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Desumidificador

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Os profetas

Num canal de notícias, o intervalo publicitário acaba e uma pivô entra no ar. A jornalista apresenta um painel de convidados formado por quatro comentadores políticos e pergunta a cada um deles quais serão os resultados das próximas legislativas e que governo sairá do acto eleitoral. O primeiro responde: “Não sei”. O segundo exclama: “Sei lá!” O terceiro encolhe os ombros: “Ainda falta muito”. O quarto tenta ser engraçado: “Deixei a bola de cristal em casa”. Imediatamente, a apresentadora conclui: “E assim termina o nosso programa de análise política. Já a seguir, não perca três horas de discussão sobre futebol. Boa noite”.

 

Obviamente, isto nunca aconteceria na vida real. Grande parte do comentário político português é preenchida por descrições daquilo que ainda não aconteceu. Nas últimas semanas, multiplicaram-se os prognósticos acerca do futuro da Geringonça, das eleições a realizar em 2019 e do governo que delas resultará. Com certezas inabaláveis, os analistas prevêem ao milímetro tudo o que vai suceder daqui a mais de um ano. Da mesma forma, apesar do mandato de Marcelo Rebelo de Sousa ainda ir a meio, já se discute a sua recandidatura em 2021. Esta impaciência não é nova, uma vez que Marcelo, quando era comentador da TVI, lançou durante anos nomes de possíveis candidatos às presidenciais de 2016, à excepção de si próprio. Fala-se muito em falta de visão de futuro na política portuguesa, mas esta vive sempre com os olhos postos na próxima ida a votos. Embora Marques Mendes, o “bruxo de Fafe”, se considere o mestre da profecia, todos os comentadores têm um pouco de adivinhos.

 

 

A tradicional previsibilidade da política nacional tem facilitado o trabalho dos videntes, que geralmente necessitam apenas de prever os movimentos de meia dúzia de actores políticos, conhecidos há muito tempo e cujos avanços ou recuos são antecipáveis a longa distância. Nos últimos anos, porém, enquanto os peritos estrangeiros eram desmentidos por reviravoltas políticas inesperadas como o Brexit e a vitória de Donald Trump, o comentariado português também vivia momentos de estupefacção. Nas legislativas de 2015, a vitória do desconhecido PAN no “campeonato” dos pequenos partidos, quando se esperava a chegada ao Parlamento de celebridades como Rui Tavares ou Marinho e Pinto, constituiu uma pequena surpresa, ultrapassada pelo que se passou nas semanas seguintes. Tendo em conta que a previsão mais comum dos analistas é que o futuro será semelhante ao passado, o aparecimento de circunstâncias inéditas, neste caso uma coligação parlamentar entre PS, BE e PCP, causou desorientação geral nos opinion makers. As previsões catastrofistas não concretizadas foram o efeito lógico da falta de imaginação e de precedentes. Já em 2017, quase ninguém antecipou a queda com estrondo de Pedro Passos Coelho após o mau resultado do PSD nas autárquicas. Apesar dos abundantes erros de previsão, nenhum dos comentadores pediu desculpa. Afinal, quem se enganou foi a realidade, não foram eles.

 

A que se deve tamanha insistência nos vaticínios relativos ao futuro político, como se o inesperado não existisse? Acima de tudo, à necessidade de preencher tempo de ecrã e espaço no papel ou no digital. Entretanto, muitas questões políticas e económicas revelam-se demasiado graves para serem deixadas ao sabor do acaso, pelo que o público, desejoso de um mínimo de previsibilidade que lhe permita “fazer planos do que virá depois”, exige implicitamente a realização pelos analistas de um trabalho análogo ao dos meteorologistas do IPMA. Por seu turno, a opinião publicada serve-se da futurologia não apenas para interpretar os factos, mas também para influenciá-los. Além de elaborarem augúrios favoráveis aos seus interesses pessoais e partidários, os videntes ajudam a criar dinâmicas de vitória e derrota capazes de influenciar os resultados eleitorais. Profetizar sucessivamente o triunfo ou o fracasso inevitável de um candidato pode estimular os votantes a colocarem-se do lado do provável vencedor ou, num raciocínio mais rebuscado, considerarem desnecessário o “voto útil”, já que o resultado está predefinido.

 

A natural inquietação humana com a incerteza do amanhã contribui para que as descrições de factos ainda não acontecidos proliferem nos media. Contudo, seria bom se os comentadores políticos acompanhassem as suas previsões das cautelas seguidas pelos seus colegas do desporto. Afinal, a política não é assim tão diferente do futebol, onde uma bola que entra ou não entra na baliza pode alterar o rumo de um jogo ou mesmo de um campeonato inteiro. Existem sempre cenários mais prováveis que outros, mas, se os comentadores fossem infalíveis, o muro de Berlim e as Torres Gémeas ainda estariam de pé.

