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Tem mesmo que ser? (2)

8. A propaganda das autárquicas já tinha revelado uma vasta difusão do célebre efeito visual no qual o protagonista anda continuamente na direção da câmara (ou seja, do espetador) enquanto o cenário atrás de si vai mudando. A técnica é replicada num tempo de antena de Catarina Martins que mostra a candidata a andar em inúmeros locais do país. No entanto, falta indicar o mais importante: o destino. Afinal, Catarina anda com tanta convicção para chegar aonde?

 

9. Daniel Oliveira (“o que não faz chorar”) referiu-se ao Livre como um partido de “elites culturais” sem a capacidade de atrair o descontentamento popular para uma solução de esquerda. De facto, rejeitar essa génese da organização das papoulas seria tão inútil como negar que a Iniciativa Liberal é um partido de classe. O Livre inclui na sua base de apoio uma porção significativa daquilo a que se chamava “intelectuais” antes da palavra se tornar um insulto, com muitos dos seus membros a apresentarem ligações às universidades como professores ou investigadores, dedicados sobretudo às ciências sociais e humanas. Essa origem composta por muitas teses, muitos papers e muita Tinta-da-China conduz Rui Tavares, Jorge Pinto e outras figuras do partido ao vício académico de quererem realizar um colóquio, um seminário ou uns “estados gerais” sobre qualquer tema antes de tomarem uma decisão. No entanto, numa época em que imensos políticos desejam parecer “populares” e acreditam que isso implica, ao nível da forma, reduzir ao máximo a quantidade e diversidade do vocabulário, enquanto o conteúdo não deve ir além dos temas e sentimentos mais básicos, será assim tão elitista querer elevar o nível do debate? O otimismo do Livre, considerado ingénuo por muitos, consiste afinal em procurar, através dos recursos do Estado, conceder a cada popular os meios para se tornar um intelectual. A pertença a famílias de passados modestos que ascenderam à classe média graças à educação pública convence os Pintos e os Tavares de que tal é possível.

 

10. Relativamente às eleições presidenciais, Livre e Bloco de Esquerda esperaram durante muito tempo por uma candidatura de António Sampaio da Nóvoa, quase implorando ao antigo reitor para que avançasse. Quando Nóvoa se colocou à margem da corrida, e perante a repulsa em apoiar um Seguro que também não os esperava de braços abertos, livristas e bloquistas optaram pela solução pouco original de apresentar candidatos partidários, com Jorge Pinto e Catarina Martins a exporem-se às acusações de dividirem a esquerda ameaçada pela expansão das direitas (quanto a António Filipe, nunca ninguém esperou que o PCP saísse do seu planeta privativo). O caso de Pinto, o último a avançar e com notórias dificuldades em recolher donativos e assinaturas, gerou especial perplexidade, tanto mais que o nortenho se enredou num discurso confuso sobre uma eventual desistência. Mesmo assim, Jorge Pinto registou uma prestação convincente nos debates e contrariou a visão do Livre como partido de um homem só, o único feito que a sua candidatura parece capaz de alcançar tendo em conta a facilidade com que o eleitorado livrista cede ao argumento do voto útil. Na verdade, com o aproximar da data da votação e o cenário pintado pelas sondagens, também cresceu entre os eventuais eleitores de Catarina Martins o medo de serem apontados pelos historiadores futuros como os responsáveis por uma segunda volta disputada entre a direita “moderada” e a extrema-direita. Em conjunto, Filipe, Martins e Pinto não deverão atingir os 7%, quanto mais os 10% obtidos por Marisa Matias em 2016. Apesar disso, Livre e Bloco acreditam que, feita a prova de vida, 19 de janeiro será outro dia.

 

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11. No Natal de 2025, muito se falou do “tio fascista”, uma personagem-tipo geralmente descrita como um homem de meia-idade algo rude que estragava os jantares natalícios quando, já depois de beber uns copos, começava a enumerar os pontos em que André Ventura tem razão ou a contar malfeitorias alegadamente cometidas por imigrantes, dando assim origem a discussões familiares nocivas para a placidez da quadra. Curiosamente, o recém-quarentão Ventura não tem aspeto de tio. Aliás, torna-se difícil imaginar os restantes candidatos presidenciais enquanto tios, embora Jorge Pinto possa interpretar aquele primo que viveu muito tempo no estrangeiro e é caracterizado pelas velhas da família como “uma joia de moço”. Há, contudo, uma exceção: o “tio liberal” João Cotrim de Figueiredo, aquele de que muitos rapazes gostariam de ser sobrinhos. Trata-se de um tio com dinheiro (dá sempre jeito) que parece mais novo do que realmente é e até conhece gente famosa da televisão. Cotrim parece não se importar demasiado com o que pensam dele, adora passar tempo com os sobrinhos e anima uma tarde aborrecida com propostas do tipo “E se fôssemos dar um passeio de mota?” Ao contrário dos “chatos” da mesma faixa etária, este tio tem histórias interessantes para contar e sabe dar conselhos sem ser moralista ou paternalista. Por isso os jovens ficam a ouvi-lo durante todo o jantar, embora lá para o fim da refeição alguém na mesa se comece a interrogar sobre se, para lá da aparência, o tio liberal e o tio fascista serão assim tão diferentes.

 

12. Durante muito tempo, o contrato de Luís Marques Mendes com a SIC incluiu uma cláusula que obrigava legalmente a estação a tratar o fafense como se este fosse uma criança. Não faltavam, assim, as almofadas na cadeira e os pivôs que se limitavam a dar as deixas, ignorando com um sorriso as numerosas contradições e previsões falhadas de Luís. Se na noite dominical o comentário de Marques Mendes coincidia temporalmente com um jogo de futebol importante, não havia problema: a “opinião que conta” ia para o ar no intervalo da partida ou ainda antes do apito inicial, mesmo que o Jornal da Noite tivesse começado há apenas cinco minutos. Quer na televisão quer online, Luís era bafejado pelo grupo Impresa com o carinho e respeito devidos à personalidade popular e influente que o antigo líder do PSD supostamente era. Animado com a felicidade vivida na Terra do Nunca, Luís aventurou-se no mundo real sob a proteção do outro Luís, mas nem este conseguiu salvar o primeiro do choque que sentiu ao entrar num ambiente não protegido. De repente, havia por todo o lado gente a fazer perguntas feias e a querer saber coisas que não devia. Os laboriosos esforços empreendidos durante anos a fio pelo então comentador para nunca ofender ninguém, elogiar as pessoas certas e encontrar em cada esquina um amigo jornalista revelavam-se insuficientes. Marques Mendes continua a possuir hipóteses de ser eleito Presidente da República, mas, mesmo que o consiga, o seu tempo político parece ter passado há muito.

 

13. Conseguirá António José Seguro vencer a primeira volta subindo uma escada cujos degraus são “Pois, que remédio”, “Pronto, já está”, “Engoli um sapo”, “Temos de ser pragmáticos”, “Custou tanto”, “Nem sequer gosto dele”, “Demorei imenso tempo a decidir”, “À falta de melhor”, “Votei muito contrariada”, “Pesando os prós e os contras”, “Apesar de tudo é o menos mau”, “Ou isso ou o facho”, “Oxalá Fulano se tivesse candidatado”, “Não me quero sentir culpado no dia seguinte”, “O que é que se há-de fazer?”, “Podia ser pior”, “Não espero grande coisa”, “Ainda nos vamos arrepender”, “Antigamente é que havia políticos a sério” e “Que tipo cheio de si”?

Tem mesmo que ser? (1)

1. Não costumo alinhar no discurso habitual sobre a fraca qualidade das figuras da política atual em comparação com as personalidades das décadas anteriores. Afinal, os políticos do passado parecem sempre melhores que os do presente, independentemente do que tenham feito. No entanto, vendo a série documental da RTP A Duas Voltas, centrada nas eleições presidenciais de 1986, tudo parece tão pequenino hoje em dia.

