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A nova direita velha

Para quem só o descobriu agora, Riccardo Marchi é um historiador italiano que se especializou no estudo da “direita radical” portuguesa entre o final da II Guerra Mundial e a actualidade. Num trabalho valioso disperso por vários artigos, capítulos de obras colectivas e livros como Folhas Ultras, Império, Nação, Revolução ou A Direita Nunca Existiu, Marchi conta a história vista do lado dos vencidos (?) que condenaram as cedências e hesitações de Marcelo Caetano, viveram a prisão, o saneamento ou a luta armada durante o PREC e tentaram sem sucesso criar alternativas à direita do PSD e do CDS no período pós-revolucionário. Além de ser um historiador credível, Riccardo é um simpatizante da extrema-direita, ou, como o próprio já disse, não acredita que a democracia liberal seja o fim da História. As suas opiniões ajudam o seu trabalho, na medida em que os “fachos” portugueses depositam em Marchi uma confiança que não têm nos jornalistas e historiadores do “sistema” e cedem ao autor italiano documentos e testemunhos essenciais para compreender um sector político cuja memorialística é muito escassa. Por tudo isto, Riccardo Marchi foi a escolha natural do grupo Almedina para escrever A Nova Direita Anti-Sistema. O Caso do Chega (Edições 70, 2020), que o professor António Costa Pinto descreve na badana como “o primeiro livro sério e desapaixonado sobre o Chega”, representando assim uma ruptura com as dezenas de livros de comunas histéricos em torno do partido de André Ventura já publicados. A obra ganhou publicidade com o manifesto que, após uma entrevista de Marchi à RTP, várias dezenas de académicos assinaram para condenar a alegada suavização do carácter racista e extremista do Chega feita pelo estudioso.

 

Ao contrário de anteriores livros do mesmo autor, A Nova Direita… foi escrito em cima dos acontecimentos que narra, com a pesquisa e redacção a acompanharem o turbilhão de eventos pelo meio dos quais, após a eleição de André Ventura para o Parlamento, o Chega cresceu nas sondagens e no número de militantes a uma velocidade assombrosa. Essa falta de distanciamento temporal permite classificar o livro mais como um ensaio político que como uma obra académica, pelo que a ausência de elementos como notas de rodapé ou uma melhor definição teórica dos conceitos utilizados não é significativa. O resumo dos eventos feito por Marchi na sua “história do Chega” (p. 15) revela-se precioso em si mesmo, na medida em que a vida do partido tem sido marcada por polémicas tão breves, intensas e numerosas que se anulam umas às outras e criam um ruído adverso à compreensão do fenómeno. Outro trunfo do autor é dar voz aos dirigentes do Chega por si entrevistados, figuras mediaticamente desconhecidas cujo trabalho é remetido à escuridão pelo protagonismo de Ventura, o homem em torno do qual, como os seus próprios seguidores afirmam, gira todo o partido. A narrativa de Riccardo esclarece o percurso e as motivações da elite chegófila e de alguns fundadores que abandonaram a organização devido a questões mais pessoais que ideológicas. O livro inclui ainda uma análise dos documentos programáticos divulgados pelo Chega na Internet, focando-se Marchi nos principais temas abordados e nas contradições de textos escritos por mãos diferentes. Finalmente, o investigador apresenta várias conclusões sobre a identidade política do Chega e os desafios que este enfrenta, entre eles a necessidade de atrair quadros que criem “uma classe política sólida no vértice do partido” (p. 200), reforcem a sua estrutura interna e se preparem para um eventual Governo com a presença de Ventura.

 

A polémica estala em torno da definição do Chega como “um partido populista de nova direita radical” (p. 191) apresentada por Riccardo Marchi. Os epítetos de “radical” e “populista” são relativamente consensuais, ao contrário da opção de Riccardo de incluir o partido venturista na “nova direita” em ascensão internacional. Esta direita seria nova por não ter “nada a ver, do ponto de vista doutrinário” (p. 194), com os regimes ditatoriais criados nos anos 20 e 30 do século XX. No caso português, o Chega “não reivindica a herança política” do salazarismo nem enaltece o “colonialismo estado-novista” (pp. 195-196). A entrada nas hostes chegófilas de saudosistas da ditadura e antigos membros do PNR (perdão, do Ergue-te!) ou doutras organizações de direita radical é desvalorizada por Marchi, devido à incapacidade dos elementos mais à direita de influenciar a cultura política de um partido que visa um eleitorado amplo e, apesar das suas críticas às minorias étnicas, “não as considera corpos estranhos à comunidade nacional” (p. 197). De resto, Ventura e os outros dirigentes do Chega, vários deles com passagens anteriores por PSD e CDS, não se consideram radicais ou fascistas. O ponto fraco do livro está precisamente na atitude de Marchi ao reproduzir sem contestação (e com concordância implícita) as afirmações dos entrevistados, inclusive sobre temas tão relevantes como o financiamento do partido, embora o autor possa argumentar que uma investigação mais profunda não se encontrava no âmbito do seu projecto. Há ainda pontos que poderiam ter sido melhor desenvolvidos, como as ligações de André Ventura ao Benfica, a influência da religião cristã no pensamento da cúpula do Chega ou as relações com organizações estrangeiras da mesma família política, as quais tiveram avanços significativos já depois da impressão de A Nova Direita

 

 

Ao contrário da Iniciativa Liberal, que definiu aquando da sua fundação um determinado ideário e depois partiu para a missionação (“és liberal e não sabias”), o Chega procurou sobretudo adaptar-se às preferências do seu público-alvo. Com a inteligência e talento político que os seus adversários devem reconhecer (basta olhar para o CDS para saber como seria um partido liderado por alguém totalmente inepto para a função), André Claro Amaral Ventura observou os comportamentos da população no seu habitat dos subúrbios de Lisboa e notou o crescente fracasso do discurso da direita PSD/CDS. Por ser um político pragmático ou, segundo mentes malévolas deformadas pelo marxismo cultural, um oportunista disposto a tudo para alcançar o poder, André pegou nos temas centrais de um certo vox populi suburbano (ciganos, justiça, corrupção, etc.) e, depois de obter a fama com a sua gravata vermelha, apresentou-se como o campeão dessas causas. A chave para ir além do microscópico espaço eleitoral dos antecessores do Chega estudados por Marchi reside num discurso suficientemente ambíguo para atrair os fascistas tradicionais sem espantar votantes indignados que pretendem abalar a ordem política vigente e a quem o distante Estado Novo nada diz. Assim, Ventura não condena o 25 de Abril, mas diz que Portugal está a decair há 46 anos. Não suspira pelo Império perdido, mas orgulha-se da nossa História gloriosa, imaculada e nunca criticável. Não proclama a superioridade da raça branca, mas queixa-se de que agora os escravos somos “nós”. Não elogia Salazar, mas tosse quando se refere a Aristides de Sousa Mendes. Na minha opinião, não se trata de uma nova direita. É uma direita mais velha que a Sé de Braga (a terra do cónego Melo, homenageado por Ventura) disfarçada de “popular” e “moderna”. O problema de Marchi reside na confusão do discurso com a prática quotidiana do Chega e do seu presidente. Um bom exemplo disso é a afirmação feita pelo historiador de que André não pretende “promover o culto da personalidade” nem a “adesão acrítica ao líder” dentro do partido (p. 199).

