Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Desumidificador

Desumidificador

As herdades

A Herdade, de Tiago Guedes

 

No papel da sua vida, Albano Jerónimo encarna em A Herdade João Fernandes, o senhor feudal de uma grande propriedade a sul do Tejo cuja gestão lhe interessa mais do que o convívio com o resto da elite do Estado Novo, à qual está ligado familiarmente por via da sua mulher Leonor (Sandra Faleiro). Impetuoso e distante, João vai enfrentar o marcelismo e a Revolução até conhecer a ruína progressiva do seu mundo, dominado por um silêncio que se torna mais avassalador à medida que a solidão do dono da herdade se acentua.

Integrado num já vasto conjunto de filmes que constroem ficção a partir do potencial do século XX português, A Herdade remete para uma época e uma região específicas, mas, paradoxalmente, pode ser visto e compreendido em qualquer parte do mundo. Para isso contribui a beleza visual da obra, garantida pela qualidade da montagem e pela forma exímia como Tiago Guedes domina a luz, o espaço, os cenários naturais ou o tempo, numa longa-metragem de mais de duas horas e meia que nunca se arrasta. Para lá da memória colectiva nacional, o argumento de Guedes e Rui Cardoso Martins foca temas universais como o poder, a família e as dificuldades de comunicação, pecando apenas por alguma previsibilidade na evolução da história durante a segunda parte.

O filme evita os clichés onde seria tão fácil cair e desenvolve as personagens através de um registo de contenção baseado naquilo que fica por dizer (talvez o casal Fernandes beba e fume tanto precisamente para manter as bocas ocupadas) e na tensão guardada em segredo até um dia explodir e fazer vítimas. O desempenho sem falhas do elenco, dominado por um Albano Jerónimo que disputará o prémio Sophia com Sérgio Praia, garante o êxito de um filme sensível, realista, ambicioso, profundo sem ser aborrecido e que eleva o cinema português a um patamar raramente alcançado, onde só filmes como Alice, de Marco Martins, se equivalem na força e durabilidade ao trabalho de Tiago Guedes.

 

Um filme para… Perceber como se faz um bom drama.

Nota: 8/10.

 

 

 

Rambo: A Última Batalha, de Adrian Grunberg

 

Apesar das histórias disparatadas, das personagens de cartão e da violência desmesurada, os cinco filmes da série Rambo são um guilty pleasure para muitos cinéfilos atraídos pelo carisma de Sylvester Stallone na pele de uma das duas únicas personagens (a outra é Rocky) que consegue realmente interpretar. Stallone é também co-argumentista de Rambo: A Última Batalha (Last Blood no original), uma obra que mostra o guerreiro solitário no seu quotidiano na velha quinta dos Rambo no Arizona, aonde voltara após uma longa peregrinação no final do quarto capítulo. O veterano do Vietname enfrenta os seus traumas na companhia de uma família adoptiva cuja tranquilidade se esfuma devido à acção criminosa de um bando mexicano de traficantes de seres humanos.

Naquele que é, salvo erro, o filme da saga em que Stallone fala durante mais tempo, vemos um John frágil, amargurado, envelhecido (embora plastificado, de acordo com a arrojada teoria de Ricardo Araújo Pereira) e até derrotado, num raro aprofundamento do lado emocional da personagem, favorecido pela realização eficaz de Grunberg. Claro que, mais cedo ou mais tarde, acaba por chegar a parte que o público veio ver e não será um grande SPOILER revelar que no final o herói massacra os bad hombres, numa já mítica sequência onde cada morte é mais cruel que a anterior. O politicamente correcto vê-se atingido pelas flechas de Rambo, de forma brutal mas também honesta e genuína num tempo de cinema padronizado.

Depois de ter sido o herói por excelência da era Reagan, Rambo torna-se aqui, talvez inevitavelmente, um símbolo do espírito dos anos Trump. Poderíamos justificar com as necessidades do argumento o facto dos vilões serem mexicanos e do país vizinho dos EUA ser apresentado como um sítio pobre e violento, mas a mensagem de Last Blood deixa claro que o tempo de ir para terras distantes combater os inimigos da liberdade já passou. Agora, os americanos devem ficar em casa e reprimir as ameaças que entram pela fronteira sul, limitada por frágeis vedações facilmente derrubadas pela carrinha de Rambo e (ainda) não por um muro inexpugnável. Como Stallone afirma quase textualmente, o mundo lá fora é perigoso e está cheio de gente má que deve sempre ser tratada com desconfiança.

O rasto de sangue deixado no mundo por John Rambo chega ao fim num episódio que encerra a série com dignidade e um mínimo (sem exageros, claro) de profundidade, permitindo também avaliar o herói como um espelho do lado sombrio da América, mais afeito à guerra que à paz.

 

Um filme para… Dizer adeus a uma personagem marcante do cinema.

Nota: 6/10.

 

 

 

E no entanto, isto move-se

1. A abstenção atingiu nestas eleições valores preocupantes que nos obrigam a uma reflexão profunda. Pronto, já disse a frase indispensável. Agora posso esquecer isso durante quatro anos e analisar as opções das pessoas que se deram ao trabalho hercúleo de ir votar.

 

2. A popularidade da Geringonça ditou os resultados finais das legislativas, até porque o PS nunca explicou de forma convincente em que medida uma maioria absoluta seria melhor que a manutenção da coligação de esquerda, a solução predilecta de muitos eleitores socialistas. António Costa terá de continuar a governar apoiado em concessões a outros partidos, num cenário internacional que, depois de uma campanha em que tudo era possível, ficámos a saber estar prenhe de ameaças. Não será fácil, mas a pressão das bases leva as direcções de PS, BE e PCP a evitarem a todo o custo serem consideradas responsáveis por uma eventual ruptura. Como escreveu José Pacheco Pereira em 2015, o casamento pode ser difícil, mas o divórcio seria muito pior.

 

 

3. O PSD tremeu mas não caiu no Norte, em parte do Centro e na Madeira, regiões onde venceu o PS por curta margem ou ficou pouco atrás dos socialistas. No resto do país, porém, a influência social-democrata é cada vez menor, particularmente no distrito de Lisboa, acentuando-se a tendência para uma ruralização do voto “laranja”. Em resposta a isto, Rui Rio mostrou-se demasiado satisfeito com o segundo lugar e adoptou um discurso mesquinho, típico de quem faz uma lista das pessoas que o chateiam para um dia vir ajustar contas. As sondagens do início de Setembro, que pareciam ser a condenação de Rio, converteram-se na sua salvação, já que o portuense baseia-se numa votação superior às fracas expectativas para não sair sem luta da liderança. Acontecerão em breve eleições directas no PSD e Rio, novamente desafiado, poderá sair vencedor. Resta saber se conseguirá inverter a progressiva perda de fôlego do partido de Cavaco Silva.

 

 

4. No final dos anos 80, o desaparecimento de um PCP forte e a efemeridade do furacão PRD permitiram a PS e PSD dominar em conjunto mais de dois terços do eleitorado. Nas legislativas de 1991, a soma dos votos de PSD e PS atingiu uns impressionantes 79,73% do total, descendo mais tarde para 77,88% (1995) e 76,38% (1999). Na primeira eleição parlamentar deste século, em 2002, os membros do Bloco Central somavam ainda cerca de 78%, mas cairiam para 73,79% (2005) e, há dez anos, com 65,67% dos votos, não atingiram os dois terços, sendo prejudicados pelo crescimento de BE e CDS e pela estabilidade da CDU. 2011 mostrou uma ligeira recuperação de PS e PSD, escolhidos por 66,71% dos votantes, antes de se verificar em 2015 a formação da PAF, cuja percentagem, adicionada à obtida pelo PS, somaria 69,17%. Finalmente, em 6 de Outubro de 2019, a votação conjunta de PS e PSD não foi além de 64,55%, o valor mais baixo desde 1985. Tudo isto revela que, apesar do enraizamento popular que socialistas e sociais-democratas mantêm, o predomínio dos dois maiores partidos da democracia é cada vez menor. Nas áreas mais urbanizadas, os eleitores demonstram um interesse crescente por novos projectos políticos e alternativas ao “centrão”, para lá do aumento dos votos brancos e nulos. A resistência dos partidos tradicionais em Portugal, apontada como uma excepção no contexto europeu, tem sido sobrestimada.

