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As armas e o Tadeu

Panfletos, um programa de Rúben de Carvalho recriado por Pedro Tadeu”. Assim começa cada um dos episódios, com exatos sete minutos de duração, de uma rubrica emitida de segunda a sexta (com compacto semanal aos sábados) na Antena 1 e disponibilizada online no RTP Play. Num grupo do Facebook, Pedro Tadeu partilha os textos lidos nos vários programas, imagens das capas dos discos referidos e transcrições das letras dos temas radiodifundidos. Seguindo os passos de Rúben de Carvalho, que apresentou na Telefonia de Lisboa entre 1986 e 1988 um programa sobre música com conteúdo político, Tadeu produziu já mais de mil episódios de Panfletos na rádio pública, onde também sucedeu a Rúben nos debates com Jaime Nogueira Pinto em Radicais Livres. Antes de passar a canção (ou as duas canções) em torno da qual gira o episódio de cada dia, o jornalista descreve a mensagem do tema e o contexto musical e político que rodeou a criação deste. Os critérios de Tadeu na escolha do repertório obedecem frequentemente a determinados assuntos comuns a várias composições. Se em 2022, ano marcado pelo início da guerra na Ucrânia, Panfletos abordou principalmente canções pacifistas, o cinquentenário do 25 de Abril celebrado em 2024 levou o programa a centrar-se na “música de intervenção” portuguesa da década de 70. As mortes de personalidades como Joaquim Pessoa ou Fausto Bordalo Dias já motivaram Tadeu a alterar a planificação de modo a homenagear os autores desaparecidos.

Músicas politizadas de diferentes épocas e latitudes têm sido trazidas pelo antigo diretor do 24 Horas para a emissão da Antena 1 e do podcast que concentra o grosso dos ouvintes de Panfletos. Num notável esforço de divulgação, Pedro Tadeu contribui para enriquecer a cultura musical de quem o escuta e recupera temas por vezes difíceis de encontrar em formato digital ou analógico. Tratando-se Panfletos de um programa de autor, o seu conteúdo está longe de ser maquinal e assético, o que o torna ainda mais interessante, mesmo que não concordemos com as ideias de Tadeu acerca de música ou política. Por exemplo, Pedro é um assumido descendente dos críticos ligados ao PCP que, no final dos anos 70, acusavam Marco Paulo de alienar o povo com a sua música de mero entretenimento ou deploravam o caminho de José Cid por registos mais comerciais, em contraste com a ousadia e engajamento dos tempos do Quarteto 1111. Nas entrelinhas, deteta-se igualmente um certo pudor do colunista comunista em transmitir música de direita e extrema-direita. Seja como for, os artistas portugueses da época focada no programa até ao final deste ano dividiam-se geralmente pelas várias esquerdas, com Tadeu a identificar as diferenças entre os nomes do catálogo da editora Toma Lá Disco (ideologicamente solidária com o partido de Álvaro Cunhal) e músicos mais próximos do maoismo ou rotulados como independentes. Ao reproduzir valiosos documentos históricos do período revolucionário, Panfletos torna-se muito útil para jovens e investigadores desejosos de saber mais sobre o pós-25 de Abril.

 

Panfletos - RTP Play

 

Inerente a todo o projeto tadeísta está a ideia de que a cantiga é realmente uma arma, seja contra a burguesia ou outro alvo predefinido, abrindo às bandas e cantores relevantes possibilidades de intervenção social através da arte. A partir daqui, poderíamos debater temas como um eventual dever de preocupação cívica que se sobreporia (ou não) à liberdade criativa dos músicos, os públicos e linguagens dos “panfletos” sonoros feitos hoje em dia ou o papel da música na definição de identidades políticas. Essa é, contudo, uma discussão para outros espaços, alguns deles com o envolvimento de Pedro Tadeu, como a Feira do Livro e do Disco Políticos de Setúbal. Para já, Panfletos continua a levar-nos pela longa história da música que registou, de forma mais efémera ou mais durável, os problemas do seu tempo e as propostas transformadoras.

