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O Ano do Bruno

É um pouco estranho observar os balanços de 2018 feitos por sites, jornais, rádios e televisões e verificar o escasso relevo atribuído ao ataque à Academia de Alcochete e ao conjunto dos eventos ligados ao Sporting durante o ano agora a terminar. Afinal, durante praticamente todo o Ano do Bruno, entre a assembleia-geral do SCP que aprovou as modificações feitas pelo então presidente aos estatutos do clube e a assembleia-geral do SCP que confirmou a suspensão dos direitos de sócio do ex-presidente, os portugueses viram, ouviram, cheiraram, beberam e urinaram Bruno de Carvalho. Mesmo depois da destituição, qualquer aparição pública do filho de Rui de Carvalho despertava a atenção obediente dos media, agora iludidos ao ponto de acharem que tudo não passou de futebol, um tema a respeito do qual a memória é ainda mais curta que no resto da actualidade. Na verdade, o estertor do brunismo indicou ou serviu de exemplo de fenómenos a decorrer no país que transmitem uma imagem pouco tranquilizadora da situação de Portugal.

 

Relativamente ao futebol, durante o Ano do Bruno quase podíamos ouvir os jogadores dentro das quatro linhas a perguntar “Alguém se importa de nos dar um pouco de atenção?” De facto, a maior parte do debate e do noticiário desportivos girou em torno de casos de polícia envolvendo os três “grandes” e, com muito menor destaque, clubes como o Moreirense. Mesmo a acusação feita nos EUA a Cristiano Ronaldo, apesar de dizer respeito à vida privada deste, não deixou de afectar a imagem do futebol português ao questionar a conduta do seu nome cimeiro. De resto, viveu-se o banal e saudável ambiente de tensão estimulado por directores de comunicação, suspeitas quanto à arbitragem, insinuações de match-fixing, programas de televisão onde quase se chega a vias de facto, páginas de desinformação na Internet ou actos de violência das claques, esses simpáticos grupos de rapazes indispensáveis ao normal funcionamento do país. A paixão lusa pelo futebol nunca pareceu sustentar tantos parasitas. No entanto, como nenhum agente futebolístico relevante é condenado nos tribunais, pelo menos enquanto se mantiver em funções, tudo está bem quando acaba bem e o circo (romano) pode continuar à vontade.

 

 

Na comunicação social, a cobertura em directo das 359 conferências de imprensa de Bruno foi o menos importante, dado que o princípio “Futebol nunca é demais” constitui há muito tempo uma das duas máximas orientadoras dos directores de informação dos canais televisivos (a outra é “Os portugueses adoram telejornais com hora e meia de duração”). O Ano do Bruno marcou o triunfo definitivo da CMTV e a contaminação dos restantes meios informativos pelo estilo do grupo Cofina, entre a obsessão pelo “directo”, a indiferença pelo rigor factual, a proliferação de comentadores a opinar sobre o nada ou o desprezo pelo ridículo conceito de privacidade. A própria RTP divulgou gravações áudio do interrogatório judicial ao antigo dirigente do SCP, com a autorização do Ministério Público. Saber porque é que o MP a concedeu é algo que ultrapassa a compreensão dos meros mortais. Entretanto, abundam na imprensa os casos de manipulação política e os espaços publicitários não identificados como tal (por exemplo, os anúncios da marca Marcelo publicados semanalmente no Expresso). Estas práticas originam uma desconfiança generalizada do público, ofuscam o bom jornalismo ainda resistente e criam um risco para a democracia, pois não existe nenhuma alternativa credível aos media tradicionais.

 

Como muitas pessoas notaram, a forma como Bruno de Carvalho exerceu a liderança do Sporting desde 2013, e em particular no seu alucinante último semestre no poder, assemelhou-se ao comportamento de um líder político de extrema-direita, incluindo o apelo ao ódio e (alegadamente) à violência. O avanço internacional do fascismo gerou ao longo do Ano do Bruno, sobretudo a partir das eleições brasileiras, uma preocupação manifestada em duas questões frequentes no comentarismo português. Por um lado, a tentativa de explicar o fenómeno, através da qual se apontam inúmeras hipóteses mais ou menos verosímeis, seguidas da sentença “é assim que nascem os Bolsonaros”. Por outro, a interrogação sobre a viabilidade de um eventual sucesso do “populismo” por cá. Uma série de factores apontam esse cenário como uma improbabilidade aparentemente confirmada pelo bluff dos nossos “coletes amarelos”. Todavia, se recordarmos o discurso de Bruno e a normalização do seu estilo pessoal operada durante anos pelas pessoas mais insuspeitas de radicalismo, tal como o número de sportinguistas que seguiram o líder supremo quase até ao fim, até ao fim e mesmo depois do fim, ficamos com um mau pressentimento. De repente, o Brasil parece estar mais perto.