 

5. O declínio do PCP nos últimos quatro anos não se deve ao alegado descontentamento dos eleitores comunistas com a participação na Geringonça, mas sim a factores estruturais ligados ao envelhecimento do universo do partido, incapaz de se adaptar às mudanças no trabalho e na sociedade e cuja linguagem antiquada e repetitiva prejudica a atracção de novos (e jovens) eleitores. A influência comunista no sindicalismo começa também a ser posta em causa. A simpatia e genuinidade de Jerónimo de Sousa, um português comum que pode dizer que comeu “o pão que o diabo amassou” sem ser desmentido, elevaram e estabilizaram a votação na CDU até se tornarem insuficientes. Se o PCP funcionasse como os outros partidos, Jerónimo apresentaria a sua demissão, mas só deverá ser substituído no congresso de 2020. Dito isto, a morte do partido pró-soviético (no centenário da Revolução Russa, mostrou continuar a sê-lo) de Portugal já foi muitas vezes anunciada e sucessivamente adiada, pelo que conclusões definitivas são de evitar.

 

6. O período de Assunção Cristas na liderança do CDS pode ser dividido em fases distintas. Entre 2016 e 2017, Cristas soube afirmar a sua marca num partido muito marcado pelo perfil do seu antecessor e conduzir a hoste democrata-cristã a um resultado histórico na autarquia de Lisboa, embora irrelevante no resto do país. Depois desse feito, contudo, a “futura primeira-ministra” pareceu ser tomada por um certo deslumbramento, a partir do cálculo político errado (também feito por Santana Lopes, com os resultados que se viram) de que a viragem ao centro do PSD e a aproximação de Rui Rio ao PS levariam numerosos votantes “laranjas” a mudarem-se para a verdadeira direita, tornando o CDS a “primeira escolha”. O ano de 2019, coincidindo com a saída de Adolfo Mesquita Nunes da vice-presidência do CDS, tem sido desastroso para o partido, onde foi visível por muitas vezes um desnorte total. Depois do mau resultado das europeias, influenciado pela “crise dos professores” e pelo comportamento de Nuno Melo (um representante fiel daquela direita que ainda não digeriu bem a derrota de 1834), Cristas assumiu uma pose mais contida e o Verão decorreu sem grandes abalos, apesar dos sinais preocupantes de radicalização revelados pela polémica das casas de banho. A abundância de sondagens negativas instalou no discurso do CDS um tom permanente de desespero, a que se juntaram uma campanha publicitária que não fez sentido e a opção de Assunção Cristas por baixar demasiado o nível nos confrontos com António Costa. O programa liberal/conservador apresentado no Caldas não satisfez uma faixa de eleitores que encontrou na IL um projecto mais coerente. De regresso aos números do cavaquismo, o CDS enfrenta um futuro indecifrável e indica que os partidos nascidos em 1974 podem não ser eternos.

 

7. O crescimento do PAN deve-se acima de tudo à habilidade política de André Silva, que soube aproveitar muito bem o escasso espaço de que dispôs ao longo da legislatura agora finda para fazer os holofotes incidirem sobre o seu partido. No dia em que Manuel Alegre escreveu que 229 deputados pareciam ter medo de um único parlamentar, a batalha do PAN estava ganha. O intenso escrutínio mediático a que o partido foi sujeito durante a campanha, com as suas propostas mais ridículas a serem expostas à luz do dia, pode ter impedido o PAN de ir além de um nicho de eleitorado, mas conferiu aos animalistas uma visibilidade que nunca mais perderão, até porque o contexto mundial de crescente preocupação com as alterações climáticas beneficia-os.

 

8. A Iniciativa Liberal provou que, apesar de em Portugal ainda quase tudo se jogar na televisão, uma campanha baseada em cartazes e na utilização das redes sociais pode ter sucesso e chamar a atenção dos media tradicionais sem necessidade de recorrer à lamúria santanista. A irreverência e contundência da IL, expressas na sua “oposição ideológica ao socialismo”, têm feito recordar os primeiros anos do Bloco de Esquerda, podendo surgir outra semelhança quando, à imagem do que sucedeu há vinte anos com os bloquistas, parte da comunicação social revelar um carinho muito especial pela organização de Carlos Guimarães Pinto.

 

9. Visto com benevolência por toda a gente (excepto os fascistas), o Livre tem sido uma espécie de Belenenses ou Académica da esquerda, ou seja, a segunda preferência de muitas pessoas que, na hora da decisão, acabam sempre por apoiar um dos “grandes”. Desta vez, porém, nas eleições do tudo ou nada para o partido de Rui Tavares, a base de apoio predominantemente lisboeta do Livre chegou para atingir o “sem-precedente”. O desafio do Livre será conseguir assumir o seu papel de aliado natural do PS sem ser engolido pelos socialistas. Pelo seu percurso de vida, Joacine Katar Moreira apresenta-se como a representante de grupos populacionais cujas experiências e preocupações raramente são ouvidas pelas elites políticas. Dito de outra forma, se vivêssemos num país ideal, a descrição da historiadora como mulher, negra e imigrante seria supérflua, mas não o é. Quanto à gaguez de Joacine, as pessoas mais apressadas terão de ser pacientes, porque ela não vai ficar calada.

 

10. A entrada do Chega na Assembleia da República é a segunda morte do professor Freitas do Amaral. De facto, a actividade de Freitas no período entre 1974 e 1976 permitiu esvaziar a extrema-direita portuguesa e levou a maior parte desta a entrar nos partidos do sistema (PSD e CDS), sem abalar o consenso sobre o regime político. No entanto, a última década assistiu a uma vaga internacional de retorno do fascismo (sim, eu sei que se trata de uma simplificação, mas também não podemos cair no extremo de dizer que ninguém é fascista) e Portugal, apesar das cada vez mais distantes memórias da ditadura e da Revolução, não poderia ficar de fora. André Ventura viu a sua oportunidade e, em pouco tempo, conseguiu aproveitá-la. O que poderá o político apoiado pelo grupo Cofina acrescentar no Parlamento? Barulho.

 

 

Em resumo, tem sido isto

Imagens do meu passado que vêm à memória por ordem desordenada:

 

