Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Desumidificador

Desumidificador

TV Marcelo

Por estranho que isso hoje pareça, nove pessoas ousaram concorrer às eleições presidenciais de 24 de Janeiro de 2016 contra Marcelo Nuno Duarte Rebelo de Sousa. Entre figuras credíveis e outras apenas desejosas de gozar uns minutos de fama, todos se apresentaram como os candidatos capazes de bater Marcelo numa segunda volta. Para além da estratégia errada de atribuir antecipadamente o primeiro lugar a um dos candidatos e fazer toda a campanha em função dele, podemos dizer que a hipótese de realização de uma segunda volta numa eleição presidencial em Portugal é bastante improvável, já que nos nove sufrágios desse tipo ocorridos em 40 anos tal aconteceu por apenas uma vez (em 1986), nas eleições mais renhidas de sempre. O certo é que Rebelo de Sousa foi eleito com uma perna às costas, sem necessitar de produzir cartazes ou folhetos de propaganda. Afinal, o antigo líder do PSD já fazia campanha há anos no seu programa na TVI, onde combinava a análise política com elementos de reality-show, presentes na relação afectiva estabelecida por Marcelo com Júlio Magalhães, Judite de Sousa e outros pivôs do canal. Durante os primeiros dois anos de exercício do mandato presidencial, a televisão continuou a ser o espaço privilegiado de intervenção de Marcelo, sempre seguido por câmaras e microfones e disposto a responder a perguntas acerca dos mais variados temas.

 

Na verdade, mais do que fazer política na televisão, Marcelo Rebelo de Sousa tem feito televisão na política. Desde logo, ao perseguir o objectivo do movimento perpétuo, uma vez que, se nada estiver a acontecer no ecrã, o espectador pode mudar de canal. Da mesma forma, a televisão e Marcelo têm horror ao silêncio e orientam-se pela necessidade de falar continuamente, a não ser em casos excepcionais (como um longo abraço) nos quais o silêncio sirva para transmitir uma mensagem. Para abordar uma questão, não basta referi-la por palavras, é fundamental ir a um qualquer lugar, fazer algo e mostrar tudo, além de apelar à emoção e não à razão, recorrendo mais a sentimentos que a argumentos. De resto, a privacidade é um conceito do passado e quem não se exibe tem decerto algo a esconder. A resposta a um acontecimento deve ser imediata e em directo, sem perder tempo precioso a aguardar por mais detalhes. A emissão já não é feita em espaços fechados, mas na rua, junto do povo. A busca de audiências implica que o público tem sempre razão e torna obrigatório apresentar o que ele quer e, se possível, lisonjeá-lo. A mensagem transmitida precisa de ser o mais consensual possível, de modo a não ofender nenhum segmento da audiência. Afinal, os espectadores preferem a repetição à inovação e não se importam de ver a mesma coisa todos os dias. Acima de tudo, popularidade é sinónimo de qualidade, dado que milhões de pessoas não podem estar enganadas. No século XXI, assim se faz televisão, assim se preside à República.

 

 

Tal como outras estrelas da televisão, Marcelo Rebelo de Sousa possui os dons da naturalidade e da espontaneidade, fazendo crer que se comporta de maneira igual à frente das câmaras e longe delas, quando se mostra sempre disponível para tirar selfies com os fãs. Este aspecto é importante, já que o público consegue detectar quando alguém finge ser quem não é, como se viu no caso do “Programa do Aníbal”, estreado com audiências elevadas em horário nobre e que acabou quando já só passava às três da manhã. Marcelo tem adoptado uma imagem paternal na política portuguesa, assemelhando-se ao modelo do pai ideal difundido nas séries televisivas mais convencionais: alguém sempre presente, brincalhão e carinhoso, mas capaz de repreender os filhos quando é preciso (“vai já pedir desculpa aos senhores”, “estes números não são maus, mas podias fazer melhor”) e manter a ordem apesar das discussões entre as crianças, de modo a zelar pelo bem comum da família e assegurar um final feliz em cada episódio. Um formato tão popular como este não pode deixar de ser renovado por várias temporadas.

