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Desumidificador

Desumidificador

Duas lojas vizinhas

Eu vi este povo a lutar…

 

Iniciativa Liberal (IL): Para o socialismo acabar.

Chega (CH): Para os pedófilos castrar.

 

O país ideal é aquele em que…

 

IL: Ninguém é piegas.

CH: Pedro Dias nunca mais copula.

 

A decadência de Portugal começou…

 

IL: Há 20 anos, quando o crescimento económico estagnou.

CH: Há 45 anos, quando José Cid lançou o single “A Rosa que Te Dei”.

 

Solução para tudo:

 

IL: Descida de impostos.

CH: Justiça mais dura.

 

A retórica usada tem de ser…

 

IL: Revolucionária, para agradar aos jovens.

CH: Reaccionária, para agradar aos velhos.

 

Atitude para chamar a atenção dos media:

 

IL: Irreverência.

CH: Vitimização.

 

O partido tende a atrair pessoas que trabalham em…

 

IL: Empresas e universidades.

CH: Esquadras.

 

 

Crítico de cinema/televisão:

 

IL: Eduardo Cintra Torres.

CH: Eurico de Barros.

 

Jornal com uma visão do mundo idêntica:

 

IL: Observador.

CH: Correio da Manhã.

 

Partido irmão espanhol:

 

IL: Ciudadanos.

CH: Vox.

 

Costumam ir à missa?

 

IL: Nem por isso…

CH: Claro, Deus está do nosso lado.

 

Herói contra-revolucionário de 1975 preferido:

 

IL: Jaime Neves.

CH: Cónego Melo.

 

Zonas de conforto:

 

IL: Freguesias de Lisboa e Porto com eleitores mais ricos e escolarizados.

CH: Subúrbios de Lisboa e concelhos do Alentejo com mais ciganos.

 

Celebridade feminina que mais os irrita:

 

IL: Greta Thunberg.

CH: Carolina Deslandes.

Perguntas sem resposta

1. Irá o Reino Unido realmente sair da União Europeia a 31 de Janeiro de 2050?

2. As irmãs Mortágua seriam tão odiadas se fossem os irmãos Mortágua?

3. Raquel Varela alguma vez sente culpa?

4. Quem paga a sobrevivência de O Diabo?

5. Porque é que o jornal i não acaba definitivamente em vez de ir ficando cada vez pior?

6. Luís Marques Mendes virá algum dia a crescer (não, não me refiro à altura dele)?

7. Como será o discurso de André Ventura na próxima sessão parlamentar comemorativa do 25 de Abril?

8. Se o Sporting tivesse vencido o campeonato de 2015/16, seria Bruno de Carvalho ainda presidente do clube?

9. Não será má ideia alterar os programas escolares para difundir uma dada versão da História, seja ela qual for?

10. Porque temos sempre de “compreender” as pessoas que votam na extrema-direita, enquanto já se sabe de antemão que o eleitorado da extrema-esquerda é um misto de parasitas e burgueses entediados?

11. Alguma vez um comentador que fale da necessidade de mais políticos oriundos da “sociedade civil” admitirá não estar propriamente a pensar em actrizes e operários metalúrgicos?

12. O que aconteceu ao jornalista de extrema-direita António Ribeiro Ferreira?

13. Como será que o Expresso conhece tudo o que Marcelo Rebelo de Sousa quer, teme, prevê, acredita e outros verbos usados pelo jornal na primeira página?

14. Porque não é criticado o facto de nenhuma mulher alguma vez ter sido presidente do Benfica, do FC Porto ou do Sporting?

15. O comunismo voltará como o fascismo voltou?

16. Por que motivo dão as pessoas mais atenção a Greta Thunberg que a um experiente e conceituado especialista em alterações climáticas (e atum) como Zé Diogo Quintela?

17. Onde arranjam os leitores da Visão e da Sábado dinheiro para passarem tanto tempo a viajar e a comer fora?

18. O que aconteceu no dia em que Eduardo Cintra Torres decidiu odiar Nuno Artur Silva para o resto da vida?

19. Acreditará José Gomes Ferreira que é o Tom Cruise?

20. De que modo Miguel Pinto Luz se tornou candidatável à liderança do PSD?

 

 

As herdades

A Herdade, de Tiago Guedes

 

No papel da sua vida, Albano Jerónimo encarna em A Herdade João Fernandes, o senhor feudal de uma grande propriedade a sul do Tejo cuja gestão lhe interessa mais do que o convívio com o resto da elite do Estado Novo, à qual está ligado familiarmente por via da sua mulher Leonor (Sandra Faleiro). Impetuoso e distante, João vai enfrentar o marcelismo e a Revolução até conhecer a ruína progressiva do seu mundo, dominado por um silêncio que se torna mais avassalador à medida que a solidão do dono da herdade se acentua.