A minha sobrinha a tentar compreender o mundo louco a que veio parar. O livro da 4.ª classe de Tomás de Barros. O cão, o nosso grande inimigo. A resistência heróica antes da rendição incondicional. A prof. Bonifácio a repor os níveis de nicotina. As torres já derrubadas quando cheguei. Os passeios nocturnos sempre iguais pelas ruas de Alvor. Aquela vez em que cantei para combater um silêncio insuportável. As bolachas comidas no carro enquanto o Benfica jogava para a Liga Europa. A Mônica, o Cebolinha, o Cascão e a Magali. O beijo no cabelo. Soltar gases na casa de banho da Biblioteca Nacional. A vigília por Timor que serviu para acalmar a minha consciência. As minhas avós a ouvirem o terço na Rádio Renascença. O folheto dos Jeovás com um Jesus armado. Os meus pais a discutirem a melhor via para o socialismo. Eu a ser o único a não sorrir na fotografia. O sol, o frio, a chuva, o vento. Os movimentos sexy no autocarro. O nosso colega que se passou dos carretos na aula de História Moderna e que nunca mais vimos. A comunicação que só a Irene, a Inácia e a Raquel ouviram. O meu amigo a tornar-se insuportável quando teve a depressão. O suor dos exames do 12.º ano. O espantalho que me assustou. A minha irmã com um sorriso “from here to here”. Os Pink Floyd a tocar no Live 8. Os longos minutos sem clientes na loja. A falta de pessoal no SNS. As voltas na Boavista em dia de Benfica-Sporting. Os vómitos no hotel. Arrastar-me da escola até casa com o pé esquerdo torcido. O Estádio do Dragão visto de fora. A prima adolescente com mamas grandes. O meu cunhado com uma ideia disparatada que deu um grande livro. O dia de S. Valentim em que levei um tabefe. Os circuitos do turismo otário. Ler Os Maias em 10 dias. Acabar a tese na noite em que o Trump ganhou as eleições. O poema do meu avô que estupidamente não copiei. O prof. Manuel Sérgio, errático mas fascinante. Terminar a corrida com a parca alegria de não ficar em último. A Lina a ver-se livre da capa ainda antes de ouvir a nota nas provas de doutoramento. O sussurro de despedida. As mulheres sempre no poder. A mágoa de perder dezenas de borrachas durante as aulas. Ir aos Açores para ler revistas de BD dos anos 60 e 70. A Avenida de Berna a abarrotar de gente. O alívio de uma brisa durante a procissão. Duas sandes de pasta de frango com alface e tomate. A aula que dei sobre a Revolução Russa. Centenas de maçãs comidas no recreio. A Mafalda lida durante os furos. Anos e anos com medo da praxe, e afinal. Ajudar a descarregar garrafões de vinho. O tédio nos casamentos. Os colchões verdes no ginásio improvisado. O trânsito caótico de Benfica. A viagem com os futebolistas Hilário e Vicente. O fogo suficientemente longe da minha casa para ser apenas um espectáculo. O tipo que me roubou a máquina fotográfica. A inauguração da Biblioteca Municipal. O esparguete à bolonhesa na Expo 98. A quietude dos caniços dos Pombais. Eça de Queiroz no Big Brother. A Té a imitar a fala dos bebés. O gira-discos vindo de África que não me lembro de alguma vez ter sido usado. O papel demasiado pequeno para os meus rabiscos. O leite frio que detestei. Encontrar o Bibi no Diário da República. O chão da Hemeroteca a ranger. O toque no quartel da GNR. O recorde de frio batido na aldeia. A porta que ou estava aberta ou estava fechada. O sumo em copos de plástico. A espanhola desconhecida. Super-heroínas na televisão. A antiga sala de cinema do Bairro Alto. A minha tia a trocar-me o nome. As inúmeras sedes do PSD na Madeira. O concerto dos Onda Choc. O terreno pelado do Campo Diogo José Gomes. O meu sobrinho a querer ouvir o Zé Mário Branco.

 

 

Como consegui fazer tão pouca coisa em 34 anos? Bem, não foi fácil, mas tenho um talento especial.

Os novos

Nas próximas eleições legislativas, encaradas por quase toda a gente como mera rotina, uma das poucas incógnitas reside na expressão dos votos nos novos partidos de direita, que obtiveram em conjunto nas europeias pouco mais de 4%. A possibilidade de Chega, Aliança e Iniciativa Liberal elegerem representantes na Assembleia da República é deixada em aberto pelas sondagens, embora estas sejam sempre duvidosas no que respeita aos partidos com menos votos. Tendo em conta a dificuldade histórica de afirmação à direita de projectos partidários alternativos a PSD e CDS, a entrada em S. Bento de personalidades ligadas a outras formações representaria uma originalidade encarada com interesse por vários sectores dessa área política, há muito desiludidos com Rui Rio e Assunção Cristas. No entanto, mantém-se incerta a capacidade de atracção de eleitorado pelos novos actores políticos, aqui analisados de forma breve.

 

Aliança: No início do ano, durante um debate na SIC entre José Gomes Ferreira e António Costa, o primeiro inquiriu o segundo sobre a possibilidade do PS estabelecer um acordo parlamentar com o partido de Pedro Santana Lopes caso os socialistas ficassem a escassa distância da maioria absoluta. Não me lembro do que Costa respondeu, mas fiquei logo com a sensação de que, na altura das eleições, um cenário desse tipo pareceria demencial. Foi a única vez que acertei numa previsão. De facto, não era bem isto que Santana Lopes esperava há um ano, quando avançou para a criação do seu há muito anunciado novo partido. As europeias correram mal, os resultados nas sondagens não descolam e, depois da cobertura exaustiva do primeiro congresso da Aliança, a comunicação social desinteressou-se do organismo, causando a birra santanista. Caso regresse ao Parlamento, Santana poderá apresentar o facto como uma vitória, mas dificilmente conseguirá subir em sufrágios futuros. O problema do partido está desde o início na contradição de se apresentar como uma força de mudança e anti-sistema liderada pelo político mais “do sistema” existente em Portugal (à excepção de Marques Mendes, claro). PSL tem demasiado passado e o estilo que já funcionava mal em 2004 não funciona de todo em 2019. Ideologicamente, a Aliança diz ser um pouco liberal, um pouco conservadora e um pouco eurocéptica, sempre sem exageros, pelo que se mantém ambígua e indefinida, uma espécie de PSD sem açúcar. Mais uma vez, Santana Lopes não desiste e recorda que é um “lutador”. O ex-primeiro-ministro até pode ganhar o combate, mas o problema é que já não há ninguém na plateia a assistir.

 

 

Chega: Para as pessoas menos atentas ao noticiário político, como Assunção Cristas, esclarece-se aqui que a coligação Basta acabou depois das europeias, quando Gonçalo da Câmara Pereira (PPM) e Sofia Afonso Ferreira (Democracia 21) se cansaram de ser figurantes no filme escrito, produzido, realizado e protagonizado por André Ventura, que agora se apresenta simplesmente como líder do Chega, partido que inclui nas suas listas alguns membros do PPV. Apesar do resultado de Maio ter ficado muito aquém das proclamações megalómanas de Ventura, é bom notar que os 1,5% do Basta constituíram um valor superior à tradição da extrema-direita lusa (até aqui representada apenas pelo PNR) e apoiado num número interessante de votos obtidos nos subúrbios de Lisboa. Caso estes se mantenham em 6 de Outubro, André poderá concretizar o seu sonho de discutir aos berros no Parlamento com as deputadas do Bloco de Esquerda. O Chega tem contra si o problema da total falta de consistência e credibilidade do pensamento venturista. No entanto, o partido dirige-se a um nicho de eleitorado outrora escondido no PSD e no CDS e que foi treinado durante muitos anos pelo grupo Cofina para assumir determinados comportamentos, entre eles a obsessão pelo crime, a degradação das boas maneiras e do vocabulário, o gosto pelo espectáculo inconsequente, a simplificação abusiva de todas as questões e o sentimento de tédio relativamente à política tradicional, cheia de coisas aborrecidas como negociar acordos, estudar problemas ou ouvir opiniões diferentes. Sempre acompanhado por jornalistas da CMTV e do i/Sol, André Ventura conta com o apoio da “bosta da bófia”, o termo técnico para designar a facção mais radical da PSP e da GNR, agrupada no Movimento Zero. Até às eleições, os cheguistas irão continuar a analisar diariamente a actualidade e seleccionar temas (ideologia de género, subvenções vitalícias, assassinatos cometidos por “monstros”, etc.) que permitam ao partido vociferar indignação sem conteúdo.

 

 

Iniciativa Liberal: A imagem actual da IL foi definida pelo seu segundo presidente, Carlos Guimarães Pinto, um dos autores dos cartazes irreverentes do partido que fazem lembrar os primeiros anos do Bloco de Esquerda, quer na originalidade quer na alegre inconsciência de quem se mantém ainda longe do poder. Mais do que a renovação do liberalismo português, a Iniciativa Liberal expressa a radicalização da direita ocorrida na última década e simbolizada por Zita Seabra, madrinha de uma tendência política amplamente representada na imprensa, nas redes sociais e na blogosfera, mas cuja base de apoio se revela exígua. De resto, transparece por vezes do discurso da IL a sensação de isolamento de quem se sente uma ilha no mar socialista e procura atrair os portugueses “talentosos” impedidos de se afirmar por cá devido aos impostos cobrados às empresas, deixando de lado a maioria menos talentosa da população. Sem o habitual choradinho dos partidos pequenos acerca da falta de carinho mediático, a Iniciativa começa a chamar a atenção através da sua propaganda, mas é ainda cedo para avaliar o potencial de expansão dos liberais, naturalmente reforçado em caso de entrada na arena parlamentar.

