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Odivelas 2025: sociologia e futebol

Contrariando as previsões, o Livre vai apresentar candidatos às eleições autárquicas no município de Odivelas, escolhidos, como é norma no partido, através de primárias abertas. Assim, entre aqueles que se ofereceram para serem candidatos à presidência da Câmara, a socióloga Inês Pereira (46 anos) foi a mais votada, enquanto o advogado Bruno Moreira (33 anos) será a aposta para a Junta de Odivelas. Ambos deram-se a conhecer ao universo eleitoral através de materiais de campanha onde destacaram as suas prioridades políticas. Com uma vasta experiência no ativismo, Inês Conceição Farinha Pereira é investigadora do CIES (Centro de Investigação e Estudos de Sociologia) e professora no ISCTE e na Nova FCSH. Como eventual autarca, Inês Pereira lutará pela inclusão ao combater “o racismo, a xenofobia, o machismo, a homofobia, a transfobia, o capacitismo, o idadismo e todas as formas de discriminação”, além de estabelecer novos canais de comunicação entre a CMO e aquilo a que não chama sociedade civil, ou seja, associações e outros coletivos. Por seu turno, Bruno Moreira pretende envolver-se na reivindicação de mais casas, recusando “demolições à margem da lei”, reduzir a invisibilidade pública das minorias étnicas e religiosas e promover uma Junta mais aberta e transparente no contacto com os fregueses. Apesar de prever que será uma “voz minoritária” na Assembleia de Freguesia, o antigo escuteiro acredita poder fazer a diferença.

Uma vez selecionados os rostos do seu projeto, o Livre enfrenta o desafio de encontrar até 18 de agosto pessoas em número suficiente para preencher os lugares não elegíveis das listas. Na verdade, trata-se de uma dificuldade comum a todos os partidos. Relembre-se que em 2021 o candidato à JFO da coligação então liderada pelo PSD, Pedro Martins, teve de recorrer a familiares (pais, mulher, filha, etc.) de modo a completar a sua lista à Assembleia de Freguesia. A tarefa do Livre poderá ser facilitada se, à imagem do que acontece em Loures, o partido da papoila formar uma coligação com o BE e o PAN para as eleições odivelenses. Tratando-se de partidos com resultados habitualmente fracos em autárquicas, uma aliança favoreceria as três organizações, embora criasse o problema da escolha dos cabeças de lista. De acordo com o histórico no concelho, o Bloco poderia indicar o candidato da eventual coligação a presidente da Câmara e fazer cedências aos seus parceiros nas freguesias. Seja como for, trata-se ainda de uma hipótese, tornada verosímil devido à capacidade de agregar uma parte da esquerda, reunida na espécie de MDP/CDE sonhado por Rui Tavares, contra a maioria absoluta do PS, a estagnação do PCP e a ascensão do Chega.

Entretanto, a campanha da AD prosseguiu com a apresentação de Miguel Pinto Luz como mandatário da candidatura de Marco Pina à Câmara odivelense. Ao fim da tarde de 24 de julho, Sandra Pereira e outros deputados do PSD, juntamente com um conjunto amplo de “laranjinhas” locais e o presidente da concelhia do CDS, João Pedro Galhofo, afluíram ao Pavilhão Polivalente de Odivelas para receber o cascalense numa sessão que começou com um atraso de meia hora, o mesmo tempo que o evento propriamente dito duraria. Enquanto o segurança do ministro vigiava a entrada da mesma sala onde há 26 anos outro ministro, António Costa, discursou acerca do futuro prolongamento do metropolitano até Odivelas, Pinto Luz reclamou para a AD e Luís Montenegro a paternidade da Linha Violeta, projeto que os atuais governantes teriam resgatado da suborçamentação deixada pelo PS. Na sua intervenção, Marco Pina realçaria o mesmo ponto, classificando como “aldrabice” o anúncio feito pelos socialistas em 2021 de que o metro chegaria a Loures quatro anos depois. Pina elencou as promessas em várias áreas já mencionadas no lançamento da sua candidatura, além de acrescentar a construção de uma nova piscina municipal, cuja localização não adiantou (o equipamento desportivo surgirá provavelmente na Ramada). As metáforas futebolísticas abundam no marketing do comentador da CMTV, que admoesta literalmente a gestão municipal com um “cartão vermelho” e pretende fazer Odivelas “jogar na primeira divisão”, embora Marco omita desta vez um hipotético apoio ao renascimento do OFC. A “equipa” de Pina inclui os quatro candidatos da AD às juntas de freguesia do município, Ana Monteiro (Odivelas), Deolinda Martins (Póvoa de Santo Adrião e Olival Basto), José Valverde (Pontinha e Famões) e Ângelo Baleiro (Ramada e Caneças), chamados ao palco do Polivalente. Deles não se ouviu uma palavra, pelo que deverão fazer os seus próprios comícios nas respetivas freguesias. A terminar o evento, o público assistiu à exibição de um vídeo de campanha de Marco Pina que a dada altura recorre ao conhecido efeito em que o protagonista anda na direção do espetador enquanto o cenário atrás de si vai mudando, à semelhança de Patrícia Tavares no genérico da telenovela A Herança.

