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Desumidificador

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As sondagens

Tornou-se comum desvalorizar a capacidade das sondagens de antecipar resultados eleitorais depois de várias surpresas ocorridas pelo mundo fora, como os triunfos do Brexit e de Donald Trump em 2016. No caso português, importa ter em conta a experiência dos últimos cinco anos, de acordo com a qual os estudos de opinião costumam acertar no vencedor das eleições e na distância deste para o segundo classificado, ao mesmo tempo que se revelam mais falíveis a partir do terceiro lugar. Durante a campanha para as últimas eleições europeias, as sondagens detectaram a inversão de tendência a favor do PS, mas tiveram problemas ao antever a ordem pela qual BE, CDU e CDS se posicionariam na classificação final. A avaliação dos pequenos partidos é ainda mais incerta, com o PAN a costumar driblar as estimativas das intenções de voto. Apesar destas fragilidades, os partidos que negam ardentemente a relevância das sondagens são aqueles que as levam mais a sério.

Ao longo do mês de Julho, as pesquisas coordenadas por empresas de sondagens e, no caso dos estudos divulgados na SIC e no Expresso, por investigadores do ICS e ISCTE, apresentaram várias diferenças numéricas, mas permitiram identificar tendências comuns. Assim, as pesquisas indicam a vitória do PS (a uma distância incerta da maioria absoluta), o pior resultado de sempre do PSD, o sólido terceiro lugar do BE, a estagnação ou decrescimento do eleitorado da CDU, a subida fulgurante do PAN e a derrocada do CDS, claramente ultrapassado pelos animalistas nos círculos de Lisboa e Porto. A semelhança entre estas estimativas e os resultados das ainda recentes europeias reforça a verosimilhança daquelas.

Como sempre acontece, além de descreverem a realidade, as sondagens influenciam-na. No último mês, o encurtamento da distância entre o PS e a maioria absoluta, julgada inalcançável ainda há pouco tempo, originou diversas reacções nos partidos, entre o entusiasmo cauteloso dos socialistas, receosos de que o mais pequeno erro seja fatal, a denúncia por BE e PCP dos malefícios das maiorias monopartidárias e o verdadeiro pânico à solta na direita. Vários tipos de eleitores estarão a decidir o seu sentido de voto a partir dos cenários descritos pelos estudos de opinião, que motivam alguns simpatizantes da Geringonça a votar nos partidos mais à esquerda para tentar evitar a hegemonia do PS, mas também fazem direitistas de coração pensar em votar no partido de António Costa com o objectivo de afastar bloquistas e comunistas da esfera do poder. O dilema de José Manuel Fernandes, aflito para descobrir quais serão o pior e o menos mau dos cenários pós-eleitorais, representa a angústia do seu sector político perante um contexto em que Costa parece ganhar sempre, seja qual for o resultado de 6 de Outubro.

 

 

As sondagens fazem várias vozes da direita soltar o mesmo grito de frustração que se ouvia há quatro anos do lado da esquerda: “mas este pessoal é burro, ou quê?”. Apesar de todos os casos e problemas que afectam o Governo, as intenções de voto nos socialistas mantêm-se elevadas, enquanto os partidos de direita parecem ter lepra. Na verdade, os estudos mostram também um número elevado e crescente de eleitores brancos/nulos, abstencionistas ou incapazes de se identificarem com qualquer partido. Em 2018, Assunção Cristas e Pedro Santana Lopes calcularam que a viragem ao centro do PSD conduzida por Rui Rio iria empurrar muitos eleitores para os braços da “verdadeira” direita. Contudo, a escolha de parte significativa da base de apoio da PAF (já de si inferior ao conjunto dos votantes em PSD e CDS nas legislativas de 2011), desiludida com as novas lideranças partidárias, terá sido a indiferença e a desmobilização. O crescimento da abstenção e do voto em nenhum partido possui, no entanto, efeitos mais vastos. A pouco e pouco, as eleições passam a contar apenas com a participação dos portugueses mais interessados na política e com uma identidade ideológica definida, enquanto o célebre “eleitorado do centro”, na verdade despolitizado e orientado na votação por factores conjunturais, deixa de flutuar e pousa num sítio tranquilo onde os políticos não o incomodem. As sondagens indicam, de resto, que à excepção do PS, do BE e, obviamente, do PAN, os partidos portugueses sentem grande dificuldade em conquistar novos eleitores e ficam limitados a um punhado de seguidores incondicionais. A desconfiança para com a política atinge tais proporções que, paradoxalmente, dificulta o aparecimento em Portugal do tal líder populista cujo possível sucesso é referido por tantos comentadores (alguns deles num tom de “porque é que ele demora tanto?”). Entretanto, a abstenção e o fenómeno PAN contribuem para uma maior fragmentação das escolhas dos eleitores, com as sondagens a atribuírem a PS e PSD uma invulgar percentagem conjunta de cerca de 60%. Em Lisboa, de acordo com um estudo surgido na TSF e no Jornal de Notícias, o PS alcança 35% das intenções de voto, enquanto o PSD não chega aos 10% e o restante divide-se em partes similares por todos os outros partidos.

