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Desumidificador

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Quem tem medo do comunismo?

1. Ah, a Festa do Avante? Bem, o melhor teria sido não a realizar este ano, mas, já que o PCP tomou essa decisão, agora não dá para voltar atrás. Vão ver que tudo correrá bem, até porque os comunistas não querem dar prazer à legião que está a torcer pelo desastre e controlarão o público de perto. No entanto, esta polémica acentua a impressão de que o partido de Álvaro Cunhal chegou velho aos 99 anos de idade, sobretudo porque, tal como muitos idosos, o PCP não compreende nem é compreendido pelo mundo actual. A terciarização da economia e a maior precariedade do trabalho abalaram as bases sociais do partido, com um estilo de comunicação política antiquado e opiniões conservadoras sobre as questões de “costumes” (touradas, eutanásia, homossexualidade, etc.) aproveitadas por partidos mais jovens. Os outros sectores políticos orientados pelo marxismo não se encontram, porém, numa situação muito melhor. Depois do empate que obteve nas últimas legislativas e do embate no tecto dos 10%, o Bloco de Esquerda, a viver os desafios do início da sua idade adulta, hesita quanto ao caminho a tomar. Mais à esquerda, o MAS disputa o último lugar em qualquer eleição, Joana Amaral Dias tornou-se apenas uma estrela da CMTV e o trotskismo raquelista revela dificuldades para ultrapassar as fronteiras do meio académico. Posso estar a ser injusto, mas parece que nos últimos três anos Raquel Varela matizou-se, ou seja, passou a ser vista pela direita como um novo Arnaldo Matos (“o inimigo do meu inimigo…”). A violência do discurso anticomunista existente nas redes sociais resulta não da força, mas da fraqueza dos defensores de uma Terra sem amos. Já nem Jaime Nogueira Pinto se assusta com as bandeiras vermelhas. Quem tem medo do comunismo?

 

2. Muitas cabeças ditaram muitas sentenças sobre o crescimento da extrema-direita ocorrido na década que agora termina, mas poucos tentaram explicar porque é que o eleitorado descontente com o “sistema” se virou para os herdeiros do fascismo e não para as forças políticas anticapitalistas. O meu palpite vai para causas mais culturais que económicas. Enquanto nos anos 60 e 70 se verificou uma hegemonia cultural da esquerda e as décadas de 80 e 90 assistiram ao triunfo ideológico da direita liberal, o século XXI tem sido marcado pela hegemonia do pensamento “os políticos só querem é poleiro”. O Estado, os partidos e os ocupantes de cargos eleitos são alvo de desconfiança permanente. Na verdade, o pessimismo antropológico generalizado leva qualquer pessoa que se dedique a uma causa a ser suspeita de a utilizar em seu proveito próprio. O declínio das vivências comunitárias e a individualização do trabalho e do lazer dificultam a criação de identidades colectivas. Quando se olha quem está ao nosso lado, há maior tendência para criticar que para estabelecer uma relação de camaradagem. O sacrifício da vontade pessoal em nome do bem-estar do grupo é cada vez menos aceite. De uma maneira geral, a nossa sociedade venera os vencedores e despreza as vítimas. A esperança num futuro mais justo e solidário foi abalada por inúmeras desilusões. Este ambiente prejudica os tradicionais apelos da esquerda à mobilização colectiva, enquanto a direita, sobretudo nos novos partidos, capitaliza a herança salazarista de desprezo pela política. Quem quer uma sociedade sem classes?

 

 

3. A lógica da Guerra Fria e do combate ao “imperialismo”, fosse ele americano ou soviético, construía uma narrativa universalmente válida que integrava os seus seguidores num vasto movimento internacional de pessoas com os mesmos objectivos, como a liberdade ou a igualdade. Já neste século, a invasão do Iraque reavivou alguns desses discursos, a partir da contestação à hegemonia americana ou da defesa desta. No entanto, pouco depois, o mundo tornou-se mais complicado. Já poucos negam que o presidente dos EUA é um idiota de extrema-direita, mas agora ele está ao serviço da Rússia do czar Putin, que o PCP instintivamente confunde com a antiga URSS. Sem linhas claras, a geopolítica revela-se cada vez mais caótica, com interesses contraditórios a cruzarem-se. Neste contexto, o internacionalismo associado ao projecto comunista possui escassas bases onde se apoiar. Quem são os aliados e quem são os inimigos?

