fidalgos que recebiam avultadas tenças para fazerem não se sabia exatamente o quê. O caso do infante D. Alexandre era o mais curioso. Embora D. Jorge tivesse dúvidas quanto às suas capacidades para herdar o trono, permitia que o filho vivesse no luxo à custa do erário régio. O Reino do Dragão conseguia recrutar os melhores guerreiros, mas parte do dinheiro usado para recompensar os seus serviços desaparecia misteriosamente. Entretanto, como se comentava entre risinhos nos corredores do palácio, o rei conseguia, mesmo já velho, trazer para o seu leito as moças mais formosas, que depressa repudiava antes delas terem tempo para se sentirem rainhas. O certo é que corriam as décadas e mudavam-se os tempos, as vontades, o ser e a confiança, mas D. Jorge continuava sempre no trono, aparentemente imutável e imperturbável, enquanto as Cortes se reuniam de forma cada vez mais rotineira de quatro em quatro anos para manifestar o seu apoio ao rei.

Pouco a pouco, contudo, os reinos vizinhos aprenderam com o exemplo de D. Jorge e copiaram os seus métodos. Ressentido pela humilhação do dia em que vira o pendão do Dragão hasteado no pináculo da sua catedral, o Reino da Águia tornou-se a potência dominante da região e desviou muitos dos guerreiros que antigamente combateriam por D. Jorge. Os gastos excessivos da corte nortenha e uma série de ataques falhados instalaram no Reino do Dragão uma sensação de decadência e levaram o povo a murmurar, enquanto mesmo os maiores devotos de D. Jorge começavam a duvidar da manutenção da clarividência do soberano idoso. Num palácio agora menos frequentado, D. Jorge procurou uma solução barata e o seu olhar pousou em D. Sérgio, um nobre irascível que o rei vira crescer e aprender a manejar a espada ainda nas Antas. Feito condestável, D. Sérgio conseguiu, com apenas meia dúzia de campónios mal armados, travar o avanço das águias e distinguiu-se por, mesmo após sofrer investidas, conseguir reagrupar as tropas e recuperar a iniciativa. Apesar dos seus esforços, o condestável indispôs-se com vários cortesãos e, limitado pela falta de recursos humanos e materiais, enviou da frente para o Palácio do Dragão várias cartas com queixas sobre a dificuldade em substituir os cavaleiros que perdia por combatentes de igual valor.

Por essa altura, regressou ao velho burgo ribeirinho um fidalgo abastado que antes oferecera grandes vitórias a D. Jorge mas recebera uma oferta irrecusável para servir outro monarca. O nobre contou que estavam a surgir outras formas de governo, com a substituição da monarquia por uma República onde os súbditos se tornavam cidadãos com direito a decidirem sobre os seus destinos e serem informados dos assuntos coletivos. As revelações do aristocrata foram transmitidas entre a população do reino e a ameaça de um motim contra D. Jorge tornava-se a cada dia mais real. Quando as notícias da agitação chegaram ao palácio, o perigo dotou o ancião de uma energia que não se via nele há muitos anos. D. Jorge vestiu a armadura, recuperou a espada e montou no seu cavalo, o Marques Lopes, enquanto dava ordens aos mercenários para avançarem à frente e atacarem sem piedade todos os rebeldes. À medida que cavalgava rumo a mais uma batalha, o rei prometia a si mesmo que os seus fiéis cronistas do velho burgo (a atravessarem então dias de privações e incerteza) ainda teriam muitos capítulos para escrever sobre os feitos gloriosos do senhor do Reino do Dragão.

 

Pinto da Costa: Recandidatura com a ambição de 1982 - FC ...

Os melhores hinos políticos

A nova campanha eleitoral veio relembrar a importância da utilização da música como meio de propaganda política em Portugal. Os novos hinos de campanha que surgem periodicamente aquando das eleições, sobretudo nas autárquicas, têm sido muito satirizados, mas ainda no século XX vários temas obtiveram sucesso assinalável ao aliarem a qualidade musical a um conteúdo político claro e eficaz. Destacamos aqui alguns deles, ordenados de forma totalmente subjetiva. Importa referir que apenas tivemos em consideração canções escritas propositadamente para o marketing de um dado partido ou candidato, pondo de lado, por exemplo, as versões de "A Internacional" adotadas em 1974 por vários partidos ou temas com utilização política muito posterior à sua gravação inicial, como "Liberdade", de Sérgio Godinho, o hino informal do Bloco de Esquerda.

 

5. "Hino do CDS-PP" (Rosa Lobato Faria/Dina), 1995.