 

Faro e Marques vencerão

Deu muito que falar na Internet na passada semana uma polémica entre os humoristas Diogo Faro e Joana Marques. Várias afirmações de Faro no seu podcast Traidor de Classe foram reproduzidas em dois episódios de Extremamente Desagradável onde Marques apontou de forma hábil certas contradições do colega. Por exemplo, os inúmeros apelos deste a doações dos seus seguidores através do Patreon, justificadas pela necessidade do humorista de “pagar a renda”, em contraste com as referências de Faro a um quotidiano marcado por viagens e por uma vida boémia fora do alcance da “classe operária” alegadamente defendida pelo morador de Alvalade. Diogo Faro relacionou as suas ideias anticapitalistas com o facto de não receber prémios nem dar a cara por empresas, tese desmontada por Marques com exemplos de personalidades assumidamente de esquerda com sucesso mediático e publicitário e através da citação de frases nas quais Faro transmite uma imagem de desleixo na preparação dos seus conteúdos digitais. Após serem disponibilizados no You Tube, os dois episódios alcançaram números de comentários e visualizações superiores ao habitual na rubrica da Rádio Renascença. Muitos dos comentários feitos por indivíduos nos antípodas políticos de Faro destacaram-se pela sua agressividade contra o humorista. Após vários dias de silêncio, Diogo reapareceu com um vídeo no Instagram sobre “tudo aquilo”. Apesar de admitir ser por vezes incoerente, Faro reafirmou as suas ideias e deixou farpas a Joana Marques, ligada a marcas polémicas como o McDonald’s e a Igreja Católica e cujas sátiras a figuras desconhecidas surgidas em podcasts que “ninguém ouve” representariam uma dolorosa “humilhação coletiva” dessas pessoas perante todo o país.

De facto, o nível de aversão a Diogo Faro exibido pelos críticos do autor do livro Somos Todos Idiotas é “bizarro” pela sua dureza no combate a alguém que simplesmente manifesta as suas opiniões, goste-se ou não delas. No entanto, a resposta de Diogo ao espelho deformado que Joana Marques colocou em frente do seu rosto apresenta novas contradições. Para Faro, o discurso que faz contra os “ricos” não é de ódio, uma vez que não inclui apelos à violência. Todavia, os momentos radiofónicos nos quais Marques sujeita os seus alvos ao humor constituiriam irresponsáveis atentados à saúde mental dos visados menos célebres. Esta crítica implica uma defesa de limites àquilo com que se pode brincar cujo tom paternalista soa estranho num profissional do humor. Creio que o problema de Faro assemelha-se ao de outras figuras dissecadas em Extremamente Desagradável: levar-se demasiado a sério e justificar as ações mais irrelevantes com os objetivos mais puros, banhados numa nobreza que impossibilitaria a crítica a quem os proclama. Calma, jovem Diogo. Ao fim e ao cabo, isto não é propriamente a guerra no Médio Oriente. Faro continua a ser Faro, Marques continua a ser Marques, os dois fazem o seu trabalho, quem gostar gosta, quem não gostar não gosta e avante, camaradas.

 

Diogo Faro e Joana Marques

Curioso Chega

A Chega TV, o canal do You Tube que transmite discursos parlamentares, intervenções na televisão e outros conteúdos do partido de André Ventura, lançou a série Diz-me Quem És. Neste formato, composto por vídeos de menos de 3 minutos filmados na Assembleia da República, cada um dos 50 deputados do Chega apresenta-se aos espetadores seguindo um modelo predefinido. Assim, os parlamentares expõem sucintamente o seu currículo político e profissional, as razões da adesão ao Chega, os valores que consideram mais importantes e, a terminar, uma “curiosidade” desconhecida do público. A referência a elementos da vida pessoal enquadra-se na tendência geral de humanização dos políticos, exibidos como portugueses comuns com gostos, hábitos, sentimentos ou preocupações semelhantes aos dos eleitores, que tenderiam assim a identificarem-se mais com quem pretende representá-los. Em Diz-me Quem És, o Chega contraria o anonimato da maioria da sua bancada, subjugada ao protagonismo de Ventura, e abre a porta da intimidade dos seus deputados. Bom, não exatamente uma porta, mas uma janela. Um postigo, vá. A lista das “curiosidades” dos 16 parlamentares cheguistas já retratados mostra, para lá da reserva do misterioso Rodrigo Taxa, uma opção generalizada por trivialidades inofensivas.

 

Barreira Soares: É um ferrenho benfiquista.

Daniel Teixeira: É filho de atletas campeões nacionais nas suas modalidades.

Jorge Galveias: A sua empresa produziu o primeiro programa a cores exibido na RTP.

José de Carvalho: Cria pássaros e é um “amante dos animais”.

Manuela Tender: Gosta muito de viajar e adora trabalhar.

Marcus Santos: É um comilão.

Nuno Gabriel: Pratica meditação.

Nuno Simões de Melo: Foi candidato à Associação de Estudantes da Escola Secundária de Águeda.

