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Desumidificador

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O manicómio redondo

Corre-se o risco de Joaquín Lavado, o desenhador argentino mais conhecido por Quino (1932-2020), ser recordado exclusivamente pela criação de Mafalda, quando a obra do humorista gráfico é bem mais vasta e possui muitos trabalhos com uma qualidade semelhante ou superior à das tiras da menina contestatária. Numa comparação algo bizarra, seria como se Luís de Camões fosse considerado apenas o autor de Os Lusíadas, ignorando-se toda a restante poesia do vate. Em Portugal, onde Quino esteve em 2003 para promover o álbum Quanta Bondade!, os livros do autor encontram-se dispersos por várias editoras e, apesar da perenidade de Mafalda, cujo meio século de presença no nosso país mereceria um texto à parte, as compilações mais antigas de cartoons de Quino (Mundo Quino, Gente, Não Me Grite!, Sim… Meu Amor!, Bem, Obrigado, e Você?, etc.), publicadas pela Dom Quixote na colecção Humor com Humor se Paga, não são reeditadas há muito tempo. No final dos anos 90, porém, ainda era fácil para um miúdo como eu descobrir a obra completa de Quino e ficar maravilhado com aquele humor ao mesmo tempo simples e complexo, realista e absurdo, sisudo e irreverente, datado e tão actual. Não exagero se disser que o génio da BD argentino foi um dos autores dos séculos XX e XXI que mais me influenciaram até hoje.

Como é sabido, Quino escreveu e desenhou entre 1964 e 1973 a série Mafalda, composta por tiras publicadas diariamente e depois semanalmente na imprensa argentina e cuja reprodução em livros depressa alcançou grande popularidade na Europa e noutras regiões do mundo. Podemos comparar o universo de Mafalda com outras séries de BD protagonizadas por crianças, como a influente Peanuts, de Charles Schulz (que a própria Mafalda lê), ou a Turma da Mônica, criada pelo também sul-americano Maurício de Sousa. No entanto, as diferenças são múltiplas. Charlie Brown e outros miúdos americanos vivem num mundo limitado, do qual Snoopy foge através da imaginação, e preocupam-se sobretudo com as suas inseguranças e amores não correspondidos, enquanto Mônica e o grupo por si liderado são crianças a agir como tal num Brasil dulcificado pela fantasia. Por seu turno, Mafalda, os pais, o irmão e os amigos (Filipe, Manelinho, Susaninha, Miguelito e Liberdade, na versão portuguesa) aparecem como habitantes do mundo real, ouvem os Beatles e acompanham a actualidade através da rádio, dos jornais e da recém-chegada televisão. Perante o contexto da Guerra Fria, da ameaça nuclear e, a nível nacional, das oscilações da Argentina entre a ditadura e a democracia, Mafalda enfrenta a incompreensão das outras personagens e começa a pensar e questionar, combinando o sofrimento e a vontade de lutar por um mundo melhor. Para lá da análise política, destaca-se o talento humorístico de Quino e a habilidade do artista na articulação das diferentes personalidades das suas criaturas. Apesar do êxito, a criatividade de Quino foi-se desgastando à medida que o desenhador se cansava das limitações do espaço da tira, até decidir regressar ao modelo dos cartoons que explorara antes do nascimento de Mafalda. O facto desta continuar, após quase 50 anos sem novidades, viva e marcante ao ponto de sobreviver ao seu criador constitui uma prova espantosa da capacidade de Quino de compreender o mundo.

 

 

Os trabalhos pós-mafáldicos de Quino abordam com um misto de nonsense e mordacidade um vasto conjunto de temas como o amor, a arte, a morte, a comida, a família, a medicina, o ambiente, a tecnologia e muitos outros. Apesar da diversidade temática e da evolução do traço e da linguagem do autor (talvez menos eficaz quando se alarga no texto ao invés de exprimir a mensagem apenas por imagens com uma breve legenda), existe uma linha de continuidade ao longo do tempo. Politicamente, Quino revela uma perspectiva de esquerda focada nas desigualdades sociais, visível nos seus numerosos desenhos de ricos mergulhados no luxo enquanto ignoram, oprimem ou desprezam a maioria da população, assolada por dificuldades quotidianas para sobreviver. Contudo, o humorista vai além da espuma dos dias ao identificar com assombrosa precisão os mecanismos do poder, independentemente deste ser exercido num país, numa empresa, numa família ou dentro de um casal. Como o próprio Quino admite ao autocaricaturar-se, o seu olhar sobre a vida está longe de ser optimista e, à medida que os anos passam, vê o mundo a piorar em vez de melhorar. Neste cenário, uma vez observada a confusão que vai no planeta, só nos resta enlouquecermos ou aproveitarmos para rir do absurdo que tudo comanda. Quino escolheu a segunda opção e, de facto, é ela que permite obter uma relativa serenidade e ganhar o impulso para iniciar a mudança das coisas. No prefácio à antologia Quino, 60 Anos de Humor (Documenta, 2017), José Pablo Feinmann compreende isso ao afirmar que, com o seu “impiedoso cepticismo” de quem não acredita em utopias, “Quino impele-nos a isso: ao futuro, à coragem, às nossas mais verdadeiras potencialidades”.

O legado de Quino, autor de uma obra dominada por esse olhar melancólico de quem ri para não chorar, reside no apelo à inquietação e ao questionamento dos dogmas e clichés, facilitado pela consciência de que todos somos ridículos e o poder é feito de aparências que ocultam a sua verdadeira fragilidade. Ao nível específico da BD, o sul-americano deu a formatos como a tira ou o cartoon um impacto, um significado e uma durabilidade bem maiores do que se poderia imaginar antes dele. Através de desenhos aparentemente simples, mas dotados de uma grande atenção ao pormenor, Quino foi desde a década de 60 um dos artistas que melhor explicaram o que é esta coisa trágica e hilariante de ser humano. Nunca lhe saberemos agradecer por tamanho feito.

 

 

Dicionário político

André Ventura: Líder religioso cujos seguidores só o abandonariam se o vissem a beijar Joacine Katar Moreira na boca.

Bonifácio: Apelido de historiadora que assumiu como objectivos de vida o combate ao radicalismo de esquerda e o carinho pelo radicalismo de direita.

Centro: 1. Espaço das pessoas sensatas e realistas que abominam extremismos. 2. Eleitores pouco politizados que só decidem em quem votar no dia das eleições.

Chicão: Nome científico de jovem político que ninguém leva a sério.

Domingo: 1. Dia da semana no qual Marques Mendes mergulha no seu mundo de fantasia. 2. Dia da semana que antecede o dia em que os jornalistas fingem que o mundo de fantasia de Marques Mendes é real.

Expresso: Semanário onde Marcelo anuncia ao país os seus sentimentos.

Fascista: Espécie extinta da qual os especialistas, apesar de múltiplos relatos de avistamentos, não conseguem identificar actualmente um único espécime.

Feira: Área de comércio ao ar livre onde, antes da Covid-19, os políticos faziam figuras tristes em troca de 30 segundos nos telejornais.

Geringonça: 1. Antónimo de “troika”. 2. Coligação partidária inesperada que afinal funciona.

Grandolar: Utilizar a canção “Grândola Vila Morena” para abafar o ruído de indivíduos que não gostam do 25 de Abril ou ignoram-no por completo.

Heduíno Vilar: Político de extrema-esquerda dos anos 70 que era salazarista e não sabia.

