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Odivelas 2025: o rosto ou a mensagem?

Uma das razões para a tradicional imprevisibilidade das eleições autárquicas, nas quais são possíveis surpresas como Porto-2001 ou Lisboa-2021, encontra-se no relativo desconhecimento daquilo que orienta as preferências dos eleitores. É difícil determinar se o cidadão vai pensar no seu bairro ou aldeia ou no seu país ao receber os três boletins, ou seja, qual é o peso das questões locais e nacionais na definição do sentido de voto. Há quem destaque a importância da proximidade da população em relação aos candidatos e temas de campanha para valorizar a dimensão local da eleição de cada autarquia. No entanto, o contexto nacional em que decorrem as autárquicas, muitas vezes encaradas como uma oportunidade para demonstrar apoio ou oposição ao governo em funções, influencia igualmente os resultados. Do mesmo modo, apesar das câmaras municipais, assembleias municipais e juntas de freguesia serem órgãos colegiais e pluripartidários, as suas presidências são unipessoais e atribuídas por lei ao primeiro candidato da lista mais votada, reforçando a dúvida sobre se os eleitores votam em pessoas ou partidos. Tal como acontece noutras áreas, o surgimento do Chega veio espalhar a confusão. A presença de imagens de André Ventura nos cartazes dos candidatos do seu partido tem sido ridicularizada, mas resulta da mesma inevitabilidade que faz tudo girar à volta do líder e dos gatos António e Santiago. Além da formação de extrema-direita ser, precisamente, um saco de gatos que, sem Ventura na presidência, desapareceria no meio de disputas internas em menos de 24 horas, as principais motivações dos eleitores do Chega, como a convicção de que há imigrantes a mais em Portugal ou a profunda desconfiança na democracia, mostram possuir um cariz nacional, sem grandes variações de concelho para concelho. Para garantir uma mobilização semelhante à das legislativas, o próprio partido tem apontado a continuidade entre a escolha dos deputados e dos autarcas, dentro do objetivo de “limpar” o país.

A ausência de sondagens e estudos pós-eleitorais centrados em Odivelas contribui para a incerteza quanto às razões do comportamento da população local na hora de votar. O conhecimento pessoal dos candidatos, embora importante em alguns casos, parece pouco relevante num concelho tão populoso e onde a maioria dos habitantes está longe de acompanhar o trabalho quotidiano das autarquias. A ligação ao território, salientada pela propaganda através da contabilização dos anos que o candidato já leva de residência no município ou freguesia que pretende gerir, é outro critério de valor incerto, tendo em conta o exemplo dos resultados semelhantes obtidos ao serviço do PSD pelo “paraquedista” Fernando Seara e pelo pontinhense Marco Pina em 2017 e 2021, respetivamente. A eleição de 2017 foi curiosa pelo facto do PS ter então valorizado acima de tudo a sua marca de partido à frente dos destinos do município desde a criação deste, procurando compensar o notório desconforto de Hugo Martins na sua estreia como protagonista (o Hugo atual é bem mais confiante e experiente). O sucesso socialista, traduzido numa maioria absoluta na CMO e na conquista inédita de todas as juntas de freguesia, pareceu confirmar o sucesso da estratégia, mas até que ponto terá sido influenciado pelo contexto nacional das eleições onde o PS alcançou o seu melhor resultado autárquico de sempre? Quatro anos depois, Martins renovou o mandato num ambiente algo estagnado, com cerca de 57% de abstenção, no qual o PS beneficiou da “dinâmica da inércia” comum em concelhos dominados há muito pelo mesmo partido, enquanto Pina não capitalizou a notoriedade resultante da sua atividade televisiva. Mais abaixo na tabela, a CDU confirmou um progressivo declínio sem aparente ligação aos diferentes cabeças de lista apresentados, enquanto o Chega, espalhando os seus cartazes venturizados pelas ruas, elegeu um vereador cujo nome, Nuno Beirão, era certamente desconhecido da maioria daqueles que o conduziram ao executivo municipal. Desta forma, a incógnita acerca da importância relativa dos candidatos e das forças partidárias que os apresentam manteve-se e voltará a ser avaliada na análise da votação de 12 de outubro.

