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Desumidificador

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Os meus sobrinhos

Tenho dois sobrinhos, um rapaz com seis anos e uma rapariga com dois. Não vou partilhar aqui os nomes e imagens deles, numa tentativa de proteger a privacidade dos miúdos até ambos terem as suas próprias contas no Instagram (ou, mais provavelmente, noutra rede social que então estará na moda). Por isso, imaginem dois sorridentes moços lisboetas que gostam de brincar no parque, ver desenhos animados no You Tube e testar os limites da paciência dos pais. Num momento, são teimosos e caprichosos como só as crianças conseguem ser, para logo a seguir se tornarem inocentes e ternurentos ao ponto de derreterem o coração mais empedernido. Ainda parecem desenhos inacabados a que se acrescenta um traço a cada dia, mas por vezes mostram características psicológicas capazes de perdurar pela vida fora.

Muito me ensinaram estes dois infantes ao longo dos últimos anos. Desde logo, revelaram-me uma forma de amor que desconhecia, sempre acompanhada pelo medo de que algo perigoso lhes aconteça. Impressionaram-me pela naturalidade com que entraram no filme, como se estivesse tudo preparado há muito tempo no plateau para eles surgirem diante das câmaras, e pela rapidez e eficácia da sequência em que o mais velho deixou a sua actuação a solo para constituir uma dupla imbatível com a irmã. Fizeram-me compreender melhor a ideia da mudança e da continuidade na história e despertaram o meu interesse pelos antepassados de que eles são herdeiros sem o saberem. Recordaram-me como correr atrás de bolas podia ser divertido, levaram a que descobrisse coisas que já deveria conhecer (como a música de José Barata-Moura ou os livros da colecção do Sapo, de Max Velthuijs) e aumentaram muito o meu interesse pelo futuro. Para além, é claro, de provarem a conclusão óbvia de que, apesar das ordens serem dadas pelos adultos, são os putos quem verdadeiramente está no comando da família desde o dia em que nascem.

 

 

Ao mesmo tempo, os catraios enchem-me de dúvidas. Para começar, seria preferível que eles continuassem pequenos e fofinhos ou que precisassem em breve de usar a senha do Portal das Finanças? E até começarem a engrossar a receita fiscal do Estado, o que posso eu fazer por eles? Conseguirei explicar-lhes que Deus está no silêncio? Contar-lhes o choque que sentimos quando as Torres Gémeas foram destruídas? Descrever-lhes o ambiente apocalíptico das semanas em que a pandemia que eles eram demasiado novos para compreenderem (ou talvez não) começou? Pedir-lhes perdão por não ter feito mais para travar as alterações climáticas? Recordar com saudade o tempo em que não havia VAR no futebol? Falar-lhes do que aconteceu com D. Afonso IV quando forem adolescentes e erguerem as espadas contra os pais? De momento, é impossível saber, mas pouco importa. Os meus sobrinhos escreverão a sua própria história usando palavras que ainda nem sequer foram criadas e eu limitar-me-ei a lê-la com uma eterna expectativa pelo que acontecerá no próximo capítulo.

 

 

Perguntas da criança curiosa

Mas afinal o que é o socialismo?

O que é o sistema?

O que é o regime?

O que é a oligarquia?

Quem expulsa os poderosos não se torna o novo poderoso?

Se todos os países baixarem os impostos, as empresas investem em todo o lado?

Se os colégios privados dependem assim tanto do financiamento estatal, não há algo de errado com o negócio deles?

A ideia não era que a esquerda queria mudar o mundo e a direita mantê-lo tal como está?

Há alguma medida que garanta por si mesma que nascerão mais crianças?

Porque é que se diz que um político se aproxima do “povo” quando se comporta como se fosse um puto?

Como é que as mesmas pessoas que arrasam diariamente o Estado e a política querem que apareçam novos políticos?

Quando se diz que se quer “devolver a cidade às pessoas”, isso significa que actualmente a cidade pertence aos cães?

Se disser aos gritos que o meu adversário é intolerante, passo a ser tolerante?

Entre o politicamente correcto e o politicamente incorrecto, não será que as pessoas simplesmente têm cada vez mais dificuldade em aceitar a existência de coisas de que não gostam?

Ser egoísta é ser rebelde?

A democracia directa é uma forma radical de liberalismo?

 

 

Haverá algo mais perigoso do que um revolucionário que acredita mesmo naquilo que diz?

Para ser um conservador, é obrigatório acreditar que actualmente se vive um frenesim hedonista em que toda a gente só faz o que lhe apetece?

Porque estamos sempre a ouvir que aquilo que é público deve ser privado e aquilo que é privado deve ser público?

Há partidos com projectos de poder e outros que estão nisto da política pelo convívio?

Existirá sempre uma crença absurda para justificar algo que beneficia os nossos interesses?

Se num mundo sem religião não haveria violência, o que aconteceu na União Soviética?

Anunciar que algo não é ideológico é em si mesmo uma ideologia?

Porque é que a indignação vende tão bem?

Os portugueses estão mais exigentes com os políticos ou apenas com os políticos da outra trincheira?

Os eleitores votam sempre em quem lhes paga?

Porque é que os jovens e os idosos são todos iguais e cada indivíduo de 40 anos é diferente dos outros da mesma idade?

Poderá a propaganda política não ser nem demasiado convencional nem demasiado tolinha?

O que é que os países da Europa de Leste têm que nós não temos?

Quem está dentro da bolha e quem sopra no sabão?

Odivelas, que futuro?