Irrevogável: 1. Diz-se de uma decisão definitiva que afinal era a brincar. 2. Episódio lentamente esquecido à medida que os anos passam.

José Miguel Júdice: 1. Belzebu. 2. Satanás. 3. Tinhoso. 4. Porco-sujo.

Jovens: 1. A geração mais bem preparada de sempre, com vontade de mudar o mundo. 2. Idiotas bêbedos, preguiçosos e irresponsáveis.

Liberdade: Direito de qualquer cidadão de manifestar o seu apoio a um dirigente desportivo acusado de 537 crimes mas nunca condenado.

Marcelo: 1. Santo padroeiro dos comentadores políticos. 2. Antecessor da Presidente Cristina.

 

 

Marxismo cultural: Monstro dos contos infantis escritos por Nuno Melo.

Norte: Região portuguesa onde Henrique Raposo só conhece gente afectuosa, trabalhadora e temente a Deus.

Ordem: Versão de direita de “sindicato”, dirigida por versão de direita de “Mário Nogueira”.

Partido Social-Democrata: Organização que deixa os seus cartazes em branco durante um ano porque acredita que o silêncio é a melhor forma de protesto.

Partido Socialista: Aldeia habitada por pessoas envelhecidas que trabalham nas mesmas actividades e possuem frequentemente laços de parentesco entre si.

Pedrógão: Grande tragédia com que “não aprendemos nada”.

Pessoas comuns: 1. Povo. 2. Cidadãos puros que não pertencem às elites e gostam de futebol, televisão e discriminação das minorias. 3. Otários que votam em nós.

Polícia de Segurança Pública: Corporação policial que tem de lidar com a frustração de não possuir armamento suficiente para fazer um golpe de Estado e colocar André Ventura no poder.

Populismo: Palavra tão gasta que já nada significa.

Quimera: Crença de Pedro Santana Lopes de que voltaria ao estrelato com a Aliança.

Redes sociais: 1. Cafés gigantes onde quem fala mais alto recebe mais atenção. 2. Fonte citada em 99% dos artigos da imprensa.

Sá Carneiro: 1. Político e advogado que fundou o PSD e faleceu num acidente de aviação em 1980. 2. Pai póstumo de inúmeros filhos espirituais que mandaria à merda se estivesse vivo.

Sérgio Sousa Pinto: Herói de acção dos anos 90 que se sente desconfortável no século XXI.

Talento: Qualidade que distingue os apoiantes da Iniciativa Liberal da plebe que trabalha em cafés, oficinas e assim.

Ultramar: Território africano onde se passaram coisas que se devem manter fechadas numa caixa guardada num sótão escuro.

Venezuela: País bloqueado arremessado aos esquerdistas portugueses.

Vergonha: Pregão usado pelos vendedores de indignação para atrair a clientela.

Xutos & Pontapés: Banda que foi acompanhada em palco pelas três primeiras figuras do Estado, num momento de que as pessoas muito sérias não gostaram.

Zita Seabra: Editora de livros de direita muito direita.

O partido do Carlos

Zita Seabra, mandatária da Iniciativa Liberal nas eleições legislativas de 2019, editou na Alêtheia livros autobiográficos dos dois anteriores líderes do partido, Miguel Ferreira da Silva (autor de Obrigado pela Democracia, Agora Queremos Liberdade, uma obra sobre a fundação e os primeiros meses da IL) e Carlos Guimarães Pinto (CGP). No livro A Força das Ideias: Histórias de uma Eleição, CGP relata o período de cerca de um ano entre o convite para liderar a Iniciativa, que aceitou em Agosto de 2018, e a sua demissão da presidência logo após a eleição do primeiro deputado liberal. Este tipo de memorialística é ainda raro entre os políticos portugueses, sobretudo quando trata de acontecimentos ainda recentes. A obra onde Carlos apresenta com uma simplicidade desarmante a “história improvável” do ano em que conduziu a IL do anonimato ao Parlamento serve ainda para compilar textos dispersos (discursos, entrevistas, artigos de opinião) do autor, cuja apresentação por ordem cronológica prejudica o ritmo da narrativa. No entanto, esses textos revelam o talento de polemista de CGP e a forma como as suas crónicas, abundantemente partilhadas nas redes sociais, contribuíram para difundir os princípios da IL e atrair novos simpatizantes. Quanto à história de A Força das Ideias, não fornece grandes revelações, até porque Carlos omite o nome da celebridade que convidou antes de Ricardo Arroja para ser o cabeça de lista da IL às europeias (não, não foi Cristina Ferreira), mas deixa claro que Guimarães Pinto foi o verdadeiro criador da Iniciativa tal como ela é hoje, ao mostrar as relações difíceis entre CGP e os fundadores, que pretendiam “algo mais próximo daquilo que seria o Livre” (p. 55), e a dinâmica muito maior que a IL ganhou à medida que os seus militantes alinharam “as suas visões ideológicas com as minhas” (p. 61).

 

O desenvolvimento da Iniciativa Liberal resultou do processo de radicalização e fragmentação da direita portuguesa verificado na última década. Quanto à radicalização do discurso, basta notar que hoje em dia até Henrique Raposo parece ser um moderado (!), enquanto a fragmentação, agravada depois do PSD ter deixado de servir de chapéu-de-chuva para várias tendências, torna mais correcto falar actualmente em “direitas”. De facto, sempre que participa em encontros de membros dos vários partidos da “área não socialista”, CGP lança duros ataques aos fascistas e aos conservadores, a quem acusa de perderem tempo com causas inúteis, sacrificando prioridades como o crescimento económico e a descentralização. A IL rompe com a tradição de “Deus, Pátria, Família” e apresenta uma visão laica da sociedade distante da influência da Igreja Católica ou dos cultos evangélicos (relevantes no interior do Chega), o que lhe permite apresentar um programa liberal nos costumes que aceita o aborto e a eutanásia e passar ao lado de polémicas como a da Educação para a Cidadania. Enquanto o conservadorismo venera naturalmente os idosos, um grupo populacional disputado com ardor pelos políticos devido à sua numerosa participação nas eleições, a IL dirige-se sobretudo aos jovens e adopta uma retórica que torna João Cotrim de Figueiredo o único deputado de um partido revolucionário sentado no actual Parlamento. O rápido sucesso da IL, que surpreendeu um pessimista nato como CGP, seria inalcançável sem o Twitter e o Facebook, onde os cartazes, slogans e quadros elaborados por Carlos e pelo seu reduzido núcleo duro atingiram uma repercussão muito superior à da presença do partido nos media tradicionais. Enquanto os restantes partidos fazem ainda política a pensar na televisão (Marcelo Rebelo de Sousa é um mestre inultrapassável nessa arte), o Chega e a Iniciativa Liberal introduziram em Portugal a política produzida para as redes sociais. Embora sem o mesmo êxito da série André Ventura Esmaga, as intervenções parlamentares do deputado liberal deram origem a numerosos vídeos no You Tube do tipo “Cotrim faz Pedro Nuno Santos chamar a mãezinha”. Um misto de irreverência, teatralidade e ocultação dos argumentos dos adversários garante o impacto dos conteúdos junto da base de apoio do partido.

