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Desumidificador

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"Fahrenheit 11/9"

O realizador Michael Moore alcançou a fama nos EUA com o filme Roger & Me (1989), mas só se tornou conhecido em Portugal a partir de 2003, quando Moore aproveitou a atribuição do Óscar de Melhor Documentário a Bowling for Columbine para fazer um discurso inflamado contra George W. Bush e a invasão do Iraque. No ano seguinte, o cineasta tentou sem sucesso evitar a reeleição de Bush através de Fahrenheit 9/11, documentário que gerou uma acesa discussão na nossa blogosfera, onde a esquerda considerou o filme digno da Palma de Ouro que recebera e a direita resumiu a obra a um monte de mentiras e manipulações. Durante os anos Obama, contudo, os ecos do activismo de Moore começaram a esbater-se, apesar do realizador ter vindo a Portugal filmar parte de E Agora, Invadimos o Quê? 14 anos depois da mediática polémica em torno de Fahrenheit 9/11, a nova longa-metragem de Michael Moore estreou num único cinema de Lisboa e praticamente sem referências fora das páginas de crítica cinematográfica. Na verdade, no meio de tantos conteúdos audiovisuais hoje disponíveis em todo o lado, um filme destes não chama a atenção de quase ninguém.

 

O cinema de Michael Moore é marcado pelo humor certeiro e pelo talento do americano obeso para expor as realidades mais inacreditáveis, mas também pelo egocentrismo de Moore e pela exploração do sofrimento alheio a que por vezes recorre. Um pouco disto tudo pode ser encontrado em Fahrenheit 11/9, que, tal como o seu antecessor de 2004, começa por imaginar que tudo não passou afinal de um pesadelo, antes de enfrentar a dura realidade, vivida agora sob a administração de Donald Trump. Desta vez, contudo, Moore não se limita a desancar o presidente dos EUA e procura lançar um olhar mais abrangente sobre a paisagem política americana. A profusão de acontecimentos referidos torna Fahrenheit 11/9 algo ineficaz na ligação entre os seus capítulos, com a história da contaminação da água de Flint, a terra natal do realizador, a parecer um filme dentro do filme. No entanto, a ideia de apresentar a devastada cidade do Michigan como um microcosmos dos Estados Unidos actuais revela-se compensadora.

 

 

Uma das lições deste documentário é a de que vivemos na era da polarização. Quando Moore entrevista eleitores democratas que se sentem traídos pela elite moderada do partido, percebe-se que a conversa sobre as eleições que se ganham ao centro e a classe média receosa do radicalismo já não faz grande sentido. De resto, surgem no filme várias das novas congressistas recentemente eleitas nas intercalares, mais próximas do anticapitalismo de Moore que da linha tradicional do Partido Democrata. Fica também claro como o discurso de Trump vai pouco a pouco transformando o impensável na nova normalidade. Há sempre quem diga que os Trumps e os Bolsonaros acabarão por ser controlados pelas instituições e pela necessidade de compromissos, mas antecipar o pior cenário e alertar para a fragilidade da democracia constitui a atitude mais prudente, antes que um dia destes mil Alcochetes aconteçam.

 

A gravidade da situação americana contribui para que Fahrenheit 11/9 seja menos chocarreiro que o habitual na filmografia de Moore e dominado por um apelo urgente à destruição do sistema viciado no qual Trump cresceu e venceu. A esperança do cineasta está nos jovens e em todos os resistentes que confrontam os políticos, fazem greves e manifestações e participam na democracia (ou seja, aquelas pessoas que Raquel Varela adora e João César das Neves odeia). Além de descrever uma época conturbada, Fahrenheit 11/9 reflecte sobre os erros da esquerda e o regresso às origens de que esta precisa para fazer os cidadãos recuperarem a fé na soberania do povo. Sem essa fé, o tempo dos presidentes vitalícios estará para ficar.

 

 

Um filme para… Pensarmos em como raio é que podemos sair disto.

Nota: 7/10.

 

P.S. Eram dispensáveis as insinuações de Moore acerca da suposta relação incestuosa entre Donald Trump e a sua filha Ivanka. Por outro lado, as imagens dos dois juntos são bastante creepy. Enfim, adiante…

 

Povo, povo, eu te pertenço

Durante o PREC, tudo parecia simples. De um lado estava a “classe trabalhadora”, do outro a burguesia, os capitalistas, os latifundiários, os monopolistas, “enfim, os parasitas”, no resumo de José Jorge Letria. Representados nos cartoons dos jornais de esquerda como um grupo de gordos (ainda não existiam gorduras baratas no mercado) de cartola, charuto, fato e gravata, os banqueiros e empresários saíam do país ou originavam apelos à união dos trabalhadores, através da qual, segundo Fausto, “espalhamos a morte entre esta cambada". No entanto, percebeu-se que havia vários povos dentro do povo quando manifestações de sinal contrário se referiram a si próprias através do slogan “Se isto não é o povo, onde está o povo?” Nas décadas posteriores à Revolução, a luta de classes acalmou, fruto da estabilização política, da maior mobilidade social trazida pelo impacto da adesão à CEE e da redução da mão-de-obra nas actividades económicas mencionadas na “música de intervenção” (pesca, indústria, agricultura) em simultâneo com o crescimento do Estado e dos serviços, entre outros factores propícios à expansão da classe média, enquanto as relações laborais passaram a orientar-se pelo princípio da concertação social. Nas telenovelas, os pobres não queriam derrotar os ricos, queriam ser iguais a eles. Nem o abalo da crise económica forneceu particular sucesso ao discurso classista de esquerda, com BE e PCP a serem mais prolixos no ataque às “imposições da União Europeia” que na crítica ao sistema capitalista.

 

Actualmente, o anti-elitismo constitui uma marca do discurso da direita, pródiga em referências à “oligarquia”, às “elites bem-pensantes” ou aos “Donos Disto Tudo”, cujo domínio estaria a provocar o descontentamento da maioria do eleitorado e explicaria a emergência dos fenómenos populistas. As eleições no Brasil foram consideradas por analistas como Rui Ramos, João Miguel Tavares e Manuela Moura Guedes a prova de que os eleitores já não obedecem às ideias políticas das elites e aos princípios julgados indiscutíveis por estas. Confrontados no seu quotidiano com problemas a que o establishment não consegue dar uma resposta capaz, os populares europeus e americanos estariam a optar por soluções de ruptura, numa situação a que Portugal poderá não escapar caso o regime da Constituição de 1976 mantenha o seu bloqueio e a falta de reformas. Existe, no entanto, uma incógnita: quem faz parte das elites? Os comentadores referem-se a elas num tom de “vocês sabem do que eu estou a falar”, mas são parcos em exemplos de personalidades e grupos sociais colocados em posições de topo. A “oligarquia” que Rui Ramos tanto despreza aparentemente não integra os accionistas do Observador, mas apenas uma vaga faixa de dependentes do Estado situada algures entre Rui Rio e Mário Nogueira. Poder-se-ia pensar que os anti-elitistas se referem aos políticos tradicionais, ocupantes frequentes dos cargos públicos, mas, nesse caso, porque é que Cavaco Silva e Passos Coelho, com décadas das suas vidas dedicadas à política, não fazem parte do “sistema” decadente?

