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Começar em grande

O objectivo é escolher os dez melhores temas musicais criados para os genéricos de programas da televisão portuguesa. O facto de se tratar aqui de canções originais põe de parte todas as telenovelas nomeadas a partir de êxitos de Paulo Gonzo e outros artistas, assim como a presença nos créditos iniciais exclui composições como "É Tão Bom" (Sérgio Godinho/Jorge Constante Pereira), que fez parte da banda sonora da série da RTP "Os Amigos do Gaspar" sem surgir no respectivo genérico. A selecção e ordenação das músicas dependem de critérios totalmente subjectivos.

 

 

10. "Governo Sombra"/"Programa Cujo Nome..." (instrumental), SIC Notícias, 2020-

 

9. "Polícias" (instrumental de António Victorino de Almeida), RTP, 1996-1997

 

 

8. "Melhor do que Falecer" (Camané), TVI, 2014

 

 

7. "Zé Gato" (Pedro Brito), RTP, 1979-1980

 

 

6. "Casino Royal" (Herman José), RTP, 1990

 

 

5. "Zip-Zip" (instrumental do Quarteto 1111), RTP, 1969

 

 

4. "Pôr do Sol" (Toy), RTP, 2021-

 

 

3. "1986" (João Só, Catarina Salinas e Lena d'Água), RTP, 2018

 

 

2. "Arca de Noé" (Carlos Alberto Moniz), RTP, 1990-1995

 

 

1. "O Tal Canal" (Herman José), RTP, 1983-1984

 

 

A loja aqui ao lado

Actualmente, plataformas digitais como o You Tube, o Instagram ou o Facebook são locais privilegiados de partilha de memórias individuais e colectivas através de vídeos, textos ou fotografias. As redes sociais facilitam a criação de grupos de indivíduos com vivências ou preferências comuns onde é frequente a reprodução de fontes que documentam eventos passados aos quais os utilizadores possuem uma ligação afetiva. Esses documentos e os comentários que originam produzem um vasto conjunto de informação sobre os mais variados temas. Os conteúdos digitalizados e os testemunhos que representam possuem grande valor para a história local ao fornecerem dados sobre espaços, personalidades ou acontecimentos escassamente referidos nas fontes tradicionais.

Depois de descobrirmos o tema da história do desporto no território do actual município de Odivelas, reparámos na presença online de numerosas fontes úteis para o seu estudo. De facto, muitos vídeos e fotografias relativos à actividade desportiva em Odivelas encontram-se disponíveis quer em grupos do Facebook sobre o passado do concelho quer em páginas geridas por entidades como autarquias, colectividades e partidos políticos. No entanto, a natureza efémera e fragmentária das redes sociais dificulta o acesso e consulta desta documentação. Por esse motivo, procedemos a uma recolha de fontes ligadas ao tema em análise com vista a reunir num único site conteúdos dispersos pela Internet. A plataforma que usamos para divulgar os materiais recolhidos é um blogue chamado Desporto Odivelas. Cada entrada do blogue diz respeito a uma única fonte e apresenta um título com a descrição do documento, a fonte propriamente dita, a identificação da pessoa ou entidade que a publicou originalmente, a data exacta ou aproximada da produção do conteúdo e etiquetas que a associem a outras entradas com temas comuns como clubes, modalidades ou equipamentos. Se necessário, são acrescentadas informações sobre o documento e o contexto ao qual se refere. As etiquetas, o arquivo do blogue e uma ferramenta de pesquisa permitem a busca de entradas sobre assuntos específicos.

Trata-se, obviamente, de uma experiência sem a organização e cientificidade necessárias à criação de um verdadeiro acervo digital e com um carácter aleatório e incompleto. No entanto, acreditamos que pode ser uma tentativa útil de preservar documentos valiosos para a história local do desporto. Referimo-nos aqui, quase sempre, a desporto amador e por vezes não federado, desenvolvido em eventos e competições raramente noticiados em fontes como arquivos, imprensa ou bibliografia. Por exemplo, certas fotografias de antigas equipas do chamado “futebol popular” são alguns dos poucos vestígios existentes de clubes já desaparecidos. Nas redes sociais, os depoimentos de odivelenses com experiências comuns enquanto praticantes ou espectadores de desporto fornecem pormenores difíceis de conhecer por outras vias. Através das memórias individuais, poderemos compreender melhor as transformações vividas no território em questão durante o período contemporâneo.

 

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Apesar do seu valor informativo, estes documentos também apresentam problemas associados à sua dispersão, fragmentação ou falta de enquadramento. Várias imagens são publicadas nas redes sem elementos que permitam a sua datação precisa ou a identificação dos indivíduos nelas representados. A nível cronológico, os materiais disponíveis apresentam grandes disparidades. Enquanto as fontes surgidas na primeira metade do século XX são raras, a abundância de conteúdos produzidos já no século XXI obriga a uma selecção. Existem ainda diferenças em qualidade e quantidade na informação relativa a clubes, freguesias, competições ou modalidades. A documentação recolhida não fala por si só, exigindo estudos posteriores que relacionem e contextualizem as fontes para esclarecer o seu significado.

Os meios tecnológicos atuais levaram a uma “explosão” da memória, permitindo a criação e divulgação de inúmeros conteúdos referentes ao passado dos utilizadores das redes sociais, quer como indivíduos quer como membros de diferentes comunidades. As possibilidades que as novas fontes digitais abrem à historiografia ainda não estão totalmente avaliadas, mas são já óbvias as suas vantagens e inconvenientes para o estudo de várias temáticas. No caso da história do desporto, podem ajudar a documentar a actividade dos clubes mais pequenos, tal como a crescente prática informal de modalidades como o futebol, a natação e o atletismo, entre outras. Haverá assim melhores condições para uma abordagem que vá além dos grandes clubes e das celebridades da alta competição e esclareça os contextos locais da democratização da prática desportiva. Para tal, serão necessários o levantamento e inventariação dos documentos disponíveis online, seguindo-se o cruzamento dessa informação com os dados das fontes impressas. A investigação posterior terá de combinar elementos bastante heterogéneos no sentido de aliar a narração dos acontecimentos à compreensão do efeito destes no quotidiano de atletas, dirigentes e outros agentes desportivos. Numa época em que a memória é para todos, a história tem de adaptar-se e contar aquilo que parecia irrelevante ou impossível de reconstituir.

