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Desumidificador

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Ao ritmo das redes

Durante a campanha para as eleições europeias de 2009, o Bloco de Esquerda distribuiu um folheto com o título “Facebloco” e um grafismo imitando o layout então utilizado pelo Facebook. Além de fotografias e supostos posts dos candidatos Miguel Portas, Marisa Matias e Rui Tavares, o folheto incluía secções como “Amigos”, “Causas”, “Agenda” ou uma lista de adversários “Bloqueados” por um BE que “está a mudar a Europa, a mudar Portugal”. Numa altura em que o Bloco se opunha a propostas de vigilância da Internet (“Tirem as patas dos nossos computadores”), o Facebook e as outras redes sociais (RS) eram ainda uma novidade usada por Cavaco Silva para parecer moderno e cujas consequências políticas permaneciam desconhecidas. Muito mudou desde então quer nas RS quer na política portuguesa, modificada pelos espaços virtuais em diferentes aspectos.

 

O ritmo: Tudo acelerou. Um dia noticioso passou a ser uma eternidade e qualquer reacção a um facto deve ser instantânea para não ficar automaticamente desactualizada. A pressão feita por sucessivos comentários escritos online em poucos minutos pode conferir a um tema da actualidade dimensões esmagadoras para os envolvidos. A discussão nos cafés gigantes da Internet torna o escândalo instantâneo e incontornável. Não há como fugir ao ruído e políticos como Marcelo Rebelo de Sousa, por mais que se anunciem distantes das RS, mantêm os ouvidos sempre atentos ao clamor destas. No entanto, a rapidez com que uma polémica cresce só é superada pela rapidez com que ela desaparece. Cada semana, cada dia, cada hora são espaços delimitados onde se vive de forma intensa e efémera. Este ritmo até pode parecer estimulante, mas na verdade faz lembrar o quotidiano de uma criança birrenta.

 

O conteúdo: Antes das RS, o discurso político guiava-se pela elevação, pelo rigor estilístico da oratória e pela análise aprofundada dos temas debatidos. OK, não era bem assim, mas o incentivo de plataformas como o Twitter e o Facebook à brevidade dos textos e à utilização de frases curtas e fortes, mais slogans e menos argumentos, contagiou a linguagem dos políticos, jornalistas e comentadores. Muitos deles acabaram, consciente ou inconscientemente, por adaptar o léxico aos gostos de quem faz “gosto” nos conteúdos que as figuras mediáticas produzem a pensar no nicho do qual depende a sua relevância pública. O resultado foi o predomínio de um português cada vez mais básico, inflamado e homogeneizado de acordo com aquilo que a plebe supostamente aprecia. Tentar superar essa fasquia constitui um sinal evidente do elitismo de quem usa palavras complicadas para enganar o povo.

 

Fake: Sim, a mentira sempre foi usada como arma política através de boatos e falsificações. Porém, a rapidez de difusão e o alcance planetário que a desinformação pode ganhar num meio como as RS dão uma dimensão completamente nova ao problema. Ora essa, quem seria ignorante ao ponto de acreditar em qualquer disparate publicado num site manhoso que lhe apareça no telemóvel? Bem, para além de nunca se dever subestimar o poder da estupidez, há que ter em conta que as fake news vão sempre de encontro àquilo que já pensamos. Se não gostarmos de um político, uma mentira sobre um suposto acto malévolo da sua autoria só acentuará as nossas convicções quanto a ele e aumentará o apoio aos seus adversários. Nem precisa de ser uma completa aldrabice: basta pegar numa informação, isolá-la das restantes e apresentá-la no ângulo certo para gerar a indignação pretendida. Como os factos não mentem (risos), o alvo será irremediavelmente desacreditado. Claro que o visado pode vir explicar, desmentir ou contextualizar e, pouco depois, o episódio em causa será esquecido como todos os outros (até um dia ser recuperado como se fosse novidade), mas a indignação fabricada perdurará para sempre no coração de quem a sentiu.

 

Admirável mundo novo: As RS trouxeram uma democratização da opinião publicada que transformou cada um de nós num comentador político, desportivo, económico, etc., enquanto a troca de dados e ideias atingiu dimensões nunca sonhadas. Nos suportes virtuais, foram alcançadas a liberdade, a igualdade e a fraternidade plenas, vividas num mundo em que podemos dizer tudo o que quisermos, a opinião dos leigos vale tanto quanto a dos especialistas e há sempre mais alguém que pensa como nós e gosta do que dizemos. É a distopia perfeita. Nela, qualquer discurso pode ser arrasado, qualquer informação contraditada, qualquer preconceito normalizado. O grande risco está na tendência para fazer esta lógica sair dos ecrãs e alastrar à política da vida real.

 

 

A fragmentação: O sucesso dos novos partidos seria impossível sem as RS, como o próprio André Ventura reconheceu ao destacar como elas permitiram ao Chega contornar as barreiras na comunicação social e difundir a sua mensagem em larga escala. As redes facilitaram também a aproximação de pessoas com opiniões semelhantes e a estruturação interna das novas formações políticas em núcleos diferentes do velho modelo de concelhias e distritais, além de proporcionarem meios de propaganda mais baratos que os tradicionais cartazes e panfletos. Após a entrada no Parlamento, bastou a IL e Chega disporem da atenção das câmaras da ARTV para criarem inúmeros vídeos partilhados online nos quais os seus líderes saem sempre vencedores dos duelos verbais com deputados de outros partidos. Enquanto estes não conseguiam descolar da antiga política feita para a televisão, os recém-chegados lançaram truques direccionados para as RS, como a apresentação de resultados de votações na Assembleia da República que, podados de explicações e contraditórios, mostravam como os adversários votavam sempre contra o bem e a justiça. Tudo isto contribuiu para uma maior fragmentação das preferências eleitorais e retirou dinamismo aos partidos oriundos de 1974. Sem avaliar aqui as virtudes e defeitos deste fenómeno, há que reconhecer que o efeito de bolha presente nas RS leva o discurso de cada partido a dirigir-se a um público muito específico e ideologicamente demarcado, com os líderes a recearem sempre perder a limitada base de fiéis de que ainda dispõem. Ao contrário dos tempos em que políticos de casacos respeitáveis como Paulo Portas detinham o monopólio da “gritaria”, agora pode sempre aparecer alguém que grite mais alto nas RS de modo a atrair para si as atenções e os eleitores.

 

O delay: Aprovação da Carta de Direitos Humanos na Era Digital, nomeação de Pedro Adão e Silva para dirigir as celebrações dos 50 anos do 25 de Abril, acidente de viação com o automóvel de Eduardo Cabrita. Logo que estes e outros eventos ocorreram, verificou-se um intenso escrutínio político e mediático em que os dirigentes da oposição apresentaram protestos espontâneos e com palavras da sua autoria, enquanto os jornalistas seguiam o instinto profissional e procuravam a verdade de forma objectiva. Foi isto que aconteceu? Claro que não. Só vários dias ou semanas depois dos acontecimentos, quando começaram a proliferar nas RS os rumores, as queixas e as acusações, foram repentinamente captadas pelos microfones apressadas proclamações do tipo “Ah, claro, é um escândalo, uma vergonha”. Não se trata de uma situação muito grave, mas faz bater as saudades. Lembram-se? Houve uma época em que os partidos eram relevantes ao ponto de influenciarem a agenda mediática, antes de entregarem esse poder a Rui Pinto e outros utilizadores do Twitter.