A praticamente dois meses das eleições legislativas, as sondagens criam a tentação de começar a desenhar o quadro político do Outono. Os valores actuais dos inquéritos não devem ficar longe do resultado eleitoral, embora o CDS possa ainda recuperar e fugir do Uber, enquanto o PSD parece estar condenado a um desastre propício ao florescimento dos sectores mais radicais do partido. Porém, ao fim de quase dois anos de previsões acerca dos resultados das legislativas de 2019 e do Governo que sairá delas, e enquanto os líderes partidários não correm para as feiras de canetas em punho, o melhor é pensar “Depois logo se vê”. Como se diz na rádio, boas férias se for caso disso.

 

P.S. Porquê ilustrar um texto sobre sondagens com uma imagem de Lena d'Água no videoclip de "Dou-te um Doce"? Bem, estamos no Verão, não é?

O facho é o sistema

Zurzida em numerosas tribunas devido ao seu último artigo de opinião, vindo a lume no Público de 6 de Julho, a professora Maria de Fátima Bonifácio (MFB) encontrou um ambiente fraterno em O Diabo, o semanário fundado por Vera Lagoa e tradicional porta-voz da extrema-direita lusa. No número de 12 de Julho de O Diabo, o histórico antifascista Henrique Neto assina a crónica “A censura em marcha”, onde manifesta a sua concordância com o texto de MFB, à excepção das “sempre perigosas” generalizações por esta feitas, e condena as respostas ao artigo da historiadora divulgadas no Público, diário ao qual, segundo Neto, “as ideias e os ódios de estimação do Bloco de Esquerda” já parecem ter chegado. Outro colunista de O Diabo, Manuel Silveira da Cunha, também rejeita as “generalizações abusivas” de Bonifácio, cujo erro foi não ter apresentado as estatísticas comprovativas da abundância de indivíduos “iletrados”, “parasitas”, “traficantes”, “violentos” e “maus vizinhos” dentro da comunidade cigana (números que Cunha também não partilha com os leitores). Já na edição de 19 de Julho, para além das cartas de dois leitores de O Diabo que defendem Bonifácio e atacam os críticos da académica, a polémica é referida nos artigos do jovem nacionalista Manuel Rezende, para quem as considerações de MFB são “um manifesto de senso comum” atacado pelos “fanáticos da liberdade e da tolerância”, e do professor Isaías Afonso (membro do Conselho Nacional do CDS), furioso com a forma “infame” como os “nauseabundos” comentadores do programa da SIC Notícias O Eixo do Mal enxovalharam Bonifácio e esperançoso de que “Talvez um dia estes abutres da Democracia de Opereta sejam abatidos e lançados na cloaca a que pertencem” (sic).

