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Aí vamos nós outra vez (7)

38) Na SIC, José Miguel Júdice disse que, como ele bem tinha prevenido, o comentariado e o “jornalistariado” (?) tinham criado com o caso Spinumviva uma história sem qualquer interesse que nada dizia ao português comum. E então ficou percetível que as pessoas que se queixaram da qualidade reduzida da política e do jornalismo durante a campanha ainda não viram nada. Descer o nível para agradar ao “povo” vai ser a orientação não escrita dos próximos tempos. “Porque faz essas perguntas feias ao senhor ministro?”, “Alguns dos pais dos miúdos não vão gostar”, “Isso é muito woke”, “Não vende, ninguém quer saber disso”, “És capaz de ter chatices”, “Não é isso que as pessoas na rua dizem”, “Que mentalidade de privilegiado” e outras frases semelhantes serão ouvidas frequentemente pelo país fora. Não sou ninguém para dar conselhos à esquerda, mas pediria que nos anos vindouros fizesse como James Cameron num episódio de South Park, ou seja, descesse num submarino às profundezas do oceano, encontrasse o nível e conseguisse içá-lo até à superfície, fazendo de repente toda a gente agir de forma menos estúpida. Ser exigente vai muitas vezes ser impopular.

 

39) Tal como no futebol, os líderes políticos são avaliados pelos resultados. Como a jogada arriscada da moção de confiança resultou, Luís Montenegro continua a trabalhar no mesmo clube, embora a qualidade das exibições da AD não impressione a crítica. Quanto a Pedro Nuno Santos, não faltam opiniões sobre as táticas que poderia ter seguido, com mais ataques pela esquerda ou uma melhor ocupação do centro do terreno. Na verdade, Pedro Nuno, o homem certo na época errada, dificilmente poderia ter agido de forma muito diferente. Os números de 2025 revelam o acentuar de tendências visíveis já em 2024 ou mesmo antes e que por vezes parecem desenvolver-se sem qualquer ligação com o dia-a-dia da política. Quando em dois anos metade dos deputados do PS se desintegram, a causa não pode estar apenas numa frase infeliz ou num gesto irrefletido.

 

40) Há que realçar que, em todas as eleições legislativas, Inês Sousa Real vê a sua sobrevivência política em risco, parece estar cercada e à beira do fim… e, qual MacGyver, consegue sempre desenrascar-se e escapar sã e salva do perigo. Já abundam, no entanto, as provas de que o resultado de 2019 foi a exceção e não a regra, pelo que o PAN nasceu mesmo para ser um partido de nicho.

 

41) Na periferia de Lisboa, o equilíbrio entre AD, PS e Chega criou uma situação algo confusa, com as vitórias concelhias de cada um dos três a serem obtidas por curta margem e apesar do domínio de várias freguesias pelos adversários. Por exemplo, em Sintra, o concelho natal de André Ventura (originário da freguesia de Algueirão – Mem Martins, onde o Chega foi a força mais votada), os cheguistas triunfaram com uma vantagem de apenas 1,29%, ou cerca de 2600 votos, sobre a AD. Já em Odivelas, a coligação governamental alcançou a nível concelhio mais 201 votos que o PS e mais 1111 que o Chega, mas, ao nível das quatro freguesias, os socialistas ficaram em primeiro na sede do município (com mais 14 cruzes que a AD) e na união de Póvoa de Santo Adrião e Olival Basto, enquanto a AD venceu em Ramada e Caneças e o Chega dominou a área simbólica de Pontinha e Famões. Esta tripolarização não se traduziu no conjunto do distrito lisboeta, marcado pela vitória clara da AD, graças a concelhos como Oeiras, Cascais e a própria Lisboa, na qual a união de PSD e CDS obteve 31,65%, contra 23,30% do PS e apenas 14,53% do Chega, enquanto Livre e Iniciativa Liberal alcançaram na cidade das sete colinas resultados superiores à média nacional. Nas freguesias lisboetas mais betizadas, digo, com habitantes de maiores recursos e qualificações académicas, como Lumiar, Alvalade, Avenidas Novas ou Parque das Nações, AD e IL alcançaram, em conjunto, maiorias absolutíssimas. Na verdade, o principal obstáculo que ainda permanece entre Ventura e o poder está na fidelidade ao PSD do eleitorado tradicional da direita no Norte do país e na capital. André, contudo, sorri, certo de que o mais difícil está feito e a pouco e pouco esse problema será resolvido.