 

4. A história das experiências comunistas do século XX e da opressão e sofrimento que envolveram constitui um obstáculo evidente ao sucesso dos anticapitalistas, que ainda têm de ouvir dos seus adversários referências diárias à bizarria da Coreia do Norte e ao colapso da Venezuela chavista. Em Portugal, o PCP tem recorrido à negação ou desvalorização daquilo que correu mal, enquanto a extrema-esquerda procura uma fórmula que recupere a pureza do ideal marxista sem cair nos “desvios”, num desafio ainda não concretizado. Na verdade, até mesmo a memória da situação internacional anterior a 1989 tem desaparecido. Imaginar sociedades organizadas num modelo alternativo à economia de mercado é hoje um esforço bastante árduo e pouco estimulado. Onde fica a utopia e como se chega lá?

 

5. O futebol profissional foi sempre encarado com reservas pelos marxistas, enquanto liberais como Carlos Guimarães Pinto vêem nele um exemplo daquilo que toda a sociedade deveria ser. De facto, para lá do “mérito” associado ao êxito dos melhores jogadores e treinadores, trata-se de um meio onde as desigualdades entre países e clubes são consideradas naturais e os futebolistas, precários por natureza, são “comprados” e “vendidos” como gado sem que a linguagem soe mal. O amor clubístico é interclassista, permitindo a um burguês como Pinto da Costa afirmar sem se rir que se mantém no dirigismo desportivo para proporcionar alegrias aos portistas mais pobres. A ascensão social de um pequeno grupo de jovens atletas nascidos na pobreza que o futebol transformou em milionários (por vezes esquece-se de que se trata de casos raros no conjunto dos profissionais do desporto-rei) ajudou a dissociar riqueza de exploração e a espalhar a ideia de que o sucesso de um indivíduo só depende do seu empenho pessoal. A isto tudo juntou-se recentemente a transferência para a política de fenómenos como a violência, o sentimento tribal, o discurso rude e agressivo e o espírito de intolerância que medraram a pretexto do futebol e formataram pessoas inteligentes para acreditar nas posições mais absurdas. Esta dinâmica evolutiva do futebol, iniciada há mais de um século e aparentemente imparável, seria impossível numa sociedade socialista. Pode o futebol deixar de ser uma indústria?

 

6. Obviamente, o retrato feito atrás é apenas um esboço da situação presente. Numa altura em que os efeitos políticos globais da pandemia de Covid-19 são ainda imprevisíveis, nada garante que o declínio do socialismo seja eterno. De resto, nos EUA, os eleitores mais jovens do Partido Democrata estão a radicalizar-se bastante à esquerda do mainstream centrista representado por Joe Biden. A luta contra as alterações climáticas, que recuperará o seu inevitável protagonismo quando a “normalidade” voltar, é encarada por alguns como uma oportunidade para popularizar o discurso anticapitalista. Tudo é uma incógnita, mas o ressurgimento do marxismo não será possível sem a revalorização da política, da acção colectiva, da crença na Humanidade e até da ideia de um futuro melhor. Os proletários de todos os países irão unir-se?

 

 

Gosto não gosto

No programa do Canal Q Quem Desdenha, Susana Romana conversa com várias personalidades sobre a cultura e os produtos musicais, literários ou cinematográficos que cada uma delas menos aprecia, incluindo também algumas sugestões de obras que valem a pena. Com um formato tão cativante como este, eu não poderia deixar de imitar Romana e listar obras escolhidas da forma mais subjectiva possível, embora os meus gostos tendam a coincidir com o mainstream.

 

Desdéns

 

José Cardoso Pires: Não gostei de O Delfim e não consegui acabar a Balada da Praia dos Cães. Porquê? Não faço ideia. É como o atum, não se gosta e pronto.