 

Numa posição surpreendentemente idealista, a direita considera a produção cultural mais influente que o poder económico e emite abundantes queixas relativas ao domínio dos media, das artes e da educação pela esquerda, que se serviria dessas posições para moldar ao seu gosto o pensamento das massas. O efeito hipnótico estará, no entanto, a desvanecer-se, servindo o exemplo brasileiro para João Miguel Tavares avisar as “elites artísticas, intelectuais e jornalísticas” (nas quais Tavares se auto-inclui) de que o “povo” já não segue as suas orientações e, embora acompanhe o trabalho de figuras da cultura de esquerda, não vota em quem elas indicam. Na verdade, existem motivos para questionar se isso alguma vez aconteceu. No caso português, os numerosos artistas e intelectuais ligados ao PCP e à extrema-esquerda no final dos anos 70 não impediram as vitórias eleitorais da AD. Quanto aos comentadores políticos, mesmo quando estes eram poucos (antes da “explosão” trazida neste século pelos canais de notícias), não haveria muita gente a orientar o seu voto por aquilo que Vasco Pulido Valente ou Miguel Sousa Tavares escreviam na imprensa. Já no presente, o artista engagé constitui uma espécie rara, quando se espera das celebridades que tenham muitos sentimentos e falem constantemente da sua vida privada, não da situação política.

 

 

As críticas dirigidas às “elites” visam não tanto aquilo que fazem, mas sobretudo aquilo que dizem e o facto das suas opiniões não acompanharem o suposto sentimento do cidadão comum. Assim, enquanto as “elites” vivem protegidas numa bolha, o “povo” sabe o que custa a vida. Ao passo que as “elites” iludidas julgam que podemos ser todos amigos, o “povo” identifica os riscos trazidos pelo fluxo de imigrantes e refugiados. As “elites” adoram falar dos direitos das minorias, o “povo” tem coisas mais importantes em que pensar. Os ateus pedantes das “elites” desprezam a religião cristã, cujos princípios são preservados pelo “povo”. Os sindicalistas ligados às “elites” fazem greves e manifestações, apesar do “povo” só querer trabalhar e criar empresas. A hipocrisia do “politicamente correcto” das “elites” contrasta com a rudeza sincera do “povo”. De uma maneira geral, as “elites” desejam mais Estado, mais impostos, mais regras, menos polícias, mais “cultura” que ninguém vê, mais homossexualidade e mais RTP2, enquanto o “povo” exige menos subsídios, mais armas, mais anos de cadeia, mais futebol, menos Islão e mais CMTV. As “elites” são Isabel Moreira. O “povo” é André Ventura. No meio de tudo isto, não sei quem é mais insultado, as elites ou o povo (agora sem aspas).

 

Num mundo em que um milionário nova-iorquino se apresenta como a voz dos pobres e excluídos e um ex-militar apoiado pelos grandes empresários anuncia ir libertar o povo brasileiro da elite corrupta, o anti-elitismo tornou-se uma arma das verdadeiras elites e uma forma de silenciar quem resista à tendência crescente para agravar a violência das práticas e dos discursos. A distinção povo/elites revela-se ainda insuficiente para compreender o fenómeno político. Numa sociedade individualista, onde as redes sociais reforçam a atomização e o isolamento, factores como a classe social ou o nível de escolaridade dos eleitores terão a mesma influência de outrora nas escolhas destes? Apenas estudos académicos poderão responder a esta dúvida.

 

Como ser fascista

 

Baixe o nível: Ataque as “elites bem pensantes” que se distanciam do povo, obcecadas pelo “politicamente correcto” e pela concordância entre o sujeito e o predicado. Quando se dirigir aos seus adversários, insulte-os abundantemente, remexa na vida privada deles, goze com o sofrimento alheio e recuse tratá-los como seres humanos. Claro que ouvirá a barulheira das virgens ofendidas do costume, mas muitos eleitores vão gostar de ver os seus preconceitos confirmados e invejar alguém capaz de ser rude e desagradável e sair sempre impune. A linguagem inflamada tem também a utilidade de hipervalorizar a emoção e converter os factos em lixo descartável. Se você for espontaneamente malcriado sempre que falar em público, o seu estilo acabará por tornar-se normal e até será elogiado pela sua sinceridade. Quando chegar a esta fase, anuncie aquilo que fará depois de ser eleito. Ninguém vai acreditar que é mesmo a sério.

 

Vítimas e carrascos: Garanta que você é uma vítima e foram sempre os outros meninos que começaram a briga. Por exemplo, você não é machista, só recusa os excessos do feminismo. Não é homofóbico, rejeita a ideologia de género. Não é racista, opõe-se aos malefícios do multiculturalismo, etc., etc. Esclarecido este ponto, ataque sem dó nem piedade. Utilize com frequência verbos como “punir”, “varrer”, “castrar”, “obrigar”, “expulsar”, “reprimir”, “esmagar” e tudo o que implique dar porrada literal ou metafórica nas pessoas de quem não gosta. Acuse os defensores de soluções mais brandas de serem, na melhor das hipóteses, ingénuos crentes no Pai Natal, e, na pior (prefira esta), traidores ao serviço do inimigo. Se for homem, vai sentir-se tão macho. Se for mulher, vai adorar o prazer de humilhar outras mulheres.

 

Abomine muito a corrupção: A grande vantagem da corrupção é que, ao contrário de crimes como o plágio, o tráfico de droga, o excesso de velocidade ou deitar lixo na rua, pode ser associada exclusivamente aos políticos e fornecer-lhe assim a justificação moral necessária para evitar que a política seja uma enfadonha troca racional de argumentos (nisso você não tem hipóteses de sucesso), em vez de uma excitante e infindável batalha entre as pessoas honestas e os bandidos. Acha que alguém vai querer ser visto ao lado dos bandidos? Claro que não, sobretudo depois de você gritar 24 horas por dia o quanto odeia a corrupção e apontar quem fala de “segredo de justiça”, “garantias de defesa”, “direitos dos arguidos” e outras tretas como cúmplices da ladroagem que também precisam de ser varridos.

 

 

 

Mostre como a democracia é cara: Para guiar o povo pelo caminho luminoso da raiva e do ressentimento, lembre-lhe que está a sustentar parasitas. Fale da vida de luxo dos políticos, dos carrões pagos pelos contribuintes que eles usam, dos ordenados principescos que recebem, da inutilidade do trabalho deles. Dê a entender que qualquer ocupante de um cargo público é culpado até prova em contrário. Recorra a termos como “corja”, “saque”, “chulos” ou “gatunos” e proclame que chegou a hora dos portugueses deixarem de ser “mansos”. Esta estratégia tem dois objectivos. A curto prazo, faz o seu público desconfiar de toda a classe política e ver em si (que, obviamente, não é um político) um salvador, reduzindo os níveis de exigência e convertendo os seus defeitos em qualidades. Além disso, ao desacreditar instituições como partidos, sindicatos, parlamentos ou qualquer forma de participação política, garantirá que ninguém vai protestar depois de você chegar ao poder e acabar com isso tudo.