 

 

As sondagens

Tornou-se comum desvalorizar a capacidade das sondagens de antecipar resultados eleitorais depois de várias surpresas ocorridas pelo mundo fora, como os triunfos do Brexit e de Donald Trump em 2016. No caso português, importa ter em conta a experiência dos últimos cinco anos, de acordo com a qual os estudos de opinião costumam acertar no vencedor das eleições e na distância deste para o segundo classificado, ao mesmo tempo que se revelam mais falíveis a partir do terceiro lugar. Durante a campanha para as últimas eleições europeias, as sondagens detectaram a inversão de tendência a favor do PS, mas tiveram problemas ao antever a ordem pela qual BE, CDU e CDS se posicionariam na classificação final. A avaliação dos pequenos partidos é ainda mais incerta, com o PAN a costumar driblar as estimativas das intenções de voto. Apesar destas fragilidades, os partidos que negam ardentemente a relevância das sondagens são aqueles que as levam mais a sério.

Ao longo do mês de Julho, as pesquisas coordenadas por empresas de sondagens e, no caso dos estudos divulgados na SIC e no Expresso, por investigadores do ICS e ISCTE, apresentaram várias diferenças numéricas, mas permitiram identificar tendências comuns. Assim, as pesquisas indicam a vitória do PS (a uma distância incerta da maioria absoluta), o pior resultado de sempre do PSD, o sólido terceiro lugar do BE, a estagnação ou decrescimento do eleitorado da CDU, a subida fulgurante do PAN e a derrocada do CDS, claramente ultrapassado pelos animalistas nos círculos de Lisboa e Porto. A semelhança entre estas estimativas e os resultados das ainda recentes europeias reforça a verosimilhança daquelas.

Como sempre acontece, além de descreverem a realidade, as sondagens influenciam-na. No último mês, o encurtamento da distância entre o PS e a maioria absoluta, julgada inalcançável ainda há pouco tempo, originou diversas reacções nos partidos, entre o entusiasmo cauteloso dos socialistas, receosos de que o mais pequeno erro seja fatal, a denúncia por BE e PCP dos malefícios das maiorias monopartidárias e o verdadeiro pânico à solta na direita. Vários tipos de eleitores estarão a decidir o seu sentido de voto a partir dos cenários descritos pelos estudos de opinião, que motivam alguns simpatizantes da Geringonça a votar nos partidos mais à esquerda para tentar evitar a hegemonia do PS, mas também fazem direitistas de coração pensar em votar no partido de António Costa com o objectivo de afastar bloquistas e comunistas da esfera do poder. O dilema de José Manuel Fernandes, aflito para descobrir quais serão o pior e o menos mau dos cenários pós-eleitorais, representa a angústia do seu sector político perante um contexto em que Costa parece ganhar sempre, seja qual for o resultado de 6 de Outubro.

 

 

As sondagens fazem várias vozes da direita soltar o mesmo grito de frustração que se ouvia há quatro anos do lado da esquerda: “mas este pessoal é burro, ou quê?”. Apesar de todos os casos e problemas que afectam o Governo, as intenções de voto nos socialistas mantêm-se elevadas, enquanto os partidos de direita parecem ter lepra. Na verdade, os estudos mostram também um número elevado e crescente de eleitores brancos/nulos, abstencionistas ou incapazes de se identificarem com qualquer partido. Em 2018, Assunção Cristas e Pedro Santana Lopes calcularam que a viragem ao centro do PSD conduzida por Rui Rio iria empurrar muitos eleitores para os braços da “verdadeira” direita. Contudo, a escolha de parte significativa da base de apoio da PAF (já de si inferior ao conjunto dos votantes em PSD e CDS nas legislativas de 2011), desiludida com as novas lideranças partidárias, terá sido a indiferença e a desmobilização. O crescimento da abstenção e do voto em nenhum partido possui, no entanto, efeitos mais vastos. A pouco e pouco, as eleições passam a contar apenas com a participação dos portugueses mais interessados na política e com uma identidade ideológica definida, enquanto o célebre “eleitorado do centro”, na verdade despolitizado e orientado na votação por factores conjunturais, deixa de flutuar e pousa num sítio tranquilo onde os políticos não o incomodem. As sondagens indicam, de resto, que à excepção do PS, do BE e, obviamente, do PAN, os partidos portugueses sentem grande dificuldade em conquistar novos eleitores e ficam limitados a um punhado de seguidores incondicionais. A desconfiança para com a política atinge tais proporções que, paradoxalmente, dificulta o aparecimento em Portugal do tal líder populista cujo possível sucesso é referido por tantos comentadores (alguns deles num tom de “porque é que ele demora tanto?”). Entretanto, a abstenção e o fenómeno PAN contribuem para uma maior fragmentação das escolhas dos eleitores, com as sondagens a atribuírem a PS e PSD uma invulgar percentagem conjunta de cerca de 60%. Em Lisboa, de acordo com um estudo surgido na TSF e no Jornal de Notícias, o PS alcança 35% das intenções de voto, enquanto o PSD não chega aos 10% e o restante divide-se em partes similares por todos os outros partidos.

A praticamente dois meses das eleições legislativas, as sondagens criam a tentação de começar a desenhar o quadro político do Outono. Os valores actuais dos inquéritos não devem ficar longe do resultado eleitoral, embora o CDS possa ainda recuperar e fugir do Uber, enquanto o PSD parece estar condenado a um desastre propício ao florescimento dos sectores mais radicais do partido. Porém, ao fim de quase dois anos de previsões acerca dos resultados das legislativas de 2019 e do Governo que sairá delas, e enquanto os líderes partidários não correm para as feiras de canetas em punho, o melhor é pensar “Depois logo se vê”. Como se diz na rádio, boas férias se for caso disso.

 

P.S. Porquê ilustrar um texto sobre sondagens com uma imagem de Lena d'Água no videoclip de "Dou-te um Doce"? Bem, estamos no Verão, não é?

O facho é o sistema

Zurzida em numerosas tribunas devido ao seu último artigo de opinião, vindo a lume no Público de 6 de Julho, a professora Maria de Fátima Bonifácio (MFB) encontrou um ambiente fraterno em O Diabo, o semanário fundado por Vera Lagoa e tradicional porta-voz da extrema-direita lusa. No número de 12 de Julho de O Diabo, o histórico antifascista Henrique Neto assina a crónica “A censura em marcha”, onde manifesta a sua concordância com o texto de MFB, à excepção das “sempre perigosas” generalizações por esta feitas, e condena as respostas ao artigo da historiadora divulgadas no Público, diário ao qual, segundo Neto, “as ideias e os ódios de estimação do Bloco de Esquerda” já parecem ter chegado. Outro colunista de O Diabo, Manuel Silveira da Cunha, também rejeita as “generalizações abusivas” de Bonifácio, cujo erro foi não ter apresentado as estatísticas comprovativas da abundância de indivíduos “iletrados”, “parasitas”, “traficantes”, “violentos” e “maus vizinhos” dentro da comunidade cigana (números que Cunha também não partilha com os leitores). Já na edição de 19 de Julho, para além das cartas de dois leitores de O Diabo que defendem Bonifácio e atacam os críticos da académica, a polémica é referida nos artigos do jovem nacionalista Manuel Rezende, para quem as considerações de MFB são “um manifesto de senso comum” atacado pelos “fanáticos da liberdade e da tolerância”, e do professor Isaías Afonso (membro do Conselho Nacional do CDS), furioso com a forma “infame” como os “nauseabundos” comentadores do programa da SIC Notícias O Eixo do Mal enxovalharam Bonifácio e esperançoso de que “Talvez um dia estes abutres da Democracia de Opereta sejam abatidos e lançados na cloaca a que pertencem” (sic).