 

 

No artigo “#ComPrimos”, publicado em 9 de Agosto de 2019, Carlos Guimarães Pinto utiliza por 12 vezes a palavra “talentos” e derivados desta para se referir à população jovem que emigra ao ver os empregos que pretende ocupados por “primos e afilhados” do PS (pp. 136-137). Noutro ensaio, CGP queixa-se de que o “terrorismo fiscal” afasta do país “investidores, empresários e trabalhadores altamente qualificados” essenciais para fazer a economia crescer (p. 111). Estas expressões deixam implícito o principal problema da Iniciativa Liberal, um partido que parece não ter nada para dizer a quem não quer (oh, heresia) ser empresário ou consultor de grandes empresas. Instalou-se a percepção de que a IL despreza ou não compreende a maioria não “talentosa” dos portugueses, acusados por vários colunistas da área liberal de excesso de moleza, conformismo ou esquerdismo. Entretanto, um rumor espalhado à boca pequena entre cientistas políticos afirma que os funcionários públicos têm um comportamento eleitoral semelhante ao do resto da população (parece loucura, bem sei) e aqueles que vivem num luxo menos ostensivo, como os polícias, podem até ser sensíveis à mensagem do Chega. Apesar da relevância da criação de riqueza, a vida não é só economia e um discurso baseado no “identitarismo” ou no “ressentimento” (pp. 208-209) torna-se mais apelativo que o verbo de CGP por garantir que “nós” somos os bons e “eles” não se ficam a rir. Diga-se de passagem que, ao atacar “uma elite corrupta e imoral” (p. 174) ou considerar certos partidos moralmente inferiores, o economista de olhos invulgares não fica imune à sedução do populismo.

 

A demissão de Carlos Guimarães Pinto da presidência da IL gerou um “sentimento de traição” em muitos militantes (p. 203), embora o posterior suicídio do Livre tenha deixado claros os riscos da falta de coordenação entre a liderança de um partido e a sua representação parlamentar. Não há nada de particularmente errado com João Cotrim de Figueiredo, mas este transmite a ideia de que qualquer outro membro da IL poderia ter o mesmo discurso. O sentido de humor, a capacidade de inovação, o uso habilidoso da palavra e até o carisma de anti-estrela são características de CGP que lhe conferem um brilho raro no seu sector político. De resto, os fortes elogios ao discurso do espinhense na convenção do MEL, feito pouco antes do confinamento, deram a Carlos a oportunidade de declinar uma candidatura presidencial. Entretanto, as sondagens têm atribuído à IL uma lenta consolidação, semelhante à obtida pelo PAN na anterior legislatura e a confirmar nos próximos actos eleitorais. Nas presidenciais, Tiago Mayan procurará solidificar o eleitorado do partido, sem grande coisa a perder, pois fracassará apenas se ficar aquém de 1% dos votos, enquanto nas autárquicas a Iniciativa necessitará de distinguir os municípios onde tem força para se apresentar sozinha daqueles em que poderá integrar coligações. Em Odivelas, o desafio dos liberais será ultrapassar o cliché de “partido das Colinas do Cruzeiro” e conseguir penetrar nos outros bairros da cidade. Só o futuro esclarecerá se a Iniciativa Liberal, a filha mais nova de Carlos Guimarães Pinto, permanecerá limitada a um nicho do eleitorado ou conseguirá empurrar as restantes direitas no sentido do liberalismo.

Quem tem medo do comunismo?

1. Ah, a Festa do Avante? Bem, o melhor teria sido não a realizar este ano, mas, já que o PCP tomou essa decisão, agora não dá para voltar atrás. Vão ver que tudo correrá bem, até porque os comunistas não querem dar prazer à legião que está a torcer pelo desastre e controlarão o público de perto. No entanto, esta polémica acentua a impressão de que o partido de Álvaro Cunhal chegou velho aos 99 anos de idade, sobretudo porque, tal como muitos idosos, o PCP não compreende nem é compreendido pelo mundo actual. A terciarização da economia e a maior precariedade do trabalho abalaram as bases sociais do partido, com um estilo de comunicação política antiquado e opiniões conservadoras sobre as questões de “costumes” (touradas, eutanásia, homossexualidade, etc.) aproveitadas por partidos mais jovens. Os outros sectores políticos orientados pelo marxismo não se encontram, porém, numa situação muito melhor. Depois do empate que obteve nas últimas legislativas e do embate no tecto dos 10%, o Bloco de Esquerda, a viver os desafios do início da sua idade adulta, hesita quanto ao caminho a tomar. Mais à esquerda, o MAS disputa o último lugar em qualquer eleição, Joana Amaral Dias tornou-se apenas uma estrela da CMTV e o trotskismo raquelista revela dificuldades para ultrapassar as fronteiras do meio académico. Posso estar a ser injusto, mas parece que nos últimos três anos Raquel Varela matizou-se, ou seja, passou a ser vista pela direita como um novo Arnaldo Matos (“o inimigo do meu inimigo…”). A violência do discurso anticomunista existente nas redes sociais resulta não da força, mas da fraqueza dos defensores de uma Terra sem amos. Já nem Jaime Nogueira Pinto se assusta com as bandeiras vermelhas. Quem tem medo do comunismo?

 

2. Muitas cabeças ditaram muitas sentenças sobre o crescimento da extrema-direita ocorrido na década que agora termina, mas poucos tentaram explicar porque é que o eleitorado descontente com o “sistema” se virou para os herdeiros do fascismo e não para as forças políticas anticapitalistas. O meu palpite vai para causas mais culturais que económicas. Enquanto nos anos 60 e 70 se verificou uma hegemonia cultural da esquerda e as décadas de 80 e 90 assistiram ao triunfo ideológico da direita liberal, o século XXI tem sido marcado pela hegemonia do pensamento “os políticos só querem é poleiro”. O Estado, os partidos e os ocupantes de cargos eleitos são alvo de desconfiança permanente. Na verdade, o pessimismo antropológico generalizado leva qualquer pessoa que se dedique a uma causa a ser suspeita de a utilizar em seu proveito próprio. O declínio das vivências comunitárias e a individualização do trabalho e do lazer dificultam a criação de identidades colectivas. Quando se olha quem está ao nosso lado, há maior tendência para criticar que para estabelecer uma relação de camaradagem. O sacrifício da vontade pessoal em nome do bem-estar do grupo é cada vez menos aceite. De uma maneira geral, a nossa sociedade venera os vencedores e despreza as vítimas. A esperança num futuro mais justo e solidário foi abalada por inúmeras desilusões. Este ambiente prejudica os tradicionais apelos da esquerda à mobilização colectiva, enquanto a direita, sobretudo nos novos partidos, capitaliza a herança salazarista de desprezo pela política. Quem quer uma sociedade sem classes?

 

 

3. A lógica da Guerra Fria e do combate ao “imperialismo”, fosse ele americano ou soviético, construía uma narrativa universalmente válida que integrava os seus seguidores num vasto movimento internacional de pessoas com os mesmos objectivos, como a liberdade ou a igualdade. Já neste século, a invasão do Iraque reavivou alguns desses discursos, a partir da contestação à hegemonia americana ou da defesa desta. No entanto, pouco depois, o mundo tornou-se mais complicado. Já poucos negam que o presidente dos EUA é um idiota de extrema-direita, mas agora ele está ao serviço da Rússia do czar Putin, que o PCP instintivamente confunde com a antiga URSS. Sem linhas claras, a geopolítica revela-se cada vez mais caótica, com interesses contraditórios a cruzarem-se. Neste contexto, o internacionalismo associado ao projecto comunista possui escassas bases onde se apoiar. Quem são os aliados e quem são os inimigos?

