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"1986"

A RTP tem apresentado várias séries de ficção histórica centradas em períodos do passado recente e com um olhar focado no quotidiano dos portugueses da época abordada. Conta-me Como Foi (marcelismo), Depois do Adeus (PREC) e, num estilo diferente, Os Filhos do Rock (início dos anos 80) mostraram personagens envolvidas num contexto distante, mas ainda reconhecível por muitos espectadores. O avanço temporal da ficção da RTP atingiu 1986, ano no qual decorre a acção da série homónima criada por Nuno Markl e produzida e realizada por Henrique Oliveira, ex-guitarrista dos Táxi. Logo a seguir à estreia na RTP1, a série foi disponibilizada na íntegra no RTP Play, onde os conteúdos da rádio e televisão públicas ganham maior alcance e durabilidade.

 

 

A série escrita pelos irmãos Nuno e Ana Markl e por Filipe Homem Fonseca, com Joana Stichini Vilela como consultora histórica, visa em primeiro lugar espectadores da geração da Caderneta de Cromos, a antiga rubrica radiofónica de Nuno Markl dedicada às recordações de infância e adolescência daqueles que, à semelhança do humorista, andavam por volta dos 15 anos quando Mário Soares e Freitas do Amaral disputaram a segunda volta das eleições presidenciais de 1986. Para alguém mais novo como eu (nessa altura, tinha apenas um ano de idade), chega a ser difícil acompanhar o turbilhão de referências à cultura pop da década de 80 disparadas em 1986 a um ritmo por vezes forçado. No entanto, a série vai muito além da nostalgia do “eh pá, lembro-me tão bem”, ao apresentar diálogos divertidos, uma história bem construída e personagens consistentes. Vemos os jovens e adultos envolvidos em situações risíveis e embaraçosas, mas também ficamos a saber as razões na origem dos seus comportamentos. Mais uma vez, Nuno Markl parte do seu universo pessoal e subjectivo para chegar a um público vasto capaz de se identificar com uma tragicomédia tão semelhante à vida.

 

Relativamente ao confronto Soares/Freitas (ou “Soares É Fixe”/“Prá Frente Portugal”), a série não analisa por aí além as diferenças entre os dois políticos, centrando-se sobretudo na disputa verdadeiramente clubística que dividiu o país no início de 1986, quando as opções políticas dos cidadãos tinham uma forte componente identitária ainda marcada pelas memórias da ditadura e da Revolução. Os actores Adriano Carvalho e Gustavo Vargas representam a oposição esquerda-direita de forma tão caricatural quanto convincente. Sob o pano de fundo da campanha eleitoral, decorrem as peripécias do dia-a-dia dos adolescentes interpretados por Miguel Moura e Silva, Laura Dutra, Miguel Partidário, Eva Fisahn e Henrique Gil (respectivamente, o geek, a betinha, o metaleiro, a gótica e o bully). É cedo para dizer se estamos perante os Ruys e Eunices do futuro, mas o trabalho dos membros do elenco de 1986 está bem acima da média dos jovens actores das novelas da TVI. A eficácia da realização de Henrique Oliveira e a qualidade da banda sonora, tanto a do (primeiro) tempo do vinil como a composta na actualidade por João Só, Miguel Araújo e outros músicos, contribuem para que a série se torne tão viciante como a canção do genérico.

 

 

Parece estar ainda em cima da mesa a possibilidade da RTP satisfazer o desejo de Nuno Markl e avalizar uma segunda temporada, agora passada no Verão de 1986. O certo é que 1986 pode já ser considerada uma das melhores séries feitas na televisão portuguesa durante a actual década e revela uma habilidade rara para combinar o sério e o cómico, o efémero e o intemporal, a paródia e a originalidade, mostrando como o país inteiro pode rever-se num pequeno grupo de jovens de Benfica. Em resumo, 1986 é fixe.

 

 

 

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