 

Como o próprio Riccardo Marchi admite, A Nova Direita… é apenas um ponto de partida para estudos mais aprofundados sobre o Chega, apresentando os dados básicos relativos ao líder, aos militantes e à produção teórica do partido. Trata-se de um contributo importante para o debate público, talvez precisamente por provir de um autor que não está dominado pelo imperativo cívico de denunciar André Ventura como uma ameaça para a democracia. Contudo, a biografia autorizada do Chega escrita por Marchi padece do mal comum nesse tipo de obras, ricas em factos mas que deixam sempre a sensação de que o mais interessante ficou de fora do livro.

 

P.S. Enquanto o pessoal do Observador solta berros de “Censura! Censura!”, Riccardo Marchi tem dialogado civilizadamente no Facebook com vários dos historiadores que o criticaram. Ainda há quem prefira jogar em vez de se atirar para o chão ao mínimo contacto.

Por este Rio acima

Ao longo de dois anos e meio como presidente do PSD, Rui Rio nunca fez muitos amigos dentro da sua área política, mas o acordo com o PS para a extinção dos debates quinzenais na Assembleia da República foi a gota de água que levou inúmeros anti-socialistas a declararem que, se pudessem, desembainhariam a espada para trespassar o traidor revisionista. Na verdade, o dirigente social-democrata tem sido sempre um incompreendido, causando a estupefacção genuína de jornalistas e comentadores (“Mas o homem é doido?!”) pelo seu comportamento bizarro e aparentemente dissonante das actuais convenções da política portuguesa. De resto, a antipatia instantânea entre Rio e a comunicação social ajudou o portuense a ser feito em picadinho com dedicação pelas gazetas e pelas tertúlias televisivas. O certo é que, apesar de todas as críticas, vinda mais da direita que propriamente da esquerda (ela própria algo baralhada com um líder do PSD sempre a despir o fato tradicional), Rio permanece na liderança do PSD e mantém-se mais estável no cargo do que muitos antecipavam.

 

Depois de uma surpreendente vitória nas autárquicas de 2001, Rui Rio foi o presidente da Câmara do Porto com a coragem de enfrentar um Pinto da Costa cuja mão direita era então osculada por todos os outros políticos, mas também o edil birrento envolvido em conflitos inúteis com músicos como os GNR e Pedro Abrunhosa. Mesmo assim, ganhou uma imagem de homem de acção e político moderado. Nos idos de 2013, quando o Governo PSD/CDS ameaçava implodir e Portugal vivia o seu pior momento económico pré-Covid, algumas vozes na imprensa ansiavam para que os autarcas de Lisboa e Porto transformassem as suas boas relações numa aliança política, tomando conta dos respectivos partidos e estabelecendo um acordo de salvação nacional. António Costa conquistou o PS no ano seguinte, mas Rio teria de esperar pelo colapso do passismo em 2017 para avançar para a liderança do PSD e obter a vitória sobre Santana Lopes nas eleições internas, então atribuída ao facto dos militantes “laranjas” considerarem Rio um candidato mais forte a primeiro-ministro. Em contraste com a radicalização discursiva preconizada pelo Observador e derrotada nas autárquicas, Rui Rio anunciou uma viragem ao centro do PSD e uma aproximação ao PS com a qual Rio ganhou mais fama que proveito. Ultrajado, Rui Ramos começou a escrever as até agora 329 crónicas (números da última segunda-feira) nas quais explica a Rio que os socialistas não são potenciais aliados, mas sim inimigos a abater como cães. Pelo meio, o caminho do PSD até às legislativas foi no mínimo animado, entre casos na entourage de Rio, constantes querelas internas, um desafio falhado com o qual Luís Montenegro fez figura de parvo e resultados desastrosos nas europeias. As sondagens do início de Setembro de 2019 apontavam números na ordem dos 20-21% dos votos para o PSD. De repente, contudo, a nuvem negra que perseguia Rio passou a chover sem parar sobre a cabeça de Assunção Cristas e o economista nortenho fez uma campanha eleitoral inspirada, aproveitando os receios de uma maioria absoluta do PS para alcançar um score superior ao esperado, com o prestígio de Rui a evitar uma derrocada do PSD no Grande Porto semelhante à de Lisboa. Assim, após uma noite eleitoral em que vibrou com o segundo lugar e puxou do caderninho onde apontara os nomes de todos os que o tinham chateado, Rio decidiu recandidatar-se ao trono laranja e, mesmo sem esmagar, derrotou um Miguel Pinto Luz criado a pensar nas eleições seguintes e um Montenegro que nem os seus apoiantes viam a liderar fosse o que fosse. Até que chegou a pandemia e Rio adoptou uma postura “patriótica” de colaboração com o Governo que caiu bem num ambiente de acalmia política forçada pelo medo. Quando esse nevoeiro se dissipou, Rio aproveitou para mudar o regimento da AR e reavivar o incêndio na direita fragmentada.

 

 

Resoluto, Rui Rio retoma rigorosamente (OK, já chega) um modelo já apresentado com sucesso pelos presidentes Eanes e Cavaco: o político que não gosta de políticos. De resto, é sempre com algum enfado que Rio menciona o PSD, um partido cheio de gente oca e enredada em questiúnculas pessoais mas a que infelizmente tem de presidir para poder um dia governar. Essa visão do político como alguém que faz coisas, mais do que alguém que diz coisas, está ligada ao antiparlamentarismo de Rui, para quem a Assembleia não deve fazer os governantes perderem tempo a ouvir perguntas parvas e discursos inúteis, como se já não tivessem de aturar jornalistas parciais e irritantes e magistrados do Ministério Público sempre em busca de mais poder. Em inúmeras ocasiões, Rui enumerou comportamentos condenáveis dos políticos portugueses para acrescentar em seguida a frase “Isso é uma coisa que não faço”, por mais fácil que esse caminho pudesse ser. Desde o início da sua liderança, Rio procura passar a imagem de um homem sério, honesto, credível, razoável e patriota que põe o interesse nacional à frente dos seus interesses pessoais e partidários. Trata-se de um neocavaquismo que atrai ainda um vasto eleitorado disponível para o acolher, até porque Rio baseia as suas opções numa espécie de senso comum pequeno-burguês, não em princípios ideológicos retirados dos autores clássicos do pensamento político.