 

Tudo pode ser verdade, tudo pode ser mentira: Aproveite bem todas as oportunidades de aparecer na televisão (se conseguir falar sobre futebol, ainda melhor), mas, no resto do tempo, queixe-se de censura e descreva uma conspiração dos media contra si. Ridicularize os comentadores, reduza todo o jornalismo a uma forma de manipulação política e denuncie como falsos e tendenciosos os artigos e reportagens que lhe sejam desfavoráveis. Incentive os seus adeptos a receber informação apenas através das redes sociais, onde pode espalhar todo o tipo de “factos” devastadores para os seus adversários. Para criar boas fake news, é fundamental nunca se preocupar com a verosimilhança delas, por mais absurdas e fáceis de desmentir que sejam. Afinal, a sua mentira é apenas a confirmação daquilo que o público já sente que é verdade. A reacção do internauta à “notícia” nunca deve ser de choque ou surpresa, mas sim um “bem me parecia” e a consequente partilha. Use de preferência maiúsculas brancas sobre fundo preto, dando a impressão de que cada mensagem faz a diferença entre a vida e a morte dos leitores. Se tudo correr bem, você nem precisará sair de casa para dominar um país inteiro.

 

Pinte a História de cor-de-rosa: Associe o seu orgulho de ser português à “gesta” dos Descobrimentos e conte como durante séculos pessoas de todas as raças e credos viveram em paz e harmonia no Ultramar, partilhando a grande aventura da portugalidade. Quanto ao Estado Novo, lamente um ou outro erro cometido, mas recorde que ao menos nesse tempo havia ordem nas ruas e contas equilibradas. Destaque a vida austera levada por Salazar em S. Bento numa época em que os jornais nunca publicavam notícias de casos de corrupção. Se alguém apresentar uma versão diferente da sua, acuse-o de usar o passado para fins políticos, coisa que você nunca faz. Contudo, não exagere nas evocações históricas, pois o objectivo limita-se a transmitir a impressão de uma grandeza passada da nação que a dada altura terminou, por causa de pessoas como Sérgio Godinho, e é preciso recuperar. Se os seus apoiantes começarem a interessar-se a sério por História, ainda acabam a ler livros perigosos.

 

Siga estes conselhos e poderá em breve conduzir Portugal ao mundo encantado do fascismo. Não tem dinheiro? Não há problema, procure nos sítios certos e vai ver que ele aparece. Em caso de necessidade, peça a um dos seus amigos o contacto do Steve Bannon. Ele liga para Moscovo e arranja qualquer coisa para si.

 

 

 

Notas sobre a Geringonça

O nome: Vasco Pulido Valente terá usado numa crónica a expressão “geringonça” para descrever o estado do PS, muito antes de Paulo Portas colar a palavra à aliança parlamentar formada no Outono de 2015. Lançado pelo então líder do CDS com intuito pejorativo, o termo depressa foi adoptado pela comunicação social, sendo escrito nos jornais primeiro entre aspas e depois sem elas, uma vez que o novo significado do vocábulo supostamente já se banalizara na linguagem popular. À medida que o tempo avançava e a coligação resistia, alguns sectores da esquerda resolveram neutralizar o desdém contido na expressão fazendo-a sua e escrevendo orgulhosamente “Geringonça” com maiúscula. A nomenclatura acabou por perder a carga emocional e ser aplicada a qualquer coligação interpartidária formada num dado país europeu. Presente nos títulos de vários livros, incluindo o segundo volume das memórias presidenciais de Cavaco Silva, a palavra “geringonça” será, de acordo com os jornalistas, a designação pela qual o Governo de António Costa ficará conhecido nos livros de história. Pensar que tudo isto começou com Portas e Pulido Valente faz-nos perceber como Portugal funciona, ou seja, um pouco ao acaso.

 

As vantagens: A formação e estabilidade do XXI Governo Constitucional acabaram por beneficiar quase todos os partidos. O PS voltou ao Governo e evitou a “pasokização” que arrasou um a um os seus congéneres estrangeiros. BE e PCP “normalizaram-se” dentro do sistema, ganharam o estatuto de parceiros confiáveis e acentuaram o fracasso do discurso anticomunista (insucesso também estimulado pela fraqueza actual do marxismo, mas isso é outro tema). O PAN viu aprovadas várias das suas iniciativas e aproveitou bem o pouco espaço concedido a André Silva. Finalmente desamarrado do PSD, o CDS reforçou a sua identidade própria e alimentou sonhos de grandeza. O descrédito do “voto útil” e o estabelecimento do objectivo de uma maioria multipartidária de esquerda ou direita, sem necessidade de um partido hegemónico, estimularam o aparecimento de novas forças direitistas. Apenas o PSD, depois de dois anos sem perceber o que estava a acontecer, entrou numa crise de identidade potencialmente dilacerante. A seta que Sofia Vala Rocha queria cravar no coração da Geringonça mudou de trajectória e atingiu os “laranjas”.

 

Clientelas e eleitoralismo: A “reposição de rendimentos” contrariou uma atitude hoje menos frequente, mas asfixiante em 2015, quando qualquer medida governativa que deixasse alguém contente era considerada perigosa, despesista, demagógica e até eticamente condenável. Nessa perspectiva, o povo português tinha de ser salvo de si próprio por uma vanguarda revolucionária e uma reforma só seria eficaz se incomodasse toda a gente enquanto era conduzida com “coragem política”. Os funcionários públicos eram descritos com verdadeiro ódio de classe e a generalidade dos dependentes do Estado censurados implicitamente pela sua falta de empreendedorismo. A política contra-revolucionária da Geringonça, aliada ao sorriso de Marcelo Rebelo de Sousa, veio dizer aos portugueses que afinal não viviam em pecado e, depois do regresso dos feriados de 5 de Outubro e 1 de Dezembro não ter causado o fim do país, mostrou haver condições materiais para afrouxar um pouco o cinto.

