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Desumidificador

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Como ser fascista

 

Baixe o nível: Ataque as “elites bem pensantes” que se distanciam do povo, obcecadas pelo “politicamente correcto” e pela concordância entre o sujeito e o predicado. Quando se dirigir aos seus adversários, insulte-os abundantemente, remexa na vida privada deles, goze com o sofrimento alheio e recuse tratá-los como seres humanos. Claro que ouvirá a barulheira das virgens ofendidas do costume, mas muitos eleitores vão gostar de ver os seus preconceitos confirmados e invejar alguém capaz de ser rude e desagradável e sair sempre impune. A linguagem inflamada tem também a utilidade de hipervalorizar a emoção e converter os factos em lixo descartável. Se você for espontaneamente malcriado sempre que falar em público, o seu estilo acabará por tornar-se normal e até será elogiado pela sua sinceridade. Quando chegar a esta fase, anuncie aquilo que fará depois de ser eleito. Ninguém vai acreditar que é mesmo a sério.

 

Vítimas e carrascos: Garanta que você é uma vítima e foram sempre os outros meninos que começaram a briga. Por exemplo, você não é machista, só recusa os excessos do feminismo. Não é homofóbico, rejeita a ideologia de género. Não é racista, opõe-se aos malefícios do multiculturalismo, etc., etc. Esclarecido este ponto, ataque sem dó nem piedade. Utilize com frequência verbos como “punir”, “varrer”, “castrar”, “obrigar”, “expulsar”, “reprimir”, “esmagar” e tudo o que implique dar porrada literal ou metafórica nas pessoas de quem não gosta. Acuse os defensores de soluções mais brandas de serem, na melhor das hipóteses, ingénuos crentes no Pai Natal, e, na pior (prefira esta), traidores ao serviço do inimigo. Se for homem, vai sentir-se tão macho. Se for mulher, vai adorar o prazer de humilhar outras mulheres.

 

Abomine muito a corrupção: A grande vantagem da corrupção é que, ao contrário de crimes como o plágio, o tráfico de droga, o excesso de velocidade ou deitar lixo na rua, pode ser associada exclusivamente aos políticos e fornecer-lhe assim a justificação moral necessária para evitar que a política seja uma enfadonha troca racional de argumentos (nisso você não tem hipóteses de sucesso), em vez de uma excitante e infindável batalha entre as pessoas honestas e os bandidos. Acha que alguém vai querer ser visto ao lado dos bandidos? Claro que não, sobretudo depois de você gritar 24 horas por dia o quanto odeia a corrupção e apontar quem fala de “segredo de justiça”, “garantias de defesa”, “direitos dos arguidos” e outras tretas como cúmplices da ladroagem que também precisam de ser varridos.

 

 

 

Mostre como a democracia é cara: Para guiar o povo pelo caminho luminoso da raiva e do ressentimento, lembre-lhe que está a sustentar parasitas. Fale da vida de luxo dos políticos, dos carrões pagos pelos contribuintes que eles usam, dos ordenados principescos que recebem, da inutilidade do trabalho deles. Dê a entender que qualquer ocupante de um cargo público é culpado até prova em contrário. Recorra a termos como “corja”, “saque”, “chulos” ou “gatunos” e proclame que chegou a hora dos portugueses deixarem de ser “mansos”. Esta estratégia tem dois objectivos. A curto prazo, faz o seu público desconfiar de toda a classe política e ver em si (que, obviamente, não é um político) um salvador, reduzindo os níveis de exigência e convertendo os seus defeitos em qualidades. Além disso, ao desacreditar instituições como partidos, sindicatos, parlamentos ou qualquer forma de participação política, garantirá que ninguém vai protestar depois de você chegar ao poder e acabar com isso tudo.