 

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A campanha autárquica espalha-se a pouco e pouco pelas ruas do concelho através dos primeiros outdoors. Enquanto os cartazes das legislativas com o rosto de Pedro Nuno Santos se mantêm impávidos no Senhor Roubado, Marco Pina posiciona o seu cartão vermelho à saída da Calçada de Carriche, a CDU promete os habituais “trabalho, honestidade e competência” e Fernando Pedroso quer “Limpar Odivelas” com uma vassoura emprestada por André Ventura. Recentemente, um dos outdoors do Chega na Ramada foi vandalizado por desconhecidos, num ato que despertou a ira do até aqui plácido e simpático Ricardo Reis. O deputado atacou a “bandidagem”, receosa de perder a sua habitação social gratuita e as refeições halal saboreadas nas escolas, e avisou que, depois da vitória do Chega nas eleições de 12 de outubro, os “vândalos” deverão sair do concelho se quiserem escapar à terrível vingança dos venturistas, que nunca esquecem nem perdoam. Tudo indica que o tema do vandalismo político regressará mais à frente nesta história.

 

P.S. À semelhança de AD e PS, gostaríamos de apelar à participação dos nossos seguidores. Assim, quaisquer sugestões, informações ou perspetivas sobre as eleições autárquicas em Odivelas podem ser enviadas para o seguinte endereço: camaradafalcao@gmail.com

Odivelas 2025: ocupada e moribunda

As campanhas eleitorais para as juntas de freguesia revelam implicitamente os reduzidos poderes à disposição do presidente de uma junta. Os programas dos partidos não costumam apresentar grandes diferenças e exigem uma boa dose de imaginação de modo a irem além de tarefas indispensáveis, mas pouco vistosas, como manter as ruas e os espaços verdes limpos e arranjados, já que apenas as câmaras municipais possuem meios e competências para a realização de obras transformadoras da face dos territórios. Mesmo assim, o contexto em que se encontra uma determinada freguesia pode fazer a diferença. Liderar um espaço como Odivelas, a terceira freguesia mais populosa do país, possui uma significativa relevância política. Agora que o socialista Nuno Gaudêncio está de saída da Junta odivelense após três mandatos consecutivos, vários candidatos procuram evitar a transição de poder para o delfim Ricardo Oliveira. Enquanto a Iniciativa Liberal lança o engenheiro informático Ricardo Águas como eventual futuro presidente da JFO, a CDU avança pela segunda vez com Dilar Pelica (1972-), ligada ao PCP desde a adolescência e atualmente funcionária da Câmara de Odivelas.

 