 

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(Fonte: Iniciativa Liberal Odivelas)

 

O núcleo odivelense da Iniciativa Liberal, um dos partidos cujos votos são aparentemente mais ideológicos do que gerados pelos rostos do seu projeto, divulgou o programa completo defendido por André Francisco e David Pinheiro, autores de mensagens incluídas no documento de 44 páginas. As propostas mais destacadas pela IL são a entrega dos SIMAR a gestores profissionais, cujo trabalho os autarcas se limitariam a fiscalizar, e a criação de uma Polícia Municipal aquartelada no sul do concelho. O surgimento de uma PM, que aliviaria o trabalho da PSP e permitiria a esta concentrar-se na repressão do crime violento, também tem sido defendido pela AD, com Marco Pina a prever um quadro de 40 agentes municipais, e, sem grande entusiasmo, pelo Chega. Ao responder a previsíveis acusações de incoerência por querer ampliar o Estado local, ainda para mais quando os liberais desejam reduzir os impostos concelhios e veem com tristeza o aumento do número de funcionários da CMO verificado desde 2019, a Iniciativa garante que os efetivos de uma Polícia Municipal de “baixo custo” seriam recrutados apenas entre fiscais já ao serviço da Câmara. Outras ideias da IL admitem uma maior intervenção de privados em áreas como a prestação de serviços a escolas públicas ou a construção de habitação social por “consórcios que integrem o Município de Odivelas” e realojem os moradores afetados pela projetada “demolição de alguns bairros” (o programa não especifica quais). As escassas referências do texto à imigração visam a “plena integração” dos recém-chegados, no quadro do reforço dos “laços comunitários” entre munícipes.

Em finais de agosto, o ritmo da campanha autárquica é ainda pachorrento, embora os motores já aqueçam para o retomar da agenda de eventos públicos em setembro. Enquanto divulga o seu programa a conta-gotas com vídeos temáticos no You Tube, o Chega mantém-se atento às notícias da criminalidade num concelho que Fernando Pedroso quer tornar “mais português”. O PS iniciou a campanha ao realçar a obra feita com outdoors e um vídeo para o qual Hugo Martins foi filmado em dezenas de locais do município a que preside. A AD conta com o esforço propagandístico de Maria Isabel Lemos, mãe de Marco Pina e autora de apelos ao voto no filho realizados em numerosas páginas do Facebook, rede social onde a coligação Odivelas com Futuro, já presente no Instagram, apenas criou uma conta a 30 de agosto. Trata-se de um pequeno detalhe que revela muito quer sobre o lar de idosos de Mark Zuckerberg quer sobre a OCF, cujo público-alvo nunca esteve no Facebook ou migrou para outras redes há muito tempo.

Odivelas 2025: casadas à força

Excetuando os equipamentos do parque infantil e os lugares de estacionamento no espaço que outrora foi um campo de ténis, a Praça Prof. Bento de Jesus Caraça parece ser o exemplo perfeito da estagnação da Pontinha descrita pela CDU. Em 18 de agosto, a coligação apresentou Sandra Benfica, dirigente do MDM e candidata à presidência da União de Freguesias de Pontinha e Famões, num comício no largo próximo do quartel onde esteve instalado o Posto de Comando do MFA. Alguns rapazes que brincavam na praça agitaram bandeiras da CDU antes de se afastarem para se distraírem com outra coisa. No seu discurso, além de homenagear os bombeiros, Benfica enumerou razões legítimas de queixa do eleitorado, apesar de recusar que elas justifiquem o “populismo bacoco” e o discurso anti-imigração, e referiu algumas das propostas da sua lista para a freguesia. De vez em quando, um homem em tronco nu assomava a uma das janelas dos prédios vizinhos e gritava insultos aos comunistas, sem interromper o evento. Como é tradição nos comícios da CDU, a presença anunciada de Rui Francisco, o cabeça de lista à Assembleia Municipal, não se traduziu em nenhuma intervenção (Rui Francisco foi escolhido sobretudo pelo seu sex-appeal). Foi Florentino Serranheira, candidato a presidente da Câmara odivelense, a encerrar o evento com uma breve alocução onde mencionou os problemas sociais de áreas como os bairros do Governo Civil e a necessidade de adaptar as políticas locais ao crescente afluxo de população imigrante. Depois do habitual apelo aos militantes do PCP para que espalhem a boa nova por todo o concelho até 12 de outubro, a Praça Prof. Bento de Jesus Caraça retomou a placidez do final de tarde que, na realidade, nunca perdera.