Apesar de toda a discussão originada pela crónica de MFB, a antiga professora da FCSH-UNL mantém-se em total silêncio, sem defesas nem actos de contrição. No entanto, sabe-se agora que o dia 30 de Julho ficará marcado pelo lançamento de Fora da Circunstância, o novo livro de Maria de Fátima Bonifácio, editado pela Dom Quixote e que reúne 32 crónicas escritas pela autora entre 1990 e a actualidade. Se MFB tivesse criticado as quotas raciais sem mencionar as características inatas por ela observadas nos povos alheios à “Cristandade”, quantas pessoas reparariam na nova obra de Bonifácio? Provavelmente, muito poucas. Contudo, depois do nome de MFB ter chegado nas últimas três semanas a muita gente que nunca leu os livros da historiadora sobre a época de Saldanha e Costa Cabral, tudo é diferente, até porque a Dom Quixote não resistiu a escrever na capa de Fora da Circunstância o adjectivo mágico “polémicos”, que tudo atrai e tudo desculpa. Os críticos de MFB foram, afinal, participantes involuntários num golpe publicitário bem urdido. Poder-se-ia objectar que o estatuto de heroína obtido por Fátima junto de algumas pessoas não compensa a etiqueta de racista que MFB terá de usar até ao fim da vida. Quem conhece a prof. Bonifácio, porém, sabe que ela nunca teve propriamente a popularidade de Marcelo Rebelo de Sousa, pelo que as perdas não serão muitas.

 

 

Esta polémica estival permite identificar um determinado padrão de reacções já verificado noutros momentos dos últimos dois anos, a propósito de eventos como a conferência que Jaime Nogueira Pinto não realizou na FCSH-UNL, a entrevista ao i através da qual André Ventura entrou na política, o convite para discursar na Web Summit feito e depois retirado a Marine Le Pen ou a ida de Mário Machado ao programa de Manuel Luís Goucha. Tudo começa quando um facho (ou facha) fala ou é convidado para falar num espaço físico ou mediático onde o discurso de extrema-direita raramente é ouvido, atingindo assim um público vasto, cujos membros reagem maioritariamente com surpresa, repulsa instintiva e, por fim, indignação expressa nas redes sociais. As “redes sociais” aqui referidas não incluem necessariamente o cidadão comum que publica sobretudo fotos tiradas na praia ou no restaurante e rodeadas de hashtags, mas sim as páginas de políticos, jornalistas, comentadores, historiadores e outros indivíduos capazes de aceder aos media tradicionais, nos quais a ira contra o facho se converte em tema noticioso. O pessoal mais exaltado pede, habitualmente sem consequências, a acção das autoridades para punir o facho e quem lhe deu um palco.

Surge então a grande onda de indignação contra a indignação. Alguns liberais bem intencionados vêm defender que a tentativa de censurar o facho está errada, pois só ouvindo o facho poderemos desmontar os seus argumentos e mostrar que as suas ideias ofensivas não dispõem de uma base social de apoio. Contudo, já se ouve, bem mais alto, o vozear daqueles para quem o facho (que, no essencial, está cheio de razão, apenas não usa as palavras certas) se torna um pretexto para atacar o ímpeto censório do “politicamente correcto” e o objectivo deste de dividir e oprimir a sociedade. No Observador, Alberto Gonçalves denuncia que, ao contrário do facho, a esquerda é perigosa, ama a tirania e despreza a liberdade, enquanto os outros colunistas escrevem o mesmo num estilo menos arrogante. Entretanto, os amigos do facho glorificam-no e aproveitam para insultar e ameaçar aqueles que não gostam do facho. No meio de tudo isto, o que faz o facho? Sorri, pois o seu nome e as suas palavras estão em toda a parte, como pretendia. O ruído amaina ao fim de alguns dias, mas já ninguém conseguirá tirar o facho da arena política.

Este jogo perverso no qual a extrema-direita beneficia inesperadamente do combate que lhe é movido deixa claro que os fascistas não são vítimas do sistema, eles fazem parte do sistema, seja através de intelectuais prestigiadas como a prof. Bonifácio ou de estrelas da televisão como André Ventura. Recorrendo às designações utilizadas por Jaime Nogueira Pinto no livro Bárbaros e Iluminados (3.ª edição, 2019), há muito que os bárbaros transpuseram as muralhas, entraram nos palácios dos iluminados (N.º 10, Casa Branca, etc.), sujaram os sofás, puseram os pés em cima das mesas e mandaram calar os politicamente correctos que criticaram a imundície. A grande questão é saber como fazê-los sair e arrumar a casa depois da barafunda.

Memórias de Assunção

O novo livro de Assunção Cristas, Confiança (Matéria-Prima), levanta-me uma série de dúvidas, aqui listadas por ordem aleatória:

 

1. Porque é que a capa do livro é tão parecida com a de Becoming, de Michelle Obama? Porque é que Michelle segura a cabeça com a mão direita e Assunção com a mão esquerda? Porque é que o nome de Cristas foi colocado ao nível dos seus seios? E porque é que Confiança tem esse título, nunca explicado ao longo do texto?

 

2. Se Assunção tivesse seguido o conselho da sua professora de Educação Visual e estudado Artes no secundário, teria sido desenhadora e ilustrado álbuns de BD?

 

3. Que sentido faz que a primeira parte do livro tenha 184 páginas e a segunda apenas 33?

 

4. A ideia de Assunção Cristas de que uma das singularidades das “lideranças femininas” está num “perfil geralmente mais cooperativo e colaborativo e menos bélico” (pp. 59-60), logo mais produtivo que o dos homens, não constitui uma espécie de machismo ao contrário?

 

5. O eleitor que optar pelo CDS estará a votar não só na Assunção, mas também no Tiago, na Maria do Mar, no Zé Maria, no Vicente e na Luzinha?

 

6. Viver numa família grande que está sempre junta não acabará por se tornar opressivo para a individualidade dos seus membros?

 

7. Uma tão vasta exposição da vida privada será realmente uma estratégia política pertinente ou apenas uma cedência à lógica das redes sociais?

 

 

 

 

8. O uso permanente de episódios do quotidiano pessoal para confirmar e reforçar ideias sobre temas políticos não fará Cristas cair no mesmo registo daqueles comentadores que estão sempre a fazer generalizações abusivas a partir do princípio “se isto é assim no meu bairro, é assim no mundo inteiro”?

 

9. Não é um pouco exagerado que Assunção recorra aos exemplos de Jesus Cristo e da Virgem Maria para justificar a decisão de entrar para a política? Depois de Cristas hesitar tanto e consultar muitas pessoas antes de aderir ao CDS, não foi bizarro tomar em poucos minutos as decisões de aceitar ser ministra da Agricultura e de candidatar-se à liderança do partido?

 

10. Terá sido a preferência de Assunção Cristas por almoços longos e com muita conversa, baseada numa valorização das “qualidades humanas” em detrimento da “eficácia cega” (p. 73), a fazer Henrique Raposo deixar de admitir votar no CDS?

 

11. A ideia da generalização dos anos sabáticos, baseada na convicção de Cristas de que “seria muito bom se todas as pessoas pudessem parar pelo menos uma vez, idealmente duas, ao longo da sua vida laboral” (p. 101), não será louvável mas completamente irrealista?

 

12. Quais são as “marcas de fação” (p. 246) que Cristas gostaria de ver retiradas da Constituição para facilitar a governação da direita?

 

13. Que opinião terá a oposição interna a Assunção Cristas sobre o livro de uma líder considerada demasiado saída da casca pelos ultraconservadores da TEM?

 

14. Quantas pessoas vão comprar Confiança e decidir o seu voto a partir da leitura do livro? Se, como é previsível, forem poucas, de que terá servido o esforço da autora e da editora?

O estranho mundo de Cavaco: Parte II

1. Actualmente, sempre que Aníbal Cavaco Silva quebra o silêncio (?) a que se remeteu depois de sair da Presidência da República em 2016, verifica-se um abismo entre o efeito pretendido pelo algarvio e a reacção de desprezo ou indiferença com que o país lhe responde. Uma situação deste tipo verificou-se a propósito das memórias presidenciais de Cavaco, apresentadas nos dois volumes de Quinta-Feira e Outros Dias (Porto Editora). Se em 2017 o primeiro tomo da obra autobiográfica gerou ainda uma certa curiosidade nos meios políticos e mediáticos, o lançamento em Outubro de 2018 do segundo volume, com o subtítulo Da Coligação à “Geringonça” (DCAG), produziu apenas, ao longo de dois ou três dias, algumas entediadas referências jornalísticas e declarações nas quais vários comentadores, mesmo os ligados ao PSD, deixaram claro que tinham coisas mais interessantes para fazer do que ler os desabafos do ex-Presidente. O próprio partido que Cavaco chefiou durante 10 anos parece dominado pelo embaraço na hora de referir o nome do seu antigo líder. Como é que um vencedor de cinco eleições acaba numa tão profunda solidão política?

