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Desumidificador

Desumidificador

As palavras

“As palavras são importantes”, diz Nanni Moretti no filme Palombella Rossa. Quais palavras? Todas. Eis alguns exemplos:

 

O “olá” da minha sobrinha. As piadas da malta da BD sobre o ódio do Mário Freitas pela fonte Comic Sans. O ruído contínuo quando só queria um pouco de silêncio. “Partiram para o Oriente Eterno”, um belo eufemismo para a morte. O caminho difícil entre “Sempre a merda do futuro” e “Contai com isto de mim”. O talento oratório do prof. Rosas. Os “eh pás” da prof. Rollo. “Portugal é campeão da Europa!” O meu primeiro pedido de água. O nome de Jesus repetido sem cessar. Orwell e a coisa magnífica que é a destruição de palavras. Nomes de sítios como Pombais, Arroja, Serradinho, Aldeia da Cruz, Várzea, Covais, Veiros, Arroios ou Boavista. Um verso de Sérgio Godinho para cada ocasião da vida. O valor da simpatia de um “Que bom que você veio” (descansa em paz, Luciana). Os nomes dos mortos a fazerem-nos voltar por um segundo. A Palavra da salvação. As homilias moles. Há tanta beleza no mundo. “Quem te deu aquela rosa, meu amor?” Os velhos abutres cujos discursos tornam as almas mais pequenas. As palavras que consegui não dizer, mas custou tanto. Camões a sofrer por amor. Os palavrões que podem ser ditos nas novelas, e aqueles que nem pensar. O discurso de Chaplin no final de O Grande Ditador. O nome completo dela. As cartas que originaram tabefes e cortes de relações. A honra de ser designado por um dos meus ídolos como “este gajo”. Despedidas em duas palavras. Os nomes de pessoas que viveram há cem anos riscados pelo lápis azul. “As democracias não temem o terrorismo”. Eça, Saramago, Lobo Antunes. O mail com o qual alterei sem querer o curso da História. Guardar no arquivo as frases manuscritas dos meus familiares. O empenho com que o dr. Ventura degrada a linguagem. As palavras que ganharam novos significados, como “troika”, “geringonça” e “Pedrógão Grande”. O mesmo pedido de sempre no café. O “povo” e as “elites”, demasiado gastos e elásticos. Os miúdos que passaram a ter nomes estranhos como Martim, Sancha ou Santiago. Viajar nos jornais antigos para Lourenço Marques e outras cidades desaparecidas. O latim dos economistas. O vocabulário do PREC. As pessoas “talentosas” que votam na Iniciativa Liberal. O meu nome na ficha técnica do museu do Benfica. O momento não identificado em que começámos a “sair da zona de conforto” e a passar “muitos anos a virar frangos”. A defesa da tese que fui buscar sei lá onde. A época em que só compreendia metade dos diálogos dos sketches de Herman José. O estranho apreço dos mais velhos por aquilo que eu escrevia nos cartões de parabéns. Notícias de países devastados pela guerra. O medo da neoplasia. Os slogans dos anos 70 ainda escritos nas ruas da cidade. Conhecer o mundo pelos balões das revistas de banda desenhada. “Correios, boa tarde”. Os períodos de compensação infindáveis. Jorge Amado e o seu amor pela vida e pela liberdade. Um SMS a ameaçar o pior. A letra da canção de Marco Paulo num casamento. O prof. Oliveira a falar sobre o Holocausto na aula das oito e eu com demasiado sono para distinguir as palavras. Uma mensagem anti-racista dentro da espiral. O letreiro do cinema Oceano a anunciar o Batman de Tim Burton. Os trocadilhos das manchetes de O Independente. O top dos melhores álbuns portugueses do século XX. Porque tu és como o sol. Ouvir “tio” pela primeira vez.

 

 

As palavras são uma arma poderosa. Manuseiem-nas sempre com cuidado.

Biografias numa frase

Afonso Costa (2010), de Filipe Ribeiro de Meneses

Julgava-se muito melhor do que era na realidade.

 

Álvaro Cunhal (1999-?), de José Pacheco Pereira

A história do Portugal anti-salazarista.

 

António Ferro: O Inventor do Salazarismo (2015), de Orlando Raimundo

Um biografado odiado pelo biógrafo.

 

Armindo Monteiro: Uma biografia política (2000), de Pedro Aires Oliveira

Demasiado seguro de si para o gosto de Salazar.

 

Bruno de Carvalho: O Presidente sem Medo (2014), de Bruno Roseiro

Há livros que envelhecem muito mal.

 

Francisco Pinto Balsemão (2017), de Joaquim Vieira

Um homem simpático que mudou a comunicação social portuguesa.

 

Glória: Biografia de J.C. Vieira de Castro (2001), de Vasco Pulido Valente

Um romance onde tudo é real.

 

GNR: Onde nem a beladona cresce (2016), de Hugo Torres

Deixaram o mais interessante de fora do livro.

 

 

Herman, O Verdadeiro Artista (2011), de António Costa Santos

Único.

 

O Inimigo N.º 1 de Salazar (2010), de Pedro Jorge Castro

Se a aventura tivesse um nome, seria o de Henrique Galvão.

 

José Cid (2015), de Miguel Gonçalves

Um artista menos superficial do que o livro dá a entender.

 

Mário Soares: Uma Vida (2013), de Joaquim Vieira

Um português comum em circunstâncias extraordinárias.

 

Pinto da Costa: Luzes e sombras de um dragão (2007), de Felícia Cabrita e Ana Sofia Fonseca

O poder corrompe?

 

Rui Veloso: Os Vês pelos Bês (2006), de Ana Mesquita

Um gajo porreiro que às vezes se chateia.

 

Sá Carneiro (2010), de Miguel Pinheiro

A vida dele foi um filme.

 

Somos o que Escolhemos Ser: Biografia de Pedro Passos Coelho (2015), de Sofia Aureliano

O Conde de Abranhos do século XXI.

 

Varela Gomes (2016), de António Louçã

Uma pessoa tão corajosa quanto difícil de aturar.

História do povo na reacção portuguesa

1. O povo tem sempre razão. É por ter consciência disso que o povo está farto dos políticos das elites que lhe vêm dizer palavras como “mas”, “não é bem assim”, “a realidade é mais complexa” ou “já ouviu falar dos Direitos Humanos?” Os políticos populares sabem dizer ao povo que ele está sempre certo e, se alguém não concorda com o povo, está contra o povo.