 

O estilo de Rio, tal como o dos seus predecessores na personagem que encarnou, afasta-se do radicalismo verbal que afastaria o eleitorado mais ao centro. Na retórica do presidente social-democrata, abundam improvisos, parênteses, reduções do tom de voz, considerações laterais ao tema abordado e uma mitigação de qualquer revolta com as palavras “agora, também não vamos…”, opostas aos exageros demagógicos típicos dos políticos de quem Rui se distingue. Esta oratória nada galvanizante não levou propriamente ao rubro os participantes nos congressos “laranjas” que entronizaram Rio, mas apela aos eleitores pouco apreciadores de gritaria, bem mais numerosos do que as redes sociais indicam. Pegando numa frase dita por André Silva num debate com Rio, o antigo autarca é visto hoje por muitos como um representante daquela direitazinha dos anos 80, a década de Freitas, Balsemão e Cavaco, quando os então poucos liberais e fascistas eram obrigados a aceitar como mal menor aquele discurso pragmático, tecnocrático e ideologicamente asséptico do PSD hegemónico. Nesses tempos duros, Sá Carneiro ainda era recordado como um homem e não se tornara uma bola de plasticina moldável à nossa vontade, enquanto o PS beneficiava da memória do PREC para ser visto como um parceiro em reformas que isolavam o PCP. Para Rui Rio, eram anos doces em que até havia bons discursos no Parlamento. Para os seus opositores, voltar a essa modorra é o mesmo que passar o MacGyver em horário nobre fora da RTP Memória.

 

Se as sondagens não revelam uma subida do PSD nas intenções de voto após as legislativas, o certo é que também não detectam uma descida significativa, indicando uma estabilização à volta dos 25%, quando grande parte dos eleitores e militantes do PSD que supostamente iriam deixar o partido para se juntarem à “verdadeira” direita do Chega e da Iniciativa Liberal já o fizeram. Neste contexto, Rui Rio parece ter decidido esperar que a crise económica e o desgaste do poder abalem o PS e equilibrem os pratos da balança, numa jogada política conhecida como “táctica Durão Barroso”. A verdade é que já não estamos no início do século e os cálculos do boavisteiro podem sair errados, até porque o PSD enfrenta problemas estruturais ligados à sua ruralização e perda de influência nas grandes cidades. Contudo, subestimar Rui Rio e apontá-lo como um líder a curto prazo será um erro crasso. Afinal, os políticos que anunciam aos quatro ventos o seu desapego ao poder são os mesmos que, quando chegam lá, nunca mais saem.

 

 

História imaginária do desporto

1. O Clube que Nasceu Duas Vezes. História e memória das origens do Futebol Clube do Porto

 

Tema: Investigação sobre o surgimento e actividade inicial dos dois clubes chamados FC Porto criados em 1893 e 1906, acompanhada de uma síntese da evolução do debate em torno das origens portistas e da sua reprodução em meios como imprensa, bibliografia ou projectos museológicos.

Objectivos: O FC Porto possui a característica singular de ter alterado a partir de 1988 a história da sua fundação até aí difundida nos meios oficiais do clube, recuando a data de origem da colectividade de 1906 para 1893. O objectivo do projecto seria ajudar a esclarecer os acontecimentos verificados na transição entre os séculos XIX e XX, sem pretender estabelecer uma versão definitiva dos primeiros anos do FCP, mas sim questionar lacunas e contradições das duas narrativas fundacionais, tal como analisar a presença da “polémica 1893/1906” em vários suportes e contextos desde a década de 50.

Problemas: Apesar da minha ligação emocional à cidade do Porto, não possuo um conhecimento relativamente amplo da história contemporânea da Invicta, essencial para servir de base à pesquisa a realizar nos arquivos e periódicos portuenses. Obter a colaboração do FC Porto com o projecto seria muito difícil devido à necessidade de examinar criticamente a narrativa apresentada pelo clube nas últimas décadas. Não é ainda possível saber se a dimensão do material a recolher e do texto inédito a que daria origem permitiria criar um livro comercialmente viável.

 

 

2. “Desporto Novo num País Novo”: A política desportiva no pós-25 de Abril (1974-1978)

 

Tema: Um estudo da política desportiva no período dos Governos Provisórios e dos dois primeiros Governos Constitucionais, analisada, por um lado, relativamente às medidas tomadas pelos organismos estatais com a tutela do desporto e, por outro, ao nível do debate público sobre a promoção da prática desportiva em Portugal.

Objectivos: A actividade desportiva não passou ao lado da intensa politização do período revolucionário, surgindo então diferentes perspectivas teóricas sobre o desporto e a democratização do acesso à sua prática. Tendo em conta a possibilidade de distinguir dois períodos em que a tutela política do desporto foi dominada por elementos ligados ao PCP e MDP/CDE (1974-1976) e mais tarde ao PS (1976-1978), interessaria comparar os discursos e medidas governamentais nas duas fases, acompanhadas pela ampla discussão sobre ambos ocorrida na imprensa (partidária, desportiva e generalista) e na bibliografia da época.

Problemas: Neste caso, a informação reproduzida nas fontes impressas revela-se insuficiente, na medida em que persiste a incógnita sobre a forma como o discurso oficial de democratização desportiva se traduziu ao nível do terreno e os níveis de adesão popular que despertou. Seria necessário realizar numerosas entrevistas, quer aos responsáveis políticos da área desportiva de 1974-1978 quer a participantes (atletas, dirigentes, monitores, etc.) nas várias iniciativas então dinamizadas, com vista a uma melhor compreensão de uma realidade conhecida apenas através das descrições inevitavelmente parciais e incompletas feitas por personalidades ligadas a diferentes sectores políticos.

 

3. História do Desporto no Município de Odivelas

 

Tema: Uma síntese da actividade desportiva registada no território do actual concelho de Odivelas entre o início do século XX e o presente.

Objectivos: A periodização esboçada incluiria capítulos balizados pelas datas de 1945 (fim das “origens” e fundação definitiva do Odivelas FC), 1974 (25 de Abril e boom do associativismo) e 1998 (criação do município odivelense). Através da evolução da prática desportiva, centrada inicialmente nas colectividades e mais tarde dotada de uma forte componente informal, poderíamos analisar as transformações sofridas por Odivelas e povoações circundantes, palco de um rápido crescimento demográfico acompanhado por equipamentos públicos insuficientes e um movimento associativo de dimensões reduzidas, tendo em conta a expansão da população odivelense. Algumas páginas do Facebook dinamizadas por cidadãos de Odivelas divulgam fontes que seriam úteis caso fossem devidamente catalogadas.

Problemas: Os clubes actualmente existentes no território do concelho de Odivelas são geralmente pequenos e não possuem arquivos disponíveis, enquanto o fim do Odivelas FC gerou, além da perda de património e documentação, versões desencontradas quanto à origem e responsabilidades da derrocada do clube. A obra pretendida necessitaria do apoio e financiamento das autarquias locais, difíceis de obter numa altura em que a consagração de Odivelas como Cidade Europeia do Desporto foi prejudicada pelos efeitos da pandemia de Covid-19.