Roquete e eu

Quando estudei a história da selecção portuguesa de futebol, deparei com António Roquete, guarda-redes do Casa Pia Atlético Clube, internacional por 16 vezes e membro da mítica equipa das quinas que atingiu em 1928 os quartos-de-final do torneio de futebol dos Jogos Olímpicos de Amesterdão, mas não lhe conferi um destaque superior ao de outros craques dos anos 20, como Jorge Vieira, Pepe, Vítor Silva ou Valdemar Mota. Posteriormente, na Torre do Tombo, ao consultar o arquivo da Comissão de Extinção da PIDE/DGS, descobri uma referência ao processo n.º 1111, instaurado pela comissão ao antigo subinspector António Fernandes Roquete, que se encontrava em 1977 na situação de liberdade provisória. A coincidência fez-me procurar o que já tinha sido escrito sobre Roquete, quer como futebolista quer como funcionário da polícia política, e compreender que ninguém tinha ainda cruzado as duas histórias. Voltei então à imprensa desportiva das décadas de 20 e 30 e, sem saber bem no que aquilo ia dar, comecei a examinar em detalhe as crónicas e notícias acerca do guarda-redes casapiano. Quanto mais informação reunia, mais fascinado ficava com aquela história incrível.

 

Apesar do seu apelido sonante, António Fernandes Roquete, nascido em Salvaterra de Magos no ano de 1906, conheceu dificuldades económicas na infância, quando os seus pais empobreceram e separaram-se, criando uma situação que resultou em 1916 na admissão de António como aluno interno da Casa Pia de Lisboa. Em Belém, Roquete gozou de condições de estudo raras em Portugal no início do século XX e descobriu a sua vocação para o desporto, aplicada sobretudo nas modalidades de futebol e natação (seria campeão de Lisboa em 200 metros bruços). Titular da equipa principal do Casa Pia desde 1924, o ribatejano depressa conquistou a crítica e o público ao revelar-se o melhor guarda-redes português do seu tempo. Roquete conheceu a fama e a glória, mas não a fortuna, uma vez que jogar futebol ainda não era uma profissão legalizada em Portugal. O casapiano passou por vários empregos antes de, em 1931, se tornar agente da Polícia Internacional Portuguesa, uma nova força policial criada pela Ditadura Militar para vigiar as fronteiras e os estrangeiros residentes no país, mas também envolvida no combate aos crimes políticos, faceta que se acentuou com a integração em 1933 da PIP (e de Roquete) na Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE), conhecida a partir de 1945 pela sigla PIDE.

 

 

Depois de liderar os postos fronteiriços de Elvas e Valença e abandonar o futebol (com avanços e recuos, antes de optar de vez pela actividade policial), António Roquete ascendeu à categoria de inspector e tornou-se uma das principais figuras da polícia política do Estado Novo. Mais tarde, após cumprir em 1939 e 1943-1944 missões em Moçambique, António partiu definitivamente em 1947 para a colónia da África Oriental, onde chefiaria a Polícia Internacional, um pequeno grupo de agentes integrados no Corpo de Polícia de Moçambique e dotados de competências semelhantes às assumidas pela PIDE na Metrópole. O ex-futebolista permaneceu nessas funções até 1961, quando se reformou da função pública e começou a trabalhar como chefe de segurança do Banco Nacional Ultramarino e de uma empresa controlada por este, a Caju Industrial de Moçambique. De regresso a Lisboa após o 25 de Abril, Roquete foi constituído arguido, mas nunca seria preso e desfrutaria de uma velhice cuja pacatez apenas era quebrada por entrevistas e homenagens nas quais o casapiano recordava a sua carreira desportiva. Falecido em 1995, António Roquete é ainda hoje considerado o maior atleta da história do quase centenário Casa Pia.

 