 

Tudo pode ser verdade, tudo pode ser mentira: Aproveite bem todas as oportunidades de aparecer na televisão (se conseguir falar sobre futebol, ainda melhor), mas, no resto do tempo, queixe-se de censura e descreva uma conspiração dos media contra si. Ridicularize os comentadores, reduza todo o jornalismo a uma forma de manipulação política e denuncie como falsos e tendenciosos os artigos e reportagens que lhe sejam desfavoráveis. Incentive os seus adeptos a receber informação apenas através das redes sociais, onde pode espalhar todo o tipo de “factos” devastadores para os seus adversários. Para criar boas fake news, é fundamental nunca se preocupar com a verosimilhança delas, por mais absurdas e fáceis de desmentir que sejam. Afinal, a sua mentira é apenas a confirmação daquilo que o público já sente que é verdade. A reacção do internauta à “notícia” nunca deve ser de choque ou surpresa, mas sim um “bem me parecia” e a consequente partilha. Use de preferência maiúsculas brancas sobre fundo preto, dando a impressão de que cada mensagem faz a diferença entre a vida e a morte dos leitores. Se tudo correr bem, você nem precisará sair de casa para dominar um país inteiro.

 

Pinte a História de cor-de-rosa: Associe o seu orgulho de ser português à “gesta” dos Descobrimentos e conte como durante séculos pessoas de todas as raças e credos viveram em paz e harmonia no Ultramar, partilhando a grande aventura da portugalidade. Quanto ao Estado Novo, lamente um ou outro erro cometido, mas recorde que ao menos nesse tempo havia ordem nas ruas e contas equilibradas. Destaque a vida austera levada por Salazar em S. Bento numa época em que os jornais nunca publicavam notícias de casos de corrupção. Se alguém apresentar uma versão diferente da sua, acuse-o de usar o passado para fins políticos, coisa que você nunca faz. Contudo, não exagere nas evocações históricas, pois o objectivo limita-se a transmitir a impressão de uma grandeza passada da nação que a dada altura terminou, por causa de pessoas como Sérgio Godinho, e é preciso recuperar. Se os seus apoiantes começarem a interessar-se a sério por História, ainda acabam a ler livros perigosos.

 

Siga estes conselhos e poderá em breve conduzir Portugal ao mundo encantado do fascismo. Não tem dinheiro? Não há problema, procure nos sítios certos e vai ver que ele aparece. Em caso de necessidade, peça a um dos seus amigos o contacto do Steve Bannon. Ele liga para Moscovo e arranja qualquer coisa para si.

 

 

 

Notas sobre a Geringonça

O nome: Vasco Pulido Valente terá usado numa crónica a expressão “geringonça” para descrever o estado do PS, muito antes de Paulo Portas colar a palavra à aliança parlamentar formada no Outono de 2015. Lançado pelo então líder do CDS com intuito pejorativo, o termo depressa foi adoptado pela comunicação social, sendo escrito nos jornais primeiro entre aspas e depois sem elas, uma vez que o novo significado do vocábulo supostamente já se banalizara na linguagem popular. À medida que o tempo avançava e a coligação resistia, alguns sectores da esquerda resolveram neutralizar o desdém contido na expressão fazendo-a sua e escrevendo orgulhosamente “Geringonça” com maiúscula. A nomenclatura acabou por perder a carga emocional e ser aplicada a qualquer coligação interpartidária formada num dado país europeu. Presente nos títulos de vários livros, incluindo o segundo volume das memórias presidenciais de Cavaco Silva, a palavra “geringonça” será, de acordo com os jornalistas, a designação pela qual o Governo de António Costa ficará conhecido nos livros de história. Pensar que tudo isto começou com Portas e Pulido Valente faz-nos perceber como Portugal funciona, ou seja, um pouco ao acaso.

 

As vantagens: A formação e estabilidade do XXI Governo Constitucional acabaram por beneficiar quase todos os partidos. O PS voltou ao Governo e evitou a “pasokização” que arrasou um a um os seus congéneres estrangeiros. BE e PCP “normalizaram-se” dentro do sistema, ganharam o estatuto de parceiros confiáveis e acentuaram o fracasso do discurso anticomunista (insucesso também estimulado pela fraqueza actual do marxismo, mas isso é outro tema). O PAN viu aprovadas várias das suas iniciativas e aproveitou bem o pouco espaço concedido a André Silva. Finalmente desamarrado do PSD, o CDS reforçou a sua identidade própria e alimentou sonhos de grandeza. O descrédito do “voto útil” e o estabelecimento do objectivo de uma maioria multipartidária de esquerda ou direita, sem necessidade de um partido hegemónico, estimularam o aparecimento de novas forças direitistas. Apenas o PSD, depois de dois anos sem perceber o que estava a acontecer, entrou numa crise de identidade potencialmente dilacerante. A seta que Sofia Vala Rocha queria cravar no coração da Geringonça mudou de trajectória e atingiu os “laranjas”.

