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Odivelas 2025: melgas e mesquitas

É impressionante como o contexto político de 2021, data das últimas eleições autárquicas, parece hoje pertencer à Pré-História. Já no início de 2025, André Ventura ainda moderava as expetativas ao definir os objetivos do Chega naquelas que supostamente seriam as únicas eleições a realizar neste ano: triplicar a votação de 2021 e conquistar algumas câmaras no Alentejo e Algarve, uma vez que obter presidências seria difícil no distrito de Setúbal e quase impossível a norte do Tejo. Depois de 18 de maio, a ambição cheguista aumentou imenso. Passaram a ser verosímeis cenários como uma vitória de Rita Matias em Sintra ou de Bruno Nunes em Loures (triunfos que constituiriam um novo terramoto político), enquanto o partido de Ventura, mesmo não conquistando muitos concelhos, parece apto a formar uma vasta rede de autarcas. De facto, agora que cheira a poder, abundam os voluntários para integrar listas do Chega, embora o desejo deste de apresentar candidaturas em todos os municípios permaneça difícil de concretizar.

 

No concelho de Odivelas, onde o Chega alcançou 24,42% (20 084 votos) na eleição para a Assembleia da República, ficando muito perto de AD e PS e vencendo em Pontinha e Famões (a freguesia odivelense onde o partido detém maior implantação), o júbilo da extrema-direita também parece mais próximo. Nuno Beirão, o vereador eleito pelo Chega há quatro anos, desintegrou-se enquanto Fernando Pedroso, líder da bancada cheguista na Assembleia Municipal, assumia o papel de candidato a presidente da CMO. Pedroso afirma-se agora certo de que o partido triunfará em Odivelas no início do Outono e procura convencer o eleitorado de direita da viabilidade dessa meta. Oriundo de uma família relevante na história de Caneças, o candidato recorda ter participado em atividades contra o Estado Novo antes de começar o seu percurso político logo aos 22 anos, nas primeiras autárquicas, quando, representando o partido de Francisco Sá Carneiro, foi eleito membro da Assembleia de Freguesia da sua terra. Pedroso desmente, assim, os registos da Câmara de Loures que indicam José Manuel da Silva Duro como o único elemento do PPD/PSD na assembleia canecense eleita em 12 de dezembro de 1976. Já em 14 de junho de 2025, ao discursar no jantar de apresentação dos candidatos locais do Chega, Fernando Pedroso referiu propostas para “limpar Odivelas” como travar a “proliferação descontrolada de mesquitas” antes que o número destas ultrapasse o de templos católicos no município, dar prioridade aos “cidadãos portugueses que trabalham” na atribuição de habitação social ou organizar anualmente o festival Family Pride “para contrapor a outras festas pride que por aí ocorrem”.

 

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(Fonte da imagem: Chega Odivelas)

 

A imigração ainda não possuía a atual relevância no debate político em 2021, quando a Iniciativa Liberal propunha a criação em Odivelas de um campo de cricket no qual os imigrantes hindustânicos poderiam praticar o seu desporto favorito. Desde então, a presença no município de pessoas oriundas do subcontinente indiano cresceu e ganhou maior visibilidade através da abertura de numerosas lojas como mercearias, barbearias ou estabelecimentos de reparação de telemóveis (Fernando Pedroso garante que só apoiará o comércio “português”). Apesar da imigração extra-europeia ser comum em Odivelas há décadas, as dimensões que assumiu nos últimos anos geraram tensões xenófobas, ampliadas pela desinformação. Fora das campanhas eleitorais, a política local expressa-se nas redes sociais sobretudo através da propaganda institucional das autarquias, de imagens dos “contactos com a população” feitos pela CDU e da partilha pelo Chega ou por apoiantes do partido de vídeos que associam os imigrantes indianos e paquistaneses a situações de violência. No imaginário de muitos munícipes, as novas mesquitas, o fornecimento de refeições halal nas escolas do concelho e as fotografias da presença dos autarcas católicos Hugo Martins e Nuno Gaudêncio em eventos públicos de outras religiões combinam-se no cenário de uma invasão de infiéis a que a gestão socialista não se opõe. Este sentimento pode reforçar a votação no Chega, mas apenas se a tradicionalmente elevada taxa de abstenção nas autárquicas odivelenses sofrer uma redução significativa. André Ventura destacou-se como o representante do “bom povo português” que ficava sempre em casa nos dias de votação até o Chega aparecer e oferecer a democracia menos democrática pretendida por muitos dos habituais abstencionistas. As europeias de 2024 mostraram, contudo, que a subida da participação promovida pela extrema-direita nas legislativas não é automaticamente transferível para outro tipo de sufrágios. Assim, a incerteza sobre a afluência dos “portugueses de bem” às urnas e as eventuais consequências desta manter-se-á até ao dia das eleições autárquicas.

