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Desumidificador

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História do povo na reacção portuguesa

1. O povo tem sempre razão. É por ter consciência disso que o povo está farto dos políticos das elites que lhe vêm dizer palavras como “mas”, “não é bem assim”, “a realidade é mais complexa” ou “já ouviu falar dos Direitos Humanos?” Os políticos populares sabem dizer ao povo que ele está sempre certo e, se alguém não concorda com o povo, está contra o povo.

 

2. O povo é sempre branco, cristão e heterossexual. Quem não integra essas três categorias faz parte do não-povo. No entanto, o povo é pacífico e tolerante e deseja viver em perfeita harmonia com o não-povo. Para isso, bastaria apenas que o não-povo permanecesse 24 horas por dia em bairros fechados ao exterior e rodeados por grossas muralhas, mas, em vez disso, o não-povo insiste em ofender os sentimentos do povo e pretender frequentar os mesmos espaços do povo. Perante esta afronta, é natural e compreensível que alguns populares dirijam palavras pouco agradáveis aos membros do não-povo. Quando o povo recorre à violência física contra o não-povo, fá-lo sempre em legítima defesa. Afinal, quem mandou o não-povo sair de casa?

 

3. O povo e a polícia são a mesma coisa. Os polícias estão sempre, sempre, ao lado do povo. Portanto, se há membros das forças policiais a espancarem membros desarmados do não-povo, sabe-se de antemão que possuem um bom motivo para o fazerem. O povo fardado limita-se a usar a força da sua honestidade contra a vileza inata do não-povo.

 

4. O povo detesta moderação. Quem hesita, dialoga, fala em voz baixa ou respeita o adversário só pode ser um elitista disfarçado de popular, enquanto um servidor do povo pune, arrasa, esmaga, insulta, destrói, confronta, desmascara, faz barulho. A voz do povo é a voz que grita.

 

5. O povo trabalha muito. E ainda bem, porque o povo conhece as vantagens do trabalho. A primeira delas está no facto do trabalho dar ao povo uma indiscutível superioridade moral sobre políticos, refugiados, desempregados e outros inúteis que não trabalham. A segunda reside na experiência concedida pelo trabalho árduo e pelas dificuldades que lhe estão associadas. Através delas, o povo obtém na escola da vida o verdadeiro conhecimento da realidade, muito superior àquele que é ensinado nas outras escolas. De facto, porque é que um cientista há-de saber mais sobre o clima do que alguém que trabalha desde os 12 anos? Ou um economista conhecer melhor a economia do que um popular que viaja todos os dias no autocarro 36? Ou um médico perceber mais de medicina do que um homem ou uma mulher do povo que aproveita os momentos mortos no trabalho para pesquisar sobre doenças no Google? É preciso ser muito elitista para acreditar nisso. 

 

 

6. O povo não nasceu ontem e sabe que é explorado por inúmeros parasitas. Por exemplo, políticos que só querem é tacho e poleiro, membros de organizações de solidariedade que só querem meter donativos ao bolso, artistas que só querem usar o dinheiro do povo para criar obras incompreensíveis que ninguém vê, reclusos que só querem gozar umas férias na prisão pagas pelo povo, estrangeiros que só querem viver à custa de quem os acolhe, investigadores que só querem subsídios para investigar sabe-se lá o quê, miúdos preguiçosos que só querem passar de ano sem estudar, ambientalistas que só querem proteger os interesses de quem ganha balúrdios com o combate às supostas alterações climáticas, etc., etc. O povo só não é explorado pelos patrões, esses verdadeiros homens do povo que nunca fingem que se preocupam com o povo e tomam a atitude genuinamente popular de pensarem apenas em si próprios.

 

7. O povo só quer ver três coisas na televisão: sexo, crime e futebol. Se um telespectador tiver interesse por mais algum tema, não é um membro do povo, mas sim um daqueles intelectuais armados em bons (passe a redundância). Felizmente, os canais televisivos são dirigidos por populares que apenas dão ao povo aquilo que ele quer. Da mesma forma, o povo não precisa de ler livros e utiliza um vocabulário simples para se expressar, enquanto as elites inventam palavras complicadas só para enganar o povo. À medida que a linguagem se populariza, o número de palavras usadas torna-se cada vez menor. Isso é bom. Se não fosse bom, era mau. Povo bom. Elites más.

 

8. O povo nunca é de esquerda. Não se sabe bem quem vota na esquerda, mas o povo é que não é de certeza. Desde logo, porque os esquerdistas estão sempre a criar impostos através dos quais o povo sustenta quem não quer trabalhar. Além disso, a esquerda é muito elitista e dedica o seu tempo às causas do não-povo, que obviamente não interessam ao povo. O mais grave, porém, é que os defensores do socialismo espalham a ideia (recorrendo mesmo às escolas públicas para esse fim maléfico) de que as pessoas precisam de ser mais tolerantes, mais ecológicas ou mais solidárias. O objectivo evidente é reduzir a auto-estima do povo e atentar contra o direito sagrado do povo a ser bronco se assim o desejar. Os líderes verdadeiramente populares são aqueles que dizem e fazem sempre tudo aquilo que querem, sem nunca pedirem desculpas a ninguém. A humildade é elitista, a arrogância é popular.