 

42) Arroios é uma singular freguesia lisboeta, nem particularmente rica nem particularmente pobre e caracterizada pela multiculturalidade e pela convivência de gente muito diferente. Essa especificidade ajuda a compreender os invulgares resultados eleitorais obtidos no território arroiense por AD (27,55%), PS (22,41%), Livre (14,46%), Chega (11,10%), Iniciativa Liberal (8,68%), CDU (5,36%), BE (5,09%), PAN (1,88%) e ADN (0,90%). No conjunto, esquerda e direita surgem praticamente empatadas.

 

43) Escolhemos destacar o jovem odivelense Ricardo Reis, um dos novos deputados do Chega, como um símbolo destes tempos em que tanta gente sente correr uma aragem de ar fresco após décadas de sofrimento no regime democrático. Ricardo Lopes Reis praticou futsal no Clube Atlético das Patameiras, cresceu e estudou em Odivelas e licenciou-se em Ciência Política. Ao longo da sua formação, desenvolveu um discurso de teor nacionalista, expresso nas redes sociais juntamente com queixas pela mágoa de ver nas ruas da cidade de D. Dinis tantas pessoas que não são europeias nem cristãs. Nas autárquicas de 2021, Ricardo Reis foi eleito deputado municipal, começando mais tarde a exercer as funções de assessor do grupo parlamentar do Chega na Assembleia da República, além de publicar regularmente artigos de opinião como “convidado” do Observador. Já em outubro de 2024, Ricardo tornou-se famoso devido a um tweet no qual celebrava a morte de Odair Moniz. A polémica levou-o a apagar as palavras e a passar a viver discretamente, exilando-se das redes sociais durante um mês. Depois desse pequeno percalço, Reis prosseguiu a sua ascensão dentro da Juventude Chega, onde formou com Rui Cardoso e José Shirley uma troika unida na missão de incutir nos jovens lusos o amor a André Ventura. Em 2025, além de encabeçar a lista cheguista à Assembleia Municipal odivelense, Ricardo Reis foi em maio um dos candidatos do partido pelo círculo de Setúbal, no qual o aumento da votação no Chega resultou na eleição de Reis, representante dos sadinos durante a legislatura que agora se inicia. Ricardo será decerto um digno continuador do legado de deputados com ligações ao município de Odivelas como Manuel Varges, Vítor Peixoto, Susana Amador, Miguel Cabrita ou Sandra Pereira.

 

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(Fonte da imagem: Ricardo Reis)

 

 

Aí vamos nós outra vez (6)

32) Não tenho qualquer simpatia pelo ADN, mas a insistência da tracking poll da Pitagórica, publicada diariamente por TVI, CNN Portugal e Jornal de Notícias, em arrumar as intenções de voto no partido de Joana Amaral Dias na gaveta dos “Outros” já roça o absurdo. Ainda para mais, sondagens anteriores da mesma empresa nas quais a Alternativa Democrática Nacional ultrapassava ligeiramente o PAN foram divulgadas de uma forma em que só olhando os resultados com muita atenção se detetava a presença do ADN. A tracking poll atribui aos “Outros” mais de 6% dos eleitores, com o rótulo generalista a impedir que se discirna qual é o impacto nessa percentagem invulgarmente alta de apoio aos partidos extra-parlamentares quer do ADN quer do JPP, força cobiçosa da eleição de um deputado pela sua Madeira. O habitual ceticismo de comentadores e empresas de sondagens quanto à chegada de novas forças partidárias ao Parlamento resultará de falta de sensibilidade política ou de memórias desagradáveis de apostas em cavalos errados como o PDR (2015) ou a Aliança (2019)? Entretanto, verificamos que a misteriosa coluna com mais de 6%, designada no Jornal Nacional como “Outros” e relacionada expressamente pelos pivots com os partidos extra-parlamentares, surge no site da CNN com a legenda “NS/NR”. A confusão adensa-se.