Diabinhos

O Diabo, 10 de Julho de 2018

 

 

Cândido Morais: “ (…) em Portugal, uma grande fatia do Orçamento do Estado para a investigação é gasta na área da sociologia! O povo português está a pagar para que esses doutorados em materialismo marxista descubram a melhor forma de destruir a Família e outros valores morais herdados dos nossos antepassados! Por ser o maior e mais forte, o Partido Socialista é o principal instrumento ao serviço do marxismo em Portugal. (…)” (p. 22)

 

Isaías Afonso: “ (…) O jovem cretino que lidera a bancada (do PCP) não teve a mínima noção do “fair play”. O jovem mais parecia um boçal da estepe russa a debitar “boutades”, qual “langue de bois”, numa linguagem de cloaca, própria dum guardador de varas do Alentejo, isolado na planície do que foi o “celeiro de Portugal”. (…) Atente-se às respostas dadas pelo PM Costa, quando é interpelado pela líder do CDS. Um verdadeiro trauliteiro incomodado pelo conteúdo da interpelação. (…)” (p. 16)

 

J.A. Alves Ambrósio: “ (…) Há que reiterá-lo: malangina de nascimento, V. Ex.ª (Assunção Cristas) tem por trás essa linhagem de que os lusíadas de antanho e de sempre se orgulham. (…) Quatro filhos com pouco mais de 40 anos e uma vida familiar, profissional e política, cuja urgência se intui – bem como a vigorosa combatividade perante esse Costa sem carácter – merecem uma estátua. (…) Durante a campanha para as últimas autárquicas, o retrato de V. Ex.ª frente aos semáforos poentes da Av. de Berna mostrava-a antecipadamente vitoriosa, ou seja, concreção da tal linhagem dos nossos “egrégios avós” “d’aquém e d’além mar em África…” É da mais elementar justiça curvar-me perante os que, na capital, a identificaram, ipso facto dando-lhe o voto. (…)” (p. 18)

 

João José Brandão Ferreira: “ (…) O nosso comentador, perdão, Presidente, numa ânsia de consolar tudo e todos, “integrar”, aumentar a coesão (vá-se lá saber de quê), ser inclusivo, etc., anda numa fona participando em todas as manifestações religiosas (porque não as “seitas”?) – mesmo as que são insignificantes, não têm nada a ver com a nossa matriz cultural, ou até são suas inimigas; (…) embarca numa cruzada estúpida, demagógica e perigosa, em querer trazer toda a casta de “migrantes” para dentro do País (não se esqueça de arranjar umas tendas para montar nos jardins do Palácio de Belém); condecora todo o bicho careta que lhe aparece pela frente, incluindo gente de mau porte que conspirou contra o País; e permite-se participar numa “homenagem” a um cantor “rock” cujo único mérito pessoal conhecido foi ter conseguido recuperar-se do vício da droga, num espectáculo circense, pimba, pífio e de muito mau gosto, para onde conseguiu arrastar (ou foram eles que se juntaram?) o Presidente da AR e o Chefe do Governo. (…)” (p. 17)

 

Manuel Silveira da Cunha: “ (…) Enfim, esta confusa filosofia veganista que enferma o PAN quis acabar com a tourada, querendo impor mais uma vez uma visão urbana, adocicada, branda e mole, mansa, da vida a todos os portugueses. (…) É caso para dizer aos senhores do PAN: se não gostam de touradas não vejam, não vão. Não queiram é impor a vossa doutrina totalitária a um País inteiro, não queiram matar a nossa identidade e transformar o que sobra de Portugal num pitoresco campo de férias nudista e vegetariano para turistas alemães gordos e anafados, que ainda por cima comem salchichas (sic). (…)” (p. 6)

 

 

P.S. Eu sei que associar o CDS ao fascismo é um cliché gasto, até porque Assunção Cristas e Adolfo Mesquita Nunes (nascidos já em democracia) se apresentam como representantes de uma direita moderna e arejada. No entanto, não será embaraçoso para Cristas, líder de um partido chamado Centro Democrático Social, receber o apoio de saudosistas do Estado Novo que deploram a “abrilada” e os “abrilistas”?

 

Comichões

Algumas atitudes que não são particularmente graves, mas irritam:

 

1. Dividir a paisagem política entre os “lunáticos” da esquerda e as pessoas sensatas e responsáveis.

 

2. Atacar a “oligarquia” e as “elites bem pensantes”, definindo-as de uma forma tão vaga que ambos os termos parecem significar “toda a gente que aparece na televisão e não pensa como eu”.

 

3. Colocar-se no “lado certo da História” e cheirar o bafio dos que estão no lado errado.

 

4. Esperar ansiosamente que a aberrante Geringonça termine e todos voltem às suas posições normais no jogo político.

 

5. Elaborar previsões detalhadas sobre o que acontecerá a seguir às próximas legislativas e, já agora, antecipar o resultado das presidenciais de 2026.

 

6. Criticar a moleza da sociedade actual, em que todos fazem apenas o que querem e já ninguém se sacrifica pelo bem da família e do país.

 

7. Negar a hipótese do populismo triunfar em Portugal, esta terrinha de gente pacata onde tudo continua na mesma há séculos.

 

8. Reduzir a política ao contraste entre os bravos que lutam e os cobardes que negoceiam.

 

9. Denunciar os amiguinhos dos bandidos e o seu paleio sobre os direitos e garantias, impeditivos de uma justiça mais dura.

 

10. Dizer sempre “a culpa é nossa” ou dizer sempre “a culpa não é nossa”.

À procura de um tema

“Desporto Novo num País Novo: A política desportiva no pós-25 de Abril (1974-1978)”. Este é o título de um projecto de investigação que ainda não existe, mas poderia existir. De facto, uma das lacunas da história do desporto em Portugal encontra-se nos anos da Revolução e da estabilização da democracia, quando, no meio do turbilhão de acontecimentos dessa época, os vários governos assumiram o objectivo de expandir a difusão da prática desportiva entre a população. Em simultâneo, a imprensa e bibliografia desportivas transmitiam um discurso fortemente politizado e marcado por clivagens ideológicas, na medida em que os diferentes projectos de regime e sociedade ligavam-se a concepções opostas do desporto e dos objectivos deste. No entanto, os estudos e testemunhos disponíveis acerca do desporto português nos períodos revolucionário e pós-revolucionário são bastante escassos.