 

 

4. Esférico: Revista de Estudos de História do Desporto

 

Tema: Revista académica online em formato PDF composta por artigos dedicados à história do desporto e aberta à colaboração de investigadores de várias ciências sociais.

Objectivos: O crescimento nos últimos anos do número de investigadores lusófonos com trabalho produzido na área da história do desporto criou um “meio” em expansão que se pretende transformar em comunidade através da organização de uma revista trimestral (ou semestral) sobre o tema, centrada sobretudo nos casos de Portugal e das ex-colónias, mas disponível para acolher estudos geográfica e tematicamente diversificados, visando incentivar o debate e a divulgação de novos contributos para o conhecimento do passado do desporto na sua relação com a sociedade.

Problemas: A verba auferida pelos coordenadores e colaboradores de Esférico (ou de outro título a escolher para o periódico) rondaria os zero euros, valor pouco atractivo na actual conjuntura e insuficientemente compensado ao nível da divulgação do trabalho historiográfico. Por outro lado, a discussão inerente a um projecto deste tipo, que incluiria a publicação de recensões e artigos com posições diversas, poderia ofender sensibilidades dentro do universo ainda limitado de autores e implicar recusas de colaboração.

As palavras

“As palavras são importantes”, diz Nanni Moretti no filme Palombella Rossa. Quais palavras? Todas. Eis alguns exemplos:

 

O “olá” da minha sobrinha. As piadas da malta da BD sobre o ódio do Mário Freitas pela fonte Comic Sans. O ruído contínuo quando só queria um pouco de silêncio. “Partiram para o Oriente Eterno”, um belo eufemismo para a morte. O caminho difícil entre “Sempre a merda do futuro” e “Contai com isto de mim”. O talento oratório do prof. Rosas. Os “eh pás” da prof. Rollo. “Portugal é campeão da Europa!” O meu primeiro pedido de água. O nome de Jesus repetido sem cessar. Orwell e a coisa magnífica que é a destruição de palavras. Nomes de sítios como Pombais, Arroja, Serradinho, Aldeia da Cruz, Várzea, Covais, Veiros, Arroios ou Boavista. Um verso de Sérgio Godinho para cada ocasião da vida. O valor da simpatia de um “Que bom que você veio” (descansa em paz, Luciana). Os nomes dos mortos a fazerem-nos voltar por um segundo. A Palavra da salvação. As homilias moles. Há tanta beleza no mundo. “Quem te deu aquela rosa, meu amor?” Os velhos abutres cujos discursos tornam as almas mais pequenas. As palavras que consegui não dizer, mas custou tanto. Camões a sofrer por amor. Os palavrões que podem ser ditos nas novelas, e aqueles que nem pensar. O discurso de Chaplin no final de O Grande Ditador. O nome completo dela. As cartas que originaram tabefes e cortes de relações. A honra de ser designado por um dos meus ídolos como “este gajo”. Despedidas em duas palavras. Os nomes de pessoas que viveram há cem anos riscados pelo lápis azul. “As democracias não temem o terrorismo”. Eça, Saramago, Lobo Antunes. O mail com o qual alterei sem querer o curso da História. Guardar no arquivo as frases manuscritas dos meus familiares. O empenho com que o dr. Ventura degrada a linguagem. As palavras que ganharam novos significados, como “troika”, “geringonça” e “Pedrógão Grande”. O mesmo pedido de sempre no café. O “povo” e as “elites”, demasiado gastos e elásticos. Os miúdos que passaram a ter nomes estranhos como Martim, Sancha ou Santiago. Viajar nos jornais antigos para Lourenço Marques e outras cidades desaparecidas. O latim dos economistas. O vocabulário do PREC. As pessoas “talentosas” que votam na Iniciativa Liberal. O meu nome na ficha técnica do museu do Benfica. O momento não identificado em que começámos a “sair da zona de conforto” e a passar “muitos anos a virar frangos”. A defesa da tese que fui buscar sei lá onde. A época em que só compreendia metade dos diálogos dos sketches de Herman José. O estranho apreço dos mais velhos por aquilo que eu escrevia nos cartões de parabéns. Notícias de países devastados pela guerra. O medo da neoplasia. Os slogans dos anos 70 ainda escritos nas ruas da cidade. Conhecer o mundo pelos balões das revistas de banda desenhada. “Correios, boa tarde”. Os períodos de compensação infindáveis. Jorge Amado e o seu amor pela vida e pela liberdade. Um SMS a ameaçar o pior. A letra da canção de Marco Paulo num casamento. O prof. Oliveira a falar sobre o Holocausto na aula das oito e eu com demasiado sono para distinguir as palavras. Uma mensagem anti-racista dentro da espiral. O letreiro do cinema Oceano a anunciar o Batman de Tim Burton. Os trocadilhos das manchetes de O Independente. O top dos melhores álbuns portugueses do século XX. Porque tu és como o sol. Ouvir “tio” pela primeira vez.

 

 

As palavras são uma arma poderosa. Manuseiem-nas sempre com cuidado.

Biografias numa frase

Afonso Costa (2010), de Filipe Ribeiro de Meneses

Julgava-se muito melhor do que era na realidade.

 

Álvaro Cunhal (1999-?), de José Pacheco Pereira

A história do Portugal anti-salazarista.

 

António Ferro: O Inventor do Salazarismo (2015), de Orlando Raimundo

Um biografado odiado pelo biógrafo.

 

Armindo Monteiro: Uma biografia política (2000), de Pedro Aires Oliveira

Demasiado seguro de si para o gosto de Salazar.

 

Bruno de Carvalho: O Presidente sem Medo (2014), de Bruno Roseiro

Há livros que envelhecem muito mal.

 

Francisco Pinto Balsemão (2017), de Joaquim Vieira

Um homem simpático que mudou a comunicação social portuguesa.

 

Glória: Biografia de J.C. Vieira de Castro (2001), de Vasco Pulido Valente

Um romance onde tudo é real.

 

GNR: Onde nem a beladona cresce (2016), de Hugo Torres

Deixaram o mais interessante de fora do livro.

 

 

Herman, O Verdadeiro Artista (2011), de António Costa Santos

Único.

 

O Inimigo N.º 1 de Salazar (2010), de Pedro Jorge Castro

Se a aventura tivesse um nome, seria o de Henrique Galvão.

 

José Cid (2015), de Miguel Gonçalves

Um artista menos superficial do que o livro dá a entender.

 

Mário Soares: Uma Vida (2013), de Joaquim Vieira

Um português comum em circunstâncias extraordinárias.

 

Pinto da Costa: Luzes e sombras de um dragão (2007), de Felícia Cabrita e Ana Sofia Fonseca

O poder corrompe?

 

Rui Veloso: Os Vês pelos Bês (2006), de Ana Mesquita

Um gajo porreiro que às vezes se chateia.

 

Sá Carneiro (2010), de Miguel Pinheiro

A vida dele foi um filme.

 

Somos o que Escolhemos Ser: Biografia de Pedro Passos Coelho (2015), de Sofia Aureliano

O Conde de Abranhos do século XXI.