 

33) Os candidatos dos diferentes partidos têm falado ou feito posts acerca das suas preferências pessoais nas áreas mais diversas, desde a música à comida. No entanto, salvo erro, nenhum abordou os seus gostos na área da banda desenhada. Tendo em conta que é pública a aversão de André Ventura à BD e ao cinema de animação, sentida pelo presidente do Chega desde a infância, seria interessante saber como se relacionam os outros líderes partidários com a 9.ª Arte. Liam revistas compradas na papelaria quando eram miúdos? Afastaram-se da BD ao crescerem ou ainda hoje consomem narrativas gráficas? Gostam de manga, super-heróis, dramas realistas ou autobiografias? Aprenderam a História portuguesa com livros de José Ruy e José Garcês? Costumam ir ao Amadora BD e a outros festivais? Que álbum do Tintim preferem? Ignora-se se este inquérito à bedefilia dos políticos alteraria o sentido de voto de algum eleitor, mas pelo menos responderia à curiosidade da comunidade de leitura formada em torno da loja lisboeta Kingpin Books.

 

34) Já atingimos aquela fase da campanha em que pretendemos apenas avançar até ao dia da votação. Todos os argumentos já foram usados, os cenários foram imaginados, as bandeiras agitadas, as atitudes “muita jovens” tomadas pelos fundadores do Bloco. Se alguém ainda não decidiu em quem votar, ou não leva isto muito a sério ou possui algum problema existencial para lá da política. Vamos logo com isso, queremos pegar nos cartões e nas canetas. Votar, esse ato tão simples e igualitário que dá relevância a todos nós ao menos por um dia. Milhões de peças formarão um puzzle que, teoricamente, representará o sentir dos portugueses neste momento histórico. No entanto, quando ele estiver montado na totalidade na grande sala da Assembleia da República, poderemos ver uma soma de desenhos aparentemente desconexos: cangurus ao lado de frigoríficos num descampado, oliveiras a darem abacates, casas com dez andares e sem telhado, morcegos e borboletas a voarem em conjunto… Que fazer? É o nosso povo soberano.

 

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(Fonte da imagem: José Pedro Reis)

 

35) Muitos candidatos em desvantagem nas sondagens desvalorizam-nas dizendo que a verdadeira sondagem é a “da rua” e eles têm recebido durante as arruadas imenso apoio dos transeuntes, numa onda de afeto cuja dimensão lhes dá esperança num bom resultado eleitoral. É sempre questionável até que ponto os chamados “contactos com a população” constituem um barómetro fiável da aprovação obtida pelos candidatos. O problema nem está propriamente no facto de se tratar de políticos. Certa vez, Herman José afirmou que as pessoas na rua são extremamente cobardes quando encontram uma celebridade e cobrem-na logo de elogios, seja qual for a sua área de trabalho. Nas arruadas e visitas ao comércio, um ambiente que pressupõe desde logo um certo nível de artificialidade, as manifestações abertas de hostilidade aos candidatos são raras ao ponto de se tornarem notícia, como no caso dos insultos dirigidos por ciganos aos membros do Chega. Acerca das arruadas em si mesmas, a sua imagem depende do meio onde são retratadas. Na televisão, o mais importante para os partidos é transmitir a impressão de uma imensa participação popular, com uma multidão bíblica a rodear o futuro líder do país. Nas redes sociais, mesmo que apenas se vejam meia dúzia de bandeiras, em todo o lado se deve passar uma ideia de alegria, dinamismo e entusiasmo. Quanto ao que acontece na vida real, pouco posso esclarecer. A única vez em que me cruzei com um político em campanha foi quando Rui Tavares resolveu distribuir os folhetos do Livre que lhe restavam à porta da nossa querida FCSH.

 

36) É curioso pensar agora nas eleições de que se falava tanto até entrarem em hibernação durante o parênteses aberto por Luís Montenegro. No caso das autárquicas, faltam pouco mais de quatro meses e ainda muito permanece em aberto. Em Odivelas, por exemplo, apenas se conhecem os candidatos à presidência da Câmara da CDU (Florentino Serranheira), do Chega (Fernando Pedroso) e, ainda não oficialmente, da AD (Marco Pina). Grande parte da campanha será feita durante o Verão, estação na qual, como se sabe, os eleitores ainda saturados das legislativas estarão particularmente recetivos às novas abordagens políticas. Quanto às presidenciais, Marques Mendes procura corrigir o seu arranque precoce divulgando nas redes as suas visitas a diversas entidades e os apoios recebidos de figuras públicas como Alice Vieira, Carlos Cunha, António Sala e Miguel Esteves Cardoso (sim, o MEC). Henrique Gouveia e Melo, por sua vez, evitou por curta margem que o lançamento oficial da sua candidatura coincidisse com o 99.º aniversário do 28 de Maio e anunciou que será um Presidente “muito diferente” de Marcelo Rebelo de Sousa. António José Seguro espera ansiosamente o OK do Rato para avançar, mas ainda precisa de saber quem liderará os socialistas no resto de 2025, enquanto António Vitorino pondera, como sempre. Em resumo, a nível autárquico ou presidencial, aguarda-se que a nova composição da Assembleia da República defina o cenário político no qual os diferentes atores vão representar após receberem a deixa para entrarem em palco.