 

À frente da Direcção-Geral dos Desportos (integrada no Ministério da Educação) entre 1974 e 1976, Alfredo Melo de Carvalho (visível na fotografia abaixo) foi o principal rosto da política desportiva tutelada pelos Governos Provisórios e do pensamento teórico que a suportava, também desenvolvido por autores como Manuel Sérgio e Arnaldo Pereira. Melo de Carvalho e a sua equipa de professores de Educação Física em comissão de serviço na DGD procuraram romper com o panorama desportivo herdado da ditadura, que consideravam elitista, alienatório e antidemocrático. A massificação do desporto, então praticado por uma reduzida minoria dos portugueses, deveria realizar-se através do apoio estatal aos pequenos clubes e a uma rede de núcleos das várias modalidades animados por voluntários e em ligação com as estruturas locais de “poder popular” (comissões de moradores e trabalhadores, conselhos de aldeia, etc.). Perante a escassez de verbas públicas disponíveis para a construção de pavilhões, piscinas e outras estruturas, incentivou-se a improvisação e o recurso a equipamentos básicos erguidos pelas próprias populações. O desporto, além de constituir um “direito do povo”, não seria um fim em si mesmo, mas uma forma de estimular a consciencialização política e a capacidade de auto-organização dos cidadãos. Estes princípios tinham por modelo a política desportiva de países “socialistas” como a RDA, a URSS ou Cuba, com os quais Portugal estabeleceu acordos de intercâmbio desportivo, e ficaram associados sobretudo ao PCP e a partidos satélites deste (FSP, MDP/CDE).

 

 

O discurso da DGD de Melo de Carvalho, apoiado por responsáveis governamentais como António Silva Graça (secretário de Estado dos Desportos entre Agosto de 1975 e Julho de 1976), deixava clara a condenação do profissionalismo desportivo e uma profunda desconfiança relativamente aos clubes “grandes” envolvidos no futebol profissional. A aposta nos núcleos de voluntários e nas pequenas colectividades visaria criar uma orgânica paralela ao desporto federado, cujos dirigentes entraram em confronto com o departamento estatal. O contexto posterior ao 25 de Novembro estimulou as críticas às iniciativas da DGD, acusada de partidarização e de criar uma massificação superficial, apesar da profusão de estatísticas oficiais relativas à participação de milhares de crianças de todo o país em programas como o Movimento do Desporto Infantil (MODI). Após a tomada de posse do I Governo Constitucional, formado pelo PS em Julho de 1976, verificou-se uma mudança de responsáveis na tutela do desporto, através da substituição de Melo de Carvalho e dos técnicos da DGD. Ao receber em S. Bento as direcções de Benfica, FC Porto e Sporting, o primeiro-ministro Mário Soares deu a entender uma nova relação de colaboração entre o Estado e os clubes e federações, considerados o meio natural para a expansão da prática desportiva. A estratégia dos primeiros governos constitucionais, prosseguida sem grandes alterações pelos executivos seguintes, conduziu a uma menor intervenção estatal no desporto, longe do espírito revolucionário da fase entre 1974 e 1976.

 

As fontes para o estudo deste tema incluem os numerosos livros, brochuras e periódicos editados e distribuídos pela DGD a partir de 1975, além, obviamente, da imprensa desportiva da época. Dentro desta, assume especial interesse o caso de A Bola, um trissemanário onde jornalistas próximos do PCP (Vítor Santos, Carlos Pinhão, Homero Serpa, Vítor Serpa, etc.), do PS (Carlos Miranda) ou da direita (Alfredo Farinha) promoveram nas suas colunas de opinião um debate aceso quanto ao rumo a seguir pelo desporto português. A relevância então atribuída ao tema comprova-se também pela sua presença assídua nos jornais generalistas. O Diário, controlado pelo PCP, publicou a partir de Janeiro de 1976 numerosos artigos na sua secção desportiva, inicialmente de apoio à política de Melo de Carvalho e Silva Graça e mais tarde de crítica à inversão de rumo empreendida pelos governos socialistas. Outros periódicos de todas as tendências ideológicas analisaram igualmente, no período em causa, a evolução da política desportiva, abordada nos programas de governo e em vários documentos partidários.

 

O problema é que, neste caso, transcrever aquilo que vem na imprensa, dominada por narrativas opostas, não chega para compreender o que aconteceu. Importa conhecer de que maneira o discurso das entidades oficiais e dos teóricos do desporto se traduziu no quotidiano, tornando-se difícil fazê-lo sem o estudo de casos particulares e a realização de entrevistas aos intervenientes no processo. Para lá dos responsáveis políticos, estes incluiriam, entre outros, técnicos, animadores, dirigentes, jornalistas e participantes nos eventos do “desporto popular” dinamizados após o 25 de Abril. No entanto, como seria possível identificar essas pessoas, contactá-las e recolher os seus depoimentos? Da mesma forma, o arquivo da DGD, à guarda do Ministério da Educação, apenas está disponível para consulta, pelo que sei, no que respeita à documentação anterior a 1974. Existe ainda a dificuldade de conciliar, no relato desta “história”, elementos teóricos e práticos, locais e nacionais, políticos e desportivos, efémeros e estruturais. Apesar do conteúdo aliciante do tema, as questões e problemas acumulam-se e originam dúvidas acerca da possibilidade de eu estudar a política desportiva seguida entre 1974 e 1978. Alguém aí pode ajudar-me a decidir?