Rui Veloso: Uma curta biografia (2)

Já depois do nascimento dos filhos do seu segundo casamento, Maria e Manuel, Rui Veloso lançou em 1995 o álbum Lado Lunar, o primeiro gravado no estúdio criado por Veloso em Vale de Lobos (Sintra) e misturado em Londres sob a orientação do produtor Luís Jardim. Além do tema-título, o CD reuniu faixas como “Benvinda Sejas Maria”, “Já Não Há Canções de Amor” ou “Fado Pessoano”, canção dedicada a Tom Jobim. No ano seguinte, Veloso juntou-se a Tim, João Gil, Vitorino e Jorge Palma no projecto Rio Grande, um “supergrupo” formado para interpretar canções da autoria de João Gil e João Monge em torno da história de um alentejano migrado para a Margem Sul. O público reagiu bem à iniciativa, concretizada no fonograma Rio Grande (quatro Discos de Platina) e em espectáculos com os cinco músicos registados no disco ao vivo Dia de Concerto (1997). Outras experiências de Rui Veloso nesta época passaram pela gravação com Carlos Tê e Sérgio Godinho do tema “Terra de Ninguém”, incluído no álbum colectivo Voz & Guitarra, e por uma versão de “Negras Como a Noite” criada para um disco de tributo aos Xutos & Pontapés, XX Anos XX Bandas.

Avenidas, o álbum gravado por Rui Veloso em Londres no Outono de 1998, apresentou, além de novos textos de Carlos Tê, duas letras da escritora Clara Pinto Correia (“Avenidas” e “Moby Dick”), num trabalho que destacou o amadurecimento do som de Veloso. As duas canções mais célebres de Avenidas, “Jura” e “Todo o Tempo do Mundo”, ganhariam presença destacada em duas produções televisivas, a série de 1999 da TVI Todo o Tempo do Mundo (com direcção musical de Rui Veloso) e a telenovela da SIC Jura, estreada em 2006. Tê e Veloso voltaram a compor para cinema com o single “Não Me Mintas”, reproduzido no filme Jaime (1999), de António-Pedro Vasconcelos. Em 2000, o programa comemorativo dos 20 anos de carreira de Rui Veloso incluiu o lançamento de uma compilação, O Melhor de Rui Veloso: 20 Anos Depois, galardoada com três Discos de Platina e que ajudou a divulgar o reportório mais antigo do cantor junto de uma nova geração de fãs, tal como de um disco de tributo no qual artistas portugueses e brasileiros interpretaram o alinhamento de Ar de Rock e três temas em inglês dos primórdios da parceria Tê/Veloso. Vários dos participantes no novo Ar de Rock, como Lúcia Moniz, Sara Tavares e os Xutos & Pontapés, foram convidados para actuar em Outubro e Novembro desse ano nos concertos no Pavilhão Atlântico (Lisboa) e no Coliseu do Porto onde Rui celebrou duas décadas de percurso artístico que o tinham tornado um dos mais consensuais músicos portugueses.

Os membros dos Rio Grande, à excepção de Vitorino, reuniram-se novamente em 2002 para gravar o álbum Cabeças no Ar, surgido de um conjunto de letras de Carlos Tê sobre o universo de uma escola secundária num bairro suburbano. Posteriormente à edição do disco, o musical de Tê com o mesmo nome, do qual fizeram parte quatro temas com música de Rui Veloso (“Pequena Dor”, “Primeiro Beijo”, “A Explicação das Estrelas” e “Orlando de Vez em Quando”), foi encenado no Teatro São Luís, em Lisboa, entre Janeiro e Fevereiro de 2005. Entretanto, Rui prosseguia os seus espectáculos, optando em 2002 e 2003 por um formato acústico, interpretado em salas como o Coliseu do Porto e o Centro Cultural de Belém e gravado para edição em CD e DVD. O alinhamento de O Concerto Acústico revelou versões despojadas dos grandes êxitos de Veloso e dois inéditos, “Os Velhos do Jardim” e “Nunca Me Esqueci de Ti”, este último com letra de João Monge. Num registo diferente, Rui Veloso actuou perante uma multidão imensa na estreia em 2004 do Rock in Rio Lisboa, festival a que regressaria nas edições de 2006, 2010, 2012 e 2014. Fora dos palcos, Veloso criou em 2005 a sua própria editora discográfica, a Maria Records, dedicada ao lançamento de trabalhos de novos valores como os Azeitonas e Jorge Vadio.

 

 

A seguir ao intervalo de sete anos vivido depois de Avenidas, Rui Veloso concebeu juntamente com Carlos Tê as faixas do seu nono álbum de originais, A Espuma das Canções, gravado em Vale de Lobos e comercializado no final de 2005. O CD contou com a colaboração da Orquestra Sinfonietta de Lisboa e dos artistas Nancy Vieira (em dueto com Rui no tema “Canção de Alterne”), Sara Tavares e Bernardo Sassetti, envolvidos num todo repartido por géneros tão variados como blues, valsa, samba ou bolero. Saudado pela crítica como o regresso de Veloso aos grandes momentos, A Espuma das Canções deu impulso às celebrações dos 25 anos de carreira de um músico que atingira já a marca de um milhão de discos vendidos desde 1980. O livro Rui Veloso, Os Vês Pelos Bês (2006), escrito pela jornalista Ana Mesquita com base em entrevistas ao biografado e a pessoas dele próximas, bem como no acervo de recortes de imprensa compilado por Emília Veloso, resumiu as etapas do percurso do compositor portuense. “Os Vês Pelos Bês” foi também o nome do espectáculo apresentado por Rui Veloso no Porto e em Lisboa no mês de Novembro de 2006, com a participação de Mariza, Jorge Vadio, Rio Grande e Luz Casal, a cantora espanhola para a qual Veloso escreveu a música de “Inesperadamente”. Uma gravação da actuação lisboeta seria lançada em 2009 nos formatos CD e DVD, com o título Rui Veloso Ao Vivo no Pavilhão Atlântico. Em Dezembro de 2007, foi editado um Song Book com as letras e pautas musicais de 27 canções de Veloso. Já em 2010, a pretexto dos seus 30 anos de música, Rui esgotaria os Coliseus da capital e da Invicta.