 

4. A história das experiências comunistas do século XX e da opressão e sofrimento que envolveram constitui um obstáculo evidente ao sucesso dos anticapitalistas, que ainda têm de ouvir dos seus adversários referências diárias à bizarria da Coreia do Norte e ao colapso da Venezuela chavista. Em Portugal, o PCP tem recorrido à negação ou desvalorização daquilo que correu mal, enquanto a extrema-esquerda procura uma fórmula que recupere a pureza do ideal marxista sem cair nos “desvios”, num desafio ainda não concretizado. Na verdade, até mesmo a memória da situação internacional anterior a 1989 tem desaparecido. Imaginar sociedades organizadas num modelo alternativo à economia de mercado é hoje um esforço bastante árduo e pouco estimulado. Onde fica a utopia e como se chega lá?

 

5. O futebol profissional foi sempre encarado com reservas pelos marxistas, enquanto liberais como Carlos Guimarães Pinto vêem nele um exemplo daquilo que toda a sociedade deveria ser. De facto, para lá do “mérito” associado ao êxito dos melhores jogadores e treinadores, trata-se de um meio onde as desigualdades entre países e clubes são consideradas naturais e os futebolistas, precários por natureza, são “comprados” e “vendidos” como gado sem que a linguagem soe mal. O amor clubístico é interclassista, permitindo a um burguês como Pinto da Costa afirmar sem se rir que se mantém no dirigismo desportivo para proporcionar alegrias aos portistas mais pobres. A ascensão social de um pequeno grupo de jovens atletas nascidos na pobreza que o futebol transformou em milionários (por vezes esquece-se de que se trata de casos raros no conjunto dos profissionais do desporto-rei) ajudou a dissociar riqueza de exploração e a espalhar a ideia de que o sucesso de um indivíduo só depende do seu empenho pessoal. A isto tudo juntou-se recentemente a transferência para a política de fenómenos como a violência, o sentimento tribal, o discurso rude e agressivo e o espírito de intolerância que medraram a pretexto do futebol e formataram pessoas inteligentes para acreditar nas posições mais absurdas. Esta dinâmica evolutiva do futebol, iniciada há mais de um século e aparentemente imparável, seria impossível numa sociedade socialista. Pode o futebol deixar de ser uma indústria?

 

6. Obviamente, o retrato feito atrás é apenas um esboço da situação presente. Numa altura em que os efeitos políticos globais da pandemia de Covid-19 são ainda imprevisíveis, nada garante que o declínio do socialismo seja eterno. De resto, nos EUA, os eleitores mais jovens do Partido Democrata estão a radicalizar-se bastante à esquerda do mainstream centrista representado por Joe Biden. A luta contra as alterações climáticas, que recuperará o seu inevitável protagonismo quando a “normalidade” voltar, é encarada por alguns como uma oportunidade para popularizar o discurso anticapitalista. Tudo é uma incógnita, mas o ressurgimento do marxismo não será possível sem a revalorização da política, da acção colectiva, da crença na Humanidade e até da ideia de um futuro melhor. Os proletários de todos os países irão unir-se?

 

 

Gosto não gosto

No programa do Canal Q Quem Desdenha, Susana Romana conversa com várias personalidades sobre a cultura e os produtos musicais, literários ou cinematográficos que cada uma delas menos aprecia, incluindo também algumas sugestões de obras que valem a pena. Com um formato tão cativante como este, eu não poderia deixar de imitar Romana e listar obras escolhidas da forma mais subjectiva possível, embora os meus gostos tendam a coincidir com o mainstream.

 

Desdéns

 

José Cardoso Pires: Não gostei de O Delfim e não consegui acabar a Balada da Praia dos Cães. Porquê? Não faço ideia. É como o atum, não se gosta e pronto.

 

Margarida Rebelo Pinto: Alguns anos depois do desagrado causado por Sei Lá (diga-se que o filme ainda é pior), resolvi dar uma nova oportunidade à autora, que poderia ter evoluído favoravelmente nos anos antes do romance Português Suave (2008). Nada a fazer. No ensaio Couves e Alforrecas, João Pedro George identificou sem margem para dúvidas aquilo que está errado em Rebelo Pinto.

 

 

Aaron Seltzer e Jason Friedberg: Dois dos argumentistas de Scary Movie lançaram-se na primeira década deste século na escrita e realização de uma série de filmes também integrados no género spoof (Date Movie, Epic Movie, Uns Espartanos do Pior, Disaster Movie, etc.). Todos eles têm uma subtileza de elefante e reconstituições de cenas de sucessos de bilheteira lançadas ao acaso sem qualquer piada ou sentido. Todos os candidatos a humoristas devem vê-los para saberem o que não se deve fazer.

 

Livros de Alberto Gonçalves: Não tenho especial prazer em bater no Vasco Pulido Valente da loja do chinês e até reconheço que criou uma personagem deliciosa para o seu público-alvo. No entanto, o matosinhense constitui um marco da tendência para baixar o nível que afecta o comentário político. Começa-se por um Alberto Gonçalves e acaba-se num Rodrigo Alves Taxa.

 

The Final Cut: O álbum de 1983 dos Pink Floyd que ainda conta com Nick Mason e David Gilmour, mas é sobretudo um projecto pessoal de Roger Waters. Num trabalho em que declama mais do que canta, Waters vagueia pela sua mente sem nunca chegar a lado nenhum.

 

Astérix e Obélix Contra César: Claude Zidi cometeu em 1999 um autêntico crime com esta ofensiva e desconexa primeira adaptação de Astérix para o cinema de imagem real.

 

Looney Tunes: Já valeu a pena criar Family Guy só por causa da cena desta série em que Elmer Fudd, em vez de dar conversa a Bugs Bunny, simplesmente mata o coelho de forma seca e impiedosa. É certo que há excepções, como aqueles filmes realizados por Chuck Jones em que torcemos sempre pelo Coyote contra o Road Runner.

 

Bacalhau com Todos: Uma comédia da RTP protagonizada por Guilherme Leite, filmada com público a assistir durante a transição do século XX para o XXI e que ganhou merecidamente o prémio de pior sitcom de todos os tempos.

 

 

Séries da nossa infância que envelheceram mal

 

Poucas: Ao contrário do que diz Susana Romana, o Alf faz rir, embora a última temporada seja bem mais fraca que as anteriores. No caso de MacGyver, as fraquezas da série são actualmente mais visíveis, mas o conceito é tão simples e brilhante que mantém a sua eficácia, enquanto a música do genérico traz imensas recordações. Sobre O Justiceiro, persiste a mesma impressão de quando éramos miúdos: o KITT é tão fixe que lhe perdoamos por transportar o canastrão do David Hasselhoff. Por outro lado, também me lembro de Superboy, uma série sobre as aventuras do Super-Homem nos seus anos de estudante universitário que é embaraçosamente má, desde os diálogos aos efeitos especiais (em compensação, percebe-se melhor agora como a actriz Stacy Haiduk era sensual).

 

 

Guilty pleasures

 

Telenovelas portuguesas: É difícil escapar ao fascínio por este universo de criadas fardadas, cavalos, pequenos-almoços cheios de fruta, pessoas que partem coisas quando se irritam, conversas ouvidas sem ninguém notar, jovens casais a quem acontece de tudo antes de serem felizes para sempre, filhos que descobrem os pais biológicos, etc. Os folhetins nacionais já foram bem piores e contam com alguns actores cujo valor ultrapassa as frases que os fazem dizer.