Integrado num já vasto conjunto de filmes que constroem ficção a partir do potencial do século XX português, A Herdade remete para uma época e uma região específicas, mas, paradoxalmente, pode ser visto e compreendido em qualquer parte do mundo. Para isso contribui a beleza visual da obra, garantida pela qualidade da montagem e pela forma exímia como Tiago Guedes domina a luz, o espaço, os cenários naturais ou o tempo, numa longa-metragem de mais de duas horas e meia que nunca se arrasta. Para lá da memória colectiva nacional, o argumento de Guedes e Rui Cardoso Martins foca temas universais como o poder, a família e as dificuldades de comunicação, pecando apenas por alguma previsibilidade na evolução da história durante a segunda parte.

O filme evita os clichés onde seria tão fácil cair e desenvolve as personagens através de um registo de contenção baseado naquilo que fica por dizer (talvez o casal Fernandes beba e fume tanto precisamente para manter as bocas ocupadas) e na tensão guardada em segredo até um dia explodir e fazer vítimas. O desempenho sem falhas do elenco, dominado por um Albano Jerónimo que disputará o prémio Sophia com Sérgio Praia, garante o êxito de um filme sensível, realista, ambicioso, profundo sem ser aborrecido e que eleva o cinema português a um patamar raramente alcançado, onde só filmes como Alice, de Marco Martins, se equivalem na força e durabilidade ao trabalho de Tiago Guedes.

 

Um filme para… Perceber como se faz um bom drama.

Nota: 8/10.

 

 

 

Rambo: A Última Batalha, de Adrian Grunberg

 

Apesar das histórias disparatadas, das personagens de cartão e da violência desmesurada, os cinco filmes da série Rambo são um guilty pleasure para muitos cinéfilos atraídos pelo carisma de Sylvester Stallone na pele de uma das duas únicas personagens (a outra é Rocky) que consegue realmente interpretar. Stallone é também co-argumentista de Rambo: A Última Batalha (Last Blood no original), uma obra que mostra o guerreiro solitário no seu quotidiano na velha quinta dos Rambo no Arizona, aonde voltara após uma longa peregrinação no final do quarto capítulo. O veterano do Vietname enfrenta os seus traumas na companhia de uma família adoptiva cuja tranquilidade se esfuma devido à acção criminosa de um bando mexicano de traficantes de seres humanos.

Naquele que é, salvo erro, o filme da saga em que Stallone fala durante mais tempo, vemos um John frágil, amargurado, envelhecido (embora plastificado, de acordo com a arrojada teoria de Ricardo Araújo Pereira) e até derrotado, num raro aprofundamento do lado emocional da personagem, favorecido pela realização eficaz de Grunberg. Claro que, mais cedo ou mais tarde, acaba por chegar a parte que o público veio ver e não será um grande SPOILER revelar que no final o herói massacra os bad hombres, numa já mítica sequência onde cada morte é mais cruel que a anterior. O politicamente correcto vê-se atingido pelas flechas de Rambo, de forma brutal mas também honesta e genuína num tempo de cinema padronizado.

Depois de ter sido o herói por excelência da era Reagan, Rambo torna-se aqui, talvez inevitavelmente, um símbolo do espírito dos anos Trump. Poderíamos justificar com as necessidades do argumento o facto dos vilões serem mexicanos e do país vizinho dos EUA ser apresentado como um sítio pobre e violento, mas a mensagem de Last Blood deixa claro que o tempo de ir para terras distantes combater os inimigos da liberdade já passou. Agora, os americanos devem ficar em casa e reprimir as ameaças que entram pela fronteira sul, limitada por frágeis vedações facilmente derrubadas pela carrinha de Rambo e (ainda) não por um muro inexpugnável. Como Stallone afirma quase textualmente, o mundo lá fora é perigoso e está cheio de gente má que deve sempre ser tratada com desconfiança.

O rasto de sangue deixado no mundo por John Rambo chega ao fim num episódio que encerra a série com dignidade e um mínimo (sem exageros, claro) de profundidade, permitindo também avaliar o herói como um espelho do lado sombrio da América, mais afeito à guerra que à paz.

 

Um filme para… Dizer adeus a uma personagem marcante do cinema.

Nota: 6/10.

 

 

 

E no entanto, isto move-se

1. A abstenção atingiu nestas eleições valores preocupantes que nos obrigam a uma reflexão profunda. Pronto, já disse a frase indispensável. Agora posso esquecer isso durante quatro anos e analisar as opções das pessoas que se deram ao trabalho hercúleo de ir votar.