 

 

"1986"

A RTP tem apresentado várias séries de ficção histórica centradas em períodos do passado recente e com um olhar focado no quotidiano dos portugueses da época abordada. Conta-me Como Foi (marcelismo), Depois do Adeus (PREC) e, num estilo diferente, Os Filhos do Rock (início dos anos 80) mostraram personagens envolvidas num contexto distante, mas ainda reconhecível por muitos espectadores. O avanço temporal da ficção da RTP atingiu 1986, ano no qual decorre a acção da série homónima criada por Nuno Markl e produzida e realizada por Henrique Oliveira, ex-guitarrista dos Táxi. Logo a seguir à estreia na RTP1, a série foi disponibilizada na íntegra no RTP Play, onde os conteúdos da rádio e televisão públicas ganham maior alcance e durabilidade.

 

 

A série escrita pelos irmãos Nuno e Ana Markl e por Filipe Homem Fonseca, com Joana Stichini Vilela como consultora histórica, visa em primeiro lugar espectadores da geração da Caderneta de Cromos, a antiga rubrica radiofónica de Nuno Markl dedicada às recordações de infância e adolescência daqueles que, à semelhança do humorista, andavam por volta dos 15 anos quando Mário Soares e Freitas do Amaral disputaram a segunda volta das eleições presidenciais de 1986. Para alguém mais novo como eu (nessa altura, tinha apenas um ano de idade), chega a ser difícil acompanhar o turbilhão de referências à cultura pop da década de 80 disparadas em 1986 a um ritmo por vezes forçado. No entanto, a série vai muito além da nostalgia do “eh pá, lembro-me tão bem”, ao apresentar diálogos divertidos, uma história bem construída e personagens consistentes. Vemos os jovens e adultos envolvidos em situações risíveis e embaraçosas, mas também ficamos a saber as razões na origem dos seus comportamentos. Mais uma vez, Nuno Markl parte do seu universo pessoal e subjectivo para chegar a um público vasto capaz de se identificar com uma tragicomédia tão semelhante à vida.

 

Relativamente ao confronto Soares/Freitas (ou “Soares É Fixe”/“Prá Frente Portugal”), a série não analisa por aí além as diferenças entre os dois políticos, centrando-se sobretudo na disputa verdadeiramente clubística que dividiu o país no início de 1986, quando as opções políticas dos cidadãos tinham uma forte componente identitária ainda marcada pelas memórias da ditadura e da Revolução. Os actores Adriano Carvalho e Gustavo Vargas representam a oposição esquerda-direita de forma tão caricatural quanto convincente. Sob o pano de fundo da campanha eleitoral, decorrem as peripécias do dia-a-dia dos adolescentes interpretados por Miguel Moura e Silva, Laura Dutra, Miguel Partidário, Eva Fisahn e Henrique Gil (respectivamente, o geek, a betinha, o metaleiro, a gótica e o bully). É cedo para dizer se estamos perante os Ruys e Eunices do futuro, mas o trabalho dos membros do elenco de 1986 está bem acima da média dos jovens actores das novelas da TVI. A eficácia da realização de Henrique Oliveira e a qualidade da banda sonora, tanto a do (primeiro) tempo do vinil como a composta na actualidade por João Só, Miguel Araújo e outros músicos, contribuem para que a série se torne tão viciante como a canção do genérico.

 

 

Parece estar ainda em cima da mesa a possibilidade da RTP satisfazer o desejo de Nuno Markl e avalizar uma segunda temporada, agora passada no Verão de 1986. O certo é que 1986 pode já ser considerada uma das melhores séries feitas na televisão portuguesa durante a actual década e revela uma habilidade rara para combinar o sério e o cómico, o efémero e o intemporal, a paródia e a originalidade, mostrando como o país inteiro pode rever-se num pequeno grupo de jovens de Benfica. Em resumo, 1986 é fixe.

 

 

 

Miguel Carapau

Celebrizado como jornalista de imprensa e televisão, Miguel Sousa Tavares (n. Porto, 1950) é actualmente conhecido dos portugueses por várias facetas. Uma delas, a de portista ferrenho, está na origem de uma coluna semanal de Sousa Tavares no diário A Bola, onde tem feito prognósticos futebolísticos notavelmente falhados. Ao mesmo tempo, Miguel analisa a política nacional e internacional em espaços na SIC e no Expresso e assume-se como um dos poucos comentadores realmente independentes, capaz de dizer o que pensa sem se preocupar com quem vai ficar chateado (nesse sentido, é uma espécie de anti-Marques Mendes). Em 2003, depois de algumas tentativas, Tavares iniciou-se definitivamente como ficcionista ao lançar o romance Equador, um fenómeno de vendas hoje irrepetível que marcou um antes e um depois no mercado literário português. Nos últimos anos, sem ideias para novos romances, MST tem apostado na não-ficção, área na qual lança agora uma obra autobiográfica, Cebola Crua com Sal e Broa. O título refere-se ao prato que o jovem Miguel comia deliciado em “todas as merendas” durante o feliz ano e meio passado na Quinta do Carvalhal (Amarante), para onde os pais, Francisco de Sousa Tavares e Sophia de Mello Breyner Andresen, o enviaram em 1956.

 

A escrita de Cebola Crua… orienta-se pela preocupação do autor em registar episódios vividos num período entre a ditadura e os anos 90, quando Miguel Sousa Tavares trocou a RTP (onde aprendeu a detestar empresas públicas) pela recém-nascida SIC. No entanto, surgem também numerosos factos recentes, devido aos contínuos saltos no tempo e a uma estrutura mais temática que cronológica. Sem grande apuro estilístico, para lá do trabalho que escrever de maneira simples e directa exige, Tavares narra a sua história em tom de conversa, com frequentes interrupções e comentários, além de geralmente poupar nos detalhes. Num livro que se lê de um fôlego, a viagem chega a tornar-se demasiado rápida e acidentada, apesar do interesse documental de trechos como as descrições dos ambientes da infância e adolescência de Miguel ou o relato da experiência deste na Comissão de Extinção da PIDE/DGS. Abundam relatos de pequenas histórias, algumas delas bem divertidas, com as quais o escritor procura revelar a atmosfera de determinadas épocas ou apenas rir-se do passado.