A renovação da marca CDS, com a sua transformação no Partido Popular realizada por Paulo Portas e Manuel Monteiro, incluiu um novo hino do partido, que substituiu o tema lançado em 1975 e foi difundido aos quatro ventos por carros com altifalantes durante a campanha das legislativas de 1995. Apesar de apelar ao "orgulho de nascer português", Dina musicou e cantou um poema de Rosa Lobato Faria sem uma carga assumidamente ideológica, que procurava alargar a base de apoio do PP a todos os que fossem "solidários numa mesma canção" e quisessem fazer o país "vencer outra vez". Com uma curiosa piscadela de olho a "Avante Camarada" no verso "Junta a tua voz à nossa voz", o hino centrista é orelhudo, mas torna-se um pouco repetitivo ao longo de cinco minutos de duração.

 

4. "Hino da Aliança Democrática" (Natália Correia/José Calvário), 1979.

Editado num single com "A Portuguesa" no lado B e uma mensagem assinada pelos três líderes dos partidos da AD no verso, o hino da coligação de direita serviu-se da qualidade poética de Natália Correia para marcar uma vontade de rutura com os "escuros véus" da Revolução e, numa atitude que hoje se consideraria polarizadora, deixar "os réus" esquerdistas de fora da festa nacional. A evocação dos "antepassados" e da literatura trovadoresca pretende estabelecer uma ligação entre o passado e o futuro, sendo este assegurado não só por homens mas também pelas mulheres aguerridas da AD, que "trazem Portugal no ventre". Com um ritmo animado e um espírito mobilizador, falta à canção apenas um refrão mais fácil de memorizar. De qualquer forma, é bem mais audível do que o hino da segunda AD, que, sinceramente...

 

3. "Avante Camarada" (Luís Cília), 1967.

O hino oficioso do PCP nasceu quando Luísa Basto deu voz a uma composição de Luís Cília destinada a ser ouvida "no interior" através da emissão da Rádio Portugal Livre e ganhou nova vida logo a seguir ao 25 de Abril, quando vários artistas interpretaram "Avante", cuja difusão ultrapassou em muito as fronteiras do universo comunista. Novas versões, incluindo uma em língua japonesa, seriam gravadas posteriormente. Aludindo à clandestinidade do partido de Álvaro Cunhal e à prisão de muitos dos seus membros, "heróis supremos da batalha", o tema passa uma mensagem de esperança apontando como realizável o objetivo final de uma sociedade igualitária ("o sol brilhará para todos nós"), conseguido através da mobilização de um coletivo onde se incluem, numa novidade para a época, militantes do sexo feminino. "Avante Camarada" tem algo de hino religioso, sendo ainda hoje entoado em coro como tal nos eventos do PCP:

 

2. "Rock da Liberdade" (António-Pedro Vasconcelos/Rui Veloso), 1986.

Na disputa renhida da segunda volta das eleições presidenciais de 1986, enquanto a candidatura de Diogo Freitas do Amaral lançava o solene single "Prá Frente Portugal", o MASP procurava atrair os jovens com uma "batida para curtir" e a voz do ídolo Rui Veloso, que recorreu a uma sonoridade típica dos seus trabalhos na década de 80. Apesar da sua inexperiência na escrita de canções, o realizador António Pedro-Vasconcelos conseguiu versos notáveis ("Ai que bom nós podermos discordar", "Andar de braço dado com a razão") numa letra que, sem dizer o nome de Mário Soares, salientava que "a esperança tem um rosto e uma voz", associando o candidato aos valores da paz e da tolerância e afirmando implicitamente que Soares (ao contrário de Freitas) era a garantia de que a ditadura nunca mais voltaria. O resultado foi um tema que uniu a esquerda, ficou no ouvido de muita gente, mesmo do lado dos derrotados, e, apesar do seu caráter efémero, mantém uma frescura impressionante.

 

1. "Hino do PPD/PSD" (Paulo de Carvalho), 1974.

Conhecida também por "Povo Livre" ou "Paz, Pão, Povo e Liberdade", a canção escrita por Paulo de Carvalho, a pedido de Francisco Sá Carneiro, para um partido de centro-esquerda como era o PPD em 1974 apresenta uma gravação original com coro e orquestra ligeiramente superior à versão folk atualmente difundida pelos sociais-democratas. A letra centra-se nos quatro pontos essenciais da "paz", do "pão", do "povo" e da "liberdade", ligados à democracia e enunciados num refrão viciante. O apelo à participação do público ("Canta, povo, canta"), o crescendo final e a transmissão da mensagem em apenas dois minutos e meio contribuem para o impacto emocional pretendido e ainda hoje alcançado.

 

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