Apesar de toda a discussão originada pela crónica de MFB, a antiga professora da FCSH-UNL mantém-se em total silêncio, sem defesas nem actos de contrição. No entanto, sabe-se agora que o dia 30 de Julho ficará marcado pelo lançamento de Fora da Circunstância, o novo livro de Maria de Fátima Bonifácio, editado pela Dom Quixote e que reúne 32 crónicas escritas pela autora entre 1990 e a actualidade. Se MFB tivesse criticado as quotas raciais sem mencionar as características inatas por ela observadas nos povos alheios à “Cristandade”, quantas pessoas reparariam na nova obra de Bonifácio? Provavelmente, muito poucas. Contudo, depois do nome de MFB ter chegado nas últimas três semanas a muita gente que nunca leu os livros da historiadora sobre a época de Saldanha e Costa Cabral, tudo é diferente, até porque a Dom Quixote não resistiu a escrever na capa de Fora da Circunstância o adjectivo mágico “polémicos”, que tudo atrai e tudo desculpa. Os críticos de MFB foram, afinal, participantes involuntários num golpe publicitário bem urdido. Poder-se-ia objectar que o estatuto de heroína obtido por Fátima junto de algumas pessoas não compensa a etiqueta de racista que MFB terá de usar até ao fim da vida. Quem conhece a prof. Bonifácio, porém, sabe que ela nunca teve propriamente a popularidade de Marcelo Rebelo de Sousa, pelo que as perdas não serão muitas.

 

 

Esta polémica estival permite identificar um determinado padrão de reacções já verificado noutros momentos dos últimos dois anos, a propósito de eventos como a conferência que Jaime Nogueira Pinto não realizou na FCSH-UNL, a entrevista ao i através da qual André Ventura entrou na política, o convite para discursar na Web Summit feito e depois retirado a Marine Le Pen ou a ida de Mário Machado ao programa de Manuel Luís Goucha. Tudo começa quando um facho (ou facha) fala ou é convidado para falar num espaço físico ou mediático onde o discurso de extrema-direita raramente é ouvido, atingindo assim um público vasto, cujos membros reagem maioritariamente com surpresa, repulsa instintiva e, por fim, indignação expressa nas redes sociais. As “redes sociais” aqui referidas não incluem necessariamente o cidadão comum que publica sobretudo fotos tiradas na praia ou no restaurante e rodeadas de hashtags, mas sim as páginas de políticos, jornalistas, comentadores, historiadores e outros indivíduos capazes de aceder aos media tradicionais, nos quais a ira contra o facho se converte em tema noticioso. O pessoal mais exaltado pede, habitualmente sem consequências, a acção das autoridades para punir o facho e quem lhe deu um palco.

Surge então a grande onda de indignação contra a indignação. Alguns liberais bem intencionados vêm defender que a tentativa de censurar o facho está errada, pois só ouvindo o facho poderemos desmontar os seus argumentos e mostrar que as suas ideias ofensivas não dispõem de uma base social de apoio. Contudo, já se ouve, bem mais alto, o vozear daqueles para quem o facho (que, no essencial, está cheio de razão, apenas não usa as palavras certas) se torna um pretexto para atacar o ímpeto censório do “politicamente correcto” e o objectivo deste de dividir e oprimir a sociedade. No Observador, Alberto Gonçalves denuncia que, ao contrário do facho, a esquerda é perigosa, ama a tirania e despreza a liberdade, enquanto os outros colunistas escrevem o mesmo num estilo menos arrogante. Entretanto, os amigos do facho glorificam-no e aproveitam para insultar e ameaçar aqueles que não gostam do facho. No meio de tudo isto, o que faz o facho? Sorri, pois o seu nome e as suas palavras estão em toda a parte, como pretendia. O ruído amaina ao fim de alguns dias, mas já ninguém conseguirá tirar o facho da arena política.

Este jogo perverso no qual a extrema-direita beneficia inesperadamente do combate que lhe é movido deixa claro que os fascistas não são vítimas do sistema, eles fazem parte do sistema, seja através de intelectuais prestigiadas como a prof. Bonifácio ou de estrelas da televisão como André Ventura. Recorrendo às designações utilizadas por Jaime Nogueira Pinto no livro Bárbaros e Iluminados (3.ª edição, 2019), há muito que os bárbaros transpuseram as muralhas, entraram nos palácios dos iluminados (N.º 10, Casa Branca, etc.), sujaram os sofás, puseram os pés em cima das mesas e mandaram calar os politicamente correctos que criticaram a imundície. A grande questão é saber como fazê-los sair e arrumar a casa depois da barafunda.