 

2. Com a exceção das eleições de 1986, as únicas onde se registou uma segunda volta, na qual a vitória de Mário Soares sobre Diogo Freitas do Amaral esteve em dúvida até ao final da contagem dos votos, as presidenciais costumam ser extremamente previsíveis. Mesmo nos casos em que o Presidente da República em exercício não se recandidata, o vencedor pode ser identificado com anos de antecedência. Em 2016, Marcelo Rebelo de Sousa triunfou com uma facilidade enervante, bastando-lhe andar umas semanas pelo país a marcelar, ou seja, a sorrir, tirar selfies e falar com os transeuntes. As presidenciais de 2021, muito marcadas pelo contexto da pandemia e do confinamento, também não apresentaram surpresas significativas. Contudo, chegados a janeiro de 2026, podemos dizer com convicção que ninguém sabe ao certo o que vai acontecer na primeira volta das presidenciais. Em compensação, caso a presença de André Ventura na segunda volta crie um cenário à francesa, a derrota do líder do Chega estará, em princípio, garantida. Para já, no entanto, a incógnita permanece total e as sondagens só espalham a confusão ao revelarem uma enorme fragmentação das intenções de voto. O pior é que não se compreende o que faria exatamente romper o equilíbrio a favor de um dos concorrentes nem que segmentos do eleitorado poderiam ser influenciados por uma determinada mensagem. Qual será a frase que garantirá o apoio dos floristas quarentões de Chaves ou afugentará os talhantes sportinguistas de Albergaria-a-Velha? Se a 18 de janeiro um candidato ficar a poucos milhares de votos da segunda volta, foi porque não partilhou qual era a sua comida preferida ou porque dançou o vira apenas sete vezes?

 

3. Não é que slogans como “Contigo”, “Vote pelo Seguro” ou “O meu partido é Portugal” sejam maus, mas não motivam comentários para lá de “Uau, que imaginação”. Por seu turno, “Isto não é o Bangladesh” constitui, de acordo com os objetivos de André Ventura, uma palavra de ordem atraente. Desde logo, pela polémica e indignação que a frase causou, conferindo maior visibilidade à candidatura cheguista. “Isto” remete para um espaço vago, que tanto pode ser uma rua como Portugal inteiro, além de indicar uma informalidade na linguagem aparentemente agradável ao palato do eleitor-alvo. A partícula “não é” define uma mobilização suscitada pela recusa de algo caraterizado como uma invasão de estrangeiros muito diferentes de “isto”. Quanto ao nome do país, além da maioria dos portugueses não saber nada sobre o Bangladesh, o que facilita a rejeição dos seus naturais, possui uma sonoridade exótica, contribuindo para a estranheza (“isto não é a Índia” ou “isto não é o Nepal” seria menos eficaz a esse nível) e o medo da suposta ameaça asiática. Com apenas cinco palavras, “Isto não é o Bangladesh” resume o venturismo na perfeição, até porque a frase não foi criada por André.

 

4. Desistam a nosso favor, dizem António José Seguro e os seus apoiantes aos outros candidatos de esquerda. Pois, está bem, mas uma relação envolve um esforço mútuo de aproximação e, na verdade, Seguro nunca mostrou afeto para oferecer em troca das eventuais cedências de BE, PCP e Livre. De início, procurando aproveitar o capital de simpatia de que goza à direita, Tozé seguiu a estratégia de não ser nada nem pensar coisa nenhuma, além de regozijar-se com os sorrisos de comentadores “passistas” como Pedro Gomes Sanches e Nuno Gonçalo Poças. Só depois dessa atitude não produzir especiais resultados destacou o seu estatuto de único candidato de esquerda com hipóteses de atingir a segunda volta das eleições. Contudo, bastou observar os debates de Seguro com Jorge Pinto, António Filipe e Catarina Martins para compreender que se trata de uma questão de feitio, provavelmente originada na infância do político: mesmo que quisesse, Tozé nunca seria o rosto convincente de uma frente de esquerda. Mesmo assim, o antigo líder do PS atua como um verdadeiro pai da Pátria ao estimular o sentimento de culpa dos “filhos” e responsabilizá-los caso não atinja a elevada fasquia dos 20%. Este discurso faria mais sentido se Seguro fosse uma força que ninguém pode parar, mas o homem de Penamacor parece limitar-se a querer empilhar alguns banquinhos sem ter a certeza de que a escada improvisada lhe permitirá chegar ao topo do armário.

 

5. Na verdade, o sucesso de frentes de esquerda é bastante incerto nos dias que correm, quando a união de partidos dessa área se apresenta como uma soma de fraquezas e não de forças. Apesar das potencialidades aritméticas das hipotéticas desistências a favor de Seguro, este também sofreria perdas resultantes da falta de vontade dos Poças e Sanches de seguirem um candidato apoiado pelo PCP e pelo Bloco de Esquerda. O fracasso nas autárquicas das coligações Bloco-Livre-PAN ocorridas em vários concelhos contribuiu, de resto, para dar a entender o quanto o BE se tornou tóxico em poucos anos, numa questão que vai além de caras e circunstâncias episódicas para atingir os fundamentos da visão do mundo dos bloquistas. Trata-se de uma das questões mais duras para o partido de José Manuel Pureza: como se obtém o apoio de pessoas para quem o nosso problema está no facto de existirmos?

 

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6. O nome de José Cardoso estará nos boletins, mas as cruzes à sua frente serão consideradas votos nulos devido a irregularidades detetadas pelo Tribunal Constitucional nos procedimentos de formalização da candidatura do líder do Partido Liberal Social. Frustra-se assim a oportunidade de Cardoso obter alguns minutos de atenção mediática para o PLS e as suas ideias. Há que ter em conta que Chega e Iniciativa Liberal representam as exceções e não a regra. Em Portugal, continua a ser muito difícil criar um partido político e ainda mais difícil garantir visibilidade pública a essa nova formação. Também por isso parece ser improvável a recomposição do sistema partidário apontada como hipótese a curto prazo por alguns comentadores.

 

7. Caso dispusesse de mais mediatismo, a candidatura de André Pestana poderia constituir uma oportunidade para avaliar a dimensão do potencial eleitorado do raquelismo-varelismo. Não através da divulgação da face do próprio Pestana, que há muito ninguém considera útil, mas pela transmissão de vários princípios raquelistas-varelistas próximos do espírito do tempo, como o individualismo, a desconfiança do Estado, o desprezo pela política profissionalizada e a paixão pelo discurso moralista, apreciado por muitas pessoas desde que não se sintam alvos dele. Ironicamente, o raquelismo-varelismo poderia contrariar a tendência de recuo do conjunto da esquerda. Para tal, no entanto, seria necessária a intervenção do jornal Maio e da própria Raquel Varela, sempre prolixa em apelos à organização dos trabalhadores em novos partidos que se traduziram, até agora, na recolha de zero assinaturas.

Como se faz um autarca

Procurando contrariar a perspetiva habitual da política autárquica centrada na figura do presidente da Câmara, o PS-Odivelas divulgou nos seus perfis do Facebook e do Instagram informações sobre os restantes autarcas do partido eleitos no concelho a 12 de outubro. Além dos vereadores do PS que acompanham Hugo Martins na Câmara, foram destacados os membros dos executivos das quatro juntas e os socialistas que presidem à mesa da assembleia de freguesia que integram. No total, encontram-se disponíveis 30 fichas individuais, cada uma das quais inclui dados como o nome e idade ou data de nascimento do autarca, os pelouros a seu cargo neste mandato, o seu currículo académico, profissional e autárquico e várias frases alusivas às nobres caraterísticas psicológicas (“rigor, proximidade e espírito de missão”, “uma forte defesa dos direitos humanos”, “um forte sentido de missão”, “capacidade de gerar consensos”, “paixão pelo espaço público”, “uma postura proativa e colaborativa”, etc.) que orientam o trabalho a favor da “comunidade” da figura em questão. Em alguns casos, são referidos o número de filhos do edil, os anos que este já leva de residência no município e outros pormenores biográficos.

