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Ser católico

Os meus avós eram católicos fervorosos, embora seja questionável se no meio e na época em que eles viviam alguém poderia pensar em ser outra coisa. Obviamente, transmitiram a sua crença aos filhos e, pouco depois de eu nascer, os meus pais levaram-me à velha igreja matriz de Odivelas para receber o baptismo e começar a assistir à missa ainda antes de perceber o que lá era dito. Frequentei a catequese durante nove anos, sob a orientação de uma jovem catequista que depois se converteu ao comunismo. Se alguém disser de repente “creio em um só Deus”, consigo prosseguir a oração graças à minha mãe, que escreveu o Credo em folhas que li sucessivamente até decorar o texto elaborado no século IV. Nos anos 90, a Igreja Católica já enfrentava organizações concorrentes, as quais, pelo que então ouvia, consistiam sobretudo em grupos de pessoas meio esquisitas (as Testemunhas de Jeová) ou ingénuos burlados por “pastores” com sotaque brasileiro. Nada de comparável, portanto, à placidez das missas celebradas na matriz ou na igreja do Mosteiro, onde a música oscilava entre cânticos sonolentos entoados por velhos e os acordes de guitarra dos coros de jovens. Depois do crisma, tive de responder à pergunta “que farei com esta cruz?” Entre familiares que “adormeceram na esperança da ressurreição”, outros que se viram livres da formação cristã recebida e passaram a zombar da Igreja e ainda outros para quem a religião foi sempre um fenómeno remoto, optei por manter o terço no meu quarto, mas sem um envolvimento para lá de uma missa de vez em quando. Já tinha compreendido que o baptismo, ao invés de facilitar, torna mais exigentes as nossas vidas e ser cristão a sério inclui a obrigação de (usando uma expressão horrenda) sair da nossa zona de conforto. Sem uma fé suficientemente resistente para um esforço desses, achei que não valia a pena fingir ser aquilo que não era, até porque seria impossível enganar um Deus que me conhecia tão bem. A minha dúvida sempre foi sobre a forma como a crença de que Jesus ressuscitou se traduz no nosso quotidiano depois da missa acabar.

 

O que significa ser católico em Portugal hoje em dia? À primeira vista, continuamos a gozar o conforto de ser uma vasta maioria herdeira de uma cultura milenar, mas, analisando os pormenores para lá da multidão que enchia o Santuário de Fátima (o catolicismo português por vezes parece resumir-se ao culto mariano) antes da pandemia, percebe-se que os católicos deixaram de jogar sempre em casa. Não é caso para achar, como Henrique Raposo, que um dia nos vão prender e atirar aos leões (ou seja, obrigar-nos a enfrentar sozinhos uma turba da Juve Leo) se nos ouvirem rezar um Pai-Nosso, mas o ambiente social e cultural laicizou-se bastante nas últimas décadas. No discurso mediático, o Natal e a Páscoa foram descristianizados, comercializados e transformados em festas da comida desprovidas de conteúdo espiritual. Ao perder o ascendente político que parecia eterno, inclusive durante os primeiros anos de democracia, a Igreja assistiu impotente à legalização do aborto, do casamento homossexual e, em breve, da eutanásia. O clero acompanha e regista cada vez menos o nascimento, casamento e morte dos portugueses, enquanto os fiéis envelhecem e os novos sacerdotes escasseiam. A presença de referências ao Cristianismo na produção cultural (música, televisão, literatura, etc.) tornou-se residual. O discurso de vitória de 2016 que Fernando Santos encerrou com aquele “seja tudo para glória do Seu nome” causou estranheza pela raridade de uma manifestação sincera de fé no espaço público. A pouco e pouco, os católicos estão a transformar-se nas pessoas meio esquisitas, olhadas não propriamente com hostilidade, mas com uma certa estranheza. Assustados, alguns clérigos e leigos sentem que os bárbaros estão a chegar à cidade e refugiam-se atrás das muralhas, maldizendo o “politicamente correcto”.