Na tarde de 17 de julho, a apresentação pública da candidatura de Dilar Pelica teve lugar no Parque Maria Lamas, a poucos metros do prédio da Rua de Nampula onde o então dirigente comunista Raimundo Narciso viveu clandestinamente durante os últimos três anos da ditadura. A banda sonora difundida pela aparelhagem da coligação incluiu, antes dos discursos, versões recentes de clássicos da “música de intervenção” e, após o comício, temas de Sérgio Godinho. Na primeira fila da plateia, encontrava-se Ilídio Ferreira, o histórico autarca da Ramada, aplaudido após uma alusão do seu discípulo Florentino Serranheira. Quem não esteve presente no evento pode ouvir o discurso pronunciado por Pelica ao candidatar-se ao mesmo cargo há quatro anos: muitas das frases foram exatamente iguais em 2021 e 2025. Uma das poucas novidades consistiu na referência ao supermercado Continente e a outros edifícios construídos num terreno outrora vago junto ao Silvado e que, na opinião de Dilar, agravarão os problemas de trânsito e estacionamento da Avenida D. Dinis. Seguiu-se a intervenção de Florentino, centrada no “nada” que foi feito até agora pelas autarquias numa Odivelas “moribunda”. E então, cerca de 20 minutos depois do início, a apresentação conheceu o seu fim. Se considerarmos a duração e o conteúdo do evento e a adesão suscitada entre a população local, poderemos questionar-nos se este tipo de comícios possui alguma utilidade para a CDU além de servir de pretexto para o convívio dos militantes do PCP. Pelica e Serranheira foram parcos em propostas para o futuro de Odivelas, mas um folheto distribuído pela CDU refere ideias como a requalificação da Praça Afonso de Albuquerque, no Bairro dos Cágados, ou o estabelecimento de uma ligação do Parque D. Dinis “à Quinta do Espírito (sic) e Parque do Silvado”. A velha divergência entre o PS e o PCP quanto à dinamização dos equipamentos culturais e desportivos através de concessões a privados ou da gestão direta da Câmara marcará mais uma campanha eleitoral.

 

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Enquanto monta os primeiros cartazes com fotografias de André Ventura e Fernando Pedroso, o Chega também apresenta o mesmo candidato à Junta de Odivelas de 2021, Duarte Vieira (1984-). Antigo futebolista das camadas jovens do Tenente Valdez e do Odivelas FC, Vieira voluntariou-se aos 19 anos para os Comandos, ao serviço dos quais cumpriu duas missões no Afeganistão antes de ingressar em 2009 na GNR, força da qual ainda faz parte, embora em gozo de licença, ao mesmo tempo que é sócio de uma empresa imobiliária. Como membro da Assembleia de Freguesia, Duarte Vieira discursou em nome do seu partido na cerimónia comemorativa do 35.º aniversário da elevação de Odivelas ao estatuto de cidade. Perante Hugo Martins e Nuno Gaudêncio, que acusou de traição aos odivelenses, Vieira questionou onde está a liberdade prometida pelo 25 de Abril quando Odivelas se encontra sob “ocupação silenciosa” devido à “imigração descontrolada”. A falta de fiscalização e a atribuição descuidada da cidadania lusa originariam um afluxo maciço de estrangeiros com “direito a tudo e mais alguma coisa”, enquanto os nativos “só têm deveres” e são afetados pela insegurança (os números do RASI citados por Martins apenas poderão ser “inverdades”) e pela dificuldade no acesso aos serviços públicos. No vídeo, parecem ouvir-se risos ou tossidelas na assistência quando Vieira garante que o Chega estará sempre “ao lado da verdade” e na defesa da história e identidade do concelho.

 

Os resultados das autárquicas de 2021 ditaram uma maioria absoluta do PS na Assembleia de Freguesia de Odivelas, órgão que inclui ainda quatro representantes do PSD, dois da CDU e do Chega, um do CDS e um do Bloco de Esquerda (o médico Filipe Rosas, irmão de Fernando Rosas). Eventuais alterações desta distribuição de mandatos estarão ligadas às dinâmicas eleitorais a registar no conjunto do município em 12 de outubro. Apesar dos candidatos de AD e BE à presidência da JFO ainda não terem sido anunciados, não se preveem grandes surpresas ao nível das opções partidárias. As dúvidas sobre o escrutínio abrangerão pontos como a manutenção da maioria socialista, a possível entrada da IL na Assembleia de Freguesia, a capacidade de resistência do Bloco e o previsível crescimento do Chega. De facto, o partido de Duarte Vieira parece querer estimular sobretudo o medo dos moradores dos bairros mais antigos de Odivelas em relação às alterações demográficas e à proliferação de estabelecimentos comerciais geridos por hindustânicos. Uma mobilização dos habituais abstencionistas poderia alterar os tradicionalmente estáveis equilíbrios políticos na terra da marmelada. Seria curioso observar os dados da votação por mesa e compreender se existem tendências diferentes na Arroja, na Codivel, nas Colinas do Cruzeiro, nas Patameiras, no Bairro Espírito Santo ou noutras áreas de uma localidade cada vez mais heterogénea. Quanto ao trabalho da Junta, continuará discreto como sempre, à exceção dos dias das Festas da Cidade.