 

Margarida Rebelo Pinto: Alguns anos depois do desagrado causado por Sei Lá (diga-se que o filme ainda é pior), resolvi dar uma nova oportunidade à autora, que poderia ter evoluído favoravelmente nos anos antes do romance Português Suave (2008). Nada a fazer. No ensaio Couves e Alforrecas, João Pedro George identificou sem margem para dúvidas aquilo que está errado em Rebelo Pinto.

 

 

Aaron Seltzer e Jason Friedberg: Dois dos argumentistas de Scary Movie lançaram-se na primeira década deste século na escrita e realização de uma série de filmes também integrados no género spoof (Date Movie, Epic Movie, Uns Espartanos do Pior, Disaster Movie, etc.). Todos eles têm uma subtileza de elefante e reconstituições de cenas de sucessos de bilheteira lançadas ao acaso sem qualquer piada ou sentido. Todos os candidatos a humoristas devem vê-los para saberem o que não se deve fazer.

 

Livros de Alberto Gonçalves: Não tenho especial prazer em bater no Vasco Pulido Valente da loja do chinês e até reconheço que criou uma personagem deliciosa para o seu público-alvo. No entanto, o matosinhense constitui um marco da tendência para baixar o nível que afecta o comentário político. Começa-se por um Alberto Gonçalves e acaba-se num Rodrigo Alves Taxa.

 

The Final Cut: O álbum de 1983 dos Pink Floyd que ainda conta com Nick Mason e David Gilmour, mas é sobretudo um projecto pessoal de Roger Waters. Num trabalho em que declama mais do que canta, Waters vagueia pela sua mente sem nunca chegar a lado nenhum.

 

Astérix e Obélix Contra César: Claude Zidi cometeu em 1999 um autêntico crime com esta ofensiva e desconexa primeira adaptação de Astérix para o cinema de imagem real.

 

Looney Tunes: Já valeu a pena criar Family Guy só por causa da cena desta série em que Elmer Fudd, em vez de dar conversa a Bugs Bunny, simplesmente mata o coelho de forma seca e impiedosa. É certo que há excepções, como aqueles filmes realizados por Chuck Jones em que torcemos sempre pelo Coyote contra o Road Runner.

 

Bacalhau com Todos: Uma comédia da RTP protagonizada por Guilherme Leite, filmada com público a assistir durante a transição do século XX para o XXI e que ganhou merecidamente o prémio de pior sitcom de todos os tempos.

 

 

Séries da nossa infância que envelheceram mal

 

Poucas: Ao contrário do que diz Susana Romana, o Alf faz rir, embora a última temporada seja bem mais fraca que as anteriores. No caso de MacGyver, as fraquezas da série são actualmente mais visíveis, mas o conceito é tão simples e brilhante que mantém a sua eficácia, enquanto a música do genérico traz imensas recordações. Sobre O Justiceiro, persiste a mesma impressão de quando éramos miúdos: o KITT é tão fixe que lhe perdoamos por transportar o canastrão do David Hasselhoff. Por outro lado, também me lembro de Superboy, uma série sobre as aventuras do Super-Homem nos seus anos de estudante universitário que é embaraçosamente má, desde os diálogos aos efeitos especiais (em compensação, percebe-se melhor agora como a actriz Stacy Haiduk era sensual).

 

 

Guilty pleasures

 

Telenovelas portuguesas: É difícil escapar ao fascínio por este universo de criadas fardadas, cavalos, pequenos-almoços cheios de fruta, pessoas que partem coisas quando se irritam, conversas ouvidas sem ninguém notar, jovens casais a quem acontece de tudo antes de serem felizes para sempre, filhos que descobrem os pais biológicos, etc. Os folhetins nacionais já foram bem piores e contam com alguns actores cujo valor ultrapassa as frases que os fazem dizer.

 

Inspector Max: Sim, eu sei, mas os episódios eram escritos por argumentistas das Produções Fictícias que conseguiam fazer uma série “para toda a família” sem torná-la demasiado piegas ou infantil.

