Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Desumidificador

Desumidificador

A direita e a realidade

Rui Tavares refere no ensaio Esquerda e Direita: Guia histórico para o século XXI (Tinta-da-China, 2015), onde defende a manutenção do sentido e actualidade da dicotomia política vigente desde a Revolução Francesa, que uma diferença essencial entre direita e esquerda reside no facto da primeira ver o presente como “uma emanação do passado” e acreditar que “as coisas foram assim por natureza humana – e por isso são e serão”, enquanto a esquerda considera possível mudar a sociedade e “reescrever o porvir” (pp. 41-42). Ainda hoje, a direita autodescreve-se como o campo político associado à prudência e ao realismo, em contraponto ao sonho utópico do lado esquerdista. Ao optimismo antropológico da esquerda, os conservadores opõem o pessimismo e os limites impostos pela natureza humana aos projectos transformadores. A crise iniciada em 2008 levou a transpor esta diferenciação para a esfera económica, de onde provinham dados objectivos (ou vistos como tal) usados pela direita para desacreditar a retórica anti-austeritária. Vítor Gaspar resumiu essa atitude na expressão “Não há dinheiro. Que parte é que não perceberam?”, enquanto Cavaco Silva destacou, no Verão passado, a vitória da realidade sobre a ideologia. Noutra área, muito se tem falado do crescente distanciamento entre as elites e os media, hegemonizados pela cultura de esquerda e dominados pelo “politicamente correcto”, e o sentimento do cidadão comum, afectado no seu quotidiano por realidades opostas ao discurso oficial. A experiência de comentadores cuja vida tem sido dedicada a estudar a história das elites políticas e intelectuais (Rui Ramos) ou a dirigir jornais (José Manuel Fernandes) fornece-lhes, de facto, um conhecimento que os torna especialmente aptos a criticar o establishment. Assim, a direita possuiria uma perspectiva realista sobre a vida, o Homem, a economia e a sociedade, enquanto a esquerda, coitada, andaria sempre no mundo da lua.

 

 

Apesar da generalização deste princípio, os embates da direita portuguesa com a realidade sucederam-se a uma cadência e uma violência quase spinolistas nos últimos três anos. O PSD e o CDS, tal como os seus apoiantes na comunicação social, começaram, em 2015, por acreditar que a eventual aliança entre os partidos de esquerda para cujo perigo alertaram durante a campanha para as legislativas só seria possível num cenário de ficção científica. Mais tarde, esperaram que os militantes do PS rejeitariam uma coligação com os inimigos históricos do partido e juntar-se-iam a Francisco Assis para comer uns leitões. Prognosticaram que a desdenhosamente chamada “Geringonça” não duraria mais que uns meses, devido à intransigência de BE e PCP. Creram que a redução do financiamento público aos colégios privados iria causar no povo português o medo da sovietização iminente. Avisaram que a classe média seria espoliada pela cobiça de Mariana Mortágua e os investidores nacionais e estrangeiros fugiriam em pânico. Afirmaram em bloco (não se tratou de um delírio solitário de Passos Coelho), apoiados nos pareceres de economistas respeitados como João César das Neves, que as reversões efectuadas por António Costa trariam o “Diabo”, ou seja, a derrapagem das contas públicas, a estagnação económica e um segundo resgate. Contaram com uma severa punição de Bruxelas ao foco de rebeldia surgido no extremo ocidental europeu. Riram-se da hipótese de Mário Centeno presidir ao Eurogrupo. Denunciaram o crescimento insustentável do Estado e das despesas com o funcionalismo público. Viram na privatização dos CTT um caso de sucesso. Vaticinaram que Passos voltaria à residência oficial de S. Bento ainda em 2019 (alguns ainda acreditam nisso). Tudo isto e muito mais não foi considerado uma mera hipótese, mas antes o resultado natural da própria realidade das coisas.

 

A chegada de Rui Rio à liderança do PSD foi encarada pela maior parte das direitas com uma profunda revolta, acompanhada pela atenção, até aí pouco frequente, ao CDS de Assunção Cristas. Para muitos colunistas, a estratégia de Rio de propor a Costa pactos em torno de determinados dossiers constituía uma traição em si mesma e não deixaria de revoltar o país não dependente do Estado, ansioso por uma alternativa política ao socialismo, ideologia cujo “consenso” pernicioso alastrava agora à direcção do partido de Sá Carneiro. Perante esta previsão, Cristas anunciou a sua candidatura a primeira-ministra em 153 entrevistas e apostou na possibilidade de atrair para o CDS os eleitores irados pelo desvio centrista do PSD. O sector mais conservador da base de apoio do PS, alegadamente insatisfeito com a radicalização à esquerda do partido, tem igualmente sido visto como um potencial mercado eleitoral para os partidos agora na oposição. É certo que ainda tudo é possível até às eleições, mas as sondagens divulgadas após os congressos do PSD e do CDS apontam tendências bizarras para quem leu os jornais dos últimos meses. A maioria dos inquiridos quer mais acordos PS-PSD, sobretudo na área da saúde, enquanto as intenções de voto nos socialistas sobem ligeiramente, os “laranjas” crescem como não se via desde 2015 e o CDS mantém-se firme no quinto lugar, entre os 5 e os 7%. Os estudos actuais também não indicam o aparecimento (a não ser dentro da casa de Clara Ferreira Alves) de eleitores do PS ansiosos por separar o partido da sua “cauda” de radicais.