Memórias de Assunção

O novo livro de Assunção Cristas, Confiança (Matéria-Prima), levanta-me uma série de dúvidas, aqui listadas por ordem aleatória:

 

1. Porque é que a capa do livro é tão parecida com a de Becoming, de Michelle Obama? Porque é que Michelle segura a cabeça com a mão direita e Assunção com a mão esquerda? Porque é que o nome de Cristas foi colocado ao nível dos seus seios? E porque é que Confiança tem esse título, nunca explicado ao longo do texto?

 

2. Se Assunção tivesse seguido o conselho da sua professora de Educação Visual e estudado Artes no secundário, teria sido desenhadora e ilustrado álbuns de BD?

 

3. Que sentido faz que a primeira parte do livro tenha 184 páginas e a segunda apenas 33?

 

4. A ideia de Assunção Cristas de que uma das singularidades das “lideranças femininas” está num “perfil geralmente mais cooperativo e colaborativo e menos bélico” (pp. 59-60), logo mais produtivo que o dos homens, não constitui uma espécie de machismo ao contrário?

 

5. O eleitor que optar pelo CDS estará a votar não só na Assunção, mas também no Tiago, na Maria do Mar, no Zé Maria, no Vicente e na Luzinha?

 

6. Viver numa família grande que está sempre junta não acabará por se tornar opressivo para a individualidade dos seus membros?

 

7. Uma tão vasta exposição da vida privada será realmente uma estratégia política pertinente ou apenas uma cedência à lógica das redes sociais?

 

 

 

 

8. O uso permanente de episódios do quotidiano pessoal para confirmar e reforçar ideias sobre temas políticos não fará Cristas cair no mesmo registo daqueles comentadores que estão sempre a fazer generalizações abusivas a partir do princípio “se isto é assim no meu bairro, é assim no mundo inteiro”?

 

9. Não é um pouco exagerado que Assunção recorra aos exemplos de Jesus Cristo e da Virgem Maria para justificar a decisão de entrar para a política? Depois de Cristas hesitar tanto e consultar muitas pessoas antes de aderir ao CDS, não foi bizarro tomar em poucos minutos as decisões de aceitar ser ministra da Agricultura e de candidatar-se à liderança do partido?

 

10. Terá sido a preferência de Assunção Cristas por almoços longos e com muita conversa, baseada numa valorização das “qualidades humanas” em detrimento da “eficácia cega” (p. 73), a fazer Henrique Raposo deixar de admitir votar no CDS?

 

11. A ideia da generalização dos anos sabáticos, baseada na convicção de Cristas de que “seria muito bom se todas as pessoas pudessem parar pelo menos uma vez, idealmente duas, ao longo da sua vida laboral” (p. 101), não será louvável mas completamente irrealista?

 

12. Quais são as “marcas de fação” (p. 246) que Cristas gostaria de ver retiradas da Constituição para facilitar a governação da direita?

 

13. Que opinião terá a oposição interna a Assunção Cristas sobre o livro de uma líder considerada demasiado saída da casca pelos ultraconservadores da TEM?

 

14. Quantas pessoas vão comprar Confiança e decidir o seu voto a partir da leitura do livro? Se, como é previsível, forem poucas, de que terá servido o esforço da autora e da editora?

O estranho mundo de Cavaco: Parte II

1. Actualmente, sempre que Aníbal Cavaco Silva quebra o silêncio (?) a que se remeteu depois de sair da Presidência da República em 2016, verifica-se um abismo entre o efeito pretendido pelo algarvio e a reacção de desprezo ou indiferença com que o país lhe responde. Uma situação deste tipo verificou-se a propósito das memórias presidenciais de Cavaco, apresentadas nos dois volumes de Quinta-Feira e Outros Dias (Porto Editora). Se em 2017 o primeiro tomo da obra autobiográfica gerou ainda uma certa curiosidade nos meios políticos e mediáticos, o lançamento em Outubro de 2018 do segundo volume, com o subtítulo Da Coligação à “Geringonça” (DCAG), produziu apenas, ao longo de dois ou três dias, algumas entediadas referências jornalísticas e declarações nas quais vários comentadores, mesmo os ligados ao PSD, deixaram claro que tinham coisas mais interessantes para fazer do que ler os desabafos do ex-Presidente. O próprio partido que Cavaco chefiou durante 10 anos parece dominado pelo embaraço na hora de referir o nome do seu antigo líder. Como é que um vencedor de cinco eleições acaba numa tão profunda solidão política?