 

Para lá do facto de que dois terços dos membros da amostra são homens, com as apenas 10 mulheres a apontarem uma ainda incompleta feminização do pessoal autárquico, é difícil identificar padrões no universo dos eleitos socialistas em Odivelas, tão diversas são as profissões e formações académicas daqueles que o compõem. Há autarcas do PS licenciados em Gestão, Direito, Naturopatia, Solicitadoria, Estudos Artísticos, Psicopedagogia, Relações Internacionais ou Ciências da Comunicação, tal como outros que não frequentaram o ensino superior. Alguns são empresários, outros trabalham por conta de outrem, mas também há quem tenha integrado a PSP (Rogério Breia) ou as Forças Armadas (Rui Simões, Daniel Ginja, Manuel Varela). O número de personalidades associadas profissionalmente à CMO ou a outras entidades públicas está longe de ser maioritário, embora existam casos relevantes como Nuno Gaudêncio e Ricardo Oliveira, enquanto, de acordo com os dados fornecidos, seis autarcas (20% do total) desempenharam cargos partidários no PS ou na JS.

 

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(Fonte da imagem: PS Odivelas)

 

A participação no movimento associativo é valorizada pelo desconhecido autor das notas biográficas por reforçar a ligação sentimental ao território dos futuros autarcas e permitir-lhes um conhecimento detalhado das “dinâmicas sociais e comunitárias” do município. O desporto destaca-se como porta de entrada no associativismo, tendo em conta que 11 (36,7%) dos membros da amostra aqui utilizada são ou foram atletas ou dirigentes de associações com atividades desportivas. Antes de chegarem às autarquias, seis socialistas envolveram-se no movimento católico através dos escuteiros ou de grupos formados nas paróquias locais. As associações de pais (quatro figuras da lista dirigiram coletividades desse tipo) e estudantes foram outra via de iniciação na causa pública, registando-se também ligações a IPSS, aos Bombeiros Voluntários (Manuel Varela e Fábio Lourenço), à Amnistia Internacional (Mónica Vilarinho) e a instituições não identificadas. Esta importância do associativismo enquanto fonte de autarcas não é exclusiva do PS, com o PSD local a incluir outros nomes do dirigismo como Rui Teixeira, Ana Monteiro e Pedro Martins, ao passo que o PCP foi conhecido durante muitos anos pela presença frequente dos seus militantes nos órgãos sociais de clubes desportivos e associações de moradores.

 

Nos concelhos mais rurais e menos populosos, assiste-se ao tradicional domínio por um grupo restrito de famílias dos cargos diretivos de entidades locais como clubes, autarquias, misericórdias e corporações de bombeiros. Nas áreas urbanizadas, apesar da escolha de dirigentes partir de uma base de recrutamento mais vasta, o tecido associativo tem enfrentado dificuldades de renovação. Durante o refluxo do associativismo que se seguiu ao boom das décadas de 70 e 80, a participação dos cidadãos em coletividades começou a escassear e os lugares de direção, com todo o trabalho árduo e não remunerado que implicam nos pequenos clubes e organizações de solidariedade, tornaram-se cada vez menos atrativos. Ao mesmo tempo, o número de indivíduos disponíveis para serem militantes de partidos políticos e assumirem funções autárquicas também seguiu uma tendência descendente, contribuindo para que autarcas e líderes associativos sejam frequentemente as mesmas pessoas, inclusive em cidades da dimensão de Odivelas. O associativismo fornece, de resto, aos seus dirigentes uma visibilidade e uma rede de contactos que facilitam a entrada na política concelhia. No entanto, seria curioso comparar as origens sociais e profissionais dos autarcas eleitos pelo PS com os percursos típicos nos partidos mais recentes, em particular no Chega, Livre e Iniciativa Liberal. Possuirão estas formações ideologicamente mais homogéneas uma reforçada capacidade de atração de figuras com perfis diferentes, sem as habituais ligações às “forças vivas” locais e com experiências favoráveis a novas práticas no poder autárquico? Apenas através de recolhas de dados semelhantes à empreendida pelo PS odivelense poderemos aproximar-nos de conclusões a esse respeito.

Terras do Demo

O Diabo surgiu a 10 de fevereiro de 1976 sob a direção de Vera Lagoa, constituindo o caso de maior sucesso e longevidade da imprensa de direita criada no pós-25 de Novembro. A caneta afiada de Lagoa rapidamente levou o Conselho da Revolução a punir o periódico com uma suspensão durante a qual a jornalista lançou O Sol, cuja redação foi alvo de um ataque bombista, antes de O Diabo regressar definitivamente às bancas já em 1977. Marcado pelo anticomunismo e pelos ataques de Lagoa à “cambada” que dominava a cena política desde o 25 de Abril, O Diabo contava ainda com o valioso trabalho de Augusto Cid, autor do grafismo, dos cartoons e ilustrações espalhados pelas páginas brancas do jornal e, a partir de 1981, de artigos de investigação sobre o alegado atentado de Camarate. Para lá do noticiário político e das crónicas de colunistas como José Miguel Júdice, o semanário incluía secções variadas acerca de livros, cinema (onde o crítico Eurico de Barros se destacou) ou gastronomia. O Diabo ganhou um público fiel entre o “povo de direita”, mas o aparecimento em 1988 de O Independente, que contratou Cid e apresentou uma frescura irreverente sem nada a ver com o passadismo do jornal de Vera Lagoa, pôs em causa o êxito deste. De resto, o desaparecimento da némesis de O Diabo, o periódico oficioso do PCP O Diário, assinalava um mercado cansado de jornais engagés. Após a morte de Lagoa em 1996, o semanário perdeu a sua identidade ideológica e ganhou pluralidade, entrevistando figuras de todos os quadrantes políticos. No entanto, a restante comunicação social apenas referia O Diabo a propósito dos textos nele publicados por Alberto João Jardim. Quando o então presidente do Governo Regional da Madeira interrompeu a colaboração no jornal, este tornou-se praticamente invisível.

 

Na década de 2010, já com Duarte Branquinho na direção, O Diabo era outra vez um periódico alinhado à direita que José Pacheco Pereira lia apenas devido à sua curiosidade por aquilo que os (aparentemente) últimos saudosistas do Estado Novo escreviam. O semanário era preenchido quase na íntegra por artigos de opinião, à exceção de raras entrevistas e breves textos com as notícias da semana. Em 2016, Miguel Mattos Chaves assumiu o cargo de diretor e O Diabo adotou uma linguagem mais neutra e sóbria, com novidades como Henrique Neto no painel opinativo. Contudo, a partir do ano seguinte, agora com Cecília Alexandre à frente do órgão pertencente à empresa Pixeldecimal, cujo único acionista, Fernando de Brito Cabral, exercia desde 2010 as funções de administrador, o jornal criado por Vera Lagoa voltou a ser a voz da extrema-direita portuguesa. A crise da imprensa avançava pelo mundo, mas não tinha coragem de entrar na Azinhaga da Fonte, a rua lisboeta onde se situa a redação de O Diabo, produtora de um jornal com 24 páginas que afirma manter uma tiragem média mensal de 25 mil exemplares. Com vendas em banca irrisórias, publicidade inexistente, uma presença digital menos que rudimentar e assinaturas insuficientes para explicar a sua sobrevivência, O Diabo transformou-se num enigma para as poucas pessoas que sobre ele refletiam. Havia quem especulasse que o financiamento do periódico provinha de Henrique Neto, autor de artigos (todos eles poderiam ser resumidos na frase “eu avisei, mas ninguém me ouviu”) que davam sempre origem a manchetes ou chamadas de capa nas sucessivas edições do semanário, mas essa teoria parecia incapaz de decifrar o mistério.