 

O país de e para o qual falam os comentadores de direita parece só existir em dois locais: na imaginação deles e no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica. Para ser justo, o país do Observador existe, tal como existia em 1975 o país do PCP. Todavia, Álvaro Cunhal veio a compreender a posição minoritária dos comunistas no conjunto do país e adoptou uma flexibilidade táctica necessária para defender as “conquistas da Revolução”, enquanto Rui Ramos e os seus correligionários persistem em chocar contra o presente. O caminho para o superavit traçado por Mário Centeno nem sequer permite continuar a descrever a esquerda como um bando de irrealistas que gastam à maluca e obrigam a direita a vir colar os cacos do país. O que é feito dos clichés quando mais precisamos deles?

 

P.S. Uma previsão da direita parece estar correcta. Ao saber que o Governo português não expulsou nenhum diplomata russo, Donald Trump decerto ficará furioso. Pode até chegar ao ponto de ir à Wikipedia tentar descobrir onde fica Portugal.

 

Como vencer uma discussão

Nunca se debateu tanto como hoje, seja nos cafés, nos media ou na Internet, mas as pessoas tendem a equivocar-se quanto à melhor forma de defender uma posição. Há muito que se provou que ninguém ganha uma discussão argumentando acerca do tema debatido, mas sim pondo em causa a honestidade moral e intelectual de quem está do outro lado. No entanto, o caro leitor não se pode limitar a dizer que o seu opositor é um idiota e um bandido, a não ser que possua uma personalidade especial, daquelas que levam alguém à presidência dos EUA ou do Sporting. Torna-se, assim, aconselhável o recurso a técnicas argumentativas mais subtis, frequentemente utilizadas na imprensa, na televisão e nas redes sociais. Seguem-se algumas recomendações úteis para quem pretenda desvalorizar as opiniões alheias.

 

Técnica “É tudo igual”:

 

Em vez de discutir o facto mencionado pelo seu opositor, atire pedras aos telhados de vidro dele, à imagem dos comunistas pró-soviéticos que, perante acusações de violação dos direitos humanos no bloco de Leste, respondiam sempre falando do Chile ou da África do Sul. Depressa conseguirá encontrar um pecado na história do clube/partido/religião/etc. dele, a partir do qual poderá retirar-lhe qualquer legitimidade para falar do problema no seu lado. Outra estratégia incluída nesta técnica é a de pôr mais peças em cima da mesa. Imaginemos que gosta da cor azul e uma celebridade vestida de azul diz um completo disparate. Pode afirmar que condena essa declaração, tal como condena, por uma questão de coerência, o disparate proferido no ano passado por uma celebridade vestida de cor de rosa. Desta forma, o rosa perde o ascendente moral sobre o azul, cuja asneira banaliza-se e já não parece tão grave. Exija ao seu adversário que sinta o mesmo nível de indignação acerca de 35 coisas por si consideradas equivalentes e deixe-o desnorteado. Afinal, se tudo é igual, nada é realmente importante. Noutro exemplo hipotético, imagine que uma autarca de esquerda do Rio de Janeiro é assassinada na rua. Ao ser chamado a comentar o crime, afirme que deplora a morte da política, da mesma maneira que deplora as mortes das vítimas de assaltos, das pessoas atingidas por balas perdidas e dos polícias falecidos em serviço. Esse esforço de pôr tudo no mesmo saco levará quem o lê ou ouve a perguntar-se o que raio fez a autarca para merecer um destaque mediático superior ao dos outros mortos, e assim começa a desvalorização do assassinato.