Não se prevêem grandes novidades nas eleições autárquicas em Odivelas, até porque PS, CDU e BE apresentam os mesmos candidatos de 2017 (Hugo Martins, Painho Ferreira e Paulo Sousa, respectivamente) e Marco Pina, o rosto de uma coligação composta pelo PSD e por seis pequenos partidos (CDS, PPM, MPT, Aliança, PDR e RIR), não parece estar a gerar uma vaga de fundo semelhante àquela que quase levou Hernâni Carvalho à vitória em 2009. A maior incógnita diz respeito aos resultados dos estreantes Chega e Iniciativa Liberal. Embora o candidato cheguista à Câmara seja o empresário de 63 anos Nuno Beirão, parente de Francisco Sá Carneiro, a verdadeira estrela é Hugo Ernano, o célebre militar da GNR que matou uma criança cigana numa perseguição em 2008 e pode agora ser eleito deputado municipal. A IL apresenta uma lista encabeçada por Filipe de Sousa Martins, mas, como é habitual nos liberais, o candidato (uma “pessoa comum”) vê a sua individualidade anulada e limita-se a ser um pregador do programa eleitoral, no qual são referidas várias estruturas que seriam criadas pelo Município e exploradas por privados. Sem sondagens disponíveis, podemos apenas especular se o PS manterá a presidência de todas as juntas de freguesia, o PAN conseguirá ficar na Assembleia Municipal ou as novas forças à direita causarão rombos na votação de Pina. As redes sociais, onde predominam pessoas ligadas aos partidos e outras que desconfiam mal vêem um político a aproximar-se delas, não contribuem muito para o esclarecimento das tendências eleitorais. Para lá dos cartazes e dos ainda poucos folhetos difundidos, os candidatos fazem campanha através de visitas a instituições da sociedade civil (muito melhor que a sociedade militar) como IPSS, clubes ou congregações religiosas. Ignora-se até que ponto as restrições sanitárias permitirão contactos directos com o eleitorado na rua nas semanas anteriores a 26 de Setembro.

Em resumo, parece natural que se repita uma abstenção superior a 50%. Na verdade, o poder local, apesar da sua proximidade, costuma ser aquele que os odivelenses menos acompanham e escrutinam. A actividade das juntas de freguesia, centrada em funções essenciais ao quotidiano (limpeza das ruas, conservação de zonas verdes, assistência alimentar aos mais pobres, etc.) mas por isso mesmo banais, passa geralmente despercebida. Relativamente à CMO e à AMO, não existe muita informação para lá daquela que os próprios partidos e autarquias fornecem, devido à ausência de uma imprensa local credível e de um público disponível para consultá-la. A tradicional falta de espírito comunitário num concelho onde muitos habitantes vieram de outro município, país ou continente também não ajuda ao interesse pelas questões locais. A maioria dos cidadãos só contacta com as entidades autárquicas quando estas lhe fornecem algum serviço ou realizam projectos que interferem com o seu quotidiano. Por esse motivo, episódios recentes como as obras na Avenida D. Dinis e noutras artérias da sede de concelho ou o funcionamento do centro de vacinação no Pavilhão Multiusos (aquele onde Gouveia e Melo subiu para o tejadilho do carro) podem influenciar o sentido de voto da população que ainda se dirige às urnas.

 

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Seria bom compreender como é heterogénea esta Odivelas já com 23 anos de governação autónoma. As ruas construídas por Tomás José Olaio que acolheram o crescimento populacional vertiginoso dos anos 60 e 70 parecem agora pertencer a uma época distante e até as torres de bairros como a Arroja e a Codivel sofrem a erosão do tempo. Surgidas já no século XXI, as Colinas do Cruzeiro tornaram-se uma cidade dentro da cidade e os colinenses são olhados por outros odivelenses com um misto de inveja e preconceito de classe. Pessoas muito diferentes ao nível da religião, do rendimento ou das qualificações fixaram-se em Odivelas devido às acessibilidades e aos preços da habitação, fazendo nascer gerações que cresceram numa terra em expansão quase contínua mas pouco consciente do seu passado. Sem fugir à sua condição de arrabalde, mas provando que o subúrbio não é todo igual, Odivelas oscila entre extremos e por vezes parece um microcosmos do país. Analisados em detalhe, os resultados eleitorais conhecidos já no dia 27 poderão ajudar a detectar a expressão política da pluralidade local.

 

P.S. Comprem na Churrasqueira Odimar, uma das lojas mais antigas de Odivelas. Estamos disponíveis para encomendas de partidos interessados em atrair eleitores ao Frango Liberal ou à Festa Socialista do Queijo de Nisa.

Ao ritmo das redes

Durante a campanha para as eleições europeias de 2009, o Bloco de Esquerda distribuiu um folheto com o título “Facebloco” e um grafismo imitando o layout então utilizado pelo Facebook. Além de fotografias e supostos posts dos candidatos Miguel Portas, Marisa Matias e Rui Tavares, o folheto incluía secções como “Amigos”, “Causas”, “Agenda” ou uma lista de adversários “Bloqueados” por um BE que “está a mudar a Europa, a mudar Portugal”. Numa altura em que o Bloco se opunha a propostas de vigilância da Internet (“Tirem as patas dos nossos computadores”), o Facebook e as outras redes sociais (RS) eram ainda uma novidade usada por Cavaco Silva para parecer moderno e cujas consequências políticas permaneciam desconhecidas. Muito mudou desde então quer nas RS quer na política portuguesa, modificada pelos espaços virtuais em diferentes aspectos.

 

O ritmo: Tudo acelerou. Um dia noticioso passou a ser uma eternidade e qualquer reacção a um facto deve ser instantânea para não ficar automaticamente desactualizada. A pressão feita por sucessivos comentários escritos online em poucos minutos pode conferir a um tema da actualidade dimensões esmagadoras para os envolvidos. A discussão nos cafés gigantes da Internet torna o escândalo instantâneo e incontornável. Não há como fugir ao ruído e políticos como Marcelo Rebelo de Sousa, por mais que se anunciem distantes das RS, mantêm os ouvidos sempre atentos ao clamor destas. No entanto, a rapidez com que uma polémica cresce só é superada pela rapidez com que ela desaparece. Cada semana, cada dia, cada hora são espaços delimitados onde se vive de forma intensa e efémera. Este ritmo até pode parecer estimulante, mas na verdade faz lembrar o quotidiano de uma criança birrenta.

 

O conteúdo: Antes das RS, o discurso político guiava-se pela elevação, pelo rigor estilístico da oratória e pela análise aprofundada dos temas debatidos. OK, não era bem assim, mas o incentivo de plataformas como o Twitter e o Facebook à brevidade dos textos e à utilização de frases curtas e fortes, mais slogans e menos argumentos, contagiou a linguagem dos políticos, jornalistas e comentadores. Muitos deles acabaram, consciente ou inconscientemente, por adaptar o léxico aos gostos de quem faz “gosto” nos conteúdos que as figuras mediáticas produzem a pensar no nicho do qual depende a sua relevância pública. O resultado foi o predomínio de um português cada vez mais básico, inflamado e homogeneizado de acordo com aquilo que a plebe supostamente aprecia. Tentar superar essa fasquia constitui um sinal evidente do elitismo de quem usa palavras complicadas para enganar o povo.