 

2. O povo é sempre branco, cristão e heterossexual. Quem não integra essas três categorias faz parte do não-povo. No entanto, o povo é pacífico e tolerante e deseja viver em perfeita harmonia com o não-povo. Para isso, bastaria apenas que o não-povo permanecesse 24 horas por dia em bairros fechados ao exterior e rodeados por grossas muralhas, mas, em vez disso, o não-povo insiste em ofender os sentimentos do povo e pretender frequentar os mesmos espaços do povo. Perante esta afronta, é natural e compreensível que alguns populares dirijam palavras pouco agradáveis aos membros do não-povo. Quando o povo recorre à violência física contra o não-povo, fá-lo sempre em legítima defesa. Afinal, quem mandou o não-povo sair de casa?

 

3. O povo e a polícia são a mesma coisa. Os polícias estão sempre, sempre, ao lado do povo. Portanto, se há membros das forças policiais a espancarem membros desarmados do não-povo, sabe-se de antemão que possuem um bom motivo para o fazerem. O povo fardado limita-se a usar a força da sua honestidade contra a vileza inata do não-povo.

 

4. O povo detesta moderação. Quem hesita, dialoga, fala em voz baixa ou respeita o adversário só pode ser um elitista disfarçado de popular, enquanto um servidor do povo pune, arrasa, esmaga, insulta, destrói, confronta, desmascara, faz barulho. A voz do povo é a voz que grita.

 

5. O povo trabalha muito. E ainda bem, porque o povo conhece as vantagens do trabalho. A primeira delas está no facto do trabalho dar ao povo uma indiscutível superioridade moral sobre políticos, refugiados, desempregados e outros inúteis que não trabalham. A segunda reside na experiência concedida pelo trabalho árduo e pelas dificuldades que lhe estão associadas. Através delas, o povo obtém na escola da vida o verdadeiro conhecimento da realidade, muito superior àquele que é ensinado nas outras escolas. De facto, porque é que um cientista há-de saber mais sobre o clima do que alguém que trabalha desde os 12 anos? Ou um economista conhecer melhor a economia do que um popular que viaja todos os dias no autocarro 36? Ou um médico perceber mais de medicina do que um homem ou uma mulher do povo que aproveita os momentos mortos no trabalho para pesquisar sobre doenças no Google? É preciso ser muito elitista para acreditar nisso. 

 

 

6. O povo não nasceu ontem e sabe que é explorado por inúmeros parasitas. Por exemplo, políticos que só querem é tacho e poleiro, membros de organizações de solidariedade que só querem meter donativos ao bolso, artistas que só querem usar o dinheiro do povo para criar obras incompreensíveis que ninguém vê, reclusos que só querem gozar umas férias na prisão pagas pelo povo, estrangeiros que só querem viver à custa de quem os acolhe, investigadores que só querem subsídios para investigar sabe-se lá o quê, miúdos preguiçosos que só querem passar de ano sem estudar, ambientalistas que só querem proteger os interesses de quem ganha balúrdios com o combate às supostas alterações climáticas, etc., etc. O povo só não é explorado pelos patrões, esses verdadeiros homens do povo que nunca fingem que se preocupam com o povo e tomam a atitude genuinamente popular de pensarem apenas em si próprios.

 

7. O povo só quer ver três coisas na televisão: sexo, crime e futebol. Se um telespectador tiver interesse por mais algum tema, não é um membro do povo, mas sim um daqueles intelectuais armados em bons (passe a redundância). Felizmente, os canais televisivos são dirigidos por populares que apenas dão ao povo aquilo que ele quer. Da mesma forma, o povo não precisa de ler livros e utiliza um vocabulário simples para se expressar, enquanto as elites inventam palavras complicadas só para enganar o povo. À medida que a linguagem se populariza, o número de palavras usadas torna-se cada vez menor. Isso é bom. Se não fosse bom, era mau. Povo bom. Elites más.

 

8. O povo nunca é de esquerda. Não se sabe bem quem vota na esquerda, mas o povo é que não é de certeza. Desde logo, porque os esquerdistas estão sempre a criar impostos através dos quais o povo sustenta quem não quer trabalhar. Além disso, a esquerda é muito elitista e dedica o seu tempo às causas do não-povo, que obviamente não interessam ao povo. O mais grave, porém, é que os defensores do socialismo espalham a ideia (recorrendo mesmo às escolas públicas para esse fim maléfico) de que as pessoas precisam de ser mais tolerantes, mais ecológicas ou mais solidárias. O objectivo evidente é reduzir a auto-estima do povo e atentar contra o direito sagrado do povo a ser bronco se assim o desejar. Os líderes verdadeiramente populares são aqueles que dizem e fazem sempre tudo aquilo que querem, sem nunca pedirem desculpas a ninguém. A humildade é elitista, a arrogância é popular.

 

9. O povo está sempre indignado. É claro que não o vai mostrar com métodos elitistas de protesto como greves e manifestações. Quem protesta assim, não trabalha e, se não trabalha, não é do povo. É nas redes sociais que o povo dá largas à sua fúria, ataca os seus inimigos e partilha as notícias que provam a justiça das queixas populares. Algumas dessas notícias até podem ser falsas, mas ninguém duvida de que poderiam ser verdadeiras. A boa mentira é aquela que conduz à verdade. Seja como for, o povo só precisa de se indignar nas redes enquanto não encontrar um líder que, mais do que representar o povo, seja o povo. A partir daí, o povo pode estar sossegado e ignorar a política, enquanto o líder trata de tudo sozinho.

 

10. O povo descobriu que, ao contrário do que os elitistas da esquerda acreditam, pertencer ao povo não tem nada a ver com dinheiro ou estatuto social. Por isso mesmo é que cada vez mais juízes, políticos, jornalistas, empresários, comentadores ou historiadores se aproximam do povo e lhe dizem “Povo, povo, eu te pertenço”, aderindo à luta incessante do povo contra as elites. Unido, o povo fará um mundo cada vez mais popular, onde ninguém possa não ser do povo.