 

2. A popularidade da Geringonça ditou os resultados finais das legislativas, até porque o PS nunca explicou de forma convincente em que medida uma maioria absoluta seria melhor que a manutenção da coligação de esquerda, a solução predilecta de muitos eleitores socialistas. António Costa terá de continuar a governar apoiado em concessões a outros partidos, num cenário internacional que, depois de uma campanha em que tudo era possível, ficámos a saber estar prenhe de ameaças. Não será fácil, mas a pressão das bases leva as direcções de PS, BE e PCP a evitarem a todo o custo serem consideradas responsáveis por uma eventual ruptura. Como escreveu José Pacheco Pereira em 2015, o casamento pode ser difícil, mas o divórcio seria muito pior.

 

 

3. O PSD tremeu mas não caiu no Norte, em parte do Centro e na Madeira, regiões onde venceu o PS por curta margem ou ficou pouco atrás dos socialistas. No resto do país, porém, a influência social-democrata é cada vez menor, particularmente no distrito de Lisboa, acentuando-se a tendência para uma ruralização do voto “laranja”. Em resposta a isto, Rui Rio mostrou-se demasiado satisfeito com o segundo lugar e adoptou um discurso mesquinho, típico de quem faz uma lista das pessoas que o chateiam para um dia vir ajustar contas. As sondagens do início de Setembro, que pareciam ser a condenação de Rio, converteram-se na sua salvação, já que o portuense baseia-se numa votação superior às fracas expectativas para não sair sem luta da liderança. Acontecerão em breve eleições directas no PSD e Rio, novamente desafiado, poderá sair vencedor. Resta saber se conseguirá inverter a progressiva perda de fôlego do partido de Cavaco Silva.

 

 

4. No final dos anos 80, o desaparecimento de um PCP forte e a efemeridade do furacão PRD permitiram a PS e PSD dominar em conjunto mais de dois terços do eleitorado. Nas legislativas de 1991, a soma dos votos de PSD e PS atingiu uns impressionantes 79,73% do total, descendo mais tarde para 77,88% (1995) e 76,38% (1999). Na primeira eleição parlamentar deste século, em 2002, os membros do Bloco Central somavam ainda cerca de 78%, mas cairiam para 73,79% (2005) e, há dez anos, com 65,67% dos votos, não atingiram os dois terços, sendo prejudicados pelo crescimento de BE e CDS e pela estabilidade da CDU. 2011 mostrou uma ligeira recuperação de PS e PSD, escolhidos por 66,71% dos votantes, antes de se verificar em 2015 a formação da PAF, cuja percentagem, adicionada à obtida pelo PS, somaria 69,17%. Finalmente, em 6 de Outubro de 2019, a votação conjunta de PS e PSD não foi além de 64,55%, o valor mais baixo desde 1985. Tudo isto revela que, apesar do enraizamento popular que socialistas e sociais-democratas mantêm, o predomínio dos dois maiores partidos da democracia é cada vez menor. Nas áreas mais urbanizadas, os eleitores demonstram um interesse crescente por novos projectos políticos e alternativas ao “centrão”, para lá do aumento dos votos brancos e nulos. A resistência dos partidos tradicionais em Portugal, apontada como uma excepção no contexto europeu, tem sido sobrestimada.

 

5. O declínio do PCP nos últimos quatro anos não se deve ao alegado descontentamento dos eleitores comunistas com a participação na Geringonça, mas sim a factores estruturais ligados ao envelhecimento do universo do partido, incapaz de se adaptar às mudanças no trabalho e na sociedade e cuja linguagem antiquada e repetitiva prejudica a atracção de novos (e jovens) eleitores. A influência comunista no sindicalismo começa também a ser posta em causa. A simpatia e genuinidade de Jerónimo de Sousa, um português comum que pode dizer que comeu “o pão que o diabo amassou” sem ser desmentido, elevaram e estabilizaram a votação na CDU até se tornarem insuficientes. Se o PCP funcionasse como os outros partidos, Jerónimo apresentaria a sua demissão, mas só deverá ser substituído no congresso de 2020. Dito isto, a morte do partido pró-soviético (no centenário da Revolução Russa, mostrou continuar a sê-lo) de Portugal já foi muitas vezes anunciada e sucessivamente adiada, pelo que conclusões definitivas são de evitar.