Depois de muitos anos de contínua exposição mediática, Rui Veloso assumiu um registo mais discreto na segunda década do século XXI, dedicando-se sobretudo a numerosas parcerias com outros músicos. Rui atraiu a Vale de Lobos um vasto conjunto de artistas para gravar novas versões de alguns dos seus temas, com o cuidado de evitar um alinhamento centrado nos maiores sucessos, criando o álbum Rui Veloso e Amigos (2012), um símbolo do contacto com vários géneros estabelecido por um músico para quem “a compartimentação é pura e simplesmente uma idiotice” (Notícias Magazine, 30-10-2015). Veloso foi também convidado para cantar com músicos mais jovens influenciados pela sua obra, como os Per7ume, Miguel Araújo e Carolina Deslandes. Numa fase de algum desânimo, agravado pela situação negativa do país, Rui Veloso anunciou em Agosto de 2014 uma interrupção da sua actividade musical, tranquilizando pouco depois os seguidores ao garantir que a pausa seria temporária. De facto, o cantor regressou em 6 de Novembro de 2015 ao antigo Pavilhão Atlântico, agora designado por Meo Arena, para protagonizar um concerto com Mariza e o músico António Serrano como convidados. Os 35 anos de carreira de Rui foram assinalados pela edição do duplo álbum O Melhor de Rui Veloso, uma compilação onde surgiram dois novos temas, “Romeu e Juliana”, da autoria de João Gil e João Monge, e “Do Meu País”, baseado num texto do poeta moçambicano Eduardo Costly-White. Nos anos seguintes, Veloso actuaria noutros recintos das principais cidades portuguesas, entre eles o Campo Pequeno (Lisboa) e o Pavilhão Rosa Mota (Porto). Um momento especial para Rui Veloso foi a participação em 3 de Julho de 2015 na cerimónia de trasladação dos restos mortais de Eusébio (um dos seus maiores ídolos, juntamente com o piloto Ayrton Senna) para o Panteão Nacional, durante a qual interpretou “África” e “Nunca Me Esqueci de Ti”.

A partir do sucesso de Ar de Rock em 1980, a imprensa atribuiu a Rui Veloso o epíteto de “pai do rock português”. O cantor começou por rejeitar essa designação, antes de assumir, num prefácio ao livro Bíblia dos Anos 80 (2010), de João Pedro Bandeira, “uma parte da “paternidade””, na medida em que o êxito do seu primeiro álbum mudou a atitude dos media, do público e das editoras perante a música portuguesa, levando à profusão súbita de artistas da área do pop/rock, alguns dos quais não resistiram ao fim do boom. No entanto, Rui Veloso permaneceu e, apesar de duvidar frequentemente da qualidade do seu trabalho (“Para se chegar onde eu cheguei, uma pessoa tem sempre que desconfiar daquilo que faz”, diria ao Blitz em Novembro de 2014), manteve ao longo de décadas um estatuto raro no meio musical português. Gorada a internacionalização da sua carreira, devido a um misto de falta de oportunidades e de interesse do artista, Veloso ocupou um lugar no coração dos portugueses graças à qualidade artística e ao perfeccionismo da sua obra, tal como à riqueza vocabular e emocional dos textos de Carlos Tê e outros letristas, mas também devido à imagem de “anti-estrela” de Rui, sempre espontâneo e despretensioso na relação com o público. Mais do que como o “pai do rock” luso, os fãs encaram Rui Veloso como um homem comum, transformado na voz de temas que contam histórias da vida quotidiana em Portugal, numa permanente abertura a influências musicais de outros países. Após 41 anos de carreira e muitas canções intemporais, Rui Veloso já possui um lugar de destaque na história da música portuguesa.

 

 

Rui Veloso: Uma curta biografia (1)

Rui Manuel Gaudêncio Veloso nasceu em Lisboa em 30 de Julho de 1957, três meses antes de se mudar com os pais para a cidade do Porto. O seu pai, Aureliano Veloso, foi eleito em 1976 para o cargo de presidente da Câmara do Porto, que exerceu até 1979, enquanto o brigadeiro António Pires Veloso, tio de Rui, comandou a Região Militar do Norte entre Setembro de 1975 e Novembro de 1977. Influenciado pelo avô e pelo pai, guitarristas amadores, Rui Veloso demonstrou desde cedo interesse pela música, aprendendo a tocar instrumentos como piano, guitarra e harmónica, de forma autodidacta e baseada na audição da obra de músicos ligados sobretudo ao rock e aos blues. A partir de 1975, integrou as bandas Contra Ponto e Magara Blues Band, que fizeram algumas actuações em festas. Devido à dificuldade em obter discos e instrumentos, os jovens portuenses costumavam então juntar-se para ouvir e tocar música em conjunto, estabelecendo um círculo de relações no âmbito do qual Rui Veloso se tornou amigo do poeta Carlos Monteiro, mais conhecido por Carlos Tê. Carlos escreveu várias letras em inglês, a partir das quais Rui criou temas originais, tocados em longas sessões na cave da casa da família Veloso e aí gravados em cassetes.

Uma das histórias mais célebres da música portuguesa relata o dia de 1979 em que a mãe de Rui, Emília Veloso, partiu para Lisboa levando, às escondidas do filho, gravações de várias canções deste, com o objectivo de as submeter à avaliação da editora Valentim de Carvalho. Um dos responsáveis da VC, António Avelar Pinho, ouviu as composições da dupla Tê/Veloso, interessando-se especialmente pelo único tema em língua portuguesa, intitulado “Chico Fininho”. A Valentim de Carvalho chegaria a acordo com Rui Veloso para a gravação de um LP, cujas letras deveriam ser todas em português, uma exigência cumprida a contragosto por Carlos Tê, autor de oito textos a que se juntaram mais duas letras de António Pinho. O álbum Ar de Rock seria gravado em Abril de 1980 por Veloso e pela Banda Sonora, formada pelo baixista Zé Nabo e pelo baterista Ramón Galarza. No LP posto à venda em Julho desse ano, Veloso revelou um estilo inédito em Portugal de tocar e cantar, influenciado pelos bluesmen americanos, enquanto a escrita de Tê apresentou inovações quer nas temáticas quer no vocabulário utilizado. Várias das canções descreviam personagens-tipo do Porto, num retrato social que Rui Veloso afirmava ser apenas “a constatação de uma realidade” (A Rua, 31-07-1980), rejeitando aproveitamentos políticos. Ar de Rock (galardoado com um Disco de Ouro) e os dois singles dele extraídos, “Chico Fininho” e “Rapariguinha do Shopping”, conheceram um êxito comercial surpreendente que abriu caminho a outros músicos nacionais. Ainda em 1980, Veloso realizou as suas primeiras actuações a solo, algumas delas tão marcantes como a abertura do espectáculo dos The Police em Lisboa, a 2 de Setembro, ou o concerto inaugural da sala do Rock Rendez-Vous, em Dezembro desse ano. Rui mudou-se para a capital e enfrentou dificuldades em lidar com a fama repentina, numa inadaptação que teve manifestações físicas como vómitos sentidos antes do músico subir ao palco e vários problemas de voz.

