Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Desumidificador

Desumidificador

1999

Está prevista para Novembro a estreia na RTP da série 1986, criada por Nuno Markl (1971-) a partir das suas memórias de adolescência e que mostrará o quotidiano de vários jovens de Benfica durante a campanha para as primeiras eleições presidenciais vencidas por Mário Soares. O projecto apresenta um espírito semelhante ao de Caderneta de Cromos, a antiga rubrica de Markl na Rádio Comercial (a Caderneta deu origem a dois livros e outras iniciativas) baseada na evocação humorística de factos, actividades e produtos culturais ligados às décadas de 70 e 80. O sucesso da onda nostálgica, alimentado sobretudo por portugueses na faixa dos 30-40 anos de idade, fez o músico Miguel Araújo (1978-), colaborador de Markl no espectáculo Como Desenhar Mulheres, Motas e Cavalos, questionar-se no tema “Fizz Limão” (editado em 2012 no primeiro álbum a solo de Araújo, Cinco Dias e Meio) se esse fascínio pelos objectos das últimas décadas do século XX não seria um meio de fugir das dificuldades presentes (“sem fé no futuro/rumo ao passado a cantar”). Já em 2017, Miguel Araújo lançou o álbum Giesta, inspirado pelas recordações da infância do ex-Azeitonas, passada em Águas Santas, nos subúrbios do Porto. Uma das faixas do trabalho, “1987”, menciona várias referências familiares a quem vivia na Invicta e arredores no ano em que o FC Porto venceu a Taça dos Campeões Europeus.

 

Bom, eu (1984-) pensei que talvez pudesse produzir um breve esforço evocativo de tipo geracional semelhante aos de Markl e Araújo, mas relativo a um período mais recente, correspondente grosso modo à segunda metade da década de 90 do século passado, quando os millennials (também designados em Portugal por “geração parva” ou “geração à rasca”) chegavam à adolescência. O problema é que, tanto nessa época como agora, sou talvez a pessoa mais desfasada das modas. Estou sempre a leste daquilo que “toda a gente” vê, usa, faz, come, ouve ou conhece. Se alguém quiser ler sobre videojogos antigos ou os brindes distribuídos com o Bollycao e as batatas fritas Matutano, está no sítio errado. Mesmo que ninguém se identifique com as minhas memórias, vou tentar apontar algumas das tendências dominantes no Portugal governado por António Guterres.

 

Tecnologia: Na letra da canção “História Sem Moral”, integrada no álbum de Rui Veloso Lado Lunar (1995), Carlos Tê associa milionários como “um Mello” ou “um Balsemão” ao privilégio de ter “o telemóvel sempre à mão”. De facto, o telefone portátil era um luxo (pesado) de ricos até que por volta de 1995, quando o anúncio da Telecel com o pastor (“Tou xim?”) fez sucesso, iniciou-se a expansão do aparelho para o mercado de classe média. Para muitos jovens dessa fase, usar telemóvel servia para dar um ar cool e moderno e indiciar uma vida social preenchida. Por fim, à medida que se tornava mais barato e pequeno, o telemóvel acabou por se tornar um objecto tão vulgar como uma caneta (era, no entanto, apenas o início de uma longa história que passaria pelos brinquedos da Apple). Entretanto, o computador pessoal também começava a banalizar-se e documentos em Word com ilustrações do Clip Art Gallery substituíam as folhas batidas à máquina. Quanto à Internet, foi fazendo o seu caminho, ao som do ruído da ligação dial-up e a um ritmo hoje considerado lentíssimo. No final dos anos 90, era ainda um território suficientemente pequeno para ser cartografado em secções da imprensa sobre os “melhores sites da Web”. Espaços de conversação, nomeadamente o mIRC, permitiam a miúdos espalhados pelo país perguntarem “dd tc?” uns aos outros. A possibilidade de utilizadores sem conhecimentos de informática produzirem conteúdos virtuais iniciou-se com os fóruns de discussão e as home pages, preenchidas sobretudo por fotografias de família colocadas em templates de gosto duvidoso.

 

Televisão: Enquanto a maioria dos rapazes estava viciada na série de animação japonesa Dragon Ball Z, exibida pela SIC, eu preferia aproveitar a chegada da TV por cabo para ver os canais Panda e Cartoon Network. O sucesso mundial de Os Simpsons também não passava ao lado de Portugal. Ao nível dos programas de imagem real, as televisões privadas faziam desaparecer a uniformidade de escolhas. Na RTP, a sátira política de Contra-Informação e o brilho de Herman Enciclopédia conviviam com o humor inspirado na rádio dos anos 40 de As Lições do Tonecas. A SIC subia ao topo das audiências com as novelas da Globo e os formatos apresentados por estrelas recém-criadas como Catarina Furtado e Bárbara Guimarães. Já a TVI, após o afastamento da Igreja Católica, passou por um período vegetativo, animado apenas pela exibição nocturna das séries americanas Ficheiros Secretos e Seinfeld, até tudo mudar com a estreia em 2000 da versão portuguesa do Big Brother. A maioria dos portugueses entrou no novo milénio a ver o Zé Maria sair da casa e ser soterrado pela fama.