 

Varela Gomes (2016), de António Louçã

Uma pessoa tão corajosa quanto difícil de aturar.

História do povo na reacção portuguesa

1. O povo tem sempre razão. É por ter consciência disso que o povo está farto dos políticos das elites que lhe vêm dizer palavras como “mas”, “não é bem assim”, “a realidade é mais complexa” ou “já ouviu falar dos Direitos Humanos?” Os políticos populares sabem dizer ao povo que ele está sempre certo e, se alguém não concorda com o povo, está contra o povo.

 

2. O povo é sempre branco, cristão e heterossexual. Quem não integra essas três categorias faz parte do não-povo. No entanto, o povo é pacífico e tolerante e deseja viver em perfeita harmonia com o não-povo. Para isso, bastaria apenas que o não-povo permanecesse 24 horas por dia em bairros fechados ao exterior e rodeados por grossas muralhas, mas, em vez disso, o não-povo insiste em ofender os sentimentos do povo e pretender frequentar os mesmos espaços do povo. Perante esta afronta, é natural e compreensível que alguns populares dirijam palavras pouco agradáveis aos membros do não-povo. Quando o povo recorre à violência física contra o não-povo, fá-lo sempre em legítima defesa. Afinal, quem mandou o não-povo sair de casa?

 

3. O povo e a polícia são a mesma coisa. Os polícias estão sempre, sempre, ao lado do povo. Portanto, se há membros das forças policiais a espancarem membros desarmados do não-povo, sabe-se de antemão que possuem um bom motivo para o fazerem. O povo fardado limita-se a usar a força da sua honestidade contra a vileza inata do não-povo.

 

4. O povo detesta moderação. Quem hesita, dialoga, fala em voz baixa ou respeita o adversário só pode ser um elitista disfarçado de popular, enquanto um servidor do povo pune, arrasa, esmaga, insulta, destrói, confronta, desmascara, faz barulho. A voz do povo é a voz que grita.

 

5. O povo trabalha muito. E ainda bem, porque o povo conhece as vantagens do trabalho. A primeira delas está no facto do trabalho dar ao povo uma indiscutível superioridade moral sobre políticos, refugiados, desempregados e outros inúteis que não trabalham. A segunda reside na experiência concedida pelo trabalho árduo e pelas dificuldades que lhe estão associadas. Através delas, o povo obtém na escola da vida o verdadeiro conhecimento da realidade, muito superior àquele que é ensinado nas outras escolas. De facto, porque é que um cientista há-de saber mais sobre o clima do que alguém que trabalha desde os 12 anos? Ou um economista conhecer melhor a economia do que um popular que viaja todos os dias no autocarro 36? Ou um médico perceber mais de medicina do que um homem ou uma mulher do povo que aproveita os momentos mortos no trabalho para pesquisar sobre doenças no Google? É preciso ser muito elitista para acreditar nisso. 

 

 

6. O povo não nasceu ontem e sabe que é explorado por inúmeros parasitas. Por exemplo, políticos que só querem é tacho e poleiro, membros de organizações de solidariedade que só querem meter donativos ao bolso, artistas que só querem usar o dinheiro do povo para criar obras incompreensíveis que ninguém vê, reclusos que só querem gozar umas férias na prisão pagas pelo povo, estrangeiros que só querem viver à custa de quem os acolhe, investigadores que só querem subsídios para investigar sabe-se lá o quê, miúdos preguiçosos que só querem passar de ano sem estudar, ambientalistas que só querem proteger os interesses de quem ganha balúrdios com o combate às supostas alterações climáticas, etc., etc. O povo só não é explorado pelos patrões, esses verdadeiros homens do povo que nunca fingem que se preocupam com o povo e tomam a atitude genuinamente popular de pensarem apenas em si próprios.

 

7. O povo só quer ver três coisas na televisão: sexo, crime e futebol. Se um telespectador tiver interesse por mais algum tema, não é um membro do povo, mas sim um daqueles intelectuais armados em bons (passe a redundância). Felizmente, os canais televisivos são dirigidos por populares que apenas dão ao povo aquilo que ele quer. Da mesma forma, o povo não precisa de ler livros e utiliza um vocabulário simples para se expressar, enquanto as elites inventam palavras complicadas só para enganar o povo. À medida que a linguagem se populariza, o número de palavras usadas torna-se cada vez menor. Isso é bom. Se não fosse bom, era mau. Povo bom. Elites más.

 

8. O povo nunca é de esquerda. Não se sabe bem quem vota na esquerda, mas o povo é que não é de certeza. Desde logo, porque os esquerdistas estão sempre a criar impostos através dos quais o povo sustenta quem não quer trabalhar. Além disso, a esquerda é muito elitista e dedica o seu tempo às causas do não-povo, que obviamente não interessam ao povo. O mais grave, porém, é que os defensores do socialismo espalham a ideia (recorrendo mesmo às escolas públicas para esse fim maléfico) de que as pessoas precisam de ser mais tolerantes, mais ecológicas ou mais solidárias. O objectivo evidente é reduzir a auto-estima do povo e atentar contra o direito sagrado do povo a ser bronco se assim o desejar. Os líderes verdadeiramente populares são aqueles que dizem e fazem sempre tudo aquilo que querem, sem nunca pedirem desculpas a ninguém. A humildade é elitista, a arrogância é popular.

 

9. O povo está sempre indignado. É claro que não o vai mostrar com métodos elitistas de protesto como greves e manifestações. Quem protesta assim, não trabalha e, se não trabalha, não é do povo. É nas redes sociais que o povo dá largas à sua fúria, ataca os seus inimigos e partilha as notícias que provam a justiça das queixas populares. Algumas dessas notícias até podem ser falsas, mas ninguém duvida de que poderiam ser verdadeiras. A boa mentira é aquela que conduz à verdade. Seja como for, o povo só precisa de se indignar nas redes enquanto não encontrar um líder que, mais do que representar o povo, seja o povo. A partir daí, o povo pode estar sossegado e ignorar a política, enquanto o líder trata de tudo sozinho.

 

10. O povo descobriu que, ao contrário do que os elitistas da esquerda acreditam, pertencer ao povo não tem nada a ver com dinheiro ou estatuto social. Por isso mesmo é que cada vez mais juízes, políticos, jornalistas, empresários, comentadores ou historiadores se aproximam do povo e lhe dizem “Povo, povo, eu te pertenço”, aderindo à luta incessante do povo contra as elites. Unido, o povo fará um mundo cada vez mais popular, onde ninguém possa não ser do povo.