 

Clientelas e eleitoralismo: A “reposição de rendimentos” contrariou uma atitude hoje menos frequente, mas asfixiante em 2015, quando qualquer medida governativa que deixasse alguém contente era considerada perigosa, despesista, demagógica e até eticamente condenável. Nessa perspectiva, o povo português tinha de ser salvo de si próprio por uma vanguarda revolucionária e uma reforma só seria eficaz se incomodasse toda a gente enquanto era conduzida com “coragem política”. Os funcionários públicos eram descritos com verdadeiro ódio de classe e a generalidade dos dependentes do Estado censurados implicitamente pela sua falta de empreendedorismo. A política contra-revolucionária da Geringonça, aliada ao sorriso de Marcelo Rebelo de Sousa, veio dizer aos portugueses que afinal não viviam em pecado e, depois do regresso dos feriados de 5 de Outubro e 1 de Dezembro não ter causado o fim do país, mostrou haver condições materiais para afrouxar um pouco o cinto.

 

 

O centenismo: A estratégia orçamental de Mário Centeno foi essencial ao sucesso da Geringonça, apesar de evitar que esta fosse tão longe quanto parte da esquerda e parte da direita gostariam. Na verdade, era a única via para conseguir a quadratura do círculo julgada impossível há três anos, através da conciliação das preocupações de Bruxelas com as exigências dos parceiros do Governo. Depois de tanto tempo passado a realçar a importância de um défice baixo e a alertar para o esbanjamento inato da esquerda e do PS em particular, a direita viu-se encurralada no seu próprio discurso. Se espremermos as reacções de PSD e CDS aos orçamentos de Centeno, o sumo obtido é muito pouco, entre as críticas simultâneas ao “eleitoralismo” e à “austeridade de esquerda” (só Assunção Cristas é capaz de dizer sem se rir que o CDS gosta do investimento público). Ainda por cima, a doutrinação liberal acabou por levar muitas pessoas a apreciarem a cautela de Centeno na gestão das despesas estatais. Ao mesmo tempo, comunistas e bloquistas obtiveram concessões suficientes para os impedir de lançar ataques nocivos para si próprios. Centeno seguiu um caminho definido por si como uma via alternativa quer ao despesismo quer à austeridade. Quando se diz que Centeno poderia ser ministro do PSD, importa esclarecer de qual PSD estamos a falar. Certamente que Mário poderia integrar um governo do PSD-RR, mas não um do PPC/PSD. Apesar dos dois frequentarem a Luz, Centeno não é Vítor Gaspar.

 

A bola de cristal: Além de concretizar o sonho de infância de Rui Tavares e Daniel Oliveira, a aliança entre PS, BE e PCP destruiu o horrendo “arco da governação” e provou a capacidade da esquerda se entender em matérias essenciais, apesar das diferenças entre os seus vários sectores. A Geringonça anulou por enquanto (tudo pode mudar de repente) o risco de uma deriva populista semelhante às que vão acontecendo por todo o lado, deixando Portugal invulgarmente sereno e fazendo José Manuel Fernandes perguntar-se porque tinha ele de nascer num país de idiotas. Muito alternaram os comentadores entre dizer que Costa levou o BE e o PCP ao bolso e denunciar a esquerdização de um PS preso aos radicais, mas o maquinismo funcionou devido ao alinhamento eficaz das peças, sem nenhuma delas perder as suas características. Arrumado o último OGE, cada partido fará uma campanha própria na qual procurará recolher os louros daquilo que correu bem e empurrar o resto para a borda do prato. O resultado das legislativas ditará o novo cenário político, embora seja seguro dizer que, caso o PS não alcance a maioria absoluta, um novo acordo PS/PCP/BE, ou apenas PS/BE, é bem mais provável que a reedição do Bloco Central ou o “Guterres II” (um frágil governo minoritário sustentado por acordos ocasionais) previsto por Marques Mendes. Em 2015, quem tinha medo de uma aliança entre o PS e os partidos à sua esquerda votou na PAF, não foi “traído” pela estratégia de António Costa. Na actualidade, depois de ouvir tocar esta banda, a maior parte dos fãs quer um encore, não uma mudança de formação ou um espectáculo a solo.