 

Técnica Helena Matos:

 

Depois de ouvir a abordagem ao tema X feita pelo seu adversário, pergunte-lhe porque é que toda a gente fala disso e não doutro assunto. Passe em seguida a uma longa exposição acerca do tema Y, salientando que o debate deveria ser acerca deste e não da insignificância trazida anteriormente à discussão. É fundamental dar a entender a existência de uma conspiração dos media nacionais, movidos por ideologia ou interesse, na origem da escassa informação disponível sobre Y. Se possível, cite jornais estrangeiros e notícias que só você conhece (mesmo se forem falsas, acha que alguém vai confirmar?). Acuse o seu opositor de ignorar deliberadamente Y pelo simples motivo de que Y desmente a “narrativa” daquele. Esta técnica visa garantir que, no final da discussão, já ninguém se lembra de X, o seu interlocutor aparenta ser parcial, ignorante e manipulado e você surge como o único capaz de ver a realidade sem filtros.

 

 

Técnica feitista:

 

Nada acontece por acaso. Qualquer acto e qualquer declaração têm por trás um interesse oculto. O mundo divide-se em bons e maus e quem apresente dúvidas sobre isso é suspeito. A partir destas três máximas, pode analisar tudo numa posição de superioridade moral. Investigue o passado dos seus adversários e recolha elementos suficientes para insinuar que eles só defendem uma determinada ideia porque estão feitos com alguém. Questione a imparcialidade de todas as decisões prejudiciais à sua hoste. Mostre-se mais indignado que ninguém com os corruptos, de modo a parecer mais honesto. Deixe, no entanto, claro que a desconfiança só pode funcionar numa direcção. Por exemplo, quando o clube rival do seu for beneficiado por um erro do árbitro ou de um jogador adversário, aponte essas falhas como deslizes propositados e provas irrefutáveis de corrupção. Já quando for o seu clube a beneficiar do erro alheio, lembre que as pessoas são falíveis e um clima de suspeição generalizada só prejudica o futebol.

 

Técnica “Isso agora não interessa nada”:

 

Se a causa do seu interlocutor apenas beneficiar parte da população, ele está tramado. Você pode pegar em qualquer problema sério da actualidade e compará-lo com a reivindicação dele, de modo a destacar a irrelevância desta. Siga o princípio de que o cérebro humano apenas consegue lidar com um problema de cada vez. Como as questões em que você deve pegar (mesmo, ou sobretudo, se não tiverem nada a ver com o assunto em questão) são vastas e difíceis de resolver, nunca haverá tempo livre para tratar da preocupação do seu adversário. Ele vai parecer um privilegiado fútil obcecado por ninharias, em contraste consigo, uma pessoa sensível ao sofrimento alheio e capaz de definir prioridades. Eis algumas reacções enquadradas nesta técnica:

“Com o país na crise em que está, tu queres discutir se os homossexuais devem poder casar ou não?!”

“Há tanta fome no mundo, e estes tipos querem deixar os animais entrar nos restaurantes!”

“O meu cão sujou a entrada do prédio? Você vem chatear-me com uma coisa dessas quando há crianças a serem mortas todos os dias na Síria?!”

Camarada Assad

A secção internacional do semanário Avante! possui algumas características próprias que a distinguem das convenções da restante imprensa, entre elas a utilização do nome oficial da Coreia do Norte, “República Popular Democrática da Coreia”, o recurso ao adjectivo “estado-unidense” em detrimento de “americano” ou as referências à Venezuela “bolivariana”. Outra particularidade do jornal comunista reside no facto de publicar os comunicados do Conselho Português para a Paz e a Cooperação (CPPC), uma organização pacifista liderada por Ilda Figueiredo e, na prática, um satélite do PCP. Acerca da guerra na Síria, o CPPC denuncia, num texto incluído no Avante! de 8 de Março, “uma intensa operação de desinformação e a tentativa de instrumentalização das Nações Unidas” levadas a cabo pelo Ocidente. Responsáveis pelo início do conflito sírio, através do apoio e financiamento prestados a “grupos terroristas” como a Al-Qaeda e o Daesh, os Estados Unidos e os seus aliados na Europa e no Médio Oriente difundem através da comunicação social, segundo o CPPC, “mentiras” e “falsidades” sobre a guerra no país de Bashar al-Assad (cujo nome o Conselho não refere), “tentando fazer passar as vítimas por “algozes” e os algozes por “vítimas”, os agredidos por “agressores” e os agressores por “agredidos””. Neste contexto, a guerra na Síria só acabará pela via do respeito pela soberania daquele país, o que implica o “fim das campanhas” encorajadoras dos terroristas.