 

Inspector Max: Sim, eu sei, mas os episódios eram escritos por argumentistas das Produções Fictícias que conseguiam fazer uma série “para toda a família” sem torná-la demasiado piegas ou infantil.

 

 

Sugestões

 

Cartoons de Augusto Cid: Livros como PREC, PREC II, O Superman, Eanito, El Estático, Alto Cão Traste e muitos outros reproduzem o traço e a mordacidade inimitáveis de um dos maiores cartoonistas portugueses de sempre e permitem conhecer melhor as reviravoltas da nossa política entre o 25 de Abril e a troika. Um aspecto importante da obra de Augusto Cid encontra-se na possibilidade de compreender o general Ramalho Eanes (arqui-inimigo de Cid) como uma personagem dentro de um contexto histórico e não como o santo laico hoje venerado por pessoas que nunca teriam votado nele em 1980.

 

 

O Lobo de Wall Street: Martin Scorsese fez em 2013 uma versão de Tudo Bons Rapazes passada no mundo da Bolsa, com Leonardo DiCaprio a protagonizar ao seu nível uma história de ascensão e queda que volta a mostrar como o Mal é tentador e o capitalismo estimula a ambição desmedida.

 

“Volto Já”: Um tema com letra de Rui Reininho que marcou a curta carreira dos Johnny Johnny e passa de vez em quando na M80, atraindo pelo seu ritmo viciante e pela curiosa alegria que transmite.

 

 

 

Alvo intacto

“Tiro e Queda” (2019), de Ramón de los Santos

 

Eddy (Eduardo Madeira) e Manecas (Manuel Marques) são dois snipers idiotas e dominados pelas esposas (Gabriela Barros e Carla Vasconcelos) que partem para Viana do Castelo com a missão de abater um alvo desconhecido. E pronto, o filme é isto. Não acontece muito mais.

Tal como em Filme da Treta, Eduardo Madeira e Filipe Homem Fonseca escreveram um argumento cinematográfico a partir de um espectáculo teatral de sucesso centrado numa dupla com química sólida e domínio do timing cómico. Madeira e Marques retomam as suas personagens de assassinos profissionais (?) que travam diálogos disparatados sobre os mais variados temas, agora no cenário do navio Gil Eanes. Na verdade, o filme poderia passar-se tanto em Viana do Castelo como em Pequim, de tal modo se foca no texto e na interacção entre os protagonistas, cuja competência garante um mínimo (mas só isso) de interesse pelo que se passa no ecrã ao longo de pouco mais de uma hora. Contudo, à imagem da película com António Feio e José Pedro Gomes, Tiro e Queda revela dificuldades para adaptar o seu conceito ao formato do cinema e perde-se em episódios sem ligação entre si, separados por legendas alegadamente espirituosas, enquanto os actores secundários fazem bonecos fugazes e sem graça.

Entre publicidade descarada aos patrocinadores do filme, imagens aéreas de Viana sem utilidade além do bilhete-postal e a estreia nada inspirada de Ramón de los Santos na realização de uma (pouco) longa-metragem, Tiro e Queda surpreende apenas pelo vazio. A única salvação reside na opção tomada de assumir desde cedo que a obra se trata de uma “fantochada” e não possui a intenção de fazer sentido. Visto desse ângulo, o filme torna-se uma parvoíce inofensiva, útil para passar o tempo quando se está confinado em casa. Não é por aqui, porém, que o cinema português ultrapassará a escassez de boas comédias (com excepções como Capitão Falcão) que marca as suas últimas décadas.

A melhor cena: O genérico final (por causa da música).

A pior cena: Os dois idosos sentados à beira da estrada.

 

Nota: 5/10.

 

 

Os últimos seis meses

8 de Fevereiro: o longo período de compensação termina e a vitória é nossa. Chego finalmente a casa. Fernando Rocha pede ao vírus para vir cá. Os casos suspeitos multiplicam-se, mas, para desgosto das televisões, nunca é hoje. O surto descontrola-se em Itália e Espanha, os médicos têm que escolher quem salvar. Marega decide não aturar mais aquela merda. Surgem as cotoveladas amigáveis. O novo programa de Ricardo Araújo Pereira estreia na SIC. 2 de Março: primeiro infectado em Portugal. 6 de Março: vou a uma missa onde a única novidade é um frasco de álcool gel na pia baptismal. Última jornada da Liga com público. 8 de Março: o Presidente Marcelo entra em quarentena. A uma velocidade alucinante, Portugal adia, cancela, encerra, vai para casa. 12 de Março: António Costa fecha as escolas. Vive-se um ambiente de fim do mundo. Despeço-me dos meus sobrinhos antes de mês e meio de afastamento. Velhos casmurros recusam permanecer em casa. 18 de Março: declaração do estado de emergência. Fique em casa, vai ficar tudo bem. O país respira fundo e procura encontrar a normalidade na anormalidade.

 

Os dias tornam-se um dia único e enorme. Saio de casa apenas para ir à farmácia, ao Multibanco e ao supermercado. Todos passam a ser heróis, o que é o mesmo que dizer que ninguém o é. Rodrigo Guedes de Carvalho contrai a doença das pessoas que se levam muito a sério. Rogo aos meus parentes brasileiros para que ignorem o seu Presidente idiota. Paulo Portas todos os dias na TVI, porque aqueles fatos não se pagam sozinhos. Mal o sol se põe, o silêncio na rua é esmagador. Discreta e silenciosamente, a fome alastra. Suspense diário às 13.00. Na Páscoa, não se ouve nem um murmúrio. A curva achata. Nas redes sociais, pululam milhares de especialistas cujos palpites não são seguidos pelas autoridades porque estas são estúpidas. A clivagem esquerda/direita é substituída pela luta entre os partidos Abram Tudo e Fechem Tudo, cada um com os seus ideólogos. Algumas pessoas oscilam entre os dois partidos conforme a conjuntura. Eu leio o cepticismo de Metzner Leone. Telefonemas ao domingo para saber se toda a gente está bem. Contactar a cascata sanjoanina por Messenger. O horário do supermercado alarga. A posição oficial sobre as máscaras muda, e agora onde é que vou arranjar máscaras. Graça Freitas e Marta Temido, alvos de elogios e críticas fáceis. A pouco e pouco, sai-se. A polémica sobre o 25 de Abril na Assembleia da República prova que a democracia está em perigo. Grândola Vila Morena, terra da fraternidade. A CGTP não desiste do 1.º de Maio e metade do país rabuja. As coisas correm melhor que o esperado, quem governa beneficia. O estado de emergência é levantado. O país desconfina com muita cautela.

 

A papelaria é a primeira loja da rua a reabrir. O alívio do corte de cabelo. Uso um metro às moscas para voltar a Arroios. Leio com uma máscara na cara. O teletrabalho e as videochamadas banalizam-se. Regressar à Biblioteca Nacional e calçar luvas. Os idosos deixam o bunker. O alinhamento noticioso torna-se menos monotemático, até porque recomeçou o futebol. Descubro que Miguel Bombarda era um génio. A canícula e os incêndios chegam. Quem havia de imaginar que Pedro Lima… Alguém repara que quase todos os novos casos aparecem em LVT. Vejo-me numa das freguesias que se portaram mal. A culpa é sempre do vizinho. Fora das horas de ponta, os transportes não parecem assim tão cheios. A política normaliza. As manifestações anti-racistas chocam com a tribo do “não há racismo”. Maria Vieira dá vivas à IV República. O eleitorado fragmenta-se. Mais uma vez, a feira desaparece e o supermercado fecha mais cedo. O supermercado retoma o horário normal. Os números vão agora no bom sentido. A saúde privada reanima-se. O FC Porto faz a dobradinha e os benfiquistas começam a derrubar a estátua de Luís Filipe Vieira. O pior está para vir, dizem os economistas. Paira a ameaça da segunda vaga. Quem tem emprego vai de férias. O país pergunta-se: e agora?