 

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Nos últimos anos da direção de Cecília Alexandre, O Diabo conheceu alguns esforços de renovação quer no grafismo quer na tentativa de diversificar a lista de comentadores, indo além do estereótipo do velho reacionário. O jornal passou a refletir o pluralismo obtido pela direita ao abrir as suas páginas a militantes de PSD, CDS, Chega e Iniciativa Liberal, além de procurar atrair a colaboração de mais mulheres. Outro objetivo da publicação foi rejuvenescer o conjunto de colunistas, com a nova secção “O Diabo a quatro” a apresentar as respostas de jovens ligados aos quatro partidos da ala direita do Parlamento à pergunta colocada em cada semana. O antigo representante do PSD nessa página, Cristiano Luís Gaspar, acaba de se tornar o diretor de O Diabo, numa mudança de rostos que pretende iniciar um novo ciclo na história do jornal à beira do cinquentenário. Na edição de 5 de dezembro, Cristiano Gaspar assina o seu primeiro editorial (reproduzido novamente, palavra por palavra, no número de 12 de dezembro), agradecendo a confiança recebida da administração e anunciando a intenção do periódico de “liderar uma geração de portugueses” ainda insatisfeita após meio século de democracia. Para tal, será necessária “uma estratégia clara de modernização e proximidade” que melhore a edição em papel, aposte nas redes sociais e faça O Diabo regressar às “ruas, escolas e universidades”. O até aqui discreto Fernando Cabral também veio a público garantir que o jornal por si gerido “não abandona a luta”, apesar das dificuldades enfrentadas pela imprensa, e manter-se-á como “um símbolo do não conformismo”.

 

As primeiras duas edições do “novo” mafarrico da Azinhaga da Fonte revelam de facto, apesar da persistência das colunas de velhos conhecidos como Henrique Neto, Brandão Ferreira e Aristóteles Drummond, transformações ao nível da estrutura do jornal. Entre os comentadores de O Diabo, abundam agora jovens nascidos já no século XXI e responsáveis por várias das diferentes secções (“Academias”, “A mula da cooperativa”, etc.), enquanto João Henrique Roque substitui Cristiano Luís Gaspar em “O Diabo a quatro”. Surgem igualmente artigos não assinados, em particular nas páginas centrais, dedicadas à análise de um tema específico, seja ele o pacote laboral ou os candidatos às eleições para a Presidência da República. Continua o scouting de novos valores das direitas e lançam-se páginas acerca de temas jurídicos ou questões regionais. O mais curioso, no entanto, é a presença no semanário de figuras com alguma visibilidade mediática, entre elas João Gonçalves, Rodrigo Alves Taxa e Helena Ferro de Gouveia. A página 3 encontra-se reservada para as palavras de um “Protagonista” convidado em cada número, função já desempenhada por Tim Vieira e pelo ex-Volt Tiago Matos Gomes. Tendo em conta a marginalidade vivida por O Diabo durante um largo período, mesmo dentro dos setores de direita, é possível que o “filho” de Vera Lagoa comece a pouco e pouco a sair da escuridão e celebre os 50 anos atraindo o interesse das massas adeptas da atual maioria parlamentar, ainda para mais quando o mercado mediático passou a estar sedento por sectarismo.

 

O cinema na Sociedade

Um artigo de Cristina Tomé contém a informação essencial acerca da história da exibição pública de cinema no território do concelho de Odivelas e dos vários espaços onde decorreram os contactos da população local com a Sétima Arte. Contudo, no que respeita às projeções de filmes realizadas pela Sociedade Musical Odivelense (SMO), é atualmente possível acrescentar aos elementos recolhidos por Tomé alguns dados presentes em textos da imprensa e no livro de Fernanda Moroso Sociedade Musical Odivelense, 160 Anos (1863-2023), editado em 2023 pela Câmara Municipal de Odivelas. Assim, sabe-se que as primeiras sessões cinematográficas promovidas pela Sociedade ocorreram em 1928 numa sala cedida pelo Odivelas Club “Os Passarinheiros”, uma coletividade com atividades culturais e recreativas que optaria em outubro de 1930 pela dissolução, entregando o seu espólio à SMO (O Século, 03-11-1930). Os filmes, com títulos hoje desconhecidos, eram então exibidos por privados que atribuíam à Sociedade uma parte das receitas de bilheteira. A inauguração em 1931 da sede da SMO na Travessa da Mina (a atual Rua Maria Gomes da Silva Santos) forneceu à associação um espaço fixo para a projeção de cinema, tendo um ofício de 10 de julho de 1936 da 1.ª Secção de Fiscalização Elétrica, integrada no Ministério das Obras Públicas e Comunicações, aprovado a instalação elétrica do equipamento. Entre as obras exibidas entre 1938 e 1939 em Odivelas, encontravam-se as longas-metragens portuguesas Maria Papoila, Os Fidalgos da Casa Mourisca e Aldeia da Roupa Branca. A venda de bilhetes para as sessões de cinema depressa se tornou o principal sustentáculo financeiro da Sociedade Musical Odivelense. No entanto, seria necessário realizar periodicamente obras, como aconteceu em 1947, para dar ao salão de festas da SMO condições de acordo com as exigências da Inspeção-Geral dos Espetáculos.

Na década de 50, conflitos entre os dirigentes da Sociedade e dos Bombeiros Voluntários de Odivelas terão levado os segundos a denunciarem a falta de condições de segurança do espaço utilizado como cinema. Obrigada a renovar as suas instalações, a SMO pediu em 16 de setembro de 1957 ao Montepio Geral um empréstimo de 300 contos, com o edifício da sede como garantia, para efetuar os trabalhos de acordo com projetos já aprovados pela Inspeção-Geral e pela Câmara de Loures. Apesar de assegurar ao Montepio que a futura exploração do cinema numa Odivelas “em pleno desenvolvimento” urbano e demográfico permitiria o rápido pagamento do empréstimo, a direção da coletividade fundada em 1863 não conseguiu crédito bancário. Mesmo assim, a SMO obteve em algum lado o dinheiro para as obras que lhe permitiram retomar em 1959 as sessões cinematográficas na sede, com Sebastião Monteiro Freire (1927-2020) como projecionista. Dirigente da SMO e presidente da Junta de Freguesia de Odivelas já depois do 25 de Abril, Sebastião Freire recordaria, numa entrevista ao Jornal de Odivelas de 3 de dezembro de 2009, os anos em que exibira cópias em mau estado de filmes vistos muito tempo antes nos cinemas de Lisboa e que eram alugados por 150 ou 170 escudos às distribuidoras. Apesar disso, o cineteatro da Sociedade, com plateia e dois balcões, estava habitualmente cheio durante as sessões iniciadas por volta das 21.30 às quartas, sábados e domingos, para além das matinés dominicais e de projeções especiais para sócios, crianças ou recolha de verbas a favor de pessoas necessitadas. Por exemplo, em 15 de janeiro de 1967, Mary Poppins foi exibido numa “matinée infantil” às 14.30 desse dia.

 

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("Museu do Cinema" na sede da SMO. Fonte: Sociedade Musical Odivelense)

 

Paralelamente aos espetáculos cinematográficos na sede da SMO, verificavam-se esporadicamente desde a década de 30 projeções ao ar livre em locais cedidos por particulares como Antunes Branco, que permitiu em 1938 a utilização do seu quintal pela Sociedade. Mais tarde, a SMO contratualizou com Valentim Duarte das Neves a criação num terreno deste, situado na Rua do Souto, da Cine-Esplanada, inaugurada em 29 de junho de 1956 e explorada diretamente a partir de 1958 pela Sociedade, que se tornaria proprietária do espaço já em 1977. Todos os Verões, a Cine-Esplanada, com capacidade para acolher 543 pessoas e cuja licença definitiva de funcionamento foi atribuída em 1967 pela Inspeção-Geral dos Espetáculos, reabria após trabalhos de reparação (particularmente necessários em 1968, depois das cheias de novembro do ano anterior terem coberto de lama bares, lavabos, bilheteiras e todo o terreno) e, caso as condições atmosféricas o permitissem, mostrava cinema a famílias e casais de namorados oriundos de Odivelas, Ramada e povoações vizinhas. A reunião de centenas de odivelenses transformava as sessões da Cine-Esplanada em autênticos eventos sociais, com uma programação composta sobretudo por terror, westerns, produções de Bollywood e filmes de artes marciais protagonizados por Bruce Lee a servir de pretexto para o convívio dos jovens. A partir de 1974, o espaço da Rua do Souto acolheria ainda eventos políticos, entre eles o primeiro comício organizado pelo PCP em Odivelas.