 

2. Tal como o primeiro volume desta fase da memorialística cavaquista, DCAG foca sobretudo os contactos entre o protagonista do livro e os primeiros-ministros com quem se reunia semanalmente. Recorde-se que a relação entre Cavaco Silva e José Sócrates fora semelhante à de um psiquiatra com um paciente que se revelara incurável. Já com Pedro Passos Coelho, Cavaco assumiu o papel de professor, como aliás reconhece. Porém, as aulas de quinta-feira não pareceram decorrer na universidade, mas sim na escola primária. O prof. Cavaco ficou a princípio agradado com a aplicação e boa educação do jovem Pedro, tão diferente do seu colega Paulo, um cábula incorrigível. Mesmo assim, o mestre teve frequentemente de assinalar com cruzes erros nos testes feitos por Passos, um aluno teimoso sem vontade de fazer os trabalhos de casa e estudar os princípios rudimentares da economia. No que respeita a António Costa, as conversas em 2015-2016 entre o novo primeiro-ministro e o Presidente foram poucas, mas suficientes para deixar claro que teria sido difícil uma longa convivência entre o optimismo irritante de Costa e o semblante grave de Cavaco.

 

3. A trama de DCAG desmente a narrativa de sucesso do período da troika apresentada hoje pelos sectores próximos do passismo, ao relatar numerosos episódios em que tudo esteve à beira de desmoronar, entre os confrontos PSD-CDS e a tentação de desistir que atingiu por várias vezes o primeiro-ministro. Cavaco Silva garante ter apelado a uma maior resistência do Governo às vontades dos técnicos chegados à Portela, apesar de saber que se comentava nos círculos governamentais que o PR não seria tão valentão se tivesse de sair de Belém e sentir o cheiro dos troikanos. O pico da tensão verificou-se na crise política de Julho de 2013, mês durante o qual Cavaco procurou impor o seu velho projecto de um acordo a médio prazo entre PS, PSD e CDS. Nesse sentido, DCAG revela-se a história de um fracasso, já que o consenso tantas vezes pedido por Cavaco acabou por se verificar com intervenientes diferentes dos previstos no guião presidencial. Outro traço permanente ao longo de DCAG é a verdadeira obsessão de Cavaco com o discurso dos jornalistas e comentadores, os mesmos que dissera ignorar no volume inicial de Quinta-Feira e Outros Dias. Apesar de excepções honrosas como Marques Mendes e José Gomes Ferreira, a comunicação social portuguesa caracteriza-se, na opinião do antigo governante, pela parcialidade a favor da esquerda e pela incapacidade de compreender o “superior interesse nacional” perseguido por Aníbal 24 horas por dia.

 

 

4. Após as eleições legislativas de 2015, muitos ficaram com a ideia, sabe-se lá porquê, de que o então Presidente da República foi apanhado de surpresa pelos acontecimentos e reagiu com hostilidade à formação de uma coligação de esquerda. Três anos depois, Cavaco Silva deixou claro que a sua fúria e perplexidade ultrapassaram tudo o que foi imaginado. Aníbal retardou propositadamente a indigitação de António Costa como primeiro-ministro, de modo a que “os Portugueses se apercebessem” da gravidade da situação vivida nesse Outono e de que o chefe de Estado tomava “as precauções possíveis para evitar que acontecesse um desastre” (p. 411). Forçado a ceder pelas circunstâncias, Cavaco faz agora uma avaliação do Governo de Costa idêntica à do Observador. Está no seu direito, mas de um estadista cujos mandatos foram marcados por uma “absoluta imparcialidade no tratamento das várias forças políticas” (p. 509) esperava-se algo mais que a acusação dirigida ao PCP de pretender apenas satisfazer os sindicatos ou a descrição de um Bloco “deliciado com o usufruto do naco de poder que lhe cabia” (p. 434).

 

5. Ao contrário do seu antecessor e do seu sucessor em Belém, Cavaco Silva manteve-se sempre distante dos Xutos & Pontapés e assumiu apenas o seu gosto pelo fado. De resto, Cavaco salienta em DCAG as homenagens que prestou a esse género musical e aos seus intérpretes, deixando de lado a homenagem que não prestou a Carlos do Carmo quando este ganhou o Grammy. Quanto a outros estilos de música portuguesa, se partirmos do princípio de que os concertos nos jardins do Palácio de Belém passavam pelo crivo do PR, Cavaco gosta de ouvir artistas como os Deolinda, José Cid, Luísa Sobral ou Paulo de Carvalho (p. 479).

 

6. Da Coligação à “Geringonça” pode ajudar-nos a responder à questão inicial sobre a actual solidão cavaquista. Relativamente aos partidos à esquerda do PS, a distância é óbvia: Aníbal deixa bem claro que os apoiantes de BE e PCP estão do lado errado da linha que separa as pessoas sensatas dos malucos. Dentro dos socialistas, a já escassa simpatia pelo patriarca da família Cavaco desapareceu de vez após a derrota de Seguro. A direita pode ter encontrado no “seu” Presidente, em certas ocasiões, um aliado contra o inimigo comum, mas a proximidade é apenas aparente. O centro-direita considera o estilo cavaquista demasiado sectário e fechado, enquanto os liberais nunca poderão ver em Cavaco Silva um dos seus, devido à falta de ódio pelo Estado e à excessiva preocupação com aquilo que as pessoas vão pensar reveladas em DCAG pelo autor. Afastado o país político, restariam os cidadãos comuns para acarinhar o homem do povo vindo de Boliqueime. No entanto, os dois volumes de Quinta-Feira e Outros Dias, apesar de pródigos em referências a deslocações de Cavaco a IPSS e empresas, mostram que, na relação entre o país e o então Presidente, era sempre o primeiro a ter de visitar o segundo. O país que conseguia entrar em Belém, contudo, limitava-se quase sempre às delegações da UGT e das confederações patronais ou a economistas com opiniões idênticas às do anfitrião. Entretanto, a memória colectiva preserva ainda inúmeros episódios embaraçosos para Cavaco por este ignorados no texto, entre eles as declarações sobre a exiguidade da sua reforma que deram início a um efeito “bola de neve” através do qual tudo o que o PR dizia só agravava a sua impopularidade. A pouco e pouco, o círculo à volta de Aníbal foi ficando cada vez mais restrito e limitado a figuras como o seu antigo consultor António Araújo, autor de um posfácio onde, apesar de continuar a trabalhar para a Presidência da República, Araújo deixa insinuações no ar com os seus elogios ao acerto das “intervenções públicas ponderadas ao milímetro no tempo e no modo, e também no verbo” (p. 519) do predecessor de Marcelo Rebelo de Sousa.

 

7. O objectivo natural das memórias de Cavaco Silva é fixar a imagem do autor que este gostaria de ver passar para a História. Trata-se, no entanto, de uma pretensão ingénua, tão notória é a diferença entre o personagem quase perfeito de Quinta-Feira e Outros Dias (Cavaco admite apenas que por vezes não terá “sido porventura suficientemente claro” ao explicar as suas decisões) e a realidade já conhecida. O trabalho de um eventual biógrafo de Aníbal Cavaco Silva parece ter de consistir, para lá do levantamento das fontes, na descoberta daquilo que nelas não é dito, uma tarefa destinada a um jornalista habituado a entrevistar fontes anónimas ou pouco dispostas a falar. Joaquim Vieira seria a opção ideal para investigar o passado de Cavaco Silva, mas existe um problema: Vieira segue a norma de biografar apenas homens com sucesso entre as mulheres (Cunhal, Soares, Balsemão, Saramago) e a entediante monogamia de Cavaco não permite antever dados de interesse nessa área.