 

 

No seu tom habitual onde a coragem por vezes se confunde com a arrogância, MST retrata sem filtros várias personagens, incluindo as da sua família, marcada pelo contraste entre os avós paternos, imersos na “paz salazarenta de uma vida em que nada acontecia e davam graças a Deus por isso” (p. 64) e a agitação permanente da casa dos pais de Miguel, opositores incansáveis do Estado Novo. Figuras nacionais são também descritas, entre elogios a Mário Soares e António Guterres, reparos ao misto de calculismo e espontaneidade das acções de Marcelo Rebelo de Sousa ou desprezo por figuras da extrema-esquerda do PREC, como a “majestade maoísta” de Arnaldo Matos (p. 92) ou os “Exibicionistas, demagogos e politicamente analfabetos” Mário Tomé e Dinis de Almeida (pp. 172-173). Guiado apenas pelas suas recordações, o portuense comete alguns lapsos factuais. Por exemplo, o Golpe da Sé, com a participação de Francisco de Sousa Tavares, ocorreu em 1959 e não em 1961 (p. 81), enquanto António Reis foi secretário de Estado e não ministro da Cultura (p. 93). Da mesma forma, o caso República teve origem na extrema-esquerda, sendo incorrecto considerá-lo “um dos maiores deslizes estratégicos do PCP” (p. 161), acusado por MST de ter tentado seguir em Portugal o guião da Revolução Russa.

 

A nível histórico, Cebola Crua… apresenta vários elementos valiosos, embora deva ser comparado com testemunhos provenientes de outras áreas políticas e profissionais. A nível literário, a obra expressa acima de tudo o olhar subjectivo de Miguel Sousa Tavares e traça um retrato do seu universo próprio, num estilo identificável em cada página. De acordo com o balanço feito pelo agora sexagenário, podemos concluir que, entre uma ou outra chatice, Miguel divertiu-se “como um doido” ao longo da vida. Como não o invejar?

 

 

 

Futebol capitalista

A história do futebol em Portugal no século XX é a história de uma resistência inútil à transformação do futebol num produto capitalista. Na transição entre Oitocentos e Novecentos, o football deixou a pouco e pouco de constituir apenas uma distracção de sportmen eclécticos pertencentes às elites, numa altura em que portugueses de origens tão modestas como as dos alunos da Casa Pia de Lisboa se iniciavam nos pontapés na bola. A composição do público dos jogos também se alterou de uma maneira perceptível nas crónicas da imprensa, onde a lista das pessoas distintas presentes em cada desafio deu lugar a lamentos pela agressividade e falta de fair-play manifestadas pelos milhares de lisboetas e portuenses de vários escalões sociais em afluência crescente aos campos de jogo. Estes começaram a ser rodeados por vedações só ultrapassadas por quem pagava bilhete, contribuindo assim para financiar os clubes em ascensão. Por seu turno, os novos futebolistas, oriundos de meios populares, não dispunham dos rendimentos e tempo livre necessários para se dedicarem ao desporto sem qualquer compensação monetária.

 

A massificação e institucionalização do futebol concretizadas nos principais centros urbanos do país durante a década de 20 deram origem ao “profissionalismo encoberto”, através do qual os melhores futebolistas, todos oficialmente amadores, eram remunerados de forma oculta ou através de empregos obtidos pelos clubes para os seus atletas. De vez em quando, essa realidade vinha a público, devido a episódios como a rocambolesca digressão ao Brasil empreendida pelo Vitória de Setúbal em 1929, após a qual os valores pagos aos jogadores participantes foram conhecidos pela imprensa. Apesar da indignação dos defensores do amadorismo puro, os organismos associativos evitavam punir os clubes prevaricadores. Verificava-se, assim, uma situação ambígua que o Estado Novo, desconfiado do espectáculo desportivo, não clarificou até 1960, data da legalização do profissionalismo no futebol português, bastante tardia em comparação com o sucedido na maioria dos países europeus e sul-americanos. As regras vigentes dificultavam, no entanto, as transferências e mantinham reduzido o poder negocial dos futebolistas, bastante dependentes das entidades patronais, ou seja, dos dirigentes clubísticos. Entretanto, apertadas restrições proteccionistas, aliadas ao filão ultramarino, limitavam a contratação de jogadores estrangeiros, enquanto os portugueses a jogar fora do país eram muito raros.

 

 

O 25 de Abril permitiu a obtenção de uma regulação mais favorável à liberdade contratual dos jogadores lusos, mas também deu eco a uma nova onda de críticas ao futebol profissional, provindas de responsáveis governamentais com a tutela do desporto, tal como de jornalistas desportivos próximos do PCP ou da extrema-esquerda. As críticas visavam, entre outros aspectos, os gastos elevados com o futebol, a “clubite” e a “campeonite”, o reduzido incentivo dos grandes clubes à prática de desporto pela população, o comportamento de dirigentes oriundos dos meios empresariais (como João Rocha, presidente do Sporting), que estariam a servir-se das colectividades para obter promoção pessoal, a escassa participação dos sócios na gestão dos emblemas e a alienação dos adeptos, desviados pelo futebol da consciência dos problemas sociais e da luta para os resolver. Na futura sociedade socialista a criar em Portugal, o profissionalismo desportivo seria extinto, à imagem do que se passava então na Europa de Leste. A partir de 1976, porém, a estabilização da democracia e os primeiros governos constitucionais levariam ao recuo destas concepções, enquanto o desporto via garantida a capacidade de se auto-regular.