 

Embora Bruno de Carvalho tenha sido destituído do cargo e acusado judicialmente, a sua história ainda inacabada pode ajudar-nos a compreender melhor o Portugal do século XXI. O futebol nunca constitui um mundo à parte, revelando-se um espelho da sociedade onde se desenvolve, tanto nos melhores como nos piores aspectos desta. É chato, mas temos de nos habituar.

 

P.S. Se tivermos em conta apenas o que aconteceu nos relvados, obviamente que a figura desportiva de 2018 é Sérgio Conceição. Mesmo os homens portistas mais heterossexuais não deixam de dizer “eu amo-te, Sérgio”.

 

Café Ventura

Era uma vez um rapaz, filho de pais remediados, que cresceu num lugar de Portugal onde a maioria dos habitantes vivia modestamente e trabalhava nas mesmas actividades geração após geração. Católico devoto, o jovem entrou para um seminário disposto a tornar-se padre, mas abandonou esse objectivo por não conseguir resistir aos encantos femininos. Após sair do seminário, inscreveu-se na universidade, onde se dedicou a fundo aos estudos e manteve-se afastado da boémia estudantil. Licenciou-se em Direito com a classificação impressionante de 19 valores e rapidamente passou de aluno a professor universitário, completando a formação com um doutoramento. Já na casa dos trinta, começou a ganhar fama ao falar em público sobre a actualidade, publicar artigos de opinião na imprensa e dar entrevistas a jornalistas simpáticos. Chegado à política no campo da direita, entrou em conflito com os sectores mais moderados, por ele acusados de excessiva proximidade à esquerda. Eleito para um cargo público, do qual se demitiu ao fim de pouco tempo, criticou o parlamentarismo e defendeu um Estado forte na repressão do crime. Identificou-se com o verdadeiro sentimento da Nação, em contraste com os políticos tradicionais, ligados a interesses pessoais e de grupo. Muitos chamaram-lhe fascista, epíteto que rejeitou como incompatível com os seus princípios cristãos. Temendo ser alvo de violência, evitou ao máximo o contacto com as massas enquanto iniciava o caminho para o poder.

 

Falamos, obviamente, de André Ventura, a partir da narrativa da sua vida feita pelo líder do Chega numa entrevista ao Sol de 15 de Dezembro, onde Ventura descreve longamente os defeitos dos ciganos (de todos eles, dentro e fora de Portugal), embora negue estar “obcecado” pela etnia e aponte que “isto fala-se em surdina nos cafés, mas quando se diz isto em público parece que vem aí uma extrema-direita que é um terror”. De facto, pessoas como Ventura dão-se bem no ambiente dos cafés, inclusive nesse café gigante chamado Facebook. Nos cafés, onde costuma existir uma televisão sintonizada na CMTV ou um exemplar do Correio da Manhã para consulta dos clientes, é possível ter conversas calmas e interessantes, mas elas são abafadas pelo ruído contínuo do grupo que faz mais barulho. O debate em altos berros centra-se muitas vezes no futebol, não tanto no jogo em si mas sobretudo nos casos de arbitragem e nas acusações de corrupção. A discussão atravessa também a política, a sociedade e muitas outras áreas, através das sentenças definitivas de comentadores especializados em assuntos que não dominam por aí além e que simplificam qualquer tema até este caber numa só frase. Entre um e outro copo, difundem-se boatos, agressividade e facciosismo. Antes, os disparates proferidos à mesa do café não ultrapassavam as paredes do estabelecimento, mas hoje o ruído atinge dimensões globais, atraindo políticos para quem o café constitui a verdadeira democracia e não é preciso sair do café para compreender o mundo.