 

 

E, no entanto, nada disto é necessariamente mau. Sobretudo desde que há oito anos o Papa Francisco pegou no balde e na esfregona para iniciar a necessária limpeza da casa de Deus, sabemos que a Igreja não precisa de se fechar em si própria, mas de contactar com o mundo real e mostrar a face do perdão e da tolerância. Sem o amparo do poder nem a capacidade de impor a sua visão do mundo à sociedade, o catolicismo tem de apostar no exemplo e na persuasão, não deixando de olhar para si mesmo e enfrentar aquilo que antes era varrido para baixo do tapete. Apesar de não serem uma solução mágica, o fim do celibato dos padres e a ordenação de mulheres poderiam reforçar a atractividade da carreira religiosa. Convencer as pessoas a serem católicas actuando num mercado livre, e já não numa situação de monopólio, será certamente mais difícil, mas também mais estimulante. A grande força da religião cristã reside na ideia de que as portas da Igreja estão sempre abertas para receber qualquer pessoa que se arrependa dos seus pecados e deseje encontrar a paz. Valorizar devidamente esta característica do nosso produto é o melhor truque publicitário.

Como ser um herói

Forme uma opinião: Antes de começar, é necessário um estudo cuidadoso que analise quem já está no terreno e as tendências em ascensão e declínio. Muita gente pensa erradamente que para alcançar o heroísmo basta pegar no discurso dos políticos que estão no poder e dizer o contrário. Isso é fundamental, mas deve ter cuidado para não integrar uma minoria muito minoritária. Ninguém lhe vai dar atenção se parecer um excêntrico que gosta de coisas que mais ninguém conhece. Por esse motivo, há que identificar desde logo um nicho de mercado cujas necessidades de opinião você possa satisfazer. Inicialmente, será você a adaptar-se às ideias deles, mas em breve o nicho começará a dançar a música que você toca.

 

Escolha um inimigo: Não há filme de super-heróis sem vilões, de preferência daqueles que podem voltar numa futura sequela. Por isso, tem de definir desde logo uma ou várias entidades a cujo combate dedicará o resto da sua vida. Não, “esquerda” e “direita” são termos demasiado vagos e antiquados. Existe um vasto leque de opções de onde pode escolher: a bolha, a casta, as elites, o sistema, os políticos, os poderosos, os intelectuais, os parasitas, a oligarquia, os bem pensantes, os indignados do costume, o marxismo cultural, o politicamente correcto… Se puder, crie a sua própria categoria e use-a vezes sem conta. Deixe sempre claro que o seu inimigo é poderosíssimo e controla todo o país (a começar pelos media), submetendo a população a um pensamento único contra o qual apenas você e um pequeno grupo de resistentes erguem a chama da revolta. Escusado será dizer que nunca deve incomodar alguém que tenha realmente poder para fazer uns telefonemas e arruinar a sua vida. Uma coisa é parecer corajoso, outra é ser louco.

 

Encontre o estilo certo: Os super-heróis distinguem-se do resto da população por disporem de capacidades especiais e enfrentarem os bandidos que as pessoas comuns não podem ou não querem combater. Precisa de exibir frequentemente os seus poderes, dando a entender que é mais corajoso, inteligente e engraçado que os outros comentadores e diz “as verdades” ocultadas por estes. Mostre absoluta convicção em tudo o que afirma e evite ao máximo palavras como “mas”, “talvez” e “não sei”. Confie no seu instinto e não procure factos para justificar as suas opiniões. Utilize uma linguagem simples, reduza o vocabulário e não refira filmes, livros, canções ou outros produtos culturais se estes não forem mesmo muito conhecidos (nenhum leitor ou espectador gosta de sentir-se ignorante). A pouco e pouco, baixe o nível e seja rasteiro e desagradável com os seus adversários. Se eles protestarem, não tenha piedade e lance-lhes a mais horrenda acusação que se pode fazer a alguém no século XXI. Sim, acuse-os de serem movidos por uma ideologia, enquanto você se limita a constatar objectivamente a realidade única e incontestável.