 

Nas décadas de 80 e 90, avançaram mudanças ao nível da generalização das transmissões televisivas, da exibição de publicidade nas camisolas das equipas, da diversificação das fontes de rendimento dos clubes, da liberalização do mercado de transferências, da subida dos rendimentos de atletas e treinadores e da transformação dos principais clubes em Sociedades Anónimas Desportivas. Por fim, o futebol nacional tornou-se uma “indústria” especializada na “exportação” de “activos” e integrada no processo de globalização, sendo apontado como um exemplo de sucesso raro na economia portuguesa, além de beneficiar de apoio político e publicidade contínua na comunicação social. Também no futebol, o triunfo do capitalismo liberal parecia irreversível.

 

O segredo do sucesso do negócio futebolístico encontra-se na constância da procura, dificilmente esgotável enquanto o desporto-rei fornecer aos adeptos/consumidores um sentimento identitário e emoções de vitória ausentes do resto do quotidiano. Contudo, no caso português, a sobrevivência da galinha dos ovos de ouro parece subitamente estar em risco, devido a factores decorrentes da própria lógica capitalista da modalidade. De facto, o sucesso desportivo tornou-se essencial à sobrevivência financeira das SAD, ameaçadas caso os títulos do futebol e as consequentes receitas não compensem o investimento feito. A disputa entre as três marcas dominantes (pouco competitivas a nível europeu) pelo domínio do mercado interno português é cada vez mais feroz, estimulando os dirigentes a recorrer à corrupção para facilitar a obtenção de uma posição privilegiada e o triunfo sobre a concorrência. Em torno dos trabalhadores do sector, surgiu um grupo de parasitas, beneficiários do sucesso resultante do esforço daqueles e por vezes dispostos a pressionar a mão-de-obra por meio de coacção ou violência. A qualidade do produto decaiu e os compradores mais exigentes começam a sentir que o sabor já não é aquele que os atraiu em crianças. Há mesmo quem fale em boicotes à mercadoria que antes era o orgulho do país. Apesar de tudo isto, os donos do negócio estão agarrados ao poder e julgam poder manter os seus privilégios por um período ilimitado, graças à docilidade e ingenuidade das massas. Chegou a hora da revolução?

 

 

 

Adeus, DN

O estado actual da imprensa diária portuguesa está longe de ser brilhante. Entre os diários generalistas, o Público permanece aquele que fornece a informação mais completa e aprofundada, embora por vezes se resuma à palavra de ordem “Marcelo bom, Costa mau”. O Correio da Manhã é um caixote de lixo. Por sua vez, embora apresente algumas entrevistas interessantes, o i enfraqueceu muito depois de sofrer uma redução de pessoal, cometendo lapsos inacreditáveis. Quanto ao Jornal de Notícias, não o costumo ler, dado que parece destinado apenas aos habitantes do Norte do país. Além do JN, o grupo Global Media, presidido por Daniel Proença de Carvalho, controla ainda o Diário de Notícias, periódico que, após 154 anos de publicação contínua, está prestes a conhecer uma profunda transformação, ao passar a surgir diariamente apenas em formato digital. Manter-se-á uma edição semanal em papel lançada aos domingos, ou seja, um semanário chamado Diário de Notícias. Na prática, trata-se do fim do DN tal como sempre o conhecemos, ditado não por uma opção empresarial mas por verdadeira penúria de recursos.

 

Desde que comecei em 1998 a ler o Diário de Notícias, houve três projectos associados ao jornal que considerei particularmente marcantes. O DN Jovem, um espaço de divulgação de novos escritores e desenhadores, foi uma rampa de lançamento para numerosos artistas. Ver um texto nosso aparecer no site ou numa página do jornal de domingo (alcancei esse feito várias vezes entre 1999 e 2000) constituía uma honra imensa, devido ao prestígio do DNJ e ao critério apertado da selecção. Entretanto, o suplemento DNA, coordenado por Pedro Rolo Duarte, apresentava aos sábados vestígios do lado bom da irreverência e criatividade outrora ligadas a O Independente. Já na actual década, a revista semanal Notícias TV, de início apenas mais um rol de fofocas das celebridades, tornou-se, sob a direcção de Nuno Azinheira, um espaço de verdadeira análise da televisão feita e exibida em Portugal. As três iniciativas desapareceram sem nunca terem sido substituídas por nada de semelhante na imprensa lusa. Em paralelo aos projectos especiais, o DN era um diário competente, dotado de bons colunistas e preenchido por informação rigorosa sobre o essencial da actualidade.

 

 

No entanto, evitando a hipocrisia típica daquelas pessoas que lamentam em público o encerramento de lojas históricas nas quais há muito não punham os pés, preciso dizer que nos últimos anos passei a comprar o Diário de Notícias apenas de forma esporádica. Em comparação com o Público, o DN pareceu sempre algo cinzento e quadrado, sem imaginação nem capacidade de inovar, como que a viver à sombra da sua marca centenária. A crise económica e o abalo vivido na imprensa devido à expansão do digital agravaram essa imagem de dificuldade do DN em adaptar-se aos novos tempos. Enquanto o Público conheceu apenas três directores (José Manuel Fernandes, Bárbara Reis e David Dinis) nos últimos 20 anos, o seu concorrente da Avenida da Liberdade viveu no mesmo período uma frequente instabilidade directiva que também dificultou a renovação do DN. A partir de 2014, os despedimentos de jornalistas como Eurico de Barros e Nuno Galopim (essenciais na secção cultural) fizeram o Diário de Notícias entrar num ciclo vicioso em que falta de recursos, perda de qualidade e afastamento dos leitores estimularam-se mutuamente. Surgiram também acusações de manipulação dos diários da Global Media por Proença de Carvalho, em benefício do próprio e de José Sócrates. A soma destes factores mergulhou o DN numa espiral de insucesso e reduziu as tiragens a valores ínfimos, tornando cada vez mais provável o desfecho agora anunciado.