O desperdício

Fiz uma das assinaturas que permitiram a legalização da fundação do Livre, mas nunca cheguei a votar no partido. Mesmo assim, soltei convictamente um “Boa sorte, Rui” quando me cruzei com Rui Tavares durante a campanha para as eleições europeias do ano passado e até distribuí no meu prédio alguns folhetos deixados ao abandono aquando da passagem da caravana de Joacine Katar Moreira por Odivelas. De facto, o Livre foi até há três meses uma espécie de Belenenses ou Académica da política, por quem quase todos mostravam alguma simpatia, até por saberem que o emblema fofinho nunca disputaria a vitória no campeonato com os “grandes”. Com uma mensagem ecologista e europeísta, o partido da papoila dirige-se especialmente a independentes de esquerda, desiludidos com o PS mas que não se revêem no conservadorismo do PCP e consideram demasiado radicais algumas posições do Bloco. Apesar de constituir uma faixa estreita do eleitorado, este público-alvo inclui alguns sectores urbanos, localizados sobretudo na cidade de Lisboa e em particular na multicultural freguesia de Arroios, onde o Livre tem a sua sede. Investigadores e outras pessoas ligadas ao meio académico são um grupo profissional no qual o partido tem recrutado vários dos seus militantes e dirigentes.

Criado com a bandeira da promoção de um entendimento entre as esquerdas com vista a uma governação inovadora, o Livre sofreu a dolorosa ironia de ver o seu sonho concretizado após as legislativas de 2015, mas não poder participar na Geringonça por ter falhado, contra as previsões surgidas na própria noite eleitoral, o objectivo de entrar em S. Bento. Neste cenário, a agremiação de Rui Tavares (excelente colunista, mas menos eficaz na oratória) pareceu perder a sua razão de ser e atravessou três anos de silêncio mediático e dificuldades financeiras. O primeiro acto eleitoral de 2019 permitiu a Tavares candidatar-se novamente a membro do Parlamento Europeu e obter, graças à iniciativa e preparação reveladas ao longo da campanha, um prestígio assinalável, mas insuficientemente traduzido em votos. Como o próprio Rui admitiu, o Livre veria o seu futuro em risco se não alcançasse nas legislativas de Outubro um resultado que lhe permitisse receber a subvenção estatal. Os dois primeiros nomes das listas por Lisboa e Porto, potencialmente elegíveis, foram seleccionados pela direcção, deixando os restantes candidatos à escolha dos participantes nas primárias. Durante o Verão, a até aí desconhecida historiadora Joacine Katar Moreira, surgida em segundo lugar na lista para as europeias e designada logo a seguir como cabeça de lista pela capital, ganhou um crescente protagonismo. Terá sido a candidata a defender uma campanha centrada na sua figura, através de meios como o único outdoor do Livre ou a canção “O Sem-Precedente”, e o facto é que Moreira tinha razão. Numa época em que os cidadãos votam cada vez menos em ideologias e mais em personagens, Joacine revelou aquilo a que os franceses chamam star quality, chamando a atenção da comunicação social para a sua história de vida e o seu discurso contundente. Até mesmo a gaguez de Moreira, apontada desde logo como uma limitação, reforçou a notoriedade da candidata e suscitou a admiração de alguns eleitores pela coragem de uma mulher habituada a fazer o contrário daquilo que as pessoas esperam dela.

Logo após a festa do Livre na noite de 6 de Outubro, os cheguistas lançaram na Internet uma extensa campanha de ódio contra a nova deputada que inclui fake news e acusações de falta de portuguesismo. Tratou-se, claro, de uma consequência natural da atitude ofensiva e provocatória tomada por Joacine Katar Moreira ao não fazer imediatamente operações para deixar de ser mulher e negra. No entanto, a própria Joacine pareceu ter achado que essas características bastavam para defini-la enquanto política e caiu numa espécie de deslumbramento. A partir do momento no qual Moreira e o seu assessor entraram pela primeira vez na Assembleia da República, a deputada envolveu-se numa sucessão de episódios caricatos que garantiram ao Livre a presença diária nas notícias pelas razões erradas. Entretanto, tornaram-se audíveis nas hostes da papoila queixas relativas à excessiva personalização da actividade partidária numa parlamentar descoordenada com as instruções do Grupo de Contacto. Por fim, quando Moreira contrariou a orientação do partido ao pronunciar-se sobre um dos muitos votos apresentados no Parlamento, desencadeou-se uma série de momentos pouco edificantes que é desnecessário recordar aqui. Vieram o Natal, o Ano Novo e algumas semanas durante as quais Joacine se tornou mais discreta na arena mediática, antes da votação na generalidade do Orçamento de Estado reacender o conflito interno no Livre e elevá-lo ao ponto da ruptura. O congresso do partido adiou a decisão sobre a retirada da confiança política em Moreira, indicando essa opção como inevitável ao mesmo tempo que deixou entreaberta a porta para um “milagre” dificultado pela radicalização das partes em confronto.

 

 

A origem da turbulência no Livre tem sido atribuída a uma suposta deriva empreendida por Joacine no sentido de um discurso identitário radical oposto à moderação da linha tavarista. Não parece, contudo, estar aí o essencial do problema, até porque o programa eleitoral do partido já acolhia propostas como alterar os programas escolares de modo a realçar a violência do colonialismo português. Ainda antes da crise, um antigo apoiante do Livre, Ricardo Araújo Pereira, afirmou que os membros da instituição faziam política com o amadorismo e a ingenuidade de uma lista candidata a uma associação de estudantes. Trata-se da descrição perfeita de um conjunto de pessoas cuja inexperiência e espontaneidade conseguem tornar o que está mal hoje ainda pior amanhã. Os militantes do Livre têm que aprender a arte da hipocrisia que levou o PS e o PSD à glória e deixar de dizer em público tudo aquilo que sentem. Da mesma forma, o modelo de organização interna que Rui Tavares e os outros fundadores escolheram com o objectivo de evitar os problemas dos outros partidos revela-se frágil. Se o Livre tivesse um líder (fosse ele Tavares, Moreira ou outra pessoa) que assegurasse sozinho a coordenação política do partido e definisse em pouco tempo o rumo a seguir, conheceria uma eficácia superior à fornecida pela discussão e votação de todos os assuntos em reuniões da direcção, grupos de trabalho, assembleias infindáveis e congressos anuais. Ao procurar romper com o sistema de centralização do poder numa única pessoa, o partido do “centro da esquerda” acabou por mostrar que democracia a mais também não funciona.

No momento actual, o eleitorado observa a agitação no Livre como quem ouve a discussão de um casal à beira do divórcio que troca acusações sobre a responsabilidade da situação. A princípio até pode ser divertido para os bisbilhoteiros (por algum motivo os media têm seguido a celeuma com tanto interesse), mas ao fim de pouco tempo só apetece dizer “Eh pá, calem-se”. Os danos causados na credibilidade do Livre por todo este ruído são profundos e talvez irreparáveis. A ténue hipótese de recuperação não está, certamente, na retirada da confiança a Joacine Katar Moreira, uma vez que nem o Livre terá sucesso sem Joacine, nem esta irá longe sem o apoio do partido. O aspecto mais decepcionante está no facto das papoilas discordantes estarem a desbaratar um vasto potencial. Se o Livre falasse a uma só voz e centrasse a atenção nos temas do seu programa, tal como se Moreira usasse a capacidade oratória mostrada no congresso de Alvalade para algo útil no Parlamento, o partido poderia ser uma força relevante dentro da esquerda portuguesa e aproveitar a presente legislatura para influenciar o debate político. Assim, limita-se a ser uma oportunidade desperdiçada.