 

Entretanto, a cerca de três meses do ato eleitoral, PS e PSD ainda não apresentaram os seus rostos em Odivelas (do que estarão à espera?). Embora a recandidatura do social-democrata Marco Pina tenha sido noticiada na imprensa em abril, o anúncio oficial deverá esperar ainda mais alguns dias. Por seu turno, a IL escolheu como primeiro nome da sua lista de candidatos à Câmara o deputado municipal André Francisco, com a missão de consolidar os cerca de 6% dos eleitores reunidos pelos liberais nas eleições de âmbito nacional. À esquerda, o Livre não dispõe em Odivelas de militantes em número suficiente para apresentar listas, a CDU avança com o famoense Florentino Serranheira e as opções de PAN e Bloco são ainda uma incógnita. Perante a dinâmica ascendente do Chega e uma campanha na qual, previsivelmente, escasseará o debate e cada partido falará para o seu lado, as eleições odivelenses não serão favas contadas para ninguém.

O almirantismo

No ano de 2021, a então irrompida figura de Henrique Gouveia e Melo (HGM) foi útil a vários níveis. Por mais errónea que fosse a ideia de que antes dele era o caos, a presença de Henrique na liderança da task force responsável por coordenar a vacinação contra a Covid-19 estimulou a confiança da população no processo e tranquilizou os comentadores, muitos dos quais encaravam com pessimismo uma operação tão vasta. Quando o sucesso da vacinação se tornou óbvio, o excecional militar salvou a comunicação social de ter de reconhecer que alguma coisa promovida pelo Estado correra bem e evitou que os jornalistas passassem pelo suplício de atribuir mérito às autarquias ou ao Governo socialista então no poder. A gratidão mediática favoreceu a acelerada transformação de HGM num herói, reforçada pela firmeza do oficial perante uma cena de ataque dos negacionistas em Odivelas que trouxe à memória, conscientemente ou não, Évora em 1976, com Ramalho Eanes no tejadilho de um automóvel a caminho de Belém. No dia obscuro em que alguém colocou pela primeira vez, num jornal ou numa televisão, a hipótese daquele austero barbudo se candidatar à presidência da República, o destino não só de Henrique como do próprio país ficou traçado. A partir daí, seria apenas uma questão de tempo. Poder-se-ia pensar que, no longo período entre 2021 e 2026, os eleitores se esqueceriam do processo de vacinação e de quem o liderara. Talvez os portugueses já não recordem nitidamente as filas, os impressos ou as injeções (na verdade, ninguém se quer lembrar de 2020-2021, mas isso é outra história). Contudo, enquanto exercia as funções de CEMA, Gouveia e Melo certificou-se de que não sairia do imaginário nacional. Afinal, ele era o único homem identificável pela simples expressão “o Almirante”.

 