Odivelas 2025: a sequela

Entre os partidos da AD, o CDS foi sempre aquele que possuiu menor implantação em Odivelas, com resultados irrelevantes nas eleições em que apresentou listas próprias às autarquias do concelho (2001, 2005 e 2013). Quanto ao PSD, a sua história local ainda está por fazer, tal como a dos restantes partidos, mas podemos falar de uma série de expetativas frustradas. Entre 1976 e 1998, quando o atual território do município odivelense ainda integrava o espaço de Loures, PS e PSD uniram-se várias vezes contra a hegemonia comunista, alternando a partir de 1989 na presidência da Junta de Odivelas. Quando o novo concelho foi criado, tudo parecia estar politicamente em aberto. Com listas lideradas por um antigo vogal da Comissão Instaladora, Fernando Ferreira, o PSD alcançou o segundo lugar em 2001 e caiu para terceiro quatro anos depois, na única ocasião em que a CDU ultrapassou os “laranjas” em Odivelas. Em 2009, a mobilização gerada pela candidatura de Hernâni Carvalho deu esperanças à direita concelhia, mas, por curta margem, a socialista Susana Amador obteve a reeleição. Ainda assim, Vítor Machado, do PSD-Odivelas, conquistou a junta da sede do concelho, onde exerceu um mandato de caos financeiro e procedimentos ilegais que dissuadiram o partido de apoiar a sua recandidatura em 2013, ano do início do ciclo de Nuno Gaudêncio na JFO. Os sociais-democratas concorreram sem grande convicção aos sufrágios locais seguintes e viram-se incapazes de travar as maiorias absolutas do PS. Aquando da prospeção de mercado que precedeu a fundação do Chega, André Ventura terá encontrado em Odivelas um dos municípios dos arredores de Lisboa nos quais a população se mostrava pouco recetiva ao discurso da direita tradicional, com esta a ter dificuldade em captar novos eleitores. Apesar da vitória tangencial da AD no concelho nas legislativas de 2025, o PSD parece jogar sempre fora de casa em terras de D. Dinis.

 

A 8 de julho, no Pavilhão Multiusos, o vereador Marco Pina apresentou a sua candidatura à presidência da Câmara de Odivelas, repetindo a experiência de 2021. A cerimónia contou com a presença de Hugo Soares e Telmo Correia, que participaram na assinatura do acordo PSD-CDS para a formação da AD odivelense. Ao tomar a palavra, Hugo Soares revelou desconhecer o nome do atual presidente da CMO, com o objetivo de salientar a insignificância política e mediática de Hugo Martins e o resultado prático de mostrar que uma breve pesquisa no Google é demasiado cansativa para o líder parlamentar do PSD. Segundo o relato deste, foi Soares a convidar Marco Pina para uma nova candidatura e a ficar impressionado com a imediata resposta positiva do comentador da CMTV, apesar deste poder apresentar razões pessoais e políticas (uma vitória do PSD tornar-se-ia mais fácil depois de Martins ser afastado da Câmara pela limitação de mandatos) para esperar por 2029. Assim, Pina avança com o slogan “É por Ti” e promete, nos outdoors já visíveis, trocar o “mais do mesmo” por “mais, mesmo”.

 

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(Fonte da imagem: Marco Pina)

 