Animado pelos precedentes estabelecidos por obras historiográficas de Ricardo Serrado (Cosme Damião – O Homem que Sonhou o Benfica) e Irene Flunser Pimentel (Biografia de um Inspector da PIDE. Fernando Gouveia e o Partido Comunista Português) e desejoso de corrigir várias informações falsas ou incompletas transmitidas nos esboços biográficos já existentes sobre Roquete, apresentei na FCSH-UNL um projecto de doutoramento com o título António Fernandes Roquete (1906-1995): Um “ídolo” do desporto nas polícias políticas do Estado Novo, cuja aprovação deu início a um período de exactamente três anos para fazer a tese. Apesar do meu plano da estrutura do texto e do tempo que gastaria a consultar as diferentes fontes, o processo de pesquisa e escrita foi bastante improvisado, até porque era frequente encontrar pistas que me conduziam a locais inesperados. Por exemplo, já a meio da investigação tive acesso a material de grande valor, como as cartas escritas por António Roquete às chefias da PIDE entre 1954 e 1960 (nas quais o ribatejano fazia críticas ácidas às autoridades coloniais de Moçambique) ou uma compilação de circulares e outros documentos da PVDE reunidos pelo então inspector nos anos 30. Biografar Roquete assemelhou-se a fazer um puzzle em que o número de peças ia aumentando a pouco e pouco, sem que fosse possível, devido às lacunas na documentação, encontrar todos os pedaços necessários para obter uma imagem completa.

 

Quem foi, afinal, António Fernandes Roquete? Concluída a biografia, só posso responder: não sei. As dúvidas e mistérios relativos ao seu percurso são inúmeros e imaginar aquilo que falta compete ao romance histórico e não à historiografia. O que descobri foi sobretudo como Roquete, preocupado com a sua imagem pública, queria ser visto pelos outros. Inteligente e habilidoso, sabia ser, dependendo do contexto, quer correcto, humilde e simpático quer brutal, prepotente e rancoroso, conforme fosse preciso despertar admiração, respeito, ódio ou medo em quem o ouvia. Admito que alguns eventuais leitores da biografia considerem demasiado neutra e complacente a forma como descrevi um agente da repressão ditatorial, mas preferi, em vez de proclamar abertamente a “moral” da história, deixar o leitor chegar lá sozinho através dos factos e citações que seleccionei. Mais problemático, e talvez mais difícil de julgar, é saber se, escondido nas entrelinhas do relato da vida do biografado, também está lá o biógrafo. Seja como for, depois de entregar a tese de doutoramento no ano passado, aguardo que a faculdade me informe do dia do juízo final, digo, das provas públicas, em que vou tentar defender os remates dos arguentes.

 

Tentações da direita

A vitória de Rui Rio nas eleições internas do PSD marca a viragem definitiva da página da austeridade, na medida em que representa o fracasso da corrente mais à direita do partido, pouco ou nada entusiasmada com Santana Lopes, mas que apoiou o ex-presidente do Sporting como último recurso para travar Rio e o “grupo maravilha” à volta do portuense. Os liberais-conservadores vêem chegar a hora de submergir e esperar por uma conjuntura mais favorável para voltar à superfície. Entretanto, prossegue o combate cultural promovido por numerosos comentadores da área liberal na imprensa, rádio e televisão, em blogues como BlasfémiasO Insurgente e, obviamente, nas redes sociais, além de actividades menos influentes ligadas à publicação de livros ou ao trabalho académico na Universidade Católica. O tom geral do discurso deste colectivo é, no entanto, crescentemente pós-revolucionário, quando, após o afastamento de Pedro Passos Coelho, lamentado pelos liberais como se fosse impossível surgir outro líder assim nas próximas décadas, pouco resta além de defender as “conquistas da Revolução” ainda não revertidas (os CTT privados, a legislação laboral) e tentar perceber porque é que o programa anti-estatizante só é aceite em Portugal num cenário de colapso económico. Neste contexto, têm surgido indícios de várias tentações às quais o universo do liberal-comentarismo parece disponível a ceder caso a situação política não se altere nos próximos tempos.

 

Tentação gonçalvista: O desdém de Alberto Gonçalves pelo país onde nasceu tem alastrado a outros colunistas do Observador e da restante galáxia da direita, através de lamentações acerca do povo português, viciado no colinho do Estado e incapaz de se fazer à vida e gozar as delícias do empreendedorismo. No fundo, para quê pregar no deserto, quando parece impossível converter um rebanho habituado a comer a erva socialista? A tendência para a generalização, curiosa em seguidores de uma filosofia individualista, associa-se às queixas pela excessiva inclinação à esquerda da comunicação social e pela atitude servil desta para com o poder, denunciadas em espaços de opinião espalhados por todos os media.