A venda dos bilhetes de cinema conferidos pelo porteiro, um maneta conhecido por Sr. Mário, foi ao longo de várias décadas a principal fonte de receita da Sociedade Musical Odivelense, financiando as restantes iniciativas culturais do organismo. Porém, ao ser entrevistado em fevereiro de 1979, o então presidente da SMO, José Oliveira da Silva, queixou-se de que, apesar de não existir mais nenhum cinema em Odivelas, a sala com 289 lugares da sede raramente esgotava (A Capital, 21-02-1979). Para lá da exibição dos filmes mais comerciais, a coletividade pensava em criar um grupo dedicado ao “cinema de qualidade”, mas por volta de 1986 o cineclube ainda estava “em formação” e à procura de sócios. Entretanto, a generalização da televisão e a expansão de transportes públicos e individuais facilitadores do acesso a Lisboa mudavam os períodos de lazer dos odivelenses. A abertura das salas de cinema dos centros comerciais Kaué (1980) e Oceano (1984), disponíveis para as últimas estreias e mais modernas e confortáveis que os espaços da SMO, também contribuiu para a queda a pique dos rendimentos desta. Em 1985, o edifício do centro histórico da futura cidade ainda acolhia sessões de cinema, com uma produção diferente em cada dia, enquanto a Cine-Esplanada, longe da harmonia familiar de outrora, exibia “filmes violentos e pornográficos” cujo público se envolvia em frequentes confrontos (Acção, 28-07-1989). Forçada a aceitar a nova realidade, a SMO suspendeu a divulgação do cinema ao fim de cerca de 60 anos. Desde então, o salão da Rua Maria Gomes da Silva Santos acolhe sobretudo atuações da banda da Sociedade, ao passo que o local da esplanada se tornou um parque de estacionamento. Ficaram as memórias de gerações de odivelenses a quem a SMO deu a conhecer as maravilhas do cinema.

 

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(Fonte: Odivelas Slideshow)

Momentos na Biblioteca

1. No dia 22 de novembro de 1997, o sábado em que, após um ano de obras na antiga casa da Quinta de Nossa Senhora do Monte do Carmo, foi inaugurada a Biblioteca Municipal D. Dinis (BMDD), eu achei que tinha chegado ao paraíso. Se já fosse eleitor, teria votado na CDU de Demétrio Alves nas autárquicas desse ano para agradecer um tão belo presente dado pela Câmara de Loures a Odivelas. Hoje em dia a biblioteca não me parece tão grande como em 1997, mas continua a ser um lugar muito acolhedor.

 

2. A sala “Juvenil e Multimédia” da Biblioteca Municipal detinha um acervo de CDs e vários postos de escuta com auscultadores, tal como algumas televisões para visionamento de cassetes VHS. Utilizei esses aparelhos, com destaque para a parte musical, mas o que me interessava mais no espaço era a vasta coleção de banda desenhada disponibilizada aos jovens leitores. A secção de BD da BMDD ainda está no mesmo sítio e mantém o nível elevado, recebendo frequentes atualizações. Graças a ela, passei muitas tardes a ler os cartoons de Quino, os álbuns do Lucky Luke ou a ficção histórica de José Ruy. O Jim del Monaco também lá estava, mas só repararia nele aquando do regresso da personagem de Louro e Simões em 2015. Ainda no início da adolescência, aproveitei para consumir na mesma sala histórias de rápida leitura como a coleção O Clube das Chaves, as aventuras de Sherlock Holmes ou o menino Nicolau de Sempé e Goscinny. Eu gastava tanto tempo na BMDD que a mascote da biblioteca desenhada por essa altura, um miúdo moreno de boné e óculos, até parecia inspirada em mim.

 

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3. “Sim, meus queridos sobrinhos. No final do século passado, eu e a vossa mãe íamos à biblioteca aos sábados de manhã e metíamos-nos numa fila para podermos usar um computador com acesso à Internet durante meia hora. O tempo era curto porque todos os sites demoravam uma eternidade a abrir e em breve tínhamos de ceder o lugar a outras pessoas. Depois de sairmos da biblioteca, aproveitávamos para apanhar folhas caídas das árvores porque nessa época ainda não havia papel higiénico.”

 

4. Com a entrada no século XXI, comecei a permanecer mais tempo na sala de leitura para “Adultos”, que receberia posteriormente o nome de Natália Correia, e a recorrer ao serviço de empréstimo domiciliário. Lembro-me de requisitar romances como A Voz dos Deuses, de João Aguiar, Gente Feliz com Lágrimas, de João de Melo, ou Conhecimento do Inferno, de António Lobo Antunes. Não conheço a relevância numérica atual do empréstimo de livros na BMDD, mas continuo a achar que, para um jovem sem dinheiro para grandes compras, a possibilidade de ler gratuitamente e experimentar vários géneros literários até formar o seu gosto pessoal constitui um tesouro inestimável.

 

5. Devido à proximidade da Escola Secundária de Odivelas, a maioria do público da BMDD foi sempre composta por jovens que se encontravam na biblioteca com o objetivo de estudarem ou pesquisarem para trabalhos escolares. Quanto a mim, apenas descobri durante a licenciatura a utilidade das estantes dedicadas à História, com um conjunto de livros um pouco desatualizado mas dotado de clássicos valiosos para compreender melhor os temas que aprendia na faculdade. Outras áreas de não-ficção da biblioteca como política, crónicas ou memórias também incluem numerosas obras e, ao longo dos anos, têm sido renovadas através de doações e aquisições. Por seu turno, o espólio sobre música, cinema e desporto, agora guardado ao fundo da Sala Natália Correia, mantém-se basicamente o mesmo desde os primórdios da BMDD.

 

6. A chamada “Biblioteca Fora de Horas”, uma divisão do edifício da biblioteca que se mantém aberta já depois do encerramento dos restantes serviços, costuma atrair muitas pessoas que consultam jornais em papel (não olhem assim para mim... acham que vale a pena comprar o Expresso se não tenho pachorra para lê-lo na íntegra?) ou aproveitam a Internet gratuita para trabalharem nos seus portáteis. É também lá que se encontra a estante do “Banco de Ofertas”, preenchida por livros usados entregues pelos antigos donos à BMDD, que insere no seu catálogo apenas os volumes mais recentes, oferecendo a maioria dos livros aos frequentadores do espaço. No meio de obras antigas sobre os mais diversos temas, torna-se comum encontrar autênticas preciosidades. Por favor, odivelenses, se têm livros que não querem em casa, não os abandonem junto aos caixotes de lixo. A Biblioteca Municipal pode fazer a livralhada chegar a quem realmente necessita dela.

 

7. Ao longo da pandemia, não havia muito a fazer. Quando a BMDD não se encontrava fechada, via-se junto à entrada da frente uma lista de restrições extensa ao ponto de tornar óbvia a mensagem “não entre aqui”. A Câmara de Odivelas aproveitou para realizar obras no edifício que levaram à transferência de parte do espólio para o Centro de Exposições. Foi a partir daí que dei mais atenção ao Fundo Local, composto sobretudo por bibliografia herdada da gestão de Loures, obras editadas pelas autarquias, trabalhos académicos acerca de Odivelas e fotocópias de exemplares guardados na Biblioteca Nacional. Juntos, estes materiais representam um ponto de partida essencial para a historiografia do atual município odivelense. Falhou, contudo, uma iniciativa de recolha de fotografias antigas junto da população, com a prometida exposição sobre a Odivelas de outros tempos a ter de recorrer a imagens do Arquivo Fotográfico de Lisboa. Entretanto, muitos idosos do concelho partilham no Facebook imagens da sua juventude (e ainda bem) sem ninguém lhes pedir nada.