 

 

O centenismo: A estratégia orçamental de Mário Centeno foi essencial ao sucesso da Geringonça, apesar de evitar que esta fosse tão longe quanto parte da esquerda e parte da direita gostariam. Na verdade, era a única via para conseguir a quadratura do círculo julgada impossível há três anos, através da conciliação das preocupações de Bruxelas com as exigências dos parceiros do Governo. Depois de tanto tempo passado a realçar a importância de um défice baixo e a alertar para o esbanjamento inato da esquerda e do PS em particular, a direita viu-se encurralada no seu próprio discurso. Se espremermos as reacções de PSD e CDS aos orçamentos de Centeno, o sumo obtido é muito pouco, entre as críticas simultâneas ao “eleitoralismo” e à “austeridade de esquerda” (só Assunção Cristas é capaz de dizer sem se rir que o CDS gosta do investimento público). Ainda por cima, a doutrinação liberal acabou por levar muitas pessoas a apreciarem a cautela de Centeno na gestão das despesas estatais. Ao mesmo tempo, comunistas e bloquistas obtiveram concessões suficientes para os impedir de lançar ataques nocivos para si próprios. Centeno seguiu um caminho definido por si como uma via alternativa quer ao despesismo quer à austeridade. Quando se diz que Centeno poderia ser ministro do PSD, importa esclarecer de qual PSD estamos a falar. Certamente que Mário poderia integrar um governo do PSD-RR, mas não um do PPC/PSD. Apesar dos dois frequentarem a Luz, Centeno não é Vítor Gaspar.

 

A bola de cristal: Além de concretizar o sonho de infância de Rui Tavares e Daniel Oliveira, a aliança entre PS, BE e PCP destruiu o horrendo “arco da governação” e provou a capacidade da esquerda se entender em matérias essenciais, apesar das diferenças entre os seus vários sectores. A Geringonça anulou por enquanto (tudo pode mudar de repente) o risco de uma deriva populista semelhante às que vão acontecendo por todo o lado, deixando Portugal invulgarmente sereno e fazendo José Manuel Fernandes perguntar-se porque tinha ele de nascer num país de idiotas. Muito alternaram os comentadores entre dizer que Costa levou o BE e o PCP ao bolso e denunciar a esquerdização de um PS preso aos radicais, mas o maquinismo funcionou devido ao alinhamento eficaz das peças, sem nenhuma delas perder as suas características. Arrumado o último OGE, cada partido fará uma campanha própria na qual procurará recolher os louros daquilo que correu bem e empurrar o resto para a borda do prato. O resultado das legislativas ditará o novo cenário político, embora seja seguro dizer que, caso o PS não alcance a maioria absoluta, um novo acordo PS/PCP/BE, ou apenas PS/BE, é bem mais provável que a reedição do Bloco Central ou o “Guterres II” (um frágil governo minoritário sustentado por acordos ocasionais) previsto por Marques Mendes. Em 2015, quem tinha medo de uma aliança entre o PS e os partidos à sua esquerda votou na PAF, não foi “traído” pela estratégia de António Costa. Na actualidade, depois de ouvir tocar esta banda, a maior parte dos fãs quer um encore, não uma mudança de formação ou um espectáculo a solo.

 

Mas...

1. O Brasil não atravessa uma simples crise, vive o colapso de um regime, simbolizado pelo incêndio no Museu Nacional do Rio de Janeiro. Para lá da pobreza e desigualdade sociais que continuam a marcar um país de enorme desperdício de recursos, uniram-se no mesmo momento factores como a radicalização ideológica, o descrédito da comunicação social, a politização da justiça, a recessão económica, a corrupção generalizada na classe política, o bloqueio de um sistema partidário fragmentado onde não é possível governar sem comprar (literalmente) votos no Congresso, a mistura entre política e religião ou uma vaga de criminalidade de proporções inéditas. Perante um cenário que se agrava cada vez mais, o estado psicológico de muitos brasileiros é de medo e saturação. A esperança despertada pela chegada ao poder do PT e pelos programas sociais implementados por Lula da Silva e Dilma Rousseff desvaneceu-se através do envolvimento do partido de esquerda no sistema corrupto. Não sei se Lula é culpado ou inocente daquilo que o acusam (mesmo em Portugal, é difícil encontrar quem tenha uma visão do ex-presidente brasileiro algures no meio-termo, entre o herói e santo e o maior bandido à face do planeta), mas a estratégia do PT de insistir na candidatura presidencial do seu líder histórico até ao limite do possível e depois apostar em Fernando Haddad, ao qual se colou uma imagem de marioneta ou simplesmente de terceira escolha, constitui uma receita para o desastre. Tudo isto cria condições perfeitas para que apareça um tipo pouco conhecido e com pose de durão a dizer que vai arrasar aquilo que existe e instaurar uma ordem nova. Não explica bem como o fará, mas, já que todos os políticos convencionais falharam, muitos eleitores estão prontos para dar um tiro (lá está) no escuro. É preciso ter em conta este ambiente para perceber o que se passa no Brasil, de nada servindo classificar os eleitores de Jair Bolsonaro (ou os de Trump, Salvini, etc.) como um bando de idiotas.

 

Mas… Há um ponto em que a desculpabilização se transforma em infantilização dos eleitores e a atribuição de todas as culpas à esquerda converte a extrema-direita num sujeito passivo a quem o poder caiu no colo por mero acaso. Não cometamos essa injustiça para com os fascistas, coitados. Para lá do protesto anti-sistema, o vago programa de Bolsonaro inclui uma retórica em torno dos “bons costumes”, embrulhada em inúmeras referências a Deus, que se traduz numa agenda profundamente reaccionária, apostada em reverter as conquistas obtidas a favor das minorias étnicas, das mulheres, dos homossexuais e de todos aqueles que não encaixem no mundo tal como Jair o vê. Claro que nem todos os votantes em Bolsonaro são extremistas, mas muitos deles sabem bem o que o seu candidato defende e estão de acordo com ele. As características específicas do Brasil não podem fazer esquecer o fenómeno global em curso. A democracia deixou de estar na moda, enquanto ser racista, machista ou homofóbico começa a tornar-se aceitável e a ser considerado um saudável desafio ao “politicamente correcto”. No Brasil como noutros países, o centro implodiu e a direita antes “respeitável” radicalizou-se. O ódio pelos adversários cresceu ao ponto de legitimar a violência política. As redes sociais contaminaram o debate público através de uma torrente de mentiras, ataques pessoais e propaganda sem contraditório. Ao fornecer informação maciça, caótica e de origem duvidosa, a Internet fez muitos cidadãos julgarem-se conhecedores de todos os temas e desconfiarem de especialistas que desmintam os seus preconceitos (sobre o caso americano, veja-se o livro A Morte da Competência, do republicano anti-trumpista Tom Nichols). O sectarismo e agressividade no discurso político contribuíram para adocicar os defeitos dos líderes de extrema-direita; desde que estes irritem o “inimigo”, podem ser rudes e ignorantes à vontade. O ataque às “elites” passou a ser uma arma das verdadeiras elites. Jair Bolsonaro é apenas mais um candidato a ditador. O risco da maioria da população decidir democraticamente acabar com a democracia está longe de ser exclusivo do Brasil.