 

Os bombardeamentos em Ghouta Oriental foram condenados na Assembleia da República, através de um texto apresentado pelo Bloco de Esquerda e aprovado com os votos favoráveis de BE, PS, PAN, PSD e CDS, em número superior aos votos contra de PCP e PEV. A propósito desta votação, um dos cronistas do Avante!, Jorge Cadima, assina o artigo “O BE e as agressões imperialistas”, no qual acusa o partido de Catarina Martins de reproduzir “todas as patranhas da propaganda de guerra de agressão à Síria”. Para Cadima, o conflito sírio é apenas mais um do “infindável rol de guerras e ingerências do imperialismo”, baseando-se não só no ataque militar ao regime de Damasco mas também nas “enormes e mentirosas campanhas propagandísticas que diariamente nos entram em casa”. O articulista recorre a uma colecção apreciável de recortes da imprensa internacional para listar exemplos de falsas justificações para guerras em vários pontos do mundo forjadas pelos EUA desde os anos 50, numa série de fraudes que “Os dirigentes do BE não podem alegar que desconhecem”. Contudo, os bloquistas “juntam a sua voz ao coro dos propagandistas das guerras de rapina” imperialistas, numa atitude semelhante àquela que tomam perante a situação na Venezuela e na “RPD da Coreia”.

 

Porquê? Logicamente, porque o BE, levado “ao colo” pelos jornais criados por Belmiro de Azevedo e Francisco Pinto Balsemão, está ao serviço do “grande capital”. Para evitar o crescimento do PCP, os donos do dinheiro impulsionam o Bloco, sabedores de que, “chegado o momento da verdade, os dirigentes do BE estarão do lado do sistema”, à imagem do que se passou na Grécia com o Syriza. Assim, os bloquistas não passam de peões das “velhas potências imperialistas” e, num cenário de corrida para uma nova guerra à escala planetária, recusam ser solidários “com quem resiste” aos planos expansionistas do capital. Curiosamente, no seu longo artigo motivado pela guerra na Síria, Jorge Cadima nunca utiliza as palavras “Irão”, “Putin” e “Rússia” (alude apenas à “emergência de novas potências económicas”, vista com apreensão pelo imperialismo americano). É inútil tentar discutir com pessoas que conduzem em contramão enquanto lançam insultos a todos os idiotas que vão na direcção errada, mas a análise da política nacional e internacional feita por alguém com o grau de isenção de Jorge Cadima inspira uma reflexão em vários pontos.

 

 

Primeiro: o anti-imperialismo pode constituir uma espécie de eurocentrismo retorcido, na medida em que os comportamentos de países e personalidades do antigo Terceiro Mundo são avaliados apenas em função das posições dos EUA e da União Europeia relativamente a eles. Nesta óptica, um determinado líder político só pode ser um lacaio do imperialismo ou um heróico resistente aos vorazes apetites do capital. Esta visão bipolar, além de infantilizar mesmo quem se pretende defender, faz ainda menos sentido na actualidade, quando, num mundo caótico e multipolar, interesses muito diversos entram em confronto, enquanto a vontade de Washington e Bruxelas torna-se crescentemente irrelevante (a Síria constitui um bom exemplo desta tendência).

 

Segundo: os adversários do PCP e do Bloco de Esquerda costumam amalgamar estes partidos num conjunto homogéneo, sem terem em conta as várias diferenças entre os dois, aliás destacadas pelos próprios. Uma das áreas de discórdia reside precisamente na avaliação do que se passa fora de Portugal, tema no qual o BE, mais jovem e flexível, não tem de lidar, ao contrário do PCP, com a obrigação de manter o apoio incondicional a todos os seus “amigos” do tempo da URSS (a posição perante o legado da Revolução Russa representa outra divergência entre comunistas e bloquistas), até mesmo aos que entretanto se converteram ao capitalismo. Tendo em conta o que se passou na primeira década do século XXI, é difícil acusar o Bloco de ser demasiado meigo para com a política externa americana, em particular quanto à actuação dos EUA no Médio Oriente. Na verdade, os bloquistas apenas não desenvolveram suficientemente as capacidades de negar o inegável, recusar ver o que não interessa e acreditar em teorias da conspiração, treinadas pelo PCP antes da queda do Muro de Berlim. A nível interno, a relação concorrencial entre o PCP e a extrema-esquerda não se alterou muito desde os anos 70, quando os seguidores de Álvaro Cunhal acusavam os maoístas de serem financiados pela CIA.

 

Terceiro: há muito tempo que deixou de ser possível, no meio do caos na Síria, encontrar “bons” para apoiar contra os “maus”. Quando muito, o Ocidente ajudou ou tolerou os “maus” que não pretendiam estender a guerra para cá do Mediterrâneo na luta contra os “maus” do Estado Islâmico. As várias partes em conflito na Síria emitem uma vasta propaganda que dificulta o conhecimento do que realmente se passa no terreno. No entanto, para os civis cercados e atingidos pelos bombardeamentos com armas químicas ou convencionais, pouco importa se quem os está a matar é o imperialismo russo ou o imperialismo americano. Tal como o PCP, espero que a coligação Putin-Assad domine em breve o enclave de Ghouta Oriental, mas apenas porque a vitória de um dos lados é a única maneira de obter o fim dos bombardeamentos e criar condições para o fornecimento de ajuda às populações, uma vez que razões humanitárias, como já se percebeu, nada dizem aos presidentes russo e sírio.