 

P.S. O nono congresso do Livre teve um momento Lost in Translation quando os jornalistas tentaram adivinhar o conteúdo do breve diálogo em voz baixa entre Rui Tavares e Joacine Katar Moreira. Assumindo a pele de um verdadeiro dirigente partidário, Tavares comentou esse episódio na mesma frase em que recusou comentá-lo.

 

Os novos rostos do ano

Sempre que um ano se aproxima do fim, é interessante verificar quais são as celebridades agora debaixo dos holofotes que, na altura da anterior passagem de ano, ainda eram quase desconhecidas. No restrito universo das pessoas nomeadas com frequência nos media, registam-se periodicamente, além das saídas de cena motivadas pelo último acorde (até sempre, Zé Mário), as entradas de novas personalidades resgatadas do anonimato por determinados acontecimentos. A nível mundial, 2019 tem sido marcado pela ascensão de figuras tão diversas como Juan Guaidó, Greta Thunberg ou Santiago Abascal, mas é difícil rastrear ao pormenor todos aqueles que se destacam por um motivo ou outro no conjunto dos países. Já em Portugal, onde a actualidade nacional faz lembrar uma telenovela na qual as personagens são quase sempre as mesmas, os recém-chegados ao palco mediático são geralmente poucos em cada ano, deixando de lado aqueles que se destacam mais pelas funções que assumem que pela sua actividade, como acontece nos casos de novos ministros ou futebolistas contratados pelos três “grandes”. Assim, no período decorrido desde Janeiro último, pudemos observar a subida no elevador da Glória dos portugueses que se seguem:

 

Bruno Lage: Após o despedimento de Rui Vitória do comando técnico do Benfica, o seu substituto Bruno Lage foi apresentado como uma solução provisória, mas os primeiros jogos da equipa sob a nova liderança chamaram a atenção e garantiram a estabilidade a Lage, que, para espanto geral, transformou o SLB num rolo compressor que subjugou o FC Porto de Sérgio Conceição e venceu a Liga, contrariando a tradição de inutilidade das chicotadas psicológicas. Para lá do sucesso desportivo, Lage adoptou um discurso sereno oposto ao habitual histerismo do futebol luso e atreveu-se a descrever a modalidade como um simples jogo, irrelevante perante as questões sociais e políticas actuais. Os resultados pouco brilhantes do Benfica nas competições europeias e o menor fulgor exibicional revelado pela equipa da “alma vermelha” no início de 2019/20 turvaram um pouco a imagem do técnico na Luz, embora permaneça ainda tudo em aberto para Lage.

 

Carlos Guimarães Pinto: Apesar de João Cotrim de Figueiredo ser o primeiro deputado eleito pela Iniciativa Liberal e o provável terceiro presidente do partido nos dois anos de história deste, o espinhense Carlos Guimarães Pinto foi o líder e a figura mais destacada da IL durante a campanha para as legislativas, quando expôs as suas ideias em entrevistas (incluindo uma importante aparição no programa de Ricardo Araújo Pereira) e artigos de opinião em vários jornais. Co-autor dos irreverentes cartazes da IL, Carlos uniformizou o discurso e o estilo de comunicação dos liberais num tom mais vistoso e aguerrido que o do período fundador, atingindo o feito de conduzir a S. Bento um novo partido com escasso apoio mediático e composto sobretudo por jovens. Para o bem e para o mal, a Iniciativa deve muito daquilo que é a Guimarães Pinto, cuja surpreendente demissão criou um certo vazio no partido durante a fase de definição da estratégia a seguir na arena parlamentar.

 

Carolina Loureiro: Esta escultural actriz de 27 anos, formada na academia dos Morangos com Açúcar e com um currículo até aqui limitado a pequenos papéis em novelas e à apresentação do programa Fama Show, irrompeu ao conquistar o lugar de protagonista em Nazaré, um folhetim da SIC cujas elevadas audiências beneficiam do tufão Cristina e dos danos por ele causados em Queluz. Na qualidade de estrela de uma novela na qual surge frequentemente em roupa interior, Loureiro ascendeu de um dia para o outro no star system português, ocupando as capas das revistas cor-de-rosa e do Correio da Manhã através da inevitável exposição da vida amorosa da actriz. O papel que desempenha em Nazaré não exige a Carolina os dotes artísticos de uma Meryl Streep, mas a jovem parece ter um vasto futuro à sua frente.

 

 

Joacine Katar Moreira: A simpatia gerada por Rui Tavares não impediu que o Livre sofresse nas eleições europeias uma nova derrota que colocou o partido numa situação difícil. Perante o desafio fulcral das legislativas, o Livre escolheu como cabeça de lista por Lisboa a historiadora Joacine Katar Moreira, na qual se personalizou uma campanha centrada na sua condição de mulher negra, oriunda de um sector da população geralmente afastado dos cargos políticos. Outro traço distintivo de Moreira, a gaguez que dificulta as suas intervenções públicas, depressa também se tornou notado. A partir da votação em que os eleitores de Lisboa (em particular os de Arroios) confiaram a Joacine um mandato para os representar, a nova deputada atraiu todos os olhares e a curiosidade deu lugar às críticas, inicialmente provindas da extrema-direita irada com a intrusa, mas que alastraram a comentadores receosos do estilo pessoal e do discurso “identitário” de JKM. Mesmo dentro do Livre, parece existir quem pense que isto já é Joacine a mais. Subsiste ainda a incógnita quanto ao efeito de todo o ruído nas possibilidades de crescimento do mais pequeno partido da esquerda parlamentar.

 

Miguel Pinto Luz: Desde 2017 que o nome do vice-presidente da Câmara de Cascais circulava como possível candidato à liderança do PSD, mas só neste Outono Pinto Luz desembainhou a espada e avançou contra Rui Rio e Luís Montenegro, com o apoio de alguns “notáveis” e distritais laranjas. No entanto, com uma experiência governativa fora de Cascais limitada à passagem como secretário de Estado pelo efémero segundo Governo da PAF, Miguel é um perfeito desconhecido para a esmagadora maioria dos portugueses. Talvez por isso mesmo, o autarca apresentou um extenso relato da sua vida dedicada ao PSD, a Deus e à família, sem produzir até agora nenhuma afirmação ideologicamente clarificadora. O caso de Pinto Luz convida a imaginar que manobras nos subterrâneos da política e do jornalismo serão necessárias para alguém se tornar candidatável a um cargo como o de presidente do PSD.