 

Fake: Sim, a mentira sempre foi usada como arma política através de boatos e falsificações. Porém, a rapidez de difusão e o alcance planetário que a desinformação pode ganhar num meio como as RS dão uma dimensão completamente nova ao problema. Ora essa, quem seria ignorante ao ponto de acreditar em qualquer disparate publicado num site manhoso que lhe apareça no telemóvel? Bem, para além de nunca se dever subestimar o poder da estupidez, há que ter em conta que as fake news vão sempre de encontro àquilo que já pensamos. Se não gostarmos de um político, uma mentira sobre um suposto acto malévolo da sua autoria só acentuará as nossas convicções quanto a ele e aumentará o apoio aos seus adversários. Nem precisa de ser uma completa aldrabice: basta pegar numa informação, isolá-la das restantes e apresentá-la no ângulo certo para gerar a indignação pretendida. Como os factos não mentem (risos), o alvo será irremediavelmente desacreditado. Claro que o visado pode vir explicar, desmentir ou contextualizar e, pouco depois, o episódio em causa será esquecido como todos os outros (até um dia ser recuperado como se fosse novidade), mas a indignação fabricada perdurará para sempre no coração de quem a sentiu.

 

Admirável mundo novo: As RS trouxeram uma democratização da opinião publicada que transformou cada um de nós num comentador político, desportivo, económico, etc., enquanto a troca de dados e ideias atingiu dimensões nunca sonhadas. Nos suportes virtuais, foram alcançadas a liberdade, a igualdade e a fraternidade plenas, vividas num mundo em que podemos dizer tudo o que quisermos, a opinião dos leigos vale tanto quanto a dos especialistas e há sempre mais alguém que pensa como nós e gosta do que dizemos. É a distopia perfeita. Nela, qualquer discurso pode ser arrasado, qualquer informação contraditada, qualquer preconceito normalizado. O grande risco está na tendência para fazer esta lógica sair dos ecrãs e alastrar à política da vida real.

 

 

A fragmentação: O sucesso dos novos partidos seria impossível sem as RS, como o próprio André Ventura reconheceu ao destacar como elas permitiram ao Chega contornar as barreiras na comunicação social e difundir a sua mensagem em larga escala. As redes facilitaram também a aproximação de pessoas com opiniões semelhantes e a estruturação interna das novas formações políticas em núcleos diferentes do velho modelo de concelhias e distritais, além de proporcionarem meios de propaganda mais baratos que os tradicionais cartazes e panfletos. Após a entrada no Parlamento, bastou a IL e Chega disporem da atenção das câmaras da ARTV para criarem inúmeros vídeos partilhados online nos quais os seus líderes saem sempre vencedores dos duelos verbais com deputados de outros partidos. Enquanto estes não conseguiam descolar da antiga política feita para a televisão, os recém-chegados lançaram truques direccionados para as RS, como a apresentação de resultados de votações na Assembleia da República que, podados de explicações e contraditórios, mostravam como os adversários votavam sempre contra o bem e a justiça. Tudo isto contribuiu para uma maior fragmentação das preferências eleitorais e retirou dinamismo aos partidos oriundos de 1974. Sem avaliar aqui as virtudes e defeitos deste fenómeno, há que reconhecer que o efeito de bolha presente nas RS leva o discurso de cada partido a dirigir-se a um público muito específico e ideologicamente demarcado, com os líderes a recearem sempre perder a limitada base de fiéis de que ainda dispõem. Ao contrário dos tempos em que políticos de casacos respeitáveis como Paulo Portas detinham o monopólio da “gritaria”, agora pode sempre aparecer alguém que grite mais alto nas RS de modo a atrair para si as atenções e os eleitores.

 

O delay: Aprovação da Carta de Direitos Humanos na Era Digital, nomeação de Pedro Adão e Silva para dirigir as celebrações dos 50 anos do 25 de Abril, acidente de viação com o automóvel de Eduardo Cabrita. Logo que estes e outros eventos ocorreram, verificou-se um intenso escrutínio político e mediático em que os dirigentes da oposição apresentaram protestos espontâneos e com palavras da sua autoria, enquanto os jornalistas seguiam o instinto profissional e procuravam a verdade de forma objectiva. Foi isto que aconteceu? Claro que não. Só vários dias ou semanas depois dos acontecimentos, quando começaram a proliferar nas RS os rumores, as queixas e as acusações, foram repentinamente captadas pelos microfones apressadas proclamações do tipo “Ah, claro, é um escândalo, uma vergonha”. Não se trata de uma situação muito grave, mas faz bater as saudades. Lembram-se? Houve uma época em que os partidos eram relevantes ao ponto de influenciarem a agenda mediática, antes de entregarem esse poder a Rui Pinto e outros utilizadores do Twitter.

Ser católico

Os meus avós eram católicos fervorosos, embora seja questionável se no meio e na época em que eles viviam alguém poderia pensar em ser outra coisa. Obviamente, transmitiram a sua crença aos filhos e, pouco depois de eu nascer, os meus pais levaram-me à velha igreja matriz de Odivelas para receber o baptismo e começar a assistir à missa ainda antes de perceber o que lá era dito. Frequentei a catequese durante nove anos, sob a orientação de uma jovem catequista que depois se converteu ao comunismo. Se alguém disser de repente “creio em um só Deus”, consigo prosseguir a oração graças à minha mãe, que escreveu o Credo em folhas que li sucessivamente até decorar o texto elaborado no século IV. Nos anos 90, a Igreja Católica já enfrentava organizações concorrentes, as quais, pelo que então ouvia, consistiam sobretudo em grupos de pessoas meio esquisitas (as Testemunhas de Jeová) ou ingénuos burlados por “pastores” com sotaque brasileiro. Nada de comparável, portanto, à placidez das missas celebradas na matriz ou na igreja do Mosteiro, onde a música oscilava entre cânticos sonolentos entoados por velhos e os acordes de guitarra dos coros de jovens. Depois do crisma, tive de responder à pergunta “que farei com esta cruz?” Entre familiares que “adormeceram na esperança da ressurreição”, outros que se viram livres da formação cristã recebida e passaram a zombar da Igreja e ainda outros para quem a religião foi sempre um fenómeno remoto, optei por manter o terço no meu quarto, mas sem um envolvimento para lá de uma missa de vez em quando. Já tinha compreendido que o baptismo, ao invés de facilitar, torna mais exigentes as nossas vidas e ser cristão a sério inclui a obrigação de (usando uma expressão horrenda) sair da nossa zona de conforto. Sem uma fé suficientemente resistente para um esforço desses, achei que não valia a pena fingir ser aquilo que não era, até porque seria impossível enganar um Deus que me conhecia tão bem. A minha dúvida sempre foi sobre a forma como a crença de que Jesus ressuscitou se traduz no nosso quotidiano depois da missa acabar.