 

Para lá da preferência pessoal por jornais em papel e do desgosto pela evolução negativa de um jornal tão importante na história do país como o DN, custa perceber a tendência que a imprensa portuguesa está a seguir. Os poucos periódicos sobreviventes parecem obrigados a optar entre os estilos do Correio da Manhã e do Observador, ou seja, entre o sensacionalismo e a manipulação política, um cenário preocupante devido à inexistência de uma alternativa credível aos jornais tradicionais. Para angariarem leitores dispostos a pagar por informação, estes últimos têm recorrido a campanhas publicitárias cujo tom lembra mais instituições de caridade que órgãos de imprensa. O resultado desta degradação, no meio da desconfiança do público consumidor da comunicação social, conduz ao empobrecimento da democracia. Ir a um quiosque ou papelaria comprar um jornal era, no final do século XX, um acto quotidiano e corriqueiro. Hoje, parece um gesto heróico de resistência à opressão.

Crise? Qual crise?

A imprensa clubística representa uma fonte importante para o estudo do desporto português, não só pela cobertura pormenorizada que faz das diferentes modalidades dos emblemas que a produzem, mas também por permitir conhecer o discurso oficial dos clubes e a forma como estes reconstituem a sua própria história. Os periódicos editados pelos três “grandes” são, naturalmente, as publicações deste género com maior impacto nacional. Pouco depois de ascender à presidência do FC Porto, Pinto da Costa substituiu o velho semanário O Porto pela revista mensal Dragões (actualmente indisponível em papel), mais arrojada a nível do grafismo e conteúdo. Por sua vez, os rivais lisboetas mantiveram a publicação semanal dos jornais O Benfica e Sporting, herdeiros de periódicos surgidos no início do século XX. Hoje em dia, embora a Internet e os canais televisivos dos “grandes” constituam plataformas de difusão de propaganda mais eficazes e rápidas que a imprensa, os jornais benfiquista e sportinguista permanecem ainda nas bancas. No caso de Sporting, a direcção do semanário encontra-se confiada a José Quintela, um dos membros do Conselho Directivo do SCP que decidiram acompanhar Bruno de Carvalho até ao fim.

 

A capa da edição de 24 de Maio do jornal Sporting encontra-se dividida por vários temas, como o regresso de Augusto Inácio à direcção do futebol profissional do clube ou o feito dos jogadores de ténis de mesa “verdes e brancos”, tricampeões nacionais da modalidade e retratados num poster nas páginas centrais. No que respeita à situação de crise do Sporting, agravada pelos incidentes de Alcochete, a primeira página fornece apenas o título “Atletas, treinadores e dirigentes ao lado do Presidente”, acompanhado de uma fotografia de Bruno de Carvalho abraçando o andebolista leonino Carlos Ruesga. A chamada de capa remete para o artigo da última página do jornal, cujo lead afirma que “Muitos profissionais usaram as suas contas nas redes sociais para mostrar gratidão a Bruno de Carvalho, pelo apoio nunca regateado do responsável máximo do Clube às modalidades”. Seguem-se reproduções de posts escritos no Facebook ou no Instagram por Ruesga e outros atletas de desportos como futsal, voleibol, atletismo, futebol feminino e hóquei em patins, alguns dos quais mais dedicados a manifestar apoio ao clube num momento difícil do que propriamente a louvar Bruno. Muitas das 32 páginas da edição de Sporting relatam o sucesso do SCP nas modalidades, tema do editorial de José Quintela, onde encontramos apenas uma referência na primeira frase aos “últimos acontecimentos”, depois ignorados pelo director do semanário. O outro artigo de opinião deste número é assinado pela jornalista Sofia Oliveira, dominada por “um enorme sentimento de vergonha alheia” perante o trabalho da sua classe profissional, a qual acusa de “trocar o rigor e a exactidão pela sede das vendas ou das audiências”, sem apontar exemplos.

 

 

Sofia Oliveira escreveu igualmente a crítica ao jogo da final da Taça de Portugal de futebol, tema que preenche uma página incompleta de Sporting. A breve análise da partida não atribui a derrota do SCP ao “azar”, mas sim aos futebolistas leoninos (“Que culpa tem o azar se os jogadores se apresentavam estáticos?”), infelizes nos lances dos golos do Desportivo das Aves. Não se verifica no artigo qualquer alusão à violência na Academia ou aos efeitos psicológicos desta nos “leões”, excepto numa curta citação de Jorge Jesus. De resto, em todo o jornal, as agressões só são mencionadas nos comunicados da direcção sportinguista e na transcrição integral da declaração dos representantes dos órgãos sociais, encimada pelo título “Não nos demitimos a bem do Sporting”. O jornal chefiado por Quintela não acolhe quaisquer mensagens de sportinguistas contestatários de Bruno e mostra um clube em plena normalidade. Business as usual, acima de tudo. Não se esperava, obviamente, que o jornal oficial leonino fizesse uma cobertura isenta dos últimos eventos ligados ao SCP. Contudo, o grau de alheamento de Sporting relativamente à situação actual do clube roça a alucinação. Quem não seguir a restante comunicação social, tão criticada pelos brunistas, acreditará que o emblema de Alvalade vive a melhor fase da sua história centenária (excepção feita à inépcia dos irrelevantes futebolistas masculinos). Mais do que um órgão de propaganda do clube, Sporting constitui um veículo para o auto-elogio da direcção presidida por Bruno de Carvalho, num cenário que deveria revoltar os sportinguistas.