 

 

Tweets

1. Existem quatro entidades responsáveis por todo o mal que acontece no mundo: os media, as elites, os políticos e os árbitros.

 

2. Pinto da Costa, Luís Filipe Vieira e Bruno de Carvalho julgam ser donos, não só dos clubes a que presidem, mas das mentes de todos os portistas, benfiquistas e sportinguistas. Os três acreditam na máxima “Guerra é paz, liberdade é escravidão, ignorância é força”.

 

3. O problema com o estilo de liderança de Rui Rio é que torna difícil perceber se Rio é incrivelmente determinado ou incrivelmente arrogante.

 

4. Uma subida do PSD de Rui Rio nas sondagens, acompanhada da estagnação ou queda das intenções de voto no CDS, provaria que a análise dos comentadores de direita está (outra vez) completamente errada. No entanto, caso o crescimento “laranja” seja feito à custa do PS, a vida de António Costa fica mais complicada. Eu gostaria que Rio tivesse sucesso, mas ao mesmo tempo gostaria que o portuense se espalhasse ao comprido. É complicado.

 

5. Sempre pensei que, depois de sair da política, o prof. Passos Coelho iria criar uma start-up e ser um empreendedor. Afinal, o prof. Passos Coelho resolveu ser mais um funcionário público parasita a comer à mesa do Orçamento de Estado.

 

6. Os sucessivos louvores de muitos colunistas a Pedro Passos Coelho, descrito como uma mistura de Winston Churchill e Steve Jobs, sugerem a total e frustrante incapacidade da direita liberal para encontrar outro líder. Alguns órfãos de Passos voltam-se agora para Assunção Cristas, deixando a impressão de que se limitam a conformarem-se com aquilo que resta. Se já não podemos ter quem amamos, que remédio senão aceitarmos alguém disponível para aturar-nos.

 

7. Para espanto geral, Assunção Cristas não concluiu o seu discurso sobre o fim do voto útil com a frase “Obrigado, António Costa”.

 

8. A popularidade de Marcelo Rebelo de Sousa é de tal forma esmagadora que afirmar que o Presidente foi pouco feliz nesta acção ou naquela frase soa a blasfémia. De resto, Marcelo reage eliminando imediatamente o facto na origem da tímida crítica (como no caso da demora na visita presidencial aos desalojados do Algarve). Nenhum santo quer descer do altar.

 

9. João Miguel Tavares é honesto e bem-intencionado, mas, coitado, é tão ingénuo.

 

10. O programa de debate político da RTP3 O Outro Lado, com Rui Tavares, Pedro Adão e Silva e José Eduardo Martins, causa mais tédio do que seria de prever. Dir-se-ia que os três comentadores são pessoas inteligentes, mas funcionam mal em televisão. No fundo, são maus desenhos animados. Da mesma forma, alguns aspectos do formato roçam o ridículo, como as perguntas redundantes em rodapé, as constantes interrupções feitas pelo moderador, João Adelino Faria, aos membros do painel, ou o bordão de José Eduardo Martins, “Vamos lá ver uma coisa” (em cada programa, Martins vê pelo menos umas 15 coisas).

Direitas unidas?

Pedro Marques Lopes e outros adversários do Observador descrevem o jornal electrónico como o porta-voz e instrumento de pressão de uma “direita radical” ou “extrema-direita” desejosa de assumir o controlo do PSD. A palavra “radical” tem sido tão frequentemente utilizada quer pela esquerda quer pela direita para se atacarem que já não significa nada de concreto. Quanto à acusação de extremismo, é incorrecto confundir os colunistas do Observador, de natureza liberal, com o sector mais autoritário da direita, cujas opiniões podem ser acompanhadas através do semanário O Diabo e dos artigos e declarações de figuras dessa área (João Braga, Maria Vieira, Jaime Nogueira Pinto, António Ribeiro Ferreira, etc.) dotadas de acesso ao espaço público. Por outro lado, tanto os liberais como as personagens da direita extraparlamentar prefeririam ir jantar com o xeque Munir e Rita Ferro Rodrigues a passar pelo horror de apertar a mão a Rui Rio. A Direita Liberal (DL) e aquilo a que, simplificando, chamaremos Direita Fascista (DF), possuem vários pontos de contacto e de separação que explicam as antipatias e afinidades entre dois territórios políticos separados não por um muro, mas por uma fronteira aberta onde circulam ideias entre os dois lados.