 

 

O discurso

 

1. “Quando eu digo à Carolina, ao Tomás, ao Gui ou à Rita – os meus quatro filhos (…)”

 

Nas crónicas, no Governo Sombra ou nos livros infantis de que é co-autor, João Miguel Tavares (JMT) expõe muitas vezes a sua vida pessoal, recorrendo a episódios da história da família Tavares, e o discurso do 10 de Junho em Portalegre não poderia ser excepção. A revelação do quotidiano doméstico do analista contribui para aproximá-lo do leitor, disposto a rever-se em pequenas peripécias semelhantes às suas. Neste caso, a trajectória pessoal de JMT permite-lhe afirmar-se como um rapaz do Interior “sem qualquer ligação à capital e às suas elites”, mas que não deixou esse facto impedi-lo de chegar “até aqui”. As repetidas alusões a percursos individuais acabam, contudo, por deixar sérias dúvidas quanto à relevância deles para o tema tratado e à possibilidade de generalizar a partir de casos específicos. Tavares refere “histórias de vida impressionantes” de “gente banal envolvida em feitos extraordinários” para mostrar como todos os portugueses constroem um país melhor. No entanto, se formos por aí, as personagens do livro Os Cinco Pilares da PIDE (aquele cuja introdução João Miguel resumiu na expressão “patati patatá”), de Irene Flunser Pimentel, foram tão comuns e tipicamente portuguesas como os ascendentes do casal Tavares, sem que isso as impedisse de matar e torturar concidadãos. Para cada bom exemplo, há um mau exemplo que relativiza qualquer caso particular.

 

 

2. “Os portugueses lutaram pela liberdade em 1974. Lutaram pela democracia em 1975. Lutaram pela integração na Comunidade Europeia nos anos 80. Lutaram pela entrada na moeda única durante a década de 90. Não é fácil saber por que é que estamos a lutar hoje em dia.”

 

Na verdade, falar em “portugueses” unidos pelo mesmo objectivo em 1974, 1975 e 1985 revela-se abusivo, na medida em que os desenlaces desses momentos históricos implicaram sempre a existência de derrotados, fossem eles os indivíduos com posições de poder no Estado Novo, os defensores da “democracia popular” ou os eurocépticos de esquerda e direita. Quanto aos anos 90, eu ainda me lembro deles e não me recordo de uma mobilização colectiva da população para o desígnio de entrar no euro, até porque ninguém consultou os portugueses a esse respeito. Para lá da causa de Timor, essa sim com grande impacto na opinião pública, a última década do século passado ficou marcada pela tendência crescente de despolitização dos eleitores. Os lamentos pela elevada abstenção ouvidos após as europeias de 2019 foram idênticos aos de 1999. Neste último ano, a falta de interesse dos cidadãos pelos partidos era parcialmente influenciada pela atitude dos média, que então apresentavam a política ou como algo demasiado complexo e entediante para os jovens perceberem ou como uma sucessão de jogos palacianos urdidos e depois comentados pelo professor Marcelo, mas havia um lado bom na acalmia do entusiasmo pós-revolucionário pela política. O crescimento económico, o balanço positivo do primeiro quarto de século de democracia e a impressão de ascensão social obtida por famílias da classe média como os Tavares esvaziaram as tensões sociais e banalizaram o quotidiano partidário. O século XXI e, em particular, a crise económica iniciada em 2008 revelaram a fragilidade de tudo e repolitizaram a sociedade. O discurso de JMT levanta também dúvidas quanto à natureza dos temas mobilizadores e do “alguma coisa em que acreditar” pedidos pelo alentejano aos políticos. Apesar de João Miguel enunciar objectivos como a promoção da mobilidade social e o combate à corrupção, não existe uma solução única para cada um desses temas, geralmente analisados de forma oposta pela direita e pela esquerda, com terapias diferentes conforme os diagnósticos de cada uma. E isso é bom e salutar numa democracia.

 

 

 

3. “No século XVI, Luís de Camões já cantava os seus amores por uma escrava de pele negra (…). Para desarrumar os estereótipos, talvez precisemos de um pouco menos de Lusíadas e de um pouco mais de lírica camoniana.”

 

Ao contrário do que por vezes se diz, Os Lusíadas é um poema recheado de crítica social, onde Camões glorifica o passado lusitano, mas também deixa claro que o apogeu de Portugal já foi substituído por uma “austera, apagada e vil tristeza”. No livro publicado em 1572, o poeta faz duras acusações aos grupos sociais que hoje designaríamos por “elites” e denuncia os servidores da Coroa apenas desejosos de “poder com torpes exercícios/Usar mais largamente de seus vícios”. JMT poderia ter utilizado citações camonianas deste teor para mostrar que algumas coisas nunca mudam. Por outro lado, a referência às “Endechas a Bárbara escrava” enquadra-se na crítica de Tavares à suposta auto-flagelação ocorrida no âmbito do debate acerca dos Descobrimentos e do passado colonial. Mais uma vez, o caso particular de um poeta apaixonado por uma escrava não diz muito sobre o carácter mais ou menos pacífico das relações entre os portugueses e as populações extra-europeias.

 

 

4. “Achamos que temos de ser pessimistas para sermos lúcidos. Que temos de ser desesperançados para sermos realistas. Que temos de ser eternamente desconfiados para não sermos comidos por parvos.”

 

Com um optimismo antropológico raro na direita, João Miguel Tavares acredita na evolução favorável das mentalidades e na capacidade de mudar o país, rompendo com o “discurso fatalista de um Portugal que é assim, porque nunca foi de outra maneira”. Incluída num discurso que concentra muito do universo pessoal de JMT, esta atitude positiva seria teoricamente louvável. No entanto, a produção intelectual de Tavares na rádio, imprensa e televisão tem deixado uma sensação inquietante, provocada pela notória ingenuidade do portalegrense. Por exemplo, aquando do anúncio da resolução do BES em 2014, João Miguel louvou um modelo em que “o zé-povinho fica de fora”, sem necessidade de injecções de capital público no Novo Banco. Aos colunistas que então duvidaram desse cenário, JMT respondeu acusando-os de terem a mania de dizer mal de tudo. Ao longo dos anos seguintes, o “filho de dois funcionários públicos” revelou uma tendência curiosa para ver o Diabo onde ele não estava e desvalorizar as ameaças apontadas pelos outros comentadores. A maior ingenuidade de Tavares está, porém, na dificuldade em compreender que a dureza do seu vocabulário acerca dos políticos e da falta de empenho destes na luta contra o “problema real, grave, disseminado” da corrupção pode deixar a porta aberta para gente perigosa entrar.

 

 

5. “Não podemos nem devemos esquecer ou minimizar insatisfações, cansaços, indignações, impaciências, corrupções, falências da Justiça, exigências constantes de maior seriedade ou ética na vida pública.”

 

Esta frase não foi dita por João Miguel Tavares, mas sim pelo comentador-mor da República, Marcelo Rebelo de Sousa, que assim descreveu de forma exacta o conteúdo das intervenções públicas semanais de JMT. O adjectivo “constantes” remete, aliás, para o cansaço de alguns ouvintes e telespectadores com tantas referências do alentejano a José Sócrates. A escolha de Tavares como organizador das comemorações do Dia de Portugal foi justificada por Marcelo precisamente com a declaração atrás citada. A surpreendente opção presidencial terá tido em conta a vontade de atrair atenções para o 10 de Junho através da presença de uma celebridade televisiva, em contraste com as figuras respeitáveis mas de escassa notoriedade ligadas às cerimónias anteriores. Todavia, existe uma teoria (que por certo JMT consideraria fruto de uma mente eternamente desconfiada) segundo a qual, ao fornecer um palco a João Miguel, o Presidente daria uma piscadela de olho à direita revolucionária na qual o portalegrense se insere, dotada de grande visibilidade mediática. Trata-se de um dos poucos sectores do eleitorado dispostos a não votar em Marcelo nas eleições de 2021, devido a uma alegada simpatia excessiva do Presidente para com a Geringonça e António Costa. Os membros da direita mesmo direita poderiam escolher outro candidato ou, mais provavelmente, ficar em casa. Nesse sentido, a legitimação do discurso dessa área política através da escolha de um dos seus principais representantes para falar no 10 de Junho contribuiria para apaziguar os anti-marcelistas e convencê-los a evitarem a abstenção. Entretanto, o discurso de João Miguel Tavares teve um forte impacto nas redes sociais, através de sucessivas partilhas e abundantes elogios em páginas como a da Iniciativa Liberal. Actualmente, num contexto de crise do PSD, fracasso do CDS e escassa relevância dos novos partidos de direita, o país do Observador fala muito da necessidade de projectos alternativos, centrados em pessoas novas na política e com discursos de ruptura. No fundo, um arraial right pride conduzido por alguém mais inteligente que André Ventura. De momento, João Miguel Tavares está ocupado, mas em 2026, quando a Carolina, o Tomás, o Gui e a Rita já estiverem crescidos, quem sabe se o exemplo de Sampaio da Nóvoa não dá origem ao movimento TAP (Tavares à Presidência)?