 

Mas...

1. O Brasil não atravessa uma simples crise, vive o colapso de um regime, simbolizado pelo incêndio no Museu Nacional do Rio de Janeiro. Para lá da pobreza e desigualdade sociais que continuam a marcar um país de enorme desperdício de recursos, uniram-se no mesmo momento factores como a radicalização ideológica, o descrédito da comunicação social, a politização da justiça, a recessão económica, a corrupção generalizada na classe política, o bloqueio de um sistema partidário fragmentado onde não é possível governar sem comprar (literalmente) votos no Congresso, a mistura entre política e religião ou uma vaga de criminalidade de proporções inéditas. Perante um cenário que se agrava cada vez mais, o estado psicológico de muitos brasileiros é de medo e saturação. A esperança despertada pela chegada ao poder do PT e pelos programas sociais implementados por Lula da Silva e Dilma Rousseff desvaneceu-se através do envolvimento do partido de esquerda no sistema corrupto. Não sei se Lula é culpado ou inocente daquilo que o acusam (mesmo em Portugal, é difícil encontrar quem tenha uma visão do ex-presidente brasileiro algures no meio-termo, entre o herói e santo e o maior bandido à face do planeta), mas a estratégia do PT de insistir na candidatura presidencial do seu líder histórico até ao limite do possível e depois apostar em Fernando Haddad, ao qual se colou uma imagem de marioneta ou simplesmente de terceira escolha, constitui uma receita para o desastre. Tudo isto cria condições perfeitas para que apareça um tipo pouco conhecido e com pose de durão a dizer que vai arrasar aquilo que existe e instaurar uma ordem nova. Não explica bem como o fará, mas, já que todos os políticos convencionais falharam, muitos eleitores estão prontos para dar um tiro (lá está) no escuro. É preciso ter em conta este ambiente para perceber o que se passa no Brasil, de nada servindo classificar os eleitores de Jair Bolsonaro (ou os de Trump, Salvini, etc.) como um bando de idiotas.

 

Mas… Há um ponto em que a desculpabilização se transforma em infantilização dos eleitores e a atribuição de todas as culpas à esquerda converte a extrema-direita num sujeito passivo a quem o poder caiu no colo por mero acaso. Não cometamos essa injustiça para com os fascistas, coitados. Para lá do protesto anti-sistema, o vago programa de Bolsonaro inclui uma retórica em torno dos “bons costumes”, embrulhada em inúmeras referências a Deus, que se traduz numa agenda profundamente reaccionária, apostada em reverter as conquistas obtidas a favor das minorias étnicas, das mulheres, dos homossexuais e de todos aqueles que não encaixem no mundo tal como Jair o vê. Claro que nem todos os votantes em Bolsonaro são extremistas, mas muitos deles sabem bem o que o seu candidato defende e estão de acordo com ele. As características específicas do Brasil não podem fazer esquecer o fenómeno global em curso. A democracia deixou de estar na moda, enquanto ser racista, machista ou homofóbico começa a tornar-se aceitável e a ser considerado um saudável desafio ao “politicamente correcto”. No Brasil como noutros países, o centro implodiu e a direita antes “respeitável” radicalizou-se. O ódio pelos adversários cresceu ao ponto de legitimar a violência política. As redes sociais contaminaram o debate público através de uma torrente de mentiras, ataques pessoais e propaganda sem contraditório. Ao fornecer informação maciça, caótica e de origem duvidosa, a Internet fez muitos cidadãos julgarem-se conhecedores de todos os temas e desconfiarem de especialistas que desmintam os seus preconceitos (sobre o caso americano, veja-se o livro A Morte da Competência, do republicano anti-trumpista Tom Nichols). O sectarismo e agressividade no discurso político contribuíram para adocicar os defeitos dos líderes de extrema-direita; desde que estes irritem o “inimigo”, podem ser rudes e ignorantes à vontade. O ataque às “elites” passou a ser uma arma das verdadeiras elites. Jair Bolsonaro é apenas mais um candidato a ditador. O risco da maioria da população decidir democraticamente acabar com a democracia está longe de ser exclusivo do Brasil.