Patrícia de Carvalho: Tem em casa mais de 400 livros e um cão chamado Amendoim.

Pedro Pinto: Está sempre a sorrir.

 

Pedro Pinto, líder da bancada do Chega, no “Sofá do Parlamento”: “Quando  veem os nossos deputados os outros fogem um bocadinho” – Observador

 

Pedro dos Santos Frazão: Quando abre um pacote de bolachas ou chocolates, come-o até ao fim.

Raul Melo: Produz licores caseiros.

Rita Matias: Fez parte de uma banda e tatuou uma cruz no braço esquerdo.

Rodrigo Alves Taxa: “Quem quiser vai ter que descobrir”.

Sónia Monteiro: Adora ler romances.

Vanessa Barata: Toca guitarra desde os 10 anos e não dispensa “uma boa partida de xadrez”.

 

RTP Memória: 20 anos

Alf: Continua divertido, apesar do declínio à medida que se aproxima do final.

Um Anjo na Terra (Highway to Heaven): O excesso de moralismo compromete o potencial da ideia de ter Deus como patrão. Curiosamente, a certa altura Michael Landon fez a série dar alguns passos nos terrenos da política.

Os Anjos de Charlie (Charlie’s Angels): Uma fantasia masculina disfarçada de “empoderamento” das mulheres, tão ligeira que se torna intragável.

O Barco do Amor (The Love Boat): Um mundo alternativo onde tudo é fofinho (quem nunca desejou ir para lá?). O navio acolheu um longo desfile de atores que eram ou viriam a ser estrelas do cinema e da televisão.

Chefe, Mas Pouco (Who’s The Boss?): Possui algum interesse, se o espetador tiver paciência suficiente para ver Tony e Angela a não namorarem até à última temporada.

Conta-me como Foi: Não há nada de propriamente errado com esta série, mas ela está impregnada de uma candura que dificulta a nossa identificação com as personagens.

Dallas: Já foi aqui abordada num texto próprio. Acrescente-se que o último episódio é só para fãs hardcore, mas quem mais ainda veria a série após 14 temporadas?

Duarte e Companhia: Por mais papéis que faça, para mim Rui Mendes será sempre Duarte, apesar de eu nem ser um dos maiores fãs do misto de nonsense e desenrascanço da série de Rogério Ceitil.

Uma Família às Direitas (All in The Family): Muitos americanos riam-se de Archie Bunker, a melhor personagem da história das sitcoms, mas muitos outros partilhavam o desconforto de Bunker com as mudanças em curso nos anos 70.

Hermanias: Um formato suficientemente solto e desregulado para poder ser tudo ou nada. Com os textos de Herman José e Miguel Esteves Cardoso, acompanhados por uma dose saudável de loucura e 12 canções (“todas boas”) escritas por Carlos Paião, foi tudo.

 

Herman José - Hermanias Completo (1984) - YouTube

 

Os Homens da Segurança: O trabalho de Nicolau Breyner como ator e realizador é um dos escassos aspetos valiosos de uma série feita quando o monopólio da RTP garantia todo o tempo do mundo.

Humor de Perdição: Episódios demasiado longos, algumas personagens a mais e canções do Estebes sem grande “energia”. Apesar disto tudo, é Herman vintage.

O Justiceiro (Knight Rider): O KITT é tão fixe que lhe perdoamos por transportar o canastrão do David Hasselhoff.

MacGyver: Sim, o “estrangeiro” onde muitas das aventuras do nosso herói acontecem parece-se sempre com a América do Norte. Mas, porra, é o MacGyver.

Norte e Sul (North and South): Um épico histórico sobre a Guerra da Secessão daqueles que já não se fazem. A cena que justifica a ausência de Patrick Swayze na (dispensável) última temporada é um dos maiores insultos de sempre à inteligência do espetador.

Polícias: Trata-se de uma das poucas séries de Francisco Moita Flores que resistiram à passagem do tempo.

Sheiks com Cobertura: Um programa na transição do preto e branco para a cor que combinou sketches escritos por Artur Semedo com a música dos Sheiks e de vários convidados. Vale sobretudo como curiosidade histórica.

Soldados da Fortuna (The A-Team): Enfim, não é Shakespeare, mas entretém.

Os Três Duques (The Dukes of Hazzard): Quem vê um episódio, vê todos. Para gostar desta série como o primeiro-ministro gosta, é preciso adorar automóveis e cenas de perseguições.

Walker, o Ranger do Texas (Walker, Texas Ranger): Centenas de pontapés dados por Chuck Norris em bandidos geralmente idiotas.