 

Pontos de separação

 

Relações externas: O eurocepticismo da DF, avessa a quaisquer instituições supranacionais que ponham em causa a soberania da pátria, contrasta com a ligação da DL à ortodoxia de Bruxelas, embora os liberais rejeitem projectos federalistas. À defesa do proteccionismo económico e à crítica aos “globalistas” feitas pela DF, os liberais respondem com a apologia da globalização e do comércio livre. De resto, um traço distintivo dos membros da DL é a afirmação de que a dicotomia tradicional esquerda/direita deixou de fazer sentido, para dar lugar ao antagonismo entre cosmopolitas e partidários de “sociedades fechadas”. A multiculturalidade e as alterações urbanas associadas ao crescimento do turismo geram desconfiança na DF, enquanto a DL parte do princípio de que, se algo dá dinheiro, só pode ser bom.

 

Costumes: As mudanças culturais ocorridas nas últimas décadas causam profundo desconforto na DF, à qual continua a fazer muita confusão que casais do mesmo sexo andem de mão dada na rua. No seio da DL, as atitudes variam em função do grau de influência da Igreja Católica, mas vários liberais aceitam, em nome da liberdade individual, o princípio de que o Estado não deve regular a vida privada dos cidadãos. O recente coming out de Adolfo Mesquita Nunes originou elogios a uma direita moderna e arejada, agora livre de tabus obsoletos. Entretanto, a reboque do movimento MeToo, alguns colunistas da DL recuperaram o puritanismo, criticando os alegados excessos da liberdade sexual adoptada desde os anos 60.

 

Passado: A extrema-direita relembra assiduamente os exemplos dos heróis da História portuguesa (D. Afonso Henriques, Nuno Álvares Pereira, Afonso de Albuquerque…) e encontra em Salazar uma referência incontornável do pensamento político, além de chorar ainda a perda do Império. Já na DL, predomina uma atitude presentista e de relativa indiferença pelo passado, do género: “Sim, o 25 de Abril foi giro, com os cravos e tal, mas porque é que temos de andar sempre a falar nisso?” Os “observadores” recuam no tempo apenas para irem buscar Sá Carneiro e garantirem que o fundador do PSD estaria do lado deles se fosse vivo. No que respeita ao anticomunismo, a clivagem nas direitas é mais geracional que ideológica. Enquanto os políticos e comentadores mais velhos utilizam o mesmo discurso dos tempos do PREC e da Guerra Fria, os jovens descrevem o PCP e o Bloco de Esquerda sobretudo como forças reaccionárias e interesseiras, cuja oposição às necessárias reformas se deve à tentativa de proteger os seus eleitorados.

 

 

Pontos de contacto

 

Lá fora: Embora o discurso da DF seja mais agressivo, ambas as direitas defendem os “valores ocidentais” e preocupam-se com a “islamização da Europa”, ligada ao terrorismo e aos numerosos crimes cometidos por muçulmanos no continente demasiado generoso que os acolheu. Tanto a DL como a DF são fortemente pró-israelitas, considerando anti-semitas as críticas a Israel, visto como um farol de civilização no meio da barbárie árabe. Perante o fenómeno Trump, as reacções das direitas portuguesas têm variado (com raras excepções) entre o elogio ilimitado, o silêncio benévolo ou o esforço de “normalizar” o presidente americano, mero seguidor da linha dos seus predecessores. Os articulistas da DF mostram uma clara admiração pelo estilo autoritário de governo de Vladimir Putin, enquanto na DL a diversidade de opiniões não impede o surgimento de russófilos inesperados como Paulo Portas.

 

Politicamente correcto: São abundantes, quer no Observador quer em O Diabo, os lamentos pela ameaça à liberdade de expressão representada pelo castrador “politicamente correcto”, impeditivo de uma análise da realidade tal como é e obcecado pelos direitos das minorias ao ponto de colocar os homens brancos heterossexuais numa situação de quase clandestinidade. A DF e a DL sentem uma repulsa instintiva por ecologistas, “animalistas” ou activistas anti-touradas e denunciam, mesmo em textos de colunistas ateus, a tendência cultural de descristianização, na origem de uma modernização imprudente da Igreja.

 

Sociedade: Defensoras por excelência da iniciativa privada e hostis a impostos ou regulações limitativos da actividade dos empresários, as direitas partilham a tese de que os portugueses se habituaram a uma vida de gastos luxuosos superiores às possibilidades do país (para a DF, a decadência hedonista começou com o 25 de Abril, enquanto a DL visa sobretudo os governos socialistas empossados a partir de 1995) e propõem uma contenção severa de despesas rumo ao pagamento integral da dívida pública. O discurso anti-elitista, focado no desprezo pela “oligarquia” e pelas “elites bem-pensantes” criadoras e beneficiárias do “sistema” vigente, que as protegia com carinho mediático e parcialidade da justiça antes da aurora redentora trazida pelo Correio da Manhã e por Joana Marques Vidal, ganhou nos últimos anos uma relevância crescente na ideologia das direitas nacionais.