 

 

 

2. Após lançar um movimento para destituir Rui Rio da liderança do PSD, no qual não foi acompanhado pelos outros críticos do portuense (prudentemente quietos, eles aguardam a desgraça de Rio nas legislativas de 2019), André Ventura anunciou a sua saída da hoste laranja e a criação de um novo partido, o Chega, fundado com base em propostas como o fim do casamento homossexual, a instituição da prisão perpétua ou a extinção de numerosos cargos políticos. Nunca agradeceremos o suficiente a Pedro Passos Coelho por ter trazido Ventura para a ribalta. No entanto, desde que Passos foi substituído por Rio à frente do PSD, a direita conhece um surpreendente processo de fragmentação. Para lá das divisões no PSD e no CDS, foram já anunciados quatro novos partidos da mesma área política: Chega, Aliança, Democracia 21 e Iniciativa Liberal. Se afastarmos a (duvidosa) hipótese destes partidos convencerem muitos abstencionistas a irem votar, não existe eleitorado suficiente para tantas formações de direita, várias das quais ficarão fora do Parlamento. No que respeita a André Ventura, embora venha ocupar um nicho específico da direita lusa, não possui dinheiro nem capacidade política suficientes para o Chega obter dimensões assinaláveis. A memória do Estado Novo, a situação económica favorável, a rara homogeneidade do território e da população portuguesa, os números reduzidos da criminalidade e a integração eficaz da comunidade muçulmana são alguns dos elementos que dificultam uma progressão da extrema-direita em Portugal semelhante à de outros países.

 

Mas… O historiador Riccardo Marchi aponta como causas principais do fracasso da extrema-direita portuguesa no pós-25 de Abril a ausência de uma liderança capaz e a divisão desse sector político em grupúsculos sempre em guerra uns com os outros. A isto junta-se a falta de acesso aos media, onde o líder do PNR, José Pinto Coelho, raramente aparece e quando o faz passa sempre, sabe-se lá porquê, uma imagem de maluquinho. André Ventura e o Chega podem representar um esforço de unificação dos radicais, além de atraírem as franjas liberais seduzidas por uma fusão de desregulação da economia com o conservadorismo nos costumes. Dotado de amplo tempo de antena na CMTV, onde “defende” o Benfica e comenta notícias de crimes, Ventura goza já da simpatia dos jornais i (uma autêntica crónica das aventuras de Ventura), Sol e O Diabo. Quanto ao Observador, focado no objectivo de dominar o PSD, dificilmente se comprometerá com o Chega, mas pode ceder colunas aos seus membros e defendê-lo de ataques da esquerda. O populismo sempre esteve por cá, de forma espontânea e não organizada, e as opiniões inflamadas vão chegando ao mainstream mediático. Do futebol, onde André Ventura brotou, provêm os sinais mais inquietantes. O fenómeno Bruno de Carvalho e as teorias da conspiração surgidas a propósito das acusações judiciais ao Benfica avisam-nos de que mesmo pessoas inteligentes e habitualmente lúcidas são capazes de acreditar no absurdo. Se o Chega trouxer esta tendência para a política, o que poderá acontecer?

 

 

 

A tralha

Numa das suas primeiras crónicas publicadas na imprensa, mais precisamente no número de Fevereiro de 2006 da revista Atlântico, Henrique Raposo indigna-se com a abundância nas faculdades portuguesas de lojas de fotocópias que lucram à custa das inúmeras reproduções de livros feitas pelos estudantes. Ao invés de comprarem as obras de que necessitam, os alunos acumulam durante os anos da licenciatura “fotocópias enroladas num cordel ou presas por um clipe”, reunidas em pilhas de papéis das quais o recém-licenciado se vê livre com alívio ao atirar as fotocópias lidas e sublinhadas para a arrecadação da casa, onde envelhecem “junto das batatas, das cebolas, dos sapatos velhos da mãe e das garrafas de vinho do pai”. Teoricamente correcta, a indignação de Raposo peca pelo habitual irrealismo da direita, já que muitos dos livros utilizados no ensino superior são caros ou difíceis de encontrar, tornando o recurso a fotocópias inevitável. No entanto, a descrição feita na crónica da Atlântico aplica-se ao meu caso. Coloquei todas as fotocópias que juntei durante a licenciatura e o mestrado em caixas ao lado das diversas tralhas armazenadas pelos meus pais. A documentação académica esteve longe, porém, de ser o único material que não deitei fora ao longo dos anos.

 

O vício de guardar começou pelas revistas de BD da Disney e da Turma da Mônica que li nos anos 90, enquanto fazia na escola testes cujos enunciados e respostas também arquivei. A partir daí, o espaço vago em minha casa foi sendo preenchido quer por centenas de livros quer por vários tipos de objectos em papel que guardei por uma razão ou outra. Por exemplo, manuais escolares e da catequese. Folhetos políticos. Panfletos de publicidade a eventos científicos. Imprensa local de Odivelas. Recortes de jornais com anúncios de filmes. Revistas de cinema. Revistas sobre livros. Revistas de divulgação histórica. Ainda mais revistas. Cartoons publicados na imprensa entre 1998 e 2007 (ano em que deixei de ter pachorra para recortá-los e colá-los em folhas de papel vegetal). Jornais com as notícias dos títulos do FC Porto e de outros acontecimentos marcantes. Mais fotocópias. Uma colecção da Visão que cresceu durante anos e anos até tornar-se um monstro incontrolável. O Inimigo Público, desde a criação até passar a ter apenas quatro míseras páginas agrafadas ao resto do jornal. Marcadores de livros. Cartões de identificação. Bilhetes de teatro, cinema, concertos. Pilhas de cadernos de apontamentos. Folhas manuscritas com as minhas tentativas na ficção e na escrita autobiográfica. Além disto e de muito mais, também tenho de preservar cartas, postais, fotografias e a restante documentação do arquivo de uma família seguidora do provérbio “Guarda o que não presta, terás o que é preciso”.

 

 

E tudo isto para quê? Porquê amontoar imenso material escrito, grande parte do qual nunca voltarei a ler? Preciso mesmo de recordar a matéria de Matemática que estudei no 7.º ano, aquilo que (não) senti no dia da morte da princesa Diana, os filmes em exibição no Verão de 2001 ou as piadas dos cartoonistas sobre o Governo de Santana Lopes?

 

Na actualidade, quando grande parte da escrita tem uma existência apenas virtual, os registos em papel ganham uma maior impressão de permanência, como relíquias de um tempo em que nem tudo podia ser apagado com um clique. Os acervos particulares servem para desafiar a efemeridade de documentos aparentemente insignificantes na época em que foram produzidos. Além disso, as colecções que fazemos podem revelar muito sobre nós ao nível dos hábitos de consumo, das preferências no lazer, das experiências vividas ou apenas daquilo que em dado momento considerámos digno de ser preservado. Não se pode deixar de ter em conta o olhar dos vindouros. Se guardei tanta tralha, foi por pensar que num futuro distante (ou nem tanto) ela poderia ser útil a alguém para estudar uma determinada fase do meu percurso pessoal e familiar ou, noutra escala, dos eventos locais, nacionais e mundiais. Talvez seja uma expectativa ingénua, mas não custa sonhar. Caso a papelada não tenha nenhum uso, os meus sobrinhos podem sempre vendê-la aos alfarrabistas... Esperem, imaginar que ainda existirão alfarrabistas daqui a vinte anos já não é sonho, é delírio.