 

8. O átrio da biblioteca serviu desde cedo como sala de exposições de pintura, fotografia e outras artes, além de acolher feiras do livro cada vez mais raras. Os técnicos da BMDD dinamizam uma ampla programação de estímulo à leitura, dirigida em especial às crianças, e possibilitam o uso do equipamento municipal para workshops ou lançamentos de livros. No entanto, fica sempre a sensação de que muito mais poderia ser feito junto à antiga capela de Nossa Senhora do Monte do Carmo. Não se sabe o que aconteceu ao auditório na cave, possível palco de congressos científicos e outras iniciativas. Os lançamentos e sessões de autógrafos são relativamente escassos, com as editoras de maior dimensão a ignorarem a biblioteca odivelense enquanto espaço de valorização comercial dos seus produtos. Na verdade, a localização da BMDD não favorece a organização de grandes eventos, até porque não existe na sede do concelho uma livraria de dimensões significativas, à exceção da Bertrand do Strada Outlet. Em que medida o sossego e a tranquilidade que atraem estudantes às mesas da biblioteca resultarão de um subaproveitamento das potencialidades desta? Eis um assunto a analisar pela nova vereadora da Cultura. Por enquanto, ao fim de 28 anos ao serviço da leitura, muito obrigado, Biblioteca Municipal D. Dinis.

 

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Odivelas 2025: o pós-autárquicas

1. O acordo entre PS e PSD para a gestão da Câmara Municipal de Odivelas (CMO) resulta de uma necessidade mútua de apoio perante a ameaça do Chega, detentor de um forte crescimento baseado sobretudo na atração às urnas odivelenses de cerca de 8500 eleitores a mais em relação a 2021. Donos de cinco lugares no executivo municipal perante os seis da direita, os socialistas negociaram com o PSD um pequeno Bloco Central, ao passo que João Pedro Galhofo rompia a AD local e levava para a oposição as hordas imensas do CDS. Derrotado a 12 de outubro, Marco Pina não se tornou vereador a tempo inteiro devido aos seus compromissos profissionais com a CMTV e à provável relutância em trabalhar com Hugo Martins depois daquilo que Pina disse sobre o autarca socialista na campanha. Assim, o ex-presidente do CER Tenente Valdez, Rui Teixeira, e Ana Isabel Gomes, vereadora de sucessivos executivos desde 2015, são os sociais-democratas agora responsáveis por pelouros como a saúde, a cultura, o turismo, os licenciamentos e o desenvolvimento económico. A negociação envolveu ainda lugares noutras autarquias, entre elas a Junta de Freguesia de Odivelas, onde a antiga candidata da AD Ana Monteiro tutela dentro do executivo presidido por Ricardo Oliveira vários dos temas atribuídos ao PSD na Câmara. Previsivelmente, o Chega e algumas figuras do CDS acusaram os “laranjas” de terem trocado os princípios pelo aroma do gabinete, do ordenado, do motorista. Enquanto o PS prepara a transição do huguismo para o nunismo, o PSD aguarda para saber o que obterá com este acordo até 2029. Recorde-se que, ao concorrer em 2013 à presidência da Câmara, Sandra Pereira destacou a atividade que desenvolvera no lugar de vereadora da Saúde, sem ganhos nas urnas. Por outro lado, a concelhia do PSD volta agora a ter alguma influência na governação quotidiana do município após oito anos de afastamento. O Chega passa a gozar da liderança da oposição e da oportunidade de explorar tudo o que correr mal à CMO, mas os resultados eleitorais mostram que, na prática, já alcançara esse estatuto entre 2021 e 2025.

 

2. PAN, Livre e Bloco de Esquerda comunicaram que a coligação Odivelas com Futuro foi dissolvida, pelo menos até às próximas autárquicas, e os seus dois eleitos, o deputado municipal Luís Miguel Santos e Bruno Moreira (membro da Assembleia de Freguesia de Odivelas), apenas falarão em nome, respetivamente, do Bloco e do Livre. O reduzido espaço público disponível para os partidos da antiga frente de esquerda realça a questão de como fazer política local fora das autarquias, ainda para mais quando não se possui a tradicional ligação do PCP a algumas empresas e coletividades. A resposta óbvia passaria pelas redes sociais, palco de uma vasta difusão dos vídeos publicados pela concelhia do Chega e em particular por Ricardo Reis, mas a presença digital dos outros partidos costuma ser bastante reduzida fora das campanhas eleitorais. Ainda assim, BE e Livre parecem querer inverter a tendência, aproveitando a visibilidade das cerimónias institucionais para as quais são convidados. O próprio PS inova ao publicar notas biográficas dos seus autarcas, a começar, naturalmente, pelo vice-presidente Nuno Gaudêncio. Para lá da habitual propaganda das autarquias, o Instagram e o Facebook poderão ser nos próximos anos arenas privilegiadas do combate político no município odivelense.

 

3. A tutela do desporto no concelho mantém-se a cargo do antigo dirigente Francisco Baptista, agora vereador do Desenvolvimento Desportivo, com uma estratégia que passa pela continuação das provas nacionais e internacionais realizadas no Pavilhão Multiusos. Nos primeiros discursos do seu novo mandato, Hugo Martins anunciou também vários avanços ao nível dos equipamentos desportivos. Além das obras em curso no Polidesportivo Honório Francisco, a Câmara promoverá a requalificação do quase cinquentenário Pavilhão Municipal utilizado pelo GCO e construirá uma nova estrutura coberta na Escola Secundária Braamcamp Freire (Pontinha). Um antigo projeto surgido nos anos 90 ganhará vida na Paiã com o aparecimento de um complexo destinado a várias modalidades em terrenos junto ao Kartódromo. Os investimentos privados em estruturas desportivas nas Colinas do Cruzeiro e no Jardim da Amoreira, acompanhados pela CMO “com toda a atenção”, edificarão novos ginásios e atenuarão a sobrelotação das Piscinas Municipais. Os atletas do concelho iniciam agora o período de espera pela concretização de tudo isto.

 

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(Remodelação de parque infantil nas Patameiras)

 

4. A social-democrata Ana Isabel Cosme Gomes, que assina as suas pinturas simplesmente como Ana Cosme, assumiu o pelouro da Cultura e passou a trabalhar no gabinete do anterior vereador, Edgar Valles, no Centro de Exposições da sede do concelho. A ausência de Valles na lista socialista apresentada às últimas autárquicas fazia já antever a mudança na área cultural mas, depois de uma campanha em que as ideias mais criativas sobre cultura foram lançadas por OCF e Volt, permanece a incógnita acerca do novo rumo do departamento com a tutela de equipamentos como a Biblioteca Municipal D. Dinis. Já se sabe que a Malaposta continuará a ser gerida por uma empresa privada, enquanto o Auditório Municipal da Póvoa de Santo Adrião espera por um novo destino e o projeto do museu a construir no antigo Instituto ainda se encontra em fase de definição. O Bloco de Esquerda pediu entretanto uma política cultural “mais diversa” e dedicada à promoção do trabalho de artistas odivelenses. Contudo, mais do que inovar, seria urgente reforçar a divulgação daquilo que já existe, permitindo à população saber que há aqui atividades culturais para além dos concertos dos Toys e Tonys.