 

 

A nova direita velha

Para quem só o descobriu agora, Riccardo Marchi é um historiador italiano que se especializou no estudo da “direita radical” portuguesa entre o final da II Guerra Mundial e a actualidade. Num trabalho valioso disperso por vários artigos, capítulos de obras colectivas e livros como Folhas Ultras, Império, Nação, Revolução ou A Direita Nunca Existiu, Marchi conta a história vista do lado dos vencidos (?) que condenaram as cedências e hesitações de Marcelo Caetano, viveram a prisão, o saneamento ou a luta armada durante o PREC e tentaram sem sucesso criar alternativas à direita do PSD e do CDS no período pós-revolucionário. Além de ser um historiador credível, Riccardo é um simpatizante da extrema-direita, ou, como o próprio já disse, não acredita que a democracia liberal seja o fim da História. As suas opiniões ajudam o seu trabalho, na medida em que os “fachos” portugueses depositam em Marchi uma confiança que não têm nos jornalistas e historiadores do “sistema” e cedem ao autor italiano documentos e testemunhos essenciais para compreender um sector político cuja memorialística é muito escassa. Por tudo isto, Riccardo Marchi foi a escolha natural do grupo Almedina para escrever A Nova Direita Anti-Sistema. O Caso do Chega (Edições 70, 2020), que o professor António Costa Pinto descreve na badana como “o primeiro livro sério e desapaixonado sobre o Chega”, representando assim uma ruptura com as dezenas de livros de comunas histéricos em torno do partido de André Ventura já publicados. A obra ganhou publicidade com o manifesto que, após uma entrevista de Marchi à RTP, várias dezenas de académicos assinaram para condenar a alegada suavização do carácter racista e extremista do Chega feita pelo estudioso.

 

Ao contrário de anteriores livros do mesmo autor, A Nova Direita… foi escrito em cima dos acontecimentos que narra, com a pesquisa e redacção a acompanharem o turbilhão de eventos pelo meio dos quais, após a eleição de André Ventura para o Parlamento, o Chega cresceu nas sondagens e no número de militantes a uma velocidade assombrosa. Essa falta de distanciamento temporal permite classificar o livro mais como um ensaio político que como uma obra académica, pelo que a ausência de elementos como notas de rodapé ou uma melhor definição teórica dos conceitos utilizados não é significativa. O resumo dos eventos feito por Marchi na sua “história do Chega” (p. 15) revela-se precioso em si mesmo, na medida em que a vida do partido tem sido marcada por polémicas tão breves, intensas e numerosas que se anulam umas às outras e criam um ruído adverso à compreensão do fenómeno. Outro trunfo do autor é dar voz aos dirigentes do Chega por si entrevistados, figuras mediaticamente desconhecidas cujo trabalho é remetido à escuridão pelo protagonismo de Ventura, o homem em torno do qual, como os seus próprios seguidores afirmam, gira todo o partido. A narrativa de Riccardo esclarece o percurso e as motivações da elite chegófila e de alguns fundadores que abandonaram a organização devido a questões mais pessoais que ideológicas. O livro inclui ainda uma análise dos documentos programáticos divulgados pelo Chega na Internet, focando-se Marchi nos principais temas abordados e nas contradições de textos escritos por mãos diferentes. Finalmente, o investigador apresenta várias conclusões sobre a identidade política do Chega e os desafios que este enfrenta, entre eles a necessidade de atrair quadros que criem “uma classe política sólida no vértice do partido” (p. 200), reforcem a sua estrutura interna e se preparem para um eventual Governo com a presença de Ventura.

 

A polémica estala em torno da definição do Chega como “um partido populista de nova direita radical” (p. 191) apresentada por Riccardo Marchi. Os epítetos de “radical” e “populista” são relativamente consensuais, ao contrário da opção de Riccardo de incluir o partido venturista na “nova direita” em ascensão internacional. Esta direita seria nova por não ter “nada a ver, do ponto de vista doutrinário” (p. 194), com os regimes ditatoriais criados nos anos 20 e 30 do século XX. No caso português, o Chega “não reivindica a herança política” do salazarismo nem enaltece o “colonialismo estado-novista” (pp. 195-196). A entrada nas hostes chegófilas de saudosistas da ditadura e antigos membros do PNR (perdão, do Ergue-te!) ou doutras organizações de direita radical é desvalorizada por Marchi, devido à incapacidade dos elementos mais à direita de influenciar a cultura política de um partido que visa um eleitorado amplo e, apesar das suas críticas às minorias étnicas, “não as considera corpos estranhos à comunidade nacional” (p. 197). De resto, Ventura e os outros dirigentes do Chega, vários deles com passagens anteriores por PSD e CDS, não se consideram radicais ou fascistas. O ponto fraco do livro está precisamente na atitude de Marchi ao reproduzir sem contestação (e com concordância implícita) as afirmações dos entrevistados, inclusive sobre temas tão relevantes como o financiamento do partido, embora o autor possa argumentar que uma investigação mais profunda não se encontrava no âmbito do seu projecto. Há ainda pontos que poderiam ter sido melhor desenvolvidos, como as ligações de André Ventura ao Benfica, a influência da religião cristã no pensamento da cúpula do Chega ou as relações com organizações estrangeiras da mesma família política, as quais tiveram avanços significativos já depois da impressão de A Nova Direita

 

 

Ao contrário da Iniciativa Liberal, que definiu aquando da sua fundação um determinado ideário e depois partiu para a missionação (“és liberal e não sabias”), o Chega procurou sobretudo adaptar-se às preferências do seu público-alvo. Com a inteligência e talento político que os seus adversários devem reconhecer (basta olhar para o CDS para saber como seria um partido liderado por alguém totalmente inepto para a função), André Claro Amaral Ventura observou os comportamentos da população no seu habitat dos subúrbios de Lisboa e notou o crescente fracasso do discurso da direita PSD/CDS. Por ser um político pragmático ou, segundo mentes malévolas deformadas pelo marxismo cultural, um oportunista disposto a tudo para alcançar o poder, André pegou nos temas centrais de um certo vox populi suburbano (ciganos, justiça, corrupção, etc.) e, depois de obter a fama com a sua gravata vermelha, apresentou-se como o campeão dessas causas. A chave para ir além do microscópico espaço eleitoral dos antecessores do Chega estudados por Marchi reside num discurso suficientemente ambíguo para atrair os fascistas tradicionais sem espantar votantes indignados que pretendem abalar a ordem política vigente e a quem o distante Estado Novo nada diz. Assim, Ventura não condena o 25 de Abril, mas diz que Portugal está a decair há 46 anos. Não suspira pelo Império perdido, mas orgulha-se da nossa História gloriosa, imaculada e nunca criticável. Não proclama a superioridade da raça branca, mas queixa-se de que agora os escravos somos “nós”. Não elogia Salazar, mas tosse quando se refere a Aristides de Sousa Mendes. Na minha opinião, não se trata de uma nova direita. É uma direita mais velha que a Sé de Braga (a terra do cónego Melo, homenageado por Ventura) disfarçada de “popular” e “moderna”. O problema de Marchi reside na confusão do discurso com a prática quotidiana do Chega e do seu presidente. Um bom exemplo disso é a afirmação feita pelo historiador de que André não pretende “promover o culto da personalidade” nem a “adesão acrítica ao líder” dentro do partido (p. 199).