 

 

A quarta derrota

1. O que é que tem a Joana que é diferente das outras? Em que momento específico a procuradora Joana Marques Vidal tomou uma decisão que os restantes magistrados não tomariam, pôs fim à impunidade e agarrou os poderosos pelos colarinhos? Não sei. Na verdade, pouca gente sabe, mas isso não interessa nada. Na política portuguesa, o que importa é o discurso, não a substância.

 

2. À medida que o mandato da actual procuradora-geral da República se aproximava do fim e nem o Governo nem Marcelo Rebelo de Sousa davam sinais de querer reconduzir Marques Vidal por mais seis anos, uma vaga foi crescendo na comunicação social. Os colunistas até admitiam a validade do princípio de atribuir apenas um mandato a cada procurador-geral, mas referiam logo a seguir a situação excepcional vivida desde 2014. Sem Joana Marques Vidal à frente da PGR, tudo voltaria para trás e José Sócrates passear-se-ia nas ruas com um grande sorriso no rosto. Embora discutível, esta posição era legítima, mas foi expressa com tanta veemência por tanta gente, toda ela do mesmo quadrante político e geralmente a escrever nos mesmos jornais, que a paixão por Joana se tornou suspeita. A hipótese de um discurso destes politizar a justiça, atribuir a Joana um papel de super-juíza à brasileira que a magistrada nunca reclamou, reduzir as instituições à personalidade de quem as dirige e fragilizar Joana ao torná-la a líder honorária da direita aparentemente nunca passou pela cabeça de ninguém. Sobretudo da de João Miguel Tavares, já que o coitado acredita mesmo no que diz, enquanto os seus camaradas conseguem ser cínicos.

 

 

3. Como esta questão nunca foi jurídica, mas sim política, houve naturalmente quem vencesse e perdesse aquando do desfecho. Para António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa, que os fãs de Joana quiseram tornar reféns, foi uma clara vitória, sobretudo nas circunstâncias em que ocorreu. A escolha de Lucília Gago, um membro da equipa de Marques Vidal, cria uma impressão de continuidade, reforçada pela nota da Presidência onde Marcelo garante que a Operação Marquês não morre e assume a responsabilidade pelo futuro. Num cenário destes, em que o nome e o timing do anúncio apanharam todos de surpresa, a direita sente-se entalada. Claro que os escribas podem vociferar com ardor contra Belém, mas quem está na política activa ficou mudo e quedo, isto depois de Duarte Marques ter ameaçado que Costa pagaria muito caro se não nomeasse Vidal. De facto, a popularidade imensa de Marcelo torna-o inexpugnável e confere a quem o ataca uma aparência sacrílega. Em Portugal, quem se mete com o Marcelo, leva.

 

4. Muita gente no jornalismo português considera-se agora enganada pelo Presidente da República. Na verdade, Marcelo poderá ter dado a entender que iria por um lado e depois ido por outro. Curiosamente, a habilidade de Rebelo de Sousa nesse tipo de manobras políticas não se encontra referida no livro infantil Marcelo, o Presidente, editado pela Alêtheia. Marcelo conseguiu até enganar Marques Mendes, conhecido como um dos mais perspicazes advogados portugueses. Mesmo irritado, Luís recorreu na SIC às suas capacidades intelectuais únicas para criticar a decisão sem deixar de bajular o Presidente. Porém, a ameaça já foi lançada pelas chefias dos media: o maravilhoso homem dos afectos pode transformar-se em pouquíssimo tempo no amiguinho de Ricardo Salgado.

 

5. Rui Rio e os outros políticos do PSD que falaram em público sobre a recondução da PGR não pareciam ser do mesmo planeta, quanto mais do mesmo partido. Já no final, Rio disse x, depois disse y e acabou por não agradar a ninguém. Foi, afinal, um bom resumo do seu período na liderança social-democrata.

 

6. Às 21.00 de 20 de Setembro, soube-se que Joana Marques Vidal não seria reconduzida no cargo. Logo a seguir, Pedro Passos Coelho escreveu a todo o vapor um texto onde elogiava Joana e aludia a motivos secretos para a decisão que o Governo não tivera a “decência” de mencionar, enviou-o ao Observador e o jornal publicou-o. Às 23.00, as palavras de Passos já estavam online. Estas duas horas perfeitamente normais vêm desmentir por completo a tese da partidarização e instrumentalização pela direita do processo de nomeação da PGR. Só teóricos da conspiração especializados em processos de intenções podem continuar a falar disso.

 

7. Aquilo que supostamente deveria constituir um processo objectivo e institucional de escolha do ocupante de um cargo público foi transformado pela tribo de Passos Coelho, de forma desnecessária, na sua quarta grande derrota, depois do “passismo” ter sofrido os efeitos da formação da Geringonça, da ausência do Diabo e das autárquicas de 2017. Mais uma vez, a culpa reside em grande parte na própria tribo, que cai no exagero, sobrestima a sua força e vê-se sempre ultrapassada pela realidade, dando a sensação de que dispara rajadas de metralhadora contra um espantalho antes de ser atingida por uma pedrada.

O padre Gonçalo

Membro do Opus Dei, o padre Gonçalo Portocarrero de Almada é um colaborador habitual da imprensa, tendo publicado crónicas em jornais como o i, o Público e o Observador. Uma “selecção de textos sobre a Igreja e o mundo” escritos para este último deu origem a Observador Romano, volume agora editado pela Alêtheia. A mensagem da contracapa, parte essencial de qualquer livro (sobre este e outros temas, veja-se Mamas & Badanas, de João Pedro George), salienta que Almada é “um dos seus (do Observador) cronistas mais lido e partilhado”, ao ponto de “alguma vez, foram mais de mil os comentários” a um escrito do sacerdote, esclarecendo assim que, para Zita Seabra, a revisão de texto é um conceito ultrapassado. Destaca-se também a “indefectível fidelidade à Igreja e ao Papa” do autor, um aspecto aparentemente óbvio num padre católico, mas relevante no contexto actual. Na verdade, mesmo que Almada quisesse revoltar-se contra o Papa Francisco, não conseguiria, dado que “Não se pode ser bom católico sem ser fiel ao Santo Padre” (p. 114).

 

A divisão temática das crónicas de Gonçalo Portocarrero de Almada apresentada em Observador Romano mostra-se supérflua, devido à habitual combinação nos textos do clérigo de reacções à actualidade com a reafirmação da ortodoxia católica. Embora negue a existência de uma “Igreja progressista” oposta a “uma outra Igreja, supostamente conservadora” (p. 184), o padre Gonçalo elege como adversários, além da Maçonaria e do comunismo (“Um católico maçon é como um cristão comunista: uma contradição e um escândalo!”, p. 185), seguidores de Jesus como os “católicos líricos”, “alguns pastores”, os “defensores da espontaneidade pastoral sobre o direito” (p. 33) ou Frei Bento Domingues, a quem critica pela sua rejeição das orientações episcopais relativas à sexualidade dos recasados. É frequente na prosa de Almada a oposição entre a excepção e a regra, geralmente no sentido de afirmar que a primeira não anula a segunda. Se alguns crentes se afastam das regras de vida fixadas pela Igreja, o problema não está nestas, mas naqueles, cuja exclusão dos sacramentos se justifica, pois “é óbvio que não pode ser desresponsabilizado quem padece as consequências dos seus próprios actos” (p. 240).