Casado desde 1981, ano no qual lançou o single “Um Café e um Bagaço”, Rui Veloso viu 1982 ser marcado pelo nascimento da sua primeira filha, Joana, e pela gravação do LP Fora de Moda. Neste trabalho, onde repetiu a parceria com Carlos Tê que se prolongaria durante as décadas seguintes, Veloso procurou ir além do rótulo de “Estrela de Rock and Roll” (título de uma das canções do disco) ao qual fora associado, mostrando a sua versatilidade musical num esforço prosseguido em Guardador de Margens (1983). Ambos os álbuns venderam menos cópias que Ar de Rock, mas reforçaram o estatuto do músico portuense junto da crítica. Entretanto, depois do tema “Chico Fininho” ter dado origem a um filme de Sério Fernandes com o mesmo nome estreado em 1982, Rui Veloso participou na banda sonora de Crónica dos Bons Malandros (1984), de Fernando Lopes, com dois originais, “Blue do Aljube” e “Rock dos Bons Malandros”. No início de 1986, Veloso interpretou “Rock da Liberdade”, uma canção com letra de António-Pedro Vasconcelos que serviu de hino de campanha da candidatura vitoriosa de Mário Soares às eleições presidenciais desse ano.

 

 

A conclusão do quarto álbum de originais de Rui Veloso teve de ser adiada devido a problemas do artista como o seu divórcio, dificuldades financeiras ou a operação às cordas vocais a que foi submetido. Em Dezembro de 1986, surgiu nas lojas o LP para o qual Tê e Veloso escolheram o título Os Vês Pelos Bês, mas a que a Valentim de Carvalho preferiu chamar simplesmente Rui Veloso (numa reedição em CD de 2010, o álbum passou a ter o nome original). Entre os êxitos saídos do disco, destacaram-se dois temas muito populares. “Porto Côvo” reforçou a notoriedade da povoação alentejana e contribuiu para o desenvolvimento turístico daquela freguesia do concelho de Sines, que homenagearia em 2011 Rui Veloso e Carlos Tê atribuindo os seus nomes a ruas da localidade. Por seu turno, “Porto Sentido” tornou-se o hino oficioso da cidade do Porto, tendo a canção surgido como destinada ao fadista Carlos do Carmo, antes da música de Rui lhe dar um toque de morna e blues que convenceu Tê a colocá-la na voz do amigo. O sucesso comercial de Rui Veloso, traduzido na distinção de Disco de Platina, garantiu ao músico uma estabilidade profissional inédita e deu origem a uma digressão marcada pelos primeiros concertos de Veloso nos Coliseus de Lisboa e Porto, ocorridos entre Maio e Junho de 1987. A actuação na sala portuense ficou registada no duplo álbum Rui Veloso ao Vivo (1988), também platinado, onde o cantor revisitou Ar de Rock e os seus sucessores, passando pelo inédito “Fado do Ladrão Enamorado”, sob os aplausos de um público entusiasta. A relação especial entre Rui e a Invicta foi realçada em 1988 pela Câmara portuense ao atribuir ao guitarrista a Medalha de Mérito da Cidade do Porto – Grau Prata.

Em Março de 1990, Rui Veloso viu um sonho tornar-se realidade ao tocar com BB King nos quatro concertos que o mestre dos blues deu então em Portugal, numa experiência que se repetiria em 1996 e 1998. Durante o primeiro semestre de 1990, Veloso trabalhou nas gravações de um projecto que desenvolvera com Carlos Tê ao longo de quase uma década, o álbum conceptual Mingos & Os Samurais, baseado na história de uma banda fictícia do início dos anos 70. Composto por 22 faixas repartidas por dois discos, o álbum incluiu músicas que conquistaram as rádios nacionais como “O Prometido É Devido”, “Um Trolha d’Areosa”, “Não Há Estrelas no Céu” ou “A Paixão (Segundo Nicolau da Viola)”. A partir do lançamento em Agosto de 1990, Mingos & Os Samurais explodiu no mercado e atingiu a marca inédita de sete Discos de Platina, correspondentes a 280 mil cópias vendidas. O sucesso reflectiu-se também nos concertos efectuados nesse ano por Rui Veloso em salas apinhadas de Lisboa, Porto, Cascais, Amadora e outras cidades. Já em 1991, Rui fez vários espectáculos junto das comunidades portuguesas nos EUA e no Canadá e, em Julho, tocou para cerca de 50 mil pessoas na primeira parte do concerto de Paul Simon no Estádio José Alvalade. Pelo meio, participou na banda sonora da série televisiva da RTP Claxon, com o tema “Rastos de Azul” (António Avelar Pinho/Rui Veloso).

Enquanto Mingos & Os Samurais ainda dominava os tops, Carlos Tê e Rui Veloso voltaram ao estúdio de Paço de Arcos para gravar uma encomenda da Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, o duplo álbum Auto da Pimenta, centrado numa perspectiva da Expansão lusa a partir das experiências dos indivíduos comuns que nela participaram, traduzidas em composições como “Nativa”, “À Sombra da Tamareira” ou “Logo que Passe a Monção”. Apesar de ter alcançado dois Discos de Platina após ser posto à venda em Dezembro de 1991, Auto da Pimenta, o último trabalho de Veloso editado em vinil, não recebeu a divulgação prometida pela Comissão. Em Junho de 1992, Rui Veloso foi agraciado por Mário Soares com o título de cavaleiro da Ordem do Infante D. Henrique (o músico seria elevado ao grau de comendador em 2006, já com Jorge Sampaio na Presidência da República). Nesse ano, Veloso gravou o single “Maubere”, um tema de solidariedade com a causa de Timor-Leste no qual colaboraram artistas como Rão Kyao, Carlos Paredes e Nuno Bettencourt. Igualmente no âmbito do apoio ao futuro país asiático, Rui Veloso actuou no espectáculo colectivo “Timor Livre”, levado à cena no Centro Cultural de Belém em 12 de Novembro de 1994.