 

 

Música: Pois, os Nirvana e os Guns N’Roses, evocados por Miguel Araújo em “Axl Rose”, passaram-me ao lado. Seja como for, pode-se dizer que a década de 90 representou a morte (temporária) do vinil, a velhice da cassete e o período áureo do CD. Artistas portugueses como os GNR, Rui Veloso, Rio Grande, Paulo Gonzo, Santos & Pecadores ou Pedro Abrunhosa vendiam dezenas de milhares de cópias, segundo a tabela divulgada no Top+. Outro programa da RTP, o Made In Portugal de Carlos Ribeiro, dava a conhecer o universo da música pimba, baptizada a partir de um tema de Emanuel, cujo sucesso era então superior ao de um quase desconhecido Tony Carreira. O estouro das Spice Girls e dos Backstreet Boys levou ao fabrico de efémeras boys bands e girl bands lusitanas. No entanto, nada me faz sentir tão velho como poder lembrar-me de quando os Delfins eram um fenómeno de popularidade.

 

 

Cinema: Ah, a febre do Titanic. Multidões imensas dirigiram-se no final de 1997 aos cinemas para verem James Cameron a afundar o navio e vibrarem com a trágica história de amor entre Kate Winslet e Leonardo DiCaprio. Dois anos depois, os fãs de Star Wars viveram a excitação (seguida de desilusão) trazida pela estreia do Episódio I. Entretanto, o fracasso comercial do terceiro e quarto filmes do Batman fazia antever um futuro pouco auspicioso em Hollywood para as adaptações de BD. Os consumidores de cinema já se dirigiam sobretudo a multiplexes, fomentados pela multiplicação de centros comerciais, enquanto as salas clássicas iam fechando e caindo nas mãos da IURD. Quem ficava em casa podia contar com os clubes de vídeo, presentes em cada bairro e severos com os clientes que não rebobinavam as cassetes VHS (o DVD só apareceria em cena na transição de milénio) depois do visionamento dos filmes.

 

Futebol: Uma das primeiras memórias futebolísticas que tenho é a de Rui Costa a marcar o penálti que deu a Portugal em 1991 a segunda vitória consecutiva no Mundial de sub-20, num Estádio da Luz a abarrotar de público. Nos anos seguintes, a espera dos adeptos pelo triunfo da “Geração de Ouro” na selecção A deu poucos frutos, incluindo uma razoável ida a Inglaterra no Euro-96. Contudo, a atenção conferida ao misto nacional, aparentemente incapaz de repetir a glória de 1966, mostrava-se insignificante perante o quotidiano dos clubes. Para os portistas, com sete campeonatos em oito anos, vencer era fácil, natural e previsível, enquanto o Benfica de Manuel Damásio e Vale e Azevedo se afundava em múltiplos tiros nos pés e erros de gestão. Os meus colegas sportinguistas nunca tinham visto o SCP ser campeão antes de explodirem de alegria em Maio de 2000.

 

Mundo: Como foi recentemente assinalado, o acontecimento mais mediático deste período ocorreu em Paris a 31 de Agosto de 1997, desencadeando uma cobertura noticiosa de dimensões tais que fez pessoas como eu ficarem enjoadas de tanta Diana. No ano seguinte, Bill Clinton e Monica Lewinsky tornaram as palavras “sexo oral” presença habitual nos títulos dos jornais. Entre o terrorismo da ETA e conflitos eternos como o de Angola, o mundo parecia simples: os americanos mandavam em tudo. Por esse motivo, foi sobretudo para Washington que se viraram os pedidos de acção internacional a favor de Timor Lorosae (essa designação, tal como antes o termo “maubere”, viria a desaparecer pouco depois do vocabulário jornalístico) lançados pelos portugueses em Setembro de 1999, numa mobilização espontânea e surpreendente. Depois dos massacres indonésios e dos agitados primeiros anos de independência, a actual escassez de notícias sobre Timor é bom sinal.

 

Portugal: Depois de Cavaco Silva fazer uma paragem nas boxes (não acham oportuna esta referência nada forçada à Fórmula 1, outro fenómeno marcante dos anos 90?), o ambiente político no país, entre o “diálogo” de António Guterres e a traquinice inofensiva de Marcelo Rebelo de Sousa, viveu uma placidez hoje inimaginável. A boa situação económica e a prosperidade da classe média juntaram-se num clima de “final feliz” para o século XX português, numa atmosfera positiva simbolizada por boas notícias como o sucesso da Expo’98, o Prémio Nobel atribuído a José Saramago, a candidatura vitoriosa à organização do Euro 2004 ou o cumprimento dos critérios de entrada na moeda única (na altura, parecia uma boa notícia). O ano de 2001 marcaria o fim do optimismo sorridente, ao apanhar de surpresa os portugueses com a queda da ponte de Castelo de Paiva e o 11 de Setembro.