 

37) Trazer a família para a campanha eleitoral não costuma dar bom resultado. Em 2015, por exemplo, perante as declarações de Pedro Passos Coelho, citadas no livro Somos o que Escolhemos Ser, acerca da doença oncológica que vitimaria anos mais tarde a sua mulher, Laura Ferreira, António Costa deu maior visibilidade na campanha do PS a Fernanda Tadeu, numa manobra nitidamente forçada que não serviu de nada. Já em 2019, Assunção Cristas exibiu o marido e os filhos nas redes sociais e na obra Confiança, sem vantagens para o CDS. Hoje em dia, pouco ou nada sabemos sobre as esposas de Rui Tavares, André Ventura, Paulo Raimundo ou Mariana Mortágua. No entanto, Carla Montenegro, antiga dona da Spinumviva, tem sido uma presença habitual ao lado de Luís durante esta campanha, acompanhando-o em numerosas arruadas, comícios e concertos de Tony Carreira. A espinhense não tem, contudo, prestado declarações aos jornalistas, o que talvez seja uma perda. Gostaríamos de saber quem é afinal Carla e o que pensa disto tudo, tendo em conta as especulações que a apontam como o “cérebro” do casal à frente da AD e a principal orientadora da campanha. Quem sabe obtenhamos mais informação nas eleições legislativas de 2026.

 

 

Aí vamos nós outra vez (5)

25) É curioso que Cavaco Silva afirme ter procedido a uma “análise cuidada” dos programas e candidatos dos vários partidos antes de chegar à conclusão de que a AD e Luís Montenegro são as melhores opções. Sabemos bem que, caso um economista como Cavaco terminasse o estudo concluindo que a sua colega Mariana Mortágua, líder do Bloco de Esquerda, tinha “qualidades claramente superiores em matéria de competência técnica e política, em matéria de capacidade de liderança do Governo e de defesa dos interesses portugueses na União Europeia”, não deixaria de anunciar esse facto ao país e talvez gravar um vídeo de apoio para o Bloco publicar no Tik Tok.

 

26) Marcelo Rebelo de Sousa quebrou o silêncio sobre o apagão quando se encontrava na Pontinha. A fazer o quê? Apesar da peça da RTP sobre o tema mostrar Marcelo a descerrar uma placa, a observar vários documentos em exposição ou a dar autógrafos a um grupo de crianças, o áudio da reportagem não fornece qualquer informação acerca daquilo que o levou ao palco das suas declarações de 2 de maio. É preciso consultar as páginas nas redes sociais dos autarcas odivelenses para descobrir que o chefe de Estado veio ao Quartel da Pontinha assinalar a requalificação do Núcleo Museológico do Posto de Comando do MFA (coisa irrelevante, de facto). É certo que as antigas e sonolentas peças do tipo “Político inaugura obra” já não se usam, mas as televisões focam-se apenas nas reações dos entrevistados ao caso do dia e raramente esclarecem onde eles estão e para que fim. A cobertura das campanhas eleitorais torna-se uma sucessão de cabeças falantes que se prolonga enquanto as pessoas e o cenário atrás dos líderes partidários vão mudando sem ninguém sequer notar. Se é para isto, os candidatos poderiam ficar em casa e limitarem-se a intervir diariamente por videochamada.