 

 

Quando rejeita o desejo das pessoas de “uma religião à sua medida” (p. 239) e lembra a necessidade de coerência na fé abraçada, o padre Gonçalo aproxima-se do pensamento de outro sacerdote cristão, o pastor protestante Tiago Cavaco. Numa obra sobre Lutero, Cuidado com o Alemão, Cavaco condena a religiosidade actual (resumida na expressão “Deus na Barriga”), por si associada ao relativismo, à negação do conceito de pecado e à valorização constante dos sentimentos e da auto-estima. Em resumo, quer Almada quer Cavaco dizem aos seus rebanhos: “O caminho da salvação é este. Se quiserem vir por aqui, óptimo. Se não quiserem, estão lixados”. No caso do sacerdote obediente a Roma, a intransigência manifesta-se de igual forma no combate ao laicismo, “herança do terror revolucionário francês” (p. 196), e na rejeição de medidas políticas como a legalização do aborto, do casamento homossexual e da mudança de sexo. Almada utiliza um tom cáustico e quase agressivo, desmentindo a sua “imensa alegria de viver” mencionada na contracapa ao multiplicar as reacções de indignação e dar “indícios de uma mentalidade perigosamente autoritária e de uma exagerada suscetibilidade em relação a qualquer discurso que não exalte o seu estilo de vida” (p. 176). Ninguém pede a Gonçalo Portocarrero de Almada que abandone as suas crenças, mas o clérigo assemelha-se a um porteiro severo com a função de barrar a entrada na igreja a quem não for suficientemente puro.

 

O aspecto inquietante de Observador Romano está no facto de transmitir a ideia de uma Igreja Católica dominada pelo medo do presente, que a leva a erguer uma muralha para se proteger do mundo exterior. Com o seu discurso amigável e a sua capacidade de ceder no acessório sem pôr em causa o essencial, o Papa Francisco veio abrir as portas da muralha, causando o pânico de quem teme a entrada dos bárbaros enquanto fomentava a esperança dos leigos numa Igreja mais apta a perdoar que a condenar. Padre Gonçalo, não sou ninguém para falar destes assuntos, mas, de pecador para pecador, digo-lhe que a Igreja foi feita para os homens (e as mulheres) e não os homens para a Igreja.

 

P.S. Quando a secretária de Estado da Modernização Administrativa, Graça Fonseca, assumiu a sua homossexualidade, Gonçalo Portocarrero de Almada negou qualquer “coragem” ao acto (faria o mesmo aquando do coming out de Adolfo Mesquita Nunes) e pediu mais “decoro”, pois “não é suposto que um membro do governo faça confidências públicas sobre a sua orientação sexual, seja ela qual for” (p. 91). Imagino a fúria sentida por Almada sempre que a ex-ministra Assunção Cristas proclama aos quatro ventos a sua heterossexualidade e fala sem pudor acerca do marido e dos filhos.

A tempestade perfeita

Visionar peças televisivas acerca da actividade política quotidiana de Rui Rio e Assunção Cristas assemelha-se a brincar com o “jogo dos contrários” que ofereceram ao meu sobrinho nos anos. De um lado (à esquerda?), surge um homem profundamente desconfortável com a existência dos jornalistas e a necessidade de fazer e dizer coisas para alimentá-los. Do outro lado (à direita?), vemos uma mulher envolvida numa relação amorosa com os media só superada em ardor e intensidade pela do Presidente da República. Enquanto Rio não poupa nas críticas aos títulos e notícias dos jornais, tal como aos políticos/comentadores que o arrasam, Cristas dispõe de uma página inteira reservada para si no Correio da Manhã. As atitudes opostas dos líderes de PSD e CDS para com a comunicação social têm inevitáveis consequências políticas.

 

Bastou ler as crónicas de Rui Ramos, ideólogo do Observador, publicadas logo a seguir à eleição de Rui Rio para perceber que a expressão “má imprensa” era insuficiente. O novo presidente do PSD seria feito em picadinho. Para além do escrutínio a pente fino do passado do líder social-democrata e dos seus próximos, o jornalismo luso impulsionou com notável zelo a dinâmica de derrota de Rio. Mesmo que não existissem influências partidárias nas redacções, estas não deixariam de ver no portuense um adversário. Afinal, as chefias dos media nacionais são muito sensíveis (para dizer o mínimo) à crítica e qualquer reparo às opções editoriais merece uma resposta assente em três pontos: classificação da crítica como uma ofensiva contra a liberdade de imprensa, justificação das piores acções com os motivos mais nobres e ataque pessoal aos críticos. Neste cenário, o choque entre o meio mediático e alguém capaz da afronta de não dizer nada durante um mês era inevitável. O problema para Rio é que, sem uma presença digna de registo na Internet, não possui qualquer via de comunicação alternativa aos media tradicionais. Num cargo executivo como o de presidente da Câmara do Porto, Rui podia apresentar “obra feita” aos eleitores no fim de cada mandato, mas, na função de líder da oposição, se não aparecer todos os dias nos ecrãs, simplesmente não existe. A falta de sintonia com o tempo mediático, dominado na perfeição por Marcelo e cada vez melhor por Cristas, reduz muito as hipóteses do ex-autarca de impor a sua marca no mercado.

 

 

Obviamente, Rui Rio não é apenas uma pobre vítima indefesa da SIC e do PPC/PSD, destacando-se pela sua notável capacidade de tornar as coisas ainda piores. O político nortenho parece ter subestimado os adversários e sobrestimado a sua pessoa, ao iniciar a sua liderança com uma atitude do tipo “daqui a uma semana tenho-os a todos na minha mão”. Não teve, e com o passar do tempo vieram ao de cima a falta de paciência para opiniões alternativas e o impulso de transformar a determinação em birra já revelados por Rio na Invicta. Além dos factores pessoais, o problema de Rui têm um âmbito (como ele diria) estrutural. Um posicionamento de centro-direita semelhante ao de Pedro Marques Lopes, o único comentador político simpático para Rio, arrisca-se a não agradar a ninguém num quadro de bipolarização. Para a esquerda, o líder “laranja” enverga as vestes de brasa tentadora capaz de desviar António Costa da fidelidade conjugal devida aos seus parceiros. Por seu turno, a direita esbraceja ao ver Rio desrespeitar o mandamento sagrado do liberalismo (“Se uma coisa dá dinheiro, não pode ser má”) e faltar às sessões de culto a Joana Marques Vidal. Considerando Rio e Costa excrementos idênticos da besta vermelha, os criadores de novos partidos fomentam uma fragmentação possivelmente suicida da direita, enquanto os fracos resultados nas sondagens multiplicam a impaciência da oposição interna no PSD.