O desperdício

Fiz uma das assinaturas que permitiram a legalização da fundação do Livre, mas nunca cheguei a votar no partido. Mesmo assim, soltei convictamente um “Boa sorte, Rui” quando me cruzei com Rui Tavares durante a campanha para as eleições europeias do ano passado e até distribuí no meu prédio alguns folhetos deixados ao abandono aquando da passagem da caravana de Joacine Katar Moreira por Odivelas. De facto, o Livre foi até há três meses uma espécie de Belenenses ou Académica da política, por quem quase todos mostravam alguma simpatia, até por saberem que o emblema fofinho nunca disputaria a vitória no campeonato com os “grandes”. Com uma mensagem ecologista e europeísta, o partido da papoila dirige-se especialmente a independentes de esquerda, desiludidos com o PS mas que não se revêem no conservadorismo do PCP e consideram demasiado radicais algumas posições do Bloco. Apesar de constituir uma faixa estreita do eleitorado, este público-alvo inclui alguns sectores urbanos, localizados sobretudo na cidade de Lisboa e em particular na multicultural freguesia de Arroios, onde o Livre tem a sua sede. Investigadores e outras pessoas ligadas ao meio académico são um grupo profissional no qual o partido tem recrutado vários dos seus militantes e dirigentes.

Criado com a bandeira da promoção de um entendimento entre as esquerdas com vista a uma governação inovadora, o Livre sofreu a dolorosa ironia de ver o seu sonho concretizado após as legislativas de 2015, mas não poder participar na Geringonça por ter falhado, contra as previsões surgidas na própria noite eleitoral, o objectivo de entrar em S. Bento. Neste cenário, a agremiação de Rui Tavares (excelente colunista, mas menos eficaz na oratória) pareceu perder a sua razão de ser e atravessou três anos de silêncio mediático e dificuldades financeiras. O primeiro acto eleitoral de 2019 permitiu a Tavares candidatar-se novamente a membro do Parlamento Europeu e obter, graças à iniciativa e preparação reveladas ao longo da campanha, um prestígio assinalável, mas insuficientemente traduzido em votos. Como o próprio Rui admitiu, o Livre veria o seu futuro em risco se não alcançasse nas legislativas de Outubro um resultado que lhe permitisse receber a subvenção estatal. Os dois primeiros nomes das listas por Lisboa e Porto, potencialmente elegíveis, foram seleccionados pela direcção, deixando os restantes candidatos à escolha dos participantes nas primárias. Durante o Verão, a até aí desconhecida historiadora Joacine Katar Moreira, surgida em segundo lugar na lista para as europeias e designada logo a seguir como cabeça de lista pela capital, ganhou um crescente protagonismo. Terá sido a candidata a defender uma campanha centrada na sua figura, através de meios como o único outdoor do Livre ou a canção “O Sem-Precedente”, e o facto é que Moreira tinha razão. Numa época em que os cidadãos votam cada vez menos em ideologias e mais em personagens, Joacine revelou aquilo a que os franceses chamam star quality, chamando a atenção da comunicação social para a sua história de vida e o seu discurso contundente. Até mesmo a gaguez de Moreira, apontada desde logo como uma limitação, reforçou a notoriedade da candidata e suscitou a admiração de alguns eleitores pela coragem de uma mulher habituada a fazer o contrário daquilo que as pessoas esperam dela.

Logo após a festa do Livre na noite de 6 de Outubro, os cheguistas lançaram na Internet uma extensa campanha de ódio contra a nova deputada que inclui fake news e acusações de falta de portuguesismo. Tratou-se, claro, de uma consequência natural da atitude ofensiva e provocatória tomada por Joacine Katar Moreira ao não fazer imediatamente operações para deixar de ser mulher e negra. No entanto, a própria Joacine pareceu ter achado que essas características bastavam para defini-la enquanto política e caiu numa espécie de deslumbramento. A partir do momento no qual Moreira e o seu assessor entraram pela primeira vez na Assembleia da República, a deputada envolveu-se numa sucessão de episódios caricatos que garantiram ao Livre a presença diária nas notícias pelas razões erradas. Entretanto, tornaram-se audíveis nas hostes da papoila queixas relativas à excessiva personalização da actividade partidária numa parlamentar descoordenada com as instruções do Grupo de Contacto. Por fim, quando Moreira contrariou a orientação do partido ao pronunciar-se sobre um dos muitos votos apresentados no Parlamento, desencadeou-se uma série de momentos pouco edificantes que é desnecessário recordar aqui. Vieram o Natal, o Ano Novo e algumas semanas durante as quais Joacine se tornou mais discreta na arena mediática, antes da votação na generalidade do Orçamento de Estado reacender o conflito interno no Livre e elevá-lo ao ponto da ruptura. O congresso do partido adiou a decisão sobre a retirada da confiança política em Moreira, indicando essa opção como inevitável ao mesmo tempo que deixou entreaberta a porta para um “milagre” dificultado pela radicalização das partes em confronto.

 

 

A origem da turbulência no Livre tem sido atribuída a uma suposta deriva empreendida por Joacine no sentido de um discurso identitário radical oposto à moderação da linha tavarista. Não parece, contudo, estar aí o essencial do problema, até porque o programa eleitoral do partido já acolhia propostas como alterar os programas escolares de modo a realçar a violência do colonialismo português. Ainda antes da crise, um antigo apoiante do Livre, Ricardo Araújo Pereira, afirmou que os membros da instituição faziam política com o amadorismo e a ingenuidade de uma lista candidata a uma associação de estudantes. Trata-se da descrição perfeita de um conjunto de pessoas cuja inexperiência e espontaneidade conseguem tornar o que está mal hoje ainda pior amanhã. Os militantes do Livre têm que aprender a arte da hipocrisia que levou o PS e o PSD à glória e deixar de dizer em público tudo aquilo que sentem. Da mesma forma, o modelo de organização interna que Rui Tavares e os outros fundadores escolheram com o objectivo de evitar os problemas dos outros partidos revela-se frágil. Se o Livre tivesse um líder (fosse ele Tavares, Moreira ou outra pessoa) que assegurasse sozinho a coordenação política do partido e definisse em pouco tempo o rumo a seguir, conheceria uma eficácia superior à fornecida pela discussão e votação de todos os assuntos em reuniões da direcção, grupos de trabalho, assembleias infindáveis e congressos anuais. Ao procurar romper com o sistema de centralização do poder numa única pessoa, o partido do “centro da esquerda” acabou por mostrar que democracia a mais também não funciona.