 

 

Além de básico, o discurso de André Ventura revela-se bastante fácil de lançar em Portugal, onde é diariamente reproduzido nos cafés da rua ou da Internet. Os ciganos não são boa rês, os muçulmanos constituem uma ameaça, os deputados são uns parasitas, os políticos só querem é poleiro, a justiça precisa de ser mais dura, os presos deveriam trabalhar em vez de passarem férias à nossa custa, os homossexuais não têm direito a casar? Muita gente diz “Ai, não pares, André, não pares”, até porque esta visão do mundo fornece uma reconfortante superioridade moral e não exige qualquer esforço de aperfeiçoamento a quem está do lado dos “bons”. Afinal, o cliente tem sempre razão, desde que pague (em votos) ao dono do café com o sapo de loiça na montra. Às vezes torna-se duvidoso se Ventura acredita mesmo em tudo o que diz ou simplesmente observou as tendências do mercado e verificou haver uma moda revivalista seguida por uma clientela em expansão que o convenceu a montar o seu negócio, estimulado pelo sucesso de uma marca nova surgida do outro lado da fronteira. Embora disponha de pouco tempo até às legislativas, Ventura pode reunir em Lisboa votos suficientes para ser eleito deputado e transformar definitivamente o Parlamento num café, do qual ele será o frequentador mais barulhento.

 

P.S. Desde Fevereiro deste ano que o jornalista António Ribeiro Ferreira, inimigo feroz dos “lacaios do politicamente correcto”, não assina nenhum artigo no i ou no Sol. No entanto, o nome de Ribeiro Ferreira mantém-se na ficha técnica como chefe da redacção comum aos dois jornais. Isto não faz sentido num ano marcado pela tensão crescente na Europa, pelo triunfo da família Bolsonaro no Brasil e pela efervescência na direita portuguesa, quando Ferreira deveria estar mais motivado que nunca para derramar o seu fel no teclado. De resto, o i e o Sol talvez tenham encontrado aquilo que o director, Mário Ramires, define como “investidores que ousem desafiar os poderes instalados”, já que ambos os periódicos redobram a simpatia para com a extrema-direita. Será que António Ribeiro Ferreira sofre de um problema de saúde ou prefere por algum motivo manter-se nos bastidores?

Um passeio pela direita

1. Faz todo o sentido que a Aliança utilize um discurso anti-sistema, ainda para mais quando o novo partido tem um líder jovem, sem experiência governativa e desprovido de ligações às elites políticas e mediáticas, o Pedro Santana Lopes (acho que o nome é este, mas não me lembro bem da cara dele).

 

2. A dinâmica de derrota em torno de Rui Rio parece imparável, numa altura em que a apreciação dos media (em particular da SIC) sobre o líder social-democrata se torna cada vez mais negativa. A guerra interna do PSD, convertido num saco de gatos, favorece a queda das três setas nas sondagens e a atitude de vitimização da direcção presidida por Rio. Além da hostilidade mediática, há que reconhecer a falta de capacidade mobilizadora do boavisteiro, cujo discurso parece já estar focado em convencer os militantes “laranjas” a não o afastarem depois das previsíveis derrotas de 2019. Ser líder do PSD quando o partido está na oposição é sempre complicado, mas poucos anteviram em Janeiro que o ano correria tão mal a Rui Rio. A resiliência deste poderá motivar um novo fôlego do PSD antes das legislativas, relativamente às quais as expectativas sociais-democratas são tão baixas que até um resultado desfavorável, mas não humilhante, poderá parecer bom. No entanto, disse-se exactamente o mesmo sobre Passos Coelho antes das autárquicas de 2017 e isso não evitou o desastre.

 

3. Durante o debate na especialidade do Orçamento do Estado, Assunção Cristas voltou a apresentar a sua candidatura a primeira-ministra, fazendo Mariana Mortágua rir às gargalhadas. É compreensível que Assunção queira distanciar-se do PSD e atrair pessoas próximas do CDS que duvidam da capacidade do partido da bola ao centro de alcançar o primeiro lugar. No entanto, a menos de um ano das legislativas, quando as sondagens atribuem ao CDS apenas cerca de 7% das intenções de voto, o truque publicitário lançado por Cristas no congresso centrista está a cobri-la de ridículo. A ex-ministra poderia recorrer a uma fórmula mais vaga, à imagem do PCP quando afirma estar preparado para assumir quaisquer responsabilidades que os portugueses lhe entendam atribuir, mas Cristas opta por personalizar a coisa e descrever as atitudes que tomará na qualidade de primeira-ministra. Num dos seus discursos, Marcelo Rebelo de Sousa já disse a Assunção Cristas para parar com isto, mas sem sucesso. Embora legítima, a ambição política torna-se contraproducente ao transmitir uma imagem de irrealismo e megalomania. 