 

O que significa ser católico em Portugal hoje em dia? À primeira vista, continuamos a gozar o conforto de ser uma vasta maioria herdeira de uma cultura milenar, mas, analisando os pormenores para lá da multidão que enchia o Santuário de Fátima (o catolicismo português por vezes parece resumir-se ao culto mariano) antes da pandemia, percebe-se que os católicos deixaram de jogar sempre em casa. Não é caso para achar, como Henrique Raposo, que um dia nos vão prender e atirar aos leões (ou seja, obrigar-nos a enfrentar sozinhos uma turba da Juve Leo) se nos ouvirem rezar um Pai-Nosso, mas o ambiente social e cultural laicizou-se bastante nas últimas décadas. No discurso mediático, o Natal e a Páscoa foram descristianizados, comercializados e transformados em festas da comida desprovidas de conteúdo espiritual. Ao perder o ascendente político que parecia eterno, inclusive durante os primeiros anos de democracia, a Igreja assistiu impotente à legalização do aborto, do casamento homossexual e, em breve, da eutanásia. O clero acompanha e regista cada vez menos o nascimento, casamento e morte dos portugueses, enquanto os fiéis envelhecem e os novos sacerdotes escasseiam. A presença de referências ao Cristianismo na produção cultural (música, televisão, literatura, etc.) tornou-se residual. O discurso de vitória de 2016 que Fernando Santos encerrou com aquele “seja tudo para glória do Seu nome” causou estranheza pela raridade de uma manifestação sincera de fé no espaço público. A pouco e pouco, os católicos estão a transformar-se nas pessoas meio esquisitas, olhadas não propriamente com hostilidade, mas com uma certa estranheza. Assustados, alguns clérigos e leigos sentem que os bárbaros estão a chegar à cidade e refugiam-se atrás das muralhas, maldizendo o “politicamente correcto”.

 

 

E, no entanto, nada disto é necessariamente mau. Sobretudo desde que há oito anos o Papa Francisco pegou no balde e na esfregona para iniciar a necessária limpeza da casa de Deus, sabemos que a Igreja não precisa de se fechar em si própria, mas de contactar com o mundo real e mostrar a face do perdão e da tolerância. Sem o amparo do poder nem a capacidade de impor a sua visão do mundo à sociedade, o catolicismo tem de apostar no exemplo e na persuasão, não deixando de olhar para si mesmo e enfrentar aquilo que antes era varrido para baixo do tapete. Apesar de não serem uma solução mágica, o fim do celibato dos padres e a ordenação de mulheres poderiam reforçar a atractividade da carreira religiosa. Convencer as pessoas a serem católicas actuando num mercado livre, e já não numa situação de monopólio, será certamente mais difícil, mas também mais estimulante. A grande força da religião cristã reside na ideia de que as portas da Igreja estão sempre abertas para receber qualquer pessoa que se arrependa dos seus pecados e deseje encontrar a paz. Valorizar devidamente esta característica do nosso produto é o melhor truque publicitário.

Como ser um herói

Forme uma opinião: Antes de começar, é necessário um estudo cuidadoso que analise quem já está no terreno e as tendências em ascensão e declínio. Muita gente pensa erradamente que para alcançar o heroísmo basta pegar no discurso dos políticos que estão no poder e dizer o contrário. Isso é fundamental, mas deve ter cuidado para não integrar uma minoria muito minoritária. Ninguém lhe vai dar atenção se parecer um excêntrico que gosta de coisas que mais ninguém conhece. Por esse motivo, há que identificar desde logo um nicho de mercado cujas necessidades de opinião você possa satisfazer. Inicialmente, será você a adaptar-se às ideias deles, mas em breve o nicho começará a dançar a música que você toca.

 

Escolha um inimigo: Não há filme de super-heróis sem vilões, de preferência daqueles que podem voltar numa futura sequela. Por isso, tem de definir desde logo uma ou várias entidades a cujo combate dedicará o resto da sua vida. Não, “esquerda” e “direita” são termos demasiado vagos e antiquados. Existe um vasto leque de opções de onde pode escolher: a bolha, a casta, as elites, o sistema, os políticos, os poderosos, os intelectuais, os parasitas, a oligarquia, os bem pensantes, os indignados do costume, o marxismo cultural, o politicamente correcto… Se puder, crie a sua própria categoria e use-a vezes sem conta. Deixe sempre claro que o seu inimigo é poderosíssimo e controla todo o país (a começar pelos media), submetendo a população a um pensamento único contra o qual apenas você e um pequeno grupo de resistentes erguem a chama da revolta. Escusado será dizer que nunca deve incomodar alguém que tenha realmente poder para fazer uns telefonemas e arruinar a sua vida. Uma coisa é parecer corajoso, outra é ser louco.

 

Encontre o estilo certo: Os super-heróis distinguem-se do resto da população por disporem de capacidades especiais e enfrentarem os bandidos que as pessoas comuns não podem ou não querem combater. Precisa de exibir frequentemente os seus poderes, dando a entender que é mais corajoso, inteligente e engraçado que os outros comentadores e diz “as verdades” ocultadas por estes. Mostre absoluta convicção em tudo o que afirma e evite ao máximo palavras como “mas”, “talvez” e “não sei”. Confie no seu instinto e não procure factos para justificar as suas opiniões. Utilize uma linguagem simples, reduza o vocabulário e não refira filmes, livros, canções ou outros produtos culturais se estes não forem mesmo muito conhecidos (nenhum leitor ou espectador gosta de sentir-se ignorante). A pouco e pouco, baixe o nível e seja rasteiro e desagradável com os seus adversários. Se eles protestarem, não tenha piedade e lance-lhes a mais horrenda acusação que se pode fazer a alguém no século XXI. Sim, acuse-os de serem movidos por uma ideologia, enquanto você se limita a constatar objectivamente a realidade única e incontestável.