 

Tentação populista: Os argumentos racionais mostram-se supérfluos quando é tão politicamente rentável explorar a ideia de que há gente a viver à nossa custa. Por exemplo, não resulta defender que a RTP deve ser privatizada, mas dizer que a estação pública é gerida por tipos que ajudam os amigos dando-lhes trabalho numas séries de meia-tigela que ninguém vê financiadas com o nosso dinheiro já atrai mais atenção. Propor a atribuição pelo Estado de cheques-ensino para fomentar a liberdade de escolha dos pais não tem o mesmo impacto que descrever os professores como incompetentes dotados de privilégios injustificados. E de que serve gastar tempo a definir uma “alternativa”, quando podemos aproveitar o vento favorável para criar escândalos e espalhar a ideia de que todos os políticos são parasitas corruptos? Indignação é a solução.

 

Tentação trumpista: No início do ano passado, o liberal-comentarismo encarava o novo presidente americano com expectativa benévola. Apesar das suas tendências proteccionistas, Donald Trump era tão politicamente incorrecto e irritava tanto a esquerda que só podia ser boa pessoa. Da mesma forma, as entrevistas dadas por André Ventura na qualidade de candidato à Câmara de Loures tinham o mérito de recusar a atitude esquerdista de fingir hipocritamente que ainda existem racismo, machismo e homofobia, com o objectivo de criar divisões artificiais facilitadoras do controlo totalitário sobre a população (a sério, houve mesmo quem acreditasse nisto). Entretanto, a curiosidade pela Administração Trump deu lugar a um silêncio quase total perante as sucessivas asneiras, quebrado apenas pelos cronistas mais alucinados, enquanto o ocaso de Ventura acalmou a tentação de O Diabo. No entanto, ficou a pista de que algo de assustador se passa na direita portuguesa.

 

Tentação extraparlamentar: Muitos artigos de opinião recentes lamentam não só o que existe mas sobretudo o que não existe, em particular uma força partidária disposta a promover a “libertação da sociedade civil” e assumir sem rodeios a defesa de uma política patriótica e de direita. Para responder a este vazio, têm sido anunciados alguns projectos (Iniciativa Liberal, Partido Libertário) de constituição de novos partidos adeptos do favorecimento da iniciativa privada. De facto, a IL encontra-se já legalizada, preparando agora a sua "agenda" política. A eventual aproximação do PSD ao PS poderia dar um empurrão a estas organizações, mas basta pensar nos casos de PDC, MIRN e PND para ter muitas dúvidas quanto à possibilidade de alternativas conservadoras aos partidos de centro-direita presentes em S. Bento desde 1975.

 

 

 

Um portista em Odivelas

A escolha: A primeira recordação ligada ao futebol que tenho é a de brincar com um objecto azul (devia ser um artigo publicitário do Totobola, já que tinha os símbolos 1X2) onde o emblema do Futebol Clube do Porto surgia ao centro. Na altura, nem sabia bem o que aquilo era, mas vi na televisão a final da Taça de Portugal de 1990/91, na qual o FCP triunfou por 3-1 sobre o Beira-Mar, após prolongamento, e um dia disse: “eu sou do Porto”. Sem influência familiar no sentido de nenhum clube e indiferente à distância geográfica que separava Odivelas do Estádio das Antas, tomei a opção como natural. Na temporada de 1992/93, o meu quotidiano sofreu uma mudança brusca. Comecei a ler os jornais desportivos e a revista Dragões, fiz os meus pais comprarem a Fotobiografia do FC Porto escrita por Rui Guedes, passei a chorar baba e ranho quando perdíamos (agora eu fazia parte de um “nós”). Nos “dragões” treinados por Carlos Alberto Silva brilhava, entre outros, um ídolo fascinante: Vítor Baía, o guarda-redes quase imbatível cujos três anos de ausência criariam um vazio na baliza portista só preenchido com o regresso do agora número 99 para novas vitórias.

 

O penta: Em 1994, quando mudei de escola e entrei no 2.º ciclo, passei a ter menos tempo livre para seguir o futebol, mas mantive-me atento aos feitos do FC Porto. Nos arredores de Lisboa, a um autocarro de distância da Luz e de Alvalade, um adepto portista não seria já tão raro como nos anos 70, mas a escassez de apoiantes do emblema da Invicta notava-se quando o clube assegurava um novo título de campeão e um silêncio ensurdecedor enchia as ruas de Odivelas. Esta situação era frequente numa década de 90 dominada pelos homens de azul e branco, cujas consistência e regularidade admiráveis permaneciam independentemente do treinador e contrastavam com o caos organizativo de Benfica e Sporting. Quando ingressei no ensino secundário, o FCP era o primeiro pentacampeão do futebol português. Durante o quinquénio ímpar, eu só lamentava que o clube de Viena e Tóquio (finais ocorridas quando eu era novo demais para compreender) nunca chegasse longe nas competições europeias.