 

27) Através do acórdão n.º 97/2025, de 4 de fevereiro de 2025, o Tribunal Constitucional decretou a extinção do partido Aliança, na sequência de uma ação intentada pelo Ministério Público devido à não apresentação das contas da Aliança durante três anos consecutivos. Desapareceu assim, de forma discreta, a formação partidária com a qual Pedro Santana Lopes pretendia em 2018 abanar o sistema. Na verdade, a Aliança nasceu afetada por uma contradição: que eleitor desejoso de mudança votaria em Santana Lopes, o político mais “do sistema” (à exceção de Marques Mendes) de Portugal? Apesar do congresso fundador da Aliança, em fevereiro de 2019, ter sido acompanhado em direto pelos canais noticiosos, Santana queixar-se-ia ao longo desse ano de não receber a atenção mediática que merecia. Na verdade, a Aliança, o partido com três hinos, era uma espécie de PSD B que parecia viver numa época longínqua em termos de comunicação, reagindo às notícias com longos comunicados publicados no Facebook. Depois dos aliancistas não elegerem qualquer deputado nas legislativas de 2019, Santana compreendeu que seria impossível concretizar a sua ideia de promover em Odivelas uma espécie de Festa do Avante da direita. O primeiro líder sairia do partido em janeiro de 2021, sucedendo-lhe Paulo Bento e, mais tarde, Jorge Nuno Sá, com o qual a Aliança passaria dos cerca de 40 500 votos de 2019 para os 2693 das legislativas de 2022. Por essa altura, a Aliança parecia tornar-se um partido “barriga de aluguer” semelhante ao Nós, Cidadãos, tendo passado por lá figuras como Ossanda Liber. No início de 2024, MPT e Aliança formaram a coligação Alternativa 21, encabeçada por Nuno Afonso, ex-amigo de André Ventura e antigo vice-presidente do Chega, mas o “produto tipo Chega” vendido por Afonso não teve sucesso. Um cartaz com o rosto de Nuno Afonso e a frase “Vamos Limpar a Direita Bacoca” foi então colocado na praça lisboeta do Saldanha… e continua lá, mais de um ano depois. A Aliança esfumou-se e o MPT aproximou-se da AD, mas tem de haver alguém que a Câmara de Lisboa possa obrigar a remover aquele trambolho.

 

28) O Partido Liberal Social, com listas de candidatos apresentadas nos círculos de Lisboa, Porto, Setúbal, Europa e Fora da Europa, divulgou no seu programa eleitoral algumas das medidas concretas que defende. Inevitavelmente, a tendência do (e)leitor é procurar as diferenças entre o PLS e a Iniciativa Liberal, visíveis nos países apontados como exemplos a seguir por Portugal: enquanto a IL elogiou inúmeras vezes a Irlanda e os países da Europa de Leste, os liberais sociais destacam sobretudo a Estónia, a Dinamarca e os Países Baixos. Também não se encontram no discurso do PLS referências constantes ao crescimento económico, a privatizações e à baixa de impostos, embora o partido acredite que a reorganização e descentralização da Administração Pública permitiriam reduzir a tributação. O “S” da sigla impele o PLS a afirmar que “ser liberal não significa abdicar do social” e o crescimento das despesas sociais não conduz necessariamente a uma expansão descontrolada do Estado. A digitalização é fundamental para os membros do PLS, que pretendem aplicá-la a todos os setores públicos, além de recorrerem a uma app para comunicarem entre si. Não cabe aqui enumerar as “12 Ideias para Mudar Portugal” dos liberais sociais, como o voto eletrónico, mas verifica-se uma aparente contradição. Apesar do modelo educativo do PLS atribuir “Autonomia Curricular e de Gestão” às escolas, os “agentes de mudança” comandados por José Cardoso querem incutir nos alunos características como “o espírito empreendedor, a capacidade de inovação e a responsabilidade social”, dar-lhes “literacia política”, treiná-los para o “pensamento crítico”, obrigá-los a estudar “Educação Ecológica” e divulgar “a literacia digital, a programação, a robótica, a inteligência artificial e a sustentabilidade” nos vários níveis de ensino. De facto, o PLS acredita no indivíduo, em particular no indivíduo formado pela Escola Liberal Social Avançada (ELSA).

 

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(Fonte da imagem: Luís Montenegro)

 

29) Encontra-se disponível uma versão instrumental do hino de campanha do PS, “O Futuro É Já”, cujos autores são desconhecidos. Curiosamente, a canção fica bem melhor sem a letra, repleta de clichés e que parece gozar consigo própria (“Com o PS p’ra mudar, ah, ah”). Poderíamos extrapolar dizendo que os melhores líderes políticos são precisamente aqueles que fornecem o ritmo mas deixam os cidadãos escrever o seu próprio caminho. No entanto, isso seria talvez uma conclusão demasiado forçada.