 

5. A Câmara de Loures vai assinalar o cinquentenário do 25 de Novembro com uma sessão solene, tendo uma moção do Chega sobre a data sido aprovada numa reunião da CML com a abstenção do PS e o voto contra do PCP. A recente maioria de direita no executivo municipal de Odivelas despertou a dúvida sobre eventuais comemorações do fim do PREC análogas às do concelho vizinho. De facto, na reunião da Câmara de Odivelas de 20 de novembro, o Chega apresentou uma moção, lida pelo vereador Duarte Vieira (que tropeçou na palavra “totalitarismo”), na qual saudou militares do 25 de Novembro como Jaime Neves e Pires Veloso e aproveitou para condenar as propostas de ilegalização do partido de André Ventura. Um erro de redação levou o texto cheguista a não incluir qualquer sugestão de medidas a tomar pela CMO, obrigando Fernando Pedroso a esclarecer que, num município onde se realizam tantas celebrações, entre elas festas avessas à “matriz judaico-cristã” do concelho, o 25 de Novembro também deveria ser oficialmente comemorado. A moção foi chumbada com votos a favor dos três vereadores do Chega e contra dos oito restantes, mas o problema pareceu residir apenas na referência à hipotética proibição do partido, com Susana Santos (PS) a prometer trabalhar num texto mais “abrangente”, enquanto Marco Pina manifestou a sua concordância com a vontade de celebrar os acontecimentos de 1975. O assunto terá permanecido em aberto até à próxima reunião do executivo, durante a qual Hugo Martins estará ausente por motivo de férias.

Ventura fora da pastelaria

Em 10 de novembro, o Chega-Odivelas anunciou nas redes sociais a realização no dia seguinte de uma arruada na cidade com a presença de André Ventura, enquadrada na campanha do líder partidário para as eleições presidenciais. Numa publicação com abundantes reações, o partido incentivou os seus apoiantes a acorrerem às 16 horas ao quartel dos Bombeiros Voluntários, onde Ventura visitaria a corporação antes de percorrer as ruas odivelenses. De facto, apesar do dia e hora do evento impedirem a presença de várias pessoas ocupadas com os seus afazeres profissionais, um grupo relativamente amplo de indivíduos com sacos, bandeiras e cachecóis do Chega reuniu-se às quatro da tarde de 11 de novembro em frente à sede dos BVO, com uma viatura da PSP a prevenir eventuais riscos de segurança, função à qual também se dedicavam Luc Mombito e os numerosos seguranças protetores do presidente cheguista. Quando André Ventura apareceu no quartel, atirou-se de imediato à tarefa prioritária de, com o deputado Ricardo Reis e o vereador Fernando Pedroso atrás de si, conceder aos jornalistas presentes as palavras que a rádio e a televisão espalhariam por todo o país no resto desse dia. Enquanto dezenas de corpos se aglomeravam junto ao político, muitos cheguistas encontravam-se demasiado longe para conseguirem ouvi-lo, passando pela experiência curiosa de observarem André a mexer os lábios e abanar a cabeça quando se indignava sem entenderem uma palavra do que dizia, qual televisor sem som. Depois de uma longa conversa com a comunicação social, Ventura entrou nas instalações dos bombeiros para 15 minutos de visita. Ao longo desse período, os repórteres de imagem filmavam o exterior do quartel e algumas dezenas de cidadãos conversavam à espera dos acontecimentos seguintes. Dois miúdos vindos de bicicleta perguntaram por Ventura a um dos quatro polícias ali presentes, que deixou os jovens aguardarem pelo candidato presidencial desde que se mantivessem sossegados.

 

Findo o rápido contacto com os BVO, André Ventura e os dirigentes do Chega-Odivelas reapareceram na entrada do quartel para um momento reservado a fotografias e cumprimentos de admiradores do antigo comentador da CMTV. Seguiu-se a arruada propriamente dita, com o grupo encabeçado por André a virar à direita, ladeando o Pavilhão Municipal e as obras da nova ponte do Bairro Olaio, à medida que a PSP cortava momentaneamente o trânsito. Um comerciante hindustânico mostrava um sorriso benevolente ao observar a comitiva cheguista, que respondia com palmas às buzinadelas de apoio de alguns condutores. Um jornalista da Rádio Observador que cobria o evento afastou-se um pouco para gravar a sua peça. Ao passar pela porta da sapataria Guimarães, Ventura saudou as funcionárias, sem receber grande atenção. Pouco depois, a chusma entrou na Avenida D. Dinis, atraindo os olhares dos utentes na paragem do autocarro 36, junto à qual se encontra o café Ulisses. Em busca de boas imagens para os canais televisivos, André entrou no estabelecimento para tomar um café, acompanhado das câmaras, com o povo do Chega a esperar no passeio pela retoma da marcha.

 

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Do outro lado da rua, alguns transeuntes presenciavam a cena com mera curiosidade, mas subitamente gritos hostis (“Fascista!”, “25 de Abril sempre!”) começaram a ouvir-se de um dos prédios vizinhos. Em resposta, os venturistas multiplicaram as saudações ao partido e ao seu líder, além de soltarem frases como “Vai acabar-se a mama!” Ao localizarem numa janela as mulheres que davam as más-vindas a Ventura, os homens do grupo cheguista refinaram os contra-ataques (“Vai trabalhar!”, “Vai lavar as cuecas!”, “Vai para o Irão, filha!”). Indiferente à situação quando saiu do Ulisses, André Ventura pediu emprestada a bicicleta de um dos jovens que acompanhavam a arruada e pedalou alguns metros em frente à churrasqueira Odimar, fechada para descanso semanal. Em seguida, o percurso pela avenida prosseguiu entre breves diálogos do candidato com lojistas e apoiantes, novas buzinadelas solidárias e os últimos brados antifascistas. Ao atingirem a pastelaria El-Rei D. Dinis, habitualmente repleta de eleitores, as notabilidades do Chega pareceram hesitar. Fernando Pedroso avançou como explorador, em busca de autorização para fazer campanha na pastelaria, enquanto André e o resto do grupo mantinham-se junto à esplanada. A resposta do estabelecimento gerido por Paulo Lopes terá sido negativa, pelo que Ventura deu a arruada por concluída, erguendo o punho direito, saudando os seguidores que faziam vês de vitória e entrando num automóvel. Em poucos minutos, polícias e manifestantes dispersaram e a tarde converteu-se em noite.

 

Odivelas tem sido um barómetro eficaz da ascensão do Chega, cujos resultados em autárquicas e legislativas no concelho foram subindo até atingirem os dois dígitos e mais tarde superarem os 20%, com a consequente alteração da correlação local de forças. Depois do segundo lugar obtido na votação para a Câmara odivelense e do acordo entre PS e PSD para a gestão desta, o partido de extrema-direita reclamou o estatuto de líder da oposição e polo agregador dos descontentes. Não surpreende, portanto, que André Ventura confie no trabalho de Ricardo Reis e Fernando Pedroso e tenha escolhido Odivelas como um ponto do trajeto da sua campanha presidencial. Com uma mobilização assinalável tendo em conta a escassa antecedência da sua convocatória, a arruada despertou nos odivelenses os sinais de curiosidade, apoio incondicional e rejeição instantânea habituais nas ações propagandísticas do aficionado do ciclismo. Contudo, a presença aparentemente espontânea de crianças com cerca de 10 anos que aclamam Ventura e veem nele uma popstar constitui um sinal preocupante para o futuro do 25 de Abril.