 

Pedro Pardal Henriques: Entre Abril e Agosto, o vice-presidente e assessor jurídico do sindicato dos motoristas ligados ao transporte de matérias perigosas tornou-se o símbolo do novo sindicalismo, um fenómeno que espalhou a confusão quer na esquerda quer na direita. Anunciando em inúmeras declarações formas de luta mais radicais e imprevisíveis que as tradicionais e envolvendo-se numa feroz guerra de palavras com o representante da associação patronal, o advogado concentrou as atenções da comunicação social de uma forma inédita e recebeu acusações de oportunismo e interesses políticos inconfessados. No entanto, a greve dos camionistas ocorrida no Verão não teve consequências de maior nas legislativas, às quais Pardal Henriques se candidatou sem sucesso pelo PDR. Pouco depois da votação, patrões e sindicatos da camionagem chegaram a acordo, agora no meio da indiferença geral.

 

 

Desumidificar por aí

Ficamos a perceber que a blogosfera portuguesa já conheceu melhores dias quando 80% dos utilizadores do Sapo que responderam a um inquérito recente afirmam nunca ler blogues. Tempos diferentes viviam-se nos anos gloriosos de 2003-2004, marcados pelo fascínio de muitos cibernautas com a súbita democratização da opinião publicada e a revelação nos blogues de novos comentadores políticos que chegariam pouco depois aos media tradicionais. Nessa altura, fui convidado para escrever sobre cinema no Pipoca Rasca, rapidamente interligado com outros blogues dedicados ao mesmo tema, cuja rede fornecia opinião e informação alternativas às da então abundante imprensa cinéfila. Sem perceber grande coisa do assunto, critiquei filmes durante cinco anos até me cansar. Enquanto a troika voava para a Portela, lancei sozinho o blogue Tralha Útil, sem tema específico mas onde escrevia sobretudo transcrições de notícias de jornais antigos que descobria durante as minhas pesquisas e achava curiosas por uma razão ou outra. Em 2013, compreendi que aquilo já não fazia sentido e afastei-me da blogosfera, recebendo apenas vagas informações segundo as quais os blogues políticos estavam a perder qualidade e a ser dominados pelos partidos, enquanto proliferavam diários virtuais sobre lifestyle (seja lá o que isso for) repletos de publicidade. Entretanto, as redes sociais, em particular o Twitter e o Facebook, dominavam o mundo e, com um alcance e uma interactividade muito superiores aos dos blogues, pareciam condená-los à irrelevância.

Todavia, foi através das redes sociais que voltei à blogosfera. Ao ver toda a gente a dar palpites sobre a actualidade no Facebook, resolvi também lançar algumas bocas, mas depressa percebi que o café gigante de Mark Zuckerberg não foi feito para difundir opiniões que não caibam num único parágrafo. Só nos velhos blogues é possível encontrar o ritmo e o espaço necessários a análises menos instantâneas e mais desenvolvidas. Sem vontade de regressar ao Blogger, encontrei mesmo à frente do nariz a plataforma do Sapo Blogs e, na tarde do dia 1 de Fevereiro de 2017, criei um site cujo nome, por razões óbvias, só poderia ser Desumidificador. Como orgulhoso odivelense que sou, coloquei no cabeçalho uma fotografia do Jardim da Música. Restava apenas saber o que fazer com uma tribuna sobre tudo e sobre nada.

 

 

Os textos que fui produzindo, geralmente escritos já depois da meia-noite e publicados na manhã seguinte, acabaram por se dividir, de uma forma geral, em quatro grupos, entre críticas a livros que li, opiniões sobre a política nacional, crónicas centradas numa determinada figura pública e descrições do meu acanhado universo pessoal, para além de ocasionais digressões em torno do cinema, do futebol ou da televisão. Quando acabo um post, nunca sei qual será o tema do próximo texto. De resto, apesar da pressão que todos sentimos para comentar tudo, muitas vezes não tenho opinião sobre as últimas notícias ou, depois de ler ou ouvir o que os comentadores a sério disseram, sinto não ter nada a acrescentar. Longe de aspirar à originalidade, procuro abordar os temas a partir de um facto ou uma perspectiva até aí subvalorizados. Quanto ao estilo, a ironia costuma ser mais eficaz que doses industriais de indignação, o produto mais vendido do nosso tempo, para atingir um alvo. Apesar de ser de esquerda (ou talvez por isso mesmo), passei os últimos dois anos a falar da direita, um sector político a viver uma fase tão interessante quanto inquietante.

Porque escrevi mais de 200 posts, crónicas ou o que queiram chamar-lhes? Por causa da eterna paixão pela leitura e pela escrita, mas também porque cada publicação é uma espécie de mensagem na garrafa à espera de ser descoberta por alguém num lugar longínquo. Canções dos Police à parte, os comentários que recebi foram muito encorajadores. Agradeço à equipa do Sapo Blogs pelos destaques concedidos a textos meus, bem como a quem nomeou o Desumidificador para os Sapos do Ano 2019. As reacções de discordância acesa têm sido menos numerosas, mas ser apelidado de “comuna beócio” também aquece o coração. Quanto ao futuro, nem sempre é fácil prosseguir num ambiente tão húmido, mas isto não acaba assim.

 

P.S. A imagem é da autoria deste fotógrafo.

Duas lojas vizinhas

Eu vi este povo a lutar…

 

Iniciativa Liberal (IL): Para o socialismo acabar.

Chega (CH): Para os pedófilos castrar.

 

O país ideal é aquele em que…

 

IL: Ninguém é piegas.

CH: Pedro Dias nunca mais copula.

 

A decadência de Portugal começou…

 

IL: Há 20 anos, quando o crescimento económico estagnou.

CH: Há 45 anos, quando José Cid lançou o single “A Rosa que Te Dei”.

 

Solução para tudo:

 

IL: Descida de impostos.

CH: Justiça mais dura.

 

A retórica usada tem de ser…

 

IL: Revolucionária, para agradar aos jovens.

CH: Reaccionária, para agradar aos velhos.

 

Atitude para chamar a atenção dos media:

 

IL: Irreverência.

CH: Vitimização.

 

O partido tende a atrair pessoas que trabalham em…

 

IL: Empresas e universidades.

CH: Esquadras.

 

 

Crítico de cinema/televisão:

 

IL: Eduardo Cintra Torres.

CH: Eurico de Barros.

 

Jornal com uma visão do mundo idêntica:

 

IL: Observador.

CH: Correio da Manhã.

 

Partido irmão espanhol:

 

IL: Ciudadanos.

CH: Vox.

 

Costumam ir à missa?

 

IL: Nem por isso…

CH: Claro, Deus está do nosso lado.

 

Herói contra-revolucionário de 1975 preferido:

 

IL: Jaime Neves.

CH: Cónego Melo.

 

Zonas de conforto:

 

IL: Freguesias de Lisboa e Porto com eleitores mais ricos e escolarizados.

CH: Subúrbios de Lisboa e concelhos do Alentejo com mais ciganos.

 

Celebridade feminina que mais os irrita:

 

IL: Greta Thunberg.

CH: Carolina Deslandes.