No momento actual, o eleitorado observa a agitação no Livre como quem ouve a discussão de um casal à beira do divórcio que troca acusações sobre a responsabilidade da situação. A princípio até pode ser divertido para os bisbilhoteiros (por algum motivo os media têm seguido a celeuma com tanto interesse), mas ao fim de pouco tempo só apetece dizer “Eh pá, calem-se”. Os danos causados na credibilidade do Livre por todo este ruído são profundos e talvez irreparáveis. A ténue hipótese de recuperação não está, certamente, na retirada da confiança a Joacine Katar Moreira, uma vez que nem o Livre terá sucesso sem Joacine, nem esta irá longe sem o apoio do partido. O aspecto mais decepcionante está no facto das papoilas discordantes estarem a desbaratar um vasto potencial. Se o Livre falasse a uma só voz e centrasse a atenção nos temas do seu programa, tal como se Moreira usasse a capacidade oratória mostrada no congresso de Alvalade para algo útil no Parlamento, o partido poderia ser uma força relevante dentro da esquerda portuguesa e aproveitar a presente legislatura para influenciar o debate político. Assim, limita-se a ser uma oportunidade desperdiçada.

 

P.S. O nono congresso do Livre teve um momento Lost in Translation quando os jornalistas tentaram adivinhar o conteúdo do breve diálogo em voz baixa entre Rui Tavares e Joacine Katar Moreira. Assumindo a pele de um verdadeiro dirigente partidário, Tavares comentou esse episódio na mesma frase em que recusou comentá-lo.

 

Os novos rostos do ano

Sempre que um ano se aproxima do fim, é interessante verificar quais são as celebridades agora debaixo dos holofotes que, na altura da anterior passagem de ano, ainda eram quase desconhecidas. No restrito universo das pessoas nomeadas com frequência nos media, registam-se periodicamente, além das saídas de cena motivadas pelo último acorde (até sempre, Zé Mário), as entradas de novas personalidades resgatadas do anonimato por determinados acontecimentos. A nível mundial, 2019 tem sido marcado pela ascensão de figuras tão diversas como Juan Guaidó, Greta Thunberg ou Santiago Abascal, mas é difícil rastrear ao pormenor todos aqueles que se destacam por um motivo ou outro no conjunto dos países. Já em Portugal, onde a actualidade nacional faz lembrar uma telenovela na qual as personagens são quase sempre as mesmas, os recém-chegados ao palco mediático são geralmente poucos em cada ano, deixando de lado aqueles que se destacam mais pelas funções que assumem que pela sua actividade, como acontece nos casos de novos ministros ou futebolistas contratados pelos três “grandes”. Assim, no período decorrido desde Janeiro último, pudemos observar a subida no elevador da Glória dos portugueses que se seguem:

 

Bruno Lage: Após o despedimento de Rui Vitória do comando técnico do Benfica, o seu substituto Bruno Lage foi apresentado como uma solução provisória, mas os primeiros jogos da equipa sob a nova liderança chamaram a atenção e garantiram a estabilidade a Lage, que, para espanto geral, transformou o SLB num rolo compressor que subjugou o FC Porto de Sérgio Conceição e venceu a Liga, contrariando a tradição de inutilidade das chicotadas psicológicas. Para lá do sucesso desportivo, Lage adoptou um discurso sereno oposto ao habitual histerismo do futebol luso e atreveu-se a descrever a modalidade como um simples jogo, irrelevante perante as questões sociais e políticas actuais. Os resultados pouco brilhantes do Benfica nas competições europeias e o menor fulgor exibicional revelado pela equipa da “alma vermelha” no início de 2019/20 turvaram um pouco a imagem do técnico na Luz, embora permaneça ainda tudo em aberto para Lage.

 

Carlos Guimarães Pinto: Apesar de João Cotrim de Figueiredo ser o primeiro deputado eleito pela Iniciativa Liberal e o provável terceiro presidente do partido nos dois anos de história deste, o espinhense Carlos Guimarães Pinto foi o líder e a figura mais destacada da IL durante a campanha para as legislativas, quando expôs as suas ideias em entrevistas (incluindo uma importante aparição no programa de Ricardo Araújo Pereira) e artigos de opinião em vários jornais. Co-autor dos irreverentes cartazes da IL, Carlos uniformizou o discurso e o estilo de comunicação dos liberais num tom mais vistoso e aguerrido que o do período fundador, atingindo o feito de conduzir a S. Bento um novo partido com escasso apoio mediático e composto sobretudo por jovens. Para o bem e para o mal, a Iniciativa deve muito daquilo que é a Guimarães Pinto, cuja surpreendente demissão criou um certo vazio no partido durante a fase de definição da estratégia a seguir na arena parlamentar.

 

Carolina Loureiro: Esta escultural actriz de 27 anos, formada na academia dos Morangos com Açúcar e com um currículo até aqui limitado a pequenos papéis em novelas e à apresentação do programa Fama Show, irrompeu ao conquistar o lugar de protagonista em Nazaré, um folhetim da SIC cujas elevadas audiências beneficiam do tufão Cristina e dos danos por ele causados em Queluz. Na qualidade de estrela de uma novela na qual surge frequentemente em roupa interior, Loureiro ascendeu de um dia para o outro no star system português, ocupando as capas das revistas cor-de-rosa e do Correio da Manhã através da inevitável exposição da vida amorosa da actriz. O papel que desempenha em Nazaré não exige a Carolina os dotes artísticos de uma Meryl Streep, mas a jovem parece ter um vasto futuro à sua frente.

 

 

Joacine Katar Moreira: A simpatia gerada por Rui Tavares não impediu que o Livre sofresse nas eleições europeias uma nova derrota que colocou o partido numa situação difícil. Perante o desafio fulcral das legislativas, o Livre escolheu como cabeça de lista por Lisboa a historiadora Joacine Katar Moreira, na qual se personalizou uma campanha centrada na sua condição de mulher negra, oriunda de um sector da população geralmente afastado dos cargos políticos. Outro traço distintivo de Moreira, a gaguez que dificulta as suas intervenções públicas, depressa também se tornou notado. A partir da votação em que os eleitores de Lisboa (em particular os de Arroios) confiaram a Joacine um mandato para os representar, a nova deputada atraiu todos os olhares e a curiosidade deu lugar às críticas, inicialmente provindas da extrema-direita irada com a intrusa, mas que alastraram a comentadores receosos do estilo pessoal e do discurso “identitário” de JKM. Mesmo dentro do Livre, parece existir quem pense que isto já é Joacine a mais. Subsiste ainda a incógnita quanto ao efeito de todo o ruído nas possibilidades de crescimento do mais pequeno partido da esquerda parlamentar.