 

 

Dentro do campo não esquerdista, encontra-se ainda o espaço reduzido do Centro-Direita (CD). Tal como a sigla indica, o CD já conheceu momentos de glória, em particular na década de 90, mas o seu declínio mostra-se inegável. Ao proporem uma via reformista, as personalidades do CD vêem parceiros naturais nos “assistas” do PS, com quem partilham a repugnância pelas correntes revolucionárias das respectivas áreas políticas. No entanto, o esvaziamento do centro, o domínio da opinião publicada pelos “radicais”, o agravamento da visão bélica da política e a falta de condições para entendimentos inter-partidários a longo prazo tornam cada vez mais rarefeito o ar respirado pelo CD, enquanto a DF e a DL começam a acreditar que muito mais é o que as une que aquilo que as separa.

O charme de Ivanka

Na mesma altura em que Fogo e Fúria, de Michael Wolff, chega para conquistar as livrarias portuguesas, outra obra sobre Donald Trump está a ser lançada pela Ideia-Fixa, uma chancela da Alêtheia, a editora politicamente empenhada sob a direcção de Zita Seabra. Contrariamente ao que a capa de Dia D: O Dia de “The Donald”, de João Lemos Esteves (JLE), dá a entender, ao mostrar a cabeça de Donald Trump enxertada na estátua de Abraham Lincoln e uma Estátua da Liberdade com o rosto de Ivanka Trump, não se trata de um romance de ficção científica inspirado por Planeta dos Macacos, mas sim de um ensaio no qual o colunista do i analisa as razões do sucesso eleitoral obtido em 2016 por “The Donald” e o primeiro ano do nova-iorquino no cargo de presidente dos Estados Unidos da América.

 

 

Os prefácios são importantes nas obras de João Lemos Esteves, como é visível no seu livro de crónicas políticas, Margem Direita (Chiado, 2015), cujo texto introdutório foi assinado por Marcelo Rebelo de Sousa (então professor da Faculdade de Direito de Lisboa, onde Lemos Esteves é assistente e doutorando). No seu estilo particular, Rebelo de Sousa deu um conselho a JLE, escrevendo, por outras palavras: “João, concentra-te na carreira académica, porque na política não és lá grande espingarda”. Talvez por causa disso, Esteves deixou de gostar de Marcelo, político que antes referira como a sua principal referência desde a infância, e aproveita em Dia D para acusar o Presidente da República de incoerência, a propósito de declarações de Marcelo sobre o populismo (pp. 100-101). Desta vez, o volume de JLE é prefaciado por André Ventura e posfaciado pelo advogado João Caiado Guerreiro. Ventura elogia Esteves por um “exaustivo e desapaixonado trabalho” sobre questões como “a relação do Presidente norte-americano com a comunicação social”, o eventual “auxílio russo na vitória” ou os efeitos da crise económica de 2008 no aumento da votação nos republicanos, além de prever que “Portugal rapidamente reconhecerá” o serviço público prestado por JLE ao escrever o livro (pp. 4-5). Curiosamente, nas menos de 200 páginas seguintes, Esteves não responde, a não ser de forma passageira, a nenhuma das questões referidas por Ventura e ignora por completo a acusação de conluio da campanha de Trump com a Rússia. No posfácio, João Caiado Guerreiro compara Trump a Cavaco Silva, devido à estratégia comum aos dois presidentes de apelar directamente ao eleitorado, contornando os media hostis e a “ditadura do politicamente correto” (pp. 189-190)”.

 

A ficha técnica de Dia D menciona João Miguel Alves como responsável pela revisão do texto da obra. O leitor depressa compreende que Alves falhou no seu trabalho, uma vez que o livro de JLE inclui literalmente dezenas e dezenas de erros de português. Abundam palavras mal escritas (“declação”, “conveniêcia”, “pululuram”, “televiso”, “esá”, “estratégios”, “celebreu”, “intercaalres”, “pressupsotos”, “terriório”, “tradiconal”, “eleites”, “probelmas”, “demcoracias”, “convicente”, “crescemente”, “inentivos fiscias”, “decorência”, “progressita”, “Hilalry”, “apoaintes”, “europa”, “jutiça”, “ganahr”, “Televive”, etc.), erros de concordância de género ou entre o sujeito e o predicado e frases que não fazem sentido devido à falta ou excesso de palavras (“que não têm de científico”, “qual o critério que permite apartar a e, dos elite do povo?”), além de péssimas traduções de textos do inglês para o português. Será que Zita Seabra não compreende que publicar livros cheios de gralhas destrói a credibilidade dos seus projectos editoriais? Quanto à estrutura de Dia D, assenta sobretudo na colagem e reformulação de crónicas anteriormente escritas por JLE, o que confere à obra um carácter desconexo e fragmentário.