 

30) Três candidatas com o apelido Salazar concorrem a estas eleições legislativas, mas nenhuma delas o faz apresentando-se nas listas do Chega ou do Ergue-te. Os eleitores poderão votar em Paula Colaço Salazar (PLS, Lisboa), Daniela Andreia Viola Ferreira Salazar (Livre, Évora) e Cláudia Sofia Andrade Salazar (PS, Porto).

 

31) Não é fácil para os partidos mais pequenos completar as listas aos círculos que elegem mais deputados, nomeadamente Lisboa e Porto, pelo que se torna comum o recurso a amigos e familiares das principais figuras dessas organizações para preencher as vagas em falta. No caso do PPM, porém, é demasiado nítido que os Bragança não são a única família relevante para os monárquicos. Os candidatos do partido pelo distrito do Porto incluem, além do cabeça de lista, António João Fontes Maia, mais três Maias. Outro clã importante no rol são os Stone, representados por Diego Schutz Stone e Graça de Odete Pimentel Vieira Stone. Há ainda cinco Amorins, quatro Emílios e três Domingos (Gregório, Maria João e Gregory Domingos), enquanto os Ferreira da Silva fornecem três candidatos. Já em Lisboa, surgem na lista do PPM cinco pessoas com os apelidos Câmara Pereira (há mais uma na lista de Beja e outra em Évora), mas famílias como os Abraços Estêvão (Susana, Sandra, Maria de Guadalupe, Amândio, José Maria e Fernando), os Pato (Maria Alexandra, Gabriel e Maria de Lurdes) ou os Muñoz (duas Marias do Carmo, Maria Leonor e Diogo) também estão presentes em força. Ninguém melhor que o PPM para dizer: “Mais do que um partido, somos uma grande família”.

 

Aí vamos nós outra vez (4)

20) Num aparente crescendo de otimismo, o Chega faz campanha afirmando avançar “rumo à vitória” (reutiliza-se assim o título de um livro de Álvaro Cunhal escrito em 1964) e apresentando André Ventura como candidato a primeiro-ministro. Obviamente que a hipótese do partido de extrema-direita atingir o primeiro lugar em 18 de maio é muito improvável… mas não impossível. Repare-se que as sondagens mais recentes estimam o eleitorado do Chega em cerca de 20%, valor impensável há apenas três anos, e consideram verosímil uma vitória cheguista nos círculos de Lisboa e Setúbal. Claro que apenas se as coisas corressem muito bem a André Ventura e muito mal a Luís Montenegro e Pedro Nuno Santos seria admissível que a contagem dos votos apurasse, por exemplo, 24,8% para o Chega, 24,4% para a AD e 23,9% destinados ao PS. Mesmo se, por caprichos do método de Hondt, o PSD formasse um grupo parlamentar com mais deputados que o do Chega, uma votação superior deste permitiria a Ventura proclamar-se primeiro-ministro eleito, colocando Marcelo Rebelo de Sousa numa situação embaraçosa. Viabilizaria o PSD um Governo liderado pelo seu antigo militante? Na verdade, um cenário deste tipo assemelhar-se-ia a um apagão que interrompesse as comunicações e o fornecimento de eletricidade em todo o país: poderíamos imaginá-lo de forma teórica, mas só na prática se conheceriam as suas consequências.

 

21) Na terça-feira que se seguiu ao Dia do Apagão, enquanto as reações online se dividiam entre a malta do caos e a malta da festa, tornava-se nítido que o blackout não deverá ajudar nem prejudicar a AD nas eleições legislativas, até porque o retomar em cerca de 10 horas do abastecimento de eletricidade não era considerado um feito do Governo. A tradicional unidade nacional em torno dos líderes verificada num cenário de calamidade poderia ter dado a Luís Montenegro uma imagem de estadista, reforçando-o politicamente à semelhança de António Costa em 2020, no início da pandemia. De resto, o Governo pouco mais poderia fazer durante a crise do que aquilo que fez, ou seja, manter-se em reunião permanente enquanto monitorizava a situação no país. Haveriam decerto, porém, alternativas à centralização da comunicação, ligada à habitual preocupação de Montenegro em ser o único a falar. Pensando bem, depois de ouvirmos Manuel Castro Almeida narrar com orgulho o plano governamental para abastecer a Maternidade Alfredo da Costa através de jerricans de gasolina, compreendemos melhor o desejo do primeiro-ministro de protagonismo exclusivo.