 

Miguel Pinto Luz: Desde 2017 que o nome do vice-presidente da Câmara de Cascais circulava como possível candidato à liderança do PSD, mas só neste Outono Pinto Luz desembainhou a espada e avançou contra Rui Rio e Luís Montenegro, com o apoio de alguns “notáveis” e distritais laranjas. No entanto, com uma experiência governativa fora de Cascais limitada à passagem como secretário de Estado pelo efémero segundo Governo da PAF, Miguel é um perfeito desconhecido para a esmagadora maioria dos portugueses. Talvez por isso mesmo, o autarca apresentou um extenso relato da sua vida dedicada ao PSD, a Deus e à família, sem produzir até agora nenhuma afirmação ideologicamente clarificadora. O caso de Pinto Luz convida a imaginar que manobras nos subterrâneos da política e do jornalismo serão necessárias para alguém se tornar candidatável a um cargo como o de presidente do PSD.

 

Pedro Pardal Henriques: Entre Abril e Agosto, o vice-presidente e assessor jurídico do sindicato dos motoristas ligados ao transporte de matérias perigosas tornou-se o símbolo do novo sindicalismo, um fenómeno que espalhou a confusão quer na esquerda quer na direita. Anunciando em inúmeras declarações formas de luta mais radicais e imprevisíveis que as tradicionais e envolvendo-se numa feroz guerra de palavras com o representante da associação patronal, o advogado concentrou as atenções da comunicação social de uma forma inédita e recebeu acusações de oportunismo e interesses políticos inconfessados. No entanto, a greve dos camionistas ocorrida no Verão não teve consequências de maior nas legislativas, às quais Pardal Henriques se candidatou sem sucesso pelo PDR. Pouco depois da votação, patrões e sindicatos da camionagem chegaram a acordo, agora no meio da indiferença geral.

 

 

Desumidificar por aí

Ficamos a perceber que a blogosfera portuguesa já conheceu melhores dias quando 80% dos utilizadores do Sapo que responderam a um inquérito recente afirmam nunca ler blogues. Tempos diferentes viviam-se nos anos gloriosos de 2003-2004, marcados pelo fascínio de muitos cibernautas com a súbita democratização da opinião publicada e a revelação nos blogues de novos comentadores políticos que chegariam pouco depois aos media tradicionais. Nessa altura, fui convidado para escrever sobre cinema no Pipoca Rasca, rapidamente interligado com outros blogues dedicados ao mesmo tema, cuja rede fornecia opinião e informação alternativas às da então abundante imprensa cinéfila. Sem perceber grande coisa do assunto, critiquei filmes durante cinco anos até me cansar. Enquanto a troika voava para a Portela, lancei sozinho o blogue Tralha Útil, sem tema específico mas onde escrevia sobretudo transcrições de notícias de jornais antigos que descobria durante as minhas pesquisas e achava curiosas por uma razão ou outra. Em 2013, compreendi que aquilo já não fazia sentido e afastei-me da blogosfera, recebendo apenas vagas informações segundo as quais os blogues políticos estavam a perder qualidade e a ser dominados pelos partidos, enquanto proliferavam diários virtuais sobre lifestyle (seja lá o que isso for) repletos de publicidade. Entretanto, as redes sociais, em particular o Twitter e o Facebook, dominavam o mundo e, com um alcance e uma interactividade muito superiores aos dos blogues, pareciam condená-los à irrelevância.

Todavia, foi através das redes sociais que voltei à blogosfera. Ao ver toda a gente a dar palpites sobre a actualidade no Facebook, resolvi também lançar algumas bocas, mas depressa percebi que o café gigante de Mark Zuckerberg não foi feito para difundir opiniões que não caibam num único parágrafo. Só nos velhos blogues é possível encontrar o ritmo e o espaço necessários a análises menos instantâneas e mais desenvolvidas. Sem vontade de regressar ao Blogger, encontrei mesmo à frente do nariz a plataforma do Sapo Blogs e, na tarde do dia 1 de Fevereiro de 2017, criei um site cujo nome, por razões óbvias, só poderia ser Desumidificador. Como orgulhoso odivelense que sou, coloquei no cabeçalho uma fotografia do Jardim da Música. Restava apenas saber o que fazer com uma tribuna sobre tudo e sobre nada.

 

 

Os textos que fui produzindo, geralmente escritos já depois da meia-noite e publicados na manhã seguinte, acabaram por se dividir, de uma forma geral, em quatro grupos, entre críticas a livros que li, opiniões sobre a política nacional, crónicas centradas numa determinada figura pública e descrições do meu acanhado universo pessoal, para além de ocasionais digressões em torno do cinema, do futebol ou da televisão. Quando acabo um post, nunca sei qual será o tema do próximo texto. De resto, apesar da pressão que todos sentimos para comentar tudo, muitas vezes não tenho opinião sobre as últimas notícias ou, depois de ler ou ouvir o que os comentadores a sério disseram, sinto não ter nada a acrescentar. Longe de aspirar à originalidade, procuro abordar os temas a partir de um facto ou uma perspectiva até aí subvalorizados. Quanto ao estilo, a ironia costuma ser mais eficaz que doses industriais de indignação, o produto mais vendido do nosso tempo, para atingir um alvo. Apesar de ser de esquerda (ou talvez por isso mesmo), passei os últimos dois anos a falar da direita, um sector político a viver uma fase tão interessante quanto inquietante.

Porque escrevi mais de 200 posts, crónicas ou o que queiram chamar-lhes? Por causa da eterna paixão pela leitura e pela escrita, mas também porque cada publicação é uma espécie de mensagem na garrafa à espera de ser descoberta por alguém num lugar longínquo. Canções dos Police à parte, os comentários que recebi foram muito encorajadores. Agradeço à equipa do Sapo Blogs pelos destaques concedidos a textos meus, bem como a quem nomeou o Desumidificador para os Sapos do Ano 2019. As reacções de discordância acesa têm sido menos numerosas, mas ser apelidado de “comuna beócio” também aquece o coração. Quanto ao futuro, nem sempre é fácil prosseguir num ambiente tão húmido, mas isto não acaba assim.