 

As finais: O ciclo ininterrupto de vitórias domésticas do Porto chegou ao fim quando os meus colegas sportinguistas foram campeões pela primeira (e quase única) vez nas suas vidas, mas os “dragões” mostravam um nível razoável que, com a vinda de Octávio Machado no início de 2001/02, se converteu em desnorte total. Até que José Mourinho entrou em cena e o sonho passou a confundir-se com a realidade. A final da Taça UEFA em Sevilha arrasou-me os nervos e acabei por mudar de canal no prolongamento, verificando a medo o resultado de vez em quando. Numa dessas espreitadelas, vi os futebolistas vindos da foz do Douro deitados a celebrar o golo de Derlei e imediatamente gritei-lhes para se levantarem, porque o desafio ainda não tinha terminado. Um ano depois, Gelsenkirchen foi bem mais tranquila, sem sobressaltos de maior e com o quarto de hora final vivido já em festa. Se eu não tivesse tanto medo de chamar a atenção, teria levado o cachecol do FCP para a faculdade no dia seguinte (hoje arrependo-me de não o ter feito). Quanto ao jogo da Taça Intercontinental, não me lembro de grande coisa, excepto do cansaço e do alívio final permitido pelo penálti de Pedro Emanuel. Já em 2011, ninguém acreditava que uma das melhores equipas da história do clube portuense pudesse ser travada pelo Braga em Dublin, onde o golo de Falcao constituiu um dos poucos momentos dignos de realce de uma partida nada espectacular, mas foi suficiente para elevar André Villas-Boas aos píncaros de onde desceria mais tarde. Assim, vi o FC Porto ganhar quatro troféus internacionais em menos de uma década, enquanto o pessoal de Lisboa continua à espera há mais de 50 anos.

 

 

A história: Após a licenciatura e o mestrado, tive de tratar o FC Porto de forma neutra, como objecto de estudo, durante a elaboração de livros sobre a história do futebol em Portugal. Tentei ser imparcial e objectivo, além de aproveitar para conhecer melhor duas fases particularmente interessantes do passado portista. Em primeiro lugar, as origens do clube, ainda mal conhecidas, marcadas pela polémica 1893/1906 e descritas por uma versão oficial que levanta muitas dúvidas. Por sua vez, os anos entre 1976 e 1980, nos quais Pedroto e Pinto da Costa empreenderam uma ruptura e puseram fim ao jejum de títulos, são cruciais para entender tudo o que aconteceu depois no futebol nacional. Entretanto, por ironia do destino, vi o meu nome na ficha técnica do Museu Cosme Damião, de forma imerecida, já que tudo o que fiz durante o “estágio voluntário” no Benfica foi fotografar jornais e revistas antigos. Como profissional, posso trabalhar para qualquer clube, mas admito ter sido bizarro entrar no Estádio da Luz enquanto desejava o insucesso desportivo do SLB.

 

O Papa: Jorge Nuno de Lima Pinto da Costa já era presidente do FC Porto quando nasci e continua ainda hoje na cadeira do poder. Para os adeptos portistas, é difícil distinguir Jorge Nuno da instituição que lidera. O número único no mundo de taças que acumulou e, sobretudo, a consciência de que antes dele o FCP não passava de um clube regional sem acesso à glória envolvem-no numa espécie de gratidão eterna. Os títulos falam por si (revelando o êxito de uma vida dedicada a conquistar, manter e alargar o poder), mas não dizem tudo, por mais que tentemos não ver o lado escuro do homem da Livraria Lello e do Calor da Noite. O poder absoluto corrompe absolutamente e o culto da personalidade origina a crença na infalibilidade e a convicção de ser insubstituível. Os erros cometidos pela administração da SAD portista nos últimos anos foram demasiados para tentar justificar tudo o que aconteceu com mails.