Antecedendo uma apresentação com os mesmos oradores a ocorrer em Famões no dia seguinte, o evento da Pontinha esteve ligado à luta do PCP pela reversão das fusões de freguesias ocorridas em 2013, causa em que o partido insiste, de acordo com Sandra Benfica, não por “teimosia” mas porque os habitantes do município necessitam dela como de “pão para a boca”. Recorde-se que, aquando do 25 de Abril, o território do atual concelho de Odivelas encontrava-se dividido em apenas três freguesias, Caneças, Odivelas e Póvoa de Santo Adrião, uma organização administrativa que o explosivo crescimento urbano já tornara desadequada. Na década de 80, a mobilização de partidos e populações locais originou a criação das freguesias de Pontinha, Famões, Ramada e Olival Basto. Já no início do século XXI, o PCP defendia novas secessões na sede de concelho, através da autonomização dos bairros de Arroja e Pombais/Patameiras. Contudo, o pêndulo mudou de direção e a “lei Relvas” reduziu as sete freguesias odivelenses para apenas quatro (Odivelas, Ramada/Caneças, Pontinha/Famões e Póvoa de Santo Adrião/Olival Basto). No caso da área que Benfica pretende liderar, abundam nas redes sociais queixas de famoenses e pontinhenses sobre a degradação do espaço público após a fusão. O certo é que, durante o recente processo legislativo de dissolução de várias “uniões de freguesias” criadas no país há 12 anos, PS e PSD não terão manifestado interesse em regressar ao mapa autárquico odivelense pré-2013, deixando os comunistas sozinhos nesse desejo. Porquê? Alguém deveria fazer essa pergunta aos candidatos dos vários partidos.

 

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Também a 18 de agosto, expirou o prazo para a apresentação nos tribunais de candidaturas às eleições autárquicas. As listas completas serão divulgadas a pouco e pouco pelos partidos, mas já se sabe existirem sete candidatos à presidência da CMO: Hugo Martins, Marco Pina, Fernando Pedroso, Florentino Serranheira, André Francisco, Inês Pereira e Carlos Pires. Conhecido apenas no final do prazo, Carlos Alberto Ventura Pires (49 anos, divorciado, morador na Ramada) é o candidato do Volt, que entregou igualmente listas à Assembleia Municipal e às assembleias de freguesia de Odivelas e Ramada/Caneças. O ainda desconhecido programa de Pires deverá realçar a importância do bem-estar animal, uma preocupação partilhada com a coligação Odivelas com Futuro (nome aprovado pelo Tribunal Constitucional num acórdão de 7 de agosto), formada por Livre, Bloco de Esquerda e PAN. Este último encontra-se representado nas candidaturas conjuntas por figuras como Ana Maria Ribeirinho, a deputada municipal de apenas 22 anos que, depois de integrar em nono lugar a lista do PAN pelo círculo de Lisboa nas legislativas de maio, se apresenta agora como candidata a presidente da junta ramadense e canecense.

No meio de tudo isto, há o anedotário, habitual em eleições autárquicas. Uma fotografia da apresentação de Miguel Pinto Luz como mandatário de Marco Pina conheceu grande difusão ao ser notado que o corpo do ministro tapava a primeira palavra do slogan “É por Ti”, colocado abaixo do nome do candidato. Referida na Visão, a frase marota assim criada levou a IL a garantir que “Com a Iniciativa Liberal Odivelas ninguém pina por ti”. Também deu que falar o cartaz do Chega com o lema “Limpar Odivelas”, no qual a letra maiúscula “V” surge graficamente em cima da cabeça de Fernando Pedroso, assemelhando-se a um par de cornos. Outros pormenores similares decerto aparecerão em futuros materiais de propaganda e, sem contribuírem para esclarecer a população, pelo menos darão a Odivelas um lugar nos espaços de “tesourinhos” das eleições que compense a ausência do município nos conteúdos jornalísticos mais sisudos.

 

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Odivelas 2025: na modorra de agosto

Durante o mês de agosto, quando muitos odivelenses passam as férias fora do concelho, a campanha para as eleições autárquicas costuma ficar em banho-maria, esperando por setembro para arrancar de vez. Nas redes sociais, os partidos publicam sobretudo fotos e vídeos da entrega das respetivas listas (no conjunto das autarquias do município, cada força política apresenta mais de 200 candidatos) no tribunal de Loures ou divulgam a conta-gotas as linhas dos seus futuros programas. O Facebook constitui a principal arena do debate político concelhio, se assim podemos chamar-lhe. Ao contrário do lourense Ricardo Leão, que terá contratado uma empresa para administrar o seu perfil, com os resultados que se conhecem, Hugo Martins e Marco Pina gerem pessoalmente as respetivas páginas na mais antiga plataforma da Meta. Enquanto Hugo se esforçou para agradecer a todos os autores das mensagens de apoio enviadas em resposta ao anúncio da sua recandidatura, Marco envolveu-se em várias discussões travadas a propósito dos seus primeiros vídeos de campanha. Críticas e provocações de alguns utilizadores do Facebook levaram o antigo árbitro a escrever comentários como “é por velhos do Restelo como o senhor que a Pontinha parece Beirute!” ou “Odivelas parece um concelho dos subúrbios” (sic). Não viria mal ao mundo se apenas os amigos e familiares de Pina entrassem neste registo, mas há algo de bizarro em ver um possível futuro presidente da Câmara a encarniçar-se contra desconhecidos. Afinal, um vendedor nunca deveria desistir de um eventual cliente, mesmo depois de uma aparente recusa deste. O tom das intervenções pínicas, mais agressivo que em 2021, não augura nada de bom para os próximos dois meses.