 

 

Crie uma claque: Os heróis sazonais, como os polícias, os bombeiros ou os profissionais de saúde, são esquecidos logo que a criminalidade baixa, o Verão acaba ou uma epidemia é controlada. Não pode permitir que isso lhe aconteça. Para tal, necessita de um grupo organizado de adeptos (GOA) que lhe garanta apoio permanente. As redes sociais constituem um terreno ideal para fazer crescer a falange que vai ouvi-lo, partilhá-lo, visualizá-lo, fazer like em si, enfim, mantê-lo vivo na selva da opinião publicada. Identifique os temas preferidos do seu GOA e dedique-lhes atenção exclusiva. Diga mal dos portugueses, acusando-os de não pensarem como você e os seus adeptos e, portanto, serem passivos e ignorantes. Assim, vai elevar a auto-estima dos filiados no seu GOA, que se sentirão uma excepção no meio da carneirada e agradecer-lhe-ão o elogio através da fidelidade. De vez em quando, conte episódios da sua vida (“Oh GOA, o que eu passei para cá chegar”) para reforçar a identificação dos leitores consigo. A dada altura, terá também alguns detractores que irão ao seu poiso virtual de propósito para insultá-lo e provocá-lo. Isso será um óptimo sinal, confirmando o crescimento da sua notoriedade e permitindo-lhe observar os membros do seu GOA (que queridos) a desancar os intrusos.

 

Queixe-se de censura: Mesmo quando você já aparecer ao mesmo tempo na rádio, na imprensa, na televisão e nas redes sociais, insinue que alguém o quer calar por não gostar daquilo que diz. Ponha a correr o boato de que o local onde opina recebeu pressões “vindas de cima” para despedi-lo e substituí-lo por um lacaio do poder. Quando for criticado por adversários e eles cometerem o erro crasso de lamentar que alguém como você tenha uma tribuna pública, explore isso ao máximo, gritando que os seus oponentes acabam de assumir que querem a Inquisição, a guilhotina, o Gulag, o regresso da PIDE e da censura (após dezenas de comparações com o Estado Novo, até parecerá que você esteve preso no Tarrafal). Com tanto ruído e indignação, eles vão pensar duas vezes antes de voltarem a abrir a boca, enquanto você, que está obviamente do lado da tolerância, goza de plena liberdade para lhes dirigir os mais pesados insultos. A verdade, a justiça e o modo de vida português venceram.

 

Poder, sim ou não?: Estar sempre na oposição tem as suas vantagens. Desde logo, não existe o risco das suas propostas serem levadas à prática e revelarem-se um desastre. Se as coisas correm mal, a culpa nunca é sua, enquanto se correm bem pode dizer que foi uma tremenda sorte e mudar de assunto. No entanto, às vezes a sua minoria transforma-se em maioria e você é obrigado a defender quem está no poleiro. Contudo, na prática pouca coisa muda. Afinal, as pessoas que você atacava continuam a existir e mantêm o seu controlo total sobre os bancos, os jornais, as igrejas, as pastelarias e os ranchos folclóricos. Portanto, a culpa continua a ser dessas forças de bloqueio que impedem os governantes de trabalhar. Cada problema que surge é uma oportunidade de vitimização. Quando houver manifestações contra a sua tribo, você terá o prazer de ficar em casa a criticar e ridicularizar quem estiver na rua e receberá o aplauso da minoria silenciosa. Não há como perder.

 

Há muito, muito tempo, os comentadores eram poucos e limitavam-se a trocar opiniões de forma mais ou menos civilizada. Hoje em dia, qualquer pessoa, por mais frases absurdas que diga (ou precisamente por causa delas), pode ter imensos seguidores e ser venerado por estes como um herói da vida real. Aproveite enquanto dura, pois há cada vez mais gente a seguir este roteiro e o heroísmo começa a banalizar-se. Lembre-se de uma frase do filme The Incredibles: “Quando todos forem super-heróis, ninguém será”.

Inquérito de Inverno

Qual é o teu maior talento? Memorizar informação inútil.

Quem escolheu Monty Python e o Cálice Sagrado como filme da sua vida naquele programa da RTP2? Ana Bola.

Pois… Qual é o teu melhor defeito? Falta de jeito para mentir.

E a pior qualidade? Disponibilidade para fazer cedências.

Se precisasses de usar um pseudónimo, qual escolherias? Mário Rodrigues.

Qual é a personagem de ficção mais parecida contigo? O Pato Donald.

A tua viagem de sonho? Voltar ao Porto.

Explicação mais disparatada para os votos no Ventura? O politicamente correcto.

Momento mais embaraçoso do António Costa? A comissão de honra do Vieira.

O que existe hoje em muito maior número que antigamente? Heróis da liberdade de expressão.

Se tivesses um gato, que nome lhe darias? Se fosse um macho, Robson. Se fosse uma fêmea, Dinamene.

O que gastaste demasiado tempo a fazer? Ver telenovelas.

O que gastaste tempo a menos a fazer? Escrever.

Expressão mais abominável do politiquês? “É preciso ter em conta a percepção instalada”.

O que deveríamos fazer com a percepção? Despejar dejectos sólidos sobre ela.

Porque são necessários historiadores no século XXI? Hoje em dia parece que tudo começou ontem e vai acabar amanhã.

As pessoas mudam com o passar do tempo? Nem por isso, por volta dos 6 anos o essencial da personalidade já está definido.

Uma coisa antiga que hoje parece melhor do que realmente era? Os clubes de vídeo.

O melhor título que já apareceu na CMTV? “Mulher de Macaco ataca de novo”.

Tema da actualidade sobre o qual não sabes nada? TAP.

Parte preferida da missa? “Fazei isto em memória de Mim”.

O que pode mudar tudo de repente? Um sorriso.

A comida de que nunca te fartas? O frango assado da loja do meu pai.

Gostavas de viver no campo? Não, penso que não faz sentido para quem não mexe na terra.

O melhor aspecto de viver na cidade? Anonimato.

Um familiar que gostarias de ter conhecido? O meu avô Zé.

Coisa mais assustadora que viste na televisão? O prof. João Paulo Oliveira e Costa a garantir que o processo E-Toupeira era uma conspiração das elites de Lisboa e Porto contra o Benfica.

 

 

Não se ama alguém que não ouve a mesma canção? Porque não?

“Ter uma irmã, uma companhia”? “Alguém como eu e tão diferente”.