 

O mais interessante deste caso, no entanto, é que o semanário não publica (que se saiba) qualquer mentira, nem retira frases do contexto ou faz especulações. Para exprimir uma visão deturpada da vida do Sporting, limita-se a seleccionar determinados factos e ignorar outros. Esta é talvez a forma mais eficaz de manipulação jornalística, dentro ou fora da informação desportiva. Ninguém precisa de fake news quando basta restringir o conteúdo noticioso aos acontecimentos verídicos que confirmam uma dada narrativa, enquanto são ocultadas quer situações inconvenientes para quem domina o meio de comunicação em causa quer opiniões alternativas a determinada ideologia. O brunismo fez do Sporting um exemplo em escala reduzida de fenómenos políticos associados ao autoritarismo, entre os quais não falta o controlo da informação. É certo que ninguém seguiu o boicote a toda a comunicação social não dirigida por Alvalade ordenado por Bruno, num contexto em que a resistência leonina se agrupa nos blogues e redes sociais. No entanto, se isto se passasse à escala de um país onde os media afinassem todos pelo mesmo diapasão e a propaganda ignorasse a realidade ao garantir que tudo corria às mil maravilhas, o que aconteceria?

O fascismo é isto

O ataque à Academia leonina não foi uma acção espontânea de alguns tipos excitados pelo álcool, dado que envolveu logística, mobilização e planeamento. Do ponto de vista de quem atacou, parece ter sido uma espécie de operação militar. Após identificarem o inimigo (os técnicos e jogadores do seu próprio clube), os agressores reuniram um pequeno exército, muniram-se de armamento, asseguraram o transporte e dirigiram-se ao alvo da incursão. A execução do plano foi eficaz devido a uma série de características: rapidez, efeito surpresa, superioridade numérica, uso maciço da força de modo a provocar o medo nas vítimas. No entanto, embora as claques estejam habituadas a combater entre si, atacar civis desarmados não é guerra, é terrorismo. Isto foi chato, mas temos de nos habituar, faz parte do dia-a-dia, acontece em todo o lado, não é? Pois, realmente não há muito mais a dizer. Excepto talvez procurar compreender como chegámos aqui.

 

 

Vivemos tempos estranhos no que respeita àquilo que pode ou não ser dito no espaço público. Por um lado, há quem se preocupe constantemente com a possibilidade de alguém se sentir ofendido por um determinado discurso, em particular no caso do humor. O “politicamente correcto” tem sido associado ao mundo académico e à esquerda ligada ao feminismo ou à defesa das minorias, mas políticos de direita como Nuno “Je ne suis pas Charlie” Melo também gostam de lembrar que com a religião não se brinca. Ao mesmo tempo, e enquanto tantos se queixam de já não poderem dizer nada, Bruno de Carvalho e vários comentadores de futebol dispõem de rédea solta para exprimir as opiniões mais rudes e ofensivas. A permanente compreensão pelos excessos verbais da tribo do futebol tem sido justificada com a natureza específica e irracional do desporto-rei. No entanto, o debate sobre política e outros temas que decorre sem cessar nos media e na Internet sobe igualmente de tom. Insultos, simplismo, arrogância, sectarismo, preconceitos, maniqueísmo, insinuações, efeito de manada e acusações sem provas tornam-se cada vez mais comuns. Afinal, tudo é proibido ou tudo é permitido?

 

A agressividade faz parte de todos nós e não ficámos repentinamente mais violentos no século XXI, mas o gigantesco megafone fornecido pelas redes sociais e a sensação de impunidade vivida dentro destas (uma espécie de mundo paralelo ao real onde podemos deixar sair o que nunca diríamos em voz alta) têm contribuído para aumentar o impacto da violência verbal, que alguns convertem em violência física. Também se verifica um forte interesse da comunicação social, desejosa de audiências num mercado em contracção, por tudo o que envolva polémica e confronto, com a lógica do reality-show a contaminar outros géneros televisivos. Contudo, os media e as redes sociais, apesar dos seus defeitos inegáveis, têm as costas largas e servem hoje de bode expiatório para tudo. Existem decerto causas sociais mais profundas para a crescente agressividade pública, mas, enquanto elas não são descobertas, o que me assusta é o facto de, a pouco e pouco, a linha de fronteira entre o normal e o inaceitável se ir movendo. A moderação passa a ser confundida com frouxidão, o apetite pela purga cresce, os fins justificam os meios, as regras democráticas começam a ser descritas como um obstáculo à segurança, à luta anticorrupção ou a qualquer outro objectivo nobre. Trump e Bruno já não parecem ser uma anomalia, antes um sinal do tempo que se aproxima.

 

Como travar o crescendo da tensão? Através de uma comissão de censura reguladora daquilo que se pode dizer? Não, “apenas” através do bom senso, do respeito mútuo, da luta quotidiana pela frágil democracia em que vivemos. 44 anos depois, nunca precisámos tanto da memória do 25 de Abril como agora.

 

P.S. Apesar da estridência do Prolongamento, nem todos os debates televisivos sobre futebol são iguais. O programa Trio de Ataque (RTP3), com Miguel Guedes, João Gobern e Augusto Inácio, é sobretudo uma conversa entre três amigos que gostam de futebol e cujas diferenças clubísticas nunca os levam a cair na má educação.