 

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Duas décadas de carreira

Nunca pensei em tirar outro curso. A ordem de libertação provisória n.º 1111. O aroma a bolos da cafetaria na cave. O frio das aulas às oito da manhã. O frio das aulas às oito da noite. Arranjar ingredientes para ela cozinhar a sopa. Vocês também são católicos? A paragem de autocarros de Sines nem sequer tinha um abrigo. O massacre de que não podemos falar. Nunca esquecerei a tua simpatia, Luciana. Telefonemas intermináveis até à rendição. O prof. Canaveira, uma versão mais velha de mim. A promoção das vuvuzelas. A prof. Rollo treinou-nos para sermos máquinas de historiografar. O Hilário e o Vicente ainda estão vivos. O nosso colega saiu da sala e nunca mais o vimos. A mulher que parecia estar a comer por caridade na messe da GNR. O obituário do prof. Krus no jornal. Kaúlza de Arriaga apaixonado por Sophia. Os meus pais tinham razão. Dei alguns autógrafos. Vários projetos que ficaram pelo caminho, entre eles uma biblioteca sobre história do desporto. O público incluía apenas a Irene, a Inácia e a Raquel. Comunicar nervosamente enquanto a seleção disputava o Euro 2016. Os meus sobrinhos brincavam a poucos metros do local onde viveu Salazar. Arquivos a que nunca mais voltei, como o Histórico-Militar e o Histórico-Diplomático. Fui à Biblioteca-Museu Luz Soriano num dia de vitória para Jorge Jesus. Durante o confinamento, os registos paroquiais permaneciam online. Aprender que as coisas aparentemente mais banais podem conter histórias incríveis. O miúdo ainda não aprendeu nada sobre o 25 de Abril. João Cotrim de Figueiredo a teimar que ele é que sabia porque tinha estado lá. Puseram-me num canto do quartel com um computador e entretanto passaram 10 anos. O prof. Rosas fez-nos formar junto à esplanada da faculdade e ordenou-nos que destruíssemos o capitalismo. Vi o 25 de Novembro tomar esteroides e ficar cada vez maior. O Paulo e o Roger trouxeram uma maneira nova de falar sobre História, piadas secas à parte. Que faço eu dentro do Estádio da Luz? O gabinete do Ricardo em Alvalade tinha alguns jornais bastante úteis. Os antigos presos políticos dispensavam o estatuto de heróis. Falo de lugares onde nunca estive. O que acontece a um clube quando acaba? O documento mais valioso que tive nas mãos foi criado pelo meu avô. Sou o que parece menos feliz nas fotografias. O João ligou-me para perguntar o que preferia comer no restaurante ribatejano. Não é necessário mentir, basta destacar alguns factos e ignorar outros. Os casos que investigamos nunca estão encerrados. Nasci para ser vice-presidente. A Inácia foi buscar uma cadeira para o dr. Soares se sentar. Volto sempre ao início. As funcionárias da Biblioteca Nacional davam-me tau-tau. À medida que envelhecia, Rui Ramos ficava cada vez mais fascista. Comunicações sem diapositivos já não se usam. As tábuas do palácio dos marqueses de Tomar rangiam sob os nossos pés. Foi por mero acaso que soube que tinha sido publicado na Brotéria. Os mitos são difíceis de derrubar. O antigo jornalista dava sinais de demência no Bairro Alto. Tentei reunir e agrupar as memórias partilhadas pelos velhos no Facebook. A Afrontamento não queria afrontar. Éramos campeões europeus quando falei pela primeira vez no auditório. As respostas estão lá, o difícil é encontrar as perguntas. Será que também acharia o Zé Pedro um tipo porreiro se ele não tivesse elogiado a minha tese? Acabou o congresso, correu tudo bem, conseguimos. Desconfia de quem ergue altares para adorar uma dada versão da História.

 

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Às vezes interrogo-me se sou historiador ou escritor de não-ficção.

Revolta na Pontinha

As referências a Odivelas e a localidades próximas eram geralmente escassas nas edições do Avante! clandestino, que mencionava sobretudo as áreas mais industrializadas do concelho de Loures, como Sacavém ou Moscavide, onde a implantação do PCP e a concentração de operários geravam frequentes “lutas” noticiadas pelo jornal comunista. Durante a ditadura, os conflitos sociais eram menos comuns no território do atual município odivelense, então ainda ruralizado mas onde o desordenado crescimento urbano ocorrido a partir dos anos 50 criaria bolsas de pobreza e descontentamento popular. Apesar de testemunhos já disponíveis como os de Fátima Amaral, Raimundo Narciso ou Adventino Amaro, ainda pouco se sabe quanto à atividade política oposicionista existente antes do 25 de Abril nas freguesias de Caneças, Odivelas e Póvoa de Santo Adrião, um tema para o qual o futuro museu municipal poderia reservar um espaço evocativo.

 

O PCP dedicava particular atenção a ações de protesto, espontâneas ou organizadas, que eclodissem em instalações militares. O Regimento de Engenharia n.º 1, aquartelado na Pontinha, era uma das unidades cuja atividade os comunistas acompanhavam, tendo nele ocorrido no final de agosto de 1967 uma insubordinação de militares, naturalmente omitida na imprensa censurada, mas que daria origem a um artigo publicado em dezembro do mesmo ano no número 386 do Avante! De acordo com o periódico clandestino, tudo começou quando os soldados do RE1 formaram no refeitório em “silêncio absoluto”, como fora imposto pelos seus superiores para reprimir protestos contra a “insuficiente alimentação” distribuída no regimento. Nessa altura, um oficial “fascista” teria dirigido “os mais grosseiros insultos” aos subordinados, levando alguns destes, acompanhados pouco depois pelos camaradas, a chamarem “bandido” ao graduado e passarem ao ataque. Depois de ser atingido por pratos e outros utensílios disponíveis nas mesas, o oficial fugiu por uma janela e pegou numa metralhadora antes de regressar ao refeitório. Ao entrar, foi agredido com um banco na cabeça e tombou no chão sem sentidos. A situação só acalmou quando outro oficial do RE1, que gozava de “certa estima” entre os soldados, lhes prometeu garantir o fornecimento imediato de comida vinda de fora do quartel.

 

 

O motim do RE1 foi elogiado pelo jornal do PCP como um exemplo de união e coragem contra o “militarismo salazarista”. No entanto, a história, semelhante a outros levantamentos de rancho registados no Avante!, levanta múltiplas questões. Que protestos antecederam a revolta aberta dos soldados contra a má qualidade da sua alimentação? Tudo aconteceu de forma espontânea devido à arrogância do oficial prepotente ou teria havido planeamento? Existiriam apoiantes do PCP entre os homens que cumpriam o serviço militar na Pontinha? Depois da violência, a estratégia de apaziguamento terá prevalecido entre os oficiais da unidade ou os insurretos foram severamente punidos? Quem era o militar agredido e como evoluiu a sua carreira? Verificaram-se outras ações de contestação no quartel durante os anos seguintes? Apenas eventual documentação guardada no arquivo do Exército poderá esclarecer estas e outras dúvidas. O certo é que o quartel pontinhense (utilizado atualmente pela GNR) reforçaria a sua importância histórica em 1974 ao acolher o Posto de Comando do MFA, ligado ao início do período revolucionário durante o qual os militares do RE1 mantiveram uma colaboração próxima com os órgãos de “poder popular” da Pontinha e do resto da freguesia de Odivelas.

 

Na mesma edição do Avante! que mencionou os eventos passados no Regimento de Engenharia n.º 1, o PCP responsabilizou o “governo fascista” pela tragédia das cheias de 25 de novembro de 1967, que tinham afetado duramente “os bairros da Urmeira, Olival Basto, Pombais da Pontinha (sic), Quinta do Silvado e Odivelas”, nos quais milhares de pessoas viviam em barracas ou casas sem condições, incluindo as habitações alugadas pela Câmara de Lisboa na Urmeira. Apenas na manhã do dia 26 três helicópteros tinham sobrevoado “a zona martirizada de Odivelas”, sem prestarem qualquer auxílio a bombeiros, militares e “700 homens do povo” que socorriam pessoas cercadas pela água e removiam os numerosos cadáveres. Apesar das críticas do Avante! à inação do Estado Novo, preocupado sobretudo em vigiar os estudantes envolvidos no apoio às vítimas da catástrofe, o jornal clandestino não voltaria a dirigir a sua atenção para Odivelas, exceto em ocasiões como as campanhas eleitorais de 1969 e 1973, aproveitadas para a realização de sessões da Oposição na vila. Após passar à legalidade em Maio de 1974, o Avante! cobriria o enraizamento do PCP no futuro concelho odivelense, desenvolvido através de comícios, criação de sedes, intervenção nas autarquias e outras iniciativas.