 

 

Crie uma claque: Os heróis sazonais, como os polícias, os bombeiros ou os profissionais de saúde, são esquecidos logo que a criminalidade baixa, o Verão acaba ou uma epidemia é controlada. Não pode permitir que isso lhe aconteça. Para tal, necessita de um grupo organizado de adeptos (GOA) que lhe garanta apoio permanente. As redes sociais constituem um terreno ideal para fazer crescer a falange que vai ouvi-lo, partilhá-lo, visualizá-lo, fazer like em si, enfim, mantê-lo vivo na selva da opinião publicada. Identifique os temas preferidos do seu GOA e dedique-lhes atenção exclusiva. Diga mal dos portugueses, acusando-os de não pensarem como você e os seus adeptos e, portanto, serem passivos e ignorantes. Assim, vai elevar a auto-estima dos filiados no seu GOA, que se sentirão uma excepção no meio da carneirada e agradecer-lhe-ão o elogio através da fidelidade. De vez em quando, conte episódios da sua vida (“Oh GOA, o que eu passei para cá chegar”) para reforçar a identificação dos leitores consigo. A dada altura, terá também alguns detractores que irão ao seu poiso virtual de propósito para insultá-lo e provocá-lo. Isso será um óptimo sinal, confirmando o crescimento da sua notoriedade e permitindo-lhe observar os membros do seu GOA (que queridos) a desancar os intrusos.

 

Queixe-se de censura: Mesmo quando você já aparecer ao mesmo tempo na rádio, na imprensa, na televisão e nas redes sociais, insinue que alguém o quer calar por não gostar daquilo que diz. Ponha a correr o boato de que o local onde opina recebeu pressões “vindas de cima” para despedi-lo e substituí-lo por um lacaio do poder. Quando for criticado por adversários e eles cometerem o erro crasso de lamentar que alguém como você tenha uma tribuna pública, explore isso ao máximo, gritando que os seus oponentes acabam de assumir que querem a Inquisição, a guilhotina, o Gulag, o regresso da PIDE e da censura (após dezenas de comparações com o Estado Novo, até parecerá que você esteve preso no Tarrafal). Com tanto ruído e indignação, eles vão pensar duas vezes antes de voltarem a abrir a boca, enquanto você, que está obviamente do lado da tolerância, goza de plena liberdade para lhes dirigir os mais pesados insultos. A verdade, a justiça e o modo de vida português venceram.

 

Poder, sim ou não?: Estar sempre na oposição tem as suas vantagens. Desde logo, não existe o risco das suas propostas serem levadas à prática e revelarem-se um desastre. Se as coisas correm mal, a culpa nunca é sua, enquanto se correm bem pode dizer que foi uma tremenda sorte e mudar de assunto. No entanto, às vezes a sua minoria transforma-se em maioria e você é obrigado a defender quem está no poleiro. Contudo, na prática pouca coisa muda. Afinal, as pessoas que você atacava continuam a existir e mantêm o seu controlo total sobre os bancos, os jornais, as igrejas, as pastelarias e os ranchos folclóricos. Portanto, a culpa continua a ser dessas forças de bloqueio que impedem os governantes de trabalhar. Cada problema que surge é uma oportunidade de vitimização. Quando houver manifestações contra a sua tribo, você terá o prazer de ficar em casa a criticar e ridicularizar quem estiver na rua e receberá o aplauso da minoria silenciosa. Não há como perder.

 

Há muito, muito tempo, os comentadores eram poucos e limitavam-se a trocar opiniões de forma mais ou menos civilizada. Hoje em dia, qualquer pessoa, por mais frases absurdas que diga (ou precisamente por causa delas), pode ter imensos seguidores e ser venerado por estes como um herói da vida real. Aproveite enquanto dura, pois há cada vez mais gente a seguir este roteiro e o heroísmo começa a banalizar-se. Lembre-se de uma frase do filme The Incredibles: “Quando todos forem super-heróis, ninguém será”.