Um medo? Entrar no filme errado.

Pessoa de direita intelectualmente brilhante? Paulo Portas.

Pessoa de esquerda intelectualmente medíocre? Alfredo Barroso.

Tens alguma coisa pequena que deveria ser maior? O currículo.

Tens alguma coisa grande que deveria ser mais pequena? A barriga.

Do que gostas mais nos teus sobrinhos? Cada vez que os encontro, é como se fosse a primeira vez.

Erro de ortografia mais irritante? “Despois”.

O futuro será melhor? Não vale a pena tentar prevê-lo.

Melhor canção sobre o canibalismo?Pela Fome Comidos”, de Fausto.

Acordo Ortográfico: contra ou a favor? Desde que me deixem escrever da única maneira que conheço…

Material da escola que ainda hoje te causa arrepios? Colchões verdes.

Sequela que ainda está por fazer? O volume 3 do C.A.O.S.

Um tema de estudo fascinante? O poder.

Algo de indispensável, mas sem exageros? O silêncio.

Um twist bem construído? Os Suspeitos do Costume.

Um bom programa de rádio sobre História? E o Resto É História.

Um mau programa de rádio sobre História? Histórias da História.

A grande virtude do PCP? Faz política e não tem vergonha disso.

O grande erro da Iniciativa Liberal? Demasiado enfoque na economia.

Quando fala um português… Diz logo que os portugueses são isto ou aquilo.

Frase que estás sempre a dizer? “Deve haver um meio-termo”.

Uma dúvida por esclarecer? Como é que os Soldados da Fortuna disparam centenas de balas e nunca matam ninguém?

 

Ainda há tempo?

Já resumi aqui os primeiros 41 anos de história do CDS. Depois disso, Paulo Portas concentrou-se em tornar-se rico e fazer política na TVI, deixando o caminho livre para a sua discípula Assunção Cristas (“Boss AC”), escolhida como solução de consenso dentro do partido. Cristas criou progressivamente uma marca própria, ao apostar na omnipresença mediática, e procurou combater a imagem de satélite do PSD que se colara ao CDS, distanciando-se dos “laranjas” à medida que Passos Coelho se desgastava. O vice-presidente centrista, Adolfo Mesquita Nunes, começou a destacar-se pela sua inteligência, moderação e habilidade política. Nas autárquicas de 2017, Cristas surpreendeu ao alcançar o segundo lugar em Lisboa, embora o resultado nacional do CDS tenha sido exíguo. As hostes da bola ao centro viveram um período de ilusório entusiasmo, semelhante ao que a extrema-esquerda conhecera em 1976 ao ver Otelo Saraiva de Carvalho penetrar no eleitorado do PCP e alcançar o segundo lugar nas presidenciais. A viragem ao centro do PSD de Rui Rio desviaria teoricamente muitos eleitores para a verdadeira direita, que a “futura primeira-ministra” Assunção tentou encarnar em ruidosos despiques nos debates quinzenais com António Costa. Com o passar do tempo, as sondagens desmentiram essa esperança. Mesquita Nunes abandonou a direcção do CDS para administrar a Galp e o seu partido entrou num desnorte cada vez maior. O estilo da direita miguelista de Nuno Melo levou a um mau resultado nas europeias, pelo que Assunção Cristas tentou corrigir o rumo e marcelizar a sua imagem, com uma aproximação ao cidadão comum baseada mais na emoção que na ideologia, visível na exibição da família de “Boss AC” nas redes sociais e no inesquecível livro Confiança. No entanto, nada resultou e, durante a campanha para as legislativas, enquanto Rio desabrochava, Cristas mergulhava cada dia mais no desespero. Votos na urna, CDS com apenas cinco deputados, Assunção demissionária, Chega e Iniciativa Liberal a ocuparem terras no antigo latifúndio azulado.

Depois de um período de receio generalizado em ocupar aquele que passara a ser um dos piores empregos do mundo (presidente do CDS), acabaram por surgir seis candidatos, que se reduziriam a apenas dois durante o congresso de Janeiro de 2020. De um lado, um ex-presidente do Belenenses, João Almeida, aceitava sem grande convicção a tarefa de representar o legado da direcção de Assunção Cristas. Do outro, o antigo dirigente do Sporting Francisco Rodrigues dos Santos, conhecido nos bastidores da política por “Chicão”. Nos três anos anteriores, Francisco destacara-se como líder da Juventude Popular e, em Janeiro de 2018, fora considerado pela revista Forbes um dos jovens mais influentes e promissores da Europa. Rodrigues dos Santos ficara conhecido por recrutar novos apoiantes do CDS em regiões improváveis como o Alentejo, mas também pelo tom dos posts que escrevia no Facebook, bem mais radicais que a linha pragmática de Cristas. Os trabalhos do congresso de Aveiro revelaram uma situação semelhante à de 1992: depois de um péssimo resultado eleitoral, os militantes de base do CDS rompiam com os barões, considerados responsáveis pela derrocada, e entregavam a um jovem de discurso inflamado a tarefa de refundar o partido. O próprio Rodrigues dos Santos dava força à analogia ao apadrinhar o regresso de Manuel Monteiro ao seu antigo lar. Os comentadores políticos ficaram na expectativa quanto ao futuro do Centro Democrático Social, que enfrentava com uma direcção renovada a ameaça dos novos partidos.

Depois do congresso, passou-se um ano e, no meio da pandemia, “Chicão” transformou-se em Chicão. Ninguém consegue designar o líder do CDS de outra maneira. A humilhação a que o chef Ljubomir Stanisic, um modelo do Homem Novo que a direita portuguesa sonha criar, submeteu o “querido” presidente centrista nada teve de surpreendente. O momento em que Chicão apresentou uma queixa na ERC contra a empresa autora de uma sondagem que atribuiu ao CDS apenas 0,3% de intenções de voto (antes do partido subir este mês para uns estonteantes 0,8%) resumiu na perfeição o ridículo e a irrelevância em que a instituição fundada por Freitas do Amaral e Amaro da Costa caiu enquanto o Chega ascendia à glória. A estratégia delineada por Chicão para enfrentar André Ventura foi classificá-lo como um populista extremista que tem razão em tudo o que diz e promover uma radicalização do CDS que o transformou num “Chega para betos”, nas palavras de Henrique Raposo. Chicão proclama sem dúvidas que é impossível fazer acordos com o Chega, esse partido tão moderado a quem os democratas-cristãos vão ligar no dia seguinte às próximas eleições. Entretanto, o presidente centrista abriu múltiplos conflitos com o grupo parlamentar escolhido pela sua predecessora e transformou fracassos em êxitos retumbantes. As redes sociais do partido e do seu líder, apontadas como uma prioridade no discurso de vitória de Chicão em Aveiro, revelam uma pobreza franciscana.