 

A única vantagem de Rui Rio está no timing, dado que, apesar do anúncio precoce de Pedro Duarte, a perspectiva de uma derrota do PSD nas legislativas de 2019, cujo efeito “queimaria” um eventual novo líder, dissuade motins no navio laranja. Rio ganha assim algum tempo para inverter a situação a seu favor. A habitual distância entre a opinião pública e a opinião publicada tornaria admissível imaginar uma reviravolta. No entanto, tudo o que Rio afirmou depois de regressar das férias, incluindo o tempo perdido na resposta aos apelos a “tréguas” feitos por Marques Mendes de espada na mão, fez a tensão atingir níveis insustentáveis. Sabendo-se que Rio não tem vontade nenhuma de se demitir, o conflito dentro do PSD pode escalar a curto prazo. Para quem está de fora, sobretudo para Costa e Cristas, assistir a este animado espectáculo é divertidíssimo, mas que consequência terá o enfraquecimento do PSD na evolução de um regime do qual constituiu um dos pilares?

 

P.S. Entretanto, quem quiser saber o que anda a Aliança a fazer deve consultar a página Portugueses com Pedro Santana Lopes. Este espaço virtual responde àqueles que acusaram o novo partido “personalista” de ser demasiado centrado na figura do seu fundador, dizendo-lhes: “Têm razão”.

 

 

 

Política na televisão

Os meios de divulgação da propaganda política têm evoluído ao longo dos anos. Por exemplo, os cartazes e autocolantes outrora afixados nos prédios foram substituídos por outdoors posicionados nas rotundas e cruzamentos, mas mesmo estes, apesar do empenho dos partidos de esquerda em preservar essa velha tradição, já se tornaram dispensáveis e sem quaisquer efeitos práticos. Na área dos media, embora a imprensa sirva para marcar a agenda política e transmitir recados no interior dos partidos, a perda de leitores reduziu muito a influência dos jornais. O futuro da comunicação política passa pela Internet, afirma toda a gente. Em Portugal, no entanto, os partidos estão longe de dispor de máquinas de criação e difusão de conteúdos semelhantes às da extrema-direita americana ou brasileira. A chacota em torno das fotografias publicadas por António Costa no Twitter e a crise na Iniciativa Liberal, causada pela origem da página de Facebook do novo partido, são casos reveladores da falta de à-vontade dos políticos lusos nas redes sociais. Estas funcionam sobretudo como material combustível onde alastram os “incêndios” ateados pelas notícias dos media tradicionais. Dentro destes, continua a ser na televisão que praticamente tudo se decide.

 

Um passo importante do cursus honorum de qualquer político português com ambições é a fase em que se torna comentador de um canal televisivo. Ao sentar-se num estúdio com um pivô e representantes de outros partidos, o político/comentador (P/C) dá a conhecer o seu rosto e voz aos eleitores e diferencia-se dos seus correligionários desprovidos de espaço mediático e, portanto, irrelevantes. Na televisão, o P/C vê a sua palavra ganhar um alcance e uma repercussão superiores àqueles que teria no Parlamento e goza de uma tribuna para defender o líder do seu partido, obtendo a gratidão deste, ou atacá-lo e lançar-se assim como futuro candidato à liderança. As audiências dos debates são menos importantes que o “nome” construído pelo homem público (ou, mais raramente, pela mulher pública) através da aparição no pequeno ecrã. O melhor é que, depois de atingir uma posição de destaque, o P/C não tem de deixar a televisão, já que pode perfeitamente fazer e comentar política ao mesmo tempo (veja-se o caso de Pedro Santana Lopes, líder da Aliança e comentador da SIC Notícias). Caso tenha chegado ao topo no seu partido e depois sido obrigado a sair, o P/C integra, se for hábil, a restrita elite dos “senadores”. Um P/C desta craveira tem direito a um programa de televisão só para si, com um jornalista a dar-lhe as deixas e outros jornalistas a assistirem ao programa para logo em seguida citarem na imprensa as palavras sábias do P/C. O trajecto perfeito de um P/C começa numa coluna de opinião num jornal e acaba na Presidência da República.

 

Para quem já atingiu uma posição cimeira como um cargo de poder ou uma liderança partidária, a caça ao voto é feita sobretudo nos telejornais. Nesta fase, importa aparecer. Aparecer muito, incessantemente, a propósito de tudo. Um dia sem microfones à sua frente é um dia em que o político de topo (PT) não existe. Se estiver na oposição, o PT pode dizer aos jornalistas que, apesar do Governo, está um dia lindo. Se estiver no Governo, o PT destacará o aumento do número de dias lindos verificado durante a sua gestão. Quando surge um tema comentável da actualidade, o PT tem de reagir imediatamente, mesmo sem saber bem do que se trata, sob pena de um PT rival se antecipar. Contudo, as palavras não bastam, são até a parte menos relevante. O fundamental é que o PT saia do gabinete para, acompanhado das câmaras, dirigir-se a um local onde estejam pessoas e com elas criar uma cena televisiva na qual seja o protagonista. O PT deve ouvir os populares e tocar neles, sorrir muito (ou chorar, quando for adequado), posar para fotografias, comer e beber tudo o que lhe ofereçam, dizer frases jocosas cujo duplo sentido remeta para a situação política e apostar no insólito, através de actividades como nadar, cantar, dançar, andar de bicicleta, limpar o chão, etc. Se o PT conseguir ainda falar sobre futebol, alcança a perfeição. Tudo isto, juntamente com as declarações sobre o tema do dia, faz nascer as peças televisivas através das quais a imagem do PT é construída junto da população, tornando-o uma marca capaz de dominar o mercado eleitoral.

 

 

E aqui chegamos às férias de Rui Rio. O presidente do PSD tem sido, de forma assumida, a excepção à regra, na medida em que, após chegar à liderança “laranja” sem uma passagem prévia pelo comentariado televisivo, entrou em confronto directo com os P/Cs do seu partido. As críticas de Rio à comunicação social, da qual os outros PTs procuram tornar-se amigos inseparáveis, e a notória falta de talento e vontade do ex-autarca para filmar cenas destinadas às novelas das oito, criam uma sensação de estranheza no ambiente mediático nacional. O facto de, durante Agosto, Rio ter estado mesmo de férias, sem produzir quaisquer declarações, motivou reacções de genuína estupefacção, enquanto a frenética Assunção Cristas dá generosa e infatigavelmente bons “bonecos” às televisões. Rui Rio faz política como se estivesse em 1988, ignorando o exemplo de Marcelo Rebelo de Sousa, o rei dos P/Cs e PTs do século XXI. Seja o estilo de Rio bom ou mau, não será fácil sobreviver politicamente quando se ganha fama de alienado.