No seu discurso de apresentação, Marco Pina apresentou propostas para áreas como a saúde, a economia, a habitação, a segurança ou os transportes, reclamando para o Governo AD os créditos da futura Linha Violeta do Metro. Ao antever críticas que o acusariam de ser “doido” e fazer tudo parecer demasiado fácil de concretizar, Pina declarou que a Câmara odivelense possui muito dinheiro ainda por aplicar devido à inação de Hugo Martins e da sua equipa, os quais teriam tido no último mandato tempo suficiente para construir “quatro Parques da Cidade”. Curiosamente, o antigo árbitro não referiu o tema da imigração, apesar de Hugo Soares lhe estender o tapete para isso e do discurso de defesa dos valores lusitanos adotado por candidatos da AD como Pedro Duarte e Carlos Moedas. Agora que o tiro de partida soou, é difícil antever que hipóteses de sucesso terá Pina na corrida rumo à Quinta da Memória perante o cenário de crescente fragmentação do eleitorado de direita. De resto, apesar de Marco destacar o seu trabalho de escrutínio feito nas reuniões do executivo da CMO e do efeito negativo em todos os partidos da hibernação que a política local odivelense sofre habitualmente durante três anos e meio, existe a sensação de que o PSD só agora entrou num terreno onde o Chega já está em campanha há muito tempo. Marco Pina parece evitar o caminho mais fácil, mas ignora-se se a promessa de que a futura Polícia Municipal fará Odivelas desaparecer das páginas do Correio da Manhã será suficiente para reduzir a abstenção.

 

Entretanto, as Festas da Cidade de Odivelas constituem um espaço privilegiado de difusão de mensagens políticas, desde logo por parte da JFO, cuja revista anual divulga, além do programa do evento organizado por Ricardo Oliveira, a atividade quotidiana da autarquia. Como é tradição, os núcleos locais de várias forças partidárias (este ano, são BE, CDU, PS, PSD e Chega) dispõem de stands no parque do Silvado, mas nem sempre as bancas de propaganda se encontram abertas e os visitantes das Festas da Cidade raramente lhes dedicam atenção. Por vezes, porém, comitivas partidárias percorrem o recinto para contactarem de perto com o povo. O próprio José Luís Carneiro visitou as Festas com dirigentes locais do PS e jantou na zona das tasquinhas. Com isto tudo, faltam três meses para as eleições de 12 de outubro. Será muito ou pouco tempo?

Odivelas 2025: dois comícios

24 de junho, tarde amena e nublada. Na Alameda Infante D. Henrique, em Odivelas, a CDU realiza um comício de apresentação dos seus candidatos às autárquicas no concelho. Alguns transeuntes param para observar um breve evento político (não durará mais de 45 minutos) que parece uma reunião de velhos conhecidos, embora as dezenas de “ativistas” sentados nas cadeiras de plástico tenham momentos de entusiasmo ao agitarem as bandeiras de várias cores da coligação e garantirem que “a CDU avança com toda a confiança”. No púlpito, Rui Francisco, novamente cabeça de lista à Assembleia Municipal, lamenta o desconhecimento existente sobre o trabalho do parlamento concelhio. Em seguida, discursa Florentino Serranheira, o candidato comunista à presidência da Câmara, que recorda ter sido trazido para a política autárquica pelo carismático antigo líder da Ramada, Ilídio Ferreira, enumerando depois as áreas principais do futuro programa da CDU. Florentino não menciona a insegurança, tema do qual o Chega registou os direitos, e destaca o objetivo de promover ou exigir ao Governo um reforço da oferta pública de serviços como lares, creches, escolas, habitação ou transportes, fornecidos a preços inferiores aos cobrados pelos privados. Sente-se, porém, uma certa banalidade no discurso e a ausência de uma temática ou proposta que distinga claramente a aliança liderada pelo PCP das outras forças políticas que afirmam pretender a “melhoria da qualidade de vida” dos odivelenses. O comício prossegue com uma intervenção do dirigente nacional do PCP Vasco Cardoso, focada na situação geral do país e escassa em referências ao caso de Odivelas. Cardoso realça a necessidade dos comunistas aproveitarem a campanha eleitoral para aprenderem com a população e assim encontrarem soluções para os problemas desta. A sessão termina pouco depois, mas a assistência, geralmente avançada na idade e partilhando memórias de outras lutas, passa à fase do convívio.