 

P.S. A imagem é da autoria deste fotógrafo.

Duas lojas vizinhas

Eu vi este povo a lutar…

 

Iniciativa Liberal (IL): Para o socialismo acabar.

Chega (CH): Para os pedófilos castrar.

 

O país ideal é aquele em que…

 

IL: Ninguém é piegas.

CH: Pedro Dias nunca mais copula.

 

A decadência de Portugal começou…

 

IL: Há 20 anos, quando o crescimento económico estagnou.

CH: Há 45 anos, quando José Cid lançou o single “A Rosa que Te Dei”.

 

Solução para tudo:

 

IL: Descida de impostos.

CH: Justiça mais dura.

 

A retórica usada tem de ser…

 

IL: Revolucionária, para agradar aos jovens.

CH: Reaccionária, para agradar aos velhos.

 

Atitude para chamar a atenção dos media:

 

IL: Irreverência.

CH: Vitimização.

 

O partido tende a atrair pessoas que trabalham em…

 

IL: Empresas e universidades.

CH: Esquadras.

 

 

Crítico de cinema/televisão:

 

IL: Eduardo Cintra Torres.

CH: Eurico de Barros.

 

Jornal com uma visão do mundo idêntica:

 

IL: Observador.

CH: Correio da Manhã.

 

Partido irmão espanhol:

 

IL: Ciudadanos.

CH: Vox.

 

Costumam ir à missa?

 

IL: Nem por isso…

CH: Claro, Deus está do nosso lado.

 

Herói contra-revolucionário de 1975 preferido:

 

IL: Jaime Neves.

CH: Cónego Melo.

 

Zonas de conforto:

 

IL: Freguesias de Lisboa e Porto com eleitores mais ricos e escolarizados.

CH: Subúrbios de Lisboa e concelhos do Alentejo com mais ciganos.

 

Celebridade feminina que mais os irrita:

 

IL: Greta Thunberg.

CH: Carolina Deslandes.

Perguntas sem resposta

1. Irá o Reino Unido realmente sair da União Europeia a 31 de Janeiro de 2050?

2. As irmãs Mortágua seriam tão odiadas se fossem os irmãos Mortágua?

3. Raquel Varela alguma vez sente culpa?

4. Quem paga a sobrevivência de O Diabo?

5. Porque é que o jornal i não acaba definitivamente em vez de ir ficando cada vez pior?

6. Luís Marques Mendes virá algum dia a crescer (não, não me refiro à altura dele)?

7. Como será o discurso de André Ventura na próxima sessão parlamentar comemorativa do 25 de Abril?

8. Se o Sporting tivesse vencido o campeonato de 2015/16, seria Bruno de Carvalho ainda presidente do clube?

9. Não será má ideia alterar os programas escolares para difundir uma dada versão da História, seja ela qual for?

10. Porque temos sempre de “compreender” as pessoas que votam na extrema-direita, enquanto já se sabe de antemão que o eleitorado da extrema-esquerda é um misto de parasitas e burgueses entediados?

11. Alguma vez um comentador que fale da necessidade de mais políticos oriundos da “sociedade civil” admitirá não estar propriamente a pensar em actrizes e operários metalúrgicos?

12. O que aconteceu ao jornalista de extrema-direita António Ribeiro Ferreira?

13. Como será que o Expresso conhece tudo o que Marcelo Rebelo de Sousa quer, teme, prevê, acredita e outros verbos usados pelo jornal na primeira página?

14. Porque não é criticado o facto de nenhuma mulher alguma vez ter sido presidente do Benfica, do FC Porto ou do Sporting?

15. O comunismo voltará como o fascismo voltou?

16. Por que motivo dão as pessoas mais atenção a Greta Thunberg que a um experiente e conceituado especialista em alterações climáticas (e atum) como Zé Diogo Quintela?

17. Onde arranjam os leitores da Visão e da Sábado dinheiro para passarem tanto tempo a viajar e a comer fora?

18. O que aconteceu no dia em que Eduardo Cintra Torres decidiu odiar Nuno Artur Silva para o resto da vida?

19. Acreditará José Gomes Ferreira que é o Tom Cruise?

20. De que modo Miguel Pinto Luz se tornou candidatável à liderança do PSD?

 

 

As herdades

A Herdade, de Tiago Guedes

 

No papel da sua vida, Albano Jerónimo encarna em A Herdade João Fernandes, o senhor feudal de uma grande propriedade a sul do Tejo cuja gestão lhe interessa mais do que o convívio com o resto da elite do Estado Novo, à qual está ligado familiarmente por via da sua mulher Leonor (Sandra Faleiro). Impetuoso e distante, João vai enfrentar o marcelismo e a Revolução até conhecer a ruína progressiva do seu mundo, dominado por um silêncio que se torna mais avassalador à medida que a solidão do dono da herdade se acentua.

Integrado num já vasto conjunto de filmes que constroem ficção a partir do potencial do século XX português, A Herdade remete para uma época e uma região específicas, mas, paradoxalmente, pode ser visto e compreendido em qualquer parte do mundo. Para isso contribui a beleza visual da obra, garantida pela qualidade da montagem e pela forma exímia como Tiago Guedes domina a luz, o espaço, os cenários naturais ou o tempo, numa longa-metragem de mais de duas horas e meia que nunca se arrasta. Para lá da memória colectiva nacional, o argumento de Guedes e Rui Cardoso Martins foca temas universais como o poder, a família e as dificuldades de comunicação, pecando apenas por alguma previsibilidade na evolução da história durante a segunda parte.

O filme evita os clichés onde seria tão fácil cair e desenvolve as personagens através de um registo de contenção baseado naquilo que fica por dizer (talvez o casal Fernandes beba e fume tanto precisamente para manter as bocas ocupadas) e na tensão guardada em segredo até um dia explodir e fazer vítimas. O desempenho sem falhas do elenco, dominado por um Albano Jerónimo que disputará o prémio Sophia com Sérgio Praia, garante o êxito de um filme sensível, realista, ambicioso, profundo sem ser aborrecido e que eleva o cinema português a um patamar raramente alcançado, onde só filmes como Alice, de Marco Martins, se equivalem na força e durabilidade ao trabalho de Tiago Guedes.