 

22) Interrogado por uma jornalista da RTP sobre a ausência de um comunicado relativo ao apagão por parte da ministra da Administração Interna, Castro Almeida perguntou porque deveria existir tal mensagem. Chegou, realmente, o momento de dizer a verdade: a ministra da Administração Interna não existe. Trata-se de uma lenda sem qualquer fundamento histórico. A sério, alguém acredita que há mesmo uma pessoa de carne e osso chamada Margarida Blasco? As poucas imagens dela disponíveis foram claramente produzidas por Inteligência Artificial. Mitos deste tipo são importantes na definição da identidade nacional, mas a dada altura os historiadores não podem tolerar mais a difusão de narrativas fantasiosas aceites pelo povo como se fossem verídicas. Margarida Blasco é o nada que é nada.

 

23) No seu julgamento político a propósito do caso Spinumviva, Luís Montenegro tem usado como trunfo a inexistência de uma arma fumegante, ou seja, de uma decisão do primeiro-ministro que possa ser apontada como um favor feito ao grupo Solverde ou a qualquer outro dos seus clientes. Durante a sessão realizada em Carcavelos, Pedro Nuno Santos surpreendeu ao pegar num lenço para manusear uma pistola na qual, segundo ele, Montenegro deixara as impressões digitais da sua inação, suficiente para garantir à Solverde a manutenção da concessão estatal do jogo. Foi um gesto arrojado que, apesar de gerar um “ah!” na plateia, revelou-se insuficiente por si só para obter a condenação do réu, o qual afirmou estar a ver o revólver em causa pela primeira vez. No fim de contas, trata-se de um julgamento com jurados portugueses onde, à falta de provas inequívocas de ilícitos, o veredito depende da opinião do júri sobre aquilo que é mais verosímil à luz do senso comum. Os atos provados em tribunal e admitidos a pouco e pouco pelo arguido foram, como a defesa afirma, normais, inocentes e católicos? Ou a acusação, ao destacar os vários comportamentos suspeitos do réu, construiu um caso suficientemente forte para obter uma vitória? Enquanto os jurados não votam para chegarem a uma decisão, alguns deles pensam sobretudo nas senhas de refeição e no tempo gasto com estes julgamentos à americana, avessos ao costume luso de confiar todas as decisões judiciais à direção do Correio da Manhã.

 

24) O crescimento nas legislativas de 2024 do número de votos na Alternativa Democrática Nacional, ou, como todos lhe chamam, o ADN, foi atribuído à confusão de siglas feita por muitos eleitores que pretenderiam colocar a sua cruz no quadrado da AD. Contudo, as eleições europeias mostraram que o fenómeno ia além desse epifenómeno e existia em Portugal um (pequeno) nicho eleitoral para o chalupismo. O crescimento do ADN passa despercebido por não ocorrer na televisão, registando-se sobretudo através da Internet e de algumas igrejas evangélicas, ligadas ao setor mais à direita da comunidade brasileira. A mistura entre religião e política e a defesa dos valores familiares tradicionais, supostamente ameaçados pela “ideologia de género”, começam a germinar no solo português, até aqui pouco favorável ao conservadorismo nos costumes (os ventos vindos dos EUA também ajudam). Se Bruno Fialho e outros dirigentes do ADN fazem os deputados do Chega parecerem portugueses comuns, a profissional da indignação Joana Amaral Dias possui a experiência mediática e a influência nas redes sociais adequadas para dar visibilidade ao antigo PDR quer nas legislativas quer nas presidenciais. O provável regresso de Amaral Dias à Assembleia da República reforçará a fragmentação do hemiciclo, mas contribuirá para fornecer alguma animação aos debates parlamentares, que se tornaram um pouco aborrecidos com os excessos de moderação, seriedade e boa educação verificados nos últimos anos.

 

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(Membros da Juventude Chega apoiam André Ventura após o debate deste com Luís Montenegro. Fonte da imagem: Rita Matias)