 

No mais extenso dos 16 capítulos, João Lemos Esteves analisa o conceito de populismo, por si considerado vago e sem grande significado prático, pois “O populismo é discurso – e não acção política” (p. 120) e não passa, afinal, de uma expressão do conflito permanente típico dos regimes democráticos adaptada aos tempos de crise, quando a maioria da população se sente excluída do poder político pela elite. Nesse sentido, “o (dito) populismo pode reforçar o sentimento democrático” (p. 118), ao transmitir ao Estado as preocupações de todos os cidadãos. De qualquer maneira, segundo JLE, Trump não é um populista, mas antes um “popularista”, dado que “entende que o poder reside no povo” e “todos os membros da comunidade têm o direito, o poder de intervir activamente no Governo da Nação, sem exclusões, sem censuras” (p. 136). A candidatura trumpista constituiu, assim, uma revolta contra as elites, os media e o politicamente correcto (simbolizados por Hillary Clinton) apoiada pelo povo dos EUA, que viu no filho de Fred Trump uma “prova viva da ascensão social” e o símbolo do espírito americano, traduzido em “Fama, dinheiro, sucesso e independência” (pp. 125-126). Outro elemento relevante para a vitória de Trump foi a intervenção na campanha da sua filha Ivanka, “jovem, mulher, bem sucedida, milionária, liberal nos costumes, cosmopolita, graciosa, tolerante” (p. 157) e dotada de capacidades políticas que, como terá sido dito por “um alemão da CDU” a Lemos Esteves, impressionaram a própria Angela Merkel (p. 158).

 

 

O problema é que os argumentos de JLE, dominados por um misto de ingenuidade e falta de perspicácia política, não são minimamente convincentes. O autor passa sempre ao lado do essencial e não explica, por exemplo, em que consiste a mensagem supostamente opressora do “pensamento único” imposto pela esquerda através do “politicamente correcto” e como ela despertou a fúria dos americanos. Ao limitar-se a apresentar a perspectiva dos apoiantes de Donald Trump e a diabolizar os críticos do líder americano, Esteves perde qualquer aparência de imparcialidade e cai num registo superficial, sem nenhuma análise livre de clichés da realidade americana. Num capítulo sobre a “pós-verdade”, JLE revela-se incapaz de distinguir entre diferentes interpretações políticas da realidade e mentiras descaradas, para lá de referir Jason Brennan como “referência intelectual da esquerda caviar” (p. 149), uma incorrecção (além de Contra a Democracia, Esteves deveria ter lido Capitalismo. Porque Não?) que faz cair pela base as conclusões das páginas seguintes. Considerando irrelevantes as propostas e afirmações mais bombásticas do presidente americano, o académico da FDUL nunca ajuda o leitor a ver em Trump as qualidades que JLE nele encontra.

 

O que leva um militante do PSD (partido ao qual também pertencem Zita Seabra e André Ventura) a classificar Donald Trump, ao fim de um ano, como “o Presidente mais consequente, mais efectivo e mais dinâmico desde há muitas décadas” (p. 171) nas democracias ocidentais? João Lemos Esteves sente uma admiração acrítica pelos EUA, tal como um evidente fascínio por empresários de sucesso, e logicamente pelo “Presidente-empresário” (p. 169), mas o factor mais importante para a adesão de JLE ao trumpismo parece ser a “confiança na iniciativa privada, no investimento privado” da actual Administração (p. 185), ou seja, a redução de impostos e a desregulação da economia. O livro de Esteves reforça, involuntariamente, a posição de quem nunca considerou Trump um político anti-sistema. Pelo contrário, Donald J. Trump não passa de uma versão mais musculada desse sistema e do domínio das elites contra as quais tanto discursa. No que respeita ao politicamente correcto, gostaria de deixar aqui uma mensagem para Lemos Esteves: João, se tu dizes coisas diferentes daquilo que toda a gente diz, nem sempre isso significa que tu és um génio ou que a comunicação social é tendenciosa. Às vezes, quer simplesmente dizer que tu estás errado.

 

P.S. Em que periódicos terá João Lemos Esteves colaborado entre os 14 anos (idade com a qual, segundo a nota biográfica incluída no livro, se estreou como comentador político) e os 21 ou 22 anos, quando chegou ao Expresso?