 

 

 

2. Após lançar um movimento para destituir Rui Rio da liderança do PSD, no qual não foi acompanhado pelos outros críticos do portuense (prudentemente quietos, eles aguardam a desgraça de Rio nas legislativas de 2019), André Ventura anunciou a sua saída da hoste laranja e a criação de um novo partido, o Chega, fundado com base em propostas como o fim do casamento homossexual, a instituição da prisão perpétua ou a extinção de numerosos cargos políticos. Nunca agradeceremos o suficiente a Pedro Passos Coelho por ter trazido Ventura para a ribalta. No entanto, desde que Passos foi substituído por Rio à frente do PSD, a direita conhece um surpreendente processo de fragmentação. Para lá das divisões no PSD e no CDS, foram já anunciados quatro novos partidos da mesma área política: Chega, Aliança, Democracia 21 e Iniciativa Liberal. Se afastarmos a (duvidosa) hipótese destes partidos convencerem muitos abstencionistas a irem votar, não existe eleitorado suficiente para tantas formações de direita, várias das quais ficarão fora do Parlamento. No que respeita a André Ventura, embora venha ocupar um nicho específico da direita lusa, não possui dinheiro nem capacidade política suficientes para o Chega obter dimensões assinaláveis. A memória do Estado Novo, a situação económica favorável, a rara homogeneidade do território e da população portuguesa, os números reduzidos da criminalidade e a integração eficaz da comunidade muçulmana são alguns dos elementos que dificultam uma progressão da extrema-direita em Portugal semelhante à de outros países.

 

Mas… O historiador Riccardo Marchi aponta como causas principais do fracasso da extrema-direita portuguesa no pós-25 de Abril a ausência de uma liderança capaz e a divisão desse sector político em grupúsculos sempre em guerra uns com os outros. A isto junta-se a falta de acesso aos media, onde o líder do PNR, José Pinto Coelho, raramente aparece e quando o faz passa sempre, sabe-se lá porquê, uma imagem de maluquinho. André Ventura e o Chega podem representar um esforço de unificação dos radicais, além de atraírem as franjas liberais seduzidas por uma fusão de desregulação da economia com o conservadorismo nos costumes. Dotado de amplo tempo de antena na CMTV, onde “defende” o Benfica e comenta notícias de crimes, Ventura goza já da simpatia dos jornais i (uma autêntica crónica das aventuras de Ventura), Sol e O Diabo. Quanto ao Observador, focado no objectivo de dominar o PSD, dificilmente se comprometerá com o Chega, mas pode ceder colunas aos seus membros e defendê-lo de ataques da esquerda. O populismo sempre esteve por cá, de forma espontânea e não organizada, e as opiniões inflamadas vão chegando ao mainstream mediático. Do futebol, onde André Ventura brotou, provêm os sinais mais inquietantes. O fenómeno Bruno de Carvalho e as teorias da conspiração surgidas a propósito das acusações judiciais ao Benfica avisam-nos de que mesmo pessoas inteligentes e habitualmente lúcidas são capazes de acreditar no absurdo. Se o Chega trouxer esta tendência para a política, o que poderá acontecer?