 

Como o próprio Riccardo Marchi admite, A Nova Direita… é apenas um ponto de partida para estudos mais aprofundados sobre o Chega, apresentando os dados básicos relativos ao líder, aos militantes e à produção teórica do partido. Trata-se de um contributo importante para o debate público, talvez precisamente por provir de um autor que não está dominado pelo imperativo cívico de denunciar André Ventura como uma ameaça para a democracia. Contudo, a biografia autorizada do Chega escrita por Marchi padece do mal comum nesse tipo de obras, ricas em factos mas que deixam sempre a sensação de que o mais interessante ficou de fora do livro.

 

P.S. Enquanto o pessoal do Observador solta berros de “Censura! Censura!”, Riccardo Marchi tem dialogado civilizadamente no Facebook com vários dos historiadores que o criticaram. Ainda há quem prefira jogar em vez de se atirar para o chão ao mínimo contacto.

Por este Rio acima

Ao longo de dois anos e meio como presidente do PSD, Rui Rio nunca fez muitos amigos dentro da sua área política, mas o acordo com o PS para a extinção dos debates quinzenais na Assembleia da República foi a gota de água que levou inúmeros anti-socialistas a declararem que, se pudessem, desembainhariam a espada para trespassar o traidor revisionista. Na verdade, o dirigente social-democrata tem sido sempre um incompreendido, causando a estupefacção genuína de jornalistas e comentadores (“Mas o homem é doido?!”) pelo seu comportamento bizarro e aparentemente dissonante das actuais convenções da política portuguesa. De resto, a antipatia instantânea entre Rio e a comunicação social ajudou o portuense a ser feito em picadinho com dedicação pelas gazetas e pelas tertúlias televisivas. O certo é que, apesar de todas as críticas, vinda mais da direita que propriamente da esquerda (ela própria algo baralhada com um líder do PSD sempre a despir o fato tradicional), Rio permanece na liderança do PSD e mantém-se mais estável no cargo do que muitos antecipavam.

 

Depois de uma surpreendente vitória nas autárquicas de 2001, Rui Rio foi o presidente da Câmara do Porto com a coragem de enfrentar um Pinto da Costa cuja mão direita era então osculada por todos os outros políticos, mas também o edil birrento envolvido em conflitos inúteis com músicos como os GNR e Pedro Abrunhosa. Mesmo assim, ganhou uma imagem de homem de acção e político moderado. Nos idos de 2013, quando o Governo PSD/CDS ameaçava implodir e Portugal vivia o seu pior momento económico pré-Covid, algumas vozes na imprensa ansiavam para que os autarcas de Lisboa e Porto transformassem as suas boas relações numa aliança política, tomando conta dos respectivos partidos e estabelecendo um acordo de salvação nacional. António Costa conquistou o PS no ano seguinte, mas Rio teria de esperar pelo colapso do passismo em 2017 para avançar para a liderança do PSD e obter a vitória sobre Santana Lopes nas eleições internas, então atribuída ao facto dos militantes “laranjas” considerarem Rio um candidato mais forte a primeiro-ministro. Em contraste com a radicalização discursiva preconizada pelo Observador e derrotada nas autárquicas, Rui Rio anunciou uma viragem ao centro do PSD e uma aproximação ao PS com a qual Rio ganhou mais fama que proveito. Ultrajado, Rui Ramos começou a escrever as até agora 329 crónicas (números da última segunda-feira) nas quais explica a Rio que os socialistas não são potenciais aliados, mas sim inimigos a abater como cães. Pelo meio, o caminho do PSD até às legislativas foi no mínimo animado, entre casos na entourage de Rio, constantes querelas internas, um desafio falhado com o qual Luís Montenegro fez figura de parvo e resultados desastrosos nas europeias. As sondagens do início de Setembro de 2019 apontavam números na ordem dos 20-21% dos votos para o PSD. De repente, contudo, a nuvem negra que perseguia Rio passou a chover sem parar sobre a cabeça de Assunção Cristas e o economista nortenho fez uma campanha eleitoral inspirada, aproveitando os receios de uma maioria absoluta do PS para alcançar um score superior ao esperado, com o prestígio de Rui a evitar uma derrocada do PSD no Grande Porto semelhante à de Lisboa. Assim, após uma noite eleitoral em que vibrou com o segundo lugar e puxou do caderninho onde apontara os nomes de todos os que o tinham chateado, Rio decidiu recandidatar-se ao trono laranja e, mesmo sem esmagar, derrotou um Miguel Pinto Luz criado a pensar nas eleições seguintes e um Montenegro que nem os seus apoiantes viam a liderar fosse o que fosse. Até que chegou a pandemia e Rio adoptou uma postura “patriótica” de colaboração com o Governo que caiu bem num ambiente de acalmia política forçada pelo medo. Quando esse nevoeiro se dissipou, Rio aproveitou para mudar o regimento da AR e reavivar o incêndio na direita fragmentada.

 

 

Resoluto, Rui Rio retoma rigorosamente (OK, já chega) um modelo já apresentado com sucesso pelos presidentes Eanes e Cavaco: o político que não gosta de políticos. De resto, é sempre com algum enfado que Rio menciona o PSD, um partido cheio de gente oca e enredada em questiúnculas pessoais mas a que infelizmente tem de presidir para poder um dia governar. Essa visão do político como alguém que faz coisas, mais do que alguém que diz coisas, está ligada ao antiparlamentarismo de Rui, para quem a Assembleia não deve fazer os governantes perderem tempo a ouvir perguntas parvas e discursos inúteis, como se já não tivessem de aturar jornalistas parciais e irritantes e magistrados do Ministério Público sempre em busca de mais poder. Em inúmeras ocasiões, Rui enumerou comportamentos condenáveis dos políticos portugueses para acrescentar em seguida a frase “Isso é uma coisa que não faço”, por mais fácil que esse caminho pudesse ser. Desde o início da sua liderança, Rio procura passar a imagem de um homem sério, honesto, credível, razoável e patriota que põe o interesse nacional à frente dos seus interesses pessoais e partidários. Trata-se de um neocavaquismo que atrai ainda um vasto eleitorado disponível para o acolher, até porque Rio baseia as suas opções numa espécie de senso comum pequeno-burguês, não em princípios ideológicos retirados dos autores clássicos do pensamento político.

 

O estilo de Rio, tal como o dos seus predecessores na personagem que encarnou, afasta-se do radicalismo verbal que afastaria o eleitorado mais ao centro. Na retórica do presidente social-democrata, abundam improvisos, parênteses, reduções do tom de voz, considerações laterais ao tema abordado e uma mitigação de qualquer revolta com as palavras “agora, também não vamos…”, opostas aos exageros demagógicos típicos dos políticos de quem Rui se distingue. Esta oratória nada galvanizante não levou propriamente ao rubro os participantes nos congressos “laranjas” que entronizaram Rio, mas apela aos eleitores pouco apreciadores de gritaria, bem mais numerosos do que as redes sociais indicam. Pegando numa frase dita por André Silva num debate com Rio, o antigo autarca é visto hoje por muitos como um representante daquela direitazinha dos anos 80, a década de Freitas, Balsemão e Cavaco, quando os então poucos liberais e fascistas eram obrigados a aceitar como mal menor aquele discurso pragmático, tecnocrático e ideologicamente asséptico do PSD hegemónico. Nesses tempos duros, Sá Carneiro ainda era recordado como um homem e não se tornara uma bola de plasticina moldável à nossa vontade, enquanto o PS beneficiava da memória do PREC para ser visto como um parceiro em reformas que isolavam o PCP. Para Rui Rio, eram anos doces em que até havia bons discursos no Parlamento. Para os seus opositores, voltar a essa modorra é o mesmo que passar o MacGyver em horário nobre fora da RTP Memória.