Quase tudo na mesma

O concelho de Odivelas não motivou grandes referências nos media quer antes quer depois da votação para as eleições autárquicas, provavelmente devido à existência de um vencedor anunciado. Tal como se previa, a abstenção não deu hipóteses e melhorou o seu resultado de 2017, atingindo 56,58%. Este forte abstencionismo odivelense, um fenómeno específico das autárquicas, está ligado ao afastamento da política local (que parece só surgir de quatro em quatro anos) do quotidiano das populações, devido a factores como o reduzido espírito comunitário dos munícipes, a falta de contacto destes com o trabalho das autarquias ou a ausência de cobertura mediática que impede o desenvolvimento de um espaço comum onde as diferentes correntes políticas possam discutir. Ao longo da campanha, verificou-se apenas um debate promovido pela Iniciativa Liberal, cuja má organização e falta de imparcialidade levaram à ausência de praticamente todos os candidatos à presidência da Câmara de Odivelas. A impressão permanente foi a de que as diferentes candidaturas faziam os seus percursos sem nunca se cruzarem, de tal modo escasseavam o diálogo e o contraditório. Entretanto, apesar dos meios de campanha tradicionais como cartazes, arruadas e folhetos serem ainda essenciais para familiarizar o eleitorado com os potenciais autarcas, multiplicam-se as dúvidas sobre a capacidade desses métodos para despertar o interesse do público-alvo. Ao fim e ao cabo, quem liga aos cartazes, quem fala com as comitivas, quem lê os programas? Neste tipo de sufrágio, as redes sociais pouco contribuem para atenuar o problema, uma vez que as páginas dos candidatos no Facebook e no Instagram apenas alcançam os já convertidos às respectivas causas. Em resultado disto tudo, só os odivelenses mais politizados se dão ao trabalho de frequentar os edifícios públicos do município no dia dos três boletins.

O facto da população votante ser praticamente a mesma de eleição para eleição torna improváveis mudanças na liderança do concelho. Como sempre desde 2001, o PS sagrou-se vencedor, renovando a maioria absoluta e a presidência das quatro juntas de freguesia. Os autarcas socialistas têm realizado um trabalho positivo, embora a falta de alternância torne difícil imaginar o que poderia ser feito de diferente na terra da marmelada. O triunfo de Hugo Martins foi ao ponto do PS somar mais do dobro dos votos na coligação de Marco Pina. Sem colocar em causa as qualidades pessoais de Pina, parece óbvio que o comentador da CMTV errou em aspectos como a aposta excessiva na sua faceta de estrela da televisão e amigo da Maya e do Futre (esses cargos não garantem necessariamente votos) ou a confusão entre a campanha odivelense e a pré-campanha para as directas do PSD, marcada pela ausência vistosa de Rui Rio e pelas presenças nada discretas de Paulo Rangel e Miguel Pinto Luz em solo odivelense. Noutro sector político, a CDU já teve uma presença importante na vida política do concelho, apoiada no carismático Ilídio Ferreira, ex-presidente da Junta da Ramada e candidato à liderança da CMO em 2005 e 2009, mas agora não foi além de uns pálidos 10,83% que lhe retiraram um dos dois vereadores de que dispunha. O pormenor do Polidesportivo Honório Francisco ser referido como “Pavilhão Honório Novo” num folheto de Dilar Pelica, cabeça de lista da CDU à Assembleia de Freguesia de Odivelas, é um daqueles pequenos detalhes que revelam o crescente isolamento do PCP, sempre a fazer a mesma campanha desde o século XX.

 

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A principal mudança registada nas opções da minoria participante no sufrágio verifica-se na estreia do Chega (8,71%), pontuada com o quarto lugar e a eleição de um vereador e três deputados municipais. O resultado de André Ventura (poucos dos odivelenses que votaram no Chega saberiam o nome do irrelevante candidato do partido à Câmara) no concelho é um exemplo do tipo de estatuto que a sua organização pode ganhar no mapa autárquico nacional: longe do poder, mas nem por isso irrelevante. Os estudos de mercado encomendados por Ventura para lhe permitirem escolher as ideias políticas mais rentáveis salientaram a importância de subúrbios como Odivelas, onde o discurso da direita tradicional pouco diz a gente de classe média baixa sem perspectivas de enriquecer através da criação de grandes empresas, mas que se encontra disponível para ouvir quem lhe estimule o ressentimento e uma revolta vaga contra tudo, a começar no cigano que está ali ao lado e a acabar no distante político supostamente banhado no luxo. Mais abaixo na tabela, o Bloco de Esquerda, o PAN e a IL obtiveram o escasso número mínimo de votos do qual nascem representantes na Assembleia Municipal, deixando claro que as autárquicas não são a praia destes partidos. E pronto, foi isto. Os odivelenses prosseguem o seu quotidiano, satisfeitos por saberem que só em 2025 voltarão a ser importunados na rua por grupos de pessoas com papéis e bandeiras.

Os meus sobrinhos

Tenho dois sobrinhos, um rapaz com seis anos e uma rapariga com dois. Não vou partilhar aqui os nomes e imagens deles, numa tentativa de proteger a privacidade dos miúdos até ambos terem as suas próprias contas no Instagram (ou, mais provavelmente, noutra rede social que então estará na moda). Por isso, imaginem dois sorridentes moços lisboetas que gostam de brincar no parque, ver desenhos animados no You Tube e testar os limites da paciência dos pais. Num momento, são teimosos e caprichosos como só as crianças conseguem ser, para logo a seguir se tornarem inocentes e ternurentos ao ponto de derreterem o coração mais empedernido. Ainda parecem desenhos inacabados a que se acrescenta um traço a cada dia, mas por vezes mostram características psicológicas capazes de perdurar pela vida fora.

Muito me ensinaram estes dois infantes ao longo dos últimos anos. Desde logo, revelaram-me uma forma de amor que desconhecia, sempre acompanhada pelo medo de que algo perigoso lhes aconteça. Impressionaram-me pela naturalidade com que entraram no filme, como se estivesse tudo preparado há muito tempo no plateau para eles surgirem diante das câmaras, e pela rapidez e eficácia da sequência em que o mais velho deixou a sua actuação a solo para constituir uma dupla imbatível com a irmã. Fizeram-me compreender melhor a ideia da mudança e da continuidade na história e despertaram o meu interesse pelos antepassados de que eles são herdeiros sem o saberem. Recordaram-me como correr atrás de bolas podia ser divertido, levaram a que descobrisse coisas que já deveria conhecer (como a música de José Barata-Moura ou os livros da colecção do Sapo, de Max Velthuijs) e aumentaram muito o meu interesse pelo futuro. Para além, é claro, de provarem a conclusão óbvia de que, apesar das ordens serem dadas pelos adultos, são os putos quem verdadeiramente está no comando da família desde o dia em que nascem.

 

 

Ao mesmo tempo, os catraios enchem-me de dúvidas. Para começar, seria preferível que eles continuassem pequenos e fofinhos ou que precisassem em breve de usar a senha do Portal das Finanças? E até começarem a engrossar a receita fiscal do Estado, o que posso eu fazer por eles? Conseguirei explicar-lhes que Deus está no silêncio? Contar-lhes o choque que sentimos quando as Torres Gémeas foram destruídas? Descrever-lhes o ambiente apocalíptico das semanas em que a pandemia que eles eram demasiado novos para compreenderem (ou talvez não) começou? Pedir-lhes perdão por não ter feito mais para travar as alterações climáticas? Recordar com saudade o tempo em que não havia VAR no futebol? Falar-lhes do que aconteceu com D. Afonso IV quando forem adolescentes e erguerem as espadas contra os pais? De momento, é impossível saber, mas pouco importa. Os meus sobrinhos escreverão a sua própria história usando palavras que ainda nem sequer foram criadas e eu limitar-me-ei a lê-la com uma eterna expectativa pelo que acontecerá no próximo capítulo.