 

 

 

A tralha

Numa das suas primeiras crónicas publicadas na imprensa, mais precisamente no número de Fevereiro de 2006 da revista Atlântico, Henrique Raposo indigna-se com a abundância nas faculdades portuguesas de lojas de fotocópias que lucram à custa das inúmeras reproduções de livros feitas pelos estudantes. Ao invés de comprarem as obras de que necessitam, os alunos acumulam durante os anos da licenciatura “fotocópias enroladas num cordel ou presas por um clipe”, reunidas em pilhas de papéis das quais o recém-licenciado se vê livre com alívio ao atirar as fotocópias lidas e sublinhadas para a arrecadação da casa, onde envelhecem “junto das batatas, das cebolas, dos sapatos velhos da mãe e das garrafas de vinho do pai”. Teoricamente correcta, a indignação de Raposo peca pelo habitual irrealismo da direita, já que muitos dos livros utilizados no ensino superior são caros ou difíceis de encontrar, tornando o recurso a fotocópias inevitável. No entanto, a descrição feita na crónica da Atlântico aplica-se ao meu caso. Coloquei todas as fotocópias que juntei durante a licenciatura e o mestrado em caixas ao lado das diversas tralhas armazenadas pelos meus pais. A documentação académica esteve longe, porém, de ser o único material que não deitei fora ao longo dos anos.

 

O vício de guardar começou pelas revistas de BD da Disney e da Turma da Mônica que li nos anos 90, enquanto fazia na escola testes cujos enunciados e respostas também arquivei. A partir daí, o espaço vago em minha casa foi sendo preenchido quer por centenas de livros quer por vários tipos de objectos em papel que guardei por uma razão ou outra. Por exemplo, manuais escolares e da catequese. Folhetos políticos. Panfletos de publicidade a eventos científicos. Imprensa local de Odivelas. Recortes de jornais com anúncios de filmes. Revistas de cinema. Revistas sobre livros. Revistas de divulgação histórica. Ainda mais revistas. Cartoons publicados na imprensa entre 1998 e 2007 (ano em que deixei de ter pachorra para recortá-los e colá-los em folhas de papel vegetal). Jornais com as notícias dos títulos do FC Porto e de outros acontecimentos marcantes. Mais fotocópias. Uma colecção da Visão que cresceu durante anos e anos até tornar-se um monstro incontrolável. O Inimigo Público, desde a criação até passar a ter apenas quatro míseras páginas agrafadas ao resto do jornal. Marcadores de livros. Cartões de identificação. Bilhetes de teatro, cinema, concertos. Pilhas de cadernos de apontamentos. Folhas manuscritas com as minhas tentativas na ficção e na escrita autobiográfica. Além disto e de muito mais, também tenho de preservar cartas, postais, fotografias e a restante documentação do arquivo de uma família seguidora do provérbio “Guarda o que não presta, terás o que é preciso”.

 

 

E tudo isto para quê? Porquê amontoar imenso material escrito, grande parte do qual nunca voltarei a ler? Preciso mesmo de recordar a matéria de Matemática que estudei no 7.º ano, aquilo que (não) senti no dia da morte da princesa Diana, os filmes em exibição no Verão de 2001 ou as piadas dos cartoonistas sobre o Governo de Santana Lopes?

 

Na actualidade, quando grande parte da escrita tem uma existência apenas virtual, os registos em papel ganham uma maior impressão de permanência, como relíquias de um tempo em que nem tudo podia ser apagado com um clique. Os acervos particulares servem para desafiar a efemeridade de documentos aparentemente insignificantes na época em que foram produzidos. Além disso, as colecções que fazemos podem revelar muito sobre nós ao nível dos hábitos de consumo, das preferências no lazer, das experiências vividas ou apenas daquilo que em dado momento considerámos digno de ser preservado. Não se pode deixar de ter em conta o olhar dos vindouros. Se guardei tanta tralha, foi por pensar que num futuro distante (ou nem tanto) ela poderia ser útil a alguém para estudar uma determinada fase do meu percurso pessoal e familiar ou, noutra escala, dos eventos locais, nacionais e mundiais. Talvez seja uma expectativa ingénua, mas não custa sonhar. Caso a papelada não tenha nenhum uso, os meus sobrinhos podem sempre vendê-la aos alfarrabistas... Esperem, imaginar que ainda existirão alfarrabistas daqui a vinte anos já não é sonho, é delírio.