 

 

Sugestões

 

Cartoons de Augusto Cid: Livros como PREC, PREC II, O Superman, Eanito, El Estático, Alto Cão Traste e muitos outros reproduzem o traço e a mordacidade inimitáveis de um dos maiores cartoonistas portugueses de sempre e permitem conhecer melhor as reviravoltas da nossa política entre o 25 de Abril e a troika. Um aspecto importante da obra de Augusto Cid encontra-se na possibilidade de compreender o general Ramalho Eanes (arqui-inimigo de Cid) como uma personagem dentro de um contexto histórico e não como o santo laico hoje venerado por pessoas que nunca teriam votado nele em 1980.

 

 

O Lobo de Wall Street: Martin Scorsese fez em 2013 uma versão de Tudo Bons Rapazes passada no mundo da Bolsa, com Leonardo DiCaprio a protagonizar ao seu nível uma história de ascensão e queda que volta a mostrar como o Mal é tentador e o capitalismo estimula a ambição desmedida.

 

“Volto Já”: Um tema com letra de Rui Reininho que marcou a curta carreira dos Johnny Johnny e passa de vez em quando na M80, atraindo pelo seu ritmo viciante e pela curiosa alegria que transmite.

 

 

 

Alvo intacto

“Tiro e Queda” (2019), de Ramón de los Santos

 

Eddy (Eduardo Madeira) e Manecas (Manuel Marques) são dois snipers idiotas e dominados pelas esposas (Gabriela Barros e Carla Vasconcelos) que partem para Viana do Castelo com a missão de abater um alvo desconhecido. E pronto, o filme é isto. Não acontece muito mais.

Tal como em Filme da Treta, Eduardo Madeira e Filipe Homem Fonseca escreveram um argumento cinematográfico a partir de um espectáculo teatral de sucesso centrado numa dupla com química sólida e domínio do timing cómico. Madeira e Marques retomam as suas personagens de assassinos profissionais (?) que travam diálogos disparatados sobre os mais variados temas, agora no cenário do navio Gil Eanes. Na verdade, o filme poderia passar-se tanto em Viana do Castelo como em Pequim, de tal modo se foca no texto e na interacção entre os protagonistas, cuja competência garante um mínimo (mas só isso) de interesse pelo que se passa no ecrã ao longo de pouco mais de uma hora. Contudo, à imagem da película com António Feio e José Pedro Gomes, Tiro e Queda revela dificuldades para adaptar o seu conceito ao formato do cinema e perde-se em episódios sem ligação entre si, separados por legendas alegadamente espirituosas, enquanto os actores secundários fazem bonecos fugazes e sem graça.

Entre publicidade descarada aos patrocinadores do filme, imagens aéreas de Viana sem utilidade além do bilhete-postal e a estreia nada inspirada de Ramón de los Santos na realização de uma (pouco) longa-metragem, Tiro e Queda surpreende apenas pelo vazio. A única salvação reside na opção tomada de assumir desde cedo que a obra se trata de uma “fantochada” e não possui a intenção de fazer sentido. Visto desse ângulo, o filme torna-se uma parvoíce inofensiva, útil para passar o tempo quando se está confinado em casa. Não é por aqui, porém, que o cinema português ultrapassará a escassez de boas comédias (com excepções como Capitão Falcão) que marca as suas últimas décadas.

A melhor cena: O genérico final (por causa da música).

A pior cena: Os dois idosos sentados à beira da estrada.

 

Nota: 5/10.