Depois de 1986, todas as eleições presidenciais portuguesas tiveram em comum o tédio das campanhas e a previsibilidade dos resultados. Mesmo pondo de parte os sufrágios a que o PR então em exercício se apresentava para a mera formalidade da reeleição, as escolhas dos portugueses foram antecipáveis a anos de distância. Marcelo Rebelo de Sousa começou em 2012 a analisar no seu programa da TVI hipotéticos candidatos às presidenciais de 2016, à exceção dele próprio, que avançaria apenas três meses antes da votação e ganharia com uma perna às costas, limitando-se a marcelar (sorrir, acenar, falar com toda a gente) nas ruas do país durante a campanha. A cada eleição presidencial, todos os restantes candidatos se posicionavam contra o vencedor anunciado, em função do qual elaboravam os seus discursos, fingiam acreditar na possibilidade de uma segunda volta e regressavam ao seu quotidiano após a inevitável derrota. A sucessão de Marcelo pareceu, no entanto, abrir a possibilidade de uma disputa mais renhida, dada a indisponibilidade de nomes fortes que garantissem desde logo a vitória ao unirem a esquerda ou a direita. Nos intervalos das várias legislativas antecipadas que empurraram a História no baloiço entre 2022 e 2025, a imprensa apontava os presidenciáveis mais diversos e as sondagens, embora cedo destacassem Gouveia e Melo, mantinham-se fragmentadas. Nesta altura, porém, com o lote de candidatos cada vez mais definido, a previsibilidade triunfa novamente. De facto, os media já tratam HGM como o futuro Presidente, faltando apenas esclarecer se será eleito à primeira ou à segunda volta. Deve permanecer a tradição de resolver tudo o mais depressa possível, até porque debates e campanhas pouco costumam alterar, seja nas presidenciais ou nas eleições portuguesas em geral.

 

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(Fonte da imagem: Honrar Portugal)

 

Muito se tem dito sobre os pontos teoricamente fracos de Henrique: experiência política zero, falta de apoio partidário, pensamento vago e repleto de clichés, incerteza quanto à resposta a situações concretas. Também muito se tem dito sobre os pontos fortes do candidato: experiência política zero, falta de apoio partidário, pensamento vago e repleto de clichés, incerteza quanto à resposta a situações concretas. A estes podemos somar a simpatia mediática, com o Expresso a procurar manter o seu estatuto de semanário íntimo do PR. HGM conta ainda com as debilidades dos reais ou potenciais adversários. Luís Marques Mendes é demasiado previsível (vai sempre pelo caminho menos arriscado) e nasceu desprovido de imaginação política, António José Seguro está longe de unir o eleitorado do PS e a segunda candidatura de António Sampaio da Nóvoa seria apenas uma prova de vida da esquerda num contexto muito diferente do de janeiro de 2016. Entretanto, as primeiras iniciativas da campanha de Gouveia e Melo comprovam que o militar seria o candidato óbvio da AD se não existisse o pacto entre os Luíses, com muitos dos conselheiros nacionais do PSD a confiarem na privacidade da cabina de voto, onde poderão exprimir os seus verdadeiros sentimentos. Embora se demarque dos “extremismos”, Henrique tem sido bastante cauteloso para evitar perder votos. O segredo está precisamente na ambiguidade que permite a cada eleitor ver no oficial aquilo que deseja ou imagina. Para alguns, é o homem que vai meter o país na ordem. Para outros, é o militar que fará aquilo que os políticos não conseguem. Seja como for, o voto de todas essas pessoas valerá o mesmo.

 

Devido aos precedentes históricos, Gouveia e Melo tem sido comparado aos presidentes da Ditadura Militar e do Estado Novo ou encarado como a face de um novo eanismo. Nada é impossível, mas não me parece que HGM faça um 28 de Maio (ideologicamente, o oficial até é bastante morninho) ou crie um partido para consolidar o seu futuro poder. As circunstâncias atuais impõem formas inovadoras de intervenção política que o próprio Henrique ainda não terá definido na totalidade. Talvez a condição militar esteja, afinal, longe de ser fundamental no desenho da heráldica a apresentar no estandarte almirantista que, em princípio, será hasteado em Belém no próximo ano. Após uma década de dessacralização marcelista do poder, os cidadãos estão aparentemente prontos para o regresso dos senhores que se levam muito a sério. A pouco e pouco, sem ninguém o admitir, cresce a apetência por lideranças autoritárias e pés em cima de cabeças. O grande desafio de Henrique Gouveia e Melo será construir o seu estilo próprio e, com uma habilidade que não deve ser subestimada, recusar tornar-se um misto de Pires Veloso, Galvão de Melo, Kaúlza de Arriaga e outros militares de direita com estrondosos falhanços na política do pós-25 de Novembro.