 

 

Em abono da verdade, o trabalho de Chicão nunca seria fácil numa época em que o CDS parece ter perdido a sua função histórica. Entre 1975 e 2019, o Centro Democrático Social foi o partido mais à direita representado no Parlamento. Ao votar contra a Constituição de 1976, integrara no sistema os sectores avessos a qualquer tipo de socialismo, enquanto Freitas e Amaro impunham à extrema-direita a renúncia à violência anticomunista e a aceitação das regras democráticas. O CDS tornou-se uma federação de várias direitas que conviviam sob o domínio de um líder unificador, apresentando uma imagem de modernidade sem nunca ter a coragem de deitar fora as velharias com valor sentimental guardadas no sótão do Caldas. O partido era sobretudo o abrigo do velho Portugal conservador, ligado ao patronato agrícola e industrial, preocupado com as tradições e orientado por um catolicismo oficioso. Com Paulo Portas, foi aquilo que estivesse na moda em cada momento, como quando o actual combatente dos “populismos de esquerda e direita” experimentou o discurso anti-imigração e denunciou o “subsídio à preguiça” chamado RSI. Na actualidade, o que resta é apenas o CDS-PT (Partido da Tourada). Com a crescente laicização da sociedade, o conservadorismo nos costumes dá poucos votos, como o próprio André Ventura reconhece ao não insistir muito nesses temas. O cliché do partido dos ricos aproxima-se da realidade à medida que a já reduzida presença do CDS nos subúrbios se torna microscópica e o chicanismo não apresenta um discurso minimamente atractivo para a classe média baixa. Os liberais possuem agora um partido onde não têm de conviver com a malta de Deus, da Pátria e da Família. Os fascistas já não precisam de fingir que são democratas. Neste cenário, para que serve e quem representa o CDS?

O alarme parece ter finalmente soado no aparelho centrista e Adolfo Mesquita Nunes voltou do exílio para desafiar Chicão a enfrentá-lo num torneio. Não será fácil obrigar o jovem rei a sair do castelo, guardado por uma peonagem rude que gosta de dar um toque pessoal e rasteiro a todas as lutas. Contudo, no momento em que uma enorme Acácia se prepara para devorar a cenoura da direita, Adolfo é a única pessoa capaz de evitar que aquela loja de Arroios que compra “cds antigos” (sic) faça negócio. O problema é que, se Chicão tornou o CDS redundante em relação ao Chega, Adolfo teria dificuldade em distinguí-lo da Iniciativa Liberal. Basta lembrar a amizade de Mesquita Nunes com Carlos Guimarães Pinto, também fundador do Instituto Mais Liberdade, para perceber como seria confuso se IL e CDS pescassem nas mesmas águas. O produto CDS já está impregnado do fedor do fracasso (o melhor repelente para jornalistas) e a aposta numa nova campanha publicitária poderá não bastar para torná-lo competitivo. Será que é tarde demais para o Centro? Bem, se a solução encontrada for Nuno Melo, posso indicar já o endereço da loja.

Amem-me muito

O nome Marcelo Nuno Duarte Rebelo de Sousa substitui de forma eficaz qualquer tempo de antena. Afinal, a popularidade de Marcelo supera a de qualquer outro político português e, admitamos, é difícil não gostar de alguém que se leva tão pouco a sério e notoriamente se diverte à brava no exercício da chefia do Estado. Ideologicamente, Marcelo apenas repele os extremos. Pessoalmente, o Presidente sabe sempre dizer a palavra certa ao público certo. Fisicamente, o tronco nu de Marcelo Nuno dessacraliza o poder e faz o cidadão sentir-se mais próximo de quem o lidera. Mediaticamente, o antigo jornalista não faz política na televisão, mas sim televisão na política (há muito que tento sem sucesso fazer esta frase pegar). Politicamente, Rebelo de Sousa apresenta-se como aquele que tudo controla e tudo influi. Não há como fugir do olhar penetrante desta estátua colocada no centro do Largo da República, até porque, invulgarmente, a estátua fala e mexe-se imenso.  

É claro que Marcelo Rebelo de Sousa trabalha imenso para obter tanta admiração. Sobretudo, operando a máquina secreta que lhe permite detectar a qualquer hora aquilo que a maioria dos portugueses está a pensar. E se a maioria gosta de uma coisa, o Presidente tem de gostar também. É preciso seguir a moda, sob pena de cair no abismo horroroso da impopularidade. Claro que Marcelo sabe que há um tempo para tudo. Por exemplo, nos anos 90 ficava bem a um político católico condenar programas de televisão com sketches sobre Jesus Cristo, mas no século XXI já ninguém quer saber disso. O Presidente dispõe ainda de um quadro de cliques que identifica as notícias alvo de maior atenção, de modo a que Marcelo possa imediatamente mergulhar nelas como no mar de Cascais. Não há desastre, vedeta desportiva nem sem-abrigo supostamente herói que escapem ao radar de Belém. O supremo magistrado tem que entrar no filme, de preferência no timing certo. Às vezes (familygate, assassinato no SEF, encerramento das escolas, etc.), Marcelo distrai-se por um segundo e apanha o comboio já em movimento, mas quer logo ser o maquinista. Afinal, o público tem sempre razão e convém lisonjeá-lo de vez em quando. O estilo de Marcelo não se assemelha à berraria da “política CMTV” agora em expansão, aproximando-se mais da velha RTP de Júlio Isidro: programas ligeiros para toda a família, nem demasiado complexos nem demasiado estúpidos, com um apresentador afável que surge no ecrã como o tio de todos nós. Quem seria capaz de odiar isto?