 

O molusco: Sim, Henrique, reconheço que o Benfica alcançou o tetracampeonato porque foi melhor que o FCP e o SCP durante quatro anos. No entanto, desde que um ser misterioso enviou para a caixa de correio electrónico de Francisco J. Marques o conteúdo de mails trocados entre Pedro Guerra e outras figuras do Benfica e membros dos órgãos dirigentes do futebol português, os “azuis e brancos” envolveram-se num discurso violento contra o “polvo” através do qual o SLB tudo controlaria. É natural que o FC Porto proteste quando se vê prejudicado pela arbitragem e que a justiça investigue as alegadas irregularidades, mas o tom de defesa do bem e da moral adoptado por Marques e Pinto da Costa soaria menos forçado se não nos lembrássemos do que acontecia na primeira década deste século. Os políticos (excepto Rui Rio) beijavam a mão do presidente do FCP, como hoje beijam a orelha do líder benfiquista. O Apito Dourado não foi uma alucinação colectiva e só não teve efeitos mais graves para o Porto porque Carolina Salgado era Carolina Salgado. Perante as escutas e as notícias, dividíamos as reacções entre o embaraço e a negação enérgica, exactamente como fazem os adeptos “encarnados” hoje em dia. Há 10 anos, o clima de tensão e suspeição tornava o futebol luso irrespirável, no que era apenas uma ligeira amostra do ambiente actual. No fundo, tudo se limita a uma disputa pelo poder na qual quem estava em cima passou para baixo e vice-versa. Nada de novo debaixo do Sol. Mais do que a uma cruzada idealista, o FCP, ou quem fala por ele, procede a uma confissão de derrota.

 

O Sérgio: Numa fase em que, depois de enormes investimentos sem resultados, o FCP não tem dinheiro para gastar em contratações, o recurso à prata da casa surpreendeu ao revelar-se uma opção acertada. O mérito pertence todo a Sérgio Conceição, o psicólogo que melhorou o estado de um paciente cujo quadro clínico era marcado há quatro anos por sintomas como ansiedade, depressão, insegurança e perda de auto-estima. O pendor ofensivo do jogo “azul e branco” cria riscos na retaguarda, mas torna-se uma delícia após a exasperante dificuldade em marcar de temporadas anteriores. Não há razão para euforias, pois ainda não ganhámos nada, mas, já a meio da época, o FC Porto lidera a liga portuguesa, permanece em todas as competições e recuperou a confiança de que andava tão carente. É no campo que tudo se decide, mas, se esta história acabar bem, voltarei a celebrar. Mesmo sem sair de Odivelas, será como se estivesse nos Aliados com a minha gente.

 

 

 

 

Três setas para cima

O realizador do primeiro debate televisivo entre Rui Rio e Pedro Santana Lopes, transmitido pela RTP em 4 de Janeiro, prestou especial atenção aos movimentos feitos por Santana enquanto Rio falava. Em contraste com a pose hirta de Rui na condição de ouvinte, Pedro mexia em papéis, punha e tirava os óculos, virava-se para acompanhar a contabilidade do tempo gasto pelos dois candidatos ou olhava para o tecto e a mesa, aparentando indiferença pelas palavras do seu oponente, à excepção da parte do debate relativa à discussão do passado de cada um dos candidatos à liderança do PSD. De facto, tanto Rio como Santana têm muito passado e, embora a experiência possa ser uma mais-valia política, neste caso nenhum dos dois parece ser o candidato indicado para quem quer mudança. Não existem grandes diferenças ideológicas e programáticas entre os ex-autarcas, ambos crentes na possibilidade da descida do IRC fazer o crescimento económico português disparar para os 20% anuais.

 