 

2. Tal como o primeiro volume desta fase da memorialística cavaquista, DCAG foca sobretudo os contactos entre o protagonista do livro e os primeiros-ministros com quem se reunia semanalmente. Recorde-se que a relação entre Cavaco Silva e José Sócrates fora semelhante à de um psiquiatra com um paciente que se revelara incurável. Já com Pedro Passos Coelho, Cavaco assumiu o papel de professor, como aliás reconhece. Porém, as aulas de quinta-feira não pareceram decorrer na universidade, mas sim na escola primária. O prof. Cavaco ficou a princípio agradado com a aplicação e boa educação do jovem Pedro, tão diferente do seu colega Paulo, um cábula incorrigível. Mesmo assim, o mestre teve frequentemente de assinalar com cruzes erros nos testes feitos por Passos, um aluno teimoso sem vontade de fazer os trabalhos de casa e estudar os princípios rudimentares da economia. No que respeita a António Costa, as conversas em 2015-2016 entre o novo primeiro-ministro e o Presidente foram poucas, mas suficientes para deixar claro que teria sido difícil uma longa convivência entre o optimismo irritante de Costa e o semblante grave de Cavaco.

 

3. A trama de DCAG desmente a narrativa de sucesso do período da troika apresentada hoje pelos sectores próximos do passismo, ao relatar numerosos episódios em que tudo esteve à beira de desmoronar, entre os confrontos PSD-CDS e a tentação de desistir que atingiu por várias vezes o primeiro-ministro. Cavaco Silva garante ter apelado a uma maior resistência do Governo às vontades dos técnicos chegados à Portela, apesar de saber que se comentava nos círculos governamentais que o PR não seria tão valentão se tivesse de sair de Belém e sentir o cheiro dos troikanos. O pico da tensão verificou-se na crise política de Julho de 2013, mês durante o qual Cavaco procurou impor o seu velho projecto de um acordo a médio prazo entre PS, PSD e CDS. Nesse sentido, DCAG revela-se a história de um fracasso, já que o consenso tantas vezes pedido por Cavaco acabou por se verificar com intervenientes diferentes dos previstos no guião presidencial. Outro traço permanente ao longo de DCAG é a verdadeira obsessão de Cavaco com o discurso dos jornalistas e comentadores, os mesmos que dissera ignorar no volume inicial de Quinta-Feira e Outros Dias. Apesar de excepções honrosas como Marques Mendes e José Gomes Ferreira, a comunicação social portuguesa caracteriza-se, na opinião do antigo governante, pela parcialidade a favor da esquerda e pela incapacidade de compreender o “superior interesse nacional” perseguido por Aníbal 24 horas por dia.

 

 

4. Após as eleições legislativas de 2015, muitos ficaram com a ideia, sabe-se lá porquê, de que o então Presidente da República foi apanhado de surpresa pelos acontecimentos e reagiu com hostilidade à formação de uma coligação de esquerda. Três anos depois, Cavaco Silva deixou claro que a sua fúria e perplexidade ultrapassaram tudo o que foi imaginado. Aníbal retardou propositadamente a indigitação de António Costa como primeiro-ministro, de modo a que “os Portugueses se apercebessem” da gravidade da situação vivida nesse Outono e de que o chefe de Estado tomava “as precauções possíveis para evitar que acontecesse um desastre” (p. 411). Forçado a ceder pelas circunstâncias, Cavaco faz agora uma avaliação do Governo de Costa idêntica à do Observador. Está no seu direito, mas de um estadista cujos mandatos foram marcados por uma “absoluta imparcialidade no tratamento das várias forças políticas” (p. 509) esperava-se algo mais que a acusação dirigida ao PCP de pretender apenas satisfazer os sindicatos ou a descrição de um Bloco “deliciado com o usufruto do naco de poder que lhe cabia” (p. 434).