 

Este comportamento marcado pelo desejo de agradar a todos nada tem de novo, pois Marcelo foi sempre assim, desde os tempos do PREC em que se afirmava um marxista não leninista. Nem sequer se trata de oportunismo, mas de uma maneira de estar na vida. O antigo (e actual) director do Expresso gosta de ser amado e só dá tanto afecto porque possui uma capacidade única de recebê-lo. Quem mais teria espaço no disco para tanto carinho recolhido ao longo de inúmeras sessões de autógrafos e milhares de milhões de selfies? Na verdade, Marcelo Rebelo de Sousa não nasceu para ser Francisco Martins Rodrigues, quer no sentido de propor rupturas violentas, quer no de defender ideias só aceites por uma pequena minoria, quer ainda naquele de andar pelas ruas de Lisboa sem nunca ser reconhecido.

Pelo seu perfil, idade e currículo, Marcelo Rebelo de Sousa é um dos últimos políticos da era da televisão generalista na área da direita. A geração dos blogues, que começou a ganhar destaque partidário na primeira década deste século, encontrou em Pedro Passos Coelho o político popular por ser impopular (“que se lixem as eleições”), autor de medidas de que muitos portugueses não gostavam por, coitados, serem um bocado burros, mas que um dia viriam a compreender. Mais recentemente, a geração das redes sociais, ligada ao Chega e à Iniciativa Liberal, descartou de vez a ideia de agradar a todo o eleitorado e construiu-se na base da avaliação da parte esquerda do espectro político como uma erva daninha que seria necessário arrancar. Claro que André Ventura, filho de Passos Coelho e Rui Ramos, ultrapassou todos os limites de forma propositada, renegando o espírito natalício marcelista para atrair todos aqueles que só querem ver o mundo arder. Este fim da lógica catch-all pode comprometer a prazo a capacidade da direita de descobrir novos Presidentes da República, uma vez que é difícil imaginar políticos como Passos e Paulo Portas a alcançarem mais de 50% numa eleição.

 

Fechistas e abristas

Ao longo de um ano de Covid-19, o debate nos media e nas redes sociais tem sido marcado pelo confronto entre duas tendências que agrupam números significativos de portugueses (não se incluem aqui os negacionistas). De um lado, está o partido Fechem Tudo, com os seus membros, os fechistas, defensores de fortes restrições à actividade quotidiana que facilitem o combate ao vírus. Do outro, os abristas, ligados ao partido Abram Tudo e favoráveis a um número reduzido de limitações aos comportamentos individuais. A relação de forças entre os dois partidos é influenciada, tal como tudo o resto, pelos números da pandemia. Quando a situação da Covid-19 se agrava, verifica-se uma hegemonia cultural do fechismo, mas qualquer descida da incidência da doença estimula o pensamento abrista. De facto, algumas pessoas oscilam entre um lado e outro de acordo com a conjuntura, até porque o AT e o FT são partidos heterogéneos que recrutam membros quer à esquerda quer à direita. Apesar das variações momentâneas, os discursos de ambas as facções possuem tiques relativamente estáveis.

Para os fechistas, o país é uma criança rebelde da qual eles são as mães. Quando sai à rua ou mesmo quando se limita a olhar pela janela, o fechista anota mentalmente todos os indivíduos que prevaricam e observa onde (não) está a polícia, cujos cassetetes deveriam estar a bater com força nas carnes dos criminosos desmascarados. A vigilância permanente e a troca de informações mantidas pela comunidade fechista permite-lhe criar uma base de dados com os nomes e moradas de todos os inimigos da saúde. Os fechistas gozam de uma vasta superioridade moral decorrente da preocupação e responsabilidade que exibem. Por isso mesmo, estão investidos da missão de vituperar os irresponsáveis que não levam a doença a sério e atacar os políticos que facilitam, não mostram pulso firme e ainda reclamam privilégios. Pessimista antropológico por excelência, o fechista tem como frase preferida “eu avisei” e como segunda frase preferida “depois não te queixes quando estiveres num caixão”. O cúmulo da ira ocorre quando um fechista fascista vê um grupo de comunistas, reunido num espaço aberto ou fechado. Nessas ocasiões, uma imparável torrente de ódio sai da boca ou do teclado do FF, ganhando uma força destruidora superior à da lava do Vesúvio.

 

 

Por seu turno, o abrismo considera-se a doutrina da coragem, aquela qualidade que os medricas aterrorizados pela propaganda fechista não possuem. O partido abrista tem uma acentuada consciência de classe, mostrando-se ao lado da plebe que sai de casa para trabalhar e desprezando os burgueses privilegiados que ficam deitados no sofá a ver a Netflix. Nos períodos em que dispõe de menos camaradas, o militante abrista reforça a consciência da sua superioridade intelectual perante os “carneiros” incapazes de desobedecerem à lógica dominante. Os abristas seleccionam cuidadosamente os especialistas que confirmam a sua crença, acusando todos os outros de estarem ao serviço do Estado ou de interesses obscuros, e lamentam frequentemente os mortos não-Covid, que estariam vivos se não fosse essa maldita obsessão com a doença da moda. Implacáveis com a DGS e o Governo, que não confiam nos portugueses e estão sempre a dar ordens absurdas e contraditórias, os abristas alertam permanentemente para a necessidade de mais debate. Afinal, as pessoas hoje em dia não são ignorantes e até consultam a Internet, pelo que, se 0,1% da população manifesta dúvidas sobre as medidas contra a pandemia, os restantes 99,9% devem esperar pacientemente até que uma discussão longa, franca e aberta revele quem tem razão ou abra pistas para um novo debate.

 

 

O fechismo e o abrismo estão ligados a duas ameaças vindas de trás que ganharam maior expressão com a pandemia, da qual pode resultar um Estado mais opressivo e controlador em nome do bem comum, mas também um individualismo exagerado que, em associação com a “morte da competência” e os especialistas em tudo brotados do solo do Google, criaria uma sociedade ingovernável. Deve haver um meio-termo, e para alcançá-lo é necessária mais humildade. Afinal, encontrar uma fórmula que combine os interesses da saúde e da economia é dificílimo e implica múltiplos erros e cedências. Quando se vai atrás de algo que não controlamos, neste caso o coronavírus, a única maneira de ser sempre coerente é ser um fanático. Podemos formar as nossas opiniões, mas, numa matéria em que os próprios especialistas divergem entre si, não faz sentido que os leigos apresentem soluções definitivas que as autoridades só não seguiriam por idiotice. Também é necessária alguma tolerância quanto às diferentes reacções e comportamentos individuais perante a ameaça da Covid-19. Entre o pânico descontrolado e a irresponsabilidade total, existem muitas variantes que podem coexistir sem discussões estéreis.