 

 

Os últimos seis meses

8 de Fevereiro: o longo período de compensação termina e a vitória é nossa. Chego finalmente a casa. Fernando Rocha pede ao vírus para vir cá. Os casos suspeitos multiplicam-se, mas, para desgosto das televisões, nunca é hoje. O surto descontrola-se em Itália e Espanha, os médicos têm que escolher quem salvar. Marega decide não aturar mais aquela merda. Surgem as cotoveladas amigáveis. O novo programa de Ricardo Araújo Pereira estreia na SIC. 2 de Março: primeiro infectado em Portugal. 6 de Março: vou a uma missa onde a única novidade é um frasco de álcool gel na pia baptismal. Última jornada da Liga com público. 8 de Março: o Presidente Marcelo entra em quarentena. A uma velocidade alucinante, Portugal adia, cancela, encerra, vai para casa. 12 de Março: António Costa fecha as escolas. Vive-se um ambiente de fim do mundo. Despeço-me dos meus sobrinhos antes de mês e meio de afastamento. Velhos casmurros recusam permanecer em casa. 18 de Março: declaração do estado de emergência. Fique em casa, vai ficar tudo bem. O país respira fundo e procura encontrar a normalidade na anormalidade.

 

Os dias tornam-se um dia único e enorme. Saio de casa apenas para ir à farmácia, ao Multibanco e ao supermercado. Todos passam a ser heróis, o que é o mesmo que dizer que ninguém o é. Rodrigo Guedes de Carvalho contrai a doença das pessoas que se levam muito a sério. Rogo aos meus parentes brasileiros para que ignorem o seu Presidente idiota. Paulo Portas todos os dias na TVI, porque aqueles fatos não se pagam sozinhos. Mal o sol se põe, o silêncio na rua é esmagador. Discreta e silenciosamente, a fome alastra. Suspense diário às 13.00. Na Páscoa, não se ouve nem um murmúrio. A curva achata. Nas redes sociais, pululam milhares de especialistas cujos palpites não são seguidos pelas autoridades porque estas são estúpidas. A clivagem esquerda/direita é substituída pela luta entre os partidos Abram Tudo e Fechem Tudo, cada um com os seus ideólogos. Algumas pessoas oscilam entre os dois partidos conforme a conjuntura. Eu leio o cepticismo de Metzner Leone. Telefonemas ao domingo para saber se toda a gente está bem. Contactar a cascata sanjoanina por Messenger. O horário do supermercado alarga. A posição oficial sobre as máscaras muda, e agora onde é que vou arranjar máscaras. Graça Freitas e Marta Temido, alvos de elogios e críticas fáceis. A pouco e pouco, sai-se. A polémica sobre o 25 de Abril na Assembleia da República prova que a democracia está em perigo. Grândola Vila Morena, terra da fraternidade. A CGTP não desiste do 1.º de Maio e metade do país rabuja. As coisas correm melhor que o esperado, quem governa beneficia. O estado de emergência é levantado. O país desconfina com muita cautela.

 

A papelaria é a primeira loja da rua a reabrir. O alívio do corte de cabelo. Uso um metro às moscas para voltar a Arroios. Leio com uma máscara na cara. O teletrabalho e as videochamadas banalizam-se. Regressar à Biblioteca Nacional e calçar luvas. Os idosos deixam o bunker. O alinhamento noticioso torna-se menos monotemático, até porque recomeçou o futebol. Descubro que Miguel Bombarda era um génio. A canícula e os incêndios chegam. Quem havia de imaginar que Pedro Lima… Alguém repara que quase todos os novos casos aparecem em LVT. Vejo-me numa das freguesias que se portaram mal. A culpa é sempre do vizinho. Fora das horas de ponta, os transportes não parecem assim tão cheios. A política normaliza. As manifestações anti-racistas chocam com a tribo do “não há racismo”. Maria Vieira dá vivas à IV República. O eleitorado fragmenta-se. Mais uma vez, a feira desaparece e o supermercado fecha mais cedo. O supermercado retoma o horário normal. Os números vão agora no bom sentido. A saúde privada reanima-se. O FC Porto faz a dobradinha e os benfiquistas começam a derrubar a estátua de Luís Filipe Vieira. O pior está para vir, dizem os economistas. Paira a ameaça da segunda vaga. Quem tem emprego vai de férias. O país pergunta-se: e agora?