Apesar do desinteresse quase geral pela campanha interna do PSD, muito se tem discutido acerca da identidade e do futuro do partido fundado por Sá Carneiro, Pinto Balsemão (apoiante de Rio) e Magalhães Mota. Se alguns analistas vêem nestas directas a oportunidade do PSD virar ao centro e recuperar os ideais sociais-democratas da década de 70, outros apelam a que a organização “laranja” se assuma como aquilo que o eleitorado sempre viu nela, ou seja, um grande partido de direita. O certo é que todos têm razão. O “partido mais português de Portugal”, que Santana Lopes destacou não pertencer a nenhum movimento político internacional (Sá Carneiro tentou entrar na Internacional Socialista, mas Mário Soares pressionou os seus amigos europeus de modo a evitar a aceitação do PPD), pautou-se sempre pela indefinição ideológica. O principal pensador da direita liberal, Rui Ramos, dá a entender que o PPD surgiu do nada, sem ligações ao Estado Novo, mas, se isso é verdade no que respeita à elite dirigente, o aparelho local do partido foi frequentemente construído a partir da influência de antigos apoiantes da ditadura como Alberto João Jardim ou o meu familiar José Simões de Abreu (presidente da Câmara de Figueiró dos Vinhos antes e depois do 25 de Abril). Pessoas de origens sociais e políticas bastante diferentes filiaram-se no PPD/PSD, cujos primeiros anos foram marcados por cisões e fortes disputas internas. Com a estabilização da democracia e o longo período do PSD no poder, sob a AD, o Bloco Central e o cavaquismo, acentuou-se o carácter pragmático e tecnocrático da instituição, apoiada num conjunto amplo de autarquias, no domínio da Madeira e do Interior Norte e Centro e na adesão habitual quer do eleitorado centrista flutuante entre as cores rosa e laranja quer da direita pouco atraída pelo CDS. As rivalidades visíveis nos vários congressos em que Santana Lopes tentou tornar-se califa no lugar do califa, antes de o conseguir em 2004, giravam em torno de personalidades e não de ideias.

 

 

Quando a alternância de ciclos políticos (a ideia de que, nas últimas duas décadas, o PSD só chegou ao poder para reparar os danos causados pelo PS é demasiado simplista) conduziu Pedro Passos Coelho à chefia do Governo, o cenário começou a alterar-se. Por um misto de convicção e efeito da conjuntura, o PSD tornou-se o partido da austeridade, com uma prática governativa cada vez mais distinta da proclamada “social-democracia, sempre!” O “velho PSD”, actualmente ligado a Rui Rio, distanciou-se da viragem liberal imprimida por Passos, cujos oito anos de liderança deixaram marcas no antigo PPD. Palavras de ordem como “Menos Estado, melhor Estado” ou “Libertar a sociedade civil” foram utilizadas pelos comentadores da área “laranja”, enquanto o núcleo dirigente do passismo transmitiu sobretudo a mensagem “Ou nós ou o caos”. Alterar a linha económica austeritária significaria, devido à própria lógica da realidade das coisas, lançar o país numa situação ainda pior. Este discurso garantiu o primeiro lugar da PAF nas legislativas de 2015, mas as mudanças também ocorridas na esquerda deram uma reviravolta inesperada ao filme. Quando a Geringonça repôs os feriados de 5 de Outubro e 1 de Dezembro, sem que Portugal acabasse imediatamente, iniciou-se o fim da inevitabilidade e do próprio Passos Coelho. As últimas autárquicas marcaram o colapso da narrativa seguida pelo PSD durante quase uma década, embora Passos ainda acredite que a História lhe dará razão e o fará voltar à ribalta. Até lá, o PSD precisa de um novo discurso, sem que Rio nem Santana se mostrem aptos a formulá-lo.

 

No entanto, podemos estar certos de que o PSD não vai acabar nem ficar fora do Governo durante décadas. Por se tratar de um partido nascido “das entranhas do povo português”? Não, porque o mapa partidário do actual regime é bastante estável, particularmente à direita, onde foi sempre muito difícil criar e desenvolver partidos alternativos a PSD e CDS. Como a esquerda não ficará para sempre no poder, alguém vai estar lá para recolher o fruto na hora certa, e certamente será o PSD. A questão é: qual PSD? Já há muito se tornou óbvio que a via para mudar a direita em Portugal não passa por formar um novo partido, mas sim por controlar a máquina “laranja”. Essa foi, de resto, a estratégia seguida pelos liberais do grupo da Atlântico e do Observador, para quem Passos Coelho se revelou o homem providencial e insubstituível. O episódio de André Ventura, apesar da reduzida capacidade política deste, mostrou que o PSD também pode ser dominado por um “populismo de protesto” (na expressão do historiador Riccardo Marchi) a tender para a extrema-direita. Talvez seja improvável, mas está longe de ser impossível e, perante um cenário desse tipo, Rui Rio e Pedro Santana Lopes tornar-se-iam memórias felizes do tempo da moderação e do bom senso.