 

Se as sondagens não revelam uma subida do PSD nas intenções de voto após as legislativas, o certo é que também não detectam uma descida significativa, indicando uma estabilização à volta dos 25%, quando grande parte dos eleitores e militantes do PSD que supostamente iriam deixar o partido para se juntarem à “verdadeira” direita do Chega e da Iniciativa Liberal já o fizeram. Neste contexto, Rui Rio parece ter decidido esperar que a crise económica e o desgaste do poder abalem o PS e equilibrem os pratos da balança, numa jogada política conhecida como “táctica Durão Barroso”. A verdade é que já não estamos no início do século e os cálculos do boavisteiro podem sair errados, até porque o PSD enfrenta problemas estruturais ligados à sua ruralização e perda de influência nas grandes cidades. Contudo, subestimar Rui Rio e apontá-lo como um líder a curto prazo será um erro crasso. Afinal, os políticos que anunciam aos quatro ventos o seu desapego ao poder são os mesmos que, quando chegam lá, nunca mais saem.

 

 

História imaginária do desporto

1. O Clube que Nasceu Duas Vezes. História e memória das origens do Futebol Clube do Porto

 

Tema: Investigação sobre o surgimento e actividade inicial dos dois clubes chamados FC Porto criados em 1893 e 1906, acompanhada de uma síntese da evolução do debate em torno das origens portistas e da sua reprodução em meios como imprensa, bibliografia ou projectos museológicos.

Objectivos: O FC Porto possui a característica singular de ter alterado a partir de 1988 a história da sua fundação até aí difundida nos meios oficiais do clube, recuando a data de origem da colectividade de 1906 para 1893. O objectivo do projecto seria ajudar a esclarecer os acontecimentos verificados na transição entre os séculos XIX e XX, sem pretender estabelecer uma versão definitiva dos primeiros anos do FCP, mas sim questionar lacunas e contradições das duas narrativas fundacionais, tal como analisar a presença da “polémica 1893/1906” em vários suportes e contextos desde a década de 50.

Problemas: Apesar da minha ligação emocional à cidade do Porto, não possuo um conhecimento relativamente amplo da história contemporânea da Invicta, essencial para servir de base à pesquisa a realizar nos arquivos e periódicos portuenses. Obter a colaboração do FC Porto com o projecto seria muito difícil devido à necessidade de examinar criticamente a narrativa apresentada pelo clube nas últimas décadas. Não é ainda possível saber se a dimensão do material a recolher e do texto inédito a que daria origem permitiria criar um livro comercialmente viável.

 

 

2. “Desporto Novo num País Novo”: A política desportiva no pós-25 de Abril (1974-1978)

 

Tema: Um estudo da política desportiva no período dos Governos Provisórios e dos dois primeiros Governos Constitucionais, analisada, por um lado, relativamente às medidas tomadas pelos organismos estatais com a tutela do desporto e, por outro, ao nível do debate público sobre a promoção da prática desportiva em Portugal.

Objectivos: A actividade desportiva não passou ao lado da intensa politização do período revolucionário, surgindo então diferentes perspectivas teóricas sobre o desporto e a democratização do acesso à sua prática. Tendo em conta a possibilidade de distinguir dois períodos em que a tutela política do desporto foi dominada por elementos ligados ao PCP e MDP/CDE (1974-1976) e mais tarde ao PS (1976-1978), interessaria comparar os discursos e medidas governamentais nas duas fases, acompanhadas pela ampla discussão sobre ambos ocorrida na imprensa (partidária, desportiva e generalista) e na bibliografia da época.

Problemas: Neste caso, a informação reproduzida nas fontes impressas revela-se insuficiente, na medida em que persiste a incógnita sobre a forma como o discurso oficial de democratização desportiva se traduziu ao nível do terreno e os níveis de adesão popular que despertou. Seria necessário realizar numerosas entrevistas, quer aos responsáveis políticos da área desportiva de 1974-1978 quer a participantes (atletas, dirigentes, monitores, etc.) nas várias iniciativas então dinamizadas, com vista a uma melhor compreensão de uma realidade conhecida apenas através das descrições inevitavelmente parciais e incompletas feitas por personalidades ligadas a diferentes sectores políticos.

 

3. História do Desporto no Município de Odivelas

 

Tema: Uma síntese da actividade desportiva registada no território do actual concelho de Odivelas entre o início do século XX e o presente.

Objectivos: A periodização esboçada incluiria capítulos balizados pelas datas de 1945 (fim das “origens” e fundação definitiva do Odivelas FC), 1974 (25 de Abril e boom do associativismo) e 1998 (criação do município odivelense). Através da evolução da prática desportiva, centrada inicialmente nas colectividades e mais tarde dotada de uma forte componente informal, poderíamos analisar as transformações sofridas por Odivelas e povoações circundantes, palco de um rápido crescimento demográfico acompanhado por equipamentos públicos insuficientes e um movimento associativo de dimensões reduzidas, tendo em conta a expansão da população odivelense. Algumas páginas do Facebook dinamizadas por cidadãos de Odivelas divulgam fontes que seriam úteis caso fossem devidamente catalogadas.

Problemas: Os clubes actualmente existentes no território do concelho de Odivelas são geralmente pequenos e não possuem arquivos disponíveis, enquanto o fim do Odivelas FC gerou, além da perda de património e documentação, versões desencontradas quanto à origem e responsabilidades da derrocada do clube. A obra pretendida necessitaria do apoio e financiamento das autarquias locais, difíceis de obter numa altura em que a consagração de Odivelas como Cidade Europeia do Desporto foi prejudicada pelos efeitos da pandemia de Covid-19.

 

 

4. Esférico: Revista de Estudos de História do Desporto

 

Tema: Revista académica online em formato PDF composta por artigos dedicados à história do desporto e aberta à colaboração de investigadores de várias ciências sociais.

Objectivos: O crescimento nos últimos anos do número de investigadores lusófonos com trabalho produzido na área da história do desporto criou um “meio” em expansão que se pretende transformar em comunidade através da organização de uma revista trimestral (ou semestral) sobre o tema, centrada sobretudo nos casos de Portugal e das ex-colónias, mas disponível para acolher estudos geográfica e tematicamente diversificados, visando incentivar o debate e a divulgação de novos contributos para o conhecimento do passado do desporto na sua relação com a sociedade.

Problemas: A verba auferida pelos coordenadores e colaboradores de Esférico (ou de outro título a escolher para o periódico) rondaria os zero euros, valor pouco atractivo na actual conjuntura e insuficientemente compensado ao nível da divulgação do trabalho historiográfico. Por outro lado, a discussão inerente a um projecto deste tipo, que incluiria a publicação de recensões e artigos com posições diversas, poderia ofender sensibilidades dentro do universo ainda limitado de autores e implicar recusas de colaboração.