 

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1 de julho, tarde quente mas sem a opressão sufocante dos dias anteriores. O jardim do Largo D. Dinis acolhe um comício do PS que, embora se centre na apresentação de Ricardo Oliveira como possível futuro presidente da Junta de Freguesia de Odivelas, servirá também para confirmar a nova candidatura de Hugo Martins à liderança da Câmara (terá de renunciar em 2027 se completar 12 anos no cargo?). A pouco e pouco, o espaço verde em torno do coreto enche-se de figuras como Manuel Varges, militante socialista desde 1974 e primeiro presidente da CMO, ou Vítor Peixoto (líder da Junta odivelense entre 1993 e 2005), reconciliado com o PS depois de um período de afastamento marcado pela fundação do Movimento Odivelas no Coração. Além do speaker que apresenta os oradores, toma a palavra Ana Leite, coordenadora da JS local. Seguem-se Varges, na qualidade de mandatário das candidaturas socialistas às autarquias do concelho, Nuno Gaudêncio, atual presidente da JFO travado pela limitação de mandatos, e o seu número dois, o ex-dirigente do Ajax Ricardo Oliveira. São discursos curtos, embebidos num tom pessoal e pontuados por elogios mútuos, com Oliveira a justificar-se com a fase de elaboração do programa eleitoral para não apresentar ainda propostas relativas ao mandato a iniciar no Outono. Vários membros do público sem ligações ao PS encontram-se ali precisamente devido à sua amizade por Ricardo Oliveira, um filho do Bairro Espírito Santo. Pelo meio, dois socialistas seguram o painel com o slogan e a fotografia do candidato, de modo a impedir o vento estival de causar uma queda que constituiria um péssimo augúrio para as eleições.

 

Hugo Martins encerra o comício com o discurso mais longo e rico em sumo político. O autarca destaca o contexto desfavorável dos últimos quatro anos, enumera obras municipais concluídas ou que prosseguem a bom ritmo, entre elas a criação do Parque D. Dinis ali ao lado do largo, refere os efeitos positivos para o comércio local das competições desportivas acolhidas pelo Pavilhão Multiusos e antevê futuras inaugurações como as da Divisão Policial de Odivelas, do renovado Polidesportivo Honório Francisco e do museu que exporá a espada régia descoberta no túmulo do Lavrador. A construção da Linha Violeta do Metro tem avançado mais devagar do que Martins gostaria, mas o edil odivelense confidencia que o novo concurso da obra recebeu já seis propostas. Hugo valoriza ainda a experiência dos autarcas socialistas e alerta que os investimentos públicos em curso no município ficarão em risco se os eleitores não renovarem a confiança no PS e se deixarem levar por “aventureirismos”, com o presidente da Câmara a apelar ao voto útil contra o desperdício das cruzes entregues à “extrema-esquerda” e à “extrema-direita”. O evento acaba com a voz transmitida pela aparelhagem sonora a avisar que quem quiser pode aproveitar o palco para gravar um vídeo de apoio a Ricardo Oliveira.

 

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Aparentemente, há muito que o PS ultrapassou o PCP em influência junto de “forças vivas do concelho” como as coletividades (Hugo Martins salientou a presença no comício do Largo D. Dinis de representantes de Ajax, Associação da Arroja e Clube Atlético das Patameiras), uma situação natural tendo em conta os muitos anos dos socialistas no poder autárquico. Contudo, essa rede de contactos pode revelar-se insuficiente perante as circunstâncias sempre presentes nas entrelinhas dos comícios socialista e comunista, ou seja, a viragem à direita do país e o crescimento do Chega. De resto, Oliveira e Martins aludiram nas suas intervenções à desinformação espalhada nas redes sociais por adversários que “não olham a meios”. Terão pensado em figuras como o odivelense Miguel Morato, o “ministro” da propaganda do Grupo 1143 segundo o qual Hugo traiu a Pátria ao dialogar com as comunidades sikh e islâmica do município. A inédita relevância da questão migratória nas próximas eleições autárquicas leva a CDU a tentar sem grande sucesso alterar a trajetória do ressentimento popular dirigindo-o contra os “donos disto tudo”, enquanto cria problemas internos no PS. A votação em data ainda por marcar ditará se o estilo tipo Stallone do vizinho Ricardo Leão ou o lema “Nenhum mouro entra aqui” dos socialistas de Benavente alcançam maior sucesso eleitoral que o discurso tolerante de Hugo Martins e outros autarcas. Até lá, em Odivelas e noutros concelhos da Grande Lisboa, os incumbentes e a oposição tradicional procurarão pelo menos manter as suas posições face à vontade das novas forças de cercar a capital.