 

O intelectual revolucionário

Numa entrevista concedida a Carlos Vaz Marques e publicada na Ler de Janeiro de 2010, Rui Ramos recordou a sua adolescência passada no distrito de Setúbal, uma “zona profundamente de esquerda, onde o ar cheirava a esquerda, a comida sabia a esquerda e em casa tinha pais de esquerda”, enquanto na escola o jovem Rui era doutrinado no esquerdismo pelos programas do ensino do pós-25 de Abril. À semelhança de algumas pessoas educadas em ambientes muito religiosos que se tornam ateias para toda a vida, Rui Ramos teve “uma enorme reacção àquilo que nos tentaram impingir”. Nos anos seguintes, Rui tornou-se historiador, apresentou novas interpretações da História Contemporânea portuguesa, lançou-se na escrita de crónicas sobre política e foi um dos fundadores e administradores do Observador, onde os artigos de opinião de Ramos enunciam frequentemente temas e expressões depois replicados por outros colunistas. Na actualidade, Rui Ramos é, juntamente com Raquel Varela, o mais destacado “intelectual público” português oriundo da historiografia.

 

Os compradores da revista comemorativa do quinto aniversário do Observador estão a receber como brinde livros publicados pelo projecto editorial Cinco Um Zero (ligado ao jornal e coordenado por João Miguel Tavares), podendo optar entre compilações de crónicas de José Manuel Fernandes e Rui Ramos. No caso deste, o volume A Conspiração Oligárquica reúne textos do historiador publicados na Internet entre 2014 e 2019 com um fio condutor a uni-los: a denúncia por Ramos, numa escrita clara, sucinta e mordaz, dos esquemas da “oligarquia” lusitana e da forma como a elite política utiliza o Estado para controlar a sociedade. Apesar do brilho estilístico, a leitura de A Conspiração Oligárquica desperta algumas dúvidas a seguir enunciadas.

 

1. A conversa de André Ventura sobre os políticos do sistema que vivem há 40 anos à custa do povo não será uma versão mais “popular” e aparvalhada das afirmações de Rui Ramos? Diga-se que, no prefácio do livro, Ramos recusa ver em “meia dúzia de populistas de televisão” (p. 10) uma alternativa ao regime vigente.

 

2. Na entrevista de 2010 à Ler, Rui Ramos explica a aparente contradição entre ser liberal e funcionário público, na qualidade de investigador do ICS, com o inevitável recurso ao financiamento do Estado para fazer História num país como Portugal. Todavia, outras contradições ligadas ao historiador permanecem. Durante toda a sua carreira, Rui Ramos investigou as elites políticas e intelectuais portuguesas, sem nunca parecer incomodado com o papel delas, excepto talvez no que respeita ao período da I República. Nesse sentido, o discurso anti-elitista assumido por Rui nas suas crónicas políticas tem uma aparência bizarra, além da ideia do Observador (financiado por accionistas de elevados recursos) ser o representante do povo contra as elites não convencer ninguém. Também não se compreende como é que Pedro Passos Coelho, quase sem actividade profissional fora da política ao longo de décadas, não pertence à oligarquia, definida por Ramos de forma bastante vaga. Por vezes, “oligarquia” parece ser a definição do cronista para “pessoas que aparecem na televisão e de que eu não gosto”.

 

3. Defensor de uma mudança de regime que mantenha a democracia mas renove profundamente o leque partidário, Rui Ramos acredita que “mudar o sistema político teria de consistir em mudá-los a eles” (p. 38), ou seja, aos partidos em actividade desde 1974. Não é claro, porém, onde seria recrutado na “sociedade civil” o pessoal político da IV República. Ao longo dos últimos anos, o leitor das crónicas de Ramos ficou a saber que os políticos se servem do poder apenas para seu benefício pessoal, que o Estado Social, essa fábrica de vassalos, só oprime os cidadãos e atrapalha a livre iniciativa, que as medidas governativas visam apenas criar clientelas partidárias e satisfazer interesses corporativos, que os impostos são um saque brutal, que a comunicação social está feita com quem manda, que os funcionários públicos e beneficiários de subsídios são parasitas que nunca arranjariam emprego no sector privado, que os compromissos entre partidos estão ligados à repartição por estes do bolo do Orçamento, em resumo, que a melhor coisa que o Estado pode fazer por nós é desaparecer. Depois de ler isto tudo, quem não se sente estimulado a ir para a política?

 

 

4. Numa das crónicas, o autor de A Conspiração Oligárquica condena uma “visão demoníaca” acerca dos adversários políticos que os considere o “mal absoluto”. Essa perspectiva leva à “redução da discussão pública à propaganda e à contra-informação”, num ambiente em que não é permitido aos líderes partidários “dizer nada que não seja abençoar os seus ou demonizar o inimigo”, sob pena de serem acusados de “trair a causa” (pp. 67-68). Obviamente que Rui Ramos se refere à atitude da esquerda. De quem mais poderia estar a falar?

 

5. Rui Ramos é um revolucionário. De facto, se alguém quiser imitar a escrita de Ramos, basta pegar em qualquer texto publicado num jornal de extrema-esquerda dos anos 70 e substituir “burguesia” por “oligarquia”, “capital” por “Estado” e “Mário Soares” por “Rui Rio”. As semelhanças são notáveis, até porque o historiador não dispensa os tiques dos antigos intelectuais “progressistas”. Ah, o prazer da generalização abusiva, a saudável visão confrontacional da política, a doce ideia de que quem não é por nós está contra nós (“o “centro” quer dizer o Estado e as suas clientelas”, p. 151), a divertida superioridade moral, o sonho poético de destruir tudo o que existe para construir um futuro luminoso, o sensato desprezo pelo povo que não se comporta como o revolucionário quer… Seja qual for a orientação, o radicalismo dá tanto sabor à vida.

 

6. O biógrafo de D. Carlos não alinha nos “gritos histéricos contra Trump e Bolsonaro” (p. 175) e vê na suposta ameaça fascista apenas um fantasma criado pela esquerda para atacar a direita e considerá-la ilegítima. Qualquer líder político não socialista seria, assim, silenciado por gritos de “fascista” e “Bolsonaro”. Claro que Rui Ramos não é um fascista. Aliás, o historiador critica o Estado Novo por ter acreditado que “Portugal podia ser um mundo à parte” (p. 158) do resto da Europa. No entanto, à medida que os anos passam e os textos de Ramos se tornam cada vez mais azedos, percebemos que Rui não acharia mal se a democracia hoje dominada pela “oligarquia” se fascizasse só um bocadinho. Para aí uns 10%.

 

7. Ao criticar o aproveitamento político da vitória portuguesa no Euro 2016, Rui Ramos aponta a contradição presente no facto dos políticos que receberam em festa a selecção integrarem “a mesma oligarquia que durante anos subsidiou uma razoável quantidade de artigos, livros e congressos a castigar o modo perverso como a ditadura salazarista explorava o futebol” (p. 63). Será que o Dr. Ramos poderia indicar dois ou três exemplos dessa abundante produção científica financiada pelo Estado? Pelo que sei, antes de 2008 não existia praticamente nada na historiografia portuguesa acerca do futebol durante o Estado Novo e, a partir desse ano, os autores que se dedicaram ao tema desmentiram a teoria dos “três efes”. Talvez os oligarcas costumem esconder o trabalho historiográfico pago pela FCT em arquivos secretos aos quais apenas Rui Ramos consegue aceder.