 

 

Perguntas da criança curiosa

Mas afinal o que é o socialismo?

O que é o sistema?

O que é o regime?

O que é a oligarquia?

Quem expulsa os poderosos não se torna o novo poderoso?

Se todos os países baixarem os impostos, as empresas investem em todo o lado?

Se os colégios privados dependem assim tanto do financiamento estatal, não há algo de errado com o negócio deles?

A ideia não era que a esquerda queria mudar o mundo e a direita mantê-lo tal como está?

Há alguma medida que garanta por si mesma que nascerão mais crianças?

Porque é que se diz que um político se aproxima do “povo” quando se comporta como se fosse um puto?

Como é que as mesmas pessoas que arrasam diariamente o Estado e a política querem que apareçam novos políticos?

Quando se diz que se quer “devolver a cidade às pessoas”, isso significa que actualmente a cidade pertence aos cães?

Se disser aos gritos que o meu adversário é intolerante, passo a ser tolerante?

Entre o politicamente correcto e o politicamente incorrecto, não será que as pessoas simplesmente têm cada vez mais dificuldade em aceitar a existência de coisas de que não gostam?

Ser egoísta é ser rebelde?

A democracia directa é uma forma radical de liberalismo?

 

 

Haverá algo mais perigoso do que um revolucionário que acredita mesmo naquilo que diz?

Para ser um conservador, é obrigatório acreditar que actualmente se vive um frenesim hedonista em que toda a gente só faz o que lhe apetece?

Porque estamos sempre a ouvir que aquilo que é público deve ser privado e aquilo que é privado deve ser público?

Há partidos com projectos de poder e outros que estão nisto da política pelo convívio?

Existirá sempre uma crença absurda para justificar algo que beneficia os nossos interesses?

Se num mundo sem religião não haveria violência, o que aconteceu na União Soviética?

Anunciar que algo não é ideológico é em si mesmo uma ideologia?

Porque é que a indignação vende tão bem?

Os portugueses estão mais exigentes com os políticos ou apenas com os políticos da outra trincheira?

Os eleitores votam sempre em quem lhes paga?

Porque é que os jovens e os idosos são todos iguais e cada indivíduo de 40 anos é diferente dos outros da mesma idade?

Poderá a propaganda política não ser nem demasiado convencional nem demasiado tolinha?

O que é que os países da Europa de Leste têm que nós não temos?

Quem está dentro da bolha e quem sopra no sabão?

Odivelas, que futuro?

Não se prevêem grandes novidades nas eleições autárquicas em Odivelas, até porque PS, CDU e BE apresentam os mesmos candidatos de 2017 (Hugo Martins, Painho Ferreira e Paulo Sousa, respectivamente) e Marco Pina, o rosto de uma coligação composta pelo PSD e por seis pequenos partidos (CDS, PPM, MPT, Aliança, PDR e RIR), não parece estar a gerar uma vaga de fundo semelhante àquela que quase levou Hernâni Carvalho à vitória em 2009. A maior incógnita diz respeito aos resultados dos estreantes Chega e Iniciativa Liberal. Embora o candidato cheguista à Câmara seja o empresário de 63 anos Nuno Beirão, parente de Francisco Sá Carneiro, a verdadeira estrela é Hugo Ernano, o célebre militar da GNR que matou uma criança cigana numa perseguição em 2008 e pode agora ser eleito deputado municipal. A IL apresenta uma lista encabeçada por Filipe de Sousa Martins, mas, como é habitual nos liberais, o candidato (uma “pessoa comum”) vê a sua individualidade anulada e limita-se a ser um pregador do programa eleitoral, no qual são referidas várias estruturas que seriam criadas pelo Município e exploradas por privados. Sem sondagens disponíveis, podemos apenas especular se o PS manterá a presidência de todas as juntas de freguesia, o PAN conseguirá ficar na Assembleia Municipal ou as novas forças à direita causarão rombos na votação de Pina. As redes sociais, onde predominam pessoas ligadas aos partidos e outras que desconfiam mal vêem um político a aproximar-se delas, não contribuem muito para o esclarecimento das tendências eleitorais. Para lá dos cartazes e dos ainda poucos folhetos difundidos, os candidatos fazem campanha através de visitas a instituições da sociedade civil (muito melhor que a sociedade militar) como IPSS, clubes ou congregações religiosas. Ignora-se até que ponto as restrições sanitárias permitirão contactos directos com o eleitorado na rua nas semanas anteriores a 26 de Setembro.

Em resumo, parece natural que se repita uma abstenção superior a 50%. Na verdade, o poder local, apesar da sua proximidade, costuma ser aquele que os odivelenses menos acompanham e escrutinam. A actividade das juntas de freguesia, centrada em funções essenciais ao quotidiano (limpeza das ruas, conservação de zonas verdes, assistência alimentar aos mais pobres, etc.) mas por isso mesmo banais, passa geralmente despercebida. Relativamente à CMO e à AMO, não existe muita informação para lá daquela que os próprios partidos e autarquias fornecem, devido à ausência de uma imprensa local credível e de um público disponível para consultá-la. A tradicional falta de espírito comunitário num concelho onde muitos habitantes vieram de outro município, país ou continente também não ajuda ao interesse pelas questões locais. A maioria dos cidadãos só contacta com as entidades autárquicas quando estas lhe fornecem algum serviço ou realizam projectos que interferem com o seu quotidiano. Por esse motivo, episódios recentes como as obras na Avenida D. Dinis e noutras artérias da sede de concelho ou o funcionamento do centro de vacinação no Pavilhão Multiusos (aquele onde Gouveia e Melo subiu para o tejadilho do carro) podem influenciar o sentido de voto da população que ainda se dirige às urnas.

 

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Seria bom compreender como é heterogénea esta Odivelas já com 23 anos de governação autónoma. As ruas construídas por Tomás José Olaio que acolheram o crescimento populacional vertiginoso dos anos 60 e 70 parecem agora pertencer a uma época distante e até as torres de bairros como a Arroja e a Codivel sofrem a erosão do tempo. Surgidas já no século XXI, as Colinas do Cruzeiro tornaram-se uma cidade dentro da cidade e os colinenses são olhados por outros odivelenses com um misto de inveja e preconceito de classe. Pessoas muito diferentes ao nível da religião, do rendimento ou das qualificações fixaram-se em Odivelas devido às acessibilidades e aos preços da habitação, fazendo nascer gerações que cresceram numa terra em expansão quase contínua mas pouco consciente do seu passado. Sem fugir à sua condição de arrabalde, mas provando que o subúrbio não é todo igual, Odivelas oscila entre extremos e por vezes parece um microcosmos do país. Analisados em detalhe, os resultados eleitorais conhecidos já no dia 27 poderão ajudar a detectar a expressão política da pluralidade local.