 

 

A nova direita velha

Para quem só o descobriu agora, Riccardo Marchi é um historiador italiano que se especializou no estudo da “direita radical” portuguesa entre o final da II Guerra Mundial e a actualidade. Num trabalho valioso disperso por vários artigos, capítulos de obras colectivas e livros como Folhas Ultras, Império, Nação, Revolução ou A Direita Nunca Existiu, Marchi conta a história vista do lado dos vencidos (?) que condenaram as cedências e hesitações de Marcelo Caetano, viveram a prisão, o saneamento ou a luta armada durante o PREC e tentaram sem sucesso criar alternativas à direita do PSD e do CDS no período pós-revolucionário. Além de ser um historiador credível, Riccardo é um simpatizante da extrema-direita, ou, como o próprio já disse, não acredita que a democracia liberal seja o fim da História. As suas opiniões ajudam o seu trabalho, na medida em que os “fachos” portugueses depositam em Marchi uma confiança que não têm nos jornalistas e historiadores do “sistema” e cedem ao autor italiano documentos e testemunhos essenciais para compreender um sector político cuja memorialística é muito escassa. Por tudo isto, Riccardo Marchi foi a escolha natural do grupo Almedina para escrever A Nova Direita Anti-Sistema. O Caso do Chega (Edições 70, 2020), que o professor António Costa Pinto descreve na badana como “o primeiro livro sério e desapaixonado sobre o Chega”, representando assim uma ruptura com as dezenas de livros de comunas histéricos em torno do partido de André Ventura já publicados. A obra ganhou publicidade com o manifesto que, após uma entrevista de Marchi à RTP, várias dezenas de académicos assinaram para condenar a alegada suavização do carácter racista e extremista do Chega feita pelo estudioso.

 

Ao contrário de anteriores livros do mesmo autor, A Nova Direita… foi escrito em cima dos acontecimentos que narra, com a pesquisa e redacção a acompanharem o turbilhão de eventos pelo meio dos quais, após a eleição de André Ventura para o Parlamento, o Chega cresceu nas sondagens e no número de militantes a uma velocidade assombrosa. Essa falta de distanciamento temporal permite classificar o livro mais como um ensaio político que como uma obra académica, pelo que a ausência de elementos como notas de rodapé ou uma melhor definição teórica dos conceitos utilizados não é significativa. O resumo dos eventos feito por Marchi na sua “história do Chega” (p. 15) revela-se precioso em si mesmo, na medida em que a vida do partido tem sido marcada por polémicas tão breves, intensas e numerosas que se anulam umas às outras e criam um ruído adverso à compreensão do fenómeno. Outro trunfo do autor é dar voz aos dirigentes do Chega por si entrevistados, figuras mediaticamente desconhecidas cujo trabalho é remetido à escuridão pelo protagonismo de Ventura, o homem em torno do qual, como os seus próprios seguidores afirmam, gira todo o partido. A narrativa de Riccardo esclarece o percurso e as motivações da elite chegófila e de alguns fundadores que abandonaram a organização devido a questões mais pessoais que ideológicas. O livro inclui ainda uma análise dos documentos programáticos divulgados pelo Chega na Internet, focando-se Marchi nos principais temas abordados e nas contradições de textos escritos por mãos diferentes. Finalmente, o investigador apresenta várias conclusões sobre a identidade política do Chega e os desafios que este enfrenta, entre eles a necessidade de atrair quadros que criem “uma classe política sólida no vértice do partido” (p. 200), reforcem a sua estrutura interna e se preparem para um eventual Governo com a presença de Ventura.

 