 

6. O período de Assunção Cristas na liderança do CDS pode ser dividido em fases distintas. Entre 2016 e 2017, Cristas soube afirmar a sua marca num partido muito marcado pelo perfil do seu antecessor e conduzir a hoste democrata-cristã a um resultado histórico na autarquia de Lisboa, embora irrelevante no resto do país. Depois desse feito, contudo, a “futura primeira-ministra” pareceu ser tomada por um certo deslumbramento, a partir do cálculo político errado (também feito por Santana Lopes, com os resultados que se viram) de que a viragem ao centro do PSD e a aproximação de Rui Rio ao PS levariam numerosos votantes “laranjas” a mudarem-se para a verdadeira direita, tornando o CDS a “primeira escolha”. O ano de 2019, coincidindo com a saída de Adolfo Mesquita Nunes da vice-presidência do CDS, tem sido desastroso para o partido, onde foi visível por muitas vezes um desnorte total. Depois do mau resultado das europeias, influenciado pela “crise dos professores” e pelo comportamento de Nuno Melo (um representante fiel daquela direita que ainda não digeriu bem a derrota de 1834), Cristas assumiu uma pose mais contida e o Verão decorreu sem grandes abalos, apesar dos sinais preocupantes de radicalização revelados pela polémica das casas de banho. A abundância de sondagens negativas instalou no discurso do CDS um tom permanente de desespero, a que se juntaram uma campanha publicitária que não fez sentido e a opção de Assunção Cristas por baixar demasiado o nível nos confrontos com António Costa. O programa liberal/conservador apresentado no Caldas não satisfez uma faixa de eleitores que encontrou na IL um projecto mais coerente. De regresso aos números do cavaquismo, o CDS enfrenta um futuro indecifrável e indica que os partidos nascidos em 1974 podem não ser eternos.

 

7. O crescimento do PAN deve-se acima de tudo à habilidade política de André Silva, que soube aproveitar muito bem o escasso espaço de que dispôs ao longo da legislatura agora finda para fazer os holofotes incidirem sobre o seu partido. No dia em que Manuel Alegre escreveu que 229 deputados pareciam ter medo de um único parlamentar, a batalha do PAN estava ganha. O intenso escrutínio mediático a que o partido foi sujeito durante a campanha, com as suas propostas mais ridículas a serem expostas à luz do dia, pode ter impedido o PAN de ir além de um nicho de eleitorado, mas conferiu aos animalistas uma visibilidade que nunca mais perderão, até porque o contexto mundial de crescente preocupação com as alterações climáticas beneficia-os.

 

8. A Iniciativa Liberal provou que, apesar de em Portugal ainda quase tudo se jogar na televisão, uma campanha baseada em cartazes e na utilização das redes sociais pode ter sucesso e chamar a atenção dos media tradicionais sem necessidade de recorrer à lamúria santanista. A irreverência e contundência da IL, expressas na sua “oposição ideológica ao socialismo”, têm feito recordar os primeiros anos do Bloco de Esquerda, podendo surgir outra semelhança quando, à imagem do que sucedeu há vinte anos com os bloquistas, parte da comunicação social revelar um carinho muito especial pela organização de Carlos Guimarães Pinto.

 

9. Visto com benevolência por toda a gente (excepto os fascistas), o Livre tem sido uma espécie de Belenenses ou Académica da esquerda, ou seja, a segunda preferência de muitas pessoas que, na hora da decisão, acabam sempre por apoiar um dos “grandes”. Desta vez, porém, nas eleições do tudo ou nada para o partido de Rui Tavares, a base de apoio predominantemente lisboeta do Livre chegou para atingir o “sem-precedente”. O desafio do Livre será conseguir assumir o seu papel de aliado natural do PS sem ser engolido pelos socialistas. Pelo seu percurso de vida, Joacine Katar Moreira apresenta-se como a representante de grupos populacionais cujas experiências e preocupações raramente são ouvidas pelas elites políticas. Dito de outra forma, se vivêssemos num país ideal, a descrição da historiadora como mulher, negra e imigrante seria supérflua, mas não o é. Quanto à gaguez de Joacine, as pessoas mais apressadas terão de ser pacientes, porque ela não vai ficar calada.

 

10. A entrada do Chega na Assembleia da República é a segunda morte do professor Freitas do Amaral. De facto, a actividade de Freitas no período entre 1974 e 1976 permitiu esvaziar a extrema-direita portuguesa e levou a maior parte desta a entrar nos partidos do sistema (PSD e CDS), sem abalar o consenso sobre o regime político. No entanto, a última década assistiu a uma vaga internacional de retorno do fascismo (sim, eu sei que se trata de uma simplificação, mas também não podemos cair no extremo de dizer que ninguém é fascista) e Portugal, apesar das cada vez mais distantes memórias da ditadura e da Revolução, não poderia ficar de fora. André Ventura viu a sua oportunidade e, em pouco tempo, conseguiu aproveitá-la. O que poderá o político apoiado pelo grupo Cofina acrescentar no Parlamento? Barulho.