 

Um filme para… Perceber como se faz um bom drama.

Nota: 8/10.

 

 

 

Rambo: A Última Batalha, de Adrian Grunberg

 

Apesar das histórias disparatadas, das personagens de cartão e da violência desmesurada, os cinco filmes da série Rambo são um guilty pleasure para muitos cinéfilos atraídos pelo carisma de Sylvester Stallone na pele de uma das duas únicas personagens (a outra é Rocky) que consegue realmente interpretar. Stallone é também co-argumentista de Rambo: A Última Batalha (Last Blood no original), uma obra que mostra o guerreiro solitário no seu quotidiano na velha quinta dos Rambo no Arizona, aonde voltara após uma longa peregrinação no final do quarto capítulo. O veterano do Vietname enfrenta os seus traumas na companhia de uma família adoptiva cuja tranquilidade se esfuma devido à acção criminosa de um bando mexicano de traficantes de seres humanos.

Naquele que é, salvo erro, o filme da saga em que Stallone fala durante mais tempo, vemos um John frágil, amargurado, envelhecido (embora plastificado, de acordo com a arrojada teoria de Ricardo Araújo Pereira) e até derrotado, num raro aprofundamento do lado emocional da personagem, favorecido pela realização eficaz de Grunberg. Claro que, mais cedo ou mais tarde, acaba por chegar a parte que o público veio ver e não será um grande SPOILER revelar que no final o herói massacra os bad hombres, numa já mítica sequência onde cada morte é mais cruel que a anterior. O politicamente correcto vê-se atingido pelas flechas de Rambo, de forma brutal mas também honesta e genuína num tempo de cinema padronizado.

Depois de ter sido o herói por excelência da era Reagan, Rambo torna-se aqui, talvez inevitavelmente, um símbolo do espírito dos anos Trump. Poderíamos justificar com as necessidades do argumento o facto dos vilões serem mexicanos e do país vizinho dos EUA ser apresentado como um sítio pobre e violento, mas a mensagem de Last Blood deixa claro que o tempo de ir para terras distantes combater os inimigos da liberdade já passou. Agora, os americanos devem ficar em casa e reprimir as ameaças que entram pela fronteira sul, limitada por frágeis vedações facilmente derrubadas pela carrinha de Rambo e (ainda) não por um muro inexpugnável. Como Stallone afirma quase textualmente, o mundo lá fora é perigoso e está cheio de gente má que deve sempre ser tratada com desconfiança.

O rasto de sangue deixado no mundo por John Rambo chega ao fim num episódio que encerra a série com dignidade e um mínimo (sem exageros, claro) de profundidade, permitindo também avaliar o herói como um espelho do lado sombrio da América, mais afeito à guerra que à paz.

 

Um filme para… Dizer adeus a uma personagem marcante do cinema.

Nota: 6/10.

 

 

 

E no entanto, isto move-se

1. A abstenção atingiu nestas eleições valores preocupantes que nos obrigam a uma reflexão profunda. Pronto, já disse a frase indispensável. Agora posso esquecer isso durante quatro anos e analisar as opções das pessoas que se deram ao trabalho hercúleo de ir votar.

 

2. A popularidade da Geringonça ditou os resultados finais das legislativas, até porque o PS nunca explicou de forma convincente em que medida uma maioria absoluta seria melhor que a manutenção da coligação de esquerda, a solução predilecta de muitos eleitores socialistas. António Costa terá de continuar a governar apoiado em concessões a outros partidos, num cenário internacional que, depois de uma campanha em que tudo era possível, ficámos a saber estar prenhe de ameaças. Não será fácil, mas a pressão das bases leva as direcções de PS, BE e PCP a evitarem a todo o custo serem consideradas responsáveis por uma eventual ruptura. Como escreveu José Pacheco Pereira em 2015, o casamento pode ser difícil, mas o divórcio seria muito pior.

 

 

3. O PSD tremeu mas não caiu no Norte, em parte do Centro e na Madeira, regiões onde venceu o PS por curta margem ou ficou pouco atrás dos socialistas. No resto do país, porém, a influência social-democrata é cada vez menor, particularmente no distrito de Lisboa, acentuando-se a tendência para uma ruralização do voto “laranja”. Em resposta a isto, Rui Rio mostrou-se demasiado satisfeito com o segundo lugar e adoptou um discurso mesquinho, típico de quem faz uma lista das pessoas que o chateiam para um dia vir ajustar contas. As sondagens do início de Setembro, que pareciam ser a condenação de Rio, converteram-se na sua salvação, já que o portuense baseia-se numa votação superior às fracas expectativas para não sair sem luta da liderança. Acontecerão em breve eleições directas no PSD e Rio, novamente desafiado, poderá sair vencedor. Resta saber se conseguirá inverter a progressiva perda de fôlego do partido de Cavaco Silva.

 

 

4. No final dos anos 80, o desaparecimento de um PCP forte e a efemeridade do furacão PRD permitiram a PS e PSD dominar em conjunto mais de dois terços do eleitorado. Nas legislativas de 1991, a soma dos votos de PSD e PS atingiu uns impressionantes 79,73% do total, descendo mais tarde para 77,88% (1995) e 76,38% (1999). Na primeira eleição parlamentar deste século, em 2002, os membros do Bloco Central somavam ainda cerca de 78%, mas cairiam para 73,79% (2005) e, há dez anos, com 65,67% dos votos, não atingiram os dois terços, sendo prejudicados pelo crescimento de BE e CDS e pela estabilidade da CDU. 2011 mostrou uma ligeira recuperação de PS e PSD, escolhidos por 66,71% dos votantes, antes de se verificar em 2015 a formação da PAF, cuja percentagem, adicionada à obtida pelo PS, somaria 69,17%. Finalmente, em 6 de Outubro de 2019, a votação conjunta de PS e PSD não foi além de 64,55%, o valor mais baixo desde 1985. Tudo isto revela que, apesar do enraizamento popular que socialistas e sociais-democratas mantêm, o predomínio dos dois maiores partidos da democracia é cada vez menor. Nas áreas mais urbanizadas, os eleitores demonstram um interesse crescente por novos projectos políticos e alternativas ao “centrão”, para lá do aumento dos votos brancos e nulos. A resistência dos partidos tradicionais em Portugal, apontada como uma excepção no contexto europeu, tem sido sobrestimada.