 

5. Ao contrário do seu antecessor e do seu sucessor em Belém, Cavaco Silva manteve-se sempre distante dos Xutos & Pontapés e assumiu apenas o seu gosto pelo fado. De resto, Cavaco salienta em DCAG as homenagens que prestou a esse género musical e aos seus intérpretes, deixando de lado a homenagem que não prestou a Carlos do Carmo quando este ganhou o Grammy. Quanto a outros estilos de música portuguesa, se partirmos do princípio de que os concertos nos jardins do Palácio de Belém passavam pelo crivo do PR, Cavaco gosta de ouvir artistas como os Deolinda, José Cid, Luísa Sobral ou Paulo de Carvalho (p. 479).

 

6. Da Coligação à “Geringonça” pode ajudar-nos a responder à questão inicial sobre a actual solidão cavaquista. Relativamente aos partidos à esquerda do PS, a distância é óbvia: Aníbal deixa bem claro que os apoiantes de BE e PCP estão do lado errado da linha que separa as pessoas sensatas dos malucos. Dentro dos socialistas, a já escassa simpatia pelo patriarca da família Cavaco desapareceu de vez após a derrota de Seguro. A direita pode ter encontrado no “seu” Presidente, em certas ocasiões, um aliado contra o inimigo comum, mas a proximidade é apenas aparente. O centro-direita considera o estilo cavaquista demasiado sectário e fechado, enquanto os liberais nunca poderão ver em Cavaco Silva um dos seus, devido à falta de ódio pelo Estado e à excessiva preocupação com aquilo que as pessoas vão pensar reveladas em DCAG pelo autor. Afastado o país político, restariam os cidadãos comuns para acarinhar o homem do povo vindo de Boliqueime. No entanto, os dois volumes de Quinta-Feira e Outros Dias, apesar de pródigos em referências a deslocações de Cavaco a IPSS e empresas, mostram que, na relação entre o país e o então Presidente, era sempre o primeiro a ter de visitar o segundo. O país que conseguia entrar em Belém, contudo, limitava-se quase sempre às delegações da UGT e das confederações patronais ou a economistas com opiniões idênticas às do anfitrião. Entretanto, a memória colectiva preserva ainda inúmeros episódios embaraçosos para Cavaco por este ignorados no texto, entre eles as declarações sobre a exiguidade da sua reforma que deram início a um efeito “bola de neve” através do qual tudo o que o PR dizia só agravava a sua impopularidade. A pouco e pouco, o círculo à volta de Aníbal foi ficando cada vez mais restrito e limitado a figuras como o seu antigo consultor António Araújo, autor de um posfácio onde, apesar de continuar a trabalhar para a Presidência da República, Araújo deixa insinuações no ar com os seus elogios ao acerto das “intervenções públicas ponderadas ao milímetro no tempo e no modo, e também no verbo” (p. 519) do predecessor de Marcelo Rebelo de Sousa.

 

7. O objectivo natural das memórias de Cavaco Silva é fixar a imagem do autor que este gostaria de ver passar para a História. Trata-se, no entanto, de uma pretensão ingénua, tão notória é a diferença entre o personagem quase perfeito de Quinta-Feira e Outros Dias (Cavaco admite apenas que por vezes não terá “sido porventura suficientemente claro” ao explicar as suas decisões) e a realidade já conhecida. O trabalho de um eventual biógrafo de Aníbal Cavaco Silva parece ter de consistir, para lá do levantamento das fontes, na descoberta daquilo que nelas não é dito, uma tarefa destinada a um jornalista habituado a entrevistar fontes anónimas ou pouco dispostas a falar. Joaquim Vieira seria a opção ideal para investigar o passado de Cavaco Silva, mas existe um problema: Vieira segue a norma de biografar apenas homens com sucesso entre as mulheres (Cunhal, Soares, Balsemão, Saramago) e a entediante monogamia de Cavaco não permite antever dados de interesse nessa área.