 

P.S. Comprem na Churrasqueira Odimar, uma das lojas mais antigas de Odivelas. Estamos disponíveis para encomendas de partidos interessados em atrair eleitores ao Frango Liberal ou à Festa Socialista do Queijo de Nisa.

Ao ritmo das redes

Durante a campanha para as eleições europeias de 2009, o Bloco de Esquerda distribuiu um folheto com o título “Facebloco” e um grafismo imitando o layout então utilizado pelo Facebook. Além de fotografias e supostos posts dos candidatos Miguel Portas, Marisa Matias e Rui Tavares, o folheto incluía secções como “Amigos”, “Causas”, “Agenda” ou uma lista de adversários “Bloqueados” por um BE que “está a mudar a Europa, a mudar Portugal”. Numa altura em que o Bloco se opunha a propostas de vigilância da Internet (“Tirem as patas dos nossos computadores”), o Facebook e as outras redes sociais (RS) eram ainda uma novidade usada por Cavaco Silva para parecer moderno e cujas consequências políticas permaneciam desconhecidas. Muito mudou desde então quer nas RS quer na política portuguesa, modificada pelos espaços virtuais em diferentes aspectos.

 

O ritmo: Tudo acelerou. Um dia noticioso passou a ser uma eternidade e qualquer reacção a um facto deve ser instantânea para não ficar automaticamente desactualizada. A pressão feita por sucessivos comentários escritos online em poucos minutos pode conferir a um tema da actualidade dimensões esmagadoras para os envolvidos. A discussão nos cafés gigantes da Internet torna o escândalo instantâneo e incontornável. Não há como fugir ao ruído e políticos como Marcelo Rebelo de Sousa, por mais que se anunciem distantes das RS, mantêm os ouvidos sempre atentos ao clamor destas. No entanto, a rapidez com que uma polémica cresce só é superada pela rapidez com que ela desaparece. Cada semana, cada dia, cada hora são espaços delimitados onde se vive de forma intensa e efémera. Este ritmo até pode parecer estimulante, mas na verdade faz lembrar o quotidiano de uma criança birrenta.

 

O conteúdo: Antes das RS, o discurso político guiava-se pela elevação, pelo rigor estilístico da oratória e pela análise aprofundada dos temas debatidos. OK, não era bem assim, mas o incentivo de plataformas como o Twitter e o Facebook à brevidade dos textos e à utilização de frases curtas e fortes, mais slogans e menos argumentos, contagiou a linguagem dos políticos, jornalistas e comentadores. Muitos deles acabaram, consciente ou inconscientemente, por adaptar o léxico aos gostos de quem faz “gosto” nos conteúdos que as figuras mediáticas produzem a pensar no nicho do qual depende a sua relevância pública. O resultado foi o predomínio de um português cada vez mais básico, inflamado e homogeneizado de acordo com aquilo que a plebe supostamente aprecia. Tentar superar essa fasquia constitui um sinal evidente do elitismo de quem usa palavras complicadas para enganar o povo.

 

Fake: Sim, a mentira sempre foi usada como arma política através de boatos e falsificações. Porém, a rapidez de difusão e o alcance planetário que a desinformação pode ganhar num meio como as RS dão uma dimensão completamente nova ao problema. Ora essa, quem seria ignorante ao ponto de acreditar em qualquer disparate publicado num site manhoso que lhe apareça no telemóvel? Bem, para além de nunca se dever subestimar o poder da estupidez, há que ter em conta que as fake news vão sempre de encontro àquilo que já pensamos. Se não gostarmos de um político, uma mentira sobre um suposto acto malévolo da sua autoria só acentuará as nossas convicções quanto a ele e aumentará o apoio aos seus adversários. Nem precisa de ser uma completa aldrabice: basta pegar numa informação, isolá-la das restantes e apresentá-la no ângulo certo para gerar a indignação pretendida. Como os factos não mentem (risos), o alvo será irremediavelmente desacreditado. Claro que o visado pode vir explicar, desmentir ou contextualizar e, pouco depois, o episódio em causa será esquecido como todos os outros (até um dia ser recuperado como se fosse novidade), mas a indignação fabricada perdurará para sempre no coração de quem a sentiu.

 

Admirável mundo novo: As RS trouxeram uma democratização da opinião publicada que transformou cada um de nós num comentador político, desportivo, económico, etc., enquanto a troca de dados e ideias atingiu dimensões nunca sonhadas. Nos suportes virtuais, foram alcançadas a liberdade, a igualdade e a fraternidade plenas, vividas num mundo em que podemos dizer tudo o que quisermos, a opinião dos leigos vale tanto quanto a dos especialistas e há sempre mais alguém que pensa como nós e gosta do que dizemos. É a distopia perfeita. Nela, qualquer discurso pode ser arrasado, qualquer informação contraditada, qualquer preconceito normalizado. O grande risco está na tendência para fazer esta lógica sair dos ecrãs e alastrar à política da vida real.

 

 

A fragmentação: O sucesso dos novos partidos seria impossível sem as RS, como o próprio André Ventura reconheceu ao destacar como elas permitiram ao Chega contornar as barreiras na comunicação social e difundir a sua mensagem em larga escala. As redes facilitaram também a aproximação de pessoas com opiniões semelhantes e a estruturação interna das novas formações políticas em núcleos diferentes do velho modelo de concelhias e distritais, além de proporcionarem meios de propaganda mais baratos que os tradicionais cartazes e panfletos. Após a entrada no Parlamento, bastou a IL e Chega disporem da atenção das câmaras da ARTV para criarem inúmeros vídeos partilhados online nos quais os seus líderes saem sempre vencedores dos duelos verbais com deputados de outros partidos. Enquanto estes não conseguiam descolar da antiga política feita para a televisão, os recém-chegados lançaram truques direccionados para as RS, como a apresentação de resultados de votações na Assembleia da República que, podados de explicações e contraditórios, mostravam como os adversários votavam sempre contra o bem e a justiça. Tudo isto contribuiu para uma maior fragmentação das preferências eleitorais e retirou dinamismo aos partidos oriundos de 1974. Sem avaliar aqui as virtudes e defeitos deste fenómeno, há que reconhecer que o efeito de bolha presente nas RS leva o discurso de cada partido a dirigir-se a um público muito específico e ideologicamente demarcado, com os líderes a recearem sempre perder a limitada base de fiéis de que ainda dispõem. Ao contrário dos tempos em que políticos de casacos respeitáveis como Paulo Portas detinham o monopólio da “gritaria”, agora pode sempre aparecer alguém que grite mais alto nas RS de modo a atrair para si as atenções e os eleitores.