Entretanto, surgiram nos jornais diários anúncios noticiando, de acordo com as normas legais, o estabelecimento de uma nova coligação para a disputa das autárquicas odivelenses. Bloco de Esquerda, Livre e PAN uniram-se na frente Odivelas com Futuro (OCF), que será identificada nos boletins de voto com as siglas e símbolos dos três partidos, e entregaram o acordo entre estes no Tribunal Constitucional. De facto, não acontecerá, talvez devido ao mês em que estamos, um evento público de assinatura do pacto semelhante ao ocorrido em Loures. No entanto, tal como no concelho vizinho, o acordo tripartido ditou que o Livre indicaria o candidato à presidência da Câmara, enquanto o Bloco nomearia o cabeça de lista para a eleição da Assembleia Municipal. Deste modo, Inês Pereira é a única mulher disposta a alcançar o gabinete presidencial da Quinta da Memória, ao mesmo tempo que Luís Miguel Santos lidera os candidatos da OCF à AMO. Em declarações à Lusa, Inês Pereira, membro da Comissão Instaladora do núcleo do Livre no concelho de Odivelas, afirmou que o programa eleitoral da coligação terá como prioridade a inclusão social das diferentes “nacionalidades” e “faixas etárias” e lançará novas propostas de “democracia participativa”. Oriunda da academia e do ativismo, Inês diferencia-se do perfil habitual dos candidatos a autarcas e, na sua página do Instagram, já falou abertamente sobre a doença mental crónica (POC ou TOC) que a afeta.

 

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(Fonte da imagem: Inês Pereira)

 

Ao juntarem-se para participarem nas eleições de 12 de outubro, os partidos integrados na OCF possuem maiores hipóteses de obterem mandatos do que se concorressem sozinhos. No entanto, permanece incerta a fasquia atingível pela coligação, dada a dificuldade em transpor os resultados das últimas legislativas para as autárquicas. A sensação de novidade que, apesar de ter nascido em 2014, o Livre ainda transmite e a relativa originalidade das propostas da área política da OCF, misturadas com o apelo à participação da comunidade, poderão atrair alguns jovens habitualmente indiferentes aos sufrágios locais. Por outro lado, a frente de esquerda lida com uma óbvia escassez de meios para difundir a sua mensagem e não dispõe de grande currículo autárquico para lá das ideias apresentadas na Assembleia Municipal pelos deputados do BE e do PAN. Seja como for, o aparecimento de uma nova força representa uma alteração relevante nos equilíbrios políticos odivelenses. Teoricamente, os partidos da oposição concentrar-se-iam na crítica à gestão do incumbente sem competirem entre si, mas a ordem em que surgirão na contagem de votos e mandatos está longe de ser indiferente. Por exemplo, seria uma clara humilhação para os comunistas se a OCF ultrapassasse a CDU. À direita, a fragmentação do voto poderá colocar em risco um dos três vereadores atribuídos ao PSD no atual executivo da Câmara. Na hipótese de PS ou AD vencerem sem maioria absoluta, a composição dos órgãos municipais influenciará soluções pós-eleitorais de governo, enquanto o domínio socialista ao nível das freguesias será talvez substituído por cenários mais instáveis e heterogéneos.

Para já, contudo, o pensamento da maioria dos cidadãos de Odivelas está longe da ida às urnas no início do Outono. Até lá, teremos as sucessivas fases das arruadas, das visitas a associações, das stories e dos vídeos, dos cartazes junto às estações de metro, da distribuição de panfletos nas feiras, das juventudes partidárias com bandeiras, das revistas com o balanço do último mandato do PS, dos folhetos com dezenas de caras, das promessas tão diferentes e tão semelhantes. Escassearão ou permanecerão ausentes debates, sondagens, entrevistas, artigos de opinião, escrutínio do passado e do presente. Nas autárquicas, ouve-se em Odivelas um imenso ruído no meio de um imenso silêncio. Haverá alguma mudança desta vez?