 

5. O declínio do PCP nos últimos quatro anos não se deve ao alegado descontentamento dos eleitores comunistas com a participação na Geringonça, mas sim a factores estruturais ligados ao envelhecimento do universo do partido, incapaz de se adaptar às mudanças no trabalho e na sociedade e cuja linguagem antiquada e repetitiva prejudica a atracção de novos (e jovens) eleitores. A influência comunista no sindicalismo começa também a ser posta em causa. A simpatia e genuinidade de Jerónimo de Sousa, um português comum que pode dizer que comeu “o pão que o diabo amassou” sem ser desmentido, elevaram e estabilizaram a votação na CDU até se tornarem insuficientes. Se o PCP funcionasse como os outros partidos, Jerónimo apresentaria a sua demissão, mas só deverá ser substituído no congresso de 2020. Dito isto, a morte do partido pró-soviético (no centenário da Revolução Russa, mostrou continuar a sê-lo) de Portugal já foi muitas vezes anunciada e sucessivamente adiada, pelo que conclusões definitivas são de evitar.

 

6. O período de Assunção Cristas na liderança do CDS pode ser dividido em fases distintas. Entre 2016 e 2017, Cristas soube afirmar a sua marca num partido muito marcado pelo perfil do seu antecessor e conduzir a hoste democrata-cristã a um resultado histórico na autarquia de Lisboa, embora irrelevante no resto do país. Depois desse feito, contudo, a “futura primeira-ministra” pareceu ser tomada por um certo deslumbramento, a partir do cálculo político errado (também feito por Santana Lopes, com os resultados que se viram) de que a viragem ao centro do PSD e a aproximação de Rui Rio ao PS levariam numerosos votantes “laranjas” a mudarem-se para a verdadeira direita, tornando o CDS a “primeira escolha”. O ano de 2019, coincidindo com a saída de Adolfo Mesquita Nunes da vice-presidência do CDS, tem sido desastroso para o partido, onde foi visível por muitas vezes um desnorte total. Depois do mau resultado das europeias, influenciado pela “crise dos professores” e pelo comportamento de Nuno Melo (um representante fiel daquela direita que ainda não digeriu bem a derrota de 1834), Cristas assumiu uma pose mais contida e o Verão decorreu sem grandes abalos, apesar dos sinais preocupantes de radicalização revelados pela polémica das casas de banho. A abundância de sondagens negativas instalou no discurso do CDS um tom permanente de desespero, a que se juntaram uma campanha publicitária que não fez sentido e a opção de Assunção Cristas por baixar demasiado o nível nos confrontos com António Costa. O programa liberal/conservador apresentado no Caldas não satisfez uma faixa de eleitores que encontrou na IL um projecto mais coerente. De regresso aos números do cavaquismo, o CDS enfrenta um futuro indecifrável e indica que os partidos nascidos em 1974 podem não ser eternos.

 

7. O crescimento do PAN deve-se acima de tudo à habilidade política de André Silva, que soube aproveitar muito bem o escasso espaço de que dispôs ao longo da legislatura agora finda para fazer os holofotes incidirem sobre o seu partido. No dia em que Manuel Alegre escreveu que 229 deputados pareciam ter medo de um único parlamentar, a batalha do PAN estava ganha. O intenso escrutínio mediático a que o partido foi sujeito durante a campanha, com as suas propostas mais ridículas a serem expostas à luz do dia, pode ter impedido o PAN de ir além de um nicho de eleitorado, mas conferiu aos animalistas uma visibilidade que nunca mais perderão, até porque o contexto mundial de crescente preocupação com as alterações climáticas beneficia-os.

 

8. A Iniciativa Liberal provou que, apesar de em Portugal ainda quase tudo se jogar na televisão, uma campanha baseada em cartazes e na utilização das redes sociais pode ter sucesso e chamar a atenção dos media tradicionais sem necessidade de recorrer à lamúria santanista. A irreverência e contundência da IL, expressas na sua “oposição ideológica ao socialismo”, têm feito recordar os primeiros anos do Bloco de Esquerda, podendo surgir outra semelhança quando, à imagem do que sucedeu há vinte anos com os bloquistas, parte da comunicação social revelar um carinho muito especial pela organização de Carlos Guimarães Pinto.

 

9. Visto com benevolência por toda a gente (excepto os fascistas), o Livre tem sido uma espécie de Belenenses ou Académica da esquerda, ou seja, a segunda preferência de muitas pessoas que, na hora da decisão, acabam sempre por apoiar um dos “grandes”. Desta vez, porém, nas eleições do tudo ou nada para o partido de Rui Tavares, a base de apoio predominantemente lisboeta do Livre chegou para atingir o “sem-precedente”. O desafio do Livre será conseguir assumir o seu papel de aliado natural do PS sem ser engolido pelos socialistas. Pelo seu percurso de vida, Joacine Katar Moreira apresenta-se como a representante de grupos populacionais cujas experiências e preocupações raramente são ouvidas pelas elites políticas. Dito de outra forma, se vivêssemos num país ideal, a descrição da historiadora como mulher, negra e imigrante seria supérflua, mas não o é. Quanto à gaguez de Joacine, as pessoas mais apressadas terão de ser pacientes, porque ela não vai ficar calada.

 

10. A entrada do Chega na Assembleia da República é a segunda morte do professor Freitas do Amaral. De facto, a actividade de Freitas no período entre 1974 e 1976 permitiu esvaziar a extrema-direita portuguesa e levou a maior parte desta a entrar nos partidos do sistema (PSD e CDS), sem abalar o consenso sobre o regime político. No entanto, a última década assistiu a uma vaga internacional de retorno do fascismo (sim, eu sei que se trata de uma simplificação, mas também não podemos cair no extremo de dizer que ninguém é fascista) e Portugal, apesar das cada vez mais distantes memórias da ditadura e da Revolução, não poderia ficar de fora. André Ventura viu a sua oportunidade e, em pouco tempo, conseguiu aproveitá-la. O que poderá o político apoiado pelo grupo Cofina acrescentar no Parlamento? Barulho.