 

O delay: Aprovação da Carta de Direitos Humanos na Era Digital, nomeação de Pedro Adão e Silva para dirigir as celebrações dos 50 anos do 25 de Abril, acidente de viação com o automóvel de Eduardo Cabrita. Logo que estes e outros eventos ocorreram, verificou-se um intenso escrutínio político e mediático em que os dirigentes da oposição apresentaram protestos espontâneos e com palavras da sua autoria, enquanto os jornalistas seguiam o instinto profissional e procuravam a verdade de forma objectiva. Foi isto que aconteceu? Claro que não. Só vários dias ou semanas depois dos acontecimentos, quando começaram a proliferar nas RS os rumores, as queixas e as acusações, foram repentinamente captadas pelos microfones apressadas proclamações do tipo “Ah, claro, é um escândalo, uma vergonha”. Não se trata de uma situação muito grave, mas faz bater as saudades. Lembram-se? Houve uma época em que os partidos eram relevantes ao ponto de influenciarem a agenda mediática, antes de entregarem esse poder a Rui Pinto e outros utilizadores do Twitter.

Ser católico

Os meus avós eram católicos fervorosos, embora seja questionável se no meio e na época em que eles viviam alguém poderia pensar em ser outra coisa. Obviamente, transmitiram a sua crença aos filhos e, pouco depois de eu nascer, os meus pais levaram-me à velha igreja matriz de Odivelas para receber o baptismo e começar a assistir à missa ainda antes de perceber o que lá era dito. Frequentei a catequese durante nove anos, sob a orientação de uma jovem catequista que depois se converteu ao comunismo. Se alguém disser de repente “creio em um só Deus”, consigo prosseguir a oração graças à minha mãe, que escreveu o Credo em folhas que li sucessivamente até decorar o texto elaborado no século IV. Nos anos 90, a Igreja Católica já enfrentava organizações concorrentes, as quais, pelo que então ouvia, consistiam sobretudo em grupos de pessoas meio esquisitas (as Testemunhas de Jeová) ou ingénuos burlados por “pastores” com sotaque brasileiro. Nada de comparável, portanto, à placidez das missas celebradas na matriz ou na igreja do Mosteiro, onde a música oscilava entre cânticos sonolentos entoados por velhos e os acordes de guitarra dos coros de jovens. Depois do crisma, tive de responder à pergunta “que farei com esta cruz?” Entre familiares que “adormeceram na esperança da ressurreição”, outros que se viram livres da formação cristã recebida e passaram a zombar da Igreja e ainda outros para quem a religião foi sempre um fenómeno remoto, optei por manter o terço no meu quarto, mas sem um envolvimento para lá de uma missa de vez em quando. Já tinha compreendido que o baptismo, ao invés de facilitar, torna mais exigentes as nossas vidas e ser cristão a sério inclui a obrigação de (usando uma expressão horrenda) sair da nossa zona de conforto. Sem uma fé suficientemente resistente para um esforço desses, achei que não valia a pena fingir ser aquilo que não era, até porque seria impossível enganar um Deus que me conhecia tão bem. A minha dúvida sempre foi sobre a forma como a crença de que Jesus ressuscitou se traduz no nosso quotidiano depois da missa acabar.

 

O que significa ser católico em Portugal hoje em dia? À primeira vista, continuamos a gozar o conforto de ser uma vasta maioria herdeira de uma cultura milenar, mas, analisando os pormenores para lá da multidão que enchia o Santuário de Fátima (o catolicismo português por vezes parece resumir-se ao culto mariano) antes da pandemia, percebe-se que os católicos deixaram de jogar sempre em casa. Não é caso para achar, como Henrique Raposo, que um dia nos vão prender e atirar aos leões (ou seja, obrigar-nos a enfrentar sozinhos uma turba da Juve Leo) se nos ouvirem rezar um Pai-Nosso, mas o ambiente social e cultural laicizou-se bastante nas últimas décadas. No discurso mediático, o Natal e a Páscoa foram descristianizados, comercializados e transformados em festas da comida desprovidas de conteúdo espiritual. Ao perder o ascendente político que parecia eterno, inclusive durante os primeiros anos de democracia, a Igreja assistiu impotente à legalização do aborto, do casamento homossexual e, em breve, da eutanásia. O clero acompanha e regista cada vez menos o nascimento, casamento e morte dos portugueses, enquanto os fiéis envelhecem e os novos sacerdotes escasseiam. A presença de referências ao Cristianismo na produção cultural (música, televisão, literatura, etc.) tornou-se residual. O discurso de vitória de 2016 que Fernando Santos encerrou com aquele “seja tudo para glória do Seu nome” causou estranheza pela raridade de uma manifestação sincera de fé no espaço público. A pouco e pouco, os católicos estão a transformar-se nas pessoas meio esquisitas, olhadas não propriamente com hostilidade, mas com uma certa estranheza. Assustados, alguns clérigos e leigos sentem que os bárbaros estão a chegar à cidade e refugiam-se atrás das muralhas, maldizendo o “politicamente correcto”.

 

 

E, no entanto, nada disto é necessariamente mau. Sobretudo desde que há oito anos o Papa Francisco pegou no balde e na esfregona para iniciar a necessária limpeza da casa de Deus, sabemos que a Igreja não precisa de se fechar em si própria, mas de contactar com o mundo real e mostrar a face do perdão e da tolerância. Sem o amparo do poder nem a capacidade de impor a sua visão do mundo à sociedade, o catolicismo tem de apostar no exemplo e na persuasão, não deixando de olhar para si mesmo e enfrentar aquilo que antes era varrido para baixo do tapete. Apesar de não serem uma solução mágica, o fim do celibato dos padres e a ordenação de mulheres poderiam reforçar a atractividade da carreira religiosa. Convencer as pessoas a serem católicas actuando num mercado livre, e já não numa situação de monopólio, será certamente mais difícil, mas também mais estimulante. A grande força da religião cristã reside na ideia de que as portas da Igreja estão sempre abertas para receber qualquer pessoa que se arrependa dos seus pecados e deseje encontrar a paz. Valorizar devidamente esta característica do nosso produto é o melhor truque publicitário.