A polémica estala em torno da definição do Chega como “um partido populista de nova direita radical” (p. 191) apresentada por Riccardo Marchi. Os epítetos de “radical” e “populista” são relativamente consensuais, ao contrário da opção de Riccardo de incluir o partido venturista na “nova direita” em ascensão internacional. Esta direita seria nova por não ter “nada a ver, do ponto de vista doutrinário” (p. 194), com os regimes ditatoriais criados nos anos 20 e 30 do século XX. No caso português, o Chega “não reivindica a herança política” do salazarismo nem enaltece o “colonialismo estado-novista” (pp. 195-196). A entrada nas hostes chegófilas de saudosistas da ditadura e antigos membros do PNR (perdão, do Ergue-te!) ou doutras organizações de direita radical é desvalorizada por Marchi, devido à incapacidade dos elementos mais à direita de influenciar a cultura política de um partido que visa um eleitorado amplo e, apesar das suas críticas às minorias étnicas, “não as considera corpos estranhos à comunidade nacional” (p. 197). De resto, Ventura e os outros dirigentes do Chega, vários deles com passagens anteriores por PSD e CDS, não se consideram radicais ou fascistas. O ponto fraco do livro está precisamente na atitude de Marchi ao reproduzir sem contestação (e com concordância implícita) as afirmações dos entrevistados, inclusive sobre temas tão relevantes como o financiamento do partido, embora o autor possa argumentar que uma investigação mais profunda não se encontrava no âmbito do seu projecto. Há ainda pontos que poderiam ter sido melhor desenvolvidos, como as ligações de André Ventura ao Benfica, a influência da religião cristã no pensamento da cúpula do Chega ou as relações com organizações estrangeiras da mesma família política, as quais tiveram avanços significativos já depois da impressão de A Nova Direita

 

 

Ao contrário da Iniciativa Liberal, que definiu aquando da sua fundação um determinado ideário e depois partiu para a missionação (“és liberal e não sabias”), o Chega procurou sobretudo adaptar-se às preferências do seu público-alvo. Com a inteligência e talento político que os seus adversários devem reconhecer (basta olhar para o CDS para saber como seria um partido liderado por alguém totalmente inepto para a função), André Claro Amaral Ventura observou os comportamentos da população no seu habitat dos subúrbios de Lisboa e notou o crescente fracasso do discurso da direita PSD/CDS. Por ser um político pragmático ou, segundo mentes malévolas deformadas pelo marxismo cultural, um oportunista disposto a tudo para alcançar o poder, André pegou nos temas centrais de um certo vox populi suburbano (ciganos, justiça, corrupção, etc.) e, depois de obter a fama com a sua gravata vermelha, apresentou-se como o campeão dessas causas. A chave para ir além do microscópico espaço eleitoral dos antecessores do Chega estudados por Marchi reside num discurso suficientemente ambíguo para atrair os fascistas tradicionais sem espantar votantes indignados que pretendem abalar a ordem política vigente e a quem o distante Estado Novo nada diz. Assim, Ventura não condena o 25 de Abril, mas diz que Portugal está a decair há 46 anos. Não suspira pelo Império perdido, mas orgulha-se da nossa História gloriosa, imaculada e nunca criticável. Não proclama a superioridade da raça branca, mas queixa-se de que agora os escravos somos “nós”. Não elogia Salazar, mas tosse quando se refere a Aristides de Sousa Mendes. Na minha opinião, não se trata de uma nova direita. É uma direita mais velha que a Sé de Braga (a terra do cónego Melo, homenageado por Ventura) disfarçada de “popular” e “moderna”. O problema de Marchi reside na confusão do discurso com a prática quotidiana do Chega e do seu presidente. Um bom exemplo disso é a afirmação feita pelo historiador de que André não pretende “promover o culto da personalidade” nem a “adesão acrítica ao líder” dentro do partido (p. 199).

 

Como o próprio Riccardo Marchi admite, A Nova Direita… é apenas um ponto de partida para estudos mais aprofundados sobre o Chega, apresentando os dados básicos relativos ao líder, aos militantes e à produção teórica do partido. Trata-se de um contributo importante para o debate público, talvez precisamente por provir de um autor que não está dominado pelo imperativo cívico de denunciar André Ventura como uma ameaça para a democracia. Contudo, a biografia autorizada do Chega escrita por Marchi padece do mal comum nesse tipo de obras, ricas em factos mas que deixam sempre a sensação de que o mais interessante ficou de fora do livro.

 

P.S. Enquanto o pessoal do Observador solta berros de “Censura! Censura!”, Riccardo Marchi tem dialogado civilizadamente no Facebook com vários dos historiadores que o criticaram. Ainda há quem prefira jogar em vez de se atirar para o chão ao mínimo contacto.