 

4. O empenho da Iniciativa Liberal em assinalar os aniversários do 25 de Novembro e da morte de Francisco Sá Carneiro ganha relevância numa época em que a política se resume ao presente e costuma desvalorizar a memória. A IL tinha já rompido com a tradicional ausência da direita na manifestação comemorativa do 25 de Abril, encarando a Revolução como um ponto de partida para a conquista de mais “liberdade” no futuro. Recordar os eventos da década de 70 contribui para atenuar a habitual dificuldade dos liberais, ciosos da sua originalidade no quadro político português, em encontrar precedentes e referências históricas dos quais sejam herdeiros. Todavia, a construção de uma memória partidária acaba necessariamente por simplificar em demasia os acontecimentos passados. No caso do 25 de Novembro, existiram dentro dos campos em confronto nesse dia grupos com agendas e objectivos distintos, sem uma coordenação unificadora. Mais do que uma vitória dos bons sobre os maus, verificou-se um acordo de finalização do PREC negociado por Álvaro Cunhal e Melo Antunes, rosto principal do Grupo dos Nove, cuja tolerância sobrepôs-se ao anticomunismo de Jaime Neves e dos sectores da direita que pretendiam ilegalizar o PCP. Quanto a Sá Carneiro, o próprio fundador do Partido Social-Democrata negou ser um liberal, apesar dos seus choques com os sectores mais à esquerda dentro do PSD. Sá Carneiro opunha-se ao modelo económico expresso na Constituição de 1976, mas, assim como o seu parceiro de coligação Freitas do Amaral evoluiu até ser hoje visto pela direita como um traidor socialista, quem sabe o que o advogado portuense pensaria no contexto do século XXI?

 

 

5. Enquanto a maioria dos comentadores políticos nacionais mantém os mesmos tiques e manias década após década, Henrique Raposo manifestou uma nítida evolução no seu pensamento ao longo de cerca de dez anos de crónicas escritas para o Expresso e para o site da Rádio Renascença. O Raposo liberal e iconoclasta de 2008, empenhado em romper com o establishment de “Lisboa”, foi dando lugar a um cronista em trânsito lento mas seguro para o conservadorismo. Tudo o que Henrique Raposo escreveu a partir de 2015, incluindo o livro Alentejo Prometido, pode ser resumido em três palavras: Deus, Pátria, Família. O esforço de Raposo consiste precisamente em retirar a esses três conceitos a carga negativa que lhes foi dada pela ligação ao Estado Novo e integrá-los no pensamento de uma direita moderada, oposta quer ao “politicamente correcto” da esquerda quer ao ímpeto revolucionário da extrema-direita em ascensão. Nos seus artigos recentes, centrados sobretudo nos debates em curso nos EUA trumpistas, na França de Macron (visto por Henrique como o novo modelo do político de centro-direita) e no Reino Unido a caminho do Brexit, Raposo propõe a construção de uma pátria cosmopolita, mas orgulhosa da sua História e das suas raízes cristãs. A ideia de uma comunidade nacional aberta à integração de todos os indivíduos dispostos a aceitar as regras definidas, além de empenhada no combate à pobreza e à exclusão, permitiria ultrapassar a lógica agressiva daqueles que, à esquerda e à direita, acentuam as divisões por etnia, género, religião ou orientação sexual. Henrique critica ainda uma direita (liberal?) que reduz tudo ao “Excel” e à liberdade económica, ignorando a necessidade de uma regulação moral do capitalismo dos gigantes tecnológicos. Claro que Henrique Raposo mantém o estilo provocador e as características que lhe têm valido tanta simpatia no ciberespaço, mas a sua distanciação dos episódios do dia-a-dia lusitano e a formulação clara de um “novo” espírito conservador (numa linguagem mais arejada que a de João César das Neves) atribuem ao colunista um estatuto singular no pensamento actual da direita portuguesa.