 

9. O povo está sempre indignado. É claro que não o vai mostrar com métodos elitistas de protesto como greves e manifestações. Quem protesta assim, não trabalha e, se não trabalha, não é do povo. É nas redes sociais que o povo dá largas à sua fúria, ataca os seus inimigos e partilha as notícias que provam a justiça das queixas populares. Algumas dessas notícias até podem ser falsas, mas ninguém duvida de que poderiam ser verdadeiras. A boa mentira é aquela que conduz à verdade. Seja como for, o povo só precisa de se indignar nas redes enquanto não encontrar um líder que, mais do que representar o povo, seja o povo. A partir daí, o povo pode estar sossegado e ignorar a política, enquanto o líder trata de tudo sozinho.

 

10. O povo descobriu que, ao contrário do que os elitistas da esquerda acreditam, pertencer ao povo não tem nada a ver com dinheiro ou estatuto social. Por isso mesmo é que cada vez mais juízes, políticos, jornalistas, empresários, comentadores ou historiadores se aproximam do povo e lhe dizem “Povo, povo, eu te pertenço”, aderindo à luta incessante do povo contra as elites. Unido, o povo fará um mundo cada vez mais popular, onde ninguém possa não ser do povo.

O desperdício

Fiz uma das assinaturas que permitiram a legalização da fundação do Livre, mas nunca cheguei a votar no partido. Mesmo assim, soltei convictamente um “Boa sorte, Rui” quando me cruzei com Rui Tavares durante a campanha para as eleições europeias do ano passado e até distribuí no meu prédio alguns folhetos deixados ao abandono aquando da passagem da caravana de Joacine Katar Moreira por Odivelas. De facto, o Livre foi até há três meses uma espécie de Belenenses ou Académica da política, por quem quase todos mostravam alguma simpatia, até por saberem que o emblema fofinho nunca disputaria a vitória no campeonato com os “grandes”. Com uma mensagem ecologista e europeísta, o partido da papoila dirige-se especialmente a independentes de esquerda, desiludidos com o PS mas que não se revêem no conservadorismo do PCP e consideram demasiado radicais algumas posições do Bloco. Apesar de constituir uma faixa estreita do eleitorado, este público-alvo inclui alguns sectores urbanos, localizados sobretudo na cidade de Lisboa e em particular na multicultural freguesia de Arroios, onde o Livre tem a sua sede. Investigadores e outras pessoas ligadas ao meio académico são um grupo profissional no qual o partido tem recrutado vários dos seus militantes e dirigentes.

Criado com a bandeira da promoção de um entendimento entre as esquerdas com vista a uma governação inovadora, o Livre sofreu a dolorosa ironia de ver o seu sonho concretizado após as legislativas de 2015, mas não poder participar na Geringonça por ter falhado, contra as previsões surgidas na própria noite eleitoral, o objectivo de entrar em S. Bento. Neste cenário, a agremiação de Rui Tavares (excelente colunista, mas menos eficaz na oratória) pareceu perder a sua razão de ser e atravessou três anos de silêncio mediático e dificuldades financeiras. O primeiro acto eleitoral de 2019 permitiu a Tavares candidatar-se novamente a membro do Parlamento Europeu e obter, graças à iniciativa e preparação reveladas ao longo da campanha, um prestígio assinalável, mas insuficientemente traduzido em votos. Como o próprio Rui admitiu, o Livre veria o seu futuro em risco se não alcançasse nas legislativas de Outubro um resultado que lhe permitisse receber a subvenção estatal. Os dois primeiros nomes das listas por Lisboa e Porto, potencialmente elegíveis, foram seleccionados pela direcção, deixando os restantes candidatos à escolha dos participantes nas primárias. Durante o Verão, a até aí desconhecida historiadora Joacine Katar Moreira, surgida em segundo lugar na lista para as europeias e designada logo a seguir como cabeça de lista pela capital, ganhou um crescente protagonismo. Terá sido a candidata a defender uma campanha centrada na sua figura, através de meios como o único outdoor do Livre ou a canção “O Sem-Precedente”, e o facto é que Moreira tinha razão. Numa época em que os cidadãos votam cada vez menos em ideologias e mais em personagens, Joacine revelou aquilo a que os franceses chamam star quality, chamando a atenção da comunicação social para a sua história de vida e o seu discurso contundente. Até mesmo a gaguez de Moreira, apontada desde logo como uma limitação, reforçou a notoriedade da candidata e suscitou a admiração de alguns eleitores pela coragem de uma mulher habituada a fazer o contrário daquilo que as pessoas esperam dela.

Logo após a festa do Livre na noite de 6 de Outubro, os cheguistas lançaram na Internet uma extensa campanha de ódio contra a nova deputada que inclui fake news e acusações de falta de portuguesismo. Tratou-se, claro, de uma consequência natural da atitude ofensiva e provocatória tomada por Joacine Katar Moreira ao não fazer imediatamente operações para deixar de ser mulher e negra. No entanto, a própria Joacine pareceu ter achado que essas características bastavam para defini-la enquanto política e caiu numa espécie de deslumbramento. A partir do momento no qual Moreira e o seu assessor entraram pela primeira vez na Assembleia da República, a deputada envolveu-se numa sucessão de episódios caricatos que garantiram ao Livre a presença diária nas notícias pelas razões erradas. Entretanto, tornaram-se audíveis nas hostes da papoila queixas relativas à excessiva personalização da actividade partidária numa parlamentar descoordenada com as instruções do Grupo de Contacto. Por fim, quando Moreira contrariou a orientação do partido ao pronunciar-se sobre um dos muitos votos apresentados no Parlamento, desencadeou-se uma série de momentos pouco edificantes que é desnecessário recordar aqui. Vieram o Natal, o Ano Novo e algumas semanas durante as quais Joacine se tornou mais discreta na arena mediática, antes da votação na generalidade do Orçamento de Estado reacender o conflito interno no Livre e elevá-lo ao ponto da ruptura. O congresso do partido adiou a decisão sobre a retirada da confiança política em Moreira, indicando essa opção como inevitável ao mesmo tempo que deixou entreaberta a porta para um “milagre” dificultado pela radicalização das partes em confronto.

 

 

A origem da turbulência no Livre tem sido atribuída a uma suposta deriva empreendida por Joacine no sentido de um discurso identitário radical oposto à moderação da linha tavarista. Não parece, contudo, estar aí o essencial do problema, até porque o programa eleitoral do partido já acolhia propostas como alterar os programas escolares de modo a realçar a violência do colonialismo português. Ainda antes da crise, um antigo apoiante do Livre, Ricardo Araújo Pereira, afirmou que os membros da instituição faziam política com o amadorismo e a ingenuidade de uma lista candidata a uma associação de estudantes. Trata-se da descrição perfeita de um conjunto de pessoas cuja inexperiência e espontaneidade conseguem tornar o que está mal hoje ainda pior amanhã. Os militantes do Livre têm que aprender a arte da hipocrisia que levou o PS e o PSD à glória e deixar de dizer em público tudo aquilo que sentem. Da mesma forma, o modelo de organização interna que Rui Tavares e os outros fundadores escolheram com o objectivo de evitar os problemas dos outros partidos revela-se frágil. Se o Livre tivesse um líder (fosse ele Tavares, Moreira ou outra pessoa) que assegurasse sozinho a coordenação política do partido e definisse em pouco tempo o rumo a seguir, conheceria uma eficácia superior à fornecida pela discussão e votação de todos os assuntos em reuniões da direcção, grupos de trabalho, assembleias infindáveis e congressos anuais. Ao procurar romper com o sistema de centralização do poder numa única pessoa, o partido do “centro da esquerda” acabou por mostrar que democracia a mais também não funciona.

No momento actual, o eleitorado observa a agitação no Livre como quem ouve a discussão de um casal à beira do divórcio que troca acusações sobre a responsabilidade da situação. A princípio até pode ser divertido para os bisbilhoteiros (por algum motivo os media têm seguido a celeuma com tanto interesse), mas ao fim de pouco tempo só apetece dizer “Eh pá, calem-se”. Os danos causados na credibilidade do Livre por todo este ruído são profundos e talvez irreparáveis. A ténue hipótese de recuperação não está, certamente, na retirada da confiança a Joacine Katar Moreira, uma vez que nem o Livre terá sucesso sem Joacine, nem esta irá longe sem o apoio do partido. O aspecto mais decepcionante está no facto das papoilas discordantes estarem a desbaratar um vasto potencial. Se o Livre falasse a uma só voz e centrasse a atenção nos temas do seu programa, tal como se Moreira usasse a capacidade oratória mostrada no congresso de Alvalade para algo útil no Parlamento, o partido poderia ser uma força relevante dentro da esquerda portuguesa e aproveitar a presente legislatura para influenciar o debate político. Assim, limita-se a ser uma oportunidade desperdiçada.

 

P.S. O nono congresso do Livre teve um momento Lost in Translation quando os jornalistas tentaram adivinhar o conteúdo do breve diálogo em voz baixa entre Rui Tavares e Joacine Katar Moreira. Assumindo a pele de um verdadeiro dirigente partidário, Tavares